O que é certo é que pela terceira vez ainda os dois irmãos tentaram

murmurar contra a resolução do pae e pediram para que--em ultima

experiencia--fosse proclamado rei aquelle cuja mulher saltasse pelo meio

de uma argola suspensa a meio da sala. E propondo isto accrescentaram:

--As camponezas facilmente saltarão, são bastante fortes para estes

exercicios; quanto a essa arveloa, fraca e delicada, cae e parte a cabeça.

Muito instado, o rei cedeu a esse capricho que começou.

As duas camponezas foram as primeiras a saltar, mas, pezadas e gordas

como eram, caíram, partindo braços e pernas. Ao contrario, a moça

trazida pelo mais novo formou salto tão elegante, que atravessou

graciosa e rapidamente a argola e caiu em pé.

Ante esta ultima experiencia ficou decididamente reconhecido como

herdeiro ao throno.

Effectivamente, assim que o velho monarcha fechou os olhos, foi

acclamado rei e ainda agora se fala da sabedoria com que n'esse paiz

governou.

O violinista

Em epochas muito longinquas, o povo de uma grande capital--cujo nome nos

não occorre--erigiu um lindo templo dedicado á padroeira dos

musicos--Sancta Cecilia, segundo a tradição.

Eram das côres mais vivas e vistosas as flôres escolhidas para cobrir o

altar, a roupagem da sancta toda em prata filigranada e os sapatos

executados em ouro, pelo mais habil ourives-cinzelador que vivia n'essa

cidade. A egreja estava sempre replecta de devotos e peregrinos. Em

romagem, entrou lá certo dia um infeliz violinista, macillento,

esquálido e franzino. Como a caminhada fôra longa, o pobre estava

fatigado e no seu alforge já não havia uma migalha de pão nem na sua

algibeira um ceitil para o comprar.

Apenas entrou no templo, principiou a dar uns acordes de violino tão

suaves, tão expressivos, tão melodiosos, que a sancta enterneceu-se

tanto com a sua pobreza e com aquella musica maviosa, que--ao elle

findar--se baixou, descalçou um dos sapatos de ouro e deu-o ao infeliz

menestrel, que, doidamente alegre, bailando, cantando e chorando, ao

mesmo tempo, se encaminhou para uma ourivesaria com o fim de o trocar

por dinheiro.

O joalheiro, porêm, conhecendo o sapato como sendo o da sancta, prendeu

o violinista, levando-o ao juiz. Formaram processo, foi julgado e

condemnado á pena ultima.

Approximára-se o dia da execução; os sinos tocavam plangentemente, e o

triste cortejo pôz-se em marcha, acompanhado a canticos dos frades que,

apezar d'isso, não deixavam de ouvir-se os lindos acórdes que o infeliz

condemnado tirava do seu maravilhoso violino; era uma ultima concessão

que lhe havia sido dada, até soar o derradeiro instante. O cortejo parou

mesmo defronte do templo da sancta e, assim que alli chegou, o pobre

musico supplicou que o conduzissem ao altar da sancta, afim de tocar o

seu ultimo acorde melodioso.

Os frades e os chefes dos soldados que o escoltavam, concederam-lhe essa

graça, e o violinista entrou, ajoelhou-se aos pés da padroeira dos

musicos e, com os olhos marejados de lagrimas, principiou a tirar

deliciosos acórdes do seu violino.

O povo, então, attonito e admirado, notou que Sancta Cecilia se

baixava, descalçava o outro sapato e o mettia nas mãos do pobre musico.

A este maravilhoso espectaculo, todos os circumstantes levaram em

triumpho o violinista, puzeram-lhe na cabeça uma corôa entrecida de

flôres, e os magistrados dirigiram-lhe as mais solemnes e as mais

honrosas homenagens.

Indice

Carta-prefacio

O violino maravilhoso

João no auge da alegria

Pelle d'urso

Aventuras de João-Pequenino

Os tres cabellos d'oiro do Diabo

O sapateiro e os gnomos

As tres pennas

O violinista

Perolas e Diamantes: Contos Infantis · 第 3 / 3 段