ULTIMOS CANTOS.

* * * * *

AO

MEU CARO E SAUDOSO AMIGO

O DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE

CARVALHO LEAL

OFFERENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS,

quando pela primeira vez forão impressas.[4]

* * * * *

Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os

ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos

balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com

as dores de um espirito infermo,--ficticias, mas nem por isso menos

agudas,--produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse

por si bastante penosa, ou que o espirito, affeito a certa dose de

soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.

No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados

pungentes,--inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um

olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado--percorri este

primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer--eis toda

a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indiziveis,

e nunca satisfeitos,--caprichosos como a imaginação,--vagos como

o oceano,--e terriveis como a tempestade; e estes soffrimentos

de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis,

renascentes,--ligados a minha existencia, reconcentrados em minha

alma, devorados commigo, umas vezes me deixarão sem força e sem

coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia,

ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a

esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.

Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu

paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir--a

mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar,--de as saber

estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque

a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só

de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem,

porque a sentem, porque a adivinhão--paguei bem caro esta momentanea

celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a

lenta agonia de um martyrio ignorado.

Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos

da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo

das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos

cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo,--a ti, ao teu

nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu

constantemente ao meu lado,--a aragem bemfazeja da tua amizade

sollicita e desvelada,--a tua voz que me animava e consolava,--a

tua intelligencia que me vivificava--ao prodigio de duas indoles

tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma

dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos

sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão,

se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada

a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para

abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido,

é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as

potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o

derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios

pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente

do meu coração.

Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos,--não satisfazer as

esperanças, que em mim tinhas depositado,--não realisar a expectação

da tua desinteressada amizade. Entrei na luta, e procurei disputar ao

tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem

por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que

fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma

geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um

navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um

mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.

Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando

apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o

pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me

esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda

persisto nesta carreira, é por teu respeito: continuarei--até que,

satisfeito dos meus esforços, me digas: basta!--Então, já t’o hei dito,

voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sabido, e--como um

soldado desconhecido--contarei os meus triumphos pelas minhas feridas,

voltando á habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os

primeiros dias da minha infancia.

Minha alma não está commigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos,

involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando

na voz do trovão. Lá está ella!--lá está a espreguiçar-se nas vagas

de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a susurrar nos

leques das palmeiras: lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre

virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta,

o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores

amarellas. Alli sim,--alli está--desfeita em lagrimas nas folhas das

bananeiras--desfeita em orvalho sobre as nossas ores, desfeita em

harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos

mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra

vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei

enchugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e

do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu

affrontar as borrascas desencadeadas no oceano, que eu houver para

sempre deixado atraz de mim.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.

A. GONÇALVES DIAS.

POESIAS AMERICANAS.

* * * * *

I.

O GIGANTE DE PEDRA.

O guerriers! ne laissez pas ma dépouille au corbeau!

Ensevelissez-moi parmi des monts sublimes,

Afin que l’étranger cherche, en voyant leurs cimes,

Quelle montagne est mon tombeau!

V. HUGO. _Le Géant._

I.

Gigante orgulhoso, de fero semblante,

N’um leito de pedra lá jaz a dormir!

Em duro granito repousa o gigante,

Que os raios sómente podérão fundir.

Dormido atalaia no serro empinado

Devera cuidoso, sanhudo velar;

O raio passando o deixou fulminado,

E á aurora, que surge, não ha de acordar!

Co’os braços no peito cruzados nervosos,

Mais alto que as nuvens, os céos a encarar,

Seu corpo se estende por montes fragosos,

Seus pés sobranceiros se elevão do mar!

De lavas ardentes seus membros fundidos

Avultão immensos: só Deos poderá

Rebelde lançal-o dos montes erguidos,

Curvados ao peso, que sobre lhe ’stá.

E o céo, e as estrellas e os astros fulgentes

São velas, são tochas, são vivos brandões,

E o branco sudario são nevoas algentes,

E o crepe, que o cobre, são negros bulcões.

Da noite, que surge, no manto fagueiro

Quiz Deos que se erguesse, de junto a seos pés,

A cruz sempre viva do sul no cruzeiro,

Deitada nos braços do eterno Moysés.

Perfumão-no odores que as flores exhalão,

Bafejão-no carmes de um hymno de amor

Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalão,

Dos ventos que rugem, do mar em furor.

E lá na montanha, deitado dormido

Campeia o gigante,--nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar!

II.

Banha o sol os horisontes,

Trepa os castellos dos céos,

Aclara serras e fontes,

Vigia os dominios seus:

Já descahe p’ra o occidente,

E em globo de fogo ardente

Vai-se no mar esconder;

E lá campeia o gigante,

Sem destorcer o semblante,

Immovel, mudo, a jazer!

Vem a noite após o dia,

Vem o silencio, o frescor,

E a brisa leve e macia,

Que lhe suspira ao redor;

E da noite entre os negrores,

Das estrellas os fulgores

Brilhão na face do mar:

Brilha a lua scintillante,

E sempre mudo o gigante,

Immovel, sem acordar!

Depois outro sol desponta,

E outra noite tambem,

Outra lua que aos céos monta,

Outro sol que após lhe vem:

Após um dia outro dia,

Noite após noite sombria,

Após a luz o bulcão,

E sempre o duro gigante,

Immovel, mudo, constante

Na calma e na cerração!

Corre o tempo fugidio,

Vem das aguas a estação,

Após ella o quente estio;

E na calma do verão

Crescem folhas, vingão flores,

Entre galas e verdores

Sazonão-se fructos mil;

Cobrem-se os prados de relva,

Murmura o vento na selva,

Azulão-se os céos de anil!

Tornão prados a despir-se,

Tornão flores a murchar,

Tornão de novo a vestir-se,

Tornão depois a seccar;

E como gota filtrada

De uma abobada escavada

Sempre, incessante a cahir,

Tombão as horas e os dias,

Como phantasmas sombrias,

Nos abysmos do porvir!

E no feretro de montes

Inconcusso, immovel, fito,

Escurece os horisontes

O gigante de granito:

Com soberba indifferença

Sente extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés;

Nem vê que duras desgraças,

Que lutas de novas raças

Se lhe atropellão aos pés!

III.

E lá na montanha deitado dormido

Campeia o gigante!--nem póde acordar!

Cruzados os braços de ferro fundido,

A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!....

IV.

Vio primeiro os incolas

Robustos, das florestas,

Batendo os arcos rigidos,

Traçando homereas festas,

Á luz dos fogos rutilos,

Aos sons do murmuré!

E em Guanabara esplendida

As danças dos guerreiros,

E o guáu cadente e vário

Dos moços prazenteiros,

E os cantos da victoria

Tangidos no boré.

E das ygaras concavas

A frota aparelhada,

Vistosa e formosissima

Cortando a undosa estrada,

Sabendo, mas que frageis,

Os ventos contrastar:

E a caça leda e rapida

Por serras, por devesas,

E os cantos da janubia

Junto ás lenhas accesas,

Quanto o tapuya misero

Seos feitos vai narrar!

E o germen da discordia

Crescendo em duras brigas,

Ceifando os brios rusticos

Das tribus sempre amigas,

--Tamoy a raça antigua,

Feroz Tupinambá.

La vai a gente improvida,

Nação vencida, imbelle,

Buscando as matas invias,

Donde outra tribu a expelle;

Jaz o pagé sem gloria,

Sem gloria a maracá.

Depois em náos flammivomas

Um troço hardido e forte,

Cobrindo os campos humidos

De fumo, e sangue, e morte,

Traz dos reparos horridos

D’altissimo pavez:

E do sangrento pelago

Em miseras ruinas

Surgir galhardas, limpidas

As portuguezas quinas,

Murchos os lises candidos

Do improvido gaulez!

V.

Mudarão-se os tempos e a face da terra,

Cidades alastrão o antigo paúl;

Mas inda o gigante, que dorme na serra,

Se abraça ao immenso cruzeiro do sul.

Nas duras montanhas os membros gelados

Talhados a golpes de ignoto buril,

Descança, ó gigante, que encerras os fados,

Que os terminos guardas do vasto Brasil.

Porêm se algum dia fortuna inconstante

Poder-nos a crença e a patria acabar,

Arroja-te ás ondas, ó duro gigante,

Inunda estes montes, desloca este mar!

* * * * *

II.

LEITO DE FOLHAS VERDES.

Porque tardas, Jatyr, que tanto a custo

Á voz do meu amor moves teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva

Nosso leito gentil cobri zeloza

Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flôr abriu-se, ha pouco,

Já solta o bogarî mais doce aroma!

Como prece de amor, como estas preces,

No silencio da noite o bosque exhala.

Brilha a lua no céo, brilhão estrellas,

Correm perfumes no correr da brisa,

A cujo influxo magico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flôr que desabrocha ao romper d’alva

Um só gyro do sol, não mais, vegeta:

Eu sou aquella flôr que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.

Sejão valles ou montes, lago ou terra,

Onde quer que tu vas, ou dia ou noite,

Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: es meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca virão,

Não sentirão meus labios outros labios,

Nem outras mãos, Jatyr, que não as tuas

A arasoya na cinta me apertarão.

Do tamarindo a flôr jaz entre-aberta,

Já solta o bogarî mais doce aroma;

Tambem meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exhala!

Não me escutas, Jatyr! nem tardo acodes

Á voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupan! lá rompe o sol! do leito inutil

A brisa da manhã sacuda as folhas!

* * * * *

III.

Y-JUCA-PYRAMA.

I.

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos--cobertos de flores,

Alteião-se os tectos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos animos fortes,

Temiveis na guerra, que em densas cohortes

Assombrão das matas a immensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de gloria,

Já prelios incitão, já cantão victoria,

Já meigos attendem á voz do cantor:

São todos Tymbiras, guerreiros, valentes!

Seu nome lá vôa na bocca das gentes,

Condão de prodigios, de gloria e terror!

As tribus visinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspirárão dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes accendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sugeitos na paz.

No centro da taba se extende um terreiro,

Onde ora se aduna o concilio guerreiro

Da tribu senhora, das tribus servis:

Os velhos sentados praticão d’outr’ora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramão-se em torno d’um indio infeliz.

Quem é?--ninguem sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribu não diz:--de um povo remoto

Descende por certo--d’um povo gentil;

Assim lá na Grecia ao escravo insulano

Tornavão distincto do vil musulmano

As linhas correctas do nobre perfil.

Por casos de guerra cahiu prisioneiro

Nas mãos dos Tymbiras:--no extenso terreiro

Assola-se o tecto, que o teve em prisão;

Convidão-se as tribus dos seus arredores,

Cuidosos se incumbem do vaso das cores,

Dos varios aprestos da honrosa funcção.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira,

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com pennas gentis:

Á custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o Tymbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vario matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,

Affeitas ao rito da barbara usança,

O indio já querem captivo acabar:

A coma lhe cortão, os membros lhe tingem,

Brilhante enduápe no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

II.

Em fundos vasos d’alvacenta argilla

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anceião,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no occaso

Jámais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o collo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!

Com tudo os olhos d’ignobil pranto

Seccos estão;

Mudos os labios não descerrão queixas

Do coração.

Mas um martyrio, que encobrir não póde,

Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta

No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te virão,

Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, á chuva,

Lá murcha e pende:

Sómente ao tronco, que devassa os ares,

O raio offende!

Que foi? Tupan mandou que elle cahisse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

III.

Em larga roda de noveis guerreiros

Ledo caminha o festival Tymbira,

A quem do sacrificio cabe as honras.

Na fronte o kanitar sacode em ondas,

O enduápe na cinta se embalança,

Na dextra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante.--Ao menor passo

Collar d’alvo marfim, insignia d’honra,

Que lhe orna o collo e o peito, ruge e freme,

Como que por feitiço não sabido

Encantadas alli as almas grandes

Dos vencidos Tapuyas, inda chorem

Serem gloria e brasão d’imigos feros.

«Eis-me aqui, diz ao indio prisioneiro;

«Pois que fraco, e sem tribu, e sem familia,

«As nossas matas devassaste ousado,

«Morrerás morte vil da mão de um forte.»

Vem a terreiro o misero contrario;

Do collo á cinta a musurana desce:

«Dize-nos quem es, teus feitos canta,

«Ou se mais te apraz, defende-te.» Começa

O indio, que ao redor derrama os olhos,

Com triste voz que os animos commove.

IV.

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribu tupi.

Da tribu pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci:

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,

De tribus imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

Andei longes terras,

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aymorés;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes--escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.

E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinhão traidores,

Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo

Meu ultimo amigo,

Sem lar, sem abrigo

Cahio junto a mi!

Com placido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Commigo soffri.

Meu pae a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por invios caminhos,

Cobertos d’espinhos

Chegamos aqui!

O velho no em tanto

Soffrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu’ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho

Me quero valer.

Então, forasteiro,

Cahi prisioneiro

De um troço guerreiro

Com que me encontrei:

O cru dessocego

Do pae fraco e cego,

Em quanto não chego,

Qual seja,--dizei!

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deos lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descançava,

Que filho lhe sou.

Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta?--Morrer.

Em quanto descreve

O gyro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não córo

Do pranto que choro;

Se a vida deploro,

Tambem sei morrer.

V.

Soltai-o!--diz o chefe. Pasma a turba;

Os guerreiros murmurão: mal ouvírão,

Nem poude nunca um chefe dar tal ordem!

Brada segunda vez com voz mais alta,

Afrouxão-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

--Tymbira, diz o indio enternecido,

Solto apenas dos nós que o seguravão:

Es um guerreiro illustre, um grande chefe,

Tu que assim do meu mal te commoveste,

Nem soffres que, transposta a natureza,

Com olhos onde a luz já não scintilla,

Chore a morte do lho o pae cançado,

Que somente por seu na voz conhece.

--Es livre; parte.

--E voltarei.

--Debalde.

--Sim, voltarei, morto meu pai.

--Não voltes!

E bem feliz, se existe, em que não veja,

Que filho tem, qual chora: es livre; parte.

--Acaso tu suppões que me acobardo,

Que receio morrer!

--Es livre; parte!

--Ora não partirei; quero provar-te

Que um filho dos Tupis vive com honra,

E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso affronta.

--Mentiste, que um Tupi não chora nunca,

E tu choraste!... parte; não queremos

Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi:--arfando em ondas

O rebater do coração se ouvia

Precipite.--Do rosto afogueado

Gelidas bagas de suor corrião:

Talvez que o assaltava um pensamento...

Já não ... que na enlutada fantasia,

Um pesar, um martyrio ao mesmo tempo,

Do velho pae a moribunda imagem

Quasi bradar-lhe ouvia:--Ingrato! ingrato!

Curvado o collo, taciturno e frio,

Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI.

--Filho meu, onde estás?

--Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões: tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, e já!

--Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

--Sim, demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convem partir, e já!

--Que novos males

Nos resta de soffrer?--que novas dores,

Que outro fado pior Tupan nos guarda?

--As setas da afflicção já se esgotárão,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

--Mas tu tremes!

--Talvez do afan da caça...

--Oh filho caro!

Um quê mysterioso aqui me falla,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei: é Tupan que nos afflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!...--

E com mão tremula, incerta

Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lugubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéa fatal correu-lhe á mente....

Do filho os membros gelidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo:--foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro craneo,

Despido então do natural ornato!....

Recúa afflicto e pavido, cobrindo

Ás mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porêm mais clara,

D’aquelle exicio grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Elle o via; elle o tinha alli presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dôr passada, a previsão futura

E o presente tão negro, alli os tinha;

Alli no coração se concentrava,

Era n’um ponto só, mas era a morte!

--Tu prisioneiro, tu?

--Vós dissestes.

--Dos indios?

--Sim.

--De que nação?

--Tymbiras.

--E a musurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebraste a maça....

--Nada fiz ... aqui estou.

--Nada!--

Emmudecem;

Curto instante depois prosegue o velho:

--Tu es valente, bem o sei; confessa,

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

--Nada fiz; mas souberão da existencia

De um pobre velho, que em mim só vivia....

--E depois?...

--Eis me aqui.

--Fica esse taba?

--Na direcção do sol, quando transmonta.

--Longe?

--Não muito.

--Tens razão: partamos.

--E quereis ir?...

--Na direcção do occaso.

VII.

«Por amor de um triste velho,

Que ao termo fatal já chega,

Vós, guerreiros, concedestes

A vida a um prisioneiro.

Acção tão nobre vos honra,

Nem tão alta cortesia

Vi eu jámais praticada

Entre os Tupis,--e mas forão

Senhores em gentileza.

«Eu porêm nunca vencido,

Nem nos combates por armas,

Nem por nobreza nos actos;

Aqui venho, e o filho trago.

Vós o dizeis prisioneiro,

Seja assim como dizeis;

Mandai vir a lenha, o fogo,

A maça do sacrificio

E a musurana ligeira:

Em tudo o rito se cumpra!

E quando eu for só na terra,

Certo acharei entre os vossos,

Que tão gentis se revelão,

Alguem que meus passos guie;

Alguem, que vendo o meu peito

Coberto de cicatrizes,

Tomando a vez de meu filho,

De haver-me por pae se ufane!»

Mas o chefe dos Tymbiras,

Os sobrolhos encrespando,

Ao velho Tupi guerreiro

Responde com torvo accento:

--Nada farei do que dizes:

É teu filho imbelle e fraco!

Aviltaria o triumpho

Da mais guerreira das tribus

Derramar seu ignobil sangue:

Elle chorou de cobarde;

Nós outros, fortes Tymbiras,

Só de heróes fazemos pasto.--

Do velho Tupi guerreiro

A surda voz na garganta

Faz ouvir uns sons confusos,

Como os rugidos de um tigre,

Que pouco a pouco se assanha!

VIII.

«Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não es!

Possas tu, descendente maldicto

De uma tribu de nobres guerreiros,

Implorando crueis forasteiros,

Seres presa de vis Aymorés.

«Possas tu, isolado na terra,

Sem arrimo e sem patria vagando,

Regeitado da morte na guerra,

Regeitado dos homens na paz,

Ser das gentes o espectro execrado;

Não encontres amor nas mulheres,

Teus amigos, se amigos tiveres,

Tenhão alma inconstante e falaz!

«Não encontres doçura no dia,

Nem as cores da aurora te ameiguem,

E entre as larvas da noite sombria

Nunca possas descanço gozar:

Não encontres um tronco, uma pedra,

Posta ao sol, posta as chuvas e aos ventos,

Padecendo os maiores tormentos,

Onde possas a fronte pousar.

«Que a teus passos a relva se torre;

Murchem prados, a flor desfalleça,

E o regato que limpido corre,

Mais te accenda o vesano furor;

Suas agoas depressa se tornem,

Ao contacto dos labios sedentos,

Lago impuro de vermes nojentos,

Donde fujas com asco e terror!

«Sempre o céo, como um tecto incendido,

Creste e punja teus membros maldictos

E o oceano de pó denegrido

Seja a terra ao ignavo tupi!

Miseravel, faminto, sedento,

Manitôs lhe não fallem nos sonhos,

E do horror os espectros medonhos

Traga sempre o cobarde após si.

«Um amigo não tenhas piedoso

Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d’argilla cuidoso

Arco e frecha e tacápe a teus pés!

Sê maldicto, e sosinho na terra;

Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste,

Tu, cobarde, meu filho não es.»

IX.

Cantos · 第 11 / 17 段