Mas, deixemos o rumo de taes considerações que, indevidamente, é de uso

considerar politicas, e que, ao acaso, nos occorreram, a proposito

dalgumas paginas do _Saibam quantos..._ ultimo passo na vida de Fialho,

e ainda á conta da sua velha lida de pamphletario.

Finalmente, pois que, por esta obra, chegamos ao termo da sua jornada de

agitador, resta-nos, ao presente, e logicamente, insistir no mais da

sua melhor canseira--isto a proposito, não só dalguns trechos já

marcados, como ainda doutros, onde mais intencionalmente se deu a urdir

obra de Arte pela Arte.

Assim visto, este será, em nosso entender, o Fialho definitivo, cujo

elogio desde já promettemos levar a cabo quasi sem rasuras criticas, ou

seja sem restricções, no capitulo a seguir...

IV

O ARTISTA

FIGURAS NOTAVEIS DA SUA GALERIA. INTUITOS E SUPERIORES FATALIDADES DO

SEU TEMPERAMENTO. UMA GRANDE E ADMIRAVEL REVOLUÇÃO ESTHETICA. A SUA OBRA.

[IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]

Nenhum outro documento mais interessante, se bem que mais difficil de

ler, do que o primeiro livro dum Artista.

Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia

do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.

Ora essa difficuldade eu senti ao ler os _Contos_ de Fialho, quer pela

exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo

tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.

Exemplificando.

Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua

observação, e em parte de phantasia,--_A Ruiva._

Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar

uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome.

Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou,

mais propriamente, de exquisitas telas.

Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um

painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela

penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e

almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente

intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções

dalguns auctores da Andaluzia,--isto a averiguar da impressão das suas

manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi

toda a sua galeria de excelsas e de sinistros!

Assim, a _Ruiva_, principal figura do conto em analyse, é uma especie de

hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á

casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!

É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila

Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos

adolescentes, quasi possuindo-os.

Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que

Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina

de amante de formas mortas!

A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo

aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua

experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...

Para o caso, ella é a alcoveta que vende a _Ruiva_ a um rapazola, o

João, um precoce torpe, typo de bambino operario, official de

marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.

É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae

encontrar, pela ultima vez, na _morgue_, depois que a acabaram os maus

tratos do marido.

E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos

os tresnoitados pelos portaes e escadas.

Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (a _Ruiva_),

primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares,

vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao

hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!

O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para

impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á maneira

romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.

É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de

Antonio Pedro no _Hamlet_, acaso transportado á taberna do _Pescada_,

onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!

Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em

1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista,

com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura,

aliaz nada casual--a _Ruiva_, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro,

sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um

despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por

capricho, se dera a extrahir uma novella...

Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser--a biographia

da filha do coveiro--do que a primeira galeria de figuras da sua maneira

extranha de pintar, e onde a _Ruiva_ acaso surge como que sombreada

daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já

da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus

monges!

E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu

original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o

melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a

hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens;

a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de

traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto

do seu trabalho; a paixão de certas figuras, como de certos logares;

a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos,

como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando,

autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais

intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de

ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas

qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor,

exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a

Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente

avesso, se não inimigo de todo o methodo;--e, entretanto, sempre elle,

comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e

imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando

de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando a vida do

verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;--e tudo como quem

empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e

sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes

academicos!

Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por

firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das

suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu

destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a

avaliar das suas creações.

Effectivamente, bem errada e mesquinhamente trabalham os que se dão a

encaixar a vida num preceito!

Pois que esta é, de si, infinita, recurso algum, por minimo, deve

escapar ao seu apercebimento.

Ora este cuidado tinha Fialho bem affecto da sensibilidade, cuja ancia

de representação, jámais deixou de archivar tudo quanto a vida real ou a

phantazia lhe importavam, embora, ás vezes, á doida,--fosse numa pagina,

ou numa simples linha.

Assim, naquelle mesmo volume--_(Contos)_, ha um capitulo, _Os dois

Primos_, em que apparece a sombra de Albertina, uma actriz, e que vale

menos pela belleza real da sua figurinha de exigua, que pela sua

presença artificializada de quasi-dahlia--ao acaso cahida num palco de

Lisboa, onde elle, o Artista, a surprehende, á luz da sua _toilette_, á

qual, por fim, de todo, attribue o successo feliz da sua linha de

_cocotte_!

Este ainda um exemplo do seu occultismo de Arte,--do seu segredo e

poder de imprevisto.

Tambem a mesma graça quasi infantil, de tratar a phantasia a que deu o

nome de _Chavena da China_, como todos os seus objectos e figurinhas do

mais delicado relevo, usa elle já no conto--_Os dois patifes_, do mesmo

volume, ao escrever ácerca de dois gatitos, verdadeiras porcellanas

vivas e mexidas, e de cujas correrias elle logrou a deliciosa

tragicomedia do arrasamento duma cidade de cartão, prenda de annos do

pequeno Arthur.

Lê-se dum folgo a linda historia, como essa outra--_Ninho d'Aguia_, de

que, por egual, o Artista tira o partido, já notavel, do seu engenho de

considerar figuras suaves e innocentes, e em que, tambem, as pobres aves

do conto são tratadas como barros vivos, a que sempre alligou

carinhos que jámais o vimos dispender no capitulo humano da sua Obra.

E propositadamente nos referimos a estas suas pequeninas obras primas,

menos por feriar-nos da historia magoante dos seus nevroticos--figuras

quasi-anjos, ao lado de mulheres e bambinos quasi-flores--do que por

mostrar as delicadezas da sua Arte, tão sinceramente desegual, quanto,

por vezes, exhaustiva, á conta de certas insistencias e mal escolhidos

episodios.

Comtudo, verdadeiramente grande é só mais tarde, quando, muito para alem

daquelle livro, sae a moldar do seu genio adulto, então notavel de

extremos recursos, a vida monstruosa dos grandes e desafortunados typos

do seu fabulario. Reportamo-nos ao tempo da _Madona do Campo Santo_,

do _Anão_, da monographia-_Manuel_ e principalmente dos _Pobres_.

E, pois que mal poderiamos concluir do seu grande poder de plasticizar

da Imaginação, sem nos referirmos a estas obras, tratemo-las, embora

passageiramente, menos para as ver que para as apontar.

O _Manuel_ é, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria de

_Nocturnos_. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de

si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da

propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais

inquietante ella tem:--o indefinido da sua universalidade dolorosa e

reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um

espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus medos, como

dos seus sonhos,--dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia

surdir:--no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar

caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.

Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra

figura de _Manuel_, ainda por melhor a esclarecer.

Primeiramente a creança:

--«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes,

os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com

demoras sentimentaes em certas inflexões--amando a solidão e as musicas

plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como

no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel

prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com

extravagancias de mimo e _enfant gaté_.»

Mais:--«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões

quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de

todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer

inquietações aos proprios padres.»

Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro

como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias

extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de

insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita,

cujo mysterio desorienta,--por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado

por tudo o que faz soffrer.»

Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama de _Manuel_, que já

daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem

de especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi

fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.

Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas

grandes azas de anjo bohemio...

_Manuel_ chega a Lisboa quando--diz o Artista--«a bem dizer já ninguem

esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel

phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas

attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais

artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico,

por fugir ao molde burguez da outra gente.»

Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a

preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,--o que lhe

reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do

seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua

«mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu

genio,--de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos»

«maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.

Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobre _Manuel_, no

papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja

da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem

sequer tem torpeza propria;--depois vivendo o expediente dos

sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a

intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.

Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia--aquella

«_tragedia dum homem de genio obscuro_», que Fialho extrae da sua

caprichosa maneira de reagir, tal como devia sahir-lhe, lavrada de

ironias--como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o

Artista dá o nome de--«_Esculptura_ em fragmentos» pois que «dos seus

avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma

grande estatua...»

Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com

extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente, _boutades_ e dôr

inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de

Arte,--trechos formidaveis, como certas passagens da «_Noite de Alcacer

Kebir_», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro

encontramos outras, ainda na obra de Fialho.

E, entretanto, não é a Arte de _Manuel_ o que mais interessa da sua

biographia.

O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais

que de encontro ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no

intimo de si proprio!

Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a

primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de

adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se,

determinando-se, sobretudo, na vida de collegio--na sua reclusão de

Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe

«como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os

instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo

morbido que, effectivamente, chega a realizar.

Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo,

do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,--como

a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á qual se dá, sem que

alguma vez se interrogue.

Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas

exigencias, entrega-se á embriaguez.

Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus

delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais

nitida á sua sensacional expectação.

Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia»

que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu

tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com

sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»

«De resto na sua esthetica, como na sua vida, sobresaltos de louco!»

Depois dum maior exgottamento de vida nervosa, adoeceu gravemente, e

tão gravemente, informa o Escriptor, que não era difficil «marcar

na sua intelligencia o accesso vesperal da sua ennublação».

A partir deste momento deu-se a errar...

A sua enfermidade era como que uma obsessão de si proprio, sempre alerta

contra o _outro_, isto é, contra aquelle que a sua duplicidade mental

dava como presente aos seus menores actos--e lhe embaraçava tudo o que

deliberasse!

Novos dias e elle cada vez mais doente, erratico, somnambulo, com a

paixão do alcool e o susto de tudo.

Certa madrugada accordou horrorizado com a idéa de que o estavam a

enterrar vivo e o desejo «de que o deixassem apodrecer fóra da cova»...

A partir deste dia a sua vida torna-se pavorosa; é a creatura sem rumo,

equilibrando-se, ao justo, no acaso geral do arranjo commum.

É, sobretudo, como expoente de vontade que o homem vale; ora elle

perdera absolutamente a vontade, mantendo-se como que, provisoriamente,

a dentro do seu corpo, ao tempo já desconjunctado de fantochino, e que

lhe sobrevivia por milagre, como num assomo de quasi extravagante apego

pelo que fôra...

O resto adivinha-se:--é a convulsão das ultimas horas; são restos de

sonho; os derradeiros phantasmas, nos seus derradeiros dias; é elle

gritando a sua agonia doida, numa casa de saude, a pelejar a morte, como

se, de minuto a minuto, lhe rompessem cordões nervosos; finalmente elle

ainda, mas com a vida a fugir-lhe e como que afilando-se-lhe até

perder-se na noite rehabilitante da sua podridão...

E, entretanto, a sua historia não acaba ahi!

Como noutro logar affirmamos, ha, para alem da sua vida de symbolo,

o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo»,

se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do

que o seu proprio revelador,--o Artista que, na alludida monographia,

sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte de _Manuel_ como se a

espreitasse em si proprio!

Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico

dentro da extravagante «_Tragedia de um homem de genio obscuro_», por

ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.

De facto, qual a figura que surde para alem da mascara de _Manuel_?

É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor,

embora transfigurado da sua Arte:--isto é o artista «_violento e

contradictorio_» que dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente

«_presciente do raro em arte_», com o mais extranho «_senso pictoral de

certos aspectos sociaes_», de par do maior «_poder amplificador dos

grotescos_»; o artista, a um tempo «_fragmentario e dispersivo_»; o

transfigurador; a creatura perdida «_em assumpções de genio_» e logo

baixada dos «_fulgurantes cimos da intelligencia_», como que distrahido

por casos minimos; o «_de filiação hysteriça e infancia convulsiva,

terrivel no amor como no odio_», o «mystico» e necrographo, de «_vontade

frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da

sociedade e escriptores lançados_»--o emotivo, emfim, que no _Manuel_

não faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria

figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas

attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores da morte, de

par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava

irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]

Por isso, tambem, ao deixar o quarto, do _outro_, agonisante, elle põe

na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo

do seu pensamento intimo:--«O ideal seria que a alma delle não morresse,

e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo

insubmisso»!

Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:--não acabar! Em

ultima analyse:--o seu drama em duas palavras[3].

Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario

capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular

ainda por compor a figura que nelle foi--se não tivessemos de incluir um

tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.

Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas

que fecham a tragedia, em parte verdadeira, de _Manuel_--e que tambem,

de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.

De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso

da acção e, no quarto do moribundo, apresenta silenciosas,--duas

esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro de

_Manuel_, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!

A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os

recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios,

como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.

A segunda, e mais notavel das duas figuras, é aquella que o Artista

designa na folha-cartaz da monographia por--_essa mulher de negro!_

«É, segundo informa, quasi velha, com um vestido negro e uma gollilha

bordada, em grandes bicos. Sobre as orelhas ha já cabellos brancos, tem

a pallidez macerada duma santa, as mãos reaes, queixo voluntario...

Emtanto essa rigidez guarda uma boca pura de creança, e sae dessa

magua, uma obra prima de martyrio.»

«Tóco, narra, por fim, as mãos do agonisante, um marmore molhado. Está a

amanhecer lá fóra, e os cinzentos azues dessa madrugada de inverno

entram no quarto, com albescencias funeraes que me espantam. Pelas

quatro horas Pratas que lhe sustinha o pulso, dá de repente um grito: é

o momento: e o velho erguendo-se, em vez de correr ao filho morto, é

contra nós que parece crescer, rigidamente...»

Eis o final do drama!

Mas quem é aquella _mulher de negro_?

Eis o que mal nos diz. O que della se sabe é unicamente que fôra uma

rara figura de dedicação, envelhecendo no sonho de ser noiva do bohemio,

que lhe escrevia, e elle amara vagamente...

De momento, aponta-a o Artista como um regelo de amor, acaso um

symbolo assomado ali ainda por enscenar as ultimas horas do bohemio.

Derivando, no exame das suas obras primas, ás paginas que, dentre as

citadas, maior contraste offerecem com aquella monographia,

encontramo-nos com o seu admiravel conto,--o _Anão_.

Este demonstra, alem de tudo, de par da mais frisante extravagancia

imaginativa, o seu grande poder caricatural.

Trata-se duma ligeira farça que o auctor compõe, mais que dos

personagens, das suas situações.

Por outro lado, o drama é um jogo de riso, em cujo taboleiro Fialho

incluiu uma pedra dolorosa--o Carrasquinho, o _Anão_...

Este é uma figura minima, minuscula a ponto de se perder na copa

dum chapeo de pello, e no bolso da madrinha quando do seu casamento; é

um quasi monstro de fabula, entre humano e herbivoro, de «focinho

aguçado e movel, mascando sempre, com as bosseladuras da testa de

tendencias conicas para chibato, sensivel e espantadiço aos rumores

dispersos do campo, a quem os bodes reconheciam um ar de familia, e por

quem as cabrinhas amorosamente se roçavam» quando elle, o pobre

cabreiro, se misturava com ellas no redil.

Casou com a Rosa «um cavallão da mais desmedida estatura, que a mãe

trouxera vinte e sete mezes no ventre e levára seis dias a expulsar!»

O Anão dansava o fandango e era videiro. De principio tudo lhe foi bem;

a boda correra-lhe alegre, bem folgada, depois da qual o manageiro de

Torres, o Jacinthinho, se installou por metade de cada dia em casa

da Rosa.

Esta a desgraça! Quando o _Anão_ chega a mulher bate-lhe e o manageiro

obriga-o a dansar...

A seis mezes do casamento a Rosa dá-lhe um rapagão, forte como «um boi

bravo».

Tudo no conto são confrontos e confusões de animaes armados...

O Anão, cada vez mais chibato, lá vae vivendo, ora em casa, ora entre os

sementões, sempre lamentando-se, na sua «voz balada», até que um dia,

tendo-o a mulher enfaixado (por confusão com o filho) e conduzido á

missa, lá o povileo toma-o pelo proprio diabo, e logo um devoto bebado o

arremessa da torre abaixo, e era uma vez o pobre Carrasquinho,

esborrachado contra as lages sepulcraes do adro!...

Tal o esqueleto da historia que o genio do humorista vae depois

folhando das situações mais ridiculas, e que, de tal arte, lhe decorre

viva, hilariante pelo imprevisto e desproporcionado dos personagens, e

em que o pobre «_grão de milho_», mal sobresae como uma figurinha de

amuleto, errando ao acaso vida emprestada.

E, entretanto, é num tão exiguo personagem que, principalmente, o Auctor

se dá a desenrolar aquella aventura, toda ella uma farça de dolorosa

escravidão!

Fialho d'Almeida · 第 2 / 3 段