Sempre tenhas, anginho innocente,

Quem se apresse a teus passos guiar,

E uma voz que o teu somno acalente,

E um sorriso no teu acordar.

Enlevada nos sonhos jucundos,

Voz etherea te venha fallar,

E visão d’outros céos, d’outros mundos,

Venha amiga tua alma encantar.

* * * * *

Leda infancia gentil! e quem não te ama?

Quem tão de pedra o coração não sente

Aos teus encantos meigos mais tranquillo?

Quem não sente memorias d’outras eras

Travarem-lhe da mente, ao recordar-se

Aquelle gozo puro e suavissimo

De vida, que jámais não tem logrado?

Recordações de um mundo adormecido

Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,

Como harpejos de musica longinqua!

E a mente nos seus quadros embebida,

Por magica illusão enfeitiçada,

Como outr’ora, talvez sómente veja

Na terra--um chão de flôres estrellado,

E nos céos--outro chão de flôres vivas!

II.

Afagada e bem vinda e querida,

Travessuras scismando infantis,

Nos caminhos floridos da vida

Vai mimosa, imprudente e feliz!

É-lhe a vida continuo festejo,

Sonhos d’oiro só sabe sonhar,

Toda ella um afan, um desejo

D’outros jogos contente brincar.

Puro riso o semblante lhe adorna,

Logo pranto começa a verter,

E depois outro riso lhe torna,

E depois outro pranto a correr.

* * * * *

Tão perto jaz a fonte da amargura

Da fonte do prazer!--porêm tão doces

Essas lagrimas são!--tão abundantes,

Tão sem causa e sympathicas gotejão

N’uma tez de carmim, n’um rosto bello!

Quem a vê, que sorrindo as não enchuga?

Mas não todo consumas o thesouro

Unico e triste, que ao infeliz sobeja

Nas horas do soffrer; no tempo amargo,

No qual o rosto pallido se enruga,

E os olhos seccos, aridos chammejão,

Será talvez bem grato refrigerio

Uma lagrima só, em que arrancada

A força da afflicção dos seios d’alma.

Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida,

Como um rio entre flores, se deslisa

Macio, puro e recendendo aromas.

III.

Bello raio do sol da existencia,

Flôr da vida, mimosa e gentil,

Fonte pura de meiga innocencia,

Leve gozo da quadra infantil!

Quem fruir-te outra vez não deseja,

Quando vê sobre a veiga formosa

A menina travessa e ruidosa,

Borboleta, que alegre doudeja?

A menina é uma flôr de poesia,

Um composto de rosa e jasmim,

Um sorriso que Deos alumia,

Um amor de gentil serafim!

* * * * *

Folga e ri no começo da existencia,

Borboleta gentil! a flôr dos valles,

Da noite á viração abrindo o calix,

O puro orvalho da manhã te guarda;

Inda perfumes dá, que te embriagão,

Inda o sol quando aquece os vivos raios,

Nas azas multicores scintillando,

Com terno amor de pae, em torno esparge

Pó subtil de rubins e de safiras.

Folga e ri no começo da existencia,

Humano serafim, que esse perfume

São das azas do anjo, que s’impregnão

Dos aromas do céo, quando atear-se,

Roaz fogo de vida começando,

Quanto havemos de Deos consome e apaga.

IV.

Porêm tu, afagada e querida,

Com requebros donosos, gentis,

Vai contente caminho da vida,

Bello anginho, mimoso e feliz!

E do bardo a canção magoada,

Quando a possas um dia escutar,

Ha de ser como rota grinalda,

Que perfumes deixou de exhalar!

E esta mão talvez seja sem vida,

E este peito talvez sem calor,

E memoria apagada e sumida,

Talvez seja a do triste cantor!

* * * * *

URGE O TEMPO.

Move incessante as azas incansaveis

O tempo fugitivo;

Atraz não volta!

A. DE GUSMÃO.

Urge o tempo, os annos vão correndo,

Mudança eterna os seres afadiga!

O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho,

Quem vive, o que vegeta, vai tomando

Aspectos novos, nova forma, em quanto

Gyra no espaço e se equilibra a terra.

Tudo se muda, tudo se transforma;

O espirito, porêm, como centelha,

Que vai lavrando solapada e occulta,

Até que emfim se torna incendio e chammas,

Quando rompe os andrajos morredouros,

Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta

Quanto sentio, quanto soffreu na terra.

Tudo se muda aqui! sómente o affecto,

Que se gera e se nutre em almas grandes,

Não acaba, nem muda; vai crescendo,

Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças,

E a propria morte o purifica e alinda.

Simelha estatua erguida entre ruinas,

Firme na base, intacta, inda mais bella

Depois que o tempo a rodeou de estragos.

* * * * *

SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.

25 de Outubro de 1848.

O involucro de um anjo aqui descança,

Alma do céo nascida entre amargores,

Como flôr entre espinhos!--tu, que passas,

Não perguntes quem foi.--Nuvem risonha,

Que um instante correu no mar da vida;

Romper da aurora que não teve occaso,

Realidade no céo, na terra um sonho!

Fresca rosa nas ondas da existencia,

Levada á plaga eterna do infinito,

Como off’renda de amor ao Deos que o rege;

Não perguntes quem foi, não chores: passa.

* * * * *

MENINA E MOÇA.

Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux!

CHENIER.

É leda a flôr que desponta

Sobre o talo melindroso,

E o arrebento viçoso

Crescendo em floreo tapiz;

É doce o romper da aurora,

Doce a luz da madrugada,

Doce o luzir da alvorada,

Doce, mimoso e feliz!

É bella a virgem risonha

Com seus musicos accentos,

Com seus virgens pensamentos,

Com seus mimos infantis;

Como quanto enceta a vida,

Que á luz sorri da existencia,

Que tem na sua innocencia

Da mocidade o verniz.

Vinga a flôr a pouco e pouco,

Cada vez mais bem querida,

Tem mais encantos, mais vida,

Tem mais brilho, mais fulgor:

De cada gota de orvalho

Extrahe celeste perfume,

E do sol no raio assume

Cada vez mais viva côr.

Assim á virgem mimosa,

Pouco e pouco, noite e dia,

Mais viva flôr de poesia

Do rosto lhe tinge a côr;

E um anjo nos meigos sonhos,

Do seu peito na dormencia

Derrama o odor da innocencia,

Um doce raio de amor!

Porque tudo, quando nasce,

Seja a luz da madrugada,

Seja o romper da alvorada,

Seja a virgem, seja a flôr;

Tem mais amor, tem mais vida,

Como celeste feitura,

Que sahe melindrosa e pura

D’entre as mãos do creador.

28 de Julho.

* * * * *

COMO EU TE AMO.

Como se ama o silencio, a luz, o aroma,

O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella,

No largo mar a sombra de uma vela,

Que lá na extrema do horisonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,

Da noite na mudez os sons da flauta,

As canções saudosissimas do nauta,

Quando em molle vai-vem a náo fluctua;

Como se ama das aves o gemido,

Da noite as sombras e do dia as cores,

Um céo com luzes, um jardim com flores,

Um canto quasi em lagrimas sumido;

Como se ama o crepusculo da aurora,

A mansa viração que o bosque ondeia,

O susurro da fonte que serpeia,

Uma imagem risonha e seductora;

Como se ama o calor e a luz querida,

A harmonia, o frescor, os sons, os céos,

Silencio, e cores, e perfume, e vida,

Os paes e a patria e a virtude e a Deos.

* * * * *

Assim eu te amo, assim; mais do que podem

Dizer-t’o os labios meus,--mais do que vale

Cantar a voz do trovador cançada:

O que é bello, o que é justo, sancto e grande

Amo em ti.--Por tudo quanto soffro,

Por quanto já soffri, por quanto ainda

Me resta de soffrer, por tudo eu te amo.

O que espero, cobiço, almejo, ou temo

De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas

Com quanto amor eu te amo, e de que fonte

Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!

Esta occulta paixão, que mal suspeitas,

Que não vês, não suppões, nem te eu revelo,

Só pode no silencio achar consolo,

Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.

* * * * *

De mim não saberás como te adoro;

Não te direi jámais,

Se te amo, e como, e a quanto extremo chega

Esta paixão voraz!

Se andas, sou o echo dos teus passos;

Da tua voz, se fallas;

O murmurio saudoso que responde

Ao suspiro que exhalas.

No odor dos teus perfumes te procuro,

Tuas pegadas sigo;

Velo teus dias, te acompanho sempre,

E não me vês comtigo!

Occulto e ignorado me desvelo

Por ti, que me não vês;

Aliso o teu caminho, esparjo flôres,

Onde pisão teus pés.

Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras,

--Não pensa em mim, dirás:

Imagina-o, si o podes, que os meus labios

Não t’o dirão jámais!

* * * * *

Sim, eu te amo; porêm nunca

Saberás do meu amor;

A minha canção singela

Traiçoeira não revela

O premio sancto que anhela

O soffrer do trovador!

Sim, eu te amo; porêm nunca

Dos labios meus saberás,

Que é fundo como a desgraça,

Que o pranto não adelgaça,

Leve, qual sombra que passa,

Ou como um sonho fugaz!

Aos meus labios, aos meus olhos

Do silencio imponho a lei;

Mas lá onde a dôr se esquece,

Onde a luz nunca fallece,

Onde o prazer sempre cresce,

Lá saberás se te amei!

E então dirás: «Objecto

Fui de sancto e puro amor:

A sua canção singela,

Tudo agora me revela;

Já sei o premio que anhela

O soffrer do trovador.

«Amou-me como se ama a luz querida,

Como se ama o silencio, os sons, os céos,

Qual se amão cores e perfume e vida,

Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»

* * * * *

AS DUAS CORÔAS.

Hermosa, en tu linda frente

El laurel sienta mejor,

Que con su regio esplendor

Corona de rei potente.

G. y S.

Ha duas c’rôas na terra,

Uma d’ouro scintillante

Com esmalte de diamante,

Na fronte do que é senhor;

Outra modesta e singela,

C’rôa de meiga poesia,

Que a fronte ao vate alumia

Com a luz d’um resplendor.

Ante a primeira se curvão

Os potentados da terra:

No bojo, que a morte encerra,

Sobre a liquida extensão,

Levão náos os seus dictames

Da peleja entre os horrores;

Vis escravos, crús senhores,

Preito e menagem lhe dão.

E quando o vate suspira

Sobre esta terra maldicta,

Ninguem a voz lhe acredita,

Mas riem dos cantos seus:

Os anjos, não; porque sabem

Que essa voz é verdadeira,

Que é dos homens a primeira,

Em quanto a outra é de Deos!

Se eu fora rei, não te dera

Quinhão na regia amargura;

Nem te qu’ria, virgem pura,

Sentada sob o docel,

Onde a dôr tão viva anceia,

Tão cruel, tão funda late,

Como no peito que bate

Sob as dobras do burel.

Não te quizera no throno,

Onde a mascara do rosto,

Cobrindo o interno desgosto,

Ser alegre tem por lei;

Manda Deos, sim, que o rei chore;

Mas que chore occultamente,

Porque, se o soubera a gente,

Ninguem quizera ser rei!

Mas o vate, quando soffre,

Modula em meigos accentos,

Seus doridos pensamentos,

A sua interna afflicção;

E das lagrimas choradas

Extrahe um balsamo sancto,

Que vale estancar o pranto

Nos olhos do seu irmão.

Se eu fôra rei, não quizera

Roubar-te á senda florida,

Onde corre doce a vida

No matutino arrebol;

Gozas o sopro das brisas

E o leve aroma das flores,

E as nuvens, que mudão cores

No nascer, no pôr do sol.

Gozão disto as que repousão

Em taboas de vis grabatos;

Não quem vive entre os ornatos

D’um throno d’ouro e marfim!

No solio triste, sentada,

Não viras um rosto amigo,

Nem mais viveras comtigo,

Fôras escrava--por fim!

Vive tu teu viver simples,

Mimosa e gentil donzella,

D’entre todas a mais bella,

Flôr de candura e de amor!

C’rôa melhor eu t’offreço,

D’ouro não, mas de poesia,

C’rôa que a fronte alumia

Com a luz d’um resplendor!

* * * * *

HARPEJOS.

Sweetest music!...

SHAKSPEARE.

Da noite no remanso

Minha alma se extasia,

E praz-me a sós commigo

Pensar na solidão;

Deixar arrebatar-me

De vaga phantasia,

Deixar correr o pranto

Do fundo coração.

Tudo é silencio harmonico

E doce amenidade,

E uma expansão suave

Do mais fino sentir;

Existo! e no passado

Só tenho uma saudade,

Desejos no presente,

Receios no porvir!

Como licor que mana

De cava, humida rocha,

Que o sol nunca evapora,

Nem limpa amiga mão;

A dôr que dentro sinto

Minha alma desabrocha;

Que livre o pranto corre

Da noite na solidão!

Attendo! ao longe escuto

D’uma harpa os sons queixosos,

Attendo! e logo sinto

Minha alma se alegrar!

Attendo! são suspiros

De seres vaporosos,

Que mil imagens vagas

Me fazem recordar!

Tu que eras minha vida,

Que foste os meus amores,

Imagem grata e bella

D’um tempo mais feliz,

Que tens, que assim chorosa

Suspiras entre as flores?

Teu sou,--do juramento

Me lembro, que te fiz.

Te vejo, te procuro,

Teus mudos passos sigo,

Em quanto, leve sombra,

Fugindo vais de mi’!

Unido ás notas da harpa

Percebo um som amigo,

Que me recorda o timbre

Da voz que já te ouvi!

Na brisa que soluça,

Na fonte que murmura,

Nas folhas que se movem

Da noite á viração,

Ainda escuto os echos

D’uma fugaz ventura,

Que assim me deixou triste

Em mesta solidão.

Prosegue, harpa ditosa,

Nas doces harmonias,

Que da minha alma sabes

A magoa adormecer;

Prosegue! e a doce imagem

Dos meus primeiros dias

Veja eu ante os meus olhos

De novo apparecer!

Ai, forão como a virgem

Que em sitio solitario

Acaso um dia vimos

Sósinha a divagar!

Memoria bemfazeja,

Que o gelido sudario,

Que a morte em nós estende

Só vale desbotar.

* * * * *

TRISTE DO TROVADOR.

E ella era esbelta e bem proporcionada;

sua alma era como a sensitiva, e suas palavras

erão doces e tinhão um perfume,

que se não pode comparar.

(_Duas noites de luar._)

E ella era como a rosa matutina

Formosa e bella,

Como a estrella que á noite ao mar se inclina,

Saudosa era ella.

Seus olhos negros, vivos e rasgados,

Eram delicias vel-os;

E co’ a alvura do rosto contrastava

A côr dos seus cabellos.

Quando alguem lhe fallava, então fallava

Com voz macia,

Que triste dentro d’alma nos filtrava

Doce alegria.

E o seu timbre de voz movia as fibras

Do coração,

Como sons que a mudez da noite quebrão

Na solidão.

Seu mais leve sentir patenteava

No rosto ameno;

Nuvemzinha da tarde, que se encherga

Em céo sereno.

Topou-a acaso pensativa, errante,

O trovador:

«Feliz, disse elle, quem gozára os mimos

Do seu amor!»

E ella deu-lhe do seio uma saudade

Murcha, e no em tanto bella;

E elle um culto votou, scismando extremos,

Á pallida donzella.

Como fosse, porêm, breve a sua vida

Como uma flôr,

Em breves dias era mudo e triste

O trovador.

* * * * *

Se alguma vez cantava,--então dizia

Ao seu anjo do céo, que lá morava,

Que de ter junto delle só pedia

A vida sua, que tão erma estava.

* * * * *

VELHICE E MOCIDADE.

Eu levo á sepultura, uns após outros,

A donzella gentil, o velho enfermo

E o mancebo que folga descansado

Á sombra da ventura.

...

«Minha filha, mais depressa,

Mais depressa um pouco andemos,

E da aurora que desponta

Saudavel frescor gozemos!

«Senta-me em baixo do chorão, que dobra

A verde rama sobre a campa núa

De um ser de peito bom, de rosto bello,

Que foi minha mulher, que foi mãi tua!

«O sol, nascendo apenas, vem primeiro

Seus raios nessa campa dardejar,

E á cançada velhice é bem fagueiro

Esses restos da vida desfructar.»

* * * * *

Um cego e triste velho que tremia

Á força dos invernos que passarão,

Á filha nova e bella, assim dizia,

Á filha que os amores cubiçarão.

E tinha o velho pae nos hombros della

A mão crestada e morta e já rugosa,

E ella ao pae, sollicita, extremosa,

Guiava como um anjo e alva e bella.

* * * * *

«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido,

Oh filha da minha alma, oh meu thesouro,

Tambem um tempo foi que entretecido

Tive o fio vital de seda e d’oiro!

«Tambem meus olhos se expraiarão longe,

Pela vasta extensão destas campinas;

Tambem segui a tortuosa veia

Desta linda corrente que se perde

Além, por entre penhas;

E a esmeraldina côr, de que se arreia

A relva destes prados, destas brenhas,

Meus olhos juvenis encheu de gozo,

Que agora os olhos teus tambem recreia!

«E que prazer tão grande! o sol nascia

N’um mar de luz brilhante!

Levantava-se mais, brilhava, ardia,

No prado verdejante,

Na fonte e na devesa;

E o mundo e a natureza

De puro amor enchia!

Destoucavão-se os montes de neblina,

Que meiga e adelgaçada

Pendia, como um véo de gaza fina

Da celeste morada,

Quando n’um mar formoso o sol nascia!

«O mundo era então luz--hoje é só trevas!

O céo de puro azul via tingido,

Via a terra de cores adornada,

E na immensa extensão d’agua salgada

Via a esteira de luz do sol luzido!

«Breve as horas passei de ser ditoso

Aqui, neste lugar, ledo escutando

Tão amavel tua mãi, tão carinhosa,

Qu’instantes curtos me teceu fallando!

«Hoje existo somente porque existes,

Desfructo outro viver que não vivia,

Quando escutão-te a voz os meus ouvidos,

Como sons de celeste melodia.

«Oh falla, falla sempre.--É doce ao velho

Som d’argentina voz, que as fibras todas

Do semivivo coração abalão,

Como d’uma harpa antiga

As deslembradas cordas,

Que á mão experta e amiga

Do trovador, n’um canto alegre estalão.

«É doce ao solitario a voz de um anjo

Na sua solidão;

E ao velho pai a voz da casta filha,

Que falla ao coração.

«É doce, qual perfume matutino,

Que a flôr exhala,

Que pelo peito da mulher amante

S’interna e cala;

«É doce, como a luz que se derrama

Pela face do mar,

Quando brando luar, da noite amigo,

Vem nelle se espelhar.

«Falla, bem sei que amarga é tua vida,

Que amargo é teu penar;

No silencio da noite tenho ouvido

Teu peito a soluçar!

«Oh falla, tu bem vês que se a tormenta

Tetrica voa,

Ao ninho de seus paes o passarinho

Rapido voa.»

* * * * *

--Oh meu pai, como eu quizera

Meus pezares te esconder;

Mas tua filha, coitada,

Em breve tem de morrer!

--Sinto que alento me falta,

Que longe foge de mim;

Sinto minha alma rasgar-se

Por te deixar só assim;

Meu bom pai, como está breve

Da tua filha o triste fim!

--Alta noite, ouvi em sonhos,

A chamar-me um serafim;

Tinha alegria no rosto,

Mas chorava sobre mim;

Meu bom pai, como está breve

Da tua filha o triste fim!

--E tu cá ficas sosinho,

E tu cá ficas sem mim!

Oh que n’alma só me peza

Por te deixar só assim;

Meu bom pai, que é já chegado

Da tua filha o triste fim!--

E o velho, baixo fallando,

Tristemente assim dizia:

«Já fui feliz, já fui novo,

Já fui cheio de alegria!

«Eu tive paes extremosos,

Irmãos que m’idolatrarão,

Eu tive castos amores,

Que antes de mim se acabarão!

«Eu tive tantos no mundo

Quantos se póde chorar;

Perdi todos, tudo; ai, triste,

Só eu não pude acabar!

«Ao sopro da desventura

Só eu me não abalei,

Que a todos--novos e velhos--

Á campa todos levei!

«Minha filha me restava!

Eu já fantasma impotente,

Sobre os torrões tropeçava

Da cova aberta recente!

«Anjo de amor e bondade,

Porque me deixaste assim!

Tu morta, e na sepultura

Que eu tinha aberto pr’a mim!

«Deos, Senhor, quanto foi longo

O vaso em que fel traguei,

Findo o julguei; restão fezes,

As fezes esgotarei.»

* * * * *

E sobre a rosea face, ora amarella,

A aurora sempre bella radiava,

E o pai, ancião, que a dôr rasgava,

Cingia ao corpo seu o corpo della.

Nem pranto nos seus olhos borbulhava,

E nem nos labios seus a dôr gemia,

E sua alma, qual vaso em calmaria,

Entre vida e morrer n’um ponto estava.

O beijo paternal, por fim, lhe estampa

Na filha, que prazeres só lhe dera;

E filha e pensamento--alguem dissera

Ter juntos sepultado a mesma campa!

Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos,

Por que os venhas assim buscar á terra?

Brilhe a virtude, quando reina o crime,

O crime impune e vil, que ás tontas erra.

* * * * *

AS FLORES.

Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel

Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais

bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.

Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour

Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour.

_Les Jardins._--DELILLE.

Tu que com tanto afan, com tanto custo,

Estudando, inquirindo, e meditando,

De estranhos climas transplantaste aos nossos

As flores varias no matiz, nas formas,

Modesto horticultor, dos teos desvelos

Este só galardão recebe ao menos!

Recebe-o: tambem eu gosto das flores,

Folgo tambem de as ver n’um campo estreito

De estranhas terras revelando os mimos

E as galas d’outros céos:--aqui perfumão

Nossos jardins de peregrina essencia!

Melhorão-se talvez, que as não contristão

Raios tibios do sol, nem turvos ares,

Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Em vós inspirações o bardo encontra,

Devaneios de amor a ingenua virgem,

A abelha o mel, a humanidade encantos,

Odores, nutrição, balsamo e cores.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Linda virgem no albor da vida incerta,

No meio das vivaces companheiras,

Em forma de capella as vai tecendo

Para cingir com ella a fronte e a coma,

Que os annos no passar não enrugarão,

Nem as cans da velhice embranquecerão.

Resplendor d’innocencia, onde casados

A açucena, e os jasmins aos brancos lirios

Um só perfume grato aos céos envia;

Meiga c’rôa d’angelica pureza,

Ornamento da vida--que se rompe

Ou quando os membros delicados vestem

O grosseiro burel da penitencia,

Ou do noivado as galas!--lá se acaba,

Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo!

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quantas vezes, nas horas da ventura,

A fallaz sensação d’um peito ingrato

Não julgamos eterna, immensa, infinda!....

Alli nossos anhelos se concentrão,

Nossa vida alli jaz:--cifra-se inteira

N’um brando volver d’olhos, n’um accento,

Que a ternura repassa, inspira, exhala!

Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto,

Valem thronos, e mais,--o mundo e a vida!

Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas

Um saudoso lembrar d’éras passadas,

De scismadas venturas, não fruidas,

Ás vezes uma flor!...--Flor dos amores,

Quando extincta a paixão, porque inda existes?

Espinhos de uma rosa emmurchecida,

Porque sobreviveis ás folhas d’ella?

Mais firme, mais leal, mais vivedoura

Que a voluvel paixão, a flôr mimosa

Talvez irrita a dôr, talvez a acalma.

Emblemas do prazer, do soffrimento,

Mensageiras do amor ou da saudade,

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Geme a fresca odalisca entre ferrolhos,

Importuna presença a voz lhe tolhe

Do não piedoso eunucho;--e estatua negra

Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos:

Chora a guzla mourisca ao som dos ferros,

Lastima-se a cadeia ao som dos passos,

E a humana flôr definha entre as mais flores;

Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre,

E cingidos de ferro, crús soldados

D’entorno ao mésto harem velão sanhudos!

Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes

Da masmorra cruel:--a planta humilde,

E a escrava que recatas tão cioso,

Zombão dos feros teus! Muda e singela,

Ao través das prisões, dos teus soldados,

Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito,

Mysterios não sabidos relatando,

Contar do infausto amor as provas duras,

Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas

Que chora--ao reiterar protestos novos!

Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas,

O orvalho as cria, as lagrimas as murchão:

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Quem tem o coração a amor propenso,

Quem sente a interna voz que dentro falla,

Delicado sentir d’um brando peito,

Alma virgem que os homens não mancharão;

Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera

E vive e sente a vida, esse vos ama:

Encantos da existencia em quanto vivos,

Do revés, do triumpho companheiras,

No berço, no docel, no mudo esquife,

Sempre amigas eis vos encontramos.

Meigas flores gentis, quem vos não ama?

Modesto horticultor, dos teus desvelos

Este só galardão recebe ao menos;

Paga-te sequer de ver mais bella,

Mais vaidosa, melhor, do sol na terra,

A flôr modesta, producção sublime

De estranhos climas transplantada ao nosso.

Rio, 29 de janeiro de 1849.

* * * * *

O QUE MAIS DÓE NA VIDA.

I cannot but remember such things were,

And were most dear to me.

SHAKESPEARE.

O que mais dóe na vida não é ver-se

Mal pago um beneficio,

Nem ouvir dura voz dos que nos devem

Agradecidos votos,

Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato,

Que as devera beijar!

Não! o que mais dóe não é do mundo

A sangrenta calumnia,

Nem ver como s’infama a acção mais nobre,

Os motivos mais justos,

Nem como se deslustra o melhor feito,

A mais alta façanha!

Não! o que mais dóe não é sentir-se

As mãos dum ente amado

Nos espasmos da morte resfriadas,

E os olhos que se turvão,

E os membros que entorpecem pouco e pouco,

E o rosto que descora!

Não! não é o ouvir d’aquelles labios,

Doces, tristes, compassivas,

Sobre o funereo leito soluçadas

As palavras amigas,

Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto,

Que não s’esquecem nunca!

Não! não são as queixas amargadas

No triumphar da morte;

Que, se se apaga a luz da vida escassa,

Mais viva a luz rutila;

Luz da fé que não morre, luz que espanca

As trevas do sepulchro.

O que dóe, mas de dôr que não tem cura,

O que afflige, o que mata,

Mas de afflicção cruel, de morte amara,

É morrermos em vida

No peito da mulher que idolatramos,

No coração do amigo!

Amizade e amor!--laço de flores,

Que prende um breve instante

O ligeiro batel á curva margem

De terra hospitaleira;

Com tanto amor se ennastra, e tão depressa,

E tão facil se rompe!

Á mais ligeira ondulação dos mares,

Ao mais ligeiro sopro

Da viração--destranção-se as grinaldas;

O baixel se afasta,

Veleja, foge, até que em plaga estranha

Naufragado soçobre!

Talvez permitte Deos que tão depressa

Estes laços se rompão,

Por que nos peze o mundo, e os seus enganos

Mais sem custo deixemos:

Sem custo assim a brisa arrasta a planta,

Que jaz solta na terra!

* * * * *

FLÔR DE BELLEZA.

Não vejas!... se a vires...--Eu sei porque o digo:

Tu morres de amor.

MACEDO.

Se fosse rainha aquella

Em cuja fronte singela,

Como em tela delicada

Luz da belleza o condão,

Fôras rainha adorada;

Mas rainha seductora,

Que exige preitos n’uma hora

E n’outra hora adoração.

Cantos · 第 13 / 17 段