Porêm debalde as procura:
Vae a triste, sem ventura,
Lento o passo, o rosto afflicto,
Pela inculta Bersabé.
Seo Ismael desfallece;
No deserto immenso, adusto,
Não encherga um só arbusto:
Jehovah delles s’esquece!
Cresce a dôr, e mingua a fé.
Pede sombra o triste infante:
Não ha sombra,--agoa supplíca;
Exhaurido o vaso fica,
Pede mais d’instante a instante....
Pobre escrava, oh! quanto dó!
Podesses rasgar as veias,
Tomar agoas innocentes
Tuas lagrimas ardentes;
Mas só vês d’um lado areias,
D’outro lado areias só.
Pois não ha quem o proteja,
Diz a escrava lá comsigo,
Vendo o fado seu imigo,
Meu filho morrer não veja,
Bem qu’eu tenha de morrer.
A um tiro d’arco distante
Se arrasta com lento passo,
Tomba o corpo infermo e lasso,
E amargo pranto abundante
Deixa dos olhos correr.
Deos porêm ouvira a prece
Da escrava, da mãe coitada,
E da celeste morada
Librado um archanjo desce
Nas azas da compaixão.
Expira em torno ar de vida,
Um aroma deleitoso,
E n’um sonho aventuroso
Agar seus males olvida,
Olvida a sua afflicção.
Dorme e sonha, ó triste escrava,
Deos senhor sobre ti vela!
Dorme e sonha:--a tua estrella
Nasce como um romper d’alva
Sobre os netos d’Ismael.
Esquece a sorte mesquinha,
Que te vexa,--esquece tudo;
Deos senhor é teu escudo;
Já não es serva, es rainha
D’outro reino d’Israel.
* * * * *
Como quando elevados nas alturas
Descobrimos incognitas paisagens,
Densas florestas, aridas planuras
E de rios caudaes virentes margens;
Assim da vida o sonho te arrebata,
Rasgando o veo do tempo e do infinito,
E uma scena vistosa te retrata,
Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.
Vê como o filho teu, feroz guerreiro,
Nos prainos do deserto eleva as tendas,
E, posto a seus irmãos sempre fronteiro,
Provoca e trama asperrimas contendas!
São doze os filhos--doze reis potentes--
Com elles Ismael tudo avassalla;
Sua espada é a lei das outras gentes,
Seus decretos os campos da batalha.
A sorte seus designios favoneia,
Segue seus passos a benção divina,
Povôa-se Faran, surge d’areia
De Meca o templo, os paços de Medina.
Crescem, dominão: largo reino ingente
Mesquinha habitação presta a seus netos,
Convertida em nação a grei potente,
Que opprime a cerviz mobil dos desertos.
Mas entre os filhos seus de nomeada,
Sup’rior dos heróes á grande altura,
Na sinistra o alkorão, na dextra a espada,
A effigie torva de Mahomet fulgura.
Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina
Á sua lei, da Persia o reino antigo;
Escutão Asia e Africa a doutrina
Do embusteiro que em Meca achou jazigo:
Mensageiro divino se declara
Aquelle que illudido o mundo adora;
Agar é mãe,--pela vergontea cara,
Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.
Peccou; porêm da gloria que o circunda
A roxa luz, que o meteóro imita,
De vivo resplendor a fronte inunda,
Commove o peito a misera proscripta.
Curvado ao jugo seu todo o oriente,
Inda cubiça a Europa o Ismaelita;
E em frente á cruz, o pallido crescente
Apparece nas torres da mesquita.
Oh! quanto humano sangue derramado!
Que de prantos e lagrimas vertidas!
Entre irmãos o combate é porfiado,
A raiva intensa, as lutas mal feridas.
De avistar esse quadro tão medonho,
Embora no porvir todo escondido,
A escrava tenta orar; porêm no sonho
Resume a prece em languido gemido.
Geme de vêr em furia carniceira
A esposa de Mahomet desrespeitada,
E do seu genro a dynastia inteira
Por duro asar de guerra contrastada.
Succedem-se os Omiades valentes;
Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha
O sangue na mesquita: entre essas gentes
Vinga o punhal a sorte da batalha.
O vencedor então, não poucas vezes,
Chegando á bocca a taça corrompida,
Exp’rimenta os tristissimos revezes,
De quem sobre os tropheos exhala a vida!
Tudo é silencio e luto:--um só evita
O negro olvido,--ao templo da memoria
Vôa Al-Reschid,--unindo á gloria avita
O louro da sciencia e o da victoria.
Com seu vizir á noite, pelas ruas
Escuta dos estranhos mercadores
A gloria d’outros reis, menor que as suas,
E espreita do seu povo occultas dores!
Se ouviu a narração d’uma desgraça,
Se o pobre vê curvado a prepotencia,
Se o convidão a entrar, quando elle passa,
No abrigo do infortunio e da innocencia,
Entrou e viu! mas o fulgor crastino
Ri-se mais brando aos peitos soffredores;
Passa o rei, como orvalho matutino,
E, por onde passou, rescendem flores!
Mudado o sonho, a fugitiva escrava
Estranhos povos nota, estranhas terras,
Que o Darro ensopa e o Guadalete lava,
Nadando em sangue de cruentas guerras.
* * * * *
Quem foi que as altas portas
Abriu d’Hespanha aos mouros;
Que poz os verdes louros,
Dos reis godos conquista,
Ás plantas do infiel?
De tantos males causa
Tu foste, ó rei Rodrigo,
Tornando infesto, imigo,
O nobre conde, outr’ora
Vassallo teo fiel.
Debalde o affecto encobres
Do refalsado peito,
Se vais furtivo ao leito
Da virgem, que se mostra
Rebelde ao teo amor:
Qu’es godo e rei t’esqueces!
E o nobre resentido
Da offensa que ha soffrido,
No teu exemplo aprende
A ser tão bem traidor.
Em quanto pois devassas,
Com torpes pensamentos,
Os regios aposentos
Da nobre moça,--a c’rôa
Te cae da fronte ao chão;
E o pae, que a affronta punge,
Turbado, ardendo em ira,
Aos pés do mouro a atira.
O rei, que planta crimes,
Recolha vil traição.
Sus, ó rei, ás armas!
Empunha a larga espada,
E a fronte sombreada
Co’o negro elmo--deixa
Tingir-se em nobre pó:
D’encontro as alas densas
Do barbaro inimigo
Debalde, ó rei Rodrigo,
Te arrojas!--vence á força,
Foges vencido e só!
Vai só; mas occultando
No manto d’um soldado
O rosto demudado,
Emquanto passa o campo,
Escasso leito aos seos:
Ai! triste rei cahido!
Na solitaria ermida,
Que abriga a inutil vida,
No pó collada a fronte,
Lembra-te emfim de Deos.
Lembrem-te os muitos erros
E o crime grave, emquanto
As mães godas em pranto
O nome teu maldizem,
E ao céo clamando estão.
Emquanto pela Iberia
O arabe audaz e forte,
Espalha o susto, a morte,
Por onde quer que solta
Ao vento o seu pendão.
Passão avante, calcão
Dos Pyrenêos as serras,
Levando cruas guerras
Ao dilatado imperio
Do intrepido gaulez.
Debalde o grande Carlos
Oppõe-se-lhes,--que a historia
Nos traz inda á memoria
Dos tristes Roncesvalles
O misero revez.
Porêm do largo imperio
De Cordova e Granada
A c’rôa cahe pesada
Na fronte amollecida
Do moço Boabdil.
O fraco teme os echos
Ouvir da accesa guerra,
E perde a nobre terra
Ganhada em mil batalhas
Com pranto feminil.
Depois, inda outros quadros
Enxerga no futuro;
Mas é um ponto escuro,
São formas vagas, postas
Em duvidosa luz.
Já naves são, já hostes,
Tropel de varia gente,
Que parte do occidente,
Em cujos peitos brilha
De Christo a roxa cruz.
Agar emfim acorda!
Sustendo o filho caro,
Pelo deserto avaro
S’entranha novamente,
Mais solto o coração.
Parece que já sente
No rosto ao bello infante
A gloria radiante,
Que espera os descendentes
Da forte geração.
E como Deos lhe ha dito,
Seus filhos são guerreiros,
Que a seus irmãos fronteiros
Cruentos prelios movem:
Temidos são; porêm
As filhas desses bravos,
Da vida sequestradas,
Escravas são coitadas,
Que da materna origem
Recordão-se no Harem.
* * * * *
Vai, caminha, oh triste escrava,
Deos Senhor sobre ti vela;
Vai, caminha: a tua estrella
Nasce como um romper d’alva
Sobre os netos d’Ismael.
Esquece a sorte mesquinha
Que te vexa, esquece tudo,
Deos Senhor é teu escudo:
--Já não es serva, es rainha
D’outro reino d’Israel.
* * * * *
HYMNO.
* * * * *
O MEU SEPULCHRO.
Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même,
Voici l’épreuve de ta foi!
Que l’impie, assistant à ton heure suprême,
Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi!
LAMARTINE--_Harmonies._
Quando, os olhos cerrando á luz da vida,
O extremo adeus soltar ás esperanças,
Que na terra nos guião, nos confortão
E espação do porvir a senda estreita;
Quando, isento de miseros cuidados,
Disser adeus ás illusões douradas,
Mas com ellas tambem ás dores cruas
Da existencia--aos espinhos ponteagudos,
Com que a verdade o coração nos roça;
Quando tocada não sentir minha alma
Da luz, dos sons, das cores, das magias,
Que a natureza prodiga derrama
No regaço da terra--mais ditoso
Serei acaso então?--Quando o meu corpo
Á terra, mãe commum, pedindo abrigo
Dos sepulchros no valle em paz descance;
Hei de ser mais feliz porque m’o cobre
Pomposo mausoleu, em vez da pedra
Sem nome, em vez do tumulo de cespedes,
Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante
Ao que alli passa, uma oração supplíca?
Oh! não!--ao encalmado é grata a sombra;
Grato descanço aos membros fatigados
Presta igualmente a relva das campinas
E os torrões pelo sol enrigicidos.
Como o trabalhador que a sésta aguarda,
O meu termo fatal sem medo espero!
Eu então pedirei silencio á morte,
E fresca sombra á sepultura humilde,
Que me receba,--e á cuja superficie
Morrão sem echo da existencia as vagas.
Humilde seja embora! Que m’importa
Que a mão d’habil artista me não talhe
Mentiroso epitaphio em preto marmor!
O moimento faustoso, que se erige,
Arranco da vaidade, sobre a campa
De um corpo transitorio, acaso empece
Aos que alli pascem, vermes esfaimados
De roerem-lhe as visceras?!--Solemnes
São da campa os mysterios; mas terrivel
É da morte a rasoura, que nivela
O rico ao pobre, e os berços differentes
Torna um féretro, um leito de Procusto,
Capaz de quanta dôr os homens soffrem:
Tão depressa o cadaver se corrompe
Nas amplas dobras do velludo involto,
Como embrulhado na mortalha exigua,
Que a religiosa caridade amiga,
O pudor dos sepulchros venerando,
Lança do pobre aos restos desprezados.
Os felizes do mundo, acobardados
Ante a imagem da morte, que os assalta,
Temem deixar a terra, onde tranquilla,
Quasi livre de dôr, entre delicias,
Como um rio caudal lhes corre a vida.
Horrorisão-se timidos,--supplicão
Á cruel, que os não leve, que os não roube
Á senda matisada, onde os seus passos
Deslisão-se macios--ás caricias
D’um seio, que lhes presta brando encosto.
O fio da esperança os liga forte
A um corpo que declina, como os lios
De enrediça tenaz prendida á copa
D’uma arvore comida: amedrontados,
Como das fauces negras d’um abysmo,
Do pavoroso tumulo recuão.
Mas eu, que vago solto, como a folha,
Como o fumo subtil; que não limito
Nos terminos da terra os meus desejos,
Folgo de vêr os renques dos sepulchros
No chão da morte largamente esparsos!
Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio
Contempla á beira-mar o degradado
Devolverem-se as vagas,--e saudoso
Da patria sua tão distante--as conta;
Uma por uma as interroga, e pensa
Qual d’aquellas será que o leve e atire,
Naufrago embora e semimorto, ás praias,
Porque chorão seus olhos.--No desterro
Me contemplo tambem,--como elle, choro
A patria, o íman dos meus sonhos gratos.
Abra-se funda a cova ante os meus passos:
Um só delles da morte me separe!...
E esse passo andarei, como quem pisa,
Depois de viajar remotos climas,
O patrio solo, e as auras perfumadas
Do bosque, amigo seu na leda infancia,
Bebe de novo, e de as gozar se applaude.
Hora do passamento! es da existencia
O momento mais sancto, o mais solemne:
Assim o rubro sol, quando no occaso
Em turbilhões de purpura se afunda,
Nos morredouros, despontados raios
Saudoso, extremo adeos á terra envia.
Tal o esposo se aparta suspiroso
E nas azas da brisa manda um beijo
Á esposa, que de o ver partir se enluta,
Rola que vaga na amplidão das selvas.
Cheio de melancholica incerteza,
Dir-te-hei: bem vinda,--ó morte! quando os olhos
Voltar atraz na percorrida estrada;
E chorarei talvez, como quem deixa
O carcere medonho, onde engastada
Nas escamas da dôr gemeu sua alma
Largos annos de antigo soffrimento;
O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte
Das humidas paredes, cujos echos
Inda parecem, na soidão da noite,
Repetir seus tristissimos accentos.
Oh! quão formosa a vida se revela
A quem já bate as portas do infinito,
Encostado aos umbraes da eternidade,
A vez extrema contemplando o mundo!
A folha já myrrada, a pedra solta,
A flôr agreste, a fonte que murmura
E as cantoras do céo, as ledas aves
De variado esmalte, e as suspirosas
Brisas da noite e as do romper da aurora,
A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra,
A planta, os animaes, tudo então vive,
Tudo comnosco sympathisa,--tudo,
Como orchestra afinada por nossa alma,
Acorde aos nossos sentimentos vibra,
Revelando ao que morre os fins da vida.
Dalli melhor compr’hende-se a existencia,
Mais vasta perspectiva se desdobra
Ante os olhos, que a extrema vez lampejão:
E as scenas que a illusão junca de flores,
Que o desejo nos mostra, que nos pinta
Cubiçoso, irisante,--que a esperança
Fugaz de varios modos nos matisa;
Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura,
Tudo se olvida e apaga--semelhante
Á fugitiva estrella ou clarão breve
D’um relampago estivo, que um momento
Se mostra e fulge, logo immerso em trevas.
Que importa que eu não tenha uma só c’rôa,
Um myrrado laurel, uma só folha,
Que ás novas gerações diga o meu nome
E sollicite as attenções futuras?
Sou como o passarinho, quando passa
Á flôr de um lago e a sombra vacillante
No liquido crystal debalde estampa.
Ou semelhante ao viajor que bate
Da vida a estrada pulvurenta, e nota
Como os seus rastos mal impressos cobre
O pó que de seus passos se levanta.
Ah! que dos louros me não dóe a ausencia
Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem
A sepultura humilde,--á cujas gotas
Meus ossos de prazer estremecidos
De as sentir se alegrassem...--mas em troco
Dessa pia oblação, que tantas vezes
Mente ao finado, que as espera eterno,
As lagrimas terei da noite fria,
O fresco humor da chuva, que me eduquem
A agreste flôr, que a natureza obriga
A despontar na solitaria campa.
Ninguem virá com titubantes passos
E os olhos lacrimosos, procurando
O meu jazigo; e em falta de epitaphio,
«Elle aqui jaz!» o coração lhe diga,
E alli se curve então, fundos suspiros
Dando aos echos do funebre recinto,
Involtos na oração que alegra os mortos.
Certo, ninguem virá; porêm tão pouco
Ouvirei maldições, onde escondido,
Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo.
Se deixo sobre a terra alguma offensa,
Se alguma vida exacerbei, se acaso
Alguma simples flôr trilhei passando;
Essas, depois d’eu morto, convertidos
Os odios em piedade--«Em paz descança»
Dirão ante o meu tumulo, e voltando
A um lado o rosto,--deixarão dos olhos
Compassiva uma lagrima fugir-lhes!
Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe
Na tua sancta gloria: alarga as azas
Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto
Humilhado me sinto, como a grama,
Que o pé do viajor sem custo abate.
A ti volvo, ó Senhor,--bem como o filho,
Que ao sopro paixões soltando as velas
Da juventude ardente, foge ao tecto
E ao lar paterno, onde por fim se acolhe,
Consumido o thesouro da innocencia,
Com rubor dos andrajos da pobreza,
Que o vexa,--para ver do pae o rosto,
Para escutar-lhe a voz, embora tenha
Sobre a cabeça a maldição pendente.
* * * * *
SAUDADES.
A MINHA IRMÃ.
J. A. de M.
I.
Eras criança ainda; mas teu rosto
De ver-me ao lado teu se espanejava
Á luz fugaz de um infantil sorriso!
Eras criança ainda; mas teus olhos
De uma brandura angelica, indizivel,
De sympathicas lagrimas turbavão-se
Ao ver-me o aspecto merencorio e triste;
E amigo refrigerio me sopravão,
Um balsamo divino sobre as chagas
Do coração, que a dôr me espedaçava!
A luz de uma razão que desabrocha,
As leves graças, que a innocencia adornão,
Os infantis requebros, as meiguices
De uma alma ingenua e pura--em ti brilhavão.
Eu, gasto pela dôr antes de tempo,
Conhecendo por ti o que era a infancia,
Remoçava de ver teu rosto bello.
Pouco era vel-o!--em ti me transformava;
Bebendo a tua vida em longos tragos,
Todo o teu ser em mim se transfundia:
Meu era o teu viver, sem que o soubesses,
Tua innocencia, tuas graças minhas:
Não, não era ditoso em taes momentos,
Mas de que era infeliz me deslembrava!
* * * * *
Tinhas sobre mim poder immenso,
Indizivel condão, e o não sabias!
Assim da tarde a brisa corre a terra,
Embalsamando o ar e o céo de aromas:
Enreda-se entre flores suspirosa,
Geme entre as flores que o luar prateia,
E não sabe, e não vê, quantos queixumes
Apaga--quantas magoas alivia!
Assim, durante a noite, o passarinho
Em moita de jasmins derrama occulto
Merencorias canções nos mansos ares;
E não sabe, o feliz, de quantos olhos
Tristes, mas doces lagrimas, arranca!
II.
Perderão-te os meus olhos um momento!
E na volta o meu rosto transtornado,
As vestes luctuosas, que eu trajava,
O mudo, amargo pranto que eu vertia,
Annuncio triste foi de uma desdita,
Qual jámais sentirás: teus tenros annos
Pouparão-te essa dôr, que não tem nome.
De quando sobre as bordas de um sepulchro
Anceia um filho, e nas feições queridas
D’um pai, d’um conselheiro, d’um amigo
O sello eterno vae gravando a morte!
Escutei suas ultimas palavras,
Repassado de dôr!--junto ao seu leito,
De joelhos, em lagrimas banhado,
Recebi os seus ultimos suspiros.
E a luz funerea e triste que lançarão
Seus olhos turvos ao partir da vida
De pallido clarão cobrio meu rosto,
No meu amargo pranto reflectindo
O cançado porvir que me aguardava!
* * * * *
Tu nada viste, não; mas só de ver-me,
Flôr que sorrias ao nascer da aurora
No denso musgo dos teus verdes annos,
A procella imminente presentiste,
Curvaste o leve hastil, e sobre a terra
Da noite o puro aljofar derramaste.
III.
O encanto se quebrára!--duros fados
Inda outra vez de ti me separavão.
Assim dois ramos verdes juntos crescem
N’um mesmo tronco; mas se o raio os toca,
Lascado o mais robusto cahe sem graça
De rojo sobre o chão, em quanto o outro
Da primavera as galas pavoneia!
Já não ha quem de novo unil-os possa,
Quem os force a vingar e a florir juntos!
* * * * *
Parti, dizendo adeus á minha infancia,
Aos sitios que eu amei, aos rostos caros,
Que eu já no berço conheci,--áquelles
De quem máo grado, a ausencia, o tempo, a morte
E a incerteza cruel do meu destino,
Não me posso lembrar sem ter saudades,
Sem que aos meus olhos lagrimas despontem.
Parti! sulquei as vagas do oceano;
Nas horas melancolicas da tarde,
Volvendo atraz o coração e o rosto,
Onde o sol, onde a esp’rança me ficava,
Misturei meus tristissimos gemidos
Aos sibilos dos ventos nas enxarcias!
* * * * *
Revolvido e cavado o negro abysmo,
Rugia indomito a meus pés: sorvia
No fragor da procella os meus soluços.
Vago triste e sosinho sobre os mares,
--Dizia eu entre mim,--na companhia
De crestados, de rispidos marujos,
Mais duros que o seu concavo madeiro!
Ave educada nas floridas selvas,
Vim da praia beijar a fina areia.
Subitaneo tufão arrebatou-me,
Perdi a verde relva, o brando ninho,
Nem jamais casarei doces gorgeios
Ao saudoso rugir dos meus palmares;
Porêm a branca angelica mimosa,
Com seu candor enamorando as aguas,
Florece ás margens do meu patrio rio.
IV.
Largo espaço de terras estrangeiras
E de climas inhospitos e duros
Interpoz-se entre nós!--Ao ver nublado
Um céo d’inverno e as arvores sem folhas,
De neve as altas serras branqueadas,
E entre esta natureza fria e morta
A espaços derramadas pelos valles
Triste oliveira, ou funebre cypreste,
O coração se me apertou no peito.
Arrasados de lagrimas os olhos,
Segui no pensamento as andorinhas,
Nos invejados vôos!--procuravão,
Como eu tambem nos sonhos que mentião,
A terra que um sol calido vigora,
E em frouxa languidez estende os nervos.
Patria da luz, das flores!--nunca eu veja
O sol, que adoro tanto, ir afundar-se
Nestes da Europa revoltosos mares;
Nem tibia lua, involta em nuvens densas,
Luzindo mortuaria sobre os campos
De frios sues queimados.--Ai! dizia,
Ai d’aquelle que um fado aventureiro,
Qual destroço de misero naufragio,
A longinqua e remota plaga arroja!
Ai d’aquelle que em terras estrangeiras
Corta nas azas do desejo o espaço,
Em quanto a realidade o vexa entorno
E oppresso o coração de dôr estala!
Onde a pedra, onde o seio em que descance?
Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra
E olentes flores derramar co’a brisa
Na fronte encandecida? Peregrino,
Em toda a parte forasteiro o chamão!
Insensivel a dôr, na sua marcha,
Não, não attende ao termo da jornada;
Mas volta atraz o rosto,--e entre as sombras
Confusas do horisonte--encherga apenas
O debil fio da esperança teso,
E da ingrata distancia adelgaçado!
* * * * *
E todavia amei! pude um momento
Vêr perto a doce imagem debruçada
Nas aguas do Mondego,--ouvir-lhe um terno
Suspiro do imo peito, mais ameno,
Mais saudoso que as auras encantadas,
Que entre os seus salgueiraes morão loquaces!
Foi um momento só!--talvez agora
Nas mesmas aguas se repete imagem
Dos meus sonhos de então!--talvez a brisa,
Nas folhas dos salgueiros murmurando,
Meu nome junto ao seu repete aos echos,
Que eu, triste e longe della, escuto ainda!
* * * * *
Sim, amei; fosse embora um só momento!
Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos,
Em vivas labaredas conflagrou-se.
Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma,
Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro
A soltar, a romper tão doces laços
Não podera dizel-o, em que o quizesse.
Tão louco estava então,--dores tão cruas,
Magoas tantas depois me acabrunharão,
Que desse meu passado extincta a idéa,
Deixou-me apenas um soffrer confuso,
Como quem de um máo sonho se recorda!
Assim, depois de arder um denso bosque
Dos ventos a mercê revôa a cinza
N’um paramo deserto! Nada resta;
Nem se quer a vereda solitaria,
A cuja extremidade o amor velava!
V.
Rotos na infancia os laços de familia,
Os fados me vedavão reatal-os,
Ter a meu lado uma consorte amada,
Rever-me na affeição dos filhos caros,
Viver nelles, curar do seu futuro
E neste empenho consumir meus dias;
Mas ao menos, pensava,--ser-me-ha dado
Amimar e suster nos meus joelhos
Da minha irmã querida a tenra prole,
Inclinal-a a piedade, e ao relatar-lhe
Os successos da minha vida errante,
Innocular-lhe o dom fatal das lagrimas!
Essa mesma esperança não me illude;
Ave educada nas floridas selvas,
Um tufão me expellio do patrio ninho.
As tardes dos meus dias borrascosos
Não terei de passar, sentado á porta
Do abrigo de meus paes,--nem longe delle,
Verei tranquillo aproximar-se o inverno,
E pôr do sol dos meus cançados annos!
* * * * *
NOTAS.
PRIMEIROS CANTOS. POESIAS AMERICANAS.
_Tacápe_ (pag. 4), arma offensiva, especie de maça contundente,
usada na guerra e nos sacrificios. A etymologia desta palavra indica
que os Indios os endurecião ao fogo, como costumavão fazer aos seos
arcos: _Tatá-pe_ quer dizer «no fogo».
* * * * *
_Boré_ (pag. 5), instrumento musico de guerra; dá apenas algumas
notas, porêm mais asperas, e talvez mais fortes que as da Trompa.
* * * * *
_Piaga_ (pag. 6), piagé, piaches, piayes; os autores portuguezes
escreverão _pagé_, como em verdade ainda hoje se diz no Pará. Era
ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e cantor dos indigenas
do Brazil. (Veja-se a nota correspondente nos Ultimos Cantos pag. 419.)
* * * * *
_Anhangá_ (pag. 7), genio do mal, o mesmo que Lery chama
_Aignan_ e Hans Staden _Ingange_.
* * * * *
_Manitôs_ (pag. 7) uns como penates que os indios da America do
norte veneravão. O seo desapparecimento augurava grandes calamidades ás
tribus, de que elles houvessem desertado.
* * * * *
TABYRA.
«Tobajaras--o povo senhor.»
(Pag. 150.)
Ces Tobaïares qui réclamaient l’anteriorité dans la domination du pays,
et qui se donnaient un titre équivalent à celui de _seigneurs de la
contrée_. Ferdinand Denis.
«Tobajaras são os indios principaes do Brazil, e pretendem elles serem
os primeiros povoadores e senhores da terra. O nome, que tomarão, o
mostra; porque _yara_ quer dizer senhores, _tobá_ quer dizer rosto;
e vem a dizer que são os senhores do rosto da terra, que elles tem
pella fronteira do maritimo em comparação do sertão.»--Padre SIMAM DE
VASCONCELLOS. Noticias do Brazil. L. 1. n. 156.
Escrevendo Tobajaras segui, por ser mais euphonico, a ortographia do
Padre Vasconcellos. Convem todavia confessar que se não deveria dizer
_Tobajaras_, como este Chronista, mas _Tabajaras_ ou _Tabaiaras_, com
Ferdinand Denis, o que mais se conforma com a etymologia, «Taba e Iara
ou Yara.» Tabajaras é litteralmente como se dissessemos, os senhores ou
dominadores das Aldeias.