Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo

Pedi inspirações,--e o Doiro e o Tejo

Do misero proscripto repetirão

Sentidos carmes.

Repetio-mos o placido Mondego;

Talvez em mais de um peito se gravárão,

Em mais de uns meigos labios murmurados,

Talvez soárão.

Os filhos de Minerva, novos cysnes,

Que a fonte dos amores meigos cria,

E alguns de Lyzia sonorosos vates,

Sisudos mestres;

Ouvindo aquelle canto agreste e rudo

Do selvagem guerreiro,--e a voz do piaga

Rugindo, como o vento na floresta,

Prenhe d’augurios;

Benignos me olharão, e aos meos ensaios

Talvez sorrirão; porém mais prendeo-me,

Quem soffrendo como eu, chorou commigo;

Quem me deo lagrimas!

Eu pois, que nesta vida hei aprendido

Só cantar e soffrer, não vejo embalde

Ao conto a dôr unida,--e os repassados

Versos de pranto.

Do triste poleá choro a desdita,

Choro e digo entre mim: «Pobre Canario

Que fado máo cegou, por que soltasse

Mais doce canto;

Pobre Orpheo, nestes tempos mal nascido,

Atraz d’um bem sonhado pelo mundo

A vagar com lyra--um bem que os homens

Não podem dar-te!

Se quer esta lembrança a dôr te abrande:

A vida é breve, e o teo cantar simelha

Vagido fraco de menino enfermo,

Que Deos escuta.

* * * * *

PALINODIA.

O céo não te dotou de formosura,

De attractivo exterior, e a natureza

Teo peito inficionou co’a vil torpeza

D’ingrata condição fallaz e impura!

BOCAGE.

Se só por vós, Senhora, corpo e alma,

Apezar da aversão que tenho ao crime,

Inteiro me embucei nos seos andrajos,

Em tremedal de vicios;

Se só por vós descri do que era nobre,

Por que involto em torpeza immunda e feia,

As vestes da virtude immaculada

Rebolquei-as no lodo;

Se só por vós persegue-me o remorso,

Que os dias da existencia me consome,

E entre angustias crueis minha alma anceia,

--Ludibrio dos meos erros:

Consenti que a moral os seos direitos

Reivendique uma vez, e que a minha alma

Das lições que bebeo na pura infancia

Uma hora se recorde!

Agora, agro censor, hão de os meos labios,

Duras verdades trovejando em verso,

Fazer de vós, o que a razão não pôde,

--Mulher ou estatua!

Mentistes quando amor tinheis nos labios,

Mentistes a compor meigos sorrisos,

Mentistes no olhar, na voz, no gesto...

Fostes bem falsa!...

Falsa, como a mulher que em bruta orgia

Finge extremos de amor que ella não sente,

E o rosto off’rece á osculos vendidos,

Ao sigillo da infamia.

Quantas vezes, Senhora, não cahistes

Humilhada, á meos pés, desfeita em pranto,

Chorando--e que choraveis?--a jurar-me...

--Que juraveis então?

Se pois sentistes compaixão amiga

A cahir gota a gota dos meos labios

No que eu suppunha cicatriz recente,

E que era ulcera funda;

Se me vistes os olhos incendidos,

Sangrar-me o coração no peito afflicto

Ao fel das vossas dôres, que azedaveis

Co’o pranto refalsado.

Ouvi!--não ereis bella,--nem minha alma

Vos amou, que um modello de virtudes,

--Um sublime ideal--amou somente;

Vós o não fostes nunca.

Que uma alma como a vossa, já manchada,

Aos negros vicios mais que muito affeita,

Já feia, já corrupta, já sem brilho....

Amal-a eu, Senhora!

Deitar-me sob a cópa traiçoeira,

Que ao longe espalha a sombra, o engano, a morte;

Recostar-me no seio onde outros dormem,

Que por ninguem palpita!

Beijar faces sem vida, onde se enxerga

Visgo nojento d’osculos comprados;

Crêr no que dizem olhos mentirosos,

Em prantos de loureira!

Antes curvar o collo envilecido

Ao jugo vil da escravidão nefanda;

Beijar humilde a mão que nos offende,

Que nos cobre de opprobrio!

Antes, possesso d’imprudencia estupida,

Brincando remecher no açafate,

Onde por baixo de mimosas flores,

O aspide se esconde!

Mas eu, nos meos accessos de delirio,

Voz importuna de continuo ouvia,

Cá dentro em mim, a repr’hender-me sempre

De vos amar ... tão pouco!

Assim o cego idolatra se culpa,

Nos espasmos d’ascetica virtude,

De não amar assaz o vão phantasma,

De suas mãos feitura.

Porém se luz melhor de cima o aclara,

Cóspe affronta e desdem, e á chamma entrega

O cepo vil, que não merece altares,

Nem d’offrendas é digno!

Releva-se a imprudencia feminina,

Inda um erro, uma culpa se perdôa,

Se a desvaira a paixão, se amor a cega

No mar de escolhos cheio.

O Deos, que mais perdôa a quem mais ama,

Talvez da vida a negra mancha apaga

A quem as azas de algum anjo orvalha

De lagrimas contritas.

Mas não á aquella, em cujo peito móra

Torpeza só,--onde o amor se cobre

De vicios--a nutrir-se d’impurezas,

Como vermes de lodo.

Se porém te aproveita o meo conselho,

Á quem, mais do que a mim, tens offendido,

Que entre os risos do mundo, vê tua alma

E lê teos pensamentos;

Se não crês n’outra vida alem da morte,

Roga se quer a Deos, que te não rompa

Á luz do sol divino da Justiça

A mascara d’enganos!

Que a rainha da terra inamolgavel,

--A dura opinião--te não entregue,

Sosinha, e núa, e d’irrisão coberta,

Á popular vindicta!

* * * * *

OS SUSPIROS.

Mucha pena ¿verdad? mucha amargura

Guardaba allá en sus senos escondida

A despedir-te el alma dolorida,

Hijo de su cariño y su ternura.

ROMEA.

Muitas vezes tenho ouvido,

Como languidos gemidos,

Frouxos suspiros partidos

D’entre uns labios de coral:

A fina tez lhes deslustrão,

Bem como o alento que passa

Sobre o candor d’uma taça

De transparente crystal.

Ouvido os tenho mil vezes

Do coração arrancados,

Sobre labios desmaiados

Susurrando esvoaçar!

Como flôr submarinha

Da funda gleba arrancada,

De vaga em vaga arrastada,

Correndo de mar em mar!

Ouvido os tenho mil vezes,

Em quanto a lúa fulgura,

Quando a virgem d’alma pura

Fita seos olhos no céo:

Notas de mundo longinquo

Repassadas de harmonia,

Diamante que alumia

A tela de um fino véo!

Tu, virgem por que suspiras?

Quando suspiras que scismas?

Em que reflexões te abysmas?

--Do passado ou do porvir;

Mas não tens _passado_ ainda,

Tudo é flores no presente,

Brilha o porvir docemente,

Como do infante o sorrir.

Tu, virgem, por que suspiras?

--Murmura trepida a fonte,

De relva se cobre o monte,

As aves sabem cantar;

O ditoso tem sorrisos,

O desgraçado tem pranto,

A virgem tem mais encanto

No seo vago suspirar!

Suspirar, ó doce virgem,

É da alma a voz primeira,

A expressão mais verdadeira

Da sina e do fado teo!

Vago, incerto, indefinido,

Tem um quê de inexplicavel,

Como um desejo insondavel,

Como um reflexo do céo.

Eu amo ouvir teos suspiros,

Ó doce virgem mimosa,

Como nota harmoniosa,

Como um cantico de amor;

Mais do que a flôr entre as vagas

Sem destino fluctuando,

Folgo de os ver expirando

Em labios de rubra côr.

Mais que a longinqua harmonia,

Que o alento fraco, incerto,

Que o diamante coberto,

Scintillando almo fulgor;

Fólgo de ouvir teos suspiros,

Ó doce virgem mimosa,

Como nota harmoniosa,

Como um cantico de amor!

* * * * *

QUEIXUMES.

I.

Onde estás, meo senhor, meos amores?

A que terras--tão longes!--fugiste?

Onde agora teos dias se escoão?

Por que foi que de mim te partiste?

II.

Não te lembras! quando eu te rogava

Não te fosses de mim tão azinha,

Prometteste-me breve ser minha

Tua vida, que o mar me roubava.

III.

Tão amigo do mar foste sempre,

Por que amigos talvez não achaste!

Nem carinhos, nem prantos te ameigão?

Nem por mim, que te amava, o deixaste?

IV.

Vejo além o logar onde estava

Tua esbelta fragata ancorada,

Mal soffrida jogando afagada

Do galerno que amigo a chamava.

V.

Da partida era o funebre instante,

Breve instante de afflictos terrores,

Quando o mar traiçoeiro, inconstante,

Me roubava meos puros amores!

VI.

Inda chóro essa noite medonha,

Longa noite de má despedida!

Teo amor me deixaste nos braços,

Nos teos braços levaste-me a vida!

VII.

Oh! cruel, que então foste commigo,

Que te hei feito que punes-me assim?

Teo navio que tantos levava,

Não podia levar mais a mim?

VIII.

Mas a mim!--que importava que eu fosse?

Não me ouvira a tormenta chorar,

E morrer me seria mais doce

Junto a ti,--que o meo triste penar!

IX.

Junto a ti me era a vida bem cara,

Oh! bem cara!--se ledo sorrias,

Se pensavas sosinho e profundo,

Se agras dôres comtigo curtias;

X.

Eu te amava, senhor!--Nem podia

Dentro em mim, convencer-me que fosse

Outra vida melhor, nem mais doce,

Nem que o amor se acabasse algum dia!

XI.

Mas o mar tem lindezas que encantão,

Tem lindezas, que o nauta namora,

Tão bem dizem que vozes descantão

No silencio pacato desta hora!

XII.

São de nymphas os mares pejados,

Tão bem dizem, que sabem magia,

Que suscitão cruel calmaria,

Só d’em torno dos seos namorados!

XIII.

Alta noite, bem perto, apparece,

Como leiva juncada de flôres,

Ilha fertil em faceis amores,

Onde o nauta da vida se esquece!

XIV.

Não te esqueças de mim!--Por Sevilha

Quando o peito de branco marfim

Perceberes na preta mantilha,

Sombreado por leve carmim;

XV.

Quando vires passar a Andalusa

Pelos montes, com ar magestoso,

Decantando nas modas de que usa

As loucuras do Cid amoroso;

XVI.

Quando vires a molle Odalisca.

De belleza e de extremos fadada,

Respirando perfumes da Arabia,

Em sericos tapises deitada;

XVII.

Quando a vires co’a fronte bem cheia

De riquezas, de graças ornada,

Pelo andar do elefante embalada,

Que alta escolta de eunuchos rodeia;

XVIII.

Quando vires a Grega vagando

Pelas Ilhas de Cós ou Megára,

Em sua lingoa, tão doce, cantando

Seos amores que o Turco roubara;

XIX.

Quando a vires no Carro de Homero,

Bella e grave e sisuda lavrando,

Pelos montes melifluos do Hymeto

A parelha de bois aguilhando;

XX.

Não te esqueção meos duros pesares,

Não te esqueças por ellas de mim,

Não te esqueças de mim pelos mares,

Não me esqueças na terra por fim!

XXI.

Se eu fosse homem, tão bem desejára

Percorrer estes campos de prata,

E este mundo, na tua fragata,

Co’uma esteira cingir d’onda amara.

XXII.

Qu’ria ver a andorinha coitada

Nos meos mastros fugida poisar,

E achar no convez abrigada,

Quando o vento começa a reinar!

XXIII.

Ver o mar de toninhas coberto,

Ver milhares de peixes brincar,

Ver a vida nesse amplo deserto

Mais valente, mais forte pular!

* * * * *

Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,

Ou fosse tempestade ou calmaria,

Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,

Só de ti, só de ti me lembraria!

O mar suas ondas inconstante volve,

Sem que o seo curso o mesmo rumo leve,

Assim dos homens a paixão se move,

Fallaz e vária, assim no peito ferve!

Meditados enganos sempre encobre

O mesmo que ao principio ardente amava;

Oxalá não diga eu que me enganava,

Que teo peito julguei constante e nobre!

Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,

Ou fosse tempestade ou calmaria,

Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,

Só de ti, só de ti me lembraria!

* * * * *

AO ANNIVERSARIO DE UM CASAMENTO.

A MRS. A. N. V. DA G.

A filha d’Albion bem vinda seja

Ao solo brasileiro!

Bem vinda seja ás margens florescentes

Do Rio hospitaleiro!

Qu’importa que te acene a Patria ao longe,

Que vejas incessante

As memorias, os templos, os palacios

Da Cidade gigante?

A patria é onde quer que a vida temos

Sem penar e sem dôr;

Onde rostos amigos nos rodeião,

Onde temos amor:

Onde vozes amigas nos consolão

Na nossa desventura,

Onde alguns olhos chorarão doridos

Na erma sepultura;

A patria é onde a vida temos presa:

Aqui tão bem ha sol!

Tão bem a brisa corre fresca e leve

Da manhã no arrebol!

Aqui tão bem a terra produz flores,

Tão bem os céos têm côr;

Tão bem murmura o rio, e corre a fonte,

E os astros têm fulgor!

Aqui tão bem se arrelva o prado, o monte,

De mimoso tapiz;

Nas azas do silencio desce a noite

Tão bem sobre o infeliz!

A filha d’Albion bem vinda seja

Ao solo brasileiro;

Bem vinda seja ás margens florescentes

Do Rio hospitaleiro!

Compridos annos e folgados viva

Neste ditoso clima,

E veja á par dos filhos seos queridos

Crescer do esposo a estima!

Possa eu tão bem do seo feliz consorcio

De novo em cada anno

Soltar um hymno de amizade extreme,

Um canto mais que humano!

24 de Março.

* * * * *

CANTO INAUGURAL.

Á MEMORIA DO CONEGO JANUARIO DA CUNHA BARBOSA.

Onde essa voz ardente e sonorosa,

Essa voz que escutámos tantas vezes,

Polida como a lamina d’um gladio,

Essa voz onde está?

No rostro popular severa e forte,

No pulpito serena, amiga e branda,

Pelas naves do templo reboava,

Como oração piedosa!

E a mão segura, e a fronte audaciosa,

Onde um vulcão de ideias borbulhava,

E o generoso ardor de uma alma nobre

--Onde párão tão bem?

Novo Colombo audaz por novos mares,

A sonda em punho, os olho nas estrellas,

Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas

Do inhospito elemento;

Porfioso e tenaz no duro empenho,

No manto do porvir bordava ufano,

Sob os tropheos da liberdade sacra,

Os destinos da Patria!

Nocturno viajor que andou vagando

A noite inteira, a revolver-se em trevas,

Onde te foste, quando o sol roxeia

Nuvens de um céo mais puro?

Seccou-se a voz nas fauces resequidas,

Parou sem força o coração no peito,

Quando somente um pé firmava a custo

Na terra promettida!

E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,

Inda a vejo pendente, sobre os paginas

Da patria historia, onde gravou seo nome

Tarjado em letras d’oiro.

Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida

Talvez quadro maior lhe affigurava

Que a luta acerba do Titan brioso,

Ultima prole de Saturno.

Inveja Claudiano pincel valido,

Que nos retrata o cataclysmo horrendo,

Que elle--poeta--não achou nos combros

Da ignivoma Tessalia!

Inveja!... mas ás formas do Gigante

Sorri-se o grande Homero;--e o cego Bardo

Da verde Erin, entre os heróes famosos

Prazenteiro o recebe!

* * * * *

Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!

Dorme agora no gelido sudario;

Foi duro o afan, asperrima a contenda,

Será fundo o descanço.

Dorme, ó lutador, teo somno eterno;

Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,

Como na vida foi, surja o teo busto

Austero e glorioso.

Columna inteira em combros derrocados,

Rolo encerado, que já beija as praias

Do remoto porvir,--seguro e salvo

Dos naufragios d’um seculo;

Dorme!--não serei eu quem te desperte,

Meos versos ... não serão:--palmas sem graça,

Ou pobre ramo d’arvore funerea,

Pyramidal cypreste.

São flôres que desfolha sobre um tumulo

Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,

Piedosa mão de peregrino extranho,

Que alli passou acaso!

* * * * *

TABYRA.

* * * * *

DEDICATORIA

AOS PERNAMBUCANOS.

Salve, terra formosa, ó Pernambuco,

Veneza Americana, transportada

Boiante sobre as agoas!

Amigo genio te formou na Europa,

Genio melhor te despertou sorrindo

Á sombra dos coqueiros.

Salve, risonha terra! são teos montes

Arrelvados, innumeros teos valles,

Cujas veias são rios!

Doces teos prados, tuas varzeas ferteis,

Onde reluz o fructo sasonado

Entre o matiz das flores!

Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem,

E a bella historia de colonia exaltem,

E os nomes forasteiros;

Não eu, que nada almejo senão ver-vos,

Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos,

Expraiados no mar!

Ambas vós, sobre tudo americanas,

Doces flores dos mares de Colombo,

Filhas do norte ardente!

Virgens irmãs, que vão de mãos travadas

Sorrirem d’innocencia á propria imagem,

Que luz em claro arroyo.

Andei, por vós somente, em vossas matas,

Colhendo agrestes flores na floresta,

Não respiradas nunca,

Singelas, como vós,--como vós, bellas,

Ennastrei-as em forma de grinalda

Fino, extremoso amante!

Não vivem muito as flores: são meos versos

Ephemeros como ellas; côr sem brilho,

Ou perfume apagado,

Ou trino fraco d’ave matutina,

Ou echo de um baixel que passa ao longe

Com descante saudoso.

* * * * *

TABYRA.

(POESIA AMERICANA.)

Les _peaux rouges_, plus nobles, mais plus infortunées

que les _peaux noires_, qui arriveront un jour á la

liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la

mort, parce que leur nature se refuse à la servitude.

* * *

I.

É Tabyra guerreiro valente,

Cumpre as partes de chefe e soldado;

É caudilho de tribu potente,

--Tobajaras--o povo senhor;

Ninguem mais observa o tratado,

Ninguem menos de p’rigos se aterra,

Ninguem corre aos acenos da guerra

Mais depressa que o bom lidador!

II.

Seo viver é batalha aturada,

Dos contrarios a traça aventando;

É dispor a cilada arriscada,

Onde o imigo se venha metter!

Levão noites com elle sonhando

Potiguares, que o virão de perto;

Potiguares, que assellão por certo

Que Tabyra só sabe vencer!

III.

Mil enganos lhe têm já tecido,

Mil ciladas lhe têm preparado;

Mas Tabyra, fatal, destemido,

Tem feitiço, ou encanto, ou condão!

Sempre o plano da guerra é frustrado,

Sempre bravo fronteiro apparece,

Que os enganos crueis lhes destece,

Face a face, arco e setas na mão.

IV.

Já dos Luzos o troço apoucado,

Paz firmando com elle traidora,

Dorme illeso na fé do tratado,

Que Tabyra é valente e leal.

Sem Tabyra dos Luzos que fôra?

Sem Tabyra que os guarda e defende,

Que das pazes talvez se arrepende

Já feridas outr’ora em seo mal!

V.

Chefe stulto d’um povo de bravos,

Mas que os piagas victorias te fadem,

Hão de os teos, miserandos escravos,

Taes triunfos um dia chorar!

Caraibas taes feitos applaudem,

Mas sorrindo vos forjão cadeias,

E pesadas algemas, e peias,

Que traidores vos hão de lançar!

VI.

Chefe stolido, insano, imprudente,

Sangue e vida dos teos malbaratas?!

Mingua as forças da tribu potente,

Vencedora da raça Tupi!

Hão de os teca, acoçados nas matas

Mal feridos, sangrentos, ignavos,

Não podendo viver como escravos,

Dar o resto do sangue por ti!

VII.

Vivem homens de pel’ côr da noite

Neste solo, que a vida embelleza;

Podem, servos, debaixo do açoite,

Nenias tristes da patria cantar!

Mas o indio que a vida só preza

Por amor dos combates, e festas

Dos triunfos sangrentos, e sestas

Resguardadas do sol no palmar;

VIII.

Ocioso, indolente, vadio,

Ou activo, incançavel, fragueiro;

Já nas matas, no bosque erradio,

Já disposto a lutar, a vencer;

Ama as selvas, e o vento palreiro,

Ama a gloria, ama a vida; mas antes

Que viver amargados instantes,

Quer e pode e bem sabe morrer!

IX.

Eis, avante! ó caudilho valente!

Potiguares lá vêm denodados;

Tão cerrado concurso de gente,

Ninguem vio nestas partes assim!

Poucos são, mas briosos soldados;

Não são homens de aspecto jocundo!

Restos são, mas são restos d’um mundo;

Poucos são, mas soldados por fim!

X.

Os seos velhos disserão comsigo,

Discutindo os motivos da guerra:

«É Tabyra--cruel, inimigo,

Já nem crê, renegado, em Tupan!»

Pés robustos lá batem na terra,

Pó ligeiro se expande nos ares:

Era noite! milhar de milhares

São armados, mal rompe a manhã.

XI.

Vêm soberbos,--o sol luz apenas!

Confiados, galhardos, lustrosos,

Vêm bizarros nas armas, nas pennas,

Atrevidos no accento e na voz!

Um d’entre elles, dos mais orgulhosos,

Sóbe á pressa nas aspas d’um monte:

Dalli brada, postado defronte

De Tabyra--com geito feroz:

XII.

«Ó Tabyra, Tabyra! aqui somos

A provar nossas forças comtigo;

Dizes tu que vencidos já fomos!

Dil’-o tu, não n’o diz mais ninguem.

Ora eu só a vós todos vos digo:

Sois cobardes, irmãos de Tabyra!

Propagastes solemne mentira,

Que vencer não sabemos tão bem.

XIII.

«Para o vosso terreiro vos chamo,

Contra mim vinde todos,--sou forte:

Occorrei ao meo nobre reclamo!

Aqui sou, nem me parto daqui!

Vinde todos em densa cohorte:

Travaremos combate sangrento,

Mas por fim do triunfo cruento

Direis vós, se fui eu quem menti.»

XIV.

Disse o arauto: eis a turba ufanosa

Lhe responde, arco e setas brandindo,

Pés batidos, voz alta e ruidosa:

--Bem fallado, ó guerreiro, mui bem!

Assim é; mas Tabyra rugindo,

Resentido de offensas tamanhas,

O rancor mal encobre das sanhas,

Que não lava no sangue de alguem.

XV.

Raso outeiro alli perto se off’rece:

Vinga-o prestes, hardido, açodado!...

Como leiva de pallida messe,

Já madura, tremendo no pé;

Todo o campo descobre occupado

Por guerreiros,--no extremo horisonte

Não destingue nas faldas do monte,

O que é gente, o que gente não é.

XVI.

Não se abala o preclaro guerreiro,

Do que vê seo valor não fraqueia;

Diz comsigo: «Um só golpe certeiro

Vai de todo esta raça apagar!

Juntos são, mas são meos!»--Já vozeia;

Logo os seos lhe respondem gritando,

Taes rugidos, taes roncos soltando

Que aos seus proprios deverão turbar!

XVII.

Diz a fama que então de assustadas

Muitas aves que o espaço crusavão,

De pavor subitaneo tomadas,

Descahião pasmadas no chão:

Já com silvos e atitos voavão

Muitas outras, que o triste gemido

No conflicto, abafado e sumido,

Talvez darão,--mas fraco, mas vão!

XVIII.

Eis que os arcos de longe se encurvão,

Eis que as setas aladas já voão,

Eis que os ares se cobrem, se turvão,

De frexados, de surdos que são.

Novos gritos mais altos reboão,

Entre as hostes se apaga o terreno,

Já tornado apoucado e pequeno,

Já coberto de mortos o chão!

XIX.

Peito a peito encontrados afoutos,

Braço a braço travados briosos,

Fervem todos inquietos, revoltos,

Qu’indicisa a victoria inda está.

Todos movem tacápes pesados;

Qual resvala, qual todo se enterra

No imigo que morde na terra,

Que sepulcro talvez lhe será.

XX.

«Mas Tabyra! Tabyra! que é delle?

«Onde agora se esconde o pujante?»

--Não n’o vedes?!--Tabyra é aquelle

--Que sangrento, impiedoso la vai!

--Vel-o-heis andar sempre adiante,

--Larga esteira de mortos deixando

--Traz de si, como o raio cortando

--Ramos, troncos do bosque, onde cai.--

XXI.

«Foge! foge! leal Tobajara;

«Quantos arcos que em ti fazem mira?!»

--Muitos são; porém medos encara

--Face a face, quem é como eu sou!--

Muitas setas cravejão Tabyra:

Bello quadro!--mas vel-o era horrivel!

Porco-espim que sangrado e terrivel

Duras cerdas raivando espetou!

XXII.

Tem um olho d’um tiro frexado!

Quebra as setas que os passos lh’impedem,

E do rosto, em seo sangue lavado,

Frexa e olho arrebata sem do!

E aos imigos que o campo não cedem,

Olho e frexa mostrando extorquidos

Diz, em voz que mais erão rugidos:

--Basta, vis, por vencer-vos um só!

XXIII.

E com furia tão grande arremettem,

Com despego tão nobre da vida;

Tantos golpes, tão fundos repetem,

Que senhores do campo já são!

Potiguares lá vão de fugida,

Inda á fera mais torva e bravia

Disputando guarida d’um dia

No mais fundo do vasto sertão!

XXIV.

Potiguares, que a aurora risonha

Vio nação numerosa e potente,

Não já povo na tarde medonha,

Mas só restos d’um povo infeliz!

Insepultos na terra inclemente

Muitos dormem; mas ha quem lh’inveja

Essa morte do bravo em peleja,

Quem a vida do escravo maldiz!

XXV.

«Este o conto que os Indios contavão,

«A deshoras, na triste senzalla;

«Outros homens alli descançavão,

«Negra pel’; mas escravos tão bem.

«Não choravão; somente na falla

«Era um quê da tristeza que mora

«Dentro d’alma do homem que chora

«O passado e o presente que tem!»

* * * * *

HYMNOS.

* * * * *

A LUA.

Figlia del ciel, sei bella!

Ma verrà notte ancor, che tu, tu stessa

Cadrai per sempre, e lascierai nel cielo

Il tuo azzurro sentier!

CESAROTTI.

Salve, ó Lua candida,

Que traz dos altos montes

Erguendo a fronte pallida,

Dos negros horisontes

As sombras melancolicas

Vens ora afugentar!

Salve, ó astro fulgido,

Que brilhas docemente,

Melhor que o lume tremulo

D’estrella inquieta, ardente,

Melhor que o brilho esplendido

Do sol ferindo o mar!

Salve, ó reflexo tenue

Da eterna luz preclara

Nas nossas noites horridas;

Qual sol que em lympha clara

Desponta os raios vividos,

Em tarja multicor;

Es como a virgem púdica,

Que amor no peito encerra;

Mas só, mas solitaria,

Vagando aqui na terra,

Treplíca o sello mystico

Do não sabido amor!

Eu te amo, ó Lua candida,

No gyro somnolento,

E o teo cortejo madido

De estrellas, e do vento

O sopro merencorio,

Que á noite dá frescor.

Por teos influxos magicos

Minha alma aos sons do canto

Revive; e os olhos humidos

Gotejão triste pranto,

Que orvalha a chaga tepido,

Que mingua a antiga dôr!

Em gelido sudario

De neve alvi-nitente,

Por terras vi longinquas,

Durante a noite algente,

A tua luz benfica

Luzir meiga do céo.

Nos mares solitarios

Tão bem a vi!--nas vagas

Brincava o lume argenteo,

Cantava o nauta as magas

Canções, no voluntario,

Cançado exilio seo!

Tão bem a vi na limpida

Corrente vagarosa;

Tão bem nas densas arvores

De selva magestosa,

Coando os raios lubricos

No lobrego palmar.

E eu só e melancolico

Sentado ao pé da veia,

Que a deslisar-se timida

Beijava a branca areia;

Ou já na sombra tetrica

Da mata secular;

Em devaneio placido

Velava, em quanto via

Ao longe--os altos pincaros

Da negra serrania,

--Disformes atalaias,

Que sempre alli serão!

No rórido silencio

Minha alma se exaltava;

E das visões phantasticas,

Que a lua desenhava,

Seguia os traços aureos,

Tremendo em negro chão!

Pensava ledo, improvido,

Até que de repente

Da minha vida misera

Se me antolhava á mente

A quadra breve e rapida

Do malfadado amor.

Então fugia attonito

O bosque, a selva, a fonte,

E as sombras, e o silencio;

Bem como o cervo insonte,

Que ás setas foge pavido

Do fero caçador!

Cantos · 第 6 / 17 段