Quando n’aquelle deserto

Languidos olhos estende,

Vê mar que ferve revolto

E chuva que do céo pende:

Como deixou seu alvergue,

O triste não comprehende!

Sembrão-lhe então formidaveis

Os p’rigos que elle affrontou;

Figura risonhos quadros

Dos gozos que já gozou,

Do que na terra o convida,

Dos que na terra deixou.

Do que outrora foy passado

E mais do que vai passando,

Medonho e máo parallelo

Vai o mesquinho traçando;

Dôr de espinhos penetrantes

O peito lhe está varando.

Dias lembrar já passados

E já passada ventura,

Quando o viver he tormento,

Tormento que sempre dura,

He certo desdita grande

E muito grande amargura.

Mas vede o que val a vida!

He aquella aventurada,

Se dizemos verdadeiros:

Houve hum dia, huma hora, hum nada,

Não do pezar combatida,

Mas do prazer bafejada.

Simelha quem pola calma

O dia inteiro vagou,

Depois no marco da estrada

Cançado e triste quedou;

Ally thesouro sem dono,

Ventura sua, encontrou.

* * * * *

Era na sancta semana,

Semana de devação!

Com jejuns e penitencias

Apresta-se o bom christão

Pera os mysterios mais altos

Da mais alta religião.

Quantas coizas que nos fallão

N’aquelle passo sagrado

D’aquelle homem divino,

D’aquelle Deos humanado,

Que por amor de seos filhos,

Ingratos, foy maltratado!

Não foy por odio ou vingança,

Mas por dinheiro trahido!

Por hum homem refalsado,

Por hum discip’lo querido;

Trahido por meio infame!...

Hum falso beijo vendido!

Foy mister por mór tormento,

Que morresse polos seos!

Entregue por hum eleito

Nas garras dos Fariseos,

Homem morreo polos homens,

Morreo judeo por judeos.

C’roou a fronte sagrada

C’roa d’espinhos tecida,

Correrão dados infames

Em taboa vil, denegrida;

Em hastea foy rematada

Tunica em sangue tingida.

Tormentos, baldões e mófa

Quem mais do qu’elle soffreo?

Quem mais comprido marteyro,

Quem mais affronta e labéo?

Tal foy que o homem divino

O rosto ao calix torceo.

Tal foy que o Deos humanado

Disse ao Deos, que era seu pay:

«Senhor Deos, s’inda he possivel,

Do vosso intento tornai;

Este calix de amargura

Dos labios meos affastai!»

Carpindo males alheios,

Quantos não vemos per hy,

Que nem siquer se recordão

De quanto soffreo por si,

Hum Deos na cruz affixado,

Mil dores soffrendo ally!

Ante esta victima augusta

Da mais feroz crueldade,

Cala quanto o homem soffre,

Quanto soffre a humanidade:

Tormento não foy como elle,

Não foy como ella impiedade.

E comtudo alguns increos

E refalsados atheos,

Guardão n’as extasis todas

E mais os transportes seos,

Pera Socrates que morre,

Que não pola dôr de hum Deos!

E não vê a cega gente,

Imiga de toda luz,

Que longe que vai do Grego

Ao Nazareno Jezus,

E da masmorra ao calvario,

E da cicuta a huma cruz!

E aos effeitos da morte

Não attenderão tambem:

Se emparelhamos idéas

Ás coizas que corpo tem;

Entre elles vai mór distancia,

Que vai da Grecia á Belem.

Morre o Grego, e não dá fruitos;

Morre Jezus por nos dar

A ley do céo pera a terra;

Ley que só pôde lavrar

O sangue do bom cordeiro

Dos falsos Deoses no altar.

Vivem algozes d’aquelle,

E huns homens apenas são;

Em quanto os algozes deste,

Em que povo de eleição,

Sumirão-se, como argueiro

Nas azas d’hum furacão.

* * * * *

Era na sancta semana,

Semana de devação:

Comsigo mesmo propunha

O senhor rey Dom João:

«Confessarei minhas culpas,

Que alem de rey, sou christão.

«Ao Senhor, pay de nós todos,

Meos erros confessarei;

Que me dê força indomavel

Pera guardar minha ley,

Pera punir os culpados;

Que alem de christão, sou rey.»

Azinha chamando hum pagem

Lhe diz, e lhe ordena assi:

«Hide aos Padres Dominicos

(Melhor lhes quero que a mi)

Dir-lhes-heis que sou lá prestes,

Que vou commungar ally.»

Veio logo o mensageiro

Com a mensagem real;

Recado qu’el-rey lhe dera,

Dá elle ao Provincial.

«He certo mercê mui grande,

Responde,--tenho-a por tal.»

Ao padre Thomaz da Costa

Chama n’huma Ave-Maria;

Sabia o bom do Prelado

O muito qu’el-rey lhe qu’ria:

De tam lisongeiro acerto

Comsigo mesmo sorria.

Demais que o bom do Prelado

Dizia com bem justeza:

«Prazer aos Reis cá da terra

Não he nenhuma vileza;

Praz a Deos que lhes prazamos,

Pois vem delle a realeza.»

Apresta-se com trigança

Tudo quanto era mister:

Sabia o Padre Thomaz

Encargos do seo dever;

«Vergar colossos, dizia,

Quem tem posses de o poder?

«Sob as mãos do jardineiro

Torto arbusto lá se ageita;

Mas onde existe essa força

Que hum rudo tronco sugeita,

Se a força he balda no tronco,

Se o tronco a força regeita?

«Em bem do pastor sagrado,

Que por mercê divinal

Vive no ermo escondido,

Como hum singelo zagal;

Cúra pastor de pastores,

Não de pessoa real.

«He facil o seo encargo,

Pejo, nem dôr lhe não traz;

Não he assi nos palacios,

Onde só vejo disfraz:

Vêm logo as razões de estado,

Inventos de Satanaz.

«Vêm logo as leys cá da terra

Contrapor-se ás leys dos céos:

Sêde christãos, reys senhores,

Ou então de todo incréos!

Leys dos homens não se cazão,

Não seguem ás leys de Deos.

«Não ligueis n’hum só consorcio

Terra feia e céo luzente:

Leys da terra a terra buscão,

Como a raiz da semente;

Leys do céo os céos procurão,

Como flor que o sol presente.»

* * * * *

Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Ante o velho sacerdote

Fazia a sua oração,

As mãos em cruz sobre o peito,

Giolhos postos no chão.

Armas que sempre cingia,

Todalas tinha despido;

Não tinha sedas, nem joias,

Mas peito d’aço batido:

Era qual homem vivente

Em ferrea prizão mettido.

Curva-se hum rey poderoso

Perante hum homem de pé;

Perante hum Padre coitado,

Que nada tem, nada he:

Licção profunda e subida,

Preceitos da nossa fé!

Portas á dentro do templo,

Onde Deos eterno habita,

Onde aquelle amor sem zelos

Somente os peitos agita,

Nas differenças do mundo

Fiel christão não cogita.

Foy assi na antiga Roma

Polas festas saturnais,

Folgavão, senhor e servo,

Como se forão iguais;

Mas o que lá foy licença,

Aqui são leys divinais:

Aqui são todos curvados,

Todos--o servo, o senhor;

Aquelles que a vida fruem,

E aquelles que só tem dôr;

Pobres, que almejão a morte,

Ricos, que á morte hão pavor.

Nem he por vil comezaina,

Que ally reunidos estão;

Mas sim, por que a Deos importa

Que não haja distincção

Entre irmãos, no patrio abrigo,

Rezando a mesma oração.

Sóbe assi aquella prece

Da multidão apinhada,

Qual lisongeiro perfume

Das flores d’huma grinalda;

Tem huma odor, outra espinhos,

Outras tem côr, outras nada.

* * * * *

Era aly na pedra raza

O senhor rey Dom João;

Já disse as culpas que tinha,

Já fez a sua oração:

O Padre vai ministrar-lhe

A hostia da communhão.

Tem no rosto grave e serio

Expressão nobre e subida;

Maneiras cheias de brio

Em postura comedida,

Parece que vão mostrando

Quanto val o pão da vida.

Parece que mostra, quanto

Por vil e baixo se tem,

Merecendo honra tamanha,

Que a não merece ninguem;

Dahy lhe vem ser humilde,

Nobreza dahy lhe vem.

Perfez-se o rito sagrado,

Vai ser dado o sacramento;

Principia el-rey--confiteor,--

Quando n’aquelle momento

Surge ao pé delle um guerreiro

De marcial hardimento.

Tinha feroz catadura,

Só aço e ferro vestia,

Polas grades da vizeira

Raios de luz despedia:

Medonho e fero apparato

Nas sombras da sacristia.

Era o rey brioso e forte,

Homem de muito valor,

Mas olhos lançou á espada

A furto!... seja o que for,

Não creio que homens d’aquelles

Possão jamais ter pavor.

Em voz carregada e forte

Assi começa o guerreiro:

«Em nome do Senhor Deos,

Meo Padre, aqui vos requeiro;

O senhor rey não commungue,

Pois que não he justiceiro.»

A hostia das mãos do Padre

Cahio do calix no fundo;

El rey carrega os sobr’olhos...

Certo não era jocundo

Affrontar de rosto a rosto

As sanhas de João segundo.

Era então fresca a memoria

De hum caso máo, miserando:

De noite se ergueo a forca;

Mas quando o sol foy raiando,

Não vio ninguem mais a forca,

Nem mais ao duque Fernando!

Comtudo o bravo guerreiro

Sanhas do rey não quiz ver;

Não ha que lhe ponha embargos,

Nem que lhe possa empecer:

«Senhor, sou Padre Tavares!»

Fita-o el-rey sem querer.

Depois lhe diz (que tal nome

Quebrára a furia real):

«Em bem, meo bravo guerreiro!

Mas esse trem, de que val?

Somos em terras d’Hespanha,

Ou somos em Portugal?»

--«Senhor, não uzo brocados

Vedes-me assi, e he razão,

Que havedes os meos haveres

Sem me deixardes, senão

Armas comidas no peito,

Armas gastadas na mão.

--«Fui ter ao vosso palacio,

Ninguem me não conheceo;

Quantos ally são comvosco,

Eu vos direi, senhor meo:

Nunca os eu vi nos combates,

Nunca na guerra os vi eu!

--«Voltei d’ally, protestando

Jamais não voltar ally;

Conheceis as minhas armas,

Se não conheceis a mi;

Vesti-me á modo de guerra,

Vim ter comvosco,--eis-me aqui!

--«As minhas alcaydarias

De Portal’gre e Assumar,

Senhor rey, vós m’as tirastes,

O que se chama tirar;

Ficavão perto da raya,

Máo azo de guerrear.

--«Das minhas alcaydarias

Eu tinha as rendas reais;

As guerras já são passadas,

Porque ora m’as não tornais?

Mal cabe em reys a cubiça,

Senhor, se m’as cubiçais.

--«Nem porque o velho guerreiro

Já nada vos presta e val,

Vos deveis portar com elle,

Qual dono pouco leal,

Que o seo corsel de batalla

Despreza no almargeal.

--«Assi que, Senhor, vos digo

Que vos não peço mercê;

Aquillo que me he devido,

Só peço que se me dê!--»

Prouve ao rey aquelles ditos

E mais o geito que vê.

Depois a mão estendendo

Ao seo leal lidador:

«Nós vos faremos justiça,

Assi como justo for;

Tendes a nossa palavra,

Seja-vos ella penhor!»

Alegre o Padre Thomaz

O seo mister rematou;

Hostia tomada do calix

Aos labios do rey chegou,

El-rey d’hum copo doirado

Hum gole d’agoa tomou.

Mimoso tempo d’outrora

Qual nunca mais o verei,

Nem tam inteiros sugeitos,

Hum ao outro dando a ley:

No Paço o rey ao vassallo,

Na Igreja o vassallo ao rey!

* * * * *

SOLÁO DE GONÇALO HERMIGUEZ.

Não ha mais d’aquelle tempo,

Em que era tudo lhaneza!

Acções e vida e costumes

Desta gente portugueza,

Por tal geito se trocárão,

Que he hoje tudo impureza.

Não trato d’este ou d’aquelle,

Pois ha em tudo exeições;

Mas trato da grande lépra

Que vejo hy nos corações:

Desprêso do amor da gloria

E apêgo ás ruins tenções.

Outrora, sabeis vós como

Garboso Donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

Sempre grave, honesto e brando,

Sempre uzando cortezia?

Não trescalava pivetes,

Fitas, nem laços comprava,

Nem toda a manhã divina

Seos enfeites concertava,

Nem nos chapins se revia,

Nem nos cabellos primava.

Não corria seca e meca

Traz de mimosa donzella,

Que nas ruas lobrigava;

E por ver mais perto a bella

Não hia ao templo sagrado,

Somente por amor della.

Nem as noites janeirinhas

Mais compridas e mais frias,

Levava mono amante,

Por baixo das gelozias,

Desenfiando hum rosairo

De trovas e ninharias.

Jamais não foy esse o estilo

Do moço em armas novel,

Em que experto dedilhasse

Na lyra do menestrel,

No tempo em que, não domada,

Lutava a gente infiel.

Por mais que amores amasse,

Por mais que fosse gentil,

Ninguem n’o vira a deshoras,

Como homem de tenção vil,

Como hum ladrão que de medo

Vai passo e manso e subtil.

Não pedia manto ás sombras,

Nem ao silencio mercê,

Nem do sol se arreceiava,

Como homem que pouco vê,

Nem da lua appellidada

A casta, não sei porquê.

Mas antes no amphitheatro,

Coberto de espectadores,

Onde mais povo corria,

Mais bellas e justadores,

Na arena se apresentava

Com letra e tenções d’amores.

No meio d’aquella chusma

D’arautos e passavantes,

Mantenedores do campo

Reys d’armas e circunstantes,

Feixes d’armas resplendentes,

Ondas de plumas brilhantes:

Entrava o novel guerreiro

No cerco dos justadores!

De alguma dona sizuda

Na charpa trazia as cores,

Tinhão amores ás claras,

Por que erão nobres amores.

Silencio! que sôa a trompa,

A justa vai começar!

Entre si ferem mil lutas

Guerreiros a par e par:

Da lança feita pedaços

Voão estilhas ao ar.

Levão logo mão da espada;

Que feios golpes se dão!

Abolão-se capacetes,

Talhão-se arnezes; e a mão

Certeira ao travez da malha,

Vai direita ao coração.

La sôa de novo a trompa,

Proclama-se o vencedor,

Que aos pés da bella entre as bellas

O seo trophéo vem depor:

Ao mais valente a mais bella,

Ao mais gentil mais amor.

Era a ley,--e até parece

De acordo co’a natureza,

Que se compraz no consorcio

Da força co’a gentileza;

Mais alma com mais coragem,

Mais brio com mais nobreza.

A abelha construe seos favos

Em troncos alevantados;

E eis a hera graciosa,

Que em abraços apertados

Não cinge mesquinho junco,

Mas carvalhos alentados.

Boa era a ley!--mas eu creio

Que lhe descubro hum senão;

Quem nos diz que o mais valente

Deva de ter mais razão,

Porque seja a sua dona

Como hum vaso d’eleição?

Seria coiza de ver-se,

E coiza de mui folgar,

Ver um dragão de mulher,

Chamada a bella sem par,

Á pura força de espada,

Sem mais pôr, nem mais tirar!

He bella: e al não digais,

Sob pena d’hum fendente,

Que vem do céo, como hum raio,

Provar ao villão que mente,

Co’os dentes que tem na bocca,

Como hum perro maldizente!

Fosse o caso como fosse,

He certo que d’ahy vem

Ás nossas donas de agora,

Aquelle sestro que têm

De amarem a militança

Melhor do que a nenhum bem.

Qual não gosta de ser bella,

Ao menos de o parecer?

Em quanto muitas ... Deos meo,

Eu me sei compadecer,

Soffro o mal que os outros passão,

Mais talvez que o meo soffrer.

Muitas ha hy, que eu conheço,

Que aqui na terra não são,

Senão porque as vós mandastes,

Meo Deos, por occasião

De tedio e nojo ao peccado,

E morte da tentação.

Té os moços, que as namorão,

Dirão no confessional,

Jurando por Deos eterno

E pola vida eternal,

Que se fallão delle e della,

He puro aleive e não al.

Vede pois qual não seria

O pasmo dessa donzella,

Proclamada ao meio dia

Fermosa como huma estrella,

Sem que houvesse ahy no mundo

Coiza melhor, nem mais bella!

Logo no fraco bestunto

Julgára, sem mais razão,

Que n’este mundo mesquinho

He tudo engano e buzão,

E té que a propria belleza

He coiza de convenção!

Era assi que n’outras eras

Garboso donzel se havia

Por captar nobres extremos

Da moça que requeria,

A ponta de fina espada

E arrojos de valentia.

* * * * *

No tempo de Alphonso Henriques,

Que foy nosso rey primeiro,

Havia na sua côrte,

Côrte de rey mui fragueiro,

Hum tal Gonçalo Hermiguez,

Destemido cavalleiro.

Era moço e mui donoso,

De mui boa nomeada:

Fiava el-rey muito delle,

E a raynha Mafalda

Folgava de ouvir-lhe os cantos

Aos sons da lyra afinada.

Portas a dentro do Paço

Não tinha nenhum rival

Em compor trovas mimosas;

E no campo e no arrayal

Não n’o havia mais valente,

Mais forte, nem mais leal.

Quanta sanha que elle tinha,

Votára a gente infiel,

Porque o pay lhe havião morto,

Era elle ainda novel;

Vel-os porêm não podia,

Nem pintados no papel.

Era o mesmo ver a hum destes

E entrar logo em sanha tal,

Que era força ter mão d’elle,

Ou saltava-lhe ao gorjal

Pera torcer-lhe o gasnate,

Como se fôra hum pardal.

Mas se tinhão tento n’elle,

Era outro conto ruim!

Cabia logo em desmaios,

Que era hum desmaio sem fim!

Dó era ver tal sugeito

Prostrado e defuncto assi.

Andava sempre occupado

Em perpetua correria

Polas terras do mourisco,

E muito mal lhes fazia;

Dava porêm mór realce

Ao nome que já trazia.

* * * * *

Como fosse e os companheiros

Em hum saráo folgazão,

Lembrou-se que perto vinha

A noite de Sam João,

Azado ensejo de aos Mouros

Fazer-se affronta e lezão.

Cheia de bello hardimento,

Aquella nobre nobreza

Por amor de seos amores

Commette tam grande empreza,

Qual a de hir terras de Mouros

Com feros, ronco e braveza.

Qual apresta o seo ginete,

Qual a fita dependura

No collo nunca domado;

Qual a pesada armadura

Inverga, e ahy se recolhe,

Como em arce mui segura!

Qual a Deos por testemunha

Toma da sua tenção,

Qual aos pés da sua dona

Requer-lhe extremo condão,

Extremo volver dos olhos,

Extremo apertar da mão!

Qual desly toma algum nome

Por grito de accommetter,

Que nas lidas e pelejas

Saberá fazer valer!

Qual sente o nojo futuro,

Em mal, que lá vai morrer!

Mas nunca será que o rosto

Mostre o que n’alma lhe mora:

Quem vio a morte passar-lhe

De perto, já não descora

Por hum presagio funesto,

Sendo ella coiza d’huma hora.

* * * * *

Aquelles bons cavalleiros

Azinha promptos estão;

Lá se partem de Coimbra,

Montes alem já lá vão!

Ninguem vio mais escolhido,

Nem mais luzido esquadrão.

Entre elles por mais robusto

Gonçalo Hermiguez campeia;

Diz seo porte sublimado,

Que de nada se arreceia,

Mas antes que a todos repta,

De tanto que o collo alteia!

Caminho vão de Lisboa

Com todo apercebimento!

Não convem que se aprecatem

D’aquelle accommettimento

Mouros que vivem na regra

Do seo alkorão nojento!

Sabeis a regra qual seja?

He viver dentro do harem,

Dizendo mal do toicinho

E mais do vinho tambem,

Sem que lhe pêze este mundo,

Sem que lhe pêze ninguem!

He vegetar entre flores,

He viver vida folgada,

Aspirando incenso e odores

Em molleza effeminada,

Nem que fosse huma odalisca,

Ou mulher alambicada.

* * * * *

Pozerão todos a mira

Em Alcacere do Sal,

Covil de feras humanas,

Não de cordeiros curral;

Nó gordio do vil mourisco,

O ferro o corta, não al!

Os que por terra a demandão

Vão em procura d’Almada,

Alcáçova dura e forte,

Em rija pedra assentada,

Como pedra preciosa

Em ferrea c’roa engastada.

Outros lá vão Tejo arriba!

Ó Tejo, quanto me he grata

Essa placida corrente,

Quando a lua se retrata,

Chovendo chuva de raios,

No teo chão de lisa prata!

Que doce que he teo remanso,

Quando manso o vento gyra,

Que nas folhas rumoreja,

E como que ally suspira

Melindres d’amor suave,

Que nem tangidos na lyra!

Que arroubos que infiltras n’alma,

Quando vai ao som das agoas

Navegando o passageiro;

Já, se as tem, não sente as fragoas,

Que no peito a dôr derrama,

Como huma enchente de magoas!

Mas talvez dos cavos olhos

Polas faces a correr

Sinta o pranto represado

Polo seo muito soffrer:

Corra embora, qu’esse pranto

Dôr não he, senão prazer!

Que neste val’ de amarguras,

Onde viemos penar,

Por cada dia hum marteyro

Por cada instante hum pezar,

He bem feliz quem só passa

Dores que fazem chorar!

Não sei ledice o que seja,

Nem o que seja prazer;

Nunca os senti n’esta vida,

Nem n’os posso conhecer;

Que não sou dos bemfadados,

E nunca o não hei de ser!

Mas o pranto extravasado

Não he quem nos dá morrer,

Nem quem o viço dos annos

Faz seccar e emmurchecer;

He antes aquelle pranto

Que não sabemos verter.

* * * * *

Lá vão hindo Tejo acima,

Olhos longos polo mar,

Lá onde enchergão Lisboa

Com fogueiras de espantar;

Fogo accendido na terra

Sóbe em centelhas ao ar!

D’aquelles fogos accesos

Em roda os velhos estão,

E as donzellas feiticeiras

Com sorriso folgazão,

Cantando coytas de amores,

Quites de coytas então.

He a noite milagrosa

Do Bautista milagroso,

Té dos mouros da mourama

Havido por glorioso:

Folgão nobres e senhores,

Folga o villão descuidoso.

Horas de noite folgada

Não tardão, não têm vagar:

A noite assi do Bautista

Vai serena a escorregar,

Como areia da ampulheta,

Hum grão e outro a tombar!

Vai assi como o perfume

Respirado d’uma frol,

Que não vemos, mas sentimos;

Que sentimos no arrebol

Da manhã, que pola terra

Se espalha em antes do sol!

Vai assi como o rocio

De serena madrugada,

Rorejado gota a gota

De branca nuvem prenhada

Sobre o calice musgoso

De huma flor avelludada.

Vai assi, qual sóe prender-se,

Em quem de amores não cura,

Doce peçonha de amores:

Donzella de vida pura,

Quando ha temores de havel-o,

He qu’elle já não tem cura.

* * * * *

Do Alcacer as lindas filhas,

Já era nascida a aurora,

Pera ver uma corrida

Sahirão portas a fóra,

E mais pera colher flores,

Persuadidas da hora.

Logo sahidas no prado

Forão, qual sohem de ser

Mansas agoas d’hum regato

Em chão sem leito a correr,

Cada qual por seo caminho,

Cada qual a seo prazer!

Desly pulando e cantando

Vão nas matas de alecrim,

Colhem a rosa corada

E a branca flor do jasmim;

Brincão brinquedos contentes,

Folgão folguedos sem fim!

Oh! que festas! que alegrias!

Que arruido vai no prado!

Que bem cantado rimance,

Que soláo tãobem cantado!

Não têm as aves atito,

Nem gorgeio mais brincado!

Oh! que vozes melindrosas,

Que accentos encantadores

N’aquelle prazer d’huma hora!

As moças vão colher flores,

E os moços que vão com ellas

Vão lá por colher amores.

Eis nisto ... estranho arruido!

Rouca trompa abala o ar;

Logo assomão cavalleiros

Com figuras de espantar:

Allah nos valha, mofinas!

Dizem moiras a chorar.

Allah! repetem n’os Mouros,

Vendo o pendão portuguez;

E do alfange recurvado

Levão mão sem pavidez!

Feios golpes se preparão,

Outra folgança outra vez!

Retine o ferro no ferro,

Talhão-se cotas e arnezes;

O fino alfange mourisco

Abre o elmo aos portuguezes;

E a espada que bem degola,

Bem multiplica os revezes.

Lá chega o alarma á Cidade!

Lá vem mouros descançados

Em descançados ginetes:

Cavalleiros esforçados,

Que por Christo Deos pelejão,

Não têm de que ter cuidados.

Gonçalo Hermiguez, o cabo,

Avante! brada, e não al:

Brilha o valente nas lides,

Que ally não acha rival,

Aquelle cabo entre todos

Sanhudo e forte e fatal.

Maneja tam facilmente

O seo pesado montante,

Que Alcides com sua clava,

E nem o Titan gigante,

Serra a serra sobrepondo

Não tinha aquelle semblante.

Eilo vai per entre os mouros,

Abre entre elles larga estrada;

Quem fica em prisão de guerra,

Quem lá foge em debandada!

Ficão moiras prisioneiras,

Mulheres--gente coitada!

Gonçalo Hermiguez em tanto

Vio que longe lhe fugia

Linda moira desmaiada,

Que hum moço mouro cingia,

Dando d’esporas ao bruto,

Que mais que o vento corria!

Vai sobre elles sem tardança:

Com quanto de arremeção

Matal-o tambem podera,

Certo o fizera, senão

Temesse que a moira bella

Morresse de sua mão.

Mais logo que foy com elle,

D’hum golpe que despedio,

Cerce o cortou pelo meio:

Golpe assi nunca se vio!

E a moira tomando em braços,

Azinha daly fugio.

Passou terrivel com ella

Por meio da gente fera;

Quem n’o vira tam sanhudo,

Leão raivoso dissera,

Passando a travez dos homens

Com a preza que fizera.

Eis nasce novo combate,

Nova peleja maior!

Muitos homens contra hum homem,

Contra hum forte lutador;

Mas hum só que a todos vence

Em força, esforço, e valor!

Mal podia a mão sinistra

Vibrar a sangrenta espada,

Co’o pejo d’aquella moira

Disputada e desmaiada,

Cujo corpo em dois pendia,

Como huma frexa quebrada.

Mas inda assi despedia

Hum golpe e outro cruel:

E de encontro á este, á aquelle

Mandava o seo bom corsel,

Que a turba multa alastrava

Aos pés do nobre donzel.

Quando a ventura he incerta,

Acerta em aventurar

Quem a empreza disputada

Tem desejos de acabar:

Só elle demora em terra,

Que os seos já são sobre o mar!

Torce as redeas ao ginete,

Larga carreira arrepia,

Larga estrada co’o montante

Por entre os mouros se abria,

Despedia muitos golpes,

Muitos estragos fazia.

Chega a praia, os seos avista

Mas os mouros perto vêm!

Como isto vio, torce o rosto,

Medonho como ninguem;

Temem-se mouros de o verem;

Párão, como elle, tambem!

Vão assi feros monteiros

Traz d’hum urso mal sangrado,

Que de repente a carreira

Revira, e vólta agastado:

Parão monteiros ao vel-o

Raivoso e mal assombrada.

E a fera d’aquelle pasmo,

Sabendo, em seo bem, valer-se,

Vai a passos descançados

Em densa mata esconder-se,

Sem temor da montaria,

Sem dos monteiros temer-se.

Tal o forte Traga-mouros

Salta dentro do baixel;

Na praia ficão pasmados

Mouros, do feito novel,

Tamanho, que nem sonhado

Foy jamais por menestrel.

E os companheiros aos ventos

Desfraldão velas e panos,

Deixando as praias tingidas

Em sangue por muitos annos;

Quantos bastem, porque chorem

Seo dezar os musulmanos.

Aos alegres companheiros

Disse o guerreiro feliz:

«Das prezas, que nos fizemos,

Quero tam só a que eu fiz,

A moira que por seo nome

Fatima em Turco se diz!»

Então aquelle seo canto

Principiou a compor:

Cant’eu, por vergonha minha,

Em bem que o saiba de cór,

Digo que sal lhe não acho,

Nem sei de coiza pior.

Mas era o soláo por certo

Aos tempos accommodado,

Que de outro cantar não acho

Que fosse mais decantado,

Nem Figueiral Figueredo,

Nem o Ficade coitado.

E a moira já bautisada

Pertenceo ao lidador,

Duas vezes conquistada

Polo donzel, seo senhor,

Primeiro á força de espada,

Depois á força de amor.

* * * * *

Era assi n’aquelle tempo

Coiza sabida e seguida,

Remanso depois da gloria,

Descanço depois da lida,

E a fé que espera e milita

Nos actos todos da vida!

Vede vós quamanho he o lucro,

Que lucra a moira pagã,

Desposando o cavalleiro,

Tomada e feita christã;

He vida e sangue de hum homem,

Não de infieis barregã!

He como tropheo ganhado

Em guerras de religião

Por algum peito devoto,

Que por sua devação

Prometteo dependural-o

Dentro de templo christão.

O canto aqui finaliso!

Não devo d’hir por diante,

Narrando casos da vida

Per natureza inconstante,

Trabalhos que sempre durão,

Prazer que dura hum instante!

Foy o cabo dos amores

A moça moira acabar

E sobre hum covão aberto

Hum homem posto a chorar,

Hum homem de dó coberto,

A carpir-se, a prantear!

* * * * *

Cantos · 第 10 / 17 段