Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; es

Irmãos Grimm

PEROLAS E DIAMANTES

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

SOCIEDADE EDITORA

LIVRARIA MODERNA

RUA AUGUSTA, 95

LISBOA-MDCCCCVIII

PEROLAS E DIAMANTES

VOLUMES PUBLICADOS

DA

BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS

A 200 réis br. e 300 enc.

I--_Contos de Fadas._

II--_Novos Contos de Fadas._

III--_Terceiro Livro de Contos de Fadas._

IV--_Historias da Carochinha._

V--_Historias phantasticas (Aventuras do Barão de Münchhausen)._

VI--_Céu Azul._

VII--_Contos Côr de Rosa._

VIII--_Palhetas de Oiro._

IX--_Lendas ao Luar._

X--_Perolas e diamantes._

NO PRÉLO

XI--_Contos do Natal._

EM PREPARAÇÃO

XII--_Escrinio de joias._

BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS

X

IRMÃOS GRIMM

Perolas e Diamantes

CONTOS INFANTIS

COLLIGIDOS POR

HENRIQUE MARQUES JUNIOR

LISBOA

LIVRARIA MODERNA

Rua Augusta, 95

1908

_A meu irmão Paulo consagro estes simples contos infantis, cujo encanto

mais tarde avaliará._

HENRIQUE

XVI-IX-CMVII.

_Carta-prefacio_

_... Sr. Henrique Marques Junior._

Pede-me V. algumas palavras para acompanhar o decimo volumesinho da sua

encantadora bibliotéca infantil; e eu, abrindo uma excéção aos meus

hábitos, de bom grado lhe envio o que deseja para abrir as suas

«_Perolas e diamantes_.»

E digo abro uma excéção, porque até hoje me tenho sistematicamente

recusado a prologar livros alheios, assim como para os meus jámais tenho

pedido prologos a outros camaradas. Mas isto não quer dizer que V.

tenha andado mal fazendo-o, pelo contrario tem feito muito bem em vista

do assunto de que se trata e das pessôas autorisadas que tem chamado a

depôr no tribunal da opinião publica. Isto porque a questão pedagogica,

a que se liga a litteratura infantil, tem tantos controvertores que

sobre ella ainda não se póde, com segurança, dogmatisar preceitos e

sistemas.

Muitos pedagogistas, e eu estou com elles, estimam a literatura infantil

muito variada e imaginosa e aceitam como util o conto tradicional, o

conto fantastico, emfim.

Entre muitas razões que para isso apontam é o prazer excécional que

esses contos despertam na criança, e vêr que com elles, mais do que com

outros, se desperta e desenvolve no espirito infantil o gosto da leitura.

Outras, pessôas gradas e ponderadas que desejam educar as crianças

como quem cria flores perfeitas para determinados resultados já

previstos pela sciencia, protestam contra a fantasia e querem só a

_verdade_...

Como se nós podessemos explicar a um pequenino espirito que se

entre-abre á luz o que é uma geleira, uma borboleta, um trasatlantico

sem o auxilio de fantasia!

Comprehenderá a criança melhor que um homem possa descer ao fundo glauco

das ondas revestido d'um escafandro do que vá aos infernos buscar o

cabello de ouro do diabo?...

Para ellas tudo são surpresas, tudo maravilhas.

Acrescentando ainda que os contos educativos e moraes para o serem,

igualmente são fantasiados e para a maior parte das crianças é tão

longiqua, tão extraordinaria uma viagem á Suissa ou á Italia, como

uma passeata dada com as _botas de sete leguas_ do gigante.

Por mais que se queira, não é possivel fugir á fantasia, que é afinal a

parte intelectual e superior da vida; o ponto está em que se canalise

devidamente a atenção e o gosto infantil e se lhe vá anotando o que de

impossivel se conta para os entreter.

Os psicólogos estão muito enganados; não são os contos fantasticos que

desenvolvem as imaginações desvairadas: a criança logo que começa a

raciocinar sabe muito bem discernir até onde chega o possivel e onde se

entra no limite do impossivel. Tem até graça uma observação que tenho

feito entre as crianças do meu conhecimento--e não são poucas as que

tenho estudado--a criança mais fantasista, mais imaginosa, mais creadora

de sonhos de acordado, é a que menos lê, a que menos se interessa pelas

criações alheias. As ponderadas, as serenas, as positivas, aceitam

esse acepipe como um prazer do espirito e não desvairam com elle.

Veja-se e compare-se a riqueza fabulosa das literaturas infantis das

raças frias do norte, em comparação com as das raças latinas.

Veja-se como lá a fantasia se expande livremente e como são familiares a

toda a gente os contos e fabulas tradicionaes.

Por cá abusa-se do sentimentalismo como se fosse qualidade que désse

mais condições de resistencia ao ser humano.

E... para terminar, que o espaço é pouco, dir-lhe hei que considero bem

o incluir a serie graciosa que acaba de enfeixar sob o sugestivo titulo

de «_Perolas e diamantes_,» verdadeiras joias preciosas do escrinio

magnifico dos mestres suprêmos que foram, no genero, os irmãos Grimm.

Não esquecerei nunca o deslumbramento, o encanto que senti ao lêr,

pela primeira vez, estes contos, e a anciedade com que acompanhei o

_homem-urso_ na sua dolorida peregrinação enfeudado ao diabo... desejava

falar n'esta pequenina collecção destacando um por um dos seus lindos

episodios, mas... tenho que cinjir-me ao pequeno espaço que me é dado.

Termino, pois, dizendo-lhe: em nome das crianças portuguêzas agradeço o

cuidado que tem tido em lhes escolher lindos contos para seu prazer, e

em nome das mães pedindo-lhe que não desanime na empreza.

A literatura portuguêza é ainda pobre, apezar do que ultimamente se tem

feito; precisamos mais e mais...

As crianças tudo merecem, ellas que nos lêem com tanto enthusiasmo e tão

sinceramente nos estimam.

Creia-me

_Anna de Castro Osorio._

Setubal, 16-3-908.

O violino maravilhoso

Era uma vez um homem muito rico, mas muito avarento, que tinha como

creado um rapaz honesto e activo, como não haverá muitos; todas as

manhans o moço se erguia ao romper da alva e só se deitava ao ultimo

cantar do gallo.

Quando havia algum trabalho mais penoso, ante o qual todos recuavam, o

rapaz fazia-o, contente, satisfeito e sem sombra de azedume.

Logo que acabou o primeiro anno de permanencia em casa do avarento, que

não estipulára soldada, não recebeu um ceitil de paga, pensando de

si para si que o moço, não tendo dinheiro, não se tentaria com outra

collocacão. O rapaz calou-se e continuou a trabalhar como d'antes; ao

cabo de dois annos, o avarento nada deu e o rapaz permaneceu no seu

mutismo.

Ao fim do terceiro anno, o rico, espicaçado pela consciencia, metteu a

mão ao bolso para remunerar o fiel creado, mas, raciocinando,

arrependeu-se e tirou a mão vasia. O rapaz exclamou então:

--Patrão servi-o tres annos o melhor que me foi possivel; agora quero

vêr mundo e por isso peço que me pague as soldadas que me deve.

--Tens razão--respondeu o rico avarento--fiquei sempre muito satisfeito

com o teu trabalho e a tua boa-vontade, e por isso vou remunerar-te como

mereces. Aqui tens tres escudos novos; é um por cada anno que me serviste.

O rapaz, que andava sempre alegre e que era d'uma grande

simplicidade no que respeitava a dinheiro, julgou ter recebido uma

fortuna que lhe permittiria viver vida folgada por largos annos.

Disse adeus ao antigo patrão e foi-se embora, atravessando montes e

valles, cantando, saltando e alegre que nem um passarinho.

Ao acercar-se d'um monte, viu sair um velhinho muito corcovado que lhe

gritou:

--Olé companheiro, não pareces levar em conta de pesares a tua vida?!

--Que ganho eu em me apoquentar?--retorquiu o moço--Tenho na algibeira a

soldada de tres annos de trabalho.

--E a quanto monta essa fortuna?

--A tres escudos novinhos, muito luzidios. Olha, sentel-os trincolejar,

quando lhes toco com as mãos?

--Ora ouve cá--tornou o gnomo, de bom coração como se vae vêr. Eu

estou muito velhinho, e forças para trabalhar já não tenho; tu, que és

novo e forte, estás ainda em bom tempo de ganhares a vida.

O rapaz, que era de boa indole, apiedou-se do velho gnomo e fez-lhe

presente dos tres preciosos escudos que tanto prazer lhe davam.

--Como és esmoler--expressou-se então o genio bom em figura de

gnomo--dou-te licença para que me peças tres cousas que são a paga dos

teus tres escudos.

--Então, pois sim!--fez o rapaz incredulamente--Isto que tu queres fazer

é só do dominio das phantasias para entreter creanças. Mas, emfim,

sempre quero experimentar. Desejo então: uma espingarda que acerte logo

no que eu alveje; um violino que tenha a virtude de forçar a bailar

todos quantos me oiçam; e, finalmente, que toda e qualquer pessoa me

conceda, sem mais a quellas, a graça que eu pedir.

--És modesto no pedir--retrucou o gnomo que, curvando-se, tirou do monte

uma espingarda, e um bonito violino que se podia metter na algibeira.

Aqui tens--continuou o gnomo ao dar-lh'os--e fica sciente de que serás

servido sempre na primeira graça que solicitares.

O rapaz, jovialissimo, continuou a sua róta. Depois de caminhar um

boccado deparou-se-lhe um judeu, muito feio, com barbas de chibo muito

compridas e que estava absorto a ouvir o canto de uma avesinha.

--É extraordinario que um animal de tão pequeno talhe possua um trinado

tão cheio. Quanto não daria eu para o ter engaiolado!

--Posso satisfazer o teu desejo--disse o rapaz que tinha ouvido as

ultimas palavras, e apontando a espingarda ao passarinho este caiu

atordoado em cima dos espinhos.

--Vá lá, seu maroto, vá lá buscar o passarinho.

--Tractas-me com crueldade--respondeu o judeu--mas não deixo de

agradecer-te e vou apanhar a avesinha.

Em seguida metteu-se pelos espinhos custando-lhe a abrir caminho. De

subito o rapaz teve uma estupenda lembrança: principiou a dar arcadas no

violino. Logo o judeu ergueu as pernas e começou a saltar, a pular, a

torcer-se todo, ficando preso nos espinhos dos ramos, em que se achava e

que lhe espicaçavam a cara, arrancando-lhe as barbas; ficou com o

vestuario todo rasgado e a cara a escorrer sangue.

--Ai, ai!--lastimava-se o infeliz judeu--Socega, aquieta-te, não toques

mais n'esse amaldiçoado instrumento; aqui não é logar proprio para baile!

O azougado moço não fazia caso do pedido pensando com os seus botões:

--Este rabino esfolou tanto infeliz em quanto poude, que é justo que

seja esfolado agora!

E de novo tomou o violino tirando accordes mais ligeiros. O pobre judeu,

forçado a acompanhar o compasso, pulava e saltava; a cara cada vez

estava mais ensanguentada, o fato desfazia-se em farrapos e o pobre

velho gemia de dôr. A subitas gritava:

--Apieda-te de mim, pelas barbas de Abrahão, que em paga te darei uma

bolsa cheia de dinheiro que trago commigo.

--Alegras-me tanto com essa boa-nova que vou guardar o dinheiro. Antes,

porém, quero dar-te os meus parabens pela maneira graciosa e original

por que danças! É uma perfeição!

O judeu então, entregando-lhe a bolsa que promettêra, suspirou immenso,

emquanto que o alegre moço continuou a andar, cantando. Quando já o não

avistou, o rabino, não podendo conter o seu rancor, exclamou:

--Musico das duzias, estás a contas commigo. Grande marau! Has de

pagar-me a partida mais cara do que ossos!

Tendo com essa fala dado vasão ao seu odio, seguiu por atalhos e

alcançou a cidade mais proxima antes que o rapaz apparecesse. Uma vez

lá, foi queixar-se ao juiz n'estes termos:

--Venho aqui pedir justiça, senhor, para um maroto que me atacou

maltractou e roubou o que eu trazia. A prova de que não minto é olhar-me

a maneira porque vem o fato e a minha cara. Forçou-me a dar-lhe a bolsa

que trazia cem moedas d'ouro, que eram todo o meu peculio, as economias

que consegui com o meu trabalho, o unico bem que possuia. Faça todo o

possivel para que esse thesouro me seja restituido.

--Foi com alguma arma que o gatuno te pôz assim?--perguntou a autoridade.

--Nada, não senhor. Agarrou-me e agatanhou-me. É ainda moço, e traz uma

espingarda e um violino; com estes dados facilmente se conhece.

O magistrado pôz em campo os guardas, que depressa viram o indigitado

marau, que muito tranquilamente se encaminhou para essa localidade.

Deram-lhe voz de prisão e trouxeram-n'o ante o magistrado e o judeu, que

repetiu a accusação.

--Não toquei n'essa creatura nem com um dedo--defendeu-se o rapaz--assim

como não lhe tirei á força o dinheiro que elle trazia; offereceu-me da

melhor vontade para que eu não tocasse mais no violino, cujos accordes o

faziam nervoso!

--É mentira!--exclamou o rabino--Está a mentir impunemente!

--Está resolvida a questão?--ajuntou o magistrado--pois é caso

extraordinario um judeu dar de mão beijada uma bolsa com ouro, só por

não ouvir um boccado de musica. Pois senhor: a sentença do seu mau acto

está lavrada: vae ser enforcado immediatamente!

O verdugo--que se havia ido chamar, segurou o innocente moço, conduziu-o

á forca, que já estava erguida na praça principal onde accorreu toda a

cidade em pezo, e o rabino fôra o primeiro a mostrar-se fazendo menção

de soccar o pobre condemnado, verberando:

--Marau, vaes ter a recompensa que te é devida!

O moço conservou-se muito tranquillo; subiu sosinho a escada appoiada á

forca; ao chegar ao topo, virou-se para o juiz já togado, que viera

vistoriar o patibulo e solicitou-lhe:

--Antes de ter o nó na garganta, concede-me um derradeiro favor?

--Concedo--respondeu o magistrado--desde o momento em que não seja o

perdão!

--Nada d'isso é, pois não sou tão exigente... desejava apenas tirar uns

ligeiros accordes do violino!

Ao ouvir taes palavras, o rabino deu um estridente grito de susto e

pediu encarecidamente ao juiz que não consentisse!

--Qual a razão porque não hei de conceder a graça que este homem me

pediu, se é a unica alegria que por instantes posso dar-lhe? Tragam-lhe

o violino.

--Ai, meu Deus!--lamentou o rabino ao querer fugir, mas sem que lhe

fosse possivel abrir caminho pela compacta massa de povo que enchia a

praça.

--Dou-lhe uma peça d'ouro--prometteu elle no auge da aflicção--se me

amarrar com força ao pau da forca!

N'esse instante, porém, o rapaz deu o primeiro toque no violino. O

magistrado, o escrivão, o beleguim, os guardas, emfim tudo o que

compunha o corpo da magistratura da terra, os circumstantes, o proprio

judeu, tiveram um estremecimento; ao segundo toque, todos ergueram as

pernas, o proprio verdugo desceu a escada e collocou-se em pé de dança.

O moço então--ao vêl-os n'aquella pouco parlamentar attitude--tocou o

mais possivel, e agora os vereis: o povo fazia cabriolas; o juiz e o

judeu saltavam como que movidos por molas; rapazinhos, velhos, magros,

gordos, tudo dançava; se até os cães se erguiam nas patas de traz e

dançavam como todos! O condemnado deu uns accordes mais fortes e n'essa

occasião era inexplicavel o movimento: pareciam possessos de algum

espirito ruim, batendo com as cabeças umas nas outras, pizando-se,

acotovellando-se, atropellando-se. Gemiam com dores, e o magistrado,

afflicto, fatigadissimo, pediu:

--Não toques mais que eu perdôo-te! Foi o que o moço quiz ouvir, visto

que, concordando que o gracejo fôra longo, parou e guardou o violino no

bolso, desceu os degraus e veiu postar-se em frente do rabino que,

esfalfado, extenuado exhausto, se sentára na rua, respirando a custo.

--Agora és tu quem vaes confessar a proveniencia da bolsa que me déste,

com peças d'ouro. Não mintas, de contrario pego novamente no violino e

tornas a dançar uma farandola!--taes as palavras que o rapaz dirigiu ao

judeu, que confessou terrificado:

--Roubei-a, roubei-a, tu tiveste jus a ella pela tua honestidade;

dei-t'a para que não tocasses mais no violino!

Apparecendo o juiz, já um pouco refeito do cançasso, inqueriu do que

se havia passado e provando-se á evidencia que tinha havido roubo,

mandou enforcar o rabino.

João no auge da alegria

Era uma vez um rapaz que dava pelo nome de João e que esteve a servir

durante sete annos n'um logarejo de provincia. Ao cabo d'esse tempo,

despediu-se do patrão e disse-lhe:

--Patrão, terminou o meu tempo de serviço para que fôra chamado, mas,

desejando regressar para casa de minha mãe, precisava que me pagasse o

meu salario.

--Como fôste sempre fiel e honesto--respondeu o patrão--mereces boa

paga; e, pronunciando estas palavras, deu-lhe uma barra quase tão

grande como a cabeça do seu antigo creado.

João tirou o lenço da algibeira, embrulhou n'elle a barra, pôl-a aos

hombros e metteu pernas a caminho em direitura á casa da mãe. Andando

sempre, ainda que custando-lhe a andar, por causa do peso do fardo, viu

passar a seu lado um viandante trotando satisfeito n'um bonito e fogoso

corcel.

--Que bom ha de ser andar a cavallo!--exclamou João em tom

alto.--Aquelle homem vae alli commodamente sentado, não dá topadas nas

pedras, não estraga as botas e anda sem que dê por isso.

--Mas olha lá, ó rapaz--respondeu o viandante que lhe ouvia a

exclamativa--porque é que vaes a pé?

--Porque assim me é necessario--tornou João--Levo uma trouxa muito

pesada que tem de ir para casa; é ouro, é certo, mas pesa-me como

chumbo e quasi me custa levantar o pescoço!

--Queres tu entrar n'uma combinação commigo?

--Queres tu entrar n'uma combinação commigo?--aventurou o cavalleiro,

que fizera estacar o animal--Faze troca: eu cedo-te o meu bonito

cavallo dando-me tu a barra d'ouro!

--Com o maximo prazer! Advirto-o, porêm, de que o carrego é pesado!

O viandante depressa se desmontou do ginete, ajudou João a montar-se e

em seguida tomou a barra, dizendo ao ingenuo moço, emquanto lhe dava as

guias:

--Assim que desejes andar tão veloz como o vento, basta dares um

estalido com a lingua e gritares: upa, upa!

João ficou louco de contente, apenas se viu escarranchado no cavallo, e

partiu a rapido galope. Ao fim de certo tempo, lembrou-se d'ir mais

depressa ainda, e, dando um estalido com a lingua, incitou: upa upa! O

animal, comprehendendo a indicação, largou n'uma corrida desenfreada,

dando grandes upas e taes foram elles que o alegre João, não podendo

suster-se no dorso do animal, caiu estatelado no meio da estrada,

quasi á beira d'um poço. O cavallo continuou a correr, mas um aldeão que

vinha em sentido inverso, trazendo uma vacca, agarrou-o pela redea e

assim o levou para juncto de João que, levantando-se, estava a vêr se

havia soffrido algum desastre com o trambulhão.

--Olha que asneira, montar a cavallo! Arrisca-se a gente a deparar um

animal como este que nos atira de pernas ao ar! Nunca mais caio n'outra.

Agradeço o seu favor, mas não me fale no cavallo; se fosse uma vaquinha,

isso então era outro cantar; basta levál-a deante de si, com certo

geitinho; e não é só isso: dá tambem o leite com que se faz a manteiga e

o queijo que nos sustenta. Que não faria eu para assim possuir um animal!

--Se faz n'isso muito empenho--alvitrou o aldeão eu não ponho duvida

em a trocar pelo seu cavallo.

João açambarcou logo a ideia, cheio de satisfação; o aldeão montou o

animal e depressa se eclipsou.

João tocou a vacca, que ia na sua frente muito devagar, emquanto ia

magicando nas vantagens da troca que acabára de fazer:

--Desde o momento em que me não falte uma fatia de pão, e com certeza

não será isso o que me ha de faltar, posso, quando a fome me aperte,

comer manteiga ou queijo, se tiver seccuras, munjo a vacca, e bebo um

excellente leite. Que mais podes ambicionar, ó Janeco?

Ao acercar-se d'um albergue, parou e querendo possuir alimento para

sempre, deu cabo de toda a comida e gastou os derradeiros escudos n'uma

cerveja. De seguida, tornou a pôr-se a caminho da casa precedido pela

pachorrenta vacca.

O sol estava a pino e escaldava o rapaz e João, encontrando-se n'um

sitio desarborizado, sentiu tanta sêde que se lembrou de beber leite;

para esse fim, amarrou a vacca a uma sebe e, descarapuçando-se, começou

a mungir o animalejo, mas por mais esforços que empregasse não conseguiu

uma gottinha de leite. Como era leigo no assumpto, magoou a vacca que,

com a dôr, lhe deu um coice que atirou longe João, que com a dôr desmaiou.

Por felicidade, acercou-se um homem que levava, n'um carrinho de mão, um

porco ainda pequeno.

--Que diabo foi isso?--perguntou o homensinho, ajudando-o a pôr em pé.

João narrou-lhe o succedido; o homem do porco offereceu-lhe a borracha,

dizendo-lhe:

--Ande, beba-lhe um gole para o pôr firme! E quer saber? A vacca está

velha; boa apenas para puxar a uma carroça ou então para ir para o

matadouro. Por esse motivo não é para admirar que lhe não conseguisse

tirar leite.

--Oh co'a breca!--exclamou João, arranjando o cabello que se havia

emmaranhado com a queda--Quem o diria! O que é verdade é que,

matando-se, a vacca ainda alimenta muita gente, mas como acho a carne

pouco saborosa, não me servia. Agora se fosse um porquito! Isso era ouro

sobre azul! Eu então que sou doido por chispe com feijão branco e

chouriço de sangue!

--Ah, sim?!--lembrou o homem--Então tome lá o porco em troca da vacca!

--Deus o ajude!--acceitou João dando a vacca; puxou o porco pela corda

que o segurava no carrinho.

Á medida que ia andando, ia pensando, que tudo lhe corria em maré de

rosas; mal tinha uma contrariedade e logo lhe desappareceu. N'isto dá de

rosto com um rapazinho que levava debaixo do braço um gordo pato.

Deram-se os bons dias e começaram de conversa. João narrou os seus

feitos, gabando-se da sua ventura; em compensação, o rapazito disse que

o pato era uma encommenda para um baptisado que tinha logar na

proxima localidade.

--Tome-lhe o peso--aconselhou o rapazelho, agarrando o pato pelas

azas--Pesa bem, não é assim?! Não é caso para espantos, pois ha mais de

dois mezes que foi para a engorda. Quem o cosinhar póde gabar-se de

apanhar uma excellente enxundia!

--E é verdade que sim!--appoiou o nosso João--Está gordo que é uma

belleza! Comtudo, o meu porquinho tambem não está mau!

O rapazito calou-se, mas não fazia outra coisa senão olhar para um lado

e para o outro inquieto; em seguida, meneando a cabeça, disse:

--Quer saber uma cousa? Roubaram não ha muitas horas um porco a uma das

auctoridades da terra por onde eu agora fiz caminho. Está-me cá a

parecer que é esse mesmo, sim, quasi que ia jurar! Que mau boccado lhe

fariam passar se o vissem com elle. O menos que lhe faziam era

mettêl-o n'uma enxovia muito escura!

João, muito assustado, exclamou:

--O meu amigo é que me póde valer n'estes apuros! Desde que conhece os

cantos á villa, nada mais facil que occultál-o; dê-me o pato que lhe

cedo por troca o porco.

--Corro grave risco com a transacção--hesitou o moço--mas para o livrar

das mãos da justiça, acceito-a!

Agarrou a corda e, puxando pelo porco, depressa se esgueirou por um atalho.

O nosso heroe, descuidado e alegre, continuou a andar, raciocinando:

--Fazendo bem as contas, eu ainda ganho com a troca: a carne do pato é

muito saborosa e com as pennas faço uma almofada.

Depois de haver transposto a derradeira localidade antes de chegar á sua

aldeia natal, notou um amolador parado com a sua roda que fazia

girar cantando.

João estacou e ficou a olhar para o que o homem estava fazendo; em

seguida, dirigiu-lhe a palavra.

--Pela sua alegria se vê que tudo lhe corre no melhor dos mundos possiveis!

--Certamente, todo o officio é ouro em fio, um bom amolador anda sempre

endinheirado. Onde comprou esse bello pato?

--Comprar não comprei... foi uma troca que fiz! troquei-o por um porco.

--E o porco?

--Foi em troca d'uma vacca!

--E a vacca?

--Trocada por um cavallo!

--E o cavallo?

--Por uma bola d'ouro do tamanho da minha cabeça!

--E esse ouro?

--Foi a paga que recebi de sete annos de serviço!

--Sim, senhor!--exclamou o amolador--Não se perde! Se não mudar de

tactica ainda ha de junctar muito dinheiro.

--Parece que sim!--retorquiu João--Que hei de agora fazer para o conseguir?

--Faça-se amolador. É-lhe necessaria apenas uma pedra de amolar... o

resto depois vem com o andar dos tempos. Tenho aqui uma; já está um

pouco gasta, mas para lh'a vender não, troco-a pelo pato. Convem-lhe?

--Se convêm!--acceitou logo João--Se succeder, como diz, que nunca me ha

de faltar dinheiro, serei um rei pequeno, sem cuidados, sem ralações e

sem trabalho!

Entregou em seguida o pato ao amolador, que lhe deu uma pedra de amolar

e uma outra que apanhára do chão.

--Olhe--disse para o heroe do conto--aqui tem mais uma; esta é

magnifica para fabricar uma bigorna e endireitar pregos. Tome sentido

n'ella.

João tomou as duas pedras e lá se foi muito contente, com os olhos

brilhando de alegria.

--Nasci dentro de algum folle com certeza; pensou de si para si--tenho

sorte em tudo!

Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; estava com

fome, mas nada tinha com que a matar, por ter comido todo o farnel

quando da troca da vacca. Custou-lhe a andar e volta e meia tinha que

parar para descançar; as pedras faziam-lhe muito pezo e disse com os

seus botões que era bem bom que não as levasse, pois que lhe impediam

andar mais ligeiro. Arrastando-se conforme pôde, chegou proximo de uma

fonte ficando contente por encontrar com que molhar as guellas e crear

alento para a caminhada.

Não querendo estragar as pedras, pôl-as no rebordo da fonte e curvou-se

para encher o barrete da limpida agua que corria da bica; mas,

tocando-lhes sem dar por isso, as pedras rebolaram e caíram com grande

ruido dentro d'agua.

João, assim que as viu desapparecer, saltou de contentamento e,

ajoelhando-se, agradeceu a Deus, com os olhos marejados, a mercê que lhe

havia feito de o livrar d'aquelle peso.

--Era esta a unica cousa que me incommodava! Não creio que haja rapaz

mais feliz do que eu!

E de coração ao largo, não possuindo mais cousa alguma, pôz novamente

pernas a caminho e só parou quando topou com a porta de casa de sua mãe.

Pelle d'urso

Em epochas bastante afastadas houve um rapazito que sentou praça e desde

então mostrou heroicidade, sendo o primeiro a avançar ao chover das

balas. Emquanto durou a guerra, tudo lhe correu ás mil maravilhas; mas

assim que se assignaram as pazes, o nosso soldado recebeu a soldada que

lhe cumpria e o commandante da columna, a que o mancebo pertencia,

disse-lhe que fosse para onde lhe aprouvesse, pois no regimento já não

era preciso. Os paes haviam morrido, e o infeliz, n'estas condições, não

tinha patria. Não sabendo a quem recorrer, foi ter com os irmãos

pedir-lhes albergue emquanto não havia novo rompimento de hostilidades.

Ora, como os irmãos eram muito ruins responderam-lhe:

--Em que poderemos empregar-te? Em nada nos poderias ser util! Tracta de

te arrumar algures.

Ao pobre soldado só ficára a espingarda; pôl-a ao hombro, e resolveu

correr mundo. Depressa chegou a uma charneca, onde vegetava um numero de

arvores muito limitado. Sentou-se cabisbaixo á sombra e começou a

matutar na triste situação a que se via reduzido.

--Estou sem dinheiro--pensou--só conheço o officio das armas, e agora

que estão feitas as pazes, este officio de nada me póde servir, e o meu

fim é morrer de fome.

De repente, ouviu um ruido; voltou-se e viu, defronte de si, um

desconhecido, com um casaco verde; estava vestido com esmero, mas

tinha pés-de cabra.

--Eu sei o que te falta--disse-lhe o estranho

personagem--Conceder-te-hei tantas riquezas quantas queiras, mas é

necessario que não sejas medroso, pois n'esse caso não estou para tentar

fortuna.

--Soldado e medo são cousas que não se casam--respondeu o rapaz--Podes

tentar.

--N'esse caso, olha para traz!--tornou o diabo feito homem.

O soldado olhou e viu um enorme urso que avançava para elle urrando.

--Ah! elle é isso?! Espera lá que já te vaes calar de vez!--e o soldado

assim falando apontou e fez fogo tão certeiro que a bala entrou no

focinho do pesado animal que caiu redondo, sem um gemido.

--Está provado que não te falta coragem! Falta ainda outra condição para

o contracto.

--Desde o momento em que não seja cousa alguma contraria á minha saude,

estou disposto a tudo o que quizeres.

--A condição é esta: durante sete annos não te lavarás, nem farás a

barba, nem te pentearás, nem cortarás as unhas e, por ultimo, nem

resarás. Se te agrada a proposta, dou-te um fato e um manto que não

tirarás senão ao cabo d'esses sete annos. Se morreres entretanto, cairás

em meu poder; se, pelo contrario, viveres muito tempo, conquistarás a

liberdade e serás rico o resto de teus dias.

O soldado reflectiu no perigo que corria, mas, como varias vezes havia

affrontado a morte, decidiu-se a arriscar a vida na empreza, e acceitou

o alvitre. O diabo despiu o casaco verde, que fez vestir ao soldado,

accrescentando:

--Desde que vistas este casaco não te ha de faltar dinheiro; mette a

mão na algibeira e verás que te não minto.

Dicto isto tirou a pelle ao urso morto e presenteou com ella o soldado a

quem disse:

--Este é que é o teu manto; servir-te-ha de cama, porque não te é

permittido deitar-te sob lençoes. Como consequencia d'este nosso

contracto todos te chamarão _Pelle d'urso_.

Ao terminar a indicação, o demo sumiu-se.

O soldado vestiu o casaco, metteu a mão á algibeira e achou o que o

estupendo personagem lhe dissera; em seguida, envolvendo-se na pelle

d'urso, pôz-se a caminho, mostrando-se sempre e em toda a parte bondoso

e esmoler. O primeiro anno correu bem, mas ao segundo anno já era um

monstro; o cabello tapava-lhe os olhos completamente; a barba parecia um

grosseiro boccado de feltro; os dedos afuselavam-se em garras e o

rosto estava tão sujo que se houvesse semeado n'elle qualquer planta,

esta não deixaria de se desenvolver. A sua presença afugentava toda a

gente; como, porêm, por todos os logares em que passava, elle distribuia

esmolas aos pobres, pedindo-lhes que orassem por elle, afim de que não

morresse antes de sete annos, e como usava pagar depressa e bem, nunca

ficára ao relento, e tinha sempre quem lhe désse dormida.

No meiado do quarto anno, chegou a uma estalagem, mas o estalajadeiro

recusou-se a dar-lhe gasalhado; este homem nem mesmo consentiu que o

estranho hospede fosse dormir para a estrebaria, receoso de que a

presença de similhante exemplar da especie humana lhe espantasse os

cavallos. Comtudo _Pelle d'urso_ metteu a mão na algibeira, tirando um

punhado de dinheiro, e o estalajadeiro á vista do diabolico iman

curvou-se á imperiosa ambição e consentiu que o estranho viandante

ficasse n'um pessimo quarto interior, e ainda sob condição de que não se

mostraria a pessoa alguma, temendo sempre que a casa, por aquelle dever

de hospitalidade, perdesse os créditos.

Emquanto _Pelle d'urso_, sentado sósinho no humilde casinholo, pensava

tristemente na lentidão dos annos que ainda tinha a passar sob aquelles

medonhos trajes, ouviu queixumes e suspiros que partiam d'um quarto

proximo. Como era dotado de bom coração--e sem se lembrar do pedido do

hospedeiro--abriu a porta e viu um velho que chorava a bom chorar e que,

dolorosamente, punha as mãos na cabeça. _Pelle d'urso_ acercou-se do

companheiro de estalagem que se ergueu subitamente querendo fugir. Ao

ouvir, porêm, a voz da estranha creatura, serenou, e a sua conversa

amavel fêl-o animar a confiar-lhe as maguas que o affligiam. Os seus

recursos iam diminuindo a olhos vistos; as filhas e elle estavam

sujeitos a soffrer as maiores privações, e tão pobre era que não podia

pagar hospedagem ao estalajadeiro, razão pela qual o iam prender.

--Se outro não é o vosso cuidado, consolae-vos--disse _Pelle d'urso_ ao

ouvir a narrativa do velho--A mim não me falta dinheiro.

Chamou o estalajadeiro e pagou-lhe tudo o que o velho lhe devia,

entregando a este uma bolsa recheadinha d'ouro.

Quando o velho se viu tão facilmente livre de apoquentações, não teve

palavras para exprimir o seu grande reconhecimento; ao cabo de algum

tempo, disse a _Pelle d'urso_:

--Siga-me; as tres filhas que possuo são perfeitas maravilhas de belleza;

auctorizo-o a escolher uma para mulher. Assim que souberem da boa-acção que

practicou em meu favor, serão as primeiras a acceder ao meu desejo.

Realmente, o seu aspecto é exquisito e pouco attrahente, mas a que escolher

saberá disfarçar a primeira impressão que é, decerto, desagradavel.

A proposta agradou a _Pelle d'urso_, que de muito boamente acompanhou o

velho. Apezar de afastados de casa, a primeira filha ao vêl-o fugiu,

transida de medo, aos gritos. A segunda--valha a verdade--não fugiu

senão depois de o ter bem examinado dos pés á cabeça.

--Como posso eu acceitar por marido um ser que não tem aspecto humano?

Marido por marido, então antes preferia o urso pardo que ultimamente se

exhibiu pelas ruas, que dava ares de homem, vestindo um rico manto e de

luvas calçadas! Era feio, mas facilmente me habituaria a vêl-o.

Quando coube a vez da mais novinha esta disse:

--Meu pae, este homem deve ter um bom coração, pois que duvida alguma

teve em livral-o de apuros; se, para lhe provar a gratidão de que está

possuido para com elle, lhe prometteu noiva, não se dirá que a sua

palavra se não cumpre.

Que alegria não transpareceria no rosto do pobre soldado, se não

estivesse tão velado pelo cabello! O seu coração rejubilou ao ouvir as

boas palavras da linda moça! Tirou do dedo um annel que trazia, partiu-o

em duas metades e deu uma das partes á rapariga, tendo antes d'isso o

cuidado de escrever o nome na parte que deu á promettida e o d'ella na

metade com que ficou. Feito isto, despediu-se dos seus novos

conhecimentos, dizendo-lhes:

--Tenho ainda de correr mundo durante tres annos; se voltar ao cabo

d'esse tempo casamos; se não tornar, a sua palavra está desligada do

compromisso, pois é prova segura de que morri; rogue a Deus para que me

conserve a vida.

A infeliz namorada vestiu-se toda de negro, e sempre que se lembrava do

seu promettido as lagrimas corriam-lhe abundantes. As irmans não se

cançavam de a motejar e escarnecer.

--Acautela-te ao extenderes-lhe a mão, não vá elle dar-te a

pata!--dizia-lhe a mais velha.

--Sê prudente, pois os ursos são traiçoeiros, e ainda que lhe

agradasses, póde muito bem ser que depois te devore!--fazia côro a

segunda irman.

--Tens de fazer-lhe todas as vontades, senão dá urros!--tornava a primeira.

E accrescentava a do meio:

--Sim, sim... e olha que a cerimonia deve ser bem divertida, pois os

ursos dançam alegremente.

A pobre creatura conservava-se alheia aos motejos que lhe não faziam

diminuir o sentimento que nutria pelo bemfeitor de seu pae. Entretanto

_Pelle d'urso_, percorrendo varios logares, continuava practicando o bem

e semeando dinheiro a rôdo em esmolas, na esperança de que os mendigos

rogariam por elle. Chegou finalmente o ultimo dia dos sete annos de

caminheiro.

Tomou o caminho da charneca e foi sentar-se no mesmo sitio em que se

havia sentado sete annos antes. Pouco tempo esteve só, pois que,

segundos depois, sentiu soprar o vento e viu na sua frente o diabo

olhando-o tristemente; em seguida restituiu ao viandante o seu antigo

traje, recebendo em troca o casaco verde que lhe cedêra.

--Não te apresses--disse _Pelle d'urso_--primeiro tens que me arranjar

convenientemente.

Se a lembrança agradou ou não ao demo é cousa que não podemos averiguar,

mas o que é certo é que, com vontade ou sem ella, não teve outro remedio

senão ir buscar agua, lavar _Pelle d'urso_, cortar-lhe o cabello e as

unhas, penteál-o e fazer-lhe a barba. Limpo e arranjado, _Pelle d'urso_

voltou ao seu aspecto de soldado valente; nunca fôra tão formoso.

Assim que se viu livre do diabolico personagem de uma vez para sempre, o

heroe do nosso conto sentiu-se leve que nem uma penna. Rapido se

encaminhou para uma povoação proxima, comprou uma andaina de velludo,

sentou-se n'uma elegante carruagem puxada a duas parelhas de cavallos

brancos, e deu ordem ao cocheiro para se dirigir a casa da noiva. Pessoa

alguma o reconheceu; e o futuro sogro, imaginando-o um alto personagem,

fêl-o entrar para o gabinete em que permaneciam as filhas.

Convidou-o a sentar-se entre as mais velhas que tiveram o cuidado de

offerecer-lhe vinhos generosos, doces dos mais finos, emfim fizeram tudo

o que puderam para lhe agradar, e dizendo em segredo, entre si, que

nunca tinham contemplado personagem tão perfeito. Comtudo a noiva,

coberta de lucto, permanecia sentada defronte d'elle; não erguia os

olhos nem dizia palavra. Por fim, o desconhecido--para nós bem

conhecido--pedindo ao velho se consentia ser esposo de uma das filhas,

as duas mais velhas levantaram se como se mola as impellisse, e foram

paramentar-se com os mais ricos vestidos que possuiam, pois qualquer

d'ellas estava crente de que era sobre si que incidia a escolha do

desconhecido personagem. Ora, este apenas se viu só com a futura, tirou

da algibeira metade do annel que conservara preciosamente, metteu-a

n'um calice que encheu de vinho generoso, apresentando-o á fiel menina

que o acceitou e, depois de o beber, notou no fundo a metade do annel;

sentiu pulsar o seu coração; tomou a outra metade que trazia pendente de

um collar que lhe envolvia o pescoço, approximou as duas e viu que se

ajustavam perfeitamente. Por então o rapaz disse:

--Sou o teu noivo, o noivo que ha tres annos viste coberto com uma pelle

d'urso, mas graças a Deus recobrei a minha fórma primitiva.

Ao concluir, apertou-a nos braços, e beijou-a na testa. N'essa occasião,

entraram as duas irmans muito tafulas nos seus vestidos, e ao verem que

o personagem já estava compromettido com a mais moça, é que se lembraram

de que não podia ser outro senão _Pelle d'urso_, de quem tão pouco

haviam feito. Ficaram tão corridas de vergonha e de invejoso ciume

que fugiram do gabinete: uma deitou-se a um poço, e a outra enforcou-se

na primeira arvore que encontrou.

Á noite bateram á porta; o noivo foi abril-a e reconheceu pelo casaco

verde o diabo que lhe disse:

--Fiquei sem a tua alma, é certo, mas em compensação appareceram-me duas!

Aventuras de João-Pequenino

No tempo em que Deus andava pelo mundo, estava um pobre lavrador

aquecendo-se á lareira emquanto se lastimava á mulher, que perto d'elle

fiava, desgostoso por não ser contemplado com filhos.

--Que socego--accrescentou--vae n'esta casa emquanto que em outras então

tanto barulho ha causado pela alegria e pelos risos da pequenada!

--Tens razão--appoiou a mulher, suspirando.--Oxalá tivéssemos um só,

embora tão pequenino que quasi se não visse. Isso me bastaria para

nos alegrar e querer-lhe iamos de todo o coração.

A boa mulher, alguns dias passados, principiou a andar doente, e ao cabo

de sete mezes foi mãe d'um menino tão bem formado que se disséra de todo

o tempo, mas muito pequenino. Ao vêl-o, a mãe não se conteve que não

dissesse:

--É exactamente como nós o haviamos desejado; não deixa, apezar de mais

pequeno do que um dedal, de ser o nosso filhinho.

Por via d'isso toda a parentella lhe ficou chamando João-Pequenino.

Crearam-n'o tão bem quanto puderam; não cresceu mais, ficando sempre do

mesmo tamanho em que nascêra. Era muito vivo, muito esperto; e tinha uns

olhitos muito brilhantes; e bem cedo mostrou o tino e actividade

sufficientes para levar a bom-effeito qualquer empreza a que se

abalançasse.

O camponez, certo dia, apromptava-se para ir cortar madeira á matta

visinha e disse para comsigo:

--Bem precisava eu de quem me conduzisse a carroça.

--Pae--gritou João-Pequenino--eu guio a carroça, se quer; não se assuste

que chegará a tempo.

O homem desatou a rir:

--Isso é impossivel! Se és tão pequenino, como has de segurar a redea ao

cavallo?

--Isso não faz ao caso, pae! Se a mãe vae atrellar o cavallo, eu

metto-me na orelha do cavallo e ensino-lhe o caminho a seguir.

--Pois então, experimentemos.

A boa da mãe metteu o cavallo á carroça, e introduziu João-Pequenino na

orelha do animal; e o João-ninguem gritava todo o caminho: Vá, cavallo!

mas tão distinctamente que o animal andava como se na realidade o

guiasse algum carroceiro; d'esta maneira chegou a carroça á matta,

indo pelos melhores caminhos.

No momento em que a carroça torneava uma sebe, e se ouvia a voz do

rapazinho: vá, cavallo! passaram dois individuos desconhecidos que

exclamaram estupefactos:

--É celebre! Uma carroça que anda á voz de um carroceiro que não se vê!

--Alguma cousa ha de extraordinario; sigamos o vehiculo para vêr onde pára!

Continuou a carroça no caminho que levava até parar no sitio onde havia

arvores caídas. Assim que João-Pequenino avistou o pae, gritou:

--Então, pae, guiei ou não guiei a carroça? Agora põe-me no chão.

O lenhador, segurando com uma das mãos a redea, serviu-se da outra para

tirar de dentro da orelha do cavallo o rapazito a quem pôz no chão; o

rapazinho sentou-se n'um feto.

Os dois desconhecidos, ao vêrem João-Pequenino, não sabiam que imaginar,

de tal maneira ficaram extacticos com o rarissimo phenomeno. Falaram em

segredo e resolveram:

--Este exemplar póde trazer-nos uma fortuna, se quizermos expôl-o a

troco de alguns cobres em qualquer povoação; não será mau comprál-o.

Em seguida encaminharam-se para o camponez, e propuzeram-lhe:

--Quer vender-nos esse anãosinho sob a condição que cuidaremos muito

d'elle?

--Não,--respondeu o interrogado--é meu filho e por dinheiro algum eu me

desfaria d'elle.

João-Pequenino, porêm, que percebêra e ouvira bem toda a conversa,

trepou pelas pernas do pae á altura do hombro e segredou-lhe:

--Pae, acceite a proposta, que eu em breve estarei de volta.

Ante esse conselho de João-Pequenino, o pae cedeu-o aos homens por uma

valiosa moeda de ouro.

--Onde queres tu collocál-o?--perguntaram entre si.

--Ora, ponham-me na aba do chapéu; assim posso vêr tudo quanto se passa

em volta de mim e não ha meio de me perderem--alvitrou João-Pequenino,

accrescentando:--Mas, cuidado, não me deixem cair.

Os homens assim fizeram; João-Pequenino despediu-se do pae, e foram-se

embora com o rapazinho. Fartáram-se de caminhar até ao cair da tarde;

n'essa occasião o boccadinho de gente gritou-lhes:

--Parem, que preciso de descer!

--Deixa-te estar no meu chapéu; não estejas com cerimonias, porque os

passarinhos tambem me fazem isso muita vez!

--Não, não quero!--insistiu João-Pequenino--ponham-me depressa no chão.

O homem pegou no João-ninguem e pôl-o no chão n'um relvado á

beira-estrada; João-Pequenino depressa alcançou umas moutas e de repente

encafuou-se n'uma toca de rato que buscára de propósito.

--Boa viagem, meus senhores, continuem o caminho sem a minha

companhia--lhes gritou, rindo. Quizeram agarrál-o, fazendo cócegas na

toca de rato com palhinhas--como é de uso fazer-se aos grillos, mas

perderam o tempo e o feitio, pois que João-Pequenino cada vez se mettia

mais para dentro da toca, e a noite visinhava-se, de modo que foram

obrigados a ir para casa, fulos e com as mãos a abanar.

Quando já iam longe, João-Pequenino saiu do improvisado esconderijo.

Arreceou-se de seguir viagem á noite, por meio de campos, porque partir

uma perna não é difficil. Felizmente avistou uma cavidade no topo de uma

arvore, exclamando:

--Louvado Deus, já tenho casa para dormir.

Quando ia a pegar no somno, ouviu a voz de tres homens que abancaram por

baixo da arvore, ceando e conversando:

--Como havemos de proceder para roubar a esse rico parocho toda a sua

fortuna?

--Eu lhes digo!--dirigiu-se lhes a voz invisivel.

--Quem está ahi?!--gritou um dos ladrões verdadeiramente

aterrorizado--Ouvi uma voz!

Calaram-se para escutar, quando João-Pequenino se tornou a ouvir:

--Tomem-me á sua conta, que eu os ajudarei n'essa _piedosa_ tarefa.

--Onde é que estás?

--Procurem na arvore, no sitio d'onde parte a voz.

Os ladrões encontraram-n'o por fim e exclamaram:

--Pedaço de gente, como é que tu nos pódes ser util!

--Ora, de um modo bem facil: metto-me pelas grades da janella que ha no

quarto do parocho e vou-lhes passando tudo o que quizerem.

--Pois bem, seja!--accederam os ladrões--Vamos á experiencia!

Assim que chegaram ao presbyterio, João-Pequenino introduziu-se no

quarto, e em seguida começou a gritar com toda a força dos pulmões:

--Querem tudo o que está aqui?

Os ladrões amedrontados disseram-lhe:

--Fala mais baixo que acordas toda a gente!

João-Pequenino fazendo ouvidos de mercador, cada vez gritava mais:

--O que é que vocês querem? É tudo isto?

A creada, que dormia no quarto pegado áquelle em que o heroe da

historieta se encontrava, ouviu este ruido, levantou-se da cama e pôz-se

de ouvido á escuta; os malfeitores haviam desapparecido, mas

cobrando animo e, suppondo que o rapazito só os queria amedrontar por

mera brincadeira, voltaram á carga, e disseram-lhe devagarinho:

--Tem mais tento: passa-nos alguma cousa, anda! João-Pequenino, se

gritava até então, agora quasi que berrava:

--Vou dar-lhes já tudo; aparem as mãos!

D'esta feita, a creada ouviu tudo perfeitamente; saltou da cama e correu

para a porta. Os gatunos ao presentirem gente deram ás de villa Diogo,

como se o Diabo lhes tivesse dado azas; a creada, não ouvindo mais cousa

alguma, foi accender uma candeia. Quando appareceu, João-Pequenino, sem

que ella o tivesse enxergado, foi esconder-se no palheiro. A creada,

depois de ter pesquizado todos os cantos á casa sem que nada visse,

tornou a deitar-se, suppondo que tudo o que ouvira fôra sonho.

João-Pequenino tinha-se aninhado no feno, onde arranjára uma boa caminha

em que contava dormir até manhan, indo em seguida para casa dos paes que

a essa hora deviam estar em sobresaltos. Não pararam porém, aqui as

aventuras d'este ratão; havia de passar ainda por bem maus boccados. A

creada ergueu-se ao luzir do buraco para dar ração ao gado. A primeira

cousa que fez foi ir ao palheiro buscar forragem, d'onde tomou uma

braçada de feno com o infeliz João-Pequenino lá mettido muito ferrado no

somno. E tão bem dormia que não deu por cousa alguma e quando despertou

viu-se na bocca de uma vacca, que o enguliu com um boccado de feno. A

primeira impressão que sentiu foi a de se julgar caido num moinho de

pisoeiro; mas depressa comprehendeu onde é que realmente estava.

Evitando o metter-se por entre os dentes, deixou-se escorregar pela

garganta até ao estomago. O compartimento em que se encontrou

parecia-lhe estreito, sem janella, e onde não havia sol, nem luz, nem

sequer candeia! A casa em que morava desagradava-lhe bastante, e o que

mais complicava a sua critica situação, era a quantidade de feno que lá

se armazenava, estreitando mais ainda o pouco espaço em que se continha.

Por fim, não podendo mais suster-se do terror que d'elle se apossára,

João-Pequenino gritou o mais que poude:

--Basta de feno, basta de feno que eu não posso mais... abafo!

A moça do parocho, que n'esse momento estava precisamente a mungir a vacca,

ao ouvir a voz sem que visse quem falava, mas que reconhecia pela que a

tinha acordado durante a noite, assustou-se tanto que saltou do banco em

que estava sentada, entornando o leite. Foi de caminho, a toda a pressa

chamar o parocho para lhe dizer:

--Senhor cura, a vacca fala!

--Tu ensandeceste, rapariga?--tornou o padre, emquanto que

despreoccupadamente se dirigia para o estabulo, para se certificar do

que ouvira.

Não tinha ainda o parocho franqueado o portal quando João-Pequenino

gritou de novo:

--Basta de feno... que eu atabafo!

O terror apoderou-se então do padre, que suppondo a vacca enfeitiçada,

ou que tinha o diabo mettido no corpo, disse que era preciso dar cabo

d'ella. Abateram-n'a, e o estomago, onde o pobre João-Pequenino se via

prisioneiro, foi lançado para o estrume.

O rapazito viu-se em pancas para se desenvencilhar do mal-cheiroso sitio

em que se conservava, e apenas conseguiu ter a cabeça desembaraçada,

uma nova desgraça o veiu ferir, uma aventura inesperada. Um lobo

esfaimado atirou-se ao estomago da vacca, e, chamando-lhe um figo,

enguliu-o d'uma assentada. João-Pequenino não descoroçoou.

--Talvez--pensou com os seus botões--este lobo seja sociavel.

E de dentro da barriga, em que estava novamente preso, gritou-lhe:

--Bom lobo, vou ensinar-te o sitio onde ha uma excellente prêsa.

--E onde fica isso?--perguntou o lobo.

--N'esta e n'aquella casa; pouco trabalho tens: basta-te deslizar pelo

exgotto da cosinha; ahi encontrarás bons boccados, como toucinho,

chouriço á discreção; que mais queres? E olha que te não levo nada pelo

conselho!

E assim o experto João-Pequenino lhe deu os signaes certos da casa do

pae.

O lobo não quiz ouvir mais, nem se fez rogado, nem se quer foi preciso

dar-lhe o recado mais d'uma vez; metteu-se pela cosinha e comeu á

tripa-fôrra. Quando, porêm, quiz sair, foi-lhe impossivel. Tirou o

ventre de miserias, de tal maneira que não houve meio de passar pelo

cano. João-Pequenino--que tudo previra começou a fazer um grande barulho

no corpo do lobo, aos pulos e em altos gritos; o lobo pedia-lhe:

--Vê lá se estás quieto! Tu assim acordas meio mundo!

--Deixa-me cá... Tu comeste até que te regalaste; agora sou eu que me

divirto a meu modo!--e continuou a gritar tanto quanto podia.

Acabou por accordar a familia, que veiu pressurosa olhar para a cosinha

pelo buraco da fechadura. O pae e a mãe ao verem que estava alli um

lobo, armaram-se: o pae com um machado e a mulher com uma fouce.

Perolas e Diamantes: Contos Infantis · 第 1 / 3 段