Menti, Senhor, menti!--porque te adoro.

No altar profano de belleza esquiva

Não queimo incenso vão;--tu só me occupas

O coração, que eu fiz hostia sagrada,

Apuro de elevados sentimentos,

Que o teo amor somente asilão, nutrem.

Quando ao sopé da cruz me chego afflicto,

Sinto que o meo soffrer se vae mingoando,

Sinto minha alma que de novo existe,

Sinto meo coração arder em chammas,

Arder meos labios ao dizer teo nome.

Assim a cada aurora, a cada noite,

Virei consolações beber sedento

Aos pés do meo Senhor;--virei meo peito

Encher de religião, de amor, de fogo,

Que além de infindos céos minha alma exalte.

II.

Quem me dera nas azas d’este vento,

Que agora tão saudoso aqui murmura,

Agitando as cortinas, que me encobrem

Do teo rosto o fulgor, que me não cegue,

Subir além dos sóes, além das nuvens

Ao teo throno, ó meo Deos; ou quem me désse

Ser este incenso que se arroja em ondas

A subir, a crescer, em rolo, em fumo,

Até perder-se na amplidão dos ares!

Não qu’ria aqui viver!--Quando eu padeço,

Surdez fingida a minha voz responde;

Não tenho voz de amor, que me console,

Corre o meo pranto sobre terra ingrata,

E dôr mortal meo coração fragoa.

Só tu, Senhor, só tu, no meo deserto

Escutas minha voz que te supplica;

Só tu nutres minha alma de esperança;

Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas

Torrentes de harmonia, que me abrasão.

Qual orgão, que resôa mavioso,

Quando segura mão lhe opprime as teclas,

Assim minha alma, quando a ti se achega

Hymnos de ardente amor disfere grata:

E, quando mais serena, inda conserva

Effluvios d’esse canto, que me guia

No caminho da vida aspero e duro.

Assim por muito tempo reboando

Vão no recinto do sagrado templo

Sons, que o orgão soltou, que o ouvido escuta.

* * * * *

TE DEUM.

Nós, Senhor, nós te louvamos,

Nós, Senhor, te confessamos.

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto,

Immenso é o teo poder, tua força immensa,

Teos prodigios sem conta;--e os céos e a terra

Teo ser e nome e gloria preconisão.

E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,

E o côro dos prophetas, e dos martyres

A turba eleita--a ti, Senhor, proclamão

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto.

Na innocencia do infante es tu quem fallas;

A belleza, o pudor--es tu que as gravas

Nas faces da mulher,--es tu que ao velho

Prudencia dás,--e o que verdade e força

Nos puros labios, do que é justo, imprimes.

Es tu quem dás rumor á quieta noite,

Es tu quem dás frescor á mansa brisa,

Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento,

Quem na voz do trovão longe rouquejas.

Es tu que do oceano á furia insana

Pões limites e cobro,--es tu que a terra

No seo vôo equilibras,--quem dos astros

Governas a harmonia, como notas

Acordes, simultaneas, palpitando

Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta,

Quando elle em teo louvor hymnos soltava,

Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio.

Sancto! Sancto! Sancto!--teos prodigios

São grandes, como os astros,--são immensos

Como arêa delgada em quadra estiva.

E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,

E o côro dos prophetas, e dos martyres

A turba eleita--a ti, Senhor, proclamão,

Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.

* * * * *

ADEOS

AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.

Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte

O fulgor da manhã se empurpurece:

É puro e branco o céo,--as ondas mansas,

--Favoravel a brisa;--irei de novo

Sorver o ar purissimo das ondas,

E na vasta amplidão dos céos e mares

De vago imaginar embriagar-me!

Meos Amigos, Adeos!--Verei fulgindo

A lua em campo azul, e o sol no occaso

Tingir de fogo a implacidez das agoas;

Verei horridas trevas lento e lento

Descerem, como um crepe funerario

Em negro esquife, onde repoisa a morte;

Verei a tempestade quando alarga

As negras azas de bulcões, e as vagas

Soberbas encastella, esporeando

O curto bojo de ligeiro barco,

Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido

Galgando os escarceos,--bem larga esteira

De phosphoro e de luz traz si deixando:

Generoso corsel, que sente as cruzes

Agudas de teimosos acicates

Lacerarem-lhe rabidas o ventre.

Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes

De ineffavel prazer--horas bem curtas

De ventura e de paz frui comvosco:

Oasis que encontrei no meo deserto,

Tepido valle entre fragosas serras

Virente derramado, foi a quadra

Da minha vida, que passei comvosco.

Aqui de quanto amei, do que hei soffrido,

De tudo quanto almejo, espero, ou temo

Deslembrado vivi!--Oh! quem me dera

Que entre vós outros me alvejasse a fronte,

E que eu morresse entre vós! Mas força occulta,

Irresistivel, me persegue e impelle.

Qual folha instavel em ventoso estio

Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo;

Assim vou eu sem tino,--aqui pegadas

Mal firmes assentando--além pedaços

De mim mesmo deixando. Na floresta

O lasso viandante extraviado

Por todo o verde bosque estende os olhos,

E cançado esmorece,--cáe, medita,

Respira mais de espaço, cobra alento,

E nas solidões de novo eil-o se entranha.

Vestigios mal seguros sopra o vento,

Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre:

Talvez que folhas asperas de arbusto

Mordão vellos da tunica, e denotem

(Duvída o viajor, que os vê com pasmo)

Que errante caminheiro alli passasse.

E eu parti!--Não chorei, que do meo pranto

A larga fonte jaz de ha muito exhausta;

Ha muito que os meos olhos não gotejão

O repassado fel d’acre amargura;

E o pranto no meo peito represado

Em cinza o coração me ha convertido.

É assim que um vulcão se torna fonte

De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo,

Onde não crescem perfumadas flôres,

Nem tenras aves seos gorgeios soltão,

Nem triste viajor encontra abrigo.

Rasgado o coração de pena acerba,

Transido de afflicções, cheio de magoa,

Miserando parti! tal quando reprobo,

Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas,

Em meio a sua dôr só descobria

Do Archanjo os candidissimos vestidos,

E os lampejos da espada fulminante,

Que o Eden tão mimoso lhe vedava.

Porém quando algum dia o colorido

Das vivas illusões, que inda conservo,

Sem força esmorecer,--e as tão viçosas

Esp’ranças, que eu educo, se afundarem

Em mar de desenganos;--a desgraça

Do naufragio da vida ha de arrojar-me

Á praia tão querida, que ora deixo.

Tal parte o desterrado: um dia as vagas

Hão de os seos restos regeitar na praia,

D’onde tão novo se partira, e onde

Procura a cinza fria achar jazigo.

* * * * *

SEGUNDOS CANTOS.

* * * * *

CONSOLAÇÃO NAS LAGRIMAS.

Las lágrimas puras que entónces se vierten,

Acaso divierten

En vez de doler.

ZORRILLA.

Como é bello á meia noite

O azul do céo transparente,

Quando a esphera d’alva lua

Vagueia mui docemente,

Quando a terra não ruidosa

Toda se cala dormente,

Quando o mar tranquillo e brando

Na areia chora fremente!

Como é bello este silencio

Da terra todo harmonia,

Que aos céos a mente arrebata

Cheia de meiga poesia!

Como é bella a luz que brilha

Do mar na viva ardentia!

Este pranto como é doce

Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda

Que enruga a face do mar,

Que na terra passa e morre

Sem nas folhas susurrar!

Os sons d’aereo instrumento

Quizera agora escutar,

Quizera magoas pungentes

Neste silencio olvidar!

O azul do céo, nem da lua

A doce luz reflectida,

Nem o mar beijando a praia,

Nem a terra adormecida,

Nem meigos sons, nem perfumes,

Nem a brisa mal sentida,

Nem quanto agrada e deleita,

Nem quanto embelleza a vida;

Nada é melhor que este pranto

Em silencio gotejado,

Meigo e doce, e pouco e pouco

Do coração despegado;

Não soro de fel, mas sancto

Frescor em peito chagado;

Não espremido entre dores,

Mas quasi em prazer coado!

* * * * *

CANÇÃO.

Yo no soy mas que un poeta,

Sin otro bien que mi lira.

ZORRILLA.

Tenho uma harpa religiosa,

Toda inteira fabricada

De madeira preciosa

Sobre o Libano cortada.

Foi o Senhor quem m’a deo,

De sanctas palmas coberta,

Que as notas suas concerta

Aos sons do salterio hebreo!

Tenho alaúde polido

Em que antigos Trovadores,

Em tom de guerra atrevido,

Cantavão trovas de amores.

Mas chegando a Sancta Cruz,

De volta do meo desterro,

Cortei-lhe as cordas de ferro,

Cordas de prata lhe puz.

Tenho tão bem uma lyra

De festões engrinaldada,

Onde minha alma afinada

Melindres d’amor suspira.

Nas grinaldas, nos festões,

Nas rosas com que s’inflora,

Goteja o orvalho da aurora

Dictámo dos corações.

Eis o que tenho, ó Donzella,

Só harpa, alaúde e lyra;

Nem vejo sorte mais bella,

Nem coisa que lhe eu prefira.

Votei assim ao meo Deos

A minha harpa religiosa,

A ti a lyra mimosa,

O grave alaúde aos meos!

* * * * *

LYRA.

Coeur sans amour est un jardin sans fleur.

L. HALLEVY.

Se me queres a teos pés ajoelhado,

Ufano de me ver por ti rendido,

Ou já em mudas lagrimas banhado;

Volve, impiedosa,

Volve-me os olhos;

Basta uma vez!

Se me queres de rojo sobre a terra,

Beijando a fimbria dos vestidos teos,

Calando as queixas que meo peito encerra,

Dize-me, ingrata,

Dize-me: eu quero!

Basta uma vez!

Mas se antes folgas de me ouvir na lyra

Louvor singelo dos amores meos,

Por que minha alma ha tanto em vão suspira;

Dize-me, ó bella,

Dize-me: eu te amo!

Basta uma vez!

* * * * *

AGORA E SEMPRE.

Pone me pigris ubi nulla campis

Arbor aestiva recreatur aura,

.........................

Dulce ridentem Lalagen amabo,

Dulce loquentem.

HORACIO. OD.

Ponhão-me embora na crestada Libya,

Ou lá nas zonas em que o gelo mora,

Alli tua alma viverá commigo,

Alli teo nome!

Ponhão-me em terras que leões só crião,

Nas altas serras que o condor habita;

Alli ainda viverá comtigo

Minha alma ardente.

Faminto e triste na região deserta,

Co’os pés em sangue de esfarpada estilha,

Cortado o rosto de gelado vento,

Madida a coma:

Alli aos urros do leão sedento,

Aos crebros gritos do condor alpestre,

Ardendo em chamas deste amor sem termo

Direi: Eu te amo!

Duros ferrolhos de prisão medonha

Escute embora sepultar-me em vida;

Embora sinta roxear-me os pulsos

Ferreas algemas;

Embora malhos de tortura infame

Quebrem-me os ossos no medroso equuleo;

Agudos dentes de tenaz raivosa

Mordão-me as carnes:

Nas feias sombras da cruel masmorra,

Nos duros tratos da tortura bruta,

Quer só commigo, quer em meio ás gentes,

Direi: Eu te amo!

Mas nunca o gelo, nem a fragoa ardente,

Nem brutas feras, nem crueza humana

Farão que eu soffra mais agudas dôres,

Nem mais penadas!

Reclina-se outro em teo nevado seio,

Cinge-te o corpo em divinaes caricias,

Beija-te o collo, beija-te o sorriso,

Goza-te e vive!

E eu no entanto extorso com dores!

Praguejo o inferno que nos poz tão longe,

Louco bravejo, misero soluço...

Desejo e morro!

* * * * *

A VIRGEM.

--Tiene mas de vaporosa sombra,

De inefable vision que de mujer.

ZORRILLA.

Linda virgem simelha a linda rosa,

Que se abre ao romper d’alva;

Encapellão-se as petalas mimosas,

Lacradas de pudor com rubro sello:

Cego mortal só lhe respira o incenso;

Mas della a abelha extrahe seo mel mais puro.

Seo nobre coração é como um templo,

Onde só Deos habita;

Alli reina o misterio involto em sombras,

E maga placidez involta em cantos:

Só vê isto o profano; mas o antiste

De Deos a sombra vê, e a voz lhe escuta.

É como um lago de marmoreo leito

Sua alma ingenua e bella:

No fundo não se enxerga o verde limo,

E a lisa face nos amostra os astros.

E onde o humilde pastor só vê luzeiros,

Os anjos la dos céos contemplão mundos.

E se eu a vejo nos saráos ruidosos,

C’roada de belleza,

E a sombra da tristeza irresistivel

Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso;

Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo,

Que as azas d’oiro, que perdeo, lamenta!

Então como que sinto arrebatar-me,

Sympathica attracção!

Quizera doces carmes de ternura

Nas mais delgadas cordas da minha Harpa

Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos

O acerbo exilio teo torne mais brando!»

Baldado empenho! Começado apenas,

Afrouxa-se-me o canto;

Debaixo dos meos dedos mal palpita

A corda melindrosa da minha Harpa;

E como em espaço, que até d’ar carece,

Tangida, o extremo som morre sem echo!

* * * * *

ROSA NO MAR!

Rosa, rosa de amor purpurea e bella,

Quem entre os goivos te esfolhou da campa!

GARRETT.

Por uma praia arenosa,

Vagarosa

Divagava uma Donzella;

Dá largas ao pensamento,

Brinca o vento

Nos soltos cabellos della.

Leve ruga no semblante

Vem n’um instante,

Que n’outro instante se alisa;

Mais veloz que a sua ideia

Não volteia,

Não gira, não foge a brisa.

No virginal devaneio

Arfa o seio,

Pranto ao riso se mistura;

Doce rir dos céos encanto,

Leve pranto,

Que amargo não é, nem dura.

Nesse logar solitario,

--Seo fadario,--

De ver o mar se recreia;

De o ver, á tarde, dormente,

Docemente

Suspirar na branca areia.

Agora, qual sempre usava,

Divagava

Em seo pensar embebida;

Tinha no seio uma rosa

Melindrosa,

De verde musgo vestida.

Ia a virgem descuidosa,

Quando a rosa

Do seio no chão lhe cahe:

Vem um’onda bonançosa,

Qu’impiedosa

A flôr comsigo retrahe.

A meiga flôr sobrenada;

De agastada,

A virge’ a não quer deixar!

Bóia a flôr; a virgem bella,

Vai trás ella,

Rente, rente--á beiramar.

Vem a onda bonançosa,

Vem a rosa;

Foge a onda, a flôr tão bem.

Se a onda foge, a donzella

Vai sobre ella!

Mas foge, se a onda vem.

Muitas vezes enganada,

De enfadada

Não quer deixar de insistir;

Das vagas menos se espanta,

Nem com tanta

Presteza lhes quer fugir.

N’isto o mar que se encapella

A virgem bella

Recolhe e leva comsigo;

Tão fallaz em calmaria,

Como a fria

Polidez de um falso amigo.

Nas agoas alguns instantes,

Fluctuantes

Nadárão brancos vestidos:

Logo o mar todo bonança,

A praia cança

Com monotonos latidos.

Um doce nome querido

Foi ouvido,

Ia a noite em mais de meia:

Toda a praia perlustrárão,

Nem achárão

Mais que a flôr na branca areia.

* * * * *

O AMOR.

Amare amabam.

S. AGOST.

Amor! enlevo d’alma, arroubo, encanto

Desta existencia misera, onde existes?

Fino sentir ou magico transporte,

(O quer que seja que nos leva a extremos,

Aos quaes não basta a natureza humana;)

Sympathica attracção d’almas sinceras

Que unidas pelo amor, no amor se apurão,

Por quem suspiro, serás nome apenas?

A inutil chamma reseccou meos labios,

Mirrou-me o coração da vida em meio,

E á terra fez baixar a mente errada

Que entre nuvens, amor, por ti bradava!

Não te pude encontrar!--em vão meos annos

No louco intento esperdicei; gelados,

Uns após outros á cahir precipites

Na urna do passado os vi; eu triste,

Amor, por ti clamava;--e o meo deserto

Aos meos accentos reboava embalde.

Em vão meo coração por ti se fina,

Em vão minha alma te compr’hende e busca,

Em vão meos labios sofregos cubição

Libar a taça que aos mortaes off’reces!

Dizem-na funda, inexgotavel, meiga;

Em quanto a vejo rasa, amarga e dura!

Dizem-na balsamo, eu veneno a sorvo:

Prazer, doçura,--eu dôr e fel encontro!

Dobrei-me ás duras leis que me impozeste,

Curvei ao jugo teo meo collo humilde,

Feri-me aos teos ardentes passadores,

Prendi-me aos teos grilhões, rojei por terra...

E o lucro?... forão lagrimas perdidas,

Foi roxa cicatriz qu’inda conservo,

Desbotada a illusão e a vida exhausta!

Celeste emanação, gratos effluvios

Das roseiras do céo; bater macio

Das azas auri-brancas d’algum anjo,

Que roça em noite amiga a nossa esphera,

Centelha e luz do sol que nunca morre;

Es tudo, e mais do qu’isto:--es luz e vida,

Perfume, e vôo d’anjo mal sentido,

Peregrinas essencias trescalando!...

Tão bem passas veloz,--breve te apagas,

Como d’uma ave a sombra fugitiva,

Desgarrada voando á flôr de um lago!

* * * * *

SEMPRE ELLA.

Per noctem quaesivi, quam diligit

anima mea, et non inveni illam.

CANT. CANT.

Eu amo a doce virgem pensativa,

Em cujo rosto a pallidez se pinta,

Como nos céos a matutina estrella!

A dôr lhe ha desbotado a côr das faces,

E o sorriso que lhe roça os labios

Murcha ledo sorrir nos labios d’outrem.

Tem um timbre de voz que n’alma echôa,

Tem expressões d’angelica doçura,

E a mente do que as ouve, se perfuma

De amor profundo e de piedade sancta,

E exala effluvios d’um odor suave

De aloes, de myrrha ou de mais grato incenso.

E nessas horas, quando a mente afflicta,

De dôr occulta remordida, anceia

Desabrochar-se em confidencia amiga,

«Neste mundo o que sou?--triste clamava;

«Pérsica involta em pó, entre ruinas,

«Erma e sosinha a resolver-me em pranto!

«Flôr desbotada em hastea já roída,

«De cujo tronco as outras amarellas

«Já rójão sobre o pó, já murchas pendem!

«É sentir e soffrer a minha vida!»

Merencoria dizia, erguendo os olhos

Aos céos d’um claro azul, que lhes sorrião.

Náda o mudo alcyon por sobre os mares,

E proximo a seo fim desata o canto;

A rosa do Sarão lá se despenha

Nas agoas do Jordão: e como a rosa,

Como o cysne, do mar entre os perfumes,

Aos sons d’uma Harpa interna ella morria!

E como o pastor que avista a linda rosa

Nas agoas da corrente, e como o nauta

Que vê, que escuta o cysne ir-se embalado

Sobre as agoas do mar, cantando a morte;

Eu tambem a segui--a rosa, o cysne,

Que lá se foi sumir clima estranho.

E depois que os meos olhos a perdérão,

Como se perde a estrella em céos infindos,

Errei por sobre as ondas do oceano,

Sentei-me a sombra das florestas virgens,

Procurando apagar a imagem della,

Que tão inteira me ficára n’alma!

Embalde aos céos erguendo os olhos turvos

Meo astro procurei entre os mais astros,

Qu’outr’ora amiga sina me fadára!

Com brilho embaciado e luz incerta

Nos ares se perdeo antes do occaso,

Deixando me sem norte em mar d’angustias.

* * * * *

MIMOSA E BELLA. N’UM ALBUM.

De anno em anno se torna mais formosa,

E novo brilho, novas graças cria.

CALDAS.

I.

Tão bella es, tão mimosa,

Qual viçosa

Fresca rosa,

Que em serena madrugada,

Despontada,

Rorejada

Foi pelo orvalho do céo;

E a aurora que tudo esmalta,

Brilha reflexos de prata

No orvalho que alli prendeo.

II.

Quando um penar afflictivo,

Sem motivo,

D’improviso

Tua alma occupa e entristece,

Que padece,

Que esmorece

Com aquelle imaginar;

Augmenta a tua belleza

Languido véo de tristeza,

Pallor de quem sabe amar.

III.

Assim murcha a sensitiva,

Sempre viva,

Sempre esquiva;

Assim perde o colorido

Por um toque irreflectido,

Mal sentido:

Assim vai o nenuphar,

Como que soffre e tem magoas,

Esconder-se em fundas agoas,

Té que o sol torne a brilhar.

IV.

Mas tão bem a flôr brincada,

Perfumada,

Debruçada

Sobre a tranquilla corrente;

Logo sente

Vir a enchente

Longe, longe a rouquejar,

Que a pobrezinha desfolha,

Sem lhe deixar uma folha,

Sem deixal-a em seo logar.

V.

Não consintas pois que as magoas,

Como as agoas,

Que das fragas

Furiosas vem tombando,

Vão tomando,

Vão levando

A flôr do teu coração!

Ha na vida u’ amor somente,

Um só amor innocente,

Uma só firme paixão.

VI.

Sê antes flôr bemfadada,

Suspirada,

Bafejada

Pela brisa que a namora,

Pela frescura da aurora,

Que a colora:

Á luz do sol se recreia,

E de noite se retrata

Da fonte na lisa prata,

Quando o céo de luz se arreia.

* * * * *

AS DUAS AMIGAS.

....... Vivamos juntas

N’um só logar!

N’um só logar, ou sejão mansos ares,

Se alli te exaltas;

Ou sejão campos, se é alli que a relva

De pranto esmaltas.

V. HUGO. TRAD.

Já vistes sobre a flôr de manso lago

Duas aves brincando solitarias,

Já pousadas na lisa superficie,

Já levantando o vôo?

Já vistes duas nuvens no horisonte,

Brancas, orladas com listões de fogo,

A deslumbrante alvura cambiando

Ao pôr de sol estivo?

Já vistes duas lindas mariposas,

Abrindo ao romper d’alva as longas azas,

Onde reflecte o sol, como um prisma,

Bellas, garridas côres?

Nem as pombas que vagão solitarias,

Nem as nuvens do occaso, nem as vagas

Borboletas gentis que adejão livres

Em valle ajardinado;

Tanto não prazem, como doces virgens,

Airosas, bellas, com sorrir singelo,

Da vida negra e má duros abrólhos

Impróvidas calcando.

Quanto ha no mundo d’illusões fagueiras,

De perfume e de amor, guardão no peito,

Quanto ha de luz no céo mostrão nos olhos,

Quanto ha de bello--n’alma.

Como um jardim seo coração se mostra,

Seos olhos como um lago transparente,

Sua alma como uma harpa harmoniosa,

Seu peito como um templo!

Mas um fraco arruido espanta as aves,

Uma brisa ligeira as nuvens rasga,

E uma gota de orvalho ensopa as azas

Das leves mariposas.

Desgarradas voando as aves fogem,

Dos castellos dos céos perdem-se as nuvens,

Nem mais adejão borboletas vagas

Sobre o esmalte das flôres.

Pois quem resiste ao perpassar do tempo?

Depois que derramou grato perfume

Sobre as azas dos ventos que a bafejão,

A flôr tambem definha.

Mas um nobre sentir que se enraiza

No peito da mulher, que menos ame,

É como essencia preciosa e grata,

Que se lacrou n’um vaso.

Repassa-o: depois embora o esgotem;

Leves emanações, gratos effluvios

Ha de eterno verter da mesma essencia,

Talvez porêm mais doces.

* * * * *

SONHO.

Ah! frown not, sweet lady, unbend your soft brow

Nor deem me too happy in this!

If I sin in my dream, I atone for it now,

Thus doom’d but to gaze upon bliss.

BYRON.

Sonhava esta noite, Donzella formosa,

Já quando as estrellas tombavão no mar,

Que eu via a meu lado uma esbelta figura

Divina e mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Divina e mimosa, co’um véo se cobria

D’estrellas fulgentes de brilho sem par;

O rosto era vosso, era vossa a estatura,

E o anjo dizia....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E o anjo dizia co’um geito celeste:

«Affectos que em outro não pude encontrar

«Por fim me rendérão,--paixão lisa e pura.»

Que tanto soffreste...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

«Pois tanto soffreste, não devo impiedosa

«Fineza tão grande por fim mal pagar!»

Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura,

E uns labios de rosa...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

E uns labios de rosa cobrirem-me a fronte

Com tepidos beijos de férvido amar!

Prazer tão subido após tanta amargura.

Não sei como o conte!...

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Não sei como o conte!--nos labios de rosa

Vivi encantado sem ver, nem pensar,

Em quanto apertava a ligeira cintura,

Cintura mimosa....

Sonhar é ventura;

Deixai-me sonhar!

Cintura mimosa!--depois vos tecia

Grinalda que a fronte vos fosse adornar,

E um cinto de amores com bróche esmaltado

De meiga poesia!...

Quem tão bem fadado

Vivera a sonhar!

De meiga poesia, meo bem, minha amada,

Já pago de quanto me fazeis penar,

Então vos tangia descantes na lyra,

Na lyra afinada!

O sonho é mentira;

Não quero sonhar!

* * * * *

SOLIDÃO.

Solo e pensoso i più deserti campi

Vo misurando a passi tardi e lenti

E gli occhi porto per fuggire intenti

Ove vestigio human l’arena stampi.

PETRARCA. _Sonetti._

Se queres saber o meio

Por que as vezes me arrebata

Nas azas do pensamento

A poesia tão grata;

Por que vejo nos meos sonhos

Tantos anginhos dos céos;

Vem commigo, ó doce amada,

Que eu te direi os caminhos,

Donde se enxérgão anginhos,

Donde se trata com Deos.

Fujamos longe das villas,

Das cidades populosas,

Do vegetar entre as vagas

Destas côrtes enganosas;

Fujamos longe, bem longe,

Deste viver cortesão!

Fujamos desta impureza,

Só vês cordura por fóra;

Mas nunca o vicio que mora

Nas dobras do coração!

Fujamos! que nos importa

Rodar do carro que passa,

Esta orgulhosa vã gloria,

Que se resolve em fumaça?

Estas vozes, estes gritos,

Este viver a mentir?

Fujamos, que em taes logares

Não ha prazer innocente,

Só alegria que mente,

Só labios que sabem rir!

Fujamos para o deserto;

Vivamos alli sosinhos,

Sosinhos, mas descuidados

Destes cuidados mesquinhos;

Tu o azul do espaço olhando

E eu só a rever-me em ti!

Quando depois nos tomarmos

Á terra serena e calma,

Aqui acharei tua alma,

E tu me acharás aqui.

Ou corramos o oceano

Que d’immenso a vista cança;

Dormirei no teu regaço

Quando o tempo for bonança,

Quando o batel for jogando

Em leve ondular sem fim.

Mas nos roncos da procella,

Nossos olhos encontrados,

Nossos braços enlaçados,

Hei de cantar-te, inda assim!

Ou se mais te praz, zombemos

Das setas que arroja a sorte;

Vivamos nas minhas selvas,

Nas minhas selvas do norte,

Que gemem nenias sentidas

No seio da escuridão.

Não tem doçura o deserto,

Não têm harmonia os mares,

Como o rugir dos palmares

No correr da viração!

Tu verás como a luz brinca

Nas folhas de côr sombria;

Como o sol, pintor mimoso,

Seos accidentes varia;

Como é doce o romper d’alva,

Como é fagueiro o luar!

Como alli sente-se a vida

Melhor, mais viva, mais pura,

N’aquella eterna verdura,

N’aquelle eterno gozar!

Vem commigo, oh! vem depressa,

Não se esgota a natureza;

Mas desbota-se a innocencia,

Divina e sancta pureza,

Que dá vida aos objectos,

Feituras da mão de Deos!

Vem commigo, ó doce amada,

Que são estes os caminhos,

Donde eu enxergo os anginhos,

Que tu vês nos sonhos meus.

* * * * *

A UM POETA EXILADO.

Il accuse et son siècle, et ses chants, et sa lyre,

Et la coupe enivrante où, trompant son délire,

La gloire verse tant de fiel,

Et ses voeux, poursuivant des promesses funestes,

Et son coeur, et la Muse, et tous ces dons célestes,

Hélas! qui ne sont pas le ciel!

V. HUGO.

Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho,

Vi novos valles, novas serranias,

Vi novos astros sobre mim luzindo;

E eu só! e eu triste!

Cantos · 第 5 / 17 段