Ou balançada n’um ligeiro barco,

Que de um lago tranquillo as aguas frisa,

Soltando a voz as brisas namoradas,

Que de te ouvir suspirão;

Ou n’uma bronca penha descalvada

O mar e os céos contemples pensativa,

E a redeas soltas do pensar divagues

Nos campos do infinito;

Es sempre bella: já teus olhos brilhem

Luz que fascina, ou morbidos reflexos,

Teus labios entre-abertos sempre exhalão

Calor, que incendio ateia.

Oh! que bella tu es, quando assentada

No teu balcão, ao refulgir da lua,

Manso te apoias em coxins de seda,

E o bello azul dos céos triste encarando

Pensas em Deos,--talvez no teu futuro,

Talvez nos teus pezares,--que na fonte

De limpha pura, crystallina e fresca

Aquatica serpente usa occultar-se.

Mas como es bella assim! co’a mão sem força

Tirando sons perdidos, sons que encantão,

Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes!

Mas como es bella assim!--quando o teu peito

Entre a gaza subtil de leve ondeia!

Como a onda do mar pausada e fraca

Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega

Á doce praia, onde os seus ais se quebrão;

Assim teu peito bate, e nos teus labios

Do extremo palpitar morre um suspiro.

Como d’harpa afinada a corda sôa,

Mal desfere seus sons outro instrumento;

Assim tambem minha alma se entristece,

Assim tambem meu peito arqueja e pula!

Eis porque amor me liga aos teus destinos,

Porque sou teu escravo,--bem que saiba

Que se a tua alma a belleza

Tem de um anjo a formosura,

Não tens de um anjo a candura,

Nem tens delle a singeleza!

Eis porque ardo por ti, porque padeço

Do inferno crus tormentos!

Porque dos zelos o fel mancha minha alma

De negros pensamentos!

Mas que importa este amor que me consome?

Eu quero sentir dôr;

Quero labios que entornem nos meus labios

Alento escaldador!

Quero fogo sentir contra o meu peito,

Quero um corpo cingir que eu sinta arder,

Quero beijos só teus, caricias tuas,

Que dão morrer!

Que importa ao edificio que scintilla,

De roaz fogo tomado,

Ser por um raio abrasado

Ou por ignobil favilla?

É sempre ardor, sempre fogo,

Sempre d’incendio o clarão,

Sempre o amor que estúa e ferve

Como um gigante vulcão.

* * * * *

A NUVEM DOIRADA.

(N’UM ALBUM.)

A nuvem doirada se expraia no occaso,

Roçando co’as franjas o throno de Deos;

A aguia arrojada seus vôos levanta,

Traçando caminhos nos campos dos céos!

Exhala perfumes a flôr do deserto,

Embora dos ventos o sopro fatal

Embace-lhe as côres,--e o mar orgulhoso

Suspira queixoso--no extenso areal.

E os bardos mimosos nos cantos singelos

Imitão as nuvens no incerto vagar:

Vão sós como as aguias,--exhalão perfumes,

Suspirão queixumes--das vagas do mar.

Por isso quem ama, quem sente no peito

Cantar-lhe das lyras a lyra melhor;

Os carmes lhes ouve, que os bardos só cantão

Saudades, perfumes, enlevos e amor!

* * * * *

SONHO DE VIRGEM.

A. D. A. C. G. A.

I.

Que sonha a donzella,

Tão vaga, tão linda,

Bemquista e bemvinda

Na terra e no céo?

Que scisma? que pensa?

Que faz? que medita,

Que o seio lhe agita

Tão bravo escarcéo?

Que faz a donzella,

Se lagrimas quentes

Das faces ardentes

Lhe queimão a tez?

Que sonha a donzella,

Se um riso fagueiro,

Donoso e ligeiro

Nos labios lhe vês?

Que faz a donzella,

Que scisma, ou medita?

Talvez lá cogita

Fruir algum bem;

Então porque chora?

Se curte agras dores

D’ingratos amores,

O riso a que vem?

Semelha a donzella,

Que ri-se e que chora,

Á limpida aurora,

Que orvalha dos céos;

Não luz mais brilhante,

Não chora mais prantos,

Não tem mais encantos,

Que um riso dos seus.

II.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos,

Aventar teus angelicos desejos,

Saber de quantas ledas fantasias,

De quantos melindrosos pensamentos

Um suspiro se nutre, um ai se gera.

Virgem, virgem de amor, que vais boiando

Á flôr da vida, como rosea folha,

Que aragem branda sacudio nas aguas;

Que genio bom a magica vergasta

Em troco de um sorriso te concede?

Que poderosa fada te embalsama

A vida e os sonhos?--que celeste archanjo

Embala, agita as creações que idéas,

Como em raio do sol dourados átomos

Com que invisivel ser brincar parece!

Virgem, virgem de amor, quaes são teus sonhos?

III.

Talvez quando o sol nasce, lá divisas

Na liquida extensão do mar salgado

Correr com mansas brisas

Um ligeiro batel aparelhado.

As velas de setim brancas de neve

Rutilão d’entre as flamulas e cores,

E o barco airoso e leve

Nos remos voga de gentis amores.

Não formão rijos sons celeuma dura,

Nem a companha entre bulcões desmaia;

Aragem fresca e pura

Doces carmes de amor conduz á praia.

Sonhas talvez nas orlas do occidente,

De um regato sentada á branda margem,

Ver surgir de repente

De uma cidade a caprichosa imagem!

Soberbas construcções fantasiando,

Vês agulhas subtis cortando os céos,

E a luz do sol doirando

Rutilos tectos, altos corucheos.

Sonhas talvez palacios encantados,

Espaçosos jardins, fontes de prata,

Vergeis de sombra grata,

Onde a alma folga, isenta de cuidados.

Sonhas talvez, mas innocente Armida,

Passar a facil quadra dos amores,

Tendo em laço de flores

Preso de quem mais amas peito e vida!

IV.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos?

Aventar teus mais intimos desejos,

E ser o genio bom que t’os cumprisse!

V.

Nem só prazeres medita,

Nem só pensa em bellas flores;

Muitas ha que almejão dores,

Como outras buscão amor:

É que as punge atra amargura,

Que o peito anceia e fatiga;

É sêde que só mitiga

Talvez afflicção maior.

Quasi gozão, quando vertem

Um pranto cançado e lento;

Quando um comprido tormento

Lhes derrete o coração:

Não é martyrio de sangue,

Como nas eras passadas;

Mas ha lagrimas choradas,

Que tambem martyrio são.

Ha dores que melhor ralão

Que provas d’agua ou de fogo,

Que ver apinhado o povo

N’um banquete canibal;

Que sentir no amphitheatro

As vivas carnes rasgadas

Pelas presas navalhadas

De um fero lobo cerval.

VI.

Quem me dera saber quaes são teus sonhos,

Aventar teus mais fundos pensamentos,

E ser o genio bom que t’os cumprisse,

Quando fossem de amor teus meigos sonhos!

VII.

Mas donde mana essa fonte

De inexplicavel ternura,

Que os golpes da desventura

Não podem nunca estancar;

Essa vida toda extremos,

Esse ardor de todo o instante,

Esse amor sempre constante,

Que nunca se vê mingoar?

Quizera, virgem donosa,

Saber a origem divina

Dessa fonte peregrina

De tanta luz e calor;

Então pudera em meus cantos,

Tratar dos teus meigos sonhos,

Formar uns quadros risonhos

De quanto sentes de amor.

Roubando as cores do Iris,

Das estrellas os fulgores,

O aroma que tem as flores,

O vago que tem o mar;

Talvez pudera os mysterios,

As douradas phantasias,

As singelas alegrias

D’um peito virgem cantar.

* * * * *

MEU ANJO, ESCUTA.

Le mal dont j’ai souffert s’est enfui comme un rêve,

Je n’en puis comparer le lointain souvenir

Qu’à ces brouillards légers que l’aurore soulève

Et qu’avec la rosée on voit s’évanouir.

MUSSET.

Meu anjo, escuta: quando junto á noite

Perpassa a brisa pelo rosto teu,

Como suspiro que um menino exhala;

Na voz da brisa quem murmura e falla

Brando queixume, que tão triste cala

No peito teu?

Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes luctuosa imagem

D’afflicto pranto com sombrio véo,

Rasgado o peito por acerbas dores;

Quem murcha as flores

Do brando sonho?--Quem te pinta amores

D’um puro céo?

Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem te acorda do celeste arroubo,

Na amenidade do silencio teu,

Quando tua alma n’outros mundos erra,

Se alguem descerra

Ao lado teu

Fraco suspiro que no peito encerra;

Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem se afflige de te ver chorosa,

Se alguem se alegra co’um sorriso teu,

Se alguem suspira de te ver formosa

O mar e a terra a ennamorar e o céo;

Se alguem definha

Por amor teu,

Sou eu, sou eu, sou eu!

* * * * *

OS BEIJOS.

Amo uns suspiros quebrados

Sobre uns labios nacarados

A gemer, a soluçar;

Como a onda bonançosa,

Que n’uma praia arenosa

Vem tristemente expirar!

Amo ouvir uma voz pura,

Uns accentos de ternura,

Que trazem vida e calor;

Que se derramão a medo,

Como temendo o segredo

Revelar do occulto amor!

Amo a lagrima que chora

Tema virgem que descora,

Presa d’interna afflicção;

Amo um riso, um gesto vivo,

Um olhar honesto, esquivo,

Que alvoroça o coração.

Porêm mais que o olhar honesto,

Mais que o riso e brando gesto,

Mais do que o pranto a correr,

Mais que a voz, quando amor jura,

Que um suspiro de ternura,

Que vem aos labios morrer;

Amo o leve som de um beijo,

Quando rompe o véo do pejo,

Mal sentido a murmurar:

É viva flôr de esperança,

Que nos promette bonança,

Como a flôr do nenuphar.

Mente o olhar, mesmo em donzella,

Mente a voz que amor assella,

Mente o riso, mente a dôr;

Mente o cançado desejo;

Só não mente o som de um beijo,

Primicias de um longo amor!

Beijos que são? Duas vidas,

São duas almas unidas,

Que o mesmo fogo consume:

São laço estreito de amores;

Porque são os labios flores

De que os beijos são perfume!

Beijos que são?--Ai do peito,

Sello breve, laço estreito

D’um cançado bem querer;

Saibo dos gozos divinos,

Que nos labios femininos

Quiz Deos bondoso verter.

Já por feliz me tivera,

Triste de mim! se eu pudera

Dizer o que os beijos são:

Sei que inspirão luz e calma,

Sei que dão remanso á alma,

Que trazem fogo a paixão.

Sei que são flôr de esperança;

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar:

Quem fruio um ledo beijo,

Ter não póde outro desejo,

Nada já póde gozar.

Sei que delles não se esquece

Triste velho, que esmorece

Á mingoa de coração:

Viva estrella em noite escura,

Viva braza em cinza pura,

Em neve algente um vulcão.

Sei que fruil-os uma hora

De ventura seductora,

É subir em vida aos céos,

É fugir da vida escassa,

Roubar ao tempo que passa

Um dos momentos de Deos.

Sei que são flôr de esperança,

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar!

Quem os fruio, o que espera?

Já gozou, já não tem era,

Já não tem mais que esperar.

* * * * *

DESESPERANÇA.

Antes d’espirar el dia,

Vi morir á mi esperanza.

ZARATE.

Que m’importa do mundo a inclemencia

E esta vida cruel, amargada?

Des’que os olhos abri á existencia

Um vislumbre de amor não achei!

Nem uma hora tranquilla e fadada,

Nem um gozo me foi lenitivo;

Mas no mundo maldicto, em que vivo,

Quantas ancias, meu Deos, não provei!

Já bastante lutei com meu fado!

Quando outr’ora corri descuidoso

Traz de um bem, não real, mas sonhado,

Transbordava de sonhos gentis:

Eu julgava que a um peito brioso

Ou que a uma alma, que facil s’inflamma

Por virtudes, por gloria, ou por fama,

Era facil aqui ser feliz.

Via o mundo ao travez dos meos prantos

A sorrir-se p’ra mim caroavel,

Reflectindo celestes encantos,

Que era visto d’um prysma ao travez:

Hoje trevas em manto palpavel

Me circundão,--nem já por acerto

Vejo triste nos prantos, que verto,

Luz do céo reflectida outra vez!

Que me resta na terra?--Estas flores,

Afagadas do sopro da brisa,

Disputando do sol os fulgores,

Balançadas no debil hastil!

Estas fontes de prata, que frisa

Brando vento,--estas nuvens brilhantes,

Estas selvas sem fim, susurrantes,

Estes céos do gigante Brasil;

Nada já me renova a esperança,

Que jaz morta, qual flôr resequida;

Só me resta a querida lembrança

Que o martyrio se acaba nos céos:

Foge pois, ô minha alma, da vida;

Foge, foge da vida mesquinha,

Leva timida esp’rança, caminha,

Té parar na presença de Deos!

Qu’estes gozos de ethereos prazeres,

Que esta fonte de luz que illumina,

Que estes vagos phantasmas de seres,

Que scismando só posso enxergar;

Que os amores de essencia divina,

Que eu concebo e procuro e não vejo,

Que este fundo e cançado desejo,

Deos somente t’os póde fartar.

Vai assim a medrosa donzella,

Pura e casta na ingenua belleza,

Buscar luz á remota capella,

Branca cera na pallida mão:

Tudo é sombra, silencio e tristeza!

Mas ao toque do fogo sagrado,

Arde em chammas o cirio apagado,

Já rutila brilhante clarão.

* * * * *

SE QUERES QUE EU SONHE.

Sur mon front, où peut-être s’achève

Un songe noir qui trop longtemps dure,

Que ton regard comme un astre se lève,

Soudain mon rêve

Rayonnera.

V. HUGO.

Tu queres que eu sonhe!--que ao menos dormido

Conheça alegrias, desfructe prazeres;

Que nunca provei;

Que ao menos nas azas de um sonho mentido

Perdido--arroubado, tambem diga: amei!

Tu queres que eu sonhe!--não sabes que a vida

Me corre penosa,--que amarga por vezes

A propria illusão!

No pallido riso d’uma alma affligida,

Qu’invída--ser leda, que dores não vão!

Se o pranto, que os olhos cançados inflamma,

Nos olhos de estranhos sympathico brilha;

Mais agro penar

Do triste o sorriso nos peitos derrama,

Se a chamma--revela, que almeja occultar.

Sonhando, percebo na mente agitada

Um mar sem limites, areas fundidas

Aos raios do sol;

E um marco não vejo perdido na estrada

Cançada,--não vejo longinquo farol!

E queres qu’eu sonhe!--Nas aguas revoltas

O nauta, ludibrio d’horrenda procella,

Se póde dormir,

As vagas cruzadas, em sustos involtas,

As soltas--escuta raivosas bramir.

Talvez porêm sonha que as ondas mendaces

O levão domadas á terra querida,

Qu’entrou em seus lares!...

E triste desperta, que os ventos fugaces

Nas faces--a espuma lhe atirão dos mares.

Se queres que eu sonhe,--que alguma alegria

Dormido conheça,--que frua prazeres

D’um placido amor;

Vem tu como estrella da noite sombria,

Que enfia--seus raios das selvas no horror,

Brilhar nos meus sonhos.--Então socegado,

Scismando prazeres, que n’alma s’entranhâo;

D’um riso dos teos

Coberto o meo rosto,--fugira o meu fado

Quebrado--aos encantos de um anjo dos céos.

Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido,

Que eu sinta os perfumes que exhalas passando;

Não soffro--direi:

E ao menos nas azas de um sonho mentido,

Perdido--arroubado, talvez diga:--amei!--

* * * * *

O BAILE.

Sonemos gozando

Fortuna tan vana,

Y el sol de mañana

Que ven al salir

Que al son de la orquesta

Danzando en la fiesta,

No es carga funesta

La vida feliz.

ZORRILLA.

As salas vão-se enchendo, as luzes brilhão

Nos prysmas de crystal repercutidas,

Em quanto as flores

Dos bufetes nas jarras coloridas

Acres odores

Soltão; ao mar de luzes misturando

D’innocente perfume outro mar brando.

Com requebros e amor gentis donzellas,

Em riso e festa,

Medindo os passos

Aos sons da orchestra,

Pendem dos braços

Do namorado, lepido galan!

Esta risonha, aquella pensativa,

Outra menos esquiva,

Attenta ás vozes, que o prazer lhe entranhão,

E á fraze cortezã,

Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos;

Vão descuidosas,

Nos labios risos,

Nas faces rosas,

Dando fé a protestos fementidos.

Triunfo ás bellas! o prazer começa:

Correm nas taças vinhos espumosos,

Gratos licores;

Tangida pela mão dos Trovadores

Desfaz-se a lyra em sons melodiosos,

Em cantico de amores

Soltão mais viva luz as brancas velas,

Melhor perfume as flores.

Activa-se o prazer; triunfo ás bellas!

Aqui, alli, alem, mil rostos meigos,

Da walsa ao gyro rapido se mostrão,

De gemmas ennastrados os cabellos;

E o peito que anhelante

Palpita entumecido

Nas ondas do prazer ebrifestante,

D’um leve colorido

Banha o semblante,

Que mais e mais co’a noite se enrubece:

Triunfo ás bellas,--o prazer recresce!

Perdido emtanto neste mar de luzes,

Mar de amor, de perfumes, que me inunda,

Contemplo indifferente

Quanto em redor diviso;

E entre tanto ruido e tanta gente,

Nem um sorriso

Verdadeiro, innocente!

Nem um sincero raio de alegria,

Nem um peito contente

Neste mar de perfumes e harmonia!

Então digo entre mim:--Talvez aquella,

Que tem melhores cores,

Que mais leda se mostra,

Que mais feliz no gesto se revela,

Sente mais finas dores;

O intimo desgosto,

A febre que a devora

Lhe dá calor ao rosto,

E no silencio chora;

Presa de uma afflicção devoradora.

Uma tristeza funda, inexprimivel

O coração me anceia;

E triste e solitario n’um recanto,

Nunca mais solitario, nem mais triste

Do que entre a multidão que me rodeia,

Não encontro maior, mais doce encanto

Que deixar-me arrastar por uma ideia,

Que me avassalla a mente.

Que m’importa esta gente,

Estes rostos que vejo e não conheço,

E o riso a que mil outros dão apreço?

Esta fingida alegria,

Esta ventura que mente,

Que serão dellas ao romper do dia?

Destas virgens louçãs as mais mimosas

Mortas serão talvez antes que murchem

Do branco rosto as encarnadas rosas!

Grinaldas festivaes, que a morte espalha

No lugubre terreiro;

O pó as enxovalha,

Murchas aos pés do esquallido coveiro!

* * * * *

DESALENTO.

Without a hope in life!

CRABBE.

Nascer, lutar, soffrer!--eis toda a vida:

D’esperança e de amor um raio breve

Se mistura e confunde

Ás cruas dores d’um viver cançado,

Como raio fugaz que luz nas trevas

Para as tornar mais feias!

Da verde infancia os sonhos melindrosos,

Nobres aspirações da juventude,

Amor de gloria stulto,

Com que mais alto a mente se extasia;

São vãos phantasmas, que produz a febre,

São illusões que mentem!

São as folhas virentes arrancadas

D’um arbusto viçoso, antes que brotem

Da primavera as flores;

A pennugem que nasce antes das azas,

Um esteril botão, que não dá flores,

Ou flôr que não dá fructos!

Foge, mancebo, lá te espreita o mundo!

Como areas d’um paramo deserto,

Resequido, abrasado;

Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita,

Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas

Nos areaes da vida.

S’inda tens coração, hão de esmagar-te;

As setas da calumnia irão cravar-t’o

Na parte mais sensivel:

Se tens alma, se electrico palpitas

De patria e de virtude aos nomes sanctos,

Foge outra vez ao mundo.

Não queiras, n’um accesso doloroso,

Ás mãos ambas ferindo o peito credulo

Exclamar delirante:

«Minha patria onde está?--Onde estes homens,

«Que a par de meos irmãos amar devera,

«Da mesma patria filhos?

«E a virtude tambem, onde hei de achal-a?

«Se é mais que nome vão, onde é que existe?

«Onde é que se pratica?

«Se os modernos Catões a graça esmolão

«Do rei--ou, cortesãos da populaça,

«Rojão por terra ignobeis!

«Se a mão do poderoso, a mão dourada

«Do crime impune--esbofeteia as faces

«Do homem vil, que a beija!

«Oh! meos irmãos não são, não são os filhos

«Desta patria, que eu amo;--torce o rosto

«De os vêr a humanidade.»

Despe-se a vida então dos seos encantos,

E o homem na lembrança revivendo

O percorrido estadio,

Tem por marcos de estrada o monumento,

Com que os mais fortes laços se desatão,

--A pyramide e a campa!

Do sonho juvenil murchas as cores,

Sem illusões, sem fé--nublado, escuro

O presente e o porvir,

No crepe d’abortadas esperanças

S’involve--e os olhos tesos no sepulchro,

A tarda morte aguarda!

Mas eu, qual viajor, vago perdido

Pela face da terra!--amigo lume

Não me convida ao longe;

E ao sentar-me na mesa dos estranhos,

Digo:--longe serei antes do occaso;--

E a divagar prosigo.

Mal aceito conviva me despeço!...

As calumnias que soffro, a dôr que passo,

Não me ferem profundas;

Bem como a rola, que das matas desce,

E nas azas recebe o pó da estrada,

Que voando sacode.

Minha hora derradeira sôe em breve,

A só esperança que aos mortaes não falha!

Morrerei tranquillo;

Bem como a ave, ao por do sol, deitando

Debaixo d’aza a timida cabeça,

Da noite o somno aguarda.

* * * * *

A QUEDA DE SATANAZ.

(TRADUCÇÃO.)

Eis que tomba da abobada celeste

O archanjo audaz, o seraphim manchado,

Desenrolando o corpo volumoso,

Despenhado precipite,--qual mundo

Dos eixos arrancado,--como um vivo

Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo!

Cahia lá d’aquelles céos brilhantes,

Donde inda os seos iguaes lançavão raios;

Cahia!--e a cerviz no espaço ardendo

As espheras dos sóes de côr de sangue,

Passando, avermelhava.

Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia,

Rival do creador!--té o imo peito

Pelas frechas da anáthema varado,

Como n’um turbilhão, desce rodando;

Ondas d’um mar de fogo o vem cercando,

E elle occulta a cabeça,

Como que procurasse

Nas entranhas da noite

Esconder seu desdoiro.

Clamavão--longe--os mundos com voz forte:

«Que insensato! onde vae? Nesse arrojado,

Frenetico voar, que vento o impelle,

Que de astro em astro vae, d’um céo em outro?

Vede como é sombrio!

Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo

De tão bello semblante,

Lucifer radiante,

Cujo sopro era como o romper d’alva,

Que as portas da manhã nos céos abria,

Trazendo comsigo a aurora,

Que o seo alento accendia!

Acaso o reconhecestes?

Era hontem brilhante, novo e bello;

E hoje é feio e nu e descalvado,

Nas azas da tormenta balouçado,

Nas azas dos bulcões;

E os seos olhos fulminados

Já sem pupillas fumegão,

Quaes crateras de vulcões!»

O archanjo os escutava, ameaçando-os

Co’o olhar fulminante;

Que cheio d’impio orgulho já sentia

Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte.

Todos os astros que no espaço gyrão

Seos olhos d’irritados fascinavão;

E os astros todos de terror tremião,

Saudando a coruscante realeza.

E já os céos sem fim, estrellas, mundos

Traz delle se perderão;

E nas profundas solidões do espaço

O archanjo abandonado apenas via

A noite, e sempre a noite!

Tem medo, olha, procura....--Um astro! um astro!

Transviado nos céos!--O archanjo o avista!

Estende a mão convulsa arrepellando-o:

Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido

Tral-o potente ao limiar do inferno,

Alentando açodado.

O errante cometa duas vezes

Ao tetro boqueirão levou comsigo,

E duas vezes, como um negro abutre,

Lutando corpo a corpo, de cançaço

Sentio-se esmorecer.

Duas vezes tambem o astro victima,

Supplicando medroso, as igneas azas

Bateu, sublime grito aos céos mandando.

O nome do Senhor por duas vezes

O rebelde venceo,--elle sosinho

Cahio no fundo abysmo.

* * * * *

CANÇÃO DE BUG-JARGAL.

(TRADUCÇÃO.)

Maria, porque me foges,

Porque me foges, donzella?

Minha voz! o que tem ella,

Que te faz estremecer;

Tão temivel sou acaso?

Sei amar, cantar, soffrer.

E quando ao travez dos troncos

Descubro d’altos coqueiros,

Junto as margens dos ribeiros,

A sombra tua a vagar;

Julgo vêr passar um anjo,

Que os meos olhos faz cegar.

E dos labios teos se escuto

Deslisar-se a voz, Maria,

Cheio de estranha harmonia

Pulsa o peito meo queixoso,

Que mistura aos teos accentos,

Tenue suspiro afanoso.

Tua voz! eu quero ouvir-t’a

Mais do que as aves cantando,

Que vem da terra voando,

Em que eu a vida provei;

Da terra onde eu era livre,

Da terra onde eu era rei!

Liberdade e realeza,

Hei de perder da lembrança;

Familia, dever, vingança...

Té a vingança m’esquece,

Fructo amargo e deleitoso,

Que tão tarde amadurece!

Es, Maria, qual palmeira,

Altiva, esbelta, engraçada,

No tronco seo balançada

Por leve brisa fagueira;

No teo amante a rever-te,

Como na fonte a palmeira.

Mas não sabes?--Do deserto

A tempestade valente

Corre as vezes de repente

Por acabar apressada

Com seo halito de fogo

A palmeira, a fonte amada!

E a fonte já mais não corre!

Sente a verdura sumir-se

A palmeira, e contrahir-se

A palma sua ao redor,

Que de cabellos dava ares,

De c’rôa tendo o esplendor.

D’Hespaniola, ó branca filha,

Teme por teo coração;

Teme a força do vulcão

Que vai breve rebentar!

Que, depois, amplo deserto

Só poderás contemplar!

Talvez que então te arrependas

De me haveres desdenhado,

Porque houveras encontrado

Salvação no meo amor;

Como o kathá leva á fonte

O sedento viajor.

Porque assim tu me desdenhas,

Não, Maria, não o sei;

Que d’entre as frontes humanas,

Entre as frontes soberanas,

Levanto a fronte; sou rei.

Sou preto, sim, tu es branca;

Mas qu’importa? Junto ao dia

A noite o poente cria

E cria a aurora tambem,

Que mais luzentes bellezas,

Mais doces do que ambos tem.

* * * * *

AGAR NO DESERTO.

Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit

enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem

suam et flevit.

_Genesis, Cap._ 21, 16.

Pallido o rosto e queimado

Pelo sol do Egypto ardente,

Sahia a escrava innocente

Co’ o filho innocente ao lado

Da tenda patriarchal.

A pobresinha chorava!

Alguns pães e um frasco d’agoa

E um peito cheio de magoa!...

Vê, contempla, ó triste escrava,

Teo sepulchro no areal.

Abrahão se compadece;

Mas debalde o sollicita

Piedade sancta,--de afflicta

Sem queixar-se, lhe obedece

A triste escrava do amor.

Quizera talvez detel-a...

Porêm que?--Sarai lh’implora,

Deos lhe ordena:--vae-te embora,

Vae-te escrava; e a tua estrella

Te depare outro senhor.

O sol brilhante nascia

Sobre as tendas alvejantes;

E n’outros pontos distantes

Combros d’areia feria,

Outr’ora leito d’um mar;

Esse caminho procura,

Que nas ondas do deserto

Talvez ache por acerto

Patria, abrigo, amor, ventura

A prole infausta d’Agar.

Vae, caminha; mas ao passo

Que no deserto s’entranha,

Arde o sol com furia estranha,

Racha a areia o pé descalço,

Cresta o vento os labios seos;

E ao lado o filho innocente

Soltava tristes gemidos,

Co’os olhos humedecidos

Fitando a mãe ternamente,

Que os olhos tinha nos céos!

Cantos · 第 15 / 17 段