Que brilhas docemente,
Melhor que o lume tremulo
D’estrella inquieta, ardente,
Melhor que o brilho esplendido
Do sol ferindo o mar.
Eu te amo, ó Lua pallida,
Vagando em noite bella,
Rompendo as nuvens turbidas
Da rispida procella;
Eu te amo até nas lagrimas
Que faces derramar.
* * * * *
A NOITE.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama!
Quem não vive mais brando em teo regaço!
FILINTO.
Eu amo a noite solitaria e muda,
Quando no vasto céo fitando os olhos,
Alem do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóes a divagar no espaço,
Como em salas de esplendido banquete
Mil tochas aromaticas ardendo
Entre nuvens d’incenso!
Eu amo a noite taciturna e quêda!
Amo a doce mudez que ella derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, máo grado o véo que involve a terra,
A vista do que vela enxerga mundos,
E apezar do silencio, o ouvido escuta
Notas de ethereas harpas.
Eu amo a noite taciturna e quêda!
Então parece que da vida as fontes
Mais faceis correm, mais sonoras soão,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre,--que então mais funda e leve a fonte
Mana,--e que os sons então mais doce e triste
Da musica se espargem.
O peito aspira sofrego ar de vida,
Que da terra não é; qual flôr nocturna,
Que bebe orvalho, elle se embebe e ensopa
Em extasis de amor:
Mais direitas então, mais puras devem,
Calada a natureza, a terra e os homens,
Subir as orações aos pés do Eterno
Para afagar-lhe o throno!
Assim é que no templo magestoso
Rebôa pela nave o som mais alto,
Quando o sacro instrumento quebra a augusta
Mudez do sanctuario:
Assim é que o incenso mais direito
Se eleva na capella que o resguarda,
E na chave da abobada topando,
Como um docel, se expraia.
Eu amo a noite solitaria e muda;
Como formosa dona em regios paços,
Trajando ao mesmo tempo luto e galas
Magestosa e sentida;
Se no dó attentais, de que se enluta,
Certo sentis pezar de a ver tão triste;
Se o rosto lhe fitais, sentis deleite
De a ver tão bella e grave!
Considerai porêm o nobre aspecto,
E o pórte, e o garbo senhoril e altivo,
E as fallas poucas, e o olhar sob’rano,
E a fronte levantada:
No silencio que a véste, adorna e honra,
Conhecendo por fim quanto ella é grande,
Com voz humilde a saudareis rainha,
Curvado e respeitoso.
Eu amo a noite solitaria e muda,
Quando, bem como em salas de banquete
Mil tochas aromaticas ardendo,
Girão fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ella diffunde,
E o rorante frescor cahindo em per’las,
E a magica mudez que tanto falla,
E as sombras transparentes!
Oh! quando sobre a terra ella se estende,
Como em praia arenosa mansa vaga;
Ou quando, como a flôr d’entre o seo musgo,
A aurora desabrocha;
Mais forte e pura a voz humana sôa,
E mais se accórda ao hymno harmonioso,
Que a natureza sem cessar repete,
E Deos gostoso escuta.
* * * * *
A TEMPESTADE.
Fervescere faciet, quasi ollam,
profundum mare.
JOB 41, 42.
I.
De côr azul brilhante o espaço immenso
Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo
Do bosque a verde coma esmalta e doira,
E na corrente dardejando á prumo
Scintilla e fulge em laminas doiradas.
Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores!
Nos céos um ponto só negreja escuro!
Eis que das partes, onde o sol se esconde,
Brilha um clarão fugaz pallido e breve:
Outro vem apoz elle, inda outro, muitos;
Succedem-se frequentes,--mais frequentes,
Assumem côr mais viva,--inda mais viva,
E em breve espaço conquistando os ares
Os horisontes co’o fulgir roxeião.
Qual mancha d’oleo em tela assetinada
Que os fios todos lhe repassa e embebe;
Ou qual abutre do palacio aereo
Tombando acinte,--no descer sem azas
Um ponto só,--até que em meia altura
Abrindo-as, paira magestoso e horrendo:
Assim o negro ponto avulta e cresce,
E a cupola dos céos de côr medonha
Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa.
A abobada de trevas fabricada
Descança em capiteis de fogo ardente!
De quando em quando o vento na floresta
Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe
Rouqueja, e brama, e cava-se empolado,
E aos pincaros da rocha ennegrecida
De iroso e mal soffrido a espuma arroja!
Raivoso turbilhão comsigo arrastra
O argueiro, a folha em vortice espantoso;
No valle arranca a flôr, sacode os troncos,
Na serra abala a rocha, e move as pedras,
No mar os vagalhões incita e crusa.
II.
Os sons da tempestade ao longe escuto!
Concentra a natureza os seos esforços
Primeiro que entre em luta; não lampeja
Invio fogo nos céos; não sopra o vento:
É tudo escuridão, silencio e trevas!
Somente o mar de soluçar não cessa,
Nem de rugir as ramas buliçosas,
Nem de soar confuso borborinho,
Incompr’ensivel, como que sem causa,
Immenso como o echo de mil vozes
No céo de extensa gruta repulsando.
Silencio! perto vem a tempestade!
Gravidas nuvens de fataes coriscos,
Sem rumo, como náo em mar desfeito,
Em muda escuridão negros phantasmas,
Indistinctos, sem forma,--ondulão, jogão.
Logo poder occulto impelle as nuvens,
Attrahem-se os castellos tenebrosos,
Embatem-se nos ares,--brilha o raio,
E o ronco do trovão após rimbomba!
III.
Ruge e brame, sublime tempestade!
Desprende as azas do tufão que enfreias,
Despega os élos do veloz corisco
E as nuvens rasga em rubidas crateras.
Os fuzis da cadeia temerosa
Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens
Do teo açoite aos lategos bramindo,
Occupem de pavor os céos e a terra.
Ruge, e o teo poder mostra rugindo;
Que assim por teos influxos me commoves,
Que todo me electrisas e me arroubas!
Qual foi Mazeppa no veloz ginete
Por desertos, por syrtes arenosas
Jungido e preso e attonito levado;
Assim minha alma sobe e vai comtigo,
E vinga os teos palacios mais subidos,
Contempla os teos horrores, e dos astros
No prazer, que lhe dás, toda embebida,
Máo grado teo horror, folga comtigo!
Parece que alli tem a regia c’roa
Que o feliz condemnado achou na Ukraina.
Ruge, ruge embora, ó tempestade!
IV.
Emfim descendo a chuva copiosa
Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem,
De perolas a relva se matisa,
O céo de puro azul todo se arreia,
Sorri-se a natureza, e o sol rutila!
V.
Assim, meo Deos, assim será no dia
Do final julgamento, quando o anjo
Soprar a tromba que desfez os muros
De Jerichó soberba!
O mar sobrepujando os seos limites,
Com roncos temerosos, nunca ouvidos,
Virá para sorver, com furia brava,
Ilhas e continentes.
O sol, perdendo o brilho e a natureza,
Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se,
Como o fogo sagrado, que se prende
Nas cortinas do templo.
Os orbes dos seos eixos desmontados,
No abysmo hão de cahir com grande estrondo,
E, redomas de vidro, hão de partir-se
Em pedaços sem conto.
Do abysmo as solidões hão de acordar-se!
Flammivomos vapores condensados,
Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se
Em pavoroso incendio.
O ar ha de accender-se, a terra em fogo
Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa.
Coalhar-se o mar e em aspera seccura
Converterem-se as ondas.
E nesta confusão de fumo e chammas,
Neste cháos, que a mente mal alcança,
Quando nada existir de quanto existe,
Será vencida a morte.
Logo, á um só dizer do Omnipotente,
O pó segunda vez ha de animar-se,
E os mortos, mal soffrendo a luz da vida,
Attonitos, pasmados;
Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos,
E como Adão, a tatear os membros,
Estranhos a existencia já vivida,
Perguntarão: Quem somos?
Então, Senhor, então,--tu o disseste--
Virás cheio de gloria e magestade,
Em solio de luzeiros resplendente,
E em celeste cortejo!
Virás, sol da justiça, em fins do mundo
Acalmar a procella, e quando aos mortos
Disseres tu, quem es,--lembrar-nos-hemos,
Senhor, do que já fomos.
Feliz então quem só viveo comtigo,
Quem n’ancora da fé prendeu sua alma,
Quem só em ti fundou sua esperança,
Pequeno e humilde!
Feliz então quem tua lei guardando,
Seos passos graduou nos teos caminhos;
Quem dia e noite revolveo comsigo,
Como aplacar-te.
* * * * *
NOVOS CANTOS.
* * * * *
O HOMEM FORTE.
Impavidum ferient...
HORAT.
O modesto varão constante e justo
Pensa e medita nas licções dos sabios
E nos caminhos da justiça eterna
Gradúa firme os passos.
O brilho da sua alma não mareia
A luz do sol, nem do carvão se tisna;
Morre pelo dever, austero e crente,
Confessando a virtude.
Pode a calumnia denegrir seos feitos,
Negar-lhe a inveja o merito subido;
Pode em seo damno conspirar-se o mundo
E renegal-o a patria!
Tão modesto nos paços de Locullo,
Como encerrado no tonel do Grego,
Nem o transtorna a aragem da ventura,
Nem a desgraça o abate.
A tyrannos preceitos não se humilha,
Ante o ferro do algoz não curva a fronte,
Não faz callar da consciencia o grito,
Não nega os seus principios.
Antes, seguro e firme e confiado
No tempo, vingador das injustiças,
Co’os pés no cadafalso e a vista erguida
Se mostra imperturbavel.
Soffre martyr e expira! A patria emtorno
Do seo sepulchro o chora, onde a virtude,
Affeita ao luto e á dor, de novo carpe
Do justo a flebil morte!
* * * * *
DIES IRAE.
Jaz o mundo corrupto!--a terra ingrata
Fructos de maldicção produz somente;
E em quanto os homens ao mercado affluem,
Vazio o templo do Senhor se enluta,
Empoeira-se o altar, e pelas naves,
Gretadas, rotas pela mão do tempo,
De canticos e preces deslembradas,
A voz de Deos já não rebôa immensa!
Tudo porêm conserva o mesmo aspecto:
O sol gyrando, e na apparencia o mesmo,
Do anno as quadras compassado alterna;
E os astros, seos irmãos, gravitão sempre
D’abobada celeste. A terra é a mesma;
As aguas pelos valles se deslisão,
Ou d’alpestres montanhas se despenhão
Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas
Inda conversão nos soturnos bosques;
A mulher, a mais bella creatura,
Nas suas proprias perfeições compraz-se,
Como quando, no Eden, as pulchras formas
Pasmou de ver representadas n’agua,
E de as ver se ufanou. Inda conserva
O mesmo orgulho e intelligencia o homem,
O rei da creação, o deos creado,
De quando vinhão, por pedir-lhe os nomes,
Cetaceos, aves e os reptis e aquellas
Creaturas-montanhas, que passárão
Entre Adão e Noé á flor da terra!
Tudo o mesmo se mostra; mas a alma,
Esse mundo interior, esse outro templo,
Onde gravára o proprio Deos seo nome,
Como os templos de pedra, jaz sem lume,
Jaz como o predio a desfazer-se em ruinas,
Onde um guarda solicito não móra,
E entregue as aves más, que em chilros pregão,
Que alli na ausencia do senhor imperão.
Da divina bondade cheio o vaso
Já transborda de cholera e justiça
E o largo rio do perdão saudavel,
Que mais não corra, impece: Sanctas aguas
Por cuja causa os seculos já virão,
Sem justa punição, offensas graves;
Que o Senhor consentisse persistirem
Os máos no mal, á espera d’emmendal-os;
Que triumphasse a malvadeza; e o crime,
Vexando os bons, senhoreasse a terra.
Mas Deos, que fôra outrora pae clemente,
Dando começo ao reino da justiça,
Em austero juiz se ha convertido.
Como um carro, que vae d’encontro ao abysmo,
Perfaz o sol precipite o seo gyro,
Indo a tocar a temerosa méta
Prevista dos prophetas. Um archanjo
Com mão robusta inda retem os élos
Da cadeia do tempo, em quanto a outra
Da vida o livro volumoso sélla
Com sete bronzeos sellos. Deos offeso
Tira os olhos do mundo, e o mundo ha sido!
Quem podera pintar as discordancias
Em que labora a natureza! Crescem
Da terra igneos vapores, suffocando
O que respira, o que tem vida: os montes
Em crateras se rásgão, que vomitão
Fumo e lava incessante; o mar s’empola
E em furia ardendo, arroja aos altos cimos
Crusados vagalhões, qual se tentára
Sôvertel-os: os ventos se contrastão!
Novos prodigios, novos monstros surgem!
O mar se torna em sangue, o sol em fogo,
O Universo em mansão d’afflictas dores,
O homem soffre, blasphema e desespera,
E vendo os mundos desabar precipites,
Um grito sólta d’horroroso transe,
Como de náo, que em alto mar s’afunda
E rola os restos n’amplidão das aguas.
Satisfez-se o Senhor. Que resta?--O cháos,
O horror, a confusão, o vulto enorme
Do tempo, que escurece o fundo abysmo,
Onde por todo o sempre jaz captivo;
E da morte o cadaver gigantesco
Quasi occupando a superficie inteira
D’um mar de chumbo, escuro e sem rumores.
Da gloria do Senhor um raio apenas,
Lá dos confins do espaço despedido,
Fere da morte o rosto macilento
De tudo quanto foi, e quanto existe!
* * * * *
ESPERA!
Quem ha no mundo que afflicções não passe,
Que dores não supporte?
Mais ou menos d’angustias cabe a todos,
A todos cabe a morte.
A vida é um o negro d’amarguras
E de longo soffrer;
Simelha a noite; mas fagueiros sonhos
Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo
E a vida que vivemos,
Se nos tornamos do Senhor mais dignos,
Quanto mais dôr soffremos?
Quantos cabellos temos, elle o sabe;
Elle póde contar
As folhas que ha no bosque, os grãos d’areia
Que sustentão o mar.
Como pois não será elle comnosco
No dia da afflicção?
Como não ha de computar as dores
Do nosso coração?
Como ha de ver-nos, sem piedade, o rosto
Coberto d’amargura;
Elle, senhor e pae, conforto e guia
Da humana creatura?
Se o vento sopra, se se move a terra,
Se iroso o mar fluctúa;
Se o sol rutila, se as estrellas brilhão,
Se gyra a branca lúa;
Deos o quiz, Deos que mede a intensidade
Da dôr e da alegria,
Que cada ser comporta--n’um momento
D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra
Alheia da ventura!
Alem da terra ha céos, e Deos protege
A toda creatura!
Viajor perdido na floresta á noite,
Assim vago na vida;
Mas sinto a voz que me dirige os passos
E a luz que me convida.
* * * * *
A SAUDADE.
Saudade, ó bella flor, quando te faltem
Coração ou jardim, onde tu cresças;
Vem, vem ter commigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lagrimas, que te reguem,
Espaço, em que floresças.
Das pegadas da ausencia tu despontas,
Entre as memorias cresces do passado,
Quando um objecto amado
Quando um logar distante,
Noite e dia,
Nos enluta e apouquenta a fantasia.
Vem, ó Saudade, vem
A mim tambem
Consolar de gemidos suspirosos
E de partidos ais!
Oh! seja a punição dos insensiveis
Não te sentir jamais!
Propicia Deosa, e se não fosse a esperança,
Deosa melhor da vida; qu’insensato,
A quem mitigas turbidos pezares
Haverá tão ingrato
Que te não queime incenso em teos altares?
O _presente_ o que é?--Breve momento
D’incommodo ou desgraça
Ou de prazer, que passa
Mais veloz que o ligeiro pensamento.
Véo escuro,
Que nem sempre a illusão nos adelgaça,
Nos encobre os caminhos do futuro.
O que nos resta pois?--Resta a saudade,
Que dos passados dias
De magoas e alegrias
Balsamo sancto extrahe consolador!
Resta a saudade, que alimenta a vida
Á luz do facho que adormenta a dôr!
Hera do coração, memoria delle,
Ó Saudade, ó rainha do passado,
Simelhas a romantica donzella
De roupas alvejantes
Nas ruinas de castello levantado:
Grinaldas fluctuantes,
Que das fendas brotarão,
Movem-se do nordeste
Ao sopro agudo e frio;
Em quanto vendo-o ao longe o senhorio,
De posses decahido,
D’invernos alquebrado,
Recorda triste os annos que passarão!
Em que plagas inhospitas e duras
Não me tens sido companheira e amiga?
Em que hora, em que instante
De folga ou de fadiga
Já deixei de sentir o penetrante
Espinho teo, a repassar-me todo
D’um prazer melancholico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza,
Ó Saudade, ó rainha do passado!
Quando te falte gleba, onde tu cresças,
Vem, vem ter commigo;
Deixa os que te não seguem,
Terás em peito amigo
Lagrimas, que te reguem,
Espaço, em que floresças!
Entra em meo coração, occupa-o todo,
Fibra por fibra enlaça-te com elle,
Desce com elle á sepultura; e quando
Jazer eu na eternidade,
Minha flôr, minha saudade,
Tu procura a aura celeste,
Rompe a terra, transforma-te em cypreste,
Qu’enlute o meo jazigo;
E ao meneio das ramas funerarias,
Meo derradeiro amigo,
Descance morto quem viveo comtigo.
* * * * *
NÃO ME DEIXES!
Debruçada nas aguas d’um regato
A flôr dizia em vão
Á corrente, onde bella se mirava....
«Ai, não me deixes, não!
«Commigo fica ou leva-me comtigo
«Dos mares á amplidão,
«Limpido ou turvo, te amarei constante;
«Mas não me deixes, não!»
E a corrente passava; novas aguas
Após as outras vão;
E a flôr sempre a dizer curva na fonte:
«Ai, não me deixes, não!»
E das aguas que fogem incessantes
Á eterna successão
Dizia sempre a flôr, e sempre embalde:
«Ai, não me deixes, não!»
Por fim desfallecida e a côr murchada,
Quasi a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flôr enleia,
Leva-a do seo torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
«Não me deixaste, não!»
* * * * *
ZULMIRA.
Sonhara-te eu na veiga de Granada,
Tapetada de flores e verdura,
Onde o Darro e Xenil no lento gyro
Volvem a lympha pura.
Alli te vejo em leda comitiva
Dos gentis cavalleiros do oriente,
Quando, deposta a malha do combate,
Vestem da paz a seda reluzente.
Alli te vejo n’um balcão sentada,
Grande preço da maura architectura,
Pejando as azas das nocturnas brisas
D’um canto de ternura.
Alli te vejo, sim; mas mais me agrada
O que se m’afigura n’outro instante,
Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas,
Levantada no dorso do elefante.
E em roda, ao largo, o sequito pomposo
D’eunuchos a teo gesto vacillantes
Em cujas frontes negras se destacão
Alvissimos turbantes.
E pergunto quem es?--Então me dizem
Ciosos de guardar o seo thesouro,
Nome tão doce aos labios, que parece
Escrever-se em setim com letras d’ouro.
* * * * *
A UMA POETIZA.
--Donde vens, viajor?--
--De longe venho.
--Que viste?
--Muitas terras.
--E qual dellas
Mais te soube agradar?
--São todas bellas;
Fundas recordações de todas tenho.
E admiraste o que?
--Ah! onde as flores
Cada vez a manhã tornão mais linda,
Onde gemeo Paraguassú de amores
E os echos fallão de Moema ainda;
Alli, Sapho christã, virgem formosa,
A vida aos sons da lyra dulcifica:
D’escutar a sereia harmoniosa
Ou de vel-a, a vontade presa fica!
BAHIA--1852.
* * * * *
ANGELINA.
É gentil e linda e bella,
E eu sei que m’arrouba o vel-a
Tão divina:
A lyra seos cantos cesse;
Mas minha alma não s’esquece
D’Angelina!
Outro louve os seos cabellos,
Cante a luz dos olhos bellos
Que fascina;
E o leve sorrir donoso
Que irradia o rosto airoso
D’Angelina!
Os dotes diga que apura,
Quando em languida postura
Se reclina;
Que s’ergue, se acaso passa,
Susurro que applaude a graça
D’Angelina!
Que de amor quando suspira
O bardo quebrara a lyra,
De mofina;
Que jamais poderão cantos
Pintar ao vivo os encantos
D’Angelina.
Que da sua alma a pureza
Equipara-se á belleza
Peregrina;
Que amor seo throno tem posto
N’alma, no talhe e no rosto
D’Angelina.
Eu que não sei descrevel-a,
Só sei que me arroubo ao vel-a
Tão divina;
A lyra seos cantos cesse,
Mas minha alma não s’esquece
D’Angelina!
* * * * *
ROLA.
Desque amor me deo que eu lêsse
Nos teos olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeo!
Seja noite ou seja dia,
Eu te procuro constante:
Vem, oh! vem, ó meo amante,
Tua sou e tu és meo!
Vem, oh vem, que por ti clamo;
Vem contentar meos desejos,
Vem fartar-me com teos beijos,
Vem saciar-me de amor!
Amo-te, quero-te, adoro-te,
Abraso-me quando em ti penso,
E em fogo voraz, intenso,
Anceio louca de amor!
Vem, que te chamo e te aguardo,
Vem apertar-me em teos braços,
Extreitar-me em doces laços,
Vem pousar no peito meo!
Que, se amor me deo que eu lêsse
Nos teos olhos minha sina,
Ando, como a peregrina
Rola, que o esposo perdeo.
* * * * *
AINDA UMA VEZ--ADEOS!--
I.
Enfim te vejo!--enfim posso,
Curvado a teos pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pezar de quanto soffri.
Muito penei! Crúas ancias,
Dos teos olhos afastado,
Houverão-me acabrunhado,
A não lembrar-me de ti!
II.
D’um mundo a outro impellido,
Derramei os meos lamentos
Nas surdas azas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludibrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condóe do infeliz!
III.
Louco, afflicto, a saciar-me
D’aggravar minha ferida,
Tomou-me tedio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quasi no passo extremo,
No ultimo arcar da esp’rança,
Tu me vieste á lembrança:
Quiz viver mais e vivi!
IV.
Vivi; pois Deos me guardava
Para este logar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e fallar-te outra vez;
Rever-me em teo rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teos pés.
V.
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teo rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meo?
Sei a afflicção quanto póde,
Sei quanto ella desfigura,
E eu não vivi na ventura....
Olha-me bem, que sou eu!
VI.
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso offendida?
Déste-me amor, e a vida
Que m’a darias--bem sei;
Mas lembrem-te aquelles feros
Corações, que se metterão
Entre nós, e se vencerão,
Mal sabes quanto lutei!
VII.
Oh! se lutei!... mas devera
Expôr-te em publica praça,
Como um alvo á populaça,
Um alvo aos dicterios seos!
Devera, podia acaso
Tal sacrificio acceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meos dias unindo aos teos?
VIII.
Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavão; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deos me acceitaria
O meo quinhão de alegria
Pelo teo quinhão de dôr!
IX.
Que me enganei, ora o vejo;
Nadão-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu t’o juro:
Sacrifiquei meo futuro,
Vida e gloria por te amar!
X.
Tudo, tudo; e na miseria
D’um martyrio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
«Ella é feliz (me dizia)
«Seo descanço é obra minha.»
Negou-m’o a sorte mesquinha...
Perdôa, que me enganei!
XI.
Tantos encantos me tinhão,
Tanta illusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde para?
Onde a illusão dos meos sonhos?
Tantos projectos risonhos,
Tudo esse engano desfez!
XII.
Enganei-me!...--Horrendo cháos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra,
Não póde vóltar atraz!
Amarga irrisão! reflecte:
Quando eu gozar-te pudera,
Martyr quiz ser, cuidei qu’era...
E um louco fui, nada mais!
XIII.
Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co’o que se chama ideal?
O meo eras tu, não outro;
Estava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausencia do mal.
XIV.
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meo, outro fôra,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deos _ab eterno_ a fizera,
No meo caminho a puzera...
E eu! eu fui que a não quiz!
XV.
Es d’outro agora, e p’ra sempre!
Eu a misero desterro
Volto, chorando o meo erro,
Quasi descrendo dos céos!
Dóe-te de mim, pois me encontras
Em tanta miseria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deos!
XVI.
Dóe-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teos pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miseria,
Da dôr que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Tambem do mal que me fiz!
XVII.
Adeos qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida comtigo,
Ter sepultura entre os meos;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz commovida
Soluçar um breve Adeos!
XVIII.
Lerás porêm algum dia
Meos versos, d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escriptos;--e então
Confio que te commovas,
Que a minha dôr te apiade,
Que chores, não de saudade,
Nem de amor,--de compaixão.
* * * * *
O SOMNO.
Nas horas da noite, se junto a meo leito
Houveres acaso, meo bem, de chegar,
Verás de repente que aspecto risonho
Que toma o meo sonho,
Se o vens bafejar!
O anjo, que ao somno preside tranquillo,
Ao anjo da terra não ceda o logar;
Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meo leito,
Unir-me a seo peito,
D’amor offegar.
As notas que exhalão as harpas celestes,
Os gozos, que os anjos só podem gozar,
Talvez tambem frúa, se ao meo peito unida
T’encontro, ó querida,
No meo acordar!
* * * * *
SE EU FOSSE QUERIDO!
Se eu fosse querido d’um rosto formoso,
Se um peito extremoso--podesse encontrar,
E uns labios macios, que expirão amores
E abrandão as dores--de alheio penar;
A tantos encantos minha alma rendida,
Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar:
Constante a seo lado, seos sonhos divinos
Aos sons dos meos hymnos--quizera embalar.
Depois, quando a morte viesse impiedosa
Da amante extremosa--meos dias privar,
De funda saudade minha alma rendida
Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar.
* * * * *
A FLÔR DO AMOR.
Já lento o passo, no cahir da tarde,
Lá nos desertos d’abrasada areia,
Que o vento agita, porêm não recreia,
Da caravana o conductor parou.
Armão-se ápressa tendas alvejantes,
Rumina placido o frugal camêlo;
Porêm a nuvem d’arabes errantes
Se achega á presa, que de longe olhou.