A quem Tupan tamanha dôr, tal fado
Já nos confins da vida reservára,
Vae com tremulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando.--Alarma! alarma!--O velho pára!
O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouvio já tantas vezes
N’outra quadra melhor.--Alarma! alarma!
--Esse momento só vale apagar-lhe
Os tão compridos trances, as angustias,
Que o frio coração lhe atormentarão
De guerreiro e de pae:--vale, e de sobra.
Elle que em tanta dôr se contivera,
Tomado pelo subito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exhaurido coração remoça.
A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soão,
Emmaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, ennovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se accende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem,
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravão.
Era elle, o Tupi; nem fôra justo
Que a fama dos Tupis--o nome, a gloria,
Aturado labor de tantos annos,
Derradeiro brasão da raça extincta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.
--Basta! clama o chefe dos Tymbiras,
--Basta, guerreiro illustre! assás lutaste,
--E para o sacrificio é mister forças.--
O guerreiro parou, cahio nos braços
Do velho pae, que o cinge contra o peito,
Com lagrimas de jubilo bradando:
«Este, sim, que é meu filho muito amado!
«E pois que o acho em fim, qual sempre o tive,
«Corrão livres as lagrimas que choro,
«Estas lagrimas, sim, que não deshonrão.»
X.
Um velho Tymbira, coberto de gloria,
Guardou a memoria
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E á noite, nas tabas, se alguem duvidava
Do que elle contava,
Dizia prudente:--«Meninos, eu vi!
«Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi’.
«Eu disse comigo: Que infamia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como elle, não vi!
E á fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!»
Assim o Tymbira, coberto de gloria,
Guardava a memoria
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E á noite nas tabas, se alguem duvidava
Do que elle contava,
Tornava prudente: «Meninos, eu vi!»
* * * * *
IV.
MARABÁ.
Eu vivo sosinha; ninguem me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum d’entre os homens de mim não se esconde,
--Tu es, me responde,
--Tu es Marabá!
--Meus olhos são garços, são côr das saphiras,
--Tem luz das estrellas, tem meigo brilhar;
--Imitão as nuvens de um céo anilado,
--As cores imitão das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
«Teus olhos são garços,»
Responde anojado; «mas es Marabá:
«Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
«Uns olhos fulgentes,
«Bem pretos, retinctos, não côr d’anajá!»
--É alvo meu rosto da alvura dos lyrios,
--Da côr das areias batidas do mar;
--As aves mais brancas, as conchas mais puras
--Não tem mais alvura, não tem mais brilhar.--
Se ainda me escuta meus agros delirios:
«Es alva de lyrios»
Sorrindo responde; «mas es marabá:
«Quero antes um rosto de jambo corado,
«Um rosto crestado
«Do sol do deserto, não flor de cajá.»
--Meu collo de leve se encurva engraçado,
--Como hastea pendente do cactos em flor;
--Mimosa, indolente, resvalo no prado,
--Como um soluçado suspiro de amor!--
«Eu amo a estatura flexivel, ligeira,
«Qual duma palmeira,»
Então me respondem; «tu es Marabá:
«Quero antes o collo da ema orgulhosa,
«Que pisa vaidosa,
«Que as floreas campinas governa, onde está.»
--Meus loiros cabellos em ondas se annelão,
--O oiro mais puro não tem seu fulgor;
--As brisas nos bosques de os ver se enamorão,
--De os ver tão formosos como um beija-flor!--
Mas elles respondem: «Teus longos cabellos,
«São loiros, são bellos,
«Mas são annelados; tu es Marabá:
«Quero antes cabellos, bem lisos, corridos,
«Cabellos compridos,
«Não côr d’oiro fino, nem côr d’anajá.»
* * * * *
E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem n’as direi?
O ramo d’acacia na fronte de um homem
Jámais cingirei:
Jámais um guerreiro da minha arasoya
Me desprenderá:
Eu vivo sosinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!
* * * * *
V.
CANÇÃO DO TAMOYO.
(Natalicia.)
I.
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.
II.
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que enteza
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuya,
Condor ou tapyr.
III.
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os timidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutão-lhe a voz!
IV.
Domina, se vive;
Se morre, descança
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte ha de vir!
V.
E pois que es meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoyo nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robuste, fragueiro,
Brasão dos tamoyos
Na guerra e na paz.
VI.
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil commoção;
E tremão d’ouvil-o
Peor que o sibilo
Das seta ligeiras,
Peor que o trovão.
VII.
E a mãe nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos creados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dôr!
VIII.
Porêm se a fortuna,
Trahindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do imigo fallaz!
Na ultima hora
Teus feitos memora,
Tranquillo nos gestos,
Impavido, audaz.
IX.
E cae como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extenção;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.
X.
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.
* * * * *
VI.
A MANGUEIRA.
Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira,
E a doce fruta amarella,
Sorrindo entre as folhas della,
E a leve copa altaneira?
Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira?
Nos seus alegres verdores
Se embalança o passarinho;
Todo é graça, todo amores,
Decantando seus ardores
Á beira do casto ninho:
Nos seos alegres verdores
Se embalança o passarinho!
O cançado viandante
Á sombra della acha abrigo;
Traz-lhe a aragem susurrante,
Que lhe passa no semblante,
Talvez o adeos d’um amigo;
E o cançado viandante
Á sombra della acha abrigo.
A sombra que ella derrama
Todas as dores acalma;
Seja dôr que o peito inflamma,
Ou voraz, nociva chamma
Que nos mora dentro d’alma,
A sombra que ella derrama
Todas as dores acalma.
O mancebo namorado
Para ella se encaminha;
Bate-lhe o peito açodado,
Quando chega o praso dado,
Quando ao tronco se avisinha,
E o mancebo namorado
Para o tronco se encaminha.
Sob a copa deleitosa
Mil suspiros se entrelação,
E d’uma hora aventurosa
Guarda a prova a casca annosa
Nas cifras que alli se abração:
Sob a copa venturosa
Mil suspiros se entrelação.
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem,
Deixa-me ouvir teos cantores,
Admirar teos verdores;
Presta-me abrigo tambem,
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem!
* * * * *
VII.
A MÃE D’AGUA.
«Minha mãe, olha aqui dentro,
Olha a bella creatura,
Que dentro d’agoa se vê!
São d’ouro os longos cabellos,
Gentil a doce figura,
Airosa, leve a estatura;
Olha, vê no fundo d’agua
Que bella moça não é!
«Minha mãe, no fundo d’agua
Vê essa mulher tão bella!
O sorrir dos labios della,
Inda mais doce que o teu,
É como a nuvem rosada,
Que no romper da alvorada,
Passa risonha no céo.
«Olha, mãe, olha depressa!
Inclina a leve cabeça
E nas mãosinhas resume
A fina trança mimosa,
E com pente de marfim!...
Olha agora que me avista
A bella moça formosa,
Como se fez toda rosa,
Toda candura e jasmim!
Dize, mãe, dize: tu julgas
Que ella se ri para mim!
«São seus labios entre-abertos
Semilhantes a romã;
Tem ares d’uma princesa,
E no emtanto é tão medrosa!...
Inda mais que minha irmã.
Olha, mãe, sabes quem é
A bella moça formosa,
Que dentro d’agua se vê?»
--Tem-te, meu filho; não olhes
Na funda, lisa corrente:
A imagem que te embelleza
É mais do que uma princesa,
É menos do que é a gente.
--Oh! quantas mães desgraçadas
Chorão seus filhos perdidos!
Meu filho, sabes porquê?
Foi porque derão ouvidos
Á leve sombra enganosa,
Que dentro d’agua se vê.
--O seu sorriso é mentira,
Não é mais que sombra vã;
Não vale aquillo que eu valho,
Nem o que val tua irmã:
É como a nuvem sem corpo,
De quando rompe a manhã.
--É a mãe d’agua traidora,
Que illude os faceis meninos,
Quando elles são pequeninos
E obedientes não são;
Olha, filho, não a escutes,
Filho do meu coração:
O seu sorriso é mentira,
É terrivel tentação.--
* * * * *
Junto ao rio chrystallino
Brincava o ledo menino,
Molhando o pé;
O fresco humor o convida,
Menos que a imagem querida,
Que n’agua vê.
Cauteloso de repente,
Ouve o concelho prudente,
Que a mãe lhe dá;
Não é anjo, não é fada;
Mas uma bruxa malvada,
E cousa má.
Ella é quem rouba os meninos
Para os tragar pequeninos,
Ou mais talvez!
E para vingar-se n’agua
Da causa tanta magoa,
Remeche os pés.
Turba a fonte n’um instante,
Já não vê o bello infante
A sombra vã,
E as brancas mãos delicadas
E as longas tranças douradas
Da sua irmã.
O menino arrependido
Diz comsigo entristecido:
--Que mal fiz eu!
Minha mãe, bem que indulgente,
Só por não me ver contente,
Me repr’hendeu.--
Era figura tão bella!
E que expressão tão singela,
Que riso o seu!
Oh! minha mãe certamente
Só por não me ver contente,
Me repr’hendeu!
Espreita, sim, mas duvída
Que a bella imagem querida
Torne a volver;
E na fonte crystallina
Para ver todo se inclina
Se a póde ver!
Acha-se ainda turbada,
E a bella moça agastada
Não quer voltar;
Sacode leve a cabeça,
Em quanto o pranto começa
A borbulhar.
E de triste e arrependido
Diz comsigo entristecido:
--Que mal fiz eu!...
--Leda ao ver-me parecia,
--Era boa, e me sorria....
--Que riso o seu!
* * * * *
As aguas no em tanto de novo se aplacão,
A lisa corrente se espelha outra vez;
E a imagem querida no fundo apparece
Com mil peixes varios brincando a seus pés.
Do collo uma charpa trazia pendente,
Cortando-lhe o seio de brancos jasmins,
Um iris nas cores, e as franjas bordadas
De prata luzente, de vivos rubins.
Uma harpa a seu lado frisava a corrente,
Gemendo queixosa da leve pressão,
Como harpas ethereas, que as brisas conversão,
Achando-as perdidas em mesta soidão.
Sentida, chorosa parece que estava,
E o bello menino, sentado, a chorar
«Perdôa, dizia-lhe, o mal que te hei feito;
Por minha vontade não hei de tornar!»
A harpa dourada de subito vibra,
A charpa se agita do seio ao travez;
Das franjas garbosas as pedras reflectem
Infindos luzeiros nos humidos pés.
Os peixes pasmados de subito parão
No fundo luzente de puro crystal;
Fantasticos seres assomão ás grutas
Do nitido ambar, do vivo coral!
Em tanto o menino se curva e se inclina
Por ver mais de perto a donosa visão;
A mãe, longe delle, dizia:--Meu filho,
Não oiças, não vejas, que é má tentação.--
* * * * *
«Vem meu amigo, dizia
A bella fada engraçada,
Pulsando a harpa dourada:
--Sou boa, não faço mal,
Vem ver meus bellos palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus thesouros encantados
No meu reino de crystal.
«Vem, te chamo: vê a limpha
Como é bella e crystallina;
Vê esta areia tão fina,
Que mais que a neve seduz!
Vem, verás como aqui dentro
Brincão mil leves amores,
Como em listas multicores
Do sol se desfaz a luz.
«Se não achas borboletas
Nem as vagas mariposas,
Que brincão por entre as rosas
Do teu ameno jardim;
Tens mil peixinhos brilhantes,
Mais luzentes e mais bellos
Que o oiro dos meus cabellos,
Que a nitidez do setim.»
* * * * *
Em tanto o menino se curva e se inclina
Por ver de mais perto a donosa visão;
E a mãe longe delle, dizia: meu filho,
Não oiças, não vejas, que é má tentação.
* * * * *
«Vem, meu amigo, tornava
A bella fada engraçada,
Vem ver a minha morada,
O meu reino de crystal:
Não se sente a tempestade
Na minha espaçosa gruta,
Nem voz do trovão se escuta,
Nem roncos do vendaval.
«Aqui, ao findar do dia,
Tudo rapido se accende,
E o meu palacio resplende
De vivo, ethereo clarão.
Mil figuras apparecem,
Mil donzellas encantadas
Com angelicas toadas
De ameigar o coração.
«Quando passo, as brandas aguas
Por me ver passar se afastão,
E mil estrellas se engastão
Nas paredes do crystal.
Surgem luzes multicores,
Como desses perilampos,
Que tu vês andar nos campos,
Sem comtudo fazer mal.
«Quando passo, mil sereias,
Deixando as grutas limosas,
Formão ledas, pressurosas
O meu sequito real:
Vem! dar-te-hei meus palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus thesouros encantados
E o meu reino de crystal.»
* * * * *
Em tanto o menino se curva e se inclina
Para a visão;
E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho,
Que é tentação.
E o bello menino, dizendo comsigo:--
Que bem fiz eu!
Por ver o thesouro gentil, engraçado,
Que já é seu:
Atira-se ás aguas: n’um grito medonho
A mãe lastimavel--Meu filho!--bradou:
Respondem-lhe os echos; porêm voz humana
Aos gritos da triste não torna:--aqui estou!
* * * * *
POESIAS DIVERSAS.
* * * * *
NENIA
Á MORTE SENTIDISSIMA DO SERENISSIMO PRINCIPE IMPERIAL O SENHOR D. PEDRO.
* * * * *
Á SUA MAGESTADE O IMPERADOR.
* * * * *
I.
Morreste, como a folha verde e linda,
Que não vio murcho o esmeraldino encanto;
Bem como um ai que melindroso finda,
Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flôr inda em botão cortada,
Em quanto aromas recendia pura;
Bem como a onda quando mal formada,
Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora timida que morre,
Em quanto os céos de rosicler matisa;
Bem como o sopro de ligeira brisa,
Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo
Ás ferreas portas da existencia, viste
O mundo afflicto e a humanidade triste
Seu negro fado e sua dôr soffrendo!
Cheio de compaixão atraz voltaste
Do horrifico espectaculo, tapando
Com as azas do anjo o rosto brando,
E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr, que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda, que apenas se formava!
Morreste! como a folha verde e bella
N’um tronco forte a despontar louçã,
Não arrancada á sanha da procella,
Mas leve solta aos beijos da manhã.
Morreste! como lampada brilhante,
Inda virgem, sem dar mystica luz;
Ou turib’lo d’incenso crepitante,
Esquecido nos braços de uma cruz.
Morreste! e os anjos da eternal morada
Levárão entre palmas e capellas
Tua alma, como uma harpa não tocada,
Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda que apenas se formava.
Nenhum bulcão toldou a aurora maga,
Em quanto no horisonte apavonou-se,
A brisa em vendaval não transtornou-se,
A folha em cinza, nem a onda em vaga.
II.
Não ouviste, ó bello anginho,
Na hora do passamento
Para abrandar teu tormento
Do berço teu ao redor,
Dos teus irmãos a phalange
Com opas de luz brilhante,
Nas harpas de diamante
Cantar hosanna ao Senhor?
Teu espirito innocente,
Tocado da luz divina,
Que a fraca mente illumina
Dos resplendores de Deos,
Não antevio outros gozos,
Não correu nos frouxos ares,
Não foi roçar nos palmares,
Nas rosas puras dos céos?
Viste-os, sim; porêm voltando
Outra vez á vida escassa,
Tua alma triste esvoaça
Sobre os teus restos mortaes;
E entre os rostos que divisas,
Que a tua vida pranteião,
Entre quantos te rodeião,
Tu não enchergas teus paes!
Corres então a trazer-lhes
Nas meigas azas brilhantes
Dos teus ultimos instantes
O teu alento final;
E em redor delles choraste
De não ter deixado a vida,
Por extrema despedida,
N’um amplexo paternal!
Vai, ó anjo, sobe, vôa,
Deixa a terra ingrata e rude;
Vai onde móra a virtude,
E premio a innocencia tem;
Mas nos divinos prazeres,
Mas no celeste cortejo,
Terás o materno beijo,
Não serás orphão tambem?
III.
Desprega tuas azas de cores suaves,
Adeja no espaço, procura o teu Deos:
O aroma das flores, o canto das aves,
O que ha de mais puro se entranha nos céos.
Oh! foge da terra: bem como a neblina
Que em rolos de neve, que espuma figura,
Mais frouxa, mais leve, na luz matutina,
Qual nuvem d’incenso, do céo se pendura.
Mas quando a balança dos nossos destinos,
Na grávida concha dos nossos peccados
Sumir-se no abysmo--dos raios divinos
Os golpes apára nos contos dourados.
Não caia do Eterno a justa inclemencia
No povo, que soube teu berço guardar;
Ampara-o nas azas da tua innocencia,
Que os prantos de um anjo nos podem salvar.
Desdobra tuas azas de cores suaves,
Adeja no espaço, procura o teu Deos:
O aroma das flores, e o canto das aves
E o que ha de mais puro se perde nos céos.
IV.
SENHOR, se na afflicção que te consome,
Na dôr immensa, que teu peito acanha,
Póde erguer-se do bardo a voz sentida
E aos teus soluços misturar seu pranto;
Se a dôr do pae não absorve inteiro
O peito augusto do Monarcha excelso,
Enxuga as tristes lagrimas que vertes!
Melhor, talvez, que o throno é ver chorando
Um povo inteiro em torno de um sepulchro,
Um vacuo berço de seu pranto enchendo!
Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle
(Involta em seus reconditos designios)
A quem aprouve nivelar, cortando
Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos,
--A dôr de um pae e as afflicções de um povo!--
JANEIRO 10 de 1850.
* * * * *
OLHOS VERDES.
Elles verdes são:
E tem por usança,
Na côr esperança,
E nas obras não.
CAM., _Rim._
São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos côr de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como duas esmeraldas,
Iguaes na forma e na côr,
Tem luz mais branda e mais forte,
Diz uma--vida, outra--morte;
Uma--loucura, outra--amor.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São verdes da côr do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflammão,
Tão meigamente derramão
Fogo e luz do coração;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São uns olhos verdes, verdes,
Que podem tambem brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da côr do prado,
Mas verdes da côr do mar.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como se lê n’um espelho
Pude lêr nos olhos seus!
Os olhos mostrão a alma,
Que as ondas postas em calma
Tambem reflectem os céos;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós, ó meos amigos,
Se vos perguntão por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos côr de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Vio uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da côr do mar:
Erão verdes sem espr’ança,
Davão amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais a vida
Depois que os vi!
* * * * *
CUMPRIMENTO DE UM VOTO
Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr.
ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.
PORTO DAS CAIXAS--25 de agosto 1850.
Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe
Cantar voltas de amor, á graça tanta
Será mudo o cantor, nem ha de aos echos
A cythara incivil fallar de amores?
Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas;
Quando a senhora manda, o escravo cumpre
E ás supplicas da musa o vate cede!
Afinada por vós a lyra humilde,
Já desafeita aos sons que o peito abrandão,
Á nova esphera se remonta agora.
O frescor juvenil dos vossos annos,
E as, que vos ornão, deleitosas graças,
Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as,
Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.
* * * * *
A estrella, que fulge no céo anilado,
Com placido brilho de noite s’inflamma;
Na fonte e no prado
Reflexos luzentes esparge e derrama.
Nos ramos cobertos de ameno rocio
As aves descantão á luz da alvorada,
E a meiga toada
Repetem aos echos do bosque sombrio.
Na gleba virente, do sol bafejada,
Recende perfumes a flôr matutina,
Que á luz da alvorada
Ao sopro da brisa de leve s’inclina.
A flôr que trescala perfumes suaves,
A estrella que brilha no céo anilado,
E o canto das aves,
Que sôa no bosque virente e copado;
Se cantão, perfumão, despedem fulgores,
É tal o seu fado:--vós sois qual são ellas,
Sois como as estrellas,
Na graça e no canto, sois aves, sois flôres.
Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces
Encurtão-se as horas de nosso viver,
De ver como as faces,
Que tendes em torno, resumbrão prazer.
* * * * *
Estes versos na mente susurravão
Do vate, cuja lyra merencoria
Foi por vós de festões engrinaldada;
Por vós, cujo sorriso mavioso
Melhor perfume exhala, do que as notas
Concertadas com arte; dai um riso
Dos vossos, um volver dos brandos olhos,
Aos alegres convivas; e um reflexo
Do vosso meigo olhar e brando riso
Venha morrer na lyra do poeta,
Como do astro-rei, quando no occaso
Doura no campo as folhas mais humildes.
* * * * *
LYRA QUEBRADA.
Ah! ya agostada
Siento mi juventud, mi faz marchita,
Y la profunda pena que me agita
Ruga mi frente de dolor nublada.
HEREDIA.
Pede cantos aos ledos passarinhos,
Pede clarão ao sol, perfume ás flores,
Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos,
Doces querelas ao correr das fontes;
E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos
E as fontes que murmurão docemente,
Na festa da tua alma hão de seguir-te,
Como um som pelos echos repetido.
Mas não peças á lyra abandonada
Um alegre cantar,--já murchas pendem
As grinaldas gentis, de que a toucárão
Donzeis louçãos, enamoradas virgens.
Hoje mal partem roucos sons dos nervos,
Que amargo pranto destendeu sem custo;
Quem ha que se não dóe de ouvir cantados
Uns versos de prazer entre soluços?
Não peças pois um hymno ao triste bardo!
Verde ramo d’uma arvore gigante
O raio no passar queimou-lhe o viço,
Deixando-o por escarneo entre verdores.
Uma febre, um ardor nunca apagado,
Um querer sem motivo, um tedio á vida
Sem motivo tambem,--caprichos loucos,
Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas;
Desejar coisas vãs, viver de sonhos,
Correr após um bem logo esquecido,
Sentir amor e só topar frieza,
Scismar venturas e encontrar só dores;
Fizerão-me o que vês: não canto, soffro!
Lyra quebrada, coração sem forças
De poetico manto os vou cobrindo,
Por disfarçar desta arte o mal que passo.
Mas se inda tens prazer á luz da aurora,
Se te ameiga fitar longos instantes,
Sentada á beira mar, na paz de um ermo,
Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens;
Pede cantos aos ledos passarinhos,
Á brisa, ao vento, á fonte que murmura;
Mas não peças canções ao triste bardo,
A quem té para um ai já falta o alento.
* * * * *
A PASTORA.
Forão as trevas fugindo,
E luzindo
Nasce o sol sobre o horisonte;
Quando a pastora formosa
E mimosa
Já caminho vai do monte!
A relva tenra e molhada,
Orvalhada,
Que de noite despontou,
Se levanta melindrosa,
Mais viçosa
Depois que o sol a afagou!
Nos ramos cantão, trinando
E saltando,
As aves seu casto amor;
Aqui, alli, scintillante
E brilhante
Desabrocha a linda flôr.
E a pastorinha engraçada,
Bem fadada,
Na fresca manhã de abril,
Vai cantando maviosa,
E saudosa
Pensando no seu redil.
Para as serras do Gerez
Toca a rez,
Toca a rez, gentil pastora;
Lá te aguarda o bom pastor,
Teu amor,
Que te chama encantadora.
Vai, pastora, vai depressa,
Já começa
O sol no valle a brilhar;
Vai, que as tuas companheiras,
Galhofeiras,
Lá ’stão com elle a folgar!
Pela aldeia entre os pastores
Vão rumores
De que tens uma rival,
Nessa Alteia, a tua antiga,
Doce amiga,
Que te quer hoje tão mal!
Tu não sabes que os amores
São traidores,
Que o homem não sabe amar;
E que diz: Esta é mais bella;
Mas aquella
É que me sabe agradar!
Tenho d’Alteia receios,
Que tem meios
De prender um coração;
É viva, bella, engraçada,
Festejada
Nos cantares do serão.
Como a neve em seus lavores,
Nos amores
Que caprichosa não é!
Zomba delle quando o topa,
E o provoca
De mil maneiras, á fé!
Té dizem--será mentira--
Que lhe atira
Seus motetes muita vez;
Dizem mais, que ha prendas dadas
E trocadas:...
Não sei; mas será talvez!
Triste de ti, se assim fôra,
Ó pastora,
Triste de ti sem amor!
Foras alvo dos festejos,
Dos motejos,
E do canto mofador!
Cheia de pudico medo,
Ao folguedo
Do domingo festival,
Não irias, ó formosa,
Vergonhosa
Dos olhos d’uma rival!
Para as serras do Gerez
Toca a rez,
Toca a rez, gentil pastora;
Lá te aguarda o bom pastor,
Teu amor,
Que te chama encantadora!
GEREZ....
* * * * *
A INFANCIA.
A M^{lle} J. PICOT.
I.
Bello raio do sol da existencia,
Meninice fagueira e gentil,
Doce riso de pura innocencia
Sempre adorne teu rosto infantil.