E já, tomada a refeição nocturna,

Junto a fogueira, que derrama vida,

Descanção todos da penosa lida

Á voz canora, que o cantor alçou!

Confuso o ouvido um borborinho alcança,

As armas toma o arabe prudente;

Mas logo pensa, regeitando a lança:

«Foi o grunhido que o chacal soltou.»

Ouvidos todo e curioso enlevo,

Toma de novo a retomar seo posto;

Pela fogueira alumiado o rosto,

Bebendo as vozes que o cantor soltou;

Simelha a terra, quando aberta em fendas

Da noite o orvalho sequiosa espera;

E o corsel arabe encostado ás tendas

Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

«Algures cresce (o trovador cantava)

Sempre fresca e virente e sempre bella,

Por influxo e poder de maga estrella,

Mimosa, pura e delicada flôr!

Jazendo em sitio escuso e solitario,

Esforços é mister p’ra conhecel-a,

Que diz a forte lei do seo fadario

Que a não descubra acaso o viajor.

«Alva do albor dos lirios odorosos,

Tem a modestia da violeta esquiva,

E o prompto retrahir da sensitiva,

Que parece vestir-se de pudor!

Assim, á luz da cambiante aurora,

Mudando um pouco a resplendente alvura,

De uns toques de carmim s’esmalta e córa

A graciosa e pudibunda flôr.

«Faz-se mais puro o ar, mais brando o clima,

Onde cresce; amenisão-se os logares,

Tornão se menos agros os pezares

E menos viva, e quasi nulla a dôr;

Fresca e branda alcatifa o chão matisa,

Com doce murmurio as aguas correm,

E o leve sopro do correr da brisa

Volupia embebe em magico frescor!

«Feliz aquelle que a encontrou na vida,

Que onde ella nasce timida e fagueira

Não s’ennovela a mó d’atra poeira,

Tangida pelo súmiu’ abrasador!

Alli sorri-se oasis venturoso,

Qu’entre deleites o viver matisa,

E ao que vai triste, afflicto e sem repouso

Chama a descanço do comprido error!

«Feliz e mais que se, perdido, achára

Conforto e auxilio no kathá, seo guia,

Que o leva a fonte perennal e fria

Onde se apaga o sitibundo ardor.

Tão feliz, qual talvez se o precedesse

Nos desertos a benção do propheta,

Que por fanal nocturno lhe accendesse

Maga estrella de limpido fulgor.

«Ai! porêm do que a vê, e a não conhece,

Do que a suspira em vão, e a em vão procura,

Ou que achando-a, desiste da ventura

Por não entrar no oasis seductor.

Essa flôr descoberta por acerto

Nunca mais a verás! colhe, insensato,

Colhe abrolhos da vida no deserto;

Pois despresaste a que produz o amor!»

Assim cantava o trovador; e todos

Ouvem-no com prazer de dôr travado,

Que mais do que um talvez terá deixado

Atraz de si a pudibunda flôr!

No emtanto a nuvem d’arabes errantes

Chega-se á presa, que avistou de longe;

E dos corseis, que alentão offegantes,

Precede a marcha turbido pavor!

E, nado o sol, aquelle que passava

Pelos desertos d’abrasada areia,

Que o rubro sangue de cruor rocheia,

A um lado o rosto, pallido, voltou!

Ninguem as mortes lastimaveis chora,

Ninguem recolhe os restos insepultos,

E o mesmo orvalho, que goteja a aurora,

Sem borrifal-os, no areial ficou!

Quem saberá do seo destino agora?

Ninguem! Somente em climas apartados

Miseranda mulher lastima os fados

De filho ou esposo, que jamais tornou!

Talvez porêm, traz de montões d’areia,

Nobre corsel sem cavalleiro assoma,

E alonga a vista, de pezares cheia,

Té onde a vida seo senhor deixou!

* * * * *

A SUA VOZ.

Por que ficasse a vida

Por o mundo em pedaços repartida.

CAMÕES CANÇ. X.

Ouvi-a! A sua voz me despertava

Tudo quanto de bom conservo n’alma.

Retratado o pudor no rosto,

E um suave dizer, um timbre doce

De voz, uma piedade extreme e sancta,

Que as mais profundas chagas animava,

D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.

Ouvi-a! A sua voz era mais branda,

Mais impressiva que o cantar das aves!

A aragem qu’entre flores se deslisa

E mal remeche a timida folhagem,

A veia de chrystal que triste sôa,

O saudoso arrulhar de mansas pombas,

As proprias notas d’um cantar longinquo

Ou de instrumento a conversar co’a noite,

Menos que a sua voz impressionavão!

Menos que a sua voz!--Os dois mais fortes,

Os dois mais puros sentimentos nossos

--A saudade e o amor,--as mais profundas

Das merencorias solidões da terra

--As florestas e o mar,--um scismar vago,

Um devaneio, uns extasis sem termo

D’alma perdida por um céo de amores,

Tanto como a sua voz não arroubavão!

Tanto como a sua voz!--somente o forão

Dulces notas de mysticos salterios

Té nós de um astro em outro repetidas.

Foi isto o que senti, quando a escutava,

Fluente, armoniosa, discorrendo

Em pratica singela, sobre assumptos

Diversos, sobre flores, menos bellas

Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros.

Mas quem n’a ouvira conversar de amores

Trouxera n’alma como uma harpa eolia,

Dia e noite vibrando,

Como um cantar dos anjos

Do coração a estremecer-lhe as fibras!

* * * * *

SE SE MORRE DE AMOR!

Meere und Berge und Horizonte zwischen den

Liebenden--aber die Seelen versetzen sich

aus dem staubigen Kerker und treffen sich im

Paradiese der Liebe.

SCHILLER. _Die Räuber._

Se se morre de amor!--Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surprende

De ruidoso saráu entre os festejos;

Quando luzes, calor, orchestra e flores

Assomos de prazer nos raião n’alma,

Que embellezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Sympathicas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabellos,

Um quê mal definido, acaso podem

N’um engano d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delirio,

Devaneio, illusão, que se esvaece

Ao som final da orchestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamão,

D’amor igual ninguem succumbe á perda.

Amor é vida; é ter constantemente

Alma, sentidos, coração--abertos

Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compr’hender o infinito, a immensidade,

E a natureza e Deos; gostar dos campos,

D’aves, flores, murmurios solitarios;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E á branda festa, ao riso da nossa alma

Fontes de pranto intercalar sem custo;

Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o miserrimo dos entes:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem

Para dizer que amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo, onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses thesouros

Inexgotaveis, d’illusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,

Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos,

Seguil-a, sem poder fitar seos olhos,

Amal-a, sem ousar dizer que amamos,

E, temendo roçar os seos vestidos,

Arder por afogal-a em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porêm emfim transborda,

Se tem na terra o galardão devido

Em reciproco affecto; e unidas, uma,

Dois seres, duas vidas se procurão,

Entendem-se, confundem-se e penetrão

Juntas--em puro céo d’extasis puros:

Se logo a mão do fado as torna extranhas,

Se os duplíca e separa, quando unidos

A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe

Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo?

Póde o raio n’um pincaro cahindo,

Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos;

Póde rachar o tronco levantado

E dois cimos depois verem-se erguidos,

Signaes mostrando da alliança antiga;

Dois corações porêm, que juntos batem,

Que juntos vivem,--se os separão, morrem;

Ou se entre o proprio estrago inda vegetão,

Se apparencia de vida, em mal, conservão;

Ancias crúas resumem do proscripto,

Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive a propria ruina,

Ao seo viver do coração,--ás gratas

Illusões, quando em leito solitario,

Entre as sombras da noite, em larga insomnia,

Devaneiando, a futurar venturas,

Mostra-se e brinca a apetecida imagem;

Esse, que á dôr tamanha não succumbe,

Inveja a quem na sepultura encontra

Dos males seos o desejado termo!

* * * * *

A MORTE É VÁRIA.

(TRADUCÇÃO.)

A morte é vária e multiforme, e múda

De trajes e de mascaras mais vezes

Qu’uma cançada actriz;

Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro

D’ironico sorriso e brancos dentes,

E d’horrido cariz.

Nem todos seus vasallos são poeira

No resalto de pedra adormecidos

Por sob as arcarias;

A pallida libré nem todos vestem,

Nem sobre todos jaz murada a porta

Nas cryptas sombrias!

Diversa a natureza é d’outros mortos:

Nestes que a sanie e podridão consomem,

Vê-se o nada palpavel;

Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa

E o esfaimado esquife, abrindo as fauces,

Qual monstro insaciavel!

Cabe a outros porêm que sem dôr vemos

Passar, gyrar no turbilhão dos vivos,

De carne inda vestidos,

O nada inda encuberto; cabe a interna

Morte, que ninguem sabe, nem chóra,

Nem mesmo os mais queridos!

Pois, se vamos a ver nos cymiterios

As campas, ou illustres ou sem nome,

De marmore ou torrão;

Ou tenhamos alli amiga palpebra,

Ou não,--do teixo á sombra descançada,

Quer choremos, quer não!

«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem

Sob a relva; o verme nesses olhos

Enréda a teia crúa!

Por entre as pranchas do caixão despontão

Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta

Branqueja a ossada núa.

Os herdeiros não temem que mais vólte;

Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão,

Soltando uivos de dôr!

Acama-se a poeira em seos retractos:

Já não tem mais rivaes, não tem amigos,

Nem odios, nem amor!

Da morte o anjo, em lagrimas de pedra

Vemos sosinho e mudo a pranteal-o,

Estatua da afflicção:

A cova toma o corpo, o olvido o nome,

Tem por lençóes seis pés d’humida terra....

Mortos, bem mortos são!

E dos olhos talvez se vos deslise

O pranto sobre a relva, pelo orvalho

E chuva humedecida;

Que na triste mansão os regozije,

E por essa oblação enternecidos

Um resto achem de vida.

Mortos do coração ninguem os chóra,

Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso:

«Seja o Senhor comtigo.»

Curão do morto, lavão-lhe as feridas;

Mas a alma estala sem que alguem se dôa,

Nem mesmo o mais amigo!

Ha comtudo pungentes agonias

Nunca sabidas, dores horrorosas

Mais do que se não crê;

Almas ha que tem cruz e passamento,

Sem aureola d’oiro e a mulher pallida

E desgrenhada--ao pé.

* * * * *

SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

J’ai fait de ma chambre la cellule d’un cloître, j’ai béni et

sanctifié ma vie et ma pensée; j’ai raccourci ma vue et j’ai éteint

devant mas yeux les lumières de notre âge: j’ai fait mon coeur plus

simple, et l’ai baigné dans le bénitier de la foi catholique; je me

suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j’ai écrit!...

STELLO.

* * * * *

LOA DA PRINCEZA SANCTA.

Bom tempo foy o d’outr’ora

Quando o reyno era christão,

Quando nas guerras de mouros

Era o rey nosso pendão,

Quando as donas consumião

Seos teres em devação.

Dava o rey huma batalha,

Deos lhe acudia do céo;

Quantas terras que ganhava,

Dava ao Senhor que lhas deo,

E só em fazer mosteyros

Gastava muito do seo.

Se havia muitos Iffantes,

Torneyo não se fazia;

He esse o estilo de Frandres,

Onde anda muita heregia:

Para os armar cavalleiros

A armada se apercebia.

Chamava el-rey seos vassallos

E em côrtes logo os reunia:

Vinha o povo attencioso,

Vinha muita cleregia,

Vinha a nobreza do reyno,

Gente de muita valia.

Quando o rey tinha-los juntos

Começava a discursar:

«Os Iffantes já são homens,

Vou-me ás terras d’alem-mar

Armal-os hy cavalleiros;

Deos Senhor m’ha de ajudar.»

Não concluia o pujante

Rey--de assi lhes propor,

Clamavão todos em grita

Com vozes de muito ardor:

«Seremos nessa folgança,

Honra de nosso Senhor!»

E logo todos em sembra,

Todos gente mui de bem,

Na armada se agazalhavão,

Sem se pezar de ninguem;

E os Padres de Sam Domingos

Hião com elles tambem.

Hião, si, os bentos Padres:

E que assi fosse, he rezão,

Que o sancto em guerras d’Igreja

Foy hum bom sancto christão:

Queimou a muitos hereges

No fogo da expiação!

Quando depois se tomava

Toda a frota pera cá,

Primeiro se perguntava,

«Que terras temos por lá?»

Quem em Deos tanto confia,

Sempre Deos por si terá.

El-rei tornava benino,

Como coisa natural:

«Temos Ceita, Arzilla ou Tangere,

«Conquistas de Portugal!»

E todos, a voz em grita,

Clamavão: real! real!

Bom tempo foy o d’outr’ora

Quando o reyno era christão;

Os moços davão-se á guerra,

As moças á devação:

Aquella terra de mouros

Vivia em muita afflicção.

Deo-nos Deos tantas victorias,

E tanto pera louvar,

Que os Padres de Sam Domingos

Ja não sabião rezar;

Todo-lo tempo era pouco

Pera louvores cantar!

Sendo tantas as batalhas,

Nem recontro se perdeo!

Aquelles Padres coitados

Não tinhão tempo de seo;

Levavão todo cantando

Louvores ao pay do céo.

Louvores ao pay do céo,

Que eu inda possa trovar,

Quando não vejo nos mares

Nossas quinas tremolar;

Mas somente o templo mudo,

Sem guarnimentos o altar!

Vejo os sinos apeados

Dos campanarios subtiz,

E a prata das sacristias,

Servida em misteres vis,

E ante os leões de Castella

Dobrada a Luza cerviz!

Cant’eu, em bem que sou Padre,

Diga que sou Portuguez:

Arço de ver nossas coizas

Hirem todas ao revez,

Arço de ver nossa gente

Andar comnosco ao envez.

Mercê de Deos! minha vida

He vida de muita dura!

Vivo esquecido dos vivos

Na terra da desventura;

Vivo escrevendo e penando

N’um canto de cella escura.

Do meo velho breviario

Só deixarei a leitura

Pera escrever estes carmes,

Remedio á nossa amargura;

O corpo tenho alquebrado,

Vive minha alma em tristura.

* * * * *

Que armada de tantas velas,

Que armada he essa qu’hy vem?

Vem subindo Tejo acima,

Que fermosura que tem!

Nas praias se apinha o povo,

E as cobre todas porêm.

Dão signays as fortalezas,

Respondem signays de lá:

Vem el-rey victorioso!

Quem de gaudio se terá?

O mar he todo bonança,

O céo mui sereno está!

Ôco bronze fumo e fogo

Já começa a despejar;

Acordão alegres echos

Os sinos a repicar;

Grita e folgança na terra,

Celeuma e grita no mar!

Vinde embora mui depressa

Senhores da capital!

Vinde ver Affonso quinto,

Rey, senhor de Portugal;

Vem das terras africanas

Dar-vos festança real.

Nossos reys forão outr’ora

Fragueiros de condição;

Dormião quasi vestidos,

Espada nua na mão;

Nem repoisavão de noite

Sem fazer sua oração.

Empresa não commettião

Sem primeiro commungar,

Sem fazer voto á algum sancto

De tenção particular;

Porêm victorias houverão,

Que são muito de espantar!

Os vindouros esquecidos

Da protecção divinal,

Conhecerão os poderes

Da benção celestial,

Se contarem os mosteyros

Das terras de Portugal!

Nossas capellas que temos,

Nossos mosteyros custosos,

São obras sanctas de Sanctos,

Obras de reys mui piedosos;

São brados de pedra viva,

Que prégão feitos briosos.

Alguns já agora escarnecem

Dos templos edificados;

Dizem que foram mal gastos

Os bens com elles gastados:

Eu creio (Deos me perdôe)

Que são incréos disfarçados!

E mais prasmão dos feitios

De pedra, que Memphis tem,

Sem ter olhos pera Mafra,

Pera Batalha ou Belem!

Oh! se a estes conheceras,

Meo Frey Gil de Santarem!

N’aquella villa deserta

Ainda se me afigura

Ver elevar-se nas sombras

Tua válida estatura,

E ouvir a voz que intimava

Ao rey a sentença dura!

E mais a tacha que tinha

Era ser fraco, e não mais!

Tu, meo Sancto, que fizeras,

Se ouviras a estes tais,

Que nos assacão motejos

Ás nossas obras reais!

Mas vós, quem quer qu’isto lerdes

Relevai-me esta tardança;

São achaques da velhice:

Vivemos de remembrança

E em longas fallas fazemos

De tudo commemorança.

* * * * *

Já el-rey Affonso quinto

Nas suas terras pojou:

Alegre o povo o recebe,

Alegre el-rey se mostrou;

Abrio-se em alas vistosas,

El-rey entre ellas passou.

Vem os muzicos troando

Nos atabales guerreiros,

Tangem outros istromentos

Desses climas forasteiros,

E traz elles vêm marchando,

Passo a passo, os prisioneiros.

São elles mouros gigantes

De bigodes retorcidos,

Caminhão a passos lentos,

Com sembrantes de atrevidos.

Causa medo vêl-os tantos,

Tam membrudos, tam crescidos!

São homens de fero aspeito,

Homens de má condição,

Que vivem na lei nojenta

Do seo nojento alkorão,

Que--vinho? nem querem vê-lo,

Só por que o bebe um christão!

Vêm as moiras depois delles,

Rostos cobertos com véos;

Bem que filhas d’Agarenos,

São tambem filhas de Deos;

Se forão christans ou freiras,

Serião anjos dos céos.

Luzião os olhos dellas

Como pedras muito finas;

Devião ser nas bruxas,

Inda qu’erão bem meninas,

Que estas moiras da mourama

Nascem já bruxas cadimas

Huma dellas que lá vinha

Olhou-me á travez do véo!...

Foy aquillo obra do demo,

Quasi, quasi me rendeo!

Pensei nella muitas vezes,

Valerão-me anjos do céo!

Via as largas pantalonas,

E o pesinho delicado...

Como póde pensar nisto

Hum pobre frade cançado,

Hum padre da Observancia,

Que sempre come pescado?!

Emfim, dizer quanto vimos

Não cabe neste papel;

Vinhão muitas alimarias,

Como achadas a granel;

Vinha o infante brioso,

Montado no seo corsel.

Vinhão pagens e varletes,

Vinhão muitos escudeiros,

Vinhão do sol abrazados

Nossos robustos guerreiros;

Vinha muita e boa gente,

Muitos e bons cavalleiros!

* * * * *

A Princesa Dona Joanna

Sahio dos Paços reais;

Era moça, e muito airosa,

E dona de partes tais,

Que todos lhe qu’rião muito,

Estranhos e naturais!

Foy requerida de muitos

E muito grandes senhores,

Por fama que della tinhão,

E por copia de pintores,

Que muitos vinhão de fóra

Ao cheiro de seos louvores.

E diz-se d’hum rey de França,

Ludovico, creio eu:

Hum pobre frade mesquinho

Só trata em coisas do céo;

Sabe elle que muito sabe,

Se a bem morrer aprendeo.

Pois diz-se do rey de França,

O onzeno do nome seo,

Que vendo hum retrato destes

Pera si logo entendeo,

Qu’era prodigio na terra

Quem tanto tinha do céo.

E logo sem mais tardança

Cahio, giolhos no chão,

No feltro traz arreliquias,

Assi uza hum rey cristão;

O seo feltro poz diante,

E fez hy sua oração!

* * * * *

Sahio a real Princeza,

Sahio dos Paços reais

Nos pulsos ricas pulseiras,

Na fronte finos ramais;

De longe seguem-lhe a trilha

Muitos bons homens segrais.

Traçava hum mantéo vistoso

Sobolas suas espaldas,

E as largas roupas na cinta

Prendia em muitas laçadas;

Seos olhos valião tanto

Como duas esmeraldas.

Tinha elevada estatura

E meneyo concertado,

Solto o cabello em madeixas,

Pelas costas debruçado:

Cadeixo de fios d’oiro,

Franjas de templo sagrado.

Vinha assi a regia Dona,

Vinha muito pera ver:

O povo em si não cabia,

Quando a via, de prazer;

Era ella sancta ás occultas

E anjo no parecer!

Debaixo das telas finas

E dos brocados luzidos,

Trazia á raiz das carnes

Duros cilicios cozidos

E humas crinas muito agras,

Tudo extremos mui subidos.

Passava noites inteiras

No oratorio a rezar,

Dormia despois na pedra

Sem ninguem o suspeitar:

Extremos tais em princeza

Quem n’os ha de acreditar?

No dia de lava-pés

Ordenava ao seo Vedor,

Trazer-lhe doze mulheres;

E depois, com muita dôr,

Chorando os pés lhes lavava,

Honra de nosso Senhor!

E depois de os ter lavado,

Não perdia a occasião,

Despedia a todas juntas

Com sua esmola na mão:

Dizia que era humildade,

E obra de devação.

E as mendigas prasmadas

Sahião de tal saber,

E perguntavão, quem era

Aquella sancta mulher?!

Máos peccados que ella tinha

Só pera assi proceder!

O mesmo Vedor foy quem

Isto despois revelou,

Quando aquella humanidade

Em o Senhor descançou;

Dona Joanna era já morta,

Elle porêm m’o contou.

Mas sendo tanto o resguardo

Que guardava em coisas tais,

Sabião algo os estranhos

Por muitos certos signais,

Que o ar he todo perfume,

Se a terra he toda rosais.

He coisa de maravilha

Que me faz scismar a mi,

Que as donas d’hoje pareção

Huns camafêos d’alfim,

Não donas de carne e osso;

As donas d’outr’ora--si.

Hoje leigos de nonnada

(He lhes o demo caudel)

Praguejão a meza escaça

E as arestas do burel;

Querem mimos e regalos,

E jejuns a leite e mel.

* * * * *

Lá caminha Dona Joanna,

Regente de Portugal;

Traz sobre si muitas joias

Do thesouro paternal;

Deos lhe pôz graça divina

Sobre a graça natural.

«Acostou-se a comitiva,

Muito senhora de si:

Perante el-rey se agiolha,

Disse-lhe el-rey: não assi!

E ao peito a cinge dizendo:

Não a meos pés, mas aqui!»

«Sois hum bom pay, Senhor rey,

Tomou-lhe a sancta Princeza:

Eu que sou vassalla vossa

E filha por natureza,

Peço mercê como aquella,

Como esta peço fineza.»

Ficarão logo suspensos

Todolos que erão aly,

Ficarão como enleiados,

Enleio tal nunca vi!

Eis que a Princeza medrosa

Começa a propor assi.

El-rey não lhe respondera;

Que lhe havia responder?

Boa filha Deos lhe dera.

Que lhe havia defender?

Sorrio-se, o bom rey quizera

Muito por ella fazer.

A Princeza disse entonces:

«De alguns capitães antigos

Tenho lido, Senhor rey,

Que, vencidos os imigos,

Tornavão, a Deos fazendo

Sacrificios mui subidos.

«Vião as coisas melhores

Que dos seos reynos havião,

E logo lh’as offertavão;

E mercês tambem fazião,

No dia do seo triunfo

A los que justas pedião.

«Deslembrar a usança antiga

Fôra de grande estranheza;

Agora sobre maneira,

Perfeita tamanha empreza,

De tanto lustre aos do reyno,

De tal honra a vossa Alteza.

«Digo pois a vossa Alteza,

E digo com muita fé,

Deve a offerta ser tamanha

Quammanha foy a mercê,

Não do nobre rey pujante,

Mas do sancto rey qual he.

«A offerta que vos fizerdes,

Será mercê paternal:

Se quereis que corresponda

Ao favor celestial,

Deve ser coisa mui alta,

Deve ser coisa real.

«Ao Deos que vence as batalhas

Dai-lhe a filha muito amada;

Dai-lhe a só filha que tendes

Em tantos mimos criada:

Será a offerta bem quista

E do Senhor acceitada.

«E eu a quem mais custou

De medos, esta jornada,

Que muitas noitas orando

Passei em pranto banhada,

Sou eu, Senhor, quem vos peço

Ser a hostia a Deos votada.»

Que sancta que era a Princeza,

Que extremos de devação!

Nos sembrantes dos presentes

Vio-se, e não era razão,

Que a nenhum delles prazia

Deferir tal petição.

Sobr’esteve um pouco e mudo,

El-rey, por que muito a amava:

Aquelle dizer da filha

Todo o prazer lhe aguava,

Aquelle pedir sem dó

Todo o ser lhe transtornava.

Encostou-se ao hombro della

O pobre velho cançado,

Chorou o triunfo breve

E o prazer mal rematado,

Não como rey valeroso,

Mas como pay anojado.

El-rey despois mais tranquillo

Rompeo o silencio alfi’;

E entre afflicto e satisfeito

Disse á filha: Seja assi!...

Velhos guerreiros vi eu

Chorarem tambem aly.

Cant’eu perdido entre o vulgo

Não sei que tempo gastei,

Nem sei de mim que fizerão,

Nem tam pouco se chorei;

Foi traça da providencia:

Nisto commigo assentei.

Foy Jephté corajoso,

O forte rey de Judá;

Volta coberto de loiros,

Quem primeiro encontrará?

Sente a filha, torce o rosto...

Nada ao triste valerá.

Qual d’estes dois sacrificios

Soube a Deos mais agradar?

Vai a Hebrea constrangida

Depor o collo no altar,

Vai a christã jubilosa!

São ambas pera pasmar.

* * * * *

Depois n’hum dia formoso,

Era no mez de Janeiro,

Houve huma scena vistosa

Dentro de hum pobre mosteyro;

Fundou-o Brites Leytoa,

Dona mui nobre d’Aveiro.

Huma princeza jurada,

Sobrinha d’altos Iffantes,

Filha de reys soberanos,

Senhora das mais pujantes,

Era a primeira figura,

Espantava os circunstantes.

Aly humilde e curvada,

Pezar de todos os seos,

Giolhos sobre o ladrilho

E as mãos erguidas aos céos,

Ouvi--exigua mortalha

Pedir polo amor de Deos.

Cantemos todos louvores,

Louvores ao Senhor Deos:

Os anjos digão seo nome,

Rostos cobertos com véos;

Leião-n’o os homens escripto

No liso campo dos céos.

Bom tempo foy o d’outrora

Quando o reyno era christão,

Quando nas guerras mouriscas

Era o rey nosso pendão,

Quando as donas consumião

Seos teres em devação.

«Isto escreveo Frei Antão

De vida mui alongada,

Nossa Senhora da Escada

O teve por Capellão.»

* * * * *

GULNARE E MUSTAPHÁ.

Deos Senhor foy quem nos céos

Pendurou milhões de estrellas,

Foy quem matisou a terra

De froles varias e bellas,

Quem ao mar por ser pujante

Areias deo por cancellas.

Mandou mais qu’arvoles fortes

Das sementes germinassem,

Que déssem froles mimosas,

Que perfumes trescalassem,

E mais fez que em tempo azado

As froles fructificassem.

Pois aquelle anjo das trevas,

Imigo da humanidade,

Nas arvoles poz carcoma,

Poz na frol muita ruindade,

Poz nos céos a nuvem negra,

Poz no mar a tempestade.

Nem só nas coisas terrenas

Damna, e faz mal o tredor,

A alma tambem por mil modos

Tenta com geito e sabor,

Que troca o prazer celeste

Em penas d’eterna dôr!

Mas não foy jamais que Deos

Em tal feito consentisse,

Senão porque suas posses

O homem bem claro visse;

Que sem elle fôra o mundo

Maldade só e sandice.

Mas que mal ha hy na terra

Que não venha pera bem?

Os d’aqui desta amargura

Dão coyta, e gloria porêm;

Dos outros que traz o demo

Deos o remedio lá tem.

Do mal que me foy commigo

Acontecido, al não sei,

Senão que por amor delle

Muito má vida levei,

Que me dá coyta mui grave

Do mal que me comportei.

Cantos · 第 8 / 17 段