Fôras rainha! e ditosos

Teus vassallos extremosos,

Que a renderem-te seus preitos

Beijárão-te a nivea mão.

Pedes amor e respeitos!

Quem não ama a formosura,

Quem não respeita a candura

D’um sincero coração?

Mas antes que nos curvemos

Ante a belleza que vemos,

Tua angelica bondade

Conquista a nossa affeição:

Não es mulher, mas deidade,

Uma fada seductora,

Que nos pede amor agora,

Logo mais--adoração.

Quando pois, cheia de graças,

Entre a turba alegre passas,

Entre a turba sequiosa

De beijar-te a nivea mão;

Dizem uns: quanto é formosa!

Eu porêm, sei que es mais bella

Nos dotes da alma singela,

Nas prendas do coração.

Passa rapida a belleza,

Como flôr que a natureza

Cria em jardim melindroso,

Ou n’um agreste torrão:

Passa como um som queixoso,

Como felizes instantes,

Como as juras dos amantes,

Como extremos da paixão.

Mas d’alma a vida é mais fina,

Exhala essencia divina,

Que avigora e fortifica

O dorido coração;

Morto o corpo, ainda fica,

Como em rosal arrancado,

Leve aroma derramado,

Dos espaços na extensão.

* * * * *

O ANJO DA HARMONIA.

Respira tanta doçura

O teu canto, que por certo

Abranda a penha mais dura.

BOCAGE.

Revela tanto amor, tão branda sôa

A tua doce voz canora e pura,

Que o homem de a escutar sente no peito

Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.

Solta-se a alma das prisões terrenas,

O mundo, a vida, o soffrimento esquece,

E embalada n’um ether deleitoso,

Como Alcyon nas aguas, adormece!

Da noite a placidez é menos grata

A quem sósinho e taciturno vela,

Quando, perdido n’outros mundos, nota

A meiga luz de fugitiva estrella.

Sensações menos doces, menos vagas,

Desperta o barco leve, que se avista

Ao pôr do sol, na extrema do horisonte,

Quando n’um mar de luz nos foge á vista.

Das aves o cantar é menos fresco,

É menos triste a fonte que serpeia,

Menos queixoso o mar, que enternecido,

Beija na praia a scintillante areia.

Vagas na terra, suspiroso archanjo,

Derramando torrentes de harmonia

Sobre as chagas mortaes,--balsamo sancto

Que as mais profundas magoas alivia.

Vagas na terra, merencoria e bella;

Mas quando deste mundo ao céo tornares,

Juntarás teus ternissimos accentos

Aos puros sons dos mysticos altares.

E os anjos na mansão das harmonias,

Encostados ás harpas diamantinas,

Folgarão de te ouvir celestes carmes

Deduzidos em notas peregrinas.

E dirão:--Nunca ás plagas do infinito

Subio mais terna voz, mais fresca e pura!

Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso,

Onde o incenso de Deos se afina e apura.

* * * * *

A HISTORIA.

The flow and ebb of each recurring age.

BYRON.

Triste licção de experiencia deixão

Os evos no passar, e os mesmos actos

Renovados sem fim por muitos povos,

Sob nomes diversos se encadeião:

Aqui, além, agora ou no passado,

Amor, dedicação, virtude e gloria,

Baixeza, crime, infamia se repetem,

Quer gravados no socco de uma estatua,

Quer em vil pelourinho memorados.

Eis a historia!--rainha veneranda,

Trajando agora sedas e velludos,

Depois vestindo um sacco despresivel,

D’immunda cinza apolvilhada a fronte.

Se as virtudes do pobre não tem preço,

Tambem dos vicios seus a nodoa exigua

Não conspurca as nações; mas ai dos grandes,

Que trilhão senda errada, a cujo termo

Se levanta a barreira do sepulchro,

Onde se quebra a adulação sem força.

Se virtuoso, as gerações passando

As cinzas lhe beijarão; se malvado,

Cospem-lhe affrontas na vaidosa campa,

Jámais de amigas lagrimas molhada.

E qual do Egypto nos festins funereos,

Maldizem bons e máos sua memoria,

Lançando á face da real mumia

Dos crimes seus a lacrymosa historia.

Talvez, porêm, um infortunio grande,

Um exemplo sublime de virtude,

Cobre dourada pagina, que aos olhos

Pranto consolador sem custo arranca.

Eis a historia! um espelho do passado,

Folhas do livro eterno desdobradas

Aos olhos dos mortaes;--aqui sem mancha,

Além golfeja sangue e súa crimes.

Tal foi, tal é: retrato desbotado,

Onde se mira a geração que passa,

Sem côr, sem vida,--e ao mesmo tempo espelho,

Que ha de ser nova copia á gente nova,

Como os annos aos annos se succedão.

Ondas de mar sereno ou tormentoso,

As mesmas na apparencia, que se quebrão

Sobre as d’areia fluctuantes praias.

* * * * *

A CONCHA E A VIRGEM.

Linda concha que passava,

Boiando por sobre o mar,

Junto a uma rocha, onde estava

Triste donzella a pensar;

Perguntou-lhe:--Virgem bella,

Que faces no teu scismar?

--E tu, pergunta a donzella,

Que fazes no teu vagar?

Responde a concha:--Formada

Por estas aguas do mar,

Sou pelas aguas levada,

Nem sei onde vou parar!

Responde a virgem sentida,

Que estava triste a pensar:

--Eu tambem vago na vida,

Como tu vagas no mar!

--Vais d’uma a outra das vagas,

Eu d’um a outro scismar;

Tu indolente divagas,

Eu soffro triste a cantar.

--Vais onde te leva a sorte,

Eu, onde me leva Deos:

Buscas a vida,--eu a morte;

Buscas a terra,--eu os céos!

* * * * *

SEI AMAR.

Amor amore.

_Proverbio._

Sei amar com paixão ardente e fida,

Como o nauta ama a terra, como o cego

A luz do sol, como o ditoso a vida.

Sim, sei amar; porêm do immenso pégo

D’uma existencia misera e cançada,

Quero uma hora, um instante de socego.

Dera a vida a uma alma apaixonada,

A um peito de mulher que me entendesse,

Onde eu pousasse a fronte acabrunhada.

Porêm, que fosse minha, e que eu soubesse

Que os labios que beijei são meus somente,

Nem pensa em outro, nem de mim se esquece.

Nem vai de prompto derramar demente

N’outros ouvidos a palavra, o accento,

Que em extasis de amor criei fervente.

Nem corre o seu volatil pensamento,

Quando fallo, a pensar n’outros amores,

N’outra voz, n’outros sons, n’outro momento.

Demais, acostumado a teus rigores,

Não me queixo, bem vês, mas despedaço

A prisão vil, embora occulta em flores.

Se entro furtivo, onde outro mais de espaço

Como senhor campeia--ao mais querido

Cede o ingresso, ao mais ditoso o passo.

Não me contenta um coração partido,

Um só amor que a dous pertence,--um peito,

Que bate por dous homens, fementido.

Se eu unico não sou,--vil, não aceito

Ser segundo em amor,--inteiro é nobre,

Vale um throno;--partido, é dom tão pobre,

Qu’eu pobre, como sou, de altivo engeito.

* * * * *

AMANHÃ.

Amanhã!--é o sol que desponta,

É a aurora de roseo fulgor,

É a pomba que passa e que estampa

Leve sombra de um lago na flôr.

Amanhã!--é a folha orvalhada,

É a rola a carpir-se de dôr,

É da brisa o suspiro,--é das aves

Ledo canto,--é da fonte o frescor.

Amanhã!--são acasos da sorte;

O queixume, o prazer, o amor,

O triumpho que a vida nos doura,

Ou a morte de baço pallor.

Amanhã!--é o vento que ruge,

A procella d’horrendo fragor,

É a vida no peito mirrada,

Mal soltando um alento de dôr.

Amanhã!--é a folha pendida,

É a fonte sem meigo frescor,

São as aves sem canto, são bosques

Já sem folhas, e o sol sem calor.

Amanhã!--são acasos da sorte!

É a vida no seu amargor,

Amanhã!--o triumpho, ou a morte;

Amanhã!--o prazer, ou a dôr!

Amanhã!--o que val’, se hoje existes!

Folga e ri de prazer e de amor;

Hoje o dia nos cabe e nos toca,

De amanhã Deos sómente é Senhor!

* * * * *

POR UM AI.

Se me queres ver rendido,

De joelhos, a teus pés,

Por um olhar que me deites,

Por um só ai que me dês;

Se queres ver o meu peito

Rugindo como um vulcão,

Estourar, arder em chammas,

Ferver de amor e paixão;

Se me queres ver sugeito,

Curvado e preso á tua lei,

Mais humilde que um escravo,

Mais orgulhoso que um rei;

Meus olhos sobre os teus olhos,

Meu coração a teus pés;

Por um olhar que me deites,

Por um só ai que me dês:

Oiça, feliz, dos teus labios

Esta só palavra--amor!--

Estrella cortando os ares,

Abelha sobre uma flôr.

Então verás dos meus olhos,

Que o pezar me não cegou,

Rebentarem de alegria

Prantos, que a dôr estancou;

Então verás o meu peito

Como outra vez se incendia;

Era a folha verde e fresca,

Onde o sol se reflectia!

Murcha e triste pende agora;

Cahiu, jaz solta, está só:

Exposta ao fogo, arde em chammas,

--Deixai-a, desfaz-se em pó!

Hei de sentir outra vida,

Outra vez meu coração

Escutarei palpitando

De amor, de fogo e paixão.

Lascado tronco sem graça,

Tal fui, tal me ves agora!

Mas venha o orvalho celeste,

Venha o bafejo da aurora;

Venha um raio de alegria

Dar-lhe ás raizes calor;

Revive de novo, e brota

Folhas, galhos e verdor.

Do cimo erguido e copado

Outra vez se dependurão

Mil flores,--alli mil aves

Nos seus gorgeios se apurão.

Não quero palavras falsas,

Não quero um olhar que minta,

Nenhum suspiro fingido,

Nem voz que o peito não sinta.

Basta-me um gesto, um aceno,

Uma só prova,--e verás

Minha alma, presa em teus labios,

Como de amor se desfaz!

Ver-me-has rendido e sugeito,

Captivo e preso á tua lei,

Mais humilde que um escravo,

Mais orgulhoso que um rei!

* * * * *

PROTESTO.

Imitação de uma poesia Javaneza.

Ainda quando os homens te odiassem,

E anath’ma contra ti bradasse o mundo,

Por ti sentira amor, te amára sempre,

Te amára eternamente.

Este affecto jámais ha de alterar-se;

Embora gemeos sóes ardão no espaço,

Ou gemeas noites, em cegueira eterna,

Me roubem o prazer de ver teus olhos.

Entranha-te na terra, hei de afundar-me;

Passa ao travez do fogo, irei comtigo;

Aos céos remonta, hei de seguir-te sempre,

Ver-me-has sempre a teu lado.

De ti não póde a força desprender-me,

Nem separar-me o fado. Em ti só vivo;

E quem dos dias teus souber o termo,

Que a vida me deixou tambem conheça.

Quando nas azas da esperança corro,

Onde me acenas, onde amor me aguarda,

Parece-me que vôo aos ledos campos,

Onde a esperança mora.

Não ha que possa comparar-se aos extasis,

Que tanto ao vivo meu amor revelão;

Um gesto, um som dos labios teus mimosos

Mil vezes na minha alma se repete.

Quer irritada contra mim te mostres,

Quer do teu seio irosa me repillas,

Teu rosto na minha alma se retrata,

E eu te amo sempre!

Quer durma, quer descance, ou vele ou soffra,

Em tudo quanto sinto, em quanto vejo,

Risonha tua imagem me apparece,

E eu julgo sempre que te fallo e escuto.

Seja eu longe da patria infindas legoas,

A distancia de um mundo entre nós corra,

Em quanto além divago, preso fica

Meu coração comtigo.

Se pois souberes que os meus dias findão,

Não creias que o destino inexoravel

M’os corta--antes me tem, antes me julga

Morto por ti de amores!

* * * * *

FADARIO.

Procura o íman sempre

Do pólo a firme estrella,

De viva luz o insecto

Se deixa embellezar;

E a nave contrastada

Das furias da procella,

Procura amigo porto,

No qual possa ancorar.

O íman sou constante,

A nave combatida,

O insecto encandeado

Com fulgido clarão;

E tu--a minha estrella,

A luz da minha vida,

O porto que me acena

Por entre a cerração.

Assim, por desgostar-me,

Severo no semblante,

No olhar, na voz--debalde

Me opprime o teu rigor;

Se fujo dos teus olhos,

Se mostro-me inconstante,

Na ausencia e no desterro

Me vai crescendo o amor!

Assim o insecto volta

Á luz que o já queimára,

E o íman na tormenta

Procura o norte seu;

Assim a nave rota,

Que o vento contrastára,

Entrando o porto, esquece

Que males já soffreu.

Debalde, pois, tua alma,

Que a minha dôr encherga,

Se mostra aspera e dura

Á voz do meu penar;

Aquelle verde ramo,

Que facilmente verga,

Resiste ao peso, emquanto

Não torna ao seu lugar.

Se, pois, te irrita e cança

De o ver revel comtigo,

Do tronco seu virente

Separa-o de uma vez:

Mais qu’elle venturoso

Me julgo, se consigo

Morrer vendo os teus olhos,

Cahir junto a teus pés.

Mas, inda assim, não creias,

Se finda o meu tormento,

Que nem lembrança minha

Terás de conservar:

A nave, que não toca

No porto a salvamento,

Talvez os rotos mastros

Atira á beira-mar.

Assim quando jazendo

Me achar na campa fria,

Talvez tenhas remorsos,

Da tua ingratidão;

Talvez que por mim sintas

Alguma sympathia;

Que em lagrimas desfeita

Me dês amor então.

* * * * *

O ASSASSINO.

Pero una sola lágrima, un gemido

Sobre sus restos á ofrecer no van,

Que es sudario d’infames el olvido...

Bien con su nombre en su sepulcro están!

ZORRILLA.

Eil-o! seu rosto pallido se encova;

Incerto, mais que os vôos dum morcego,

Seu andar, ora lento, ora apressado,

Profunda agitação revela aos olhos.

Crespos os cenhos, enrugada a fronte,

Simelha luz de tocha mortuaria

A luz que os olhos seus despedem torvos.

Ha momentos em que seo rosto fero

De tal arte s’enruga e se transtorna,

Que os seus proprios amigos o fugírão

E a propria mãe teméra unil-o ao seio!

Quando os labios descerra, só murmura

Frases, cujo sentido não se alcança,

Ou blasfemias a Deos, que o soffre em vida!

O que amou n’outro tempo, agora odeia;

Despreza o que estimou, evita, foge

Quanto afanoso procurava outr’ora:

Receia a luz do sol, da noite as trevas,

A voz do crime, da innocencia o grito!

A cholera de Deos cahio tremenda

Sobre o seu peito, e o coração lhe opprime,

De cuja interna chaga em jorros salta

O sangue e a podridão: horrendo e fero,

A victima das furias do remorso,

Terrivel e cobarde, e ao mesmo tempo

Rebelde contra a mão, que o vexa e pune,

Em quanto a Deos maldiz, blasfema, irrita,

D’uma voz, d’uma sombra se amedronta.

Não póde supportar seus pensamentos

A sós comsigo, e aborrecendo os homens,

De os ver e de os não ver soffre martyrios.

Na cidade, suspeita esposa, amigos,

A mãe e os filhos;--um terror, um pasmo,

Cuja causa recondita se ignora,

Na voz, no rosto e gesto o denuncião

Como escravo do crime ou da miseria.

No ermo a propria voz o sobresalta!

O som dos passos, do seu corpo a sombra,

Das fontes o correr por entre as pedras,

Da brisa o suspirar por entre as folhas,

Quanto vê, quanto escuta o intimida.

Minaz lhe brada a natureza inteira,

Soluça um nome, que lhe erriça a coma

E o frio do terror lh’immerge n’alma.

O mar nas ondas crespas, que se enrolão,

Batidas pelo açoite da procella,

Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no,

Quando passão, cuspindo-lhe o semblante;

E Deos, o proprio Deos no espaço o grava

Nos fuzis que os relampagos centelhão.

Tem pavor, quando sonha e quando vela.

Deixando o leito em seu suor banhado,

No silencio da noite--á horas mortas,

Levanta-se medonho á voz do crime!

Nas mãos convulsas um punhal aperta

E a lamina buida e os olhos torvos

Agoureiro clarão despedem juntos.

Soltando roucos sons com voz sumida,

Apalpa cauteloso as densas trevas,

E vai ... caminha ... attende ... de repente

Apunhala um phantasma!--solta um grito,

Larga o punhal convulso e arrepiado!

N’um ferrete de sangue lê seu fado,

Um ferrete, que a dôr desfaz nunca,

Nem lava o pranto, nem consome o tempo.

Miseravel, provando o fel da morte,

Ante o passo medonho se horrorisa;

Odeia o mundo que fugir não póde,

Regeita a religião que o não consola,

Odeia e teme a Deos,--teme a justiça

De quem na fronte vil do fratricida

Nodoa eterna gravou do crime infando.

* * * * *

A UNS ANNOS.

14--Janeiro.

No segredo da larva delicada

A borboleta mora,

Antes que veja a luz, que estenda as azas,

Que surja fóra!

A flôr, antes de abrir-se, se recata;

No botão se resume,

Antes que mostre o colorido esmalte,

Que espalhe o seu perfume.

E a flôr e a borboleta, após a aurora

Breve--da curta vida,

Encontrão nas manhãs da primavera

A luz do sol querida.

De graças cheia, a delicada virgem

Da vida no verdor,

Semelha a borboleta melindrosa,

Semelha a linda flôr.

Tudo se alegra e ri em torno della,

Tudo respira amor,

Que é a virgem formosa semelhante

Á borboleta e á flôr.

Mas para estas o sol breve se esconde,

Passão prestes os dias;

Em quanto a cada sol e nova quadra

Tu novas graças crias!

* * * * *

QUANDO NAS HORAS.

And dost thou ask, what secret woe

I bear, corroding joy and youth?

And wilt thou vainly seek to know

A pang e’en thou must fail to soothe?

BYRON.

I.

Quando nas horas que comtigo passo,

Do amor mais casto, do mais doce enlevo.

Sentindo um raio d’esperança amiga,

Que as densas trevas da minha alma aclara;

Teus meigos olhos sobre os meus se fitão.

Sorvo o perfume que tua alma exhala,

Gozo o sorriso que os teus labios vertem

E as doces notas que o prazer m’entranhão:

Tu me perguntas por que um riso amargo,

Funebre e triste me descora os labios;

Por que uma nuvem de pezares gravida

Tolda o meu rosto;

Por que um suspiro de abafada angustia,

Um ai do peito, que exhalar não ouso,

O meigo encanto dos teus sonhos quebra

N’um breve instante!

Raio de amor, que sobre mim resplendes,

Ou sol que bates n’um profundo abysmo,

E a verde-negra superficie tinges

De côr chumbada com reflexos d’oiro;

Se vês luzente a superficie amiga,

E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo,

Sol bemfazejo, que te importão fezes,

Se lá no fundo adormecidas jazem?

Talvez se as viras, encobrindo os olhos,

De horror fugindo ao temeroso aspecto,

Os brandos lumes, d’onde amor distillas

Breve apagáras.

Não me perguntes por que soffro triste,

Por que da morte o negro espectro invoco,

Por que, cansado desta vida, almejo

A paz dos tumulos.

Nem ver procures a cratera hiante

Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas,

Do peito meu, onde crueis travárão

Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão.

Dá que nas horas que comtigo passo

Do amor mais casto e do mais doce enlevo,

Durma o passado e do porvir m’esqueça,

E o meu presente de te amar se ameigue.

II.

Se algum suspiro de abafada angustia,

Se um ai do peito que exhalar não ouso,

O meigo encanto dos teus sonhos quebra;

Tu me perdôa.

Cansado e triste de viver soffrendo,

Da morte amiga o negro espectro invoco,

Affiz-me as dores, e só torva ideia

Me apraz agora.

Talvez na pedra d’um sepulchro frio

Melhor folgára de me ver deitado,

Sentir nos olhos estancado o pranto

E amodorrado o padecer no peito.

Talvez folgára minha sombra triste,

Vagando em tomo d’uma campa lisa,

De ver-te as formas, de contar teus passos,

E de escutar tua oração piedosa.

Talvez folgára, quando pranto amargo

Dos olhos teus me rorejasse a campa,

Dos meigos labios, onde amor temperas,

Meu nome ouvindo!

Oh! sim, folgára de sentir a brisa,

Correndo em tomo ao moimento meu,

E tu sósinha no sepulchro humilde,

Guardando os tristes deslembrados ossos!

Junto ao meu corpo guardarei teu leito,

Onde os teus restos junto aos meus descancem;

E o mesmo sol, e a mesma lua e brisa

Juntos nos vejão.

E quando o anjo espedaçar as campas

Ao som da trompa de fragor horrendo,

Que ha de o lethargo despertar dos mortos

Na vida eterna;

Primeiro em ti se fitarão meus olhos:

Hei de alegrar-me de te ver commigo,

E as nossas almas subirão reunidas

Á eterna face do juiz superno.

E deste amor, por que ambos nós passamos,

O galardão lhe pediremos ambos,

Viver unidos na mansão dos justos,

Ou nos tormentos da eternal gehenna!

III.

No em tanto a vida soportar já devo,

Soffrer o peso da existencia ingloria,

E revolvendo o coração chagado,

Nos seus estragos numerar meus dias.

Na terra existo, como um som queixoso,

Um echo surdo, que entre as fragas dorme,

Ou como a fonte, que entre as pedras corre,

Ou como a folha sob os pés calcada.

Uma alma em pena, que procura os restos

Não sepultados,--uma flôr que murcha,

D’uma harpa a corda, que por fim rebenta,

Ou luz que morre.

Prazer não acho de avistar lua

Pallida e bella na soidão do espaço;

Nem vivos astros, nem perfumes gratos

Me dão consolo.

Nada percebo nos confusos roncos

Do mar, que bate as solitarias praias;

Nem nos gemidos da frondosa selva,

Que o sopro amigo de uma aragem move.

Conviva infausto d’um festim, que odeio,

Ás proprias galas que vaidosa ostenta

A natureza--não se ri minha alma,

Nem de as notar meu coração se alegra.

E sinto o mesmo que sentira o frio,

Mudo cadaver dos festins do Egypto,

Se ver pudesse, contemplando o nada

Das vãs grandezas.

Mas já que os olhos sobre mim pousaste,

Teus meigos olhos, donde o amor lampeja;

Pois que os teus labios para mim se abrirão,

Teus meigos labios;

Já que o perfume da tua alma d’anjo

Embalsamou-me o coração de aromas;

Já que os prazeres da eternal morada

De longe, em sonhos, antevi comtigo:

Já posso a vida supportar, já devo

Sofrer o peso da existencia inutil;

Já do passado e do porvir me esqueço,

E o meu presente de te amar se ameiga.

* * * * *

RETRACTAÇÃO.

Son reo, non mi difendo;

Puniscimi, se vuoi!

METASTASIO.

Perdoa as duras frases que me ouviste:

Vê que inda sangra o coração ferido,

Vê que inda luta moribundo em ancias

Entre as garras da morte.

Sim, eu devera moderar meu pranto,

Soffrear minhas iras vingativas,

Deixar que as minhas lagrimas corressem

D’entro do peito em chaga.

Sim, eu devera confranger meus labios,

Mordel-os té que o sangue espadanasse,

Afogar na garganta a ultriz sentença,

Apagal-a em meu sangue.

Sim, eu devera comprimir meu peito,

Conter meu coração, que não pulsasse,

Apagado volcão, que inda fumega,

Que faz, que jorra cinzas?

Que m’importava a mim teu fingimento,

Se uma hora fui feliz quando te amava,

Se ideei breve sonho de venturas,

Dormido em teu regaço;

Luz mimosa de amor, que te apagaste,

Ou gota pura de crystal luzente

Filtrando os poros de uma rocha a custo,

Cahida em negro abysmo!

Devera pois meu pranto borrifar-te

Amigo e bemfazejo, como aljofar

De branco orvalho em perolas tornado

N’um calice de flôr;

Não converter-se em pedras de saraiva,

Em chuva de graniso fulminante,

Que em chão de morte as petalas viçosas

Desfolhasse entre-abertas.

* * * * *

Feliz o doce poeta,

Cuja lyra sonorosa,

Resoa como a queixosa,

Trepida fonte a correr;

Que só tem palavras meigas,

Brandos ais, brandos accentos,

Cuja dôr, cujos tormentos

Sabe-os no peito esconder!

Feliz o doce poeta,

Que não andou em procura

De terrena formosura,

Nem as graças lhe notou!

Que lhe não deu sua lyra,

Que lhe não deu seus cantares,

Que lhe não deu seus pezares,

Nem junto della quedou!

Antes na mente escaldada

Forma um composto divino

De algum ente peregrino,

De algum dos filhos dos céos;

E ante essa imagem creada,

Que vê sempre noite e dia,

Dobra as leis da phantasia,

Acurva os desejos seus.

É d’ella quando se carpe,

É d’ella quando suspira,

É d’ella quando na lyra

Entoa um canto feliz:

D’ella acordado ou dormido,

D’ella na vida ou na morte,

Tenha alegre ou triste sorte,

Seja Laura ou Beatriz!

Que talvez a doce imagem,

A scismada phantasia

Ha de o poeta algum dia

Junto de Deos encontrar;

E que havendo-a producido

Antes do mundo formado,

Dê-lhe um sonhar acordado

Por um viver a sonhar!

* * * * *

ANHELO.

No lago interior d’um peito virgem,

Que os ventos das paixões não agitárão,

Hei de em cifras de amor gravar meu nome,

Onde as nuvens do céo desenhão cores.

Nos meigos olhos, que embelleza o mundo,

De corrosivas lagrimas enxutos,

Meu pensamento gravarei n’um beijo,

Onde as luzes do céo reflectem brilhos.

Em sua alma, onde uma harpa melindrosa

Noite e dia seus canticos afina,

Hei de a vida entornar em doces carmes,

Onde imagens do céo sómente brilhão.

Que outra c’rôa melhor, que outra mais pura,

Que uma c’rôa d’amor em fronte virgem?!

Não peza sobre a fonte, não esmaga,

Não punge o coração,--é toda amores!

Que outra c’rôa melhor, que outra mais bella

Que a aureola, que Deos concede aos vates?

Com sorriso de amor, talvez com pranto,

Cede-a o vate á mulher, que mais o inspira!

Eu t’a cedo, eu t’a dou! C’rôo-te imagem

Resplendente, invejada entre as mulheres;

Um beijo só de amor tu me concedas,

Um suspiro sequer do peito exhales.

* * * * *

QUE ME PEDES.

Tu pedes-me um canto na lyra de amores,

Um canto singelo de meigo trovar?!

Um canto fagueiro já--triste--não póde

Na lyra do triste fazer-se escutar.

Outr’ora, coberto meu leito de flores,

Um canto singelo já soube trovar;

Mas hoje na lyra, que o pranto humedece,

As notas d’outr’ora não posso encontrar!

Outr’ora os ardores que eu tinha no peito

Em cantos singelos podia trovar;

Mas hoje, soffrendo, como hei de sorrir-me,

Mas hoje, trahido, como hei de cantar?

Não peças ao bardo, que afflicto suspira,

Uns cantos alegres de meigo trovar;

Á lyra quebrada só restão gemidos,

Ao bardo trahido só resta chorar.

* * * * *

O CIUME.

Oh! quanta graça e formosura adorna

Teu rosto eloquente e vivo!

Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios,

Prestes outro sorrir dos meus rebenta;

Se vejo os olhos teus, que chorar tentão,

Debalde o pranto meu represso engulo;

Se do teu rosto as rosas se esvaecem,

Eu sinto de temor bater meu peito;

E quando os olhos teus nos meus se fitão,

Nem pezares, nem dores me dominão;

Mas sinto que o meu peito se enternece,

Sinto o meu coração bater mais livre,

Sinto o sorriso, que me ri nos labios,

Sinto o prazer, que me transluz no rosto,

Sinto delicias n’alma!

Quanta belleza tens!--quer dessas graças,

Que o amor inveja--n’um saráu brilhante

No meio de bellezas, que supplantas,

Prazer e galas de as mostrar ressumbres;

Quer estejas sósinha e pensativa,

Quer viva e folgazã prazer incites:

Ou n’um corsel em páramos extensos,

Correndo affoita e louca, e o pé mimoso

Da carreira no afan por sob as vestes

Transparecer deixando;

Cantos · 第 14 / 17 段