O mesmo sestro que levara Fialho a apolegar a gente miuda, por attingir

a expansão maxima do seu inegualavel empirismo de Arte, de semelhante

forma lhe pautou a solução da vida em riso, que a breve trecho e

involuntariamente derivava em farça. Ainda mais, deliciou-se da união

dos elementos mais difficeis, como impossiveis até, quando, pelo drama

convulso da sua polypersonalidade, se deu a parabolar da vida real

o mundo imaginativo das suas extravagantes suggestões de artista.

Dahi as phantasias, no genero daquellas, ao lado de outras em que

sobresaem mulheres como a _Madona do Campo Santo_, a quem dota da

galantaria e gestos nobres dos cysnes, figurinha de suave illuminura, e

que, mais ainda que do seu vicio de comer flores, elle parece alimentar

do pão azymo da sua Arte!

Mas não nos antecipemos á referencia que della nos deixou.

Reunamos os fragmentos da estatua da _Madona_:--«restos, diz o

Escriptor, da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, e que,

soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith.»

[IMAGEM: Fotografia e assinatura de Fialho d'Almeida.]

Ora a _Madona do Campo Santo_, foi tambem uma das creações mais tratadas

pela suave idolatria de Fialho, e que elle, antes do apaixonado Albano,

se deu a estatuar numa hora de quasi divina loucura!

E não é ainda casualmente que escrevemos da sua idolatria.

A verdade é que o grande Artista foi, alem de tudo, um pagão, embora por

fatalidade da sua arte de Extranho, por amor daquella Arte que ainda, de

egual maneira, o fez religioso ou, melhor, sectario de toda a Belleza,

como jámais conhecemos outro.

É ver as paginas que dedica á _Madona do Campo Santo_, ao lado de outras,

como as que abrem o _Paiz das Uvas_, e a admiravel _Symphonia_ da

_Cidade do Vicio_!

Em todas ellas, que de adoraveis espectros de faunos e de

sylphos:--creações phantasticas do genio mysterioso da grande

jornada humana immemoravel; e que a elle, ao Poeta, o levam a cantar (a

sua obra é ali um hymno)--um quasi amor contra a natureza, de tão

extravagante e brutal!

E, entretanto, é ainda á «vibratilidade dolorosa do sol» que elle

escreve e nos diz da «vida allucinada» que lhe vae em roda.

Dahi, tambem, a sua litteratura, na apparencia difficil e desajustada,

como um romance da Mythologia, gritada de Evohés, com palmas á belleza e

á ebriedade, pompas sem rito, casos de flora animada e fauna monstruosa,

com a sua multidão de satyros e dryades, formando junto a Baccho--o Deus

da boca fogueirada de risos, acaso os mesmos que, por vezes, parecem

tingir da sua cambiante algumas das paginas mais notaveis, ainda por

menos verosimeis, do transfigurador!

É dum folgo que se leem estas passagens que quasi nos suggerem a

esperança dum suave mundo de deuses reaes, pleno de sentido novo, e em

que exuberem, a esmo, os fructos, e cresçam divinamente os marmores!

Ora, dum tal poder de imaginação, e influencia de tudo, facil nos é

derivar ao mais do seu _atelier_ de estatuario do Exquisito; e, mais

propriamente, ao caso da _Madona do Campo Santo_, a cujo proposito

trouxemos aquelles recursos.

A _Madona_ é, na verdade, uma das suas obras primas de mais justificado

renome:--typo de mulher-insecto, dentando flores, amando por instincto,

comendo com dôr, tocada, ainda por uma razão de belleza, do susto humano

de morrer, gracil como uma ave, de resto frouxa e luarada como convinha

a uma creatura do outro mundo...

E tão deslocada fôra, tão doutro mundo ella era, que Fialho, querendo

apontar-nos, no final da novella, a estatua que da sua memoria desbastou

Albano, é assim que a descreve:

«Era uma maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os

braços para invocar Deus, por um assombro de equilibrio lançada na

attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma

labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de extranha

belleza, era ao mesmo tempo um prodigio de audacia, palpitava, falava,

sentia-se soffrer e respirar, como uma creatura.»

Notavel trecho, de si eloquente até ao excesso, e bem de molde a

resuscitar a pobre Judith!

Entretanto, permitta-se-nos, ainda a tal proposito, um breve

parentheses, ou seja o glossario de faceis considerações, á conta

da sua esculptura.

É tão somente para frisar que, ainda em Fialho, como para o mais dos

plasticos portuguezes, a estatuaria é sobretudo narrativa.

O marmore da _Madona_ não é, effectivamente, um mero acaso da imaginação

do contista; bem pelo contrario, estava na logica da sua educação, pois

que lhe proveio directamente da mesma causa romantica, que ainda, ao

presente, determina o grande numero dos nossos estatuarios.

Ainda mais, o movimento liberal, que, entre nós, começou em 1820, deu á

Arte portugueza um motivo de ornamentação tão extranho como

detestavel,--a estatuaria rhetorica, se assim podemos defini-la e que,

de logo, começou a animar os nossos terreiros publicos, onde mais

ou menos todas as memorias discursam!

E, a tal ponto a nossa exuberancia de latinos, ligou ao gesto o seu

sentido de eternidade que, ainda hoje, reputariamos inverosimil, entre

nós, a estatua, á maneira ingleza, como significado de mera presença,--a

figura-marco, tal como surde, nas praças de Londres, menos como ficção

de vida, do que, pelo contrario, como uma forma abstracta, e a que o

Artista procura dar sempre aquella attitude quasi sagrada que,

definitivamente, volve em symbolos as memorias!

Comtudo, dado o facto do supremo poder de Fialho, como plastico, força é

admittir que bem foi para a memoria de Judith a sua estatua, tal qual

elle a trabalhou, como todo o drama de que circumscreveu a sua

prodigiosa e raphaelesca figura, a cuja decomposição, por fim,

assiste, indifferente, depois que ella, já morta, de «face marbreada de

roxo» e a «expressão carrancuda» por lhe terem arrancado a

mascara,--começa a abater, da sua gracil e suave forma de noiva dos

«esponsaes da eternidade...»

Finalmente, o ultimo conto das suas apontadas obras--_Os Pobres_,

comprehende um trecho curto, e, no entretanto, ainda mais notavel que os

anteriores.

E tão notavel que só a custo poderemos desarticular essa singularissima

peça de Arte, tal a selvageria que dá cohesão á novella, concebida para

alem de todas as ficções litterarias!

Trata-se dum casamento de monstros numas ruinas, de «duas virgindades

adormecidas», informa o narrador, que num momento vingam o amor

abstemio de tantos annos, e celebram, á cumplicidade de uma noite

tenebrosa, o seu brutal noivado.

Elle, o macho, é um ser desprezivel, vivendo de restos, especie de

cyphotico, aleijado pelo lapis de Velasquez; valente pela sua vida de

carreira, ao ar livre; humilde; torto e forte como um azinho; animal

corrido de todas as mesas, piolhento que as raparigas enjeitam e

escarnecem nos serões:--figura, emfim, perdida no «immenso irradouro»

que é, para elle, o mundo.

Segue da Vidigueira para Pedrogão ao acaso do vento, que o esfarrapa,

confundindo-o com a urze.

Leva-o o mesmo fim de sempre:--pedir, errar...

Vae por entre a esteva que o açouta; «o vento fala-lhe»; e, no emtanto,

elle nada ouve, caminhando á ventura, como um elemento deslocado da

mesma noite sinistra que o persegue...

Entra, por acaso, numa ruina, onde o guia primeiramente um resto de

brazido, depois um farrapo de oração, que sae dum canto, por fim o

cheiro da femea, uma sombra que escabuja a seu lado, e, num momento,

desdobra para elle fios occultos de uma voluptuosidade instinctiva, toda

animal.

Elle presente-a; e ella fala-lhe, numa voz que é um rôgo, de que elle

não sabe deslindar-se, até que começam de tecer-se novos fios do desejo

dos dois, do impulso mutuo que subito os impelle um para o outro, como

duas forças dum mesmo systema que a luxuria move e dão de si o ruido de

corpos escamosos, «rimando urros», diz o Artista, numa especie de

noivado de potestades, com ferezas e grunhidos de varrascos!

Tal o relato-impressão que do estupendo conto nos ficou, e pelo qual

chegamos, naturalmente, e, por ultimo, ao fim dos maiores recursos de

Fialho; e que, a partir deste momento, nos permittem averiguar da sua

obra em conjuncto, atravez das paginas exemplificadas, como daquelles

seus mais caracteristicos personagens.

Ora, o que, dumas e doutros, de logo se nota é que o mesmo titulo de

_Doentios_, que indica o seu primeiro livro, inculca tambem o grande

numero das suas figuras-motivos.

Entretanto, o que mal pode explicar-se, fóra do seu caso de raça, é o

segredo da sua forma, ainda tão exoticamente plastica,--como o seu

grande conhecimento da Arte pairante alem-fronteiras, e que,

cumulativamente, exerceu de par dos móres diabolismos, ainda e sobretudo

ao pretexto da nossa comedia publica. Como quer que seja,

propositadamente guardamos, para final do presente estudo, a analyse

generica destes recursos, de que, já agora, partiremos para a revolução

artistica que da sua penna levantou, sobretudo contra o pantano

classico, e rhetorica do momento.

A todos os formalismos, de facto, elle deu batalha, não só vencendo,

mas, mais ainda, trazendo á Arte novas intenções, de par de melhores

impulsos e novos rumos.

Houve contemporaneos, como João de Deus e Bordallo, cujo inauditismo é

tanto mais para admirar, quanto mais occulta nos deixaram a sua razão de

Arte.

Não é este o caso de Fialho, cujo genio reagiu sobre uma cultura

intensa, procurada como num anceio de quasi exhaustação.

Desde Balzac, o mais notavel dos mestres do pensamento novo, até aos

exquisitos Goncourts, lavrantes quasi diabolicos dos mil nadas mundanos,

apostolos da graça, como do mais extravagante japonesismo litterario,

todos os grandes contemporaneos elle conheceu e estudou; do mesmo passo

que o seu espirito, com escala por todas as representações de

Arte:--museus, revistas, theatros, escolas, industrias de luxo, por todo

o espectaculo, emfim, onde houvesse que aprender,--se repartiu, talvez

menos por enriquecer-se dos seus ensinamentos, que por colher as

suggestões que do seu interesse mais tarde desenvolveu.

Ora duma curiosidade de tal forma animada foi que, naturalmente, sahiu a

editar o melhor da sua obra, como tudo o que da sua sympathia pelo raro

elle poude discorrer atravez da sua dolorosa fadiga de

supersensibilizado!

Assim, tambem, talvez nenhum dos escriptores do seu tempo conseguisse

surprehender a Arte dos etherisados e extranhos cumes donde elle se deu

a vertiginá-la.

É ver as paizagens, quasi irreaes do seu lapis de crayonista; as suas

figurinhas hystericas de branda genealogia biblica; os seus aleijados;

as suas porcellanas, como todo o mundo phantastico da sua inegualavel Arte!

Tambem é de costume, tratando-se de Fialho, escrever do que vulgarmente

se considera a sua obra critica.

Não o faremos nós, ainda em attenção ao criterio proprio de que Fialho

não foi um critico, mas um impressionista.

E, a proposito, vem recordar o caso de Ramalho que, depois de uma vida

longa, perscrutando a canseira extranha, talvez menos pelo trabalho

de a corrigir que pelo vicio de a desfiar; depois duma fadiga insana por

ver do trabalho alheio, no proposito de deixar definitivas as suas

notações de pedagogo, sáe, por fim, a desculpar-se, na pagina derradeira

do seu papel de critico, denunciando a publico a sua aspiração até ahi

occulta,--imagina-se lá de que!--nem mais nem menos do que de poeta

lyrico...

E, comtudo, como é de estimar, a nova triste daquelle velho, figura

rigida de portuense, com suas tintas de trato inglez, escrevendo á

garrocha no couro endurecido de Portugal do tempo, afinal sobre o motivo

constante e commum a todos os criticos,--ácerca dos mais versateis casos

de gosto burguez!

Porque, fundamentalmente, foi o gosto burguez que elle tratou, embora

como uma especie de jogador de penna contra os cenaculos havidos

então como tradicionaes, e de que um acaso de civilização o fizera

transfuga.

Entretanto, é bem de archivar aquella sua pagina de contrição, ainda

como desfecho do seu ingrato mister. É que, de facto, elle era um

artista, e dahi o ter vindo a publico indultar-se, como em final

provação, dos seus cançados propositos criticos, se não legar-nos, á

hora da sua agonia litteraria, uma derradeira ironia...

Contrariamente outros dos seus melhores contemporaneos, e entre

todos:--Fialho, Eça, Bordallo e ainda Junqueiro (a despeito da sua

escravidão politica)--haviam sido mais do que reformadores da

Arte,--seus verdadeiros revolucionarios, isto no melhor sentido da

desacreditada palavra.

Vejamos, a traços rapidos, a acção que de um tal confronto advem, pois

que obteremos, assim, a par da divergencia dos temperamentos de

maior interesse na vida artistica do tempo,--a sua systematização e um

fim commum, ou tenha sido a notavel revolução litteraria que das suas

provas resultou.

Comecemos por Bordallo, bem por certo, ainda hoje, o menos estudado.

Raphael Bordallo, que conseguiu tornar poderosa uma arte, entre nós

desacreditadissima, mercê da chusma dos habilidosos:--a Caricatura, foi,

de facto, o genio em bruto, um oleiro de amalgama, misturando, na sua

masseira de Jove do tempo, toda a sorte de civilização, por mais

desencontrada; trabalhando, ora de phantasia, ora dos seus apontamentos

de rua; e, finalmente, editando-se, tal como Fialho, ainda por seu

innato valor.

Eça, talvez o de menos influencia, se bem que tambem o unico que

logrou admirações incondicionaes, foi, de facto, dentre todos, o menos

original, que não o menos brilhante.

No seu _atelier_ não faltou petrecho algum dos mais necessarios ao

arranjo dos seus livros de Arte, aliaz sempre duma belleza meditada, a

bem dizer medida, e em que perpassa todo um methodo opiado de ironias,

por entre as suas demais preoccupações de consciente marmorista e

penitenciario da prosa.

Finalmente, Junqueiro foi dentre as figuras litterarias do momento o

mais sagaz e ajustavel á sua extranha confusão.

Por isso tambem, logo que appareceu, se fez mister consagrá-lo, de par

dos seus alexandrinos, ainda undisonos e revoados, á Hugo, e que os do

tempo immediatamente se deram a ouvir, mais do que com attenção devida a

uma obra de Arte, religiosamente, como se nas suas rolantes e

evocativas estrophes o Poeta orchestrasse a propria musica do mar...

Mas deixemos propriamente o caso da acção politica por parte da geração

a que pertenceu Fialho para o vermos, a elle, tal como tem de ficar,

nessa outra revolução litteraria que sobreleva aquella, e á qual devemos

mais attento exame.

Fialho foi, bem por certo, sob tal ponto de vista, o maior do seu tempo,

pois que realizou um verdadeiro revolucionario da Arte, que, partindo da

admiração dos typos classicos, das paginas mais academicas, seguiu

directamente o filão popular, colhendo e escrevendo, sem o corromper, o

sentimento plebeu, sempre que este sentimento lhe poude expressar uma

verdade, ou refundir da phantasia situações e estados litterarios

novos.

E não se imagine que, ainda no capitulo menos original e mais facil da

sua obra, como pamphetario, elle deixasse de mostrar os melhores

ensinamentos e boa fé.

É ver o que nos diz duma possivel Lisboa monumental, á sua maneira; dos

seus propositos de substituição duma cidade á moderna, como a

fizeram,--facil e incaracteristica,--por uma cidade-memoria!

Ainda mais:--antes delle creara-se uma especie de constitucionalismo das

Lettras, aliaz sempre, mais ou menos regradas ao gosto classico, o

que, de egual maneira, satisfazia leitores e auctores...

Ora Fialho foi um dos raros que, entre nós, com melhor ousio praticou o

direito da escripta a flux, sem medos, como sem os bardos aramados

da covencional Litteratura anterior.

Muito justas as suas paginas de theatro onde versou a nossa

miserabilissima flora dramatica, e onde nem sequer teve a descontar á

auctoridade com que a viu a pecha dalguma vez a ter tentado. O que elle

nos diz dessas peçasinhas de acaso, que lá fóra seriam inverosimeis num

theatro de suburbio, e que, entre nós, tão facilmente são alçadas,

segundo a categoria jornalistica ou politica dos auctores, a peças de

grande effeito, por um publico, ás vezes educado, mas sem coragem para

patear ou sahir a meio da semsaboria em que, por via de regra, nos

nossos palcos, as peças decaem!

Da Hespanha do Sul, sua visinha, vimos como soube orchestrar a luz,

tanto do seu pincel, de par do mais da vida natural que, como ninguem,

teve o poder de aperceber.

Tambem elle, se vivesse em Hespanha, onde a sua intenção revolucionaria

seria inopportuna, teria completado, talvez, o capitulo mais desfalcado

de quanto escreveu:--referimo-nos, sobretudo, á sua maneira de tratar

figuras e seus demais esboços de novellista.

Entre nós, dados os multiplices acasos da mesquinhez publica, que

affecta a nossa vida de livraria, e onde a maior parte dos auctores, de

olhos fitos na _coterie_, raro sabe trabalhar independentemente,--elle

que começou por demolir, e demolir _à outrance_, gastando, a paginas

plenas, talento e nervos, deixou-se, talvez, desviar, demasiadamente,

pelas reclamações que do seu valor o publico exigia; e dahi

aquellas faltas, de que, por fim, a visão clara da derradeira hora lhe

deu os mais angustiosos clarões!

E, entretanto, se onde quer que está, chega a memoria do que vae

passando,--com que surpresa ha de sentir (se lá ha surpresas) tudo isso

que para ahi ficou após de si!

É que, bem péor do que no seu tempo, os Artistas são hoje, para o grande

numero dos mentores officiaes, meras figuras de acaso, cujos agoiros

elles, os revolucionarios de hontem, por cautela, se dão a amordaçar; e,

isto sómente, porque se não perturbe a troça a que a Nacionalidade

desceu,--ou seja uma ceia de politicos, pela cerrada noite fóra, que vem

de longe, e onde um teclado de dentes, instrumentando o desforço de

fomes velhas, nem sequer deixa ouvir, por attenuar, a voz dos

_baccarats_...

Mas abandonemos, por uma razão de sensibilidade, a noticia do

inopportuno festim.

E pois que, sobre uma tal noite, acertou de baixar escuridão mais

tragica, a que ameaça de subverter a raça, que, ainda por sua admiravel

fatalidade, terá de triumphar,--vamos nós inventariando tudo o que ao

presente de grande existe e futuramente possa servir-nos.

Ora, no extranho conjuncto da nossa obra escripta, já hoje

extrema,--têem, como acabamos de ver, o maior interesse, as paginas de

Fialho, quer no seu valor intrinseco, quer pelo que representam em

confronto com os demais e alheios padrões de Arte.

Uma obra, unicamente, elle não teve de seu intento; e, conseguintemente,

não logrou escrever, como a não escreveram, talvez, por a supporem então

menos necessaria, os que o precederam, e que, no entretanto, de

momento, se torna preciso, quanto antes, compor, ainda por servir

aquelle resurgimento.

Reportamo-nos, (quem ainda o não sentiu?) á falta de um _Manual de

Sensibilidade_, o que equivale a informar--duma nova Cartilha, com

destino á futura mocidade portugueza, e onde caibam as delicadezas

porque sempre nos affirmamos, ainda atravez do mais accidentado da nossa

jornada historica; e que hoje, mais do que nunca de opportunidade é que

desde já occupem quem, para alem de todos os sectarismos--sinta, mais do

que por si, pela Nacionalidade, a carinhosa obrigação de as versar!

Trata-se, de resto, dum livro facil, pois que nos não é preciso mais do

que editá-lo dum bem orientado sentido popular, ou seja do nosso velho

espirito de generosidade e isenção, aliaz, de si, ainda latente,

quando não expresso, na obra dos nossos maiores auctores,--tambem,

quanto a nós, os melhores, se não, até hoje, os unicos interpretes da

verdadeira alma de Portugal.

_Ancede_, novembro de 1916.

[2] Propositadamente, e á sua maneira, _pelas suas proprias

palavras_, e tambem «como quem junta uma esculptura de bocados»,

entendemos dever reunir, ainda por melhor o revelar, aquellas suas

mais entranhas e quasi confessadas caracteristicas.

[3] E não se infira destes seus receios o argumento simplista da

improbabilidade do seu suicidio, pois que, muito ao contrario,

aquella versão pode denotar, quem o sabe? como que o seu

aprestamento, com as costumadas alternações de desespero

e intimidades com a Morte, de facto habituaes á maior parte

dos que voluntariamente a provocam.

INDICE

I

Pag.

Cuba e Villa de Frades 7

II

A indole de Fialho 33

III

O Pamphletario 51

IV

O Artista 79

ACABOU DE SE IMPRIMIR

NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»,

RUA DOS MÁRTIRES DA LIBERDADE, 178,

AOS 14 DE FEVEREIRO DE 1917.

End of Project Gutenberg's Fialho d'Almeida, by Visconde de Vila Moura

Fialho d'Almeida · 第 3 / 3 段