Por isso mesmo que os Tobajaras occupavão o littoral, é de suppor que

elles fossem antes os conquistadores, que os primeiros povoadores

do paiz. Os conquistadores, como homens que erão, carentes das mais

simples noções da agricultura, deverião de preferencia escolher as

praias como mais mimosas da natureza e mais fartas, recalcando assim

para o centro das matas os incolas primitivos do paiz. É isto o que

sabemos da historia de todos os povos barbaros. Os Tobajaras portanto

dominárão pela conquista e quadra-lhes optimamente o nome que tomárão

de senhores das aldeias--de _Tabajaras_.

«Potiguares lá vem denodados.»

(Pag. 152.)

Dizem uns Potiguares ou Petiguares, outros Pitigoares. Delles escreve o

Padre Vasconcellos:

«Em segundo logar (_depois dos Tobajaras_) os Potiguares forão

sempre indios de valor, e se fizerão estimar pelas armas, que por

longos annos moverão contra os Tobajaras: nas quaes tiverão encontros

dignos de historia; porêm não me posso deter em contallos,... punhão em

campo vinte até trinta mil arcos.»--Not. do Brazil. L. 1. n. 157.

* * * * *

SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

(Pag. 196.)

Os vocabulos que emprego nestas sextilhas se achão todos no Diccionario

de Moraes, bem que as mais das vezes no sentido antiquado. É assim que

uso de «porêm, porende» em vez de «por isso»; de «perol» em vez de

«porêm»; de «ora, embora» em vez de «agora, em boa hora» etc.

* * * * *

GULNARE E MUSTAPHÁ.

Diz a Princeza D. Joanna (pag. 221):

«Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.»

A Chronica de Cister tão bem diz, fallando da Princeza D. Thereza,

filha de Sancho I.:

«Viuendo a santa _raynha_, foy Deos servido levar para si a el-Rey

seu pay, a quem succedeo no reyno dom Afonso o segundo do nome.»

«Raynha (diz Fr. Luiz de Sousa) lhe chamão as historias antigas, que

era o titulo com que então se tratavam as filhas dos reys.»--H. de S.

D.--L. 1. C. 11.

* * * * *

ULTIMOS CANTOS.

O GIGANTE DE PEDRA.

(Pag. 275.)

Alguns dos principaes montes da enseada do Rio de Janeiro parecem aos

que vem do Norte ou do Sul representar uma figura humana de colossal

grandeza: este capricho da natureza foi conhecido dos primeiros

navegantes portugueses com a denominação de «frade de pedra», que agora

se chama «o gigante de pedra.»--Áquelle objecto se fez esta poesia.

* * * * *

...... extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés.

(Pag. 278.)

_Tamoyos_ erão os primeiros habitantes do Rio.--_Pagés_ erão os

sacerdotes, os augures, os medicos dos indigenas de todo o litoral

do Brazil--os mesmos a que nos «Primeiros Cantos» dei o nome de

piagas. Eis o que n’aquella obra escrevi a este respeito (pag.

417).--«Piagé--Piache--Piaye ou Piaga, que mais se conforma á nossa

pronuncia, era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o

cantor dos indigenas do Brazil e de outras partes da America.» E em

outra nota accrescentei: «Erão anachoretas austeros, que habitavão

cavernas hediondas, nas quaes, sob pena de morte, não penetravão

profanos. Vivendo rigida e sobriamente, depois de um longo e terrivel

noviciato, ainda mais rigido que a sua vida, erão elles um objecto de

culto e de respeito para todos;--erão os dominadores dos chefes--a

balisa formidavel, que felizmente se erguia entre o conhecido e o

desconhecido--entre a tão exigua sciencia d’aquelles homens, e a tão

desejada revelação dos espiritos.»--Hans Staden escreve _Paygi_; _Payé_

lê-se em uma das obras do Padre Vasconcellos, nome que tambem lhes dá

Laet na sua «Descripção das Indias occidentaes.» Lery e Damião de Goes

escrevem _Pagé_, orthographia que agora adoptamos.

* * * * *

Sons do murmuré.

(Pag. 278.)

_Murémuré_ escreve o padre Vasconcellos nas suas «Noticias

Curiosas»: collige-se que é um instrumento feito de ossos de defuntos,

como alguns outros, de que se servião.

* * * * *

Em Guanabara esplendida.

(Pag. 278.)

_Guanabara_--a enseada do Rio de Janeiro.--Escreve-se

indifferentemente Genabara ou Ganabara. Lery diz na sua obra

_«Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil» en ceste riviere

de Ganabara_. Southey (_History of Brasil_) accrescenta em uma

nota, que Nicolau Barré datava desta maneira as suas cartas: _Ad

flumen Genabara in Brasilia etc._

* * * * *

O guáu cadente e vário.

(Pag. 278.)

_Guáu_--dansa. «São mui dados a saltar e dansar de differentes modos,

a que chamão _guau_ em geral.»--VASCONCELLOS. Noticias Curiosas

L. 1.--n. 143.

* * * * *

E das ygaras concavas.

(Pag. 278.)

_Ygaras_--erão canoas, feitas de ordinario de um só toro de

madeira.

* * * * *

Os cantos da janubia.

(Pag. 279.)

_Janubia._--Lery escreve diversamente: _des cornets, qu’ils

nomment inubia de la grosseur et longueur d’une demie pique,

mais par le bout d’embas larges d’environ un demi pied comme un

hautbois_.--_Obra cit._ pag. 202.

* * * * *

LEITO DE FOLHAS VERDES.

A arasoya na cinta me apertarão.

(Pag. 281.)

_Arasoya_ era o fraldão de pennas, moda entre elles. Laet chama

_assoyave_ a uns mantos inteiros: não sei de que mantos quer o

author fallar. Hans Staden (collecção de Ternaux pag. 108) dá o mesmo

nome a uma especie de cocar preso ao pescoço, e passando além da

cabeça, com quanto a este ornato Lery dê o nome de _Yenpenamby_.

Quanto a arasoya, eis o que se lê na obra já citada deste author (pag.

103): _Pour la fin de leurs esquippages, recouvrans de leurs voisins

de grandes plumes d’austruches, de couleurs grises, accommodans tous

les tuyaux serrez d’un costé, et le reste qui s’esparpille en rond en

façon d’un petit pavillon ou d’une rose, ils en font un grand pennache,

qu’ils appellent araroye: le quel estant lié sur leurs reins avec une

corde de cotton, l’estroit devers la chair, et le large en dehors,

quand ils en sont enharnachez etc._

* * * * *

Y-JUCA-PYRAMA.

(Pag. 281.)

O titulo desta poesia, traduzido litteralmente da lingua tupi, vale

tanto como se em portuguez dissessemos «o que ha de ser morto, e que é

digno de ser morto.»

* * * * *

No meio das tabas.

(Pag. 281.)

_Taba_--aldeia de indios, composta de differentes habitações, a

que chamavão _ocas_. Quando estas habitações se achavão isoladas,

ou fossem levantadas para o abrigo de uma ou já para o de muitas

familias, tomavão o nome de _Tejupab_ ou _Tejupabas_.

* * * * *

São todos Tymbiras.

(Pag. 281.)

_Tymbiras_--tapuyas, que habitão o interior da provincia do

Maranhão.

* * * * *

As armas quebrando.

(Pag. 282.)

Por este acto declaravão firmadas as pazes. Vieira faz menção desta

solemnidade quando, em uma informação ao monarcha portuguez, se occupa

da alliança feita entre os missionarios por parte dos portugueses e dos

_Nhe-engaybas_ de Marajó.

* * * * *

Assola-se o tecto.

(Pag. 282.)

A descripção das cerimonias, com que elles usavão matar os seus

prisioneiros de guerra, é rigorosamente exacta, ainda que não

adoptamos dos authores senão aquillo em que todos ou a maior parte

concordão. Veja-se Hans Staden--cap. 28--dos usos e costumes dos

Tupinambás.--Noticia do Brazil, cap. 171 e 172. Noticias Curiosas L. 1.

n. 188 e Lery cap. XV.

* * * * *

Entesa-se a corda da embira...

(Pag. 282.)

Chamava-se mussurana a corda com que se atava o prisioneiro.--«_Et

une longue corde nommée massarana, avec laquelle ils les attachent_

(les captifs) _quand ils doivent être assomés._» (H. Staden, pag.

300.) _Musurana_ escreve Ferdinand Denis, accrescentando que

era feita de algodão. É possivel que em algumas tribus fosse feita

desta materia, mas convem notar que na maior parte dellas era uso

fabricarem-se cordas de embira.

* * * * *

Adorna-se a maça com pennas gentis.

(Pag. 282.)

A maça do sacrificio não era o mesmo que a ordinaria, e tinha mais

a differença dos ornatos que se lhe juntava, e do esmero com que

era trabalhada. Lavravão e pintavão todo o punho--embagadura, como

o chamavão--com desenhos e relevos a seu modo curiosos, e della

deixavão pendente uma borla de pennas delicadas e de cores differentes,

sendo a folha ornada de mosaicos.--«Pintão (diz H. Staden, pag. 301)

a massa do sacrificio, a que chamão _iverapeme_, com a qual

deve ser sacrificado o prisioneiro: passão-lhe por cima uma materia

viscosa, e tomando depois a casca dos ovos de um passaro chamado

_Mackukawa_ de côr parda escura, reduzem-n’as a pó, e com elle

salpicão toda a massa. Preparada a iverapeme, e adornada de pennas,

suspendem-n’a em uma cabana inhabitada, e cantão em redor della toda a

noite.»--Ferdinand Denis, accrescentando-lhe o artigo francez, escreve

_Liverapeme_, que diz ser feita de páo-ferro e com mosaicos de

diferentes cores. Vasconcellos dá-lhe o nome de Tangapema, que é o

termo do diccionario braziliano.

* * * * *

Brilhante enduápe no corpo lhe cingem.

(Pag. 282.)

_Enduápe_--fraldão de pennas de que se servião os guerreiros:

damos a denominação de _arasoya_ a aquelles de que usavão as

mulheres. «_Ils font avec de plumes d’autruches une espèce d’ornement

de forme ronde, qu’ils attachent au bas du dos, quand ils vont à

quelque grande fête: ils le nomment enduap._» _H. Staden._

Pag. 270. Vasconcellos trata do _enduápe_ sem lhe dar nome algum

especial. «Pela cintura apertão uma larga zona: desta pende até os

joelhos um largo fraldão a modo tragico, e de tão grande roda como é a

de um ordinario chapeo de sol.» Noticias Curiosas L. 1. n. 129.

* * * * *

Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

(Pag. 282.)

_Kanitar_--é o nome do pennacho ou cocar, de que usavão os

guerreiros de raça tupi, quando em marcha para a guerra, ou se

aprestavão para alguma solemnidade, d’importancia igual a esta.

«_Ils ont aussi l’habitude de s’attacher sur la tête un bouquet de

plumes rouges qu’ils nomment Kanittare_» (H. Staden).--Usão de umas

corôas a que chamão _acanggetar_ (Laet). Os primeiros portuguezes

escreverão _acangatar_, que litteralmente quer dizer «enfeite ou

ornato da cabeça».

* * * * *

MARABÁ.

(Pag. 296.)

Encontramos na «Chronica da Companhia» um trecho que explica a

significação desta palavra, e a idéa desta breve composição.

«Tinha certa velha enterrado vivo um menino, filho de sua nora, no

mesmo ponto em que o parira, por ser filho a que chamão «marabá»

que quer dizer de mistura (aborrecivel entre esta gente).»

VASCONCELLOS, Ch. da Comp., L. 3. n. 27.

* * * * *

Formosos como um beija-flor.

(Pag. 297.)

Os indigenas chamavão ao beija-flor «Coaracy-aba» «raios», ou mais

litteralmente «cabellos do sol».

* * * * *

A MÃE D’AGUA.

(Pag. 302.)

A mãe d’agua é uma naiada moderna, um espirito que habita no fundo dos

rios. Acredita-se em muitas partes do Brazil que é uma mulher formosa

com longos cabellos de oiro, que lhe servem como de vestido, com olhos

que exercem inexplicavel fascinação, e voz tão harmoniosa que ninguem,

que a escute, resiste á tentação de se atirar as aguas para que mais

de perto a ouça e contemple. O mesmo que as serêas, tem sobre ellas a

vantagem de serem creaturas de formas perfeitas, e dellas se distinguem

em fascinarem tanto com o brilho da formosura, como com a doçura da

voz, e de attrahirem principalmente os meninos.

* * * * *

RETRACTAÇÃO.

(Pag. 366.)

Indisculpavel descuido seria, deixar de mencionar o nome do Sr. D.

Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo

«Retractação». Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os

«Segundos Cantos», recebi uma carta do Sr. Guido: era uma critica, mas

critica benevola, cheia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma

e ao correr da pena. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com

os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que

então pela primeira vez se me revelava como tal,--joven enthusiasta, e

cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.

Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2.

volume, accrescentava elle:

«Dir-se-hia que a sua _palinodia_ é um chuveiro de pedras

crystallisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem

as mais pronunciadas, fortes e soberbas cores; porêm que devião

converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem

até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema

fulminante.

«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o

levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias,

pensaria talvez que aquella mulher existe, e então eu faria ao poeta

amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»

Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação,

versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da

sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito

vibrar a lyra doirada do poeta argentino. _Consuelo_ foi o titulo

que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação

e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido;

mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me

ficarão no coração.--Consolações e esperanças!--Doces são, por certo,

as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, ainda que não

acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em

nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os

seus votos não tenhão de ser realizados nunca!

* * * * *

NOTAS DE RODAPÉ:

[1: Artigo publicado na Revista Universal Lisbonense. Tom. 7,

pag. 5.--anno de 1847--1848.]

[2: Ego sum qui sum.]

[3: Et ecce equus pallidus, et qui sedebat super illum nomen

illi Mors.

APOC., c. VI.]

[4: Em 1851, na typographia do Sr. Paula Brito.]

Impresso em Leipzig por F. A. Brockhaus.

=NOTAS DE TRANSCRIÇÃO.=

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes

quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original;

caso contrário, não foram alterados.

As aspas irregulares foram corrigidas quando a mudança era evidente e,

caso contrário, foram deixadas de acordo com o original.

Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com

ou sem chaves para representar letras sobrescritas.

Cantos · 第 17 / 17 段