De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mai

Produced by Mike Silva

VISCONDE

DE

VILLA-MOURA

FIALHO D'ALMEIDA

(COM UM DESENHO DE ANTONIO CARNEIRO)

EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»

Direitos reservados

FIALHO D'ALMEIDA

DO AUCTOR:

A Moral na Religião e na Arte, 1906.

A Vida Mental Portuguesa, 1909.

Vida Litteraria e Politica, 1911.

Nova Sapho (romance), 1912.

Camillo Inédito annotado, 1913.

CONTOS E NOVELLAS:

I--Doentes da Belleza, 1913.

II--Bohemios, 1914.

Antonio Nobre, 1915.

Grandes de Portugal (em collaboração com Antonio Carneiro), 1916.

Fialho d'Almeida, 1916.

VISCONDE DE VILLA-MOURA

Fialho d'Almeida

EDIÇÃO DA

«RENASCENÇA PORTUGUESA»

PORTO

I

CUBA E VILLA DE FRADES

Eu estive já, por duas vezes, em Villa de Frades, no largo da

Misericordia, onde foi aquella «casinha de taipa, construida por

pedreiros da gente de Fialho»--como elle nos conta na _Autobiographia_

do seu livro--_Á Esquina_.

Fui ali quando das minhas jornadas pelo Baixo Alemtejo, em excursão de

curioso pelo mais da sua gente e paizagem.

A primeira vez que visitei a residencia de Fialho, que não é já hoje a

casita de taipa que os seus construiram, mas uma das melhores da

terriola,--foi por uma tarde de agosto, uma daquellas tardes de

rescaldo que erguem, á volta de nós, serpentes de fogo, e lhe ensinaram,

a elle, a sua pintura deslumbrante, á maneira de Rubens, em que a

propria côr queima!

Não foi sem um certo alvoroço, confesso, que bati ao portão da antiga

casa do Escriptor.

Veio alguem abri-lo, deixando a descoberto, a meio de uma segunda porta

fronteira, um homem alto, vestido de negro, de aspecto recolhido, quasi

ecclesiastico, e que, num instante, me encarou e desappareceu,

abandonando-me no jardim, ao sol, com o meu remorso de indiscreto.

Desapparecera tambem o creado, ou quem quer que fosse, que me tinha

introduzido no pateo.

Esperei instantes, e, como não visse alguem, dirigi-me para a entrada da

primeira casa, que logo vi ser a cozinha, encarando, pela segunda vez,

aquella mesma figura quasi sombra, que depois soube que era o irmão

de Fialho.

Disse alto o que queria:--falar ao dono da casa e pedir-lhe o favor de

me deixar ver a antiga residencia do Artista.

Sahiu a attender-me uma mulher nova, figura doente e franzina, que logo

se deu a explicar-me que era ella a actual dona da antiga casa do

Escriptor, de quem era parenta, vivendo ali com o marido e seu primo, o

irmão de Fialho d'Almeida, que, já ao tempo, mais familiarizado comigo,

me fitava serenamente.

Dei-me tambem a vê-lo melhor.

Não me lembro da edade que me disse ter; quarenta e sete annos podia

talvez apparentar.

--Que era um temperamento impressionavel, a espaços dado a medos e

hysterias, sempre melancholico, informou ainda a sua parenta.

Deparou-me, pois, o acaso, nem mais nem menos, do que um novo documento

a instruir a historia do genio do Artista, na pessoa do irmão, que me

dei a ver como uma figura-symbolo de familia, em que, não sei porque,

presenti a elegia viva da Arte mais exquisita e morbida de Fialho,

qualquer coisa da neurilidade extravagante dos seus doridos, aquella que

animou os seus personagens tão suavemente fataes e androgynos, toda a

belleza maravilhosa, e não raro inconsequente, da sua obra de

apontamentos, onde tão extranhamente exuberam os noctambulos e toda a

sorte de mysteriosos!

Corrêra, de certo, enferma a adolescencia do irmão de Fialho, que viera

até ali, aos quarenta e sete annos, ou mais que podia ter, porventura

ainda innocente, como por milagre da sua mesma frouxidão de alma, a que,

a cada momento, sua prima alludia, ao referir-me, perto delle, as

sinistras manhans das suas torturas de neuropatha.

Entretanto que a dona da Casa me convidava a passar á primeira sala,

chegou o marido della, tambem primo de Fialho, que, a meu pedido,

mandara chamar, e que logo se dispoz a acompanhar-me, apontando-me, por

miudo, o mobiliario e antigos aposentos do Artista.

Fôra este seu parente a quem Fialho recorrera, quando, na vespera da

morte, veio a Villa de Frades, ordenar os papeis do seu gabinete, como

quem se decide a dispor tudo, antes de seguir...

--Quando chegou deu pela falta da chave do escriptorio, me explicou o

snr. José Fialho. E apontando uma porta:--tentou ainda abri-lo,

quebrando o vidro daquella bandeira; por fim, resolveu-se a chamar-me,

e, como é cá da minha arte este serviço, pois sou carpinteiro,

immediatamente arranjei tudo; e, elle entrou, demorando-se aqui até á

hora da partida.

Insisti na supposição, que mais se radicou em mim, depois da minha

derradeira estada no Alemtejo, do provavel suicidio de Fialho,

confirmando-me o seu parente que, de facto, se tinha aventurado tal

suspeita, logo apoz a sua morte, mas que os medicos que, por ultimo, o

haviam soccorrido, tinham negado o facto, e, elle, por si, coisa alguma

sabia dizer a tal respeito...

Entretanto, encarou-me mysteriosamente, quando lhe disse que alguem da

familia Carapeto, que lhe assistira á morte, na Cuba, tinha como certo o

seu envenenamento; que, na vespera, elle tratara do arranjo definitivo

de tudo, e nomeadamente do seu testamento, lavrado numa das dependencias

da Tabacaria Fonseca, onde costumava passar parte das noites; que

soubera, ainda na Cuba, dos seus aborrecimentos de doente, afóra outras

razões que a minha admiração tinha reunido para reconstituir o drama

duvidoso do seu desenlace.

Mas deixêmos este caso ao tempo, que é quem definitivamente aclara tudo,

e voltemos á sua casa de Villa de Frades.

Como acima informei, actualmente pouco deve ella ter da construcção

primitivamente gizada pelo pae do Escriptor, antigo mestre regio da

freguezia.

É sabido que Fialho casara com uma senhora de fortuna, de quem tambem

ficou herdeiro, pelo que tanto aquella Casa, como a de Cuba, sua

residencia predilecta, foram por elle reformadas, com todas as melhorias

em uso nas boas construcções da região.

Mas não se infira dahi que se trate de edificios luxuosos; são, pelo

contrario, casas sem interesse, e, ainda, no ponto de vista artistico,

valem tão sómente pelo caracter que lhes advém do facto de obedecerem ao

desenho do mais das habitações daquellas paragens,--quasi todas ellas

tijoladas, cozinhas brancas de telha van, eirados sobre a planicie, e os

jardins tão intimos das casas e pateos, á maneira arabe, como que

continuando-se das salas.

Villa de Frades, pequena povoação do concelho da Vidigueira, com um

censo de dois mil habitantes proximamente, tem um certo relevo, em

contraste com o resto da formidavel planura sul-alemtejana, e, o que é

mais, foi uma das poucas terras, se não a unica do districto, que

encontrei verde, no agosto em que a visitei. Tudo o mais, ao largo, era

desolação e secca.

[IMAGEM: Fialho d'Almeida. Desenho de Antonio Carneiro]

Para lá da matriz, logo ao sahir do povoado, corriam as obras das

escolas que o Escriptor garantira com o seu testamento, e que,

confesso, pouco me detiveram, dado o meu aborrecimento por construcções

do seu desenho, entre gaiolas e penitenciarias, com destino á futura

infancia de Villa de Frades, de mais, ao tempo, sobremaneira

antipathicas, como todos os edificios por concluir.

O que devéras me prendeu, foi a chamada antiga Casa da Aula, pela qual

perguntei ao primo de Fialho e immediatamente saiu a apontar-me.

É fronteira á Egreja, e um edificio tosco, sobre o comprido, áquelle

tempo escrupulosamente caiado, de aspecto simples e o ar abstracto de um

templo abandonado.

Era quasi noite. A matriz bateu não sei que horas, com aquella

solemnidade triste, que é do dobrar dos sinos de todas as villas...

Dei-me a imaginar a infancia de Fialho, partilhando daquella

melancholia, pelas grandes tardes morrinhentas de Villa de Frades, com

todo o primeiro mundo da sua inicial e subconsciente comparticipação da

Vida...

Ali, de facto, naquella humillissima escola, cursara elle as primeiras

lettras, de par das primeiras contrariedades, ao lado do pae, o mestre

escola da terra, «aquelle typo de santo austero, n'uma alma de sonhador,

sempre calado», explica o Artista, annos depois.

E, em verdade, tanto como a casa onde nasceu, mais ainda, talvez, se me

prendeu da alma aquella capellita das suas primeiras canseiras.

Ahi deveria, porventura, estabelecer-se o Museu-Fialho, uma vez que uma

dezena de amigos, refiro-me sobretudo aos seus amigos de leitura, se

concertasse para juntar em tal logar, com os seus livros, tudo o que

pudesse considerar-se como reliquia da sua obra ou memoria.

Da casa de Fialho, em Villa de Frades, hoje quasi vazia do peregrino

espirito que a encheu, lembrarei especialmente o quarto do Artista,

onde, por acaso, quedam algumas arcas com revistas que excluiu da sua

livraria, destinada á Bibliotheca de Lisboa, legando-as a um amigo que

ainda as não levantou, e, nas paredes, duas telas da sua auctoria.

Propositadamente trazemos a publico a noticia, que cremos em primeira

hora, daquellas telas, ambas más, de figuras religiosas, de tintas

empastadas e peior desenho, pelo interesse de documentar o seu esforço

de plastico, que o fez pintor, em segredo, a elle, o critico

impertinente dos maiores pintores do seu paiz!

Esta, porventura, tambem a nota mais interessante que me foi dado

conhecer por informação da Familia-Fialho, e me fez lembrar o caso

de Hugo, identicamente desenhista e, mais ainda, entalhador, e cuja

obra, no genero, decora, ao presente, a sua antiga residencia, hoje

Museu, na _Place des Vosges_.

Finalmente, resta-me apontar, o trecho fronteiro á casa, systema absorto

de outeiros verde-suaves, que se me depararam conhecidos, como se, de

sempre, os houvesse visitado.

E, de facto, era quasi assim. Conhecia-os, havia muito, de algumas das

paginas mais luxuriantes do Escriptor, onde elle, o magnifico colorista,

a espaços se deu a pintá-los daquella tinta intima que lhe veio, pelo

tempo fóra, das suas memorias e impressões de infante.

Despeço-me, á pressa, da sympathica terriola, como quem foge do tumulto

de lembranças que me vem da casa, daquelles outeiros, dos primos de

Fialho, do Irmão, irreprehensivelmente estatual no seu papel de symbolo

rigoroso; e parece-me receber das mãos deste fios da tragedia, ainda

viva, das primeiras desfortunas do Artista, as que lhe advieram da quasi

miseria da sua segunda infancia, e cuja recordação o obrigava talvez,

mais tarde, a fugir dali, (onde viveu sempre o menos tempo) por

morphinizar-se do aborrecimento em commum por terras de mais convivio.

A Casa da Cuba, que em geral preferia, quando estava no Alemtejo, é um

edificio melhor que o de Villa de Frades, tambem terreo e de

compartimentos amplos.

Nesta casa fui encontrar enferma, na mesma alcova em que o Artista

agonisara, a sua antiga legataria,--uma senhora de edade da Familia

Carapeto, a quem devo o offerecimento dos retratos de Fialho que

illustram a presente noticia e alguns dos seus esclarecimentos.

Pouco me detive nesta sua antiga morada, e o tempo que ali quedei foi no

terraço, velho miradouro de gosto mourisco, donde se abrange, numa

extensão de leguas, o mais das terras seccas que circumdam a Comarca.

Cuba é das povoações mais incaracteristicas e sem interesse que

encontrei no Baixo Alemtejo. Lembra, pela monotonia do seu casario

reverberante, certas povoações de Hespanha, da Mancha, sobretudo, e que,

em vez de quebrarem a aridez das chans, servem como que a memorá-las,

tão irmans da estepe parecem crescer da terra.

Avalio, com tristeza, do viver do Escriptor na villa, quando, obrigado

pelas mil coisas desagradaveis da sua vida, em que parece não ter

figurado pouco a intriga politica da ultima hora,--se recolheu aos seus

telheiros.

Fez o acaso que me defrontasse com o proprietario da Tabacaria, em que

passava uma parte das noites, a conversar, por distrahir-se e illudir a

monotonia que o cercava.

Deu-se-me logo o snr. Fonseca, não afianço o appellido, como tendo sido

muito da intimidade de Fialho, propondo-se reproduzir factos e retalhos

seus de conversa que, é claro, lhe sahiam pouco authenticos...

--Conheceu-o pessoalmente? me perguntou elle, a meio das suas tiradas.

E, á minha negativa:

--Pois olhe que era melhor ouvi-lo, do que lê-lo!

Os livros valem pouco, accrescentou, em comparação com o que elle aqui

nos contava...

E logo continuou a palavrear ácerca do Artista, emquanto eu me explicava

a sua vida final, o suicidio provavel, os caixões de revistas que vira

em Villa de Frades, e com as quaes elle, por ultimo, quasi obrigado a

viver ali, bem por certo, de volta a casa, iria feriar-se daquellas

noites mal conversadas com quem, por falta de ouvidos, não podia

ouvi-lo,--a elle que fora em Lisboa, o primeiro de um cenáculo de que

haviam feito parte, entre outros, artistas como Ramalho e Bordallo, ao

lado de curiosos, ás vezes, valha a verdade, bem inferiores ao

sympathico negociante, que, ao menos, herdara do seu convivio a devoção

supersticiosa da sua memoria!

Como quer que seja, pois que Fialho passou em Cuba os ultimos annos da

sua vida, importa-me naturalmente escrever da pequena cabeça da

comarca o pouco que della apontei de más lembranças.

Como acima referi, não tem ella, para mim, a bem dizer, outro interesse

alem do que lhe advem do facto de ter sido o derradeiro exilio do

Escriptor, que se dava a disfarçá-lo, administrando directamente as suas

herdades.

Especie de villa improvisada, sem paizagem que pudesse entreter, por

momentos, o espirito, aliaz exigentissimo do Artista; sem edificios de

valor; com repartições inferiores; avenidas lugubres, no geito da

Alameda, sobranceira ao Caminho de ferro, e sombria como uma rua de

cemiterio; habitações mesquinhas, servidas de ruas mal calçadas; a

Estação, a distancia, quasi que fugida da terra que a fizeram

servir--tal é, de facto, Cuba, cujo casario abre sobre a campina

formidavel do sul como uma aguarella infima!

E, entretanto, foi ali que Fialho quiz ficar, e mandou que lhe erigissem

o mausoleu, que visitei na ultima tarde da minha estada em Cuba, depois

de dolorosos transes para arrancar duma adega o chaveiro do Cemiterio.

Ah! como Fialho tinha razão, ao informar-nos no conto--_A Ruiva:_--«Ha

uma coisa peior que um cão damnado: é um coveiro bebado!»

Comtudo, ao lado dum tal coveiro segui eu até ao cemiterio de Cuba, em

que, aliaz, coisa alguma de notavel fui encontrar.

Todos os cemiterios, a meu ver, se parecem; o da Cuba vale o

_Père-Lachaise_, como o de _Montmartre_ ou _Montparnasse_, por nomear os

trez mais notaveis de França (onde os homens passam por mais

reconhecidos)--como os de todas as terras, ainda os das muito

civilizadas e extremas.

Imagine-se um cercado alto, com o ar de casa, á qual o vento

arrebatasse o telhado, arruamentos de capellas e arcas com lettras de

pedra, uma especie de convento de ossos, onde todos os dias ha camas de

terra revolvidas e cruzes novas;--a frieza dos brancos e solemnes livros

de marmore, das flores, ali casuaes e tranzidas, dos esguios arvoredos,

como de todo um pequeno mundo de symbolos;--uma lage-obstaculo em cada

campa, e, como a fechar mais os que jazem, gradis, linhas de cimento

juntando as cantarias, mais um complicado e diabolico systema de

cremalheiras e cadeados!

Eis o cemiterio de Cuba, cujo desenho é, de facto, o de todas as grandes

ou pequenas cidades de mortos, dos quaes os vivos se vão desquitando,

mais ainda do que cobrindo-os daquelles obstaculos,--quasi esquecendo-os

para ali, onde perpetuamente terão de ficar, afastados de tudo, onde

jámais chegará o proprio carinho selvagem dos temporaes, sós, entre os

silencios negros da sua noite immensa, velados dos elementos, a par das

esculpturas somnambulas dos tumulos, tambem de si indifferentes,

abstractas, e, como por acaso, ali dispostas, ainda por erguerem

(paredes-meias dos cinerarios) o formal e glacido tributo da sua agonia

fria e lapidar!

Ora, isto me ia eu recordando, ao seguir, mais o coveiro, pelo cemiterio

de Cuba, do mesmo passo que, sem querer, lembrava certas passagens da

Obra de Fialho, que, de momento, quasi me falavam, e, eu sentia, como

que batidas de vento, ao meu ouvido...

Como no caso das grandes paginas de presagio da sua

monographia--_Manuel_, começára de anoitecer, e os sinos tocavam!

Ainda mais, lembro-me de ouvir, ao longe, nitidamente,

distinctamente, representando-se-me como um relampago vermelho á meia

treva, o uivar daquelle cão, que, quando, em taes paginas, o Artista se

dá a dialogar com o Coveiro a probabilidade de Manuel ser enterrado

vivo, como toda a sua afflicção pela farça material dos tumulos--como

que o chama á realidade desse mundo que fica para alem do proprio

pezadelo hystero-epiletico da sua tortura de superemotivo, e lhe queda,

a dobrar, na alma, o timbre vivo e sinistro da hora horrivel que já não

conta, e, eu, de momento senti ali, perto delle, bater tragicamente,

lugubremente, como um echo do seu sentido, ainda doloroso, embora já

distante, vago, erradio...

Porque, para mim, esse typo de _hysterico_ e _fragmentado_,

_contradictorio_ e _presciente_ que figurou no _Manuel_, é

fundamentalmente elle proprio, desdobrando-se por escrever a sua

mesma «duplicidade cerebral» e gritar contra a desgraça do _outro_, «o

que morrera», e agora, eu sabia ali, sem que ao menos pudesse precisar

onde!

Onde?

Eis o que o coveiro, depois que o instei, se deu a contar-me, moendo as

palavras, que, aliaz, lhe sahiam cavas e aos gorgolões, como se me

falasse ainda da adega á qual, minutos antes, o fôra arrancar.

Afinal pouco tem que ver a futura Casaforte dos ossos de Fialho,--no

começo da primeira rua do cemiterio, e a poucos passos do portão, como

do logar em que nos encontravamos.

Imagine-se uma especie de cofre em marmore branco, sem arestas,

escrupulosamente polido e goivado á volta, quasi sem ornatos, uma porta

grossa cruzada da fecharia,--todo elle de um desenho facil, e, por sobre

a cupula, ainda de pedra, dois gatos de bronze, dormindo abraçados o

velho somno dos symbolos! Eis tudo...

Este, repetimos, o mausoleu que lhe servirá em breve.

Porque provisoriamente, e a avaliar das informações que apontei, o

Escriptor, descança ainda, de momento, ao fim do cemiterio, perto da

ultima parede, num pedaço de chão mal tijolado e de emprestimo, em

sepultura rasa...

II

A INDOLE DE FIALHO

Não é facil escrever de momento, e directamente, ácerca dum artista como

Fialho, tal o occultismo das suas predilecções, como, mais propriamente,

da obra que deixou, e tomaremos ainda como indice da sua singularissima

neurilidade.

Assim, começaremos por esclarecer que Fialho d'Almeida era filho de um

homem da Beira e de uma mulher do Alemtejo, por melhor caracterizar

algumas das suas extranhezas e contrastes, como o seu conflicto em

materia de assumptos e realizações artisticas, que, antes de tudo,

parecia advir-lhe do ser encontro de duas raças.

Da mesma maneira que cumpre ter presente a influencia da provincia

em que nasceu, e que, na infancia, a edade impressionavel por

excellencia, lhe deu aquelle amor pela tinta mais propria, ou seja a que

os seus olhos receberam directamente da paizagem; como a sua grande

intimidade com a natureza, com quem aprendeu a exprimir-se, e que tão

fundamente foi penetrada pelo seu genio.

De facto, nenhum elemento mais cioso da transmissão do caracter do que a

terra. O que Fialho prova, á saciedade, a par dos nossos maiores

impressionistas.

Desenvolvemos noutro logar[1] a indole da zona mais meridional

do Alemtejo, onde se incluem Cuba e a pequena villa em que nasceu Fialho.

Resulta daquelle estudo um campo ethnico á parte na geographia intima

de Portugal região embaraçada da herança arabe, que semelhantemente

se vê na cultura, nos seus barros e azulejos, nas suas casas, como nas

manifestações mais simples da vida vulgar dos seus habitantes.

Ora Fialho, que ali passou parte da infancia jámais destruirá a

recordação do primeiro espectaculo natural que feriu a sua retina de

colorista, e, depois, pela vida fóra, mais se lhe foi insinuando pela

mesma fatalidade de sangue e nascimento que á sua terra o prendia. É

isto, apesar da herança de tristeza que tambem desta lhe provinha, e a

que se refere, ainda doridamente, annos depois da sua estada ali, no

capitulo autobiographico do _Á Esquina_.

De facto, é sempre presente, na sua obra, aquelle primeiro campo de

observações. Ahi ha a ver a intriga das passagens mais violentas das

suas narrativas, as tintas das suas combinações de painelista, os

dialogos e personagens brutaes da sua tragedia mais popular; e, para

alem, ainda, da paizagem, como das figuras, a razão culminante do seu

genio de origem, em que migra o sonho luxurioso, mais que dum artista e

dum povo,--duma civilização perdida!

Importa insistir: a herança arabe se não vingou entre nós, como em

Hespanha, a ponto de que, ainda hoje, quasi tudo o que tem de grande se

não foi della, nella se filia--nem por isso deixou de influir no genio

de Portugal, onde logrou a sua invasão pelo Sul, e, onde, repetimos, se

conserva evidente.

É ali viva, manifesta em todas as coisas, e, sobretudo, nos homens, a

quem as mesmas condições da terra naturalmente defenderam das fusões com

outras raças.

Ora, assentes estes factos, e tendo presente os ensinamentos que do seu

conhecimento derivam, chegamos logicamente a entender melhor o caso,

na apparencia extranho, das manifestações, por vezes distantes e tão

intensivamente artisticas do Sul, e mais, em especial, de certos

capitulos da obra de Fialho d'Almeida.

Em verdade, eu não encontro para explicar-me o exuberante exquisito de

algumas paginas do Artista, mais do que o segredo das colorações, como

dos labyrinthicos e caprichosos desenhos de certos e admiraveis

exemplares da civilização arabe na Peninsula, dentre os quaes me veem á

lembrança, quasi sem o querer, os velhos monumentos da Andaluzia,

tambem, porventura, da melhor intimidade de Fialho, e que o deviam ser

de todos os artistas, muito particularmente dos de Portugal e Hespanha.

E, de facto, qual o artista, verdadeiramente curioso de civilizações

mortas, que não percorreu ainda Alhambra,--a Alhambra monumental dos

grandes Paços de Luz, redosos e filigranados, cujos marchetes e esmaltes

se nos defrontam, mais do que como obra paciente e custosissima, quasi

dolorosos á nossa admiração, pela mesma regularidade do seu maravilhoso,

tão distantemente extranho!

Pois paga a pena a sua visita, sobretudo á luz de certas horas, quando,

pelo estio, a tarde transfigura os monumentos, quasi os move!--e

Alhambra inteira exulta á claridade frouxa dos seus crepusculos.

Como, de egual sorte, surprehende o desenho interior dos phantasticos

paços, ainda pelo que abrigam de inaudito, no espectaculo das suas

casas-retabulos, aliaz tão intimamente caprichosas, como se fossem

ampliações das covas naturaes que, no Monte Sacro, lhes são fronteiras.

É que ninguem como o povo arabe teve o segredo dos recantos, soube

estudar e praticar as sombras, quasi medir a penumbra das arcarias; da

mesma forma que tambem ninguem mais, como elle, conseguiu dominar pontos

de vista, aperceber horizontes, toda a natureza, moldurá-la dos seus

monumentos, por vezes verdadeiros filtros de luz,--viver, sentir a côr,

e, o que é mais, orchestrá-la na sua obra, de uma fina grandeza sem egual.

Dahi tambem o não se saber que mais admirar dos encantados paços, bem de

molde a servirem a luxuria religiosa de tão lendario povo, se o

labyrinthico desenho das suas paredes, como dos seus tectos e azulejos,

se o mesmo diabolismo e imaginativa do seu alçado!

Ora, derivando dos monumentos attribuidos ao genio arabe, á razão de

sangue que flue na gente do sul da Peninsula, chegamos facilmente á

averiguação do grande valor da tutela semita no nosso movimento

tradicional, mercê daquella herança--tutela sobremaneira documentada, no

mais do nosso lyrismo, como, em regra, em toda a nossa obra artistica.

E, assim, nos encontramos, muito naturalmente com o caso de Fialho

d'Almeida.

De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o

grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente

embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica

riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida

luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao

lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu

luxo,--a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza!

E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que

principalmente nos demos a estuda-lo.

A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente

considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo

explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio--quando se trata

de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a

nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou

seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis

fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os

commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio

de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se

de mais interessante ou notavel.

Mas caminhemos vagarosamente. Em primeiro logar, convem ter presente

que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a

tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram,

perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor

deve ser o primeiro fim--a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta

do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a

levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo

da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais

propria missão.

O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a

nós, o peior dos materiaes.

Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado

a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos

primeiros annos da sua vida de acaso, não raro deixou falar o

coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.

Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a

desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia

congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que

ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,--tal como lhe

sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dos _Gatos_!

Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?

Foi um facto. E este facto vale o melhor da sua obra de pamphletario

que, antes de qualquer outra, convem ter presente.

Ora, neste rumo de trabalhos, seguiu elle, naturalmente, o exemplo de

todos os pamphletarios;--isto é, deu-se a compor paginas do material

commum, o que vale dizer de aspirações e casos, não raro menos

claros de que vulgares!

Dahi partiu, e logicamente foi até ao fim: a servir a propria plebe

politica--a peior das plebes!

Houve tempo em que não socegou. Numa canseira pertinaz, diaria, quasi

tomou por seu dever perseguir a vida constituida, onde quer que ella

surgisse ou se se lhe afigurasse.

Ora, este foi, tambem, porventura, o seu mal, assente como está que, em

materia de vida conjuncta, peior do que qualquer instituição crapulosa

ou gasta, é a sua substituição á doida, á sorte, como infelizmente,

entre nós, elle a ajudou a preparar!

Acabo de percorrer os _Gatos_, onde reuniu o melhor da sua Arte de

pamphletario.

Do primeiro ao ultimo opusculo, que serie de estudos, de commentarios,

de almas e acontecimentos tratados pelo seu riso!

Tudo o que elle tinha de imprevisto, como tudo o que da inferioridade de

uns poude reunir e editar para servir a inferioridade dos outros, está

ali, nos seis volumes que hoje formam a Obra, e ficará como documento

dos seus violentos e extremadissimos recursos.

Pois que foi a civilização quem categorisou o riso, transfundindo-o,

filtrando-o até á ironia, uma das grandes forças da demolição

moderna,--importa ainda considerar o riso de Fialho.

A ironia de Fialho, se assim podemos escrever daquella sua indole--era

ainda, como não podia deixar de ser, um caso mais do seu temperamento de

violento, aggravado do tempo e meio em que, por acaso, reagiu.

Assim, nada tem de commum, por exemplo, com Eça e Camillo, por falar dos

humoristas mais discutidos da lida contemporanea.

Camillo era a graça a flux, com os seus laivos de razão intima, muito

para alem dos castellos politico-litterarios de momento, golfando risos

ao acaso da sua natural interpretação sinistra de Humanidade.

Eça deu-se scepticamente a lapidar costumes e figuras infimas, no geral

de uma banalidade exhaustiva, á conta do prazer do seu riso frio, que

logo se fez moda, como tudo o que nos vinha de fóra, por seu intermedio.

É ver o successo das _Cartas de Fradique Mendes_, «um Acacio a serio»,

informa Fialho, e cuja prosa relata o apontoado symetrico das notas dum

civilizado, ali paciente e cuidadosamente estylizadas pelo seu sentido

de mundano.

[IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]

Ora, nada de premeditado encontramos em Fialho, e nomeadamente nas

notações dos Gatos, por cujo entrecho natural é que comecemos o exame á

sua obra.

A razão desta preferencia incide, é claro, na mesma indole dos folhetos

que reuniu debaixo daquelle titulo, e, onde, de facto, encontramos, a

despeito dos seus propositos, o Fialho definitivo, quer sob o ponto de

vista do estylo e inauditismo de Arte, quer ainda pela acção demolidora

que tanto foi de seu empenho e naquella obra rajou desesperadamente, a

paginas plenas, como em nenhum outro dos seus trabalhos.

[1] Terras do Sul.

III

O PAMPHLETARIO

Abre os _Gatos_ o aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar

criticamente os homens e os acontecimentos, explicando,

humoristicamente, o nome da publicação.

O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por

um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de

irreverencia, e a que elle chamou:--_Bric-á-bracomania, como cultura e

como doença._

No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso

do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e

escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços, com o odio da

rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se

discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo

das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dos _bibelots_ e

quadros do seu espolio!

Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as

mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção

pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não

diremos já de justiça, mas de delicadeza.

Em nome dos republicanos dirigia, no _Seculo_, a campanha Rodrigues de

Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo,

mais uma vez, a innocente pelle do povo--. escrevia Emygdio Navarro,

tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos--o

da cara, que o levara á morte, e o do coração, que elle, Emygdio

Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na

praça das _Novidades_, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!

Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera

politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou

tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para

resolver os direitos do espolio controvertido.

Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil

surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.

Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem

o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde

mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei!

Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao

Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a

exigencia publica.

Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista

Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador

das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram--mal podemos

tratar condignamente.

Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais

notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão

presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se,

quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.

É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga

no café-concerto da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto,

elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja

referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão

extranhamente regressiva do Musico.

Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a

proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.

D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes

dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de

alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva,

equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de

raça, acaso abordada ás praias portuguezas.

Inegualavelmente soberba, de facto, a sua maneira de tratar a

lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro

solemne!

Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto,

lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do

que como Rainha--como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por

boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.

Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por

sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua

escriptura de esponsaes)--e dahi o vê-la toda a gente mais do que

cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua

lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia

separá-la!

Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia

segui-la?) logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua

loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias de _toilettes_ que

jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando,

na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes,

tinha chegado...

A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que

daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!

Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias

officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma

rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de

origem.

Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si,

bastariam a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua

preoccupação de pamphletario,--para derivar a outras que, na sua obra,

dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que

ainda instigou critica portugueza!

Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de

Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra

de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando

aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!

Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar

de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus

aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.

Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e

purgueiras de estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada,

indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!

Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz,

numa casa de saude!

E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da

agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!

Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!

Do mais dos artistas contemporaneos, e, especialmente, dos pintores, é

sabido o que escreveu de desalentador para elles que já, contra si,

tinham tudo:--a rua, o mundo politico, o meio pobre em que trabalhavam,

o paiz de origem, e toda a serie de prejuizos que, para mais, Fialho

conhecia intimamente como ninguem!

Comtudo, nem Columbano escapou a esta sua impertinencia, por vezes de

uma irritação doente, quasi atrabiliaria e descomposta, á conta da sua

faina de exigir do mundo plastico, mais do que representações da

natureza, verdadeiras telas vivas, porventura, a capricho, illuminadas

das suas mesmas composições escriptas.

Dahi a sua injustiça para com o grande pintor que, no seu juizo facil da

primeira hora, qualificou de mero artista hesitante, como que estagnado,

«perdido, na monotonia cadaverica dos seus quadros de imitação!»

E, de identica maneira, tratava os outros.

Não lhe era facil fugir á fatalidade do seu genio, sempre em duvida, e

que mascarava de desdens; para mais acossado pela circumstancia de

viver, o mais do tempo, em Lisboa, onde os Artistas teem _ateliers_

paredes-meias, e a Arte anda sempre ao de cima das sympathias duma tal

Cidade, ainda, como nenhuma outra, de entre as nossas, aberta a

intimidades, mettediça, e pretenciosamente futil!

Dahi tambem a sua maneira, quasi mesquinha, de tratar a Politica e, em

especial, os politicos.

A Carlos Lobo d'Avila, por exemplo, processa-o como degenerado.

Lopo Vaz é, para elle, um mero «preboste regio». A Barjona toma-o como

um conselheiro de negocios, anecdotico e sujo. Hintze é uma especie de

empresario de Portugal--feitoria-ingleza, figura dependente e quasi

irresponsavel ás ordens da dynastia, e assim os outros.

A paixão do pamphletario céga-o a qualquer vislumbre de justiça para

com politicos e assim tambem para com o Rei, que, ainda á maneira

popular, considerava como figura enkystada no corpo governativo da

Nacionalidade.

Dahi tambem o atacá-lo systematicamente, afeiando-o de todos os

delictos, em que não deixou de figurar a pecha das mais ruins

ingratidões, as já classicas ingratidões dos reis!

Quer dizer, consciente ou inconscientemente, foi, como todos os

pamphletarios, um Orpheu da Rua, pelo menos até se sentir sacudido por

ella.

E fossem lá insinuar ao seu aferro pelas chamadas reivindicações

democraticas, que atraz da ingratidão dos reis, está sempre a ingratidão

dos povos; que a França, por exemplo, politicamente radical, no curso de

dezenas de annos, conserva no _Père Lachaise_ a ossada de Balzac, ao

passo que carreou, ha muito, para o Pantheon Carnot e outros menores!

De que lhe serviria, de momento, o aviso? O que sempre enche a obra do

pamphletario é a philosophia facil do odio ao Constituido, onde quer que

elle se encontre. Emquanto ha reis, a culpa de tudo o que existe de mau,

ou por tal passa, é dos reis; como é dos padres emquanto ha padres; dos

validos emquanto ha validos; em ultimo logar, dos parlamentos; de tudo,

emfim, o que o povo, em nome dos seus direitos, nunca até hoje

definidos, organiza e desorganiza, menos a seu talante, do que ao acaso

de uma esperança ou das gerações por apparecer!

E, comtudo, não falta nunca quem se dê a orchestrar a sua voz, por mais

vaga, ou dissonante que ella seja.

É preciso que o escriptor tenha, mais do que talento, uma sensibilidade

propria e escrupulosamente cerrada ao gosto publico, melhor ainda,

religiosamente isenta, para que possa afastar, com desprezo, o applauso

geral, repulsando, para longe, o titulo de dirigente, ou seja o de

encantador das multidões, pelo qual, principalmente, o maior numero dos

apostolos se bate.

E, em todo o caso, como aquella isenção é rara!

Ainda os de melhor fé e que se julgam de posse duma missão necessaria,

raro chegam, por si, a conhecer do erro de excesso, em materia de

reverencia e culto pelo publico!

O que, a miudo, se dá, é a inutilidade da sua faina, e isto pelo mesmo

uso daquelle prestigio, ainda sujeito, como tudo, á acção do tempo que

sómente, não consome as obras de sentido definitivo.

Este foi tambem o caso de Fialho que durante annos destruiu, sem

treguas, confundindo, propositadamente, os principios e os homens,

batendo, de toda a maneira, um systema que, sobretudo, foi erro não

termos reformado dentro das nossas melhores tradições; e que elle,

Fialho, como os demais contemporaneos escriptores politicos, reputaram

fóra de toda a razão nacional.

É claro que deste erro se confessou mais tarde repeso--ou tenha sido

quando as suas palavras offereciam menor echo--ao ver que, para os

logares mais responsaveis, quando o antigo regime cahiu, o paiz,

democratizado á força, não encontrou, de momento, para substituir o

corpo official expulso, mais do que gente ousada, que mental e

moralmente valia menos do que a anterior, que de si já estava muito

abaixo da geração que a havia antecedido, e cuja herança nem sequer

soubera defender!

É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os

impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua

conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua

boa fé.

Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro,

Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de

vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!

Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham

desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho--velho,

surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario,

em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho do _bairro alto_, a

quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais

queria saber...

Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.

Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da

sua coragem, á altura de um jornal nos moldes do _Antonio Maria_? Onde o

redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as

personalidades-motivos a enchê-lo?

Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou

ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava

tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.

Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha

perdido o vigor das suas primeiras investidas!

E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou

antes tinha-se accrescentado daquella razão de amargura que a vida

empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua

impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um

ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra

trasbordante da sua derradeira colheita--«_Barbear e Pentear_».

Este livro, sublinhado pela explicação amarga--_Jornal dum vagabundo_,

que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da

sua perfeição exquisita.

É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua

predilecção, e de quem se dá a referir a _toilete_, á luz dos móres

recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias

que redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de

insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda

das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;--de tudo, emfim, o

que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de

imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!

E, de facto, chega ás maiores extranhezas de gosto na inventiva daquelle

livro, e especialmente no seu capitulo:--_Juizo do Anno_, quer pelo

turbilhão de côr que delle entorna, quer, sobretudo, pelo seu empenho de

phantasia e _nuance_ ali expressos, como ainda pela circumstancia de

considerar a mulher o que, porventura, virá um dia a ser, um caso de

perfeição sómente, quando a natureza mais accordada com o homem, sahir

de sua attitude esphingica, e isto ainda por viver com elle uma

futura vida luxuriosa, sem medos e sem pecados...

As _Pasquinadas_ e o _Á Esquina_ subordinam-se á mesma rubrica:--_Jornal

dum vagabundo._

Nesta ultima obra ha de tudo:--paginas notaveis e criticas de menos folgo.

São do melhor interesse as que abrem o livro e

titulou:--_Autobiographia_; e devem ter-se como supremas aquellas em que

nos descreve os _Ceifeiros_, como as que referem as suas impressões da

Atalaya e Exposição-Bordallo.

Tambem este livro inclue umas notas a que deu a epigraphe:--_Problema

taurino_, e que, já agora, glosaremos, embora de fugida.

Neste capitulo lança o Escriptor á balha a idéa do toureio a serio nas

praças portuguezas, o que vale informar:--a opinião da morte do

touro, com os demais episodios sangrentos dos curros hespanhoes.

Ora a proposta, se foi sincera, destoa, a nosso ver, da sagacidade do

critico, acaso perturbada pela paixão do aficionado e homem do sul,

paredes-meias da Hespanha e seus costumes.

O portuguez habituou-se facilmente á morte pela associação politica;

aceita, como de direito, o assassinato por adulterio, e toda a ordem de

morte por um delicto sectarista ou passional; o que elle jámais

decretará é a morte por uma razão de Arte, e isto pelo mesmo facto de

não comprehender outro sacrificio que não seja para sagrar ou colher

interesse.

Ora, para elle, o toureio, ainda como exposição de vida e educação de

raça, não tem interesse.

As _Pasquinadas_ reunem uma serie de artigos de impressão

rapida--instantaneos dos acontecimentos e pessoas de occasião.

Entretanto, como se tenha dado o caso de ter sido obrigado a tratar de

figuras da categoria de Camillo e Sarah Bernhardt, este livro inclue, a

seu proposito, paginas que, bem por certo, ficarão ainda como documentos

da sua desproporcionada maneira de considerar os grandes artistas!

Insurgia-se elle, a espaços, contra as lettras, friamente rigorosas, dos

modelos mais classicos e academicos.

E, de facto, importava-lhe sahir não só das velhas disposições, como

ainda dos recursos em uso, por inteiro alheios ao genio, mais que

revolucionario, desmedido, daquelles dois vultos, que, por isso mesmo,

tratou, não só fóra de todos os moldes, mas, mais ainda, fóra do tempo.

A _Lisboa Galante_, outro livro de voga, comprehende, em geral,

episodios e aspectos de cidade, por entre apontamentos de casos minimos,

por communs, a todos os logares de accumulação.

Entretanto, ainda ahi Fialho incluiu phantasias e situações admiraveis,

haja em vista o conto--_Amor de velhos_; e, sobretudo, a _Chavena da

China_, porcellanas da sua maior delicadeza e inventiva.

Passaremos á pressa sobre o livro--_Saibam quantos..._ não só porque

literariamente o não accrescenta, como pela circumstancia de nelle ter

reunido cartas e artigos politicos que valem, meramente, como actos de

sua contrição.

Archivemos, no emtanto, do capitulo--_A morte do Rei_, o seu leal

proposito de homenagem a D. Carlos, a cujo caracter, por fim,

concede as mais complexas facetas, e a impossibilidade de falar destas

em paginas resumidas, como as que, de momento, lhe consagra; e, mais

ainda, como fecho dellas, o seguinte:--«Pobre D. Carlos! quando se pensa

que afinal era mais intelligente e teve talvez virtudes superiores ás

dos seus adversarios, e por não dizer ás dos seus cumplices...»

Eis, finalmente, palavras suas, ácerca de D. Carlos, alinhadas, talvez,

sobre a impressão da morte brutal do rei, á hora, quem sabe? em que o

seu cadaver, abandonado de todos, presidente do Conselho incluso, lhe

dava a lembrar a calumnia, tanta vez pelo pamphletario, contra elle,

escripta, de primeiro responsavel da desordem a que o paiz descera!

É que talvez já ao tempo elle bem claramente visse que aquelle que tão

violentamente responsabilizara como primeiro culpado do desastre a

que a nacionalidade havia chegado, era afinal um rei que consumira um

reinado a procurar Alguem, no fundo, bem da alma, elle proprio, com a

Rua, que era, de facto, quem mandava, sem que, ao menos, governasse,

como ao presente, e que ora o applaudia, mais á rainha, ora o insultava,

até que se decretou a montaria com que, por fim, deu fecho á Realeza.

Fialho d'Almeida · 第 1 / 3 段