E renderão-se emfim, mas de famintos,

De sequiosos;

Valentes lidadores forão elles,

Se não briosos.

VI.

E o exercito contrario entra rugindo

Na villa, que as suas portas lhe franqueia:

Rasteiro corre o incendio e surdamente

O custoso edificio ataca e mina.

Eis que a chamma roaz amostra as fendas

Das portas que se abrasão; descortina

O torvo olhar do vencedor--apenas--

Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!

Urros de frenesi, de dôr, de raiva

Escutão dos que, ás subitas colhidos,

Contra os muros em brasa se arremeção;

Dos que, perdido o tino, intentão loucos

Achar a salvação, e a morte encontrão.

Lá dentro confusão, silencio fóra!

São carrascos aqui, victimas dentro.

Geme o travejamento, estrala a pedra,

Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,

E o fumo ennegrecido se ennovella

Co’o vertice sublime os céos roçando.

Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,

Como ignea columna que da terra

Hiante rebentasse,--tal se eleva,

Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce

A labareda portentosa; e baixa,

E desce á terra, e o edificio enrola,

E o sorve inteiro, qual se forão vagas

Que a dura rocha do alicerce abalão,

Que a enlação, como a prêa,--e ao fundo pégo

Levão, deixando o mar branco d’espuma.

No horror da noite, sibilando os ventos,

Lingoas pyramidaes do atroz incendio,

Fumosas pelas ruas estalando,

Tingem da côr do inferno a côr da noite,

Tingem da côr do sangue a côr do inferno!

--O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão,

Os que a peste engeitou,

Que fome e sede e privações soffrerão...

A espada decepou.

E a donzella tremeo, da mãi nos braços

Não salva ainda,

Que incitava os prazeres do soldado

A face linda.

E o fido amante, que de a ver tão bella

Sentio prazer,

Sente martyrios por que a vê formosa

No seo morrer.

Coisa alguma escapou!--Já tudo é cinzas,

Tudo destruição:

A columna, o palacio, a casa, o templo,

O templo da oração!

Meninos, homens e mulheres,--todos

Já rojão sobre o pó;

Mas o Deos, o Deos bom já está vingado,

Por ella já sente dó.

E a villa d’outr’ora mais ruidosa,

Lá resurgio cidade;

Por que o Deos da justiça, o das armadas,

O Deos é de bondade.

* * * * *

QUADRAS DA MINHA VIDA.

RECORDAÇÃO E DESEJO.

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti

Poca gioia ha dell’urna.

FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão do sol brilhante,

E do negro véo da noite,

E da aurora scintillante.

Gostavão da branca nuvem

Em céo de azul espraiada,

Do terno gemer da fonte

Sobre pedras despenhada.

Gostavão das vivas côres

De bella flôr vicejante,

E da voz immensa e forte

Do verde bosque ondeante.

Inteira a natureza me sorria!

A luz brilhante, o susurrar da brisa,

O verde bosque, o rosicler d’aurora,

Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,

D’esperança e d’amor minha alma ardente,

De luz e de calor meu peito enchião.

Inteira a natureza parecia

Meos mais fundos, mais intimos desejos

Perscrutar e cumprir;--almo sorriso

Parecia enfeitar co’os seos encantos,

Com todo o seo amor compor, doiral-o,

Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,

Porque minha alma de o sentir folgasse.

Oh! quadra tão feliz!--Se ouvia a brisa

Nas folhas susurrando, o som das agoas,

Dos bosques o rugir;--se os desejava,

--O bosque, a brisa, a folha, o trepidante

Das agoas murmurar prestes ouvia.

Se o sol doirava os céos, se a lua casta,

Se as timidas estrellas scintillavão,

Se a flôr desabrochava involta em musgo,

--Era a flôr que eu amava,--erão estrellas

Meos amores sómente, o sol brilhante,

A lua merencoria--os meos amores!

Oh! quadra tão feliz!--doce harmonia,

Acordo extreme de vontade e força,

Que atava minha vida á natureza!

Ella era para mim bem como a esposa

Recem-casada, pudica sorrindo;

Alma de noiva--coração de virgem,

Que a minha vida inteira abrilhantava!

Quando um desejo me brotava n’alma.

Ella o desejo meo satisfazia;

E o quer que ella fizesse ou me dissesse,

Esse era o meo desejo, essa a voz minha,

Esse era o meo sentir do fundo d’alma,

Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa,

Ou a brisa perfumada,

Ou o som d’amiga fonte

Sobre pedras despenhada?

Que me importa a voz confusa

Do bosque verde-frondoso.

Que m’importa a branca lua,

Que m’importa o sol formoso?

Que m’importa a nova aurora,

Quando se pinta no céo;

Que m’importa a feia noite,

Quando desdobra o seo véo?

Estas scenas, que amei, já me não causão

Nem dôr e nem prazer!--Indifferente,

Minha alma um só desejo não concebe,

Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde

Do meo imaginar as puras azas

Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,

Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?

Perante a creação tão vasta e bella

Minha alma é como a flôr que pende murcha;

E qual profundo abysmo:--embalde estrellas

Brilhão no azul dos céos, embalde a noite

Estende sobre a terra o negro manto:

Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,

Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;

Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,

Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos

Se extasiavão de ver

Agil donzella formosa

Por entre flôres correr.

Gostavão de um gesto brando,

Que revelasse pudor;

Gostavão de uns olhos negros,

Que rutilassem de amor.

E gostavão meus ouvidos

De uma voz--toda harmonia,--

Quer pesares exprimisse,

Quer exprimisse alegria.

Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem

Indolente ou fugaz--alegre ou triste,

Da vida a estreita senda desflorando

Com pé ligeiro e animo tranquillo;

Improvida e brilhante parecendo

Seos dias desfolhar, uns após outros,

Como folhas de rosa;--e no futuro--

Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.

Era deleite e dôr vê-la tão leda

Do mundo as afflicções, angustias, prantos

Affrontar co’um sorriso; era um descanso

Interno e fundo, que sentia a mente,

Um quadro em que os meos olhos repousavão,

Ver tanta formosura e tal pureza

Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão de lindo infante,

Com a candura e sorriso

Que adorna infantil semblante.

Gostavão do grave aspecto

De magestoso ancião,

Tendo nos labios conselhos,

Tendo amor no coração.

Um representa a innocencia,

Outro a verdade sem véo;

Ambos tão puros, tão graves,

Ambos tão perto do céo!

Infante e velho!--principio e fim da vida!--

Um entra neste mundo, outro sae delle,

Gozando ambos da aurora;--um sobre a terra,

E o outro lá nos céos.--O Deos, que é grande,

Do pobre velho compensando as dôres,

O chama para si; o Deos clemente

Sobre a innocencia de continuo vela.

Amei do velho o magestoso aspecto,

Amei o infante que não tem segredos,

Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.

Amei as doces vozes da innocencia,

A rispida franqueza amei do velho,

E as rigidas verdades mal sabidas.

Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel

Eu julguei no mundo achar

Dois amigos extremosos,

Dois irmãos do meu pensar;

Amigos que compr’hendessem

Meo prazer e minha dôr,

Dos meos labios o sorriso,

Da minha alma o dissabor;

Amigos, cuja existencia

Vivesse eu co’o meo viver:

Unidos sempre na vida,

Unidos--té no morrer.

Amizade!--união, virtude, encanto--

Consorcio do querer, de força e d’alma--

Dos grandes sentimentos cá da terra

Talvez o mais reciproco, o mais fundo!

Quem ha que diga: Eu sou feliz!--se acaso

Um amigo lhe falta?--um doce amigo,

Que sinta o seo prazer como elle o sente,

Que soffra a sua dôr como elle a soffre?

Quando a ventura lhes sorri na vida,

Um a par d’outro--ei-los lá vão felizes;

Quando um sente afflicção, nos braços do outro

A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,

Encontra doce alivio o desditoso

No thesouro que encerra um peito amigo.

Candido par de cysnes, vão roçando

A face azul do mar co’as niveas azas

Em deleite amoroso;--acalentados

Pelo sereno espreguiçar das ondas,

Aspirando perfumes mal sentidos,

Por vesperina arajem bafejados,

É jogo o seo viver;--porém se o vento

No frondoso arvoredo ruge ao longe,

Se o mar, batendo irado as ermas praias,

Crusadas vagas em novello enrola,

Com grito de terror o par candente

Sacode as niveas azas, bate-as,--fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia

Uma mulher ao meo Deos,

Uma mulher que eu amasse,

Um dos bellos anjos seos.

Em que eu a Deos só pedia

Com fervorosa oração

Um amor sincero e fundo,

Um amor do coração.

Qu’eu sentisse um peito amante

Contra o meu peito bater,

Sómente um dia ... sómente!

E depois delle morrer.

Amei! e o meo amor foi vida insana!

Um ardente anhelar, cauterio vivo,

Posto no coração, a remorde-lo.

Não tinha uma harmonia a natureza

Comparada a sua voz; não tinha côres

Formosas como as della,--nem perfumes

Como esse puro odor qu’ella esparzia

D’angelica dureza.--Meos ouvidos

O feiticeiro som dos meigos labios

Ouvião com prazer; meos olhos vagos

De a ver não se cansavão; labios d’homens

Não poderão dizer como eu a amava!

E achei que o amor mentia, e que o meo anjo

Era apenas mulher! chorei! deixei-a!

E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,

A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,

Bem longe quando eu perto os carecia.

Conclui que a amizade era um phantasma,

Na velhice prudente--habito apenas,

No joven--doudejar; em mim lembrança;

Lembrança!--porém tal que a não trocára

Pelos gozos da terra,--meos prazeres

Forão só meos amigos,--meos amores

Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia

Grave e solemne afflicção,

Quando ouvia junto ao morto

Cantar-se a triste oração.

Quando ouvia o sino escuro

Em sons pesados dobrar,

E os cantos do sacerdote

Erguidos junto do altar.

Quando via sobre um corpo

A fria lousa cahir;

Silencio debaixo della,

Sonhos talvez--e dormir.

Feliz quem dorme sob a lousa amiga,

Tepida talvez com o pranto amargo

Dos olhos da afflicção;--se os mortos sentem,

Ou se almas tem amor aos seos despojos,

Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,

E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,

Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,

Que chorão sobre a campa, onde já brota

O denso musgo, e já desponta a relva.

Lagem fria dos mortos! quem me dera

Gozar do teo descanço, ir asilar-me

Sob o teo sancto horror, e nessas trevas

Do bulicio do mundo ir esconder-me!

Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse

No teo silencio fundo asilo eterno!

Ahi não pulsa o coração, nem sente

Martyrios de viver quem já não vive.

* * * * *

HYMNOS.

Singe dem Herrn mein Lied, und du, begeisterte Seele,

Werde ganz Jubel dem Gott, den alle Wesen bekennen!

WIELAND.

MESQUINHO TRIBUTO DE PROFUNDA AMIZADE

AO DR. J. D. LISBOA SERRA.

* * * * *

O MAR.

Frappé de ta grandeur farouche

Je tremble ... est-ce bien toi, vieux lion que je touche,

Océan, terrible océan!

TURQUETY.

Oceano terrivel, mar immenso

De vagas procellosas que se enrolão

Floridas rebentando em branca espuma

N’um pólo e n’outro pólo,

Emfim ... emfim te vejo; emfim meos olhos

Na indomita cerviz tremulos cravo,

E esse rugido teo sanhudo e forte

Emfim medroso escuto!

D’onde houveste, ó pelago revolto,

Esse rugido teo? Em vão dos ventos

Corre o insano pegão lascando os troncos,

E do profundo abysmo

Chamando á superficie infindas vagas,

Que avaro encerras no teo seio undoso;

Ao insano rugir dos ventos bravos

Sobresáe teo rugido.

Em vão troveja horrisona tormenta;

Essa voz do trovão, que os céos abala,

Não cobre a tua voz.--Ah! d’onde a houveste,

Magestoso oceano?

Ó mar, o teo rugido é um echo incerto

Da creadora voz, de que surgiste:

Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas

As vagas compelliste.

E á noite, quando o céo é puro e limpo,

Teo chão tinges de azul,--tuas ondas correm

Por sobre estrellas mil; turvão-se os olhos

Entre dois céos brilhantes.

Da voz de Jehovah um echo incerto

Julgo ser teo rugir; mas só, perenne,

Imagem do infinito, retratando

As feituras de Deos.

Por isto, a sós comtigo, a mente livre

Se eleva, aos céos remonta ardente, altiva,

E d’este lodo terreal se apura,

Bem como o bronze ao fogo.

Férvida a Musa, co’os teos sons casada,

Glorifica o Senhor de sobre os astros

Co’a fronte além dos céos, além das nuvens,

E co’os pés sobre ti.

O que ha mais forte do que tu? Se erriças

A coma perigosa, a náo possante,

Extremo de artificio, em breve tempo

Se afunda e se anniquila.

Es poderoso sem rival na terra;

Mas lá te vás quebrar n’um grão d’areia,

Tão forte contra os homens, tão sem força

Contra coisa tão fraca!

Mas n’esse instante que me está marcado,

Em que hei de esta prisão fugir p’ra sempre,

Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue

Teo sonoro rugido.

Então mais forte do que tu, minha alma,

Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo,

Quebrará n’um relance o circl’o estreito

Do finito e dos céos!

Então, entre myriadas de estrellas,

Cantando hymnos d’amor nas harpas d’anjos,

Mais forte soará que as tuas vagas,

Mordendo a fulva areia;

Inda mais doce que o singelo canto

De merencoria virgem, quando a noite

Occupa a terra,--e do que a mansa brisa,

Que entre flôres suspira.

* * * * *

IDEIA DE DEOS.

Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl

Sind seine Wohnungen!

Seine Wagen die donnernden Gewölke,

Und Blitze sein Gespann.

KLEIST.

I.

Á voz de Jehovah infindos mundos

Se formárão do nada;

Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia,

E a noite foi creada.

Luzio no espaço a lua! sobre a terra

Rouqueja o mar raivoso,

E as espheras nos céos erguerão hymnos

Ao Deos prodigioso.

Hymno de amor a creação, que sôa

Eternal, incessante,

Da noite no remanso, no ruido

Do dia scintillante!

A morte, as afflicções, o espaço, o tempo,

O que é para o Senhor?

Eterno, immenso, que lh’importa a sanha

Do tempo roedor?

Como um raio de luz, percorre o espaço,

E tudo nota e vê--

O argueiro, os mundos, o universo, o justo;

E o homem que não crê.

E elle que póde anniquilar os mundos,

Tão forte como elle é,

E vê e passa, e não castiga o crime,

Nem o impio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro

O Nome seo maldiz,

Quando só vive de vingança e roubos,

Julgando-se feliz;

Quando o impio commanda, quando o justo

Soffre as penas do mal,

E as virgens sem pudor, e as mães sem honra,

E a justiça venal;

Ai da perversa, da nação maldicta,

Cheia de ingratidão,

Que ha de ella mesma sugeitar seo collo

Á justa punição.

Ou já terrivel peste expande as azas,

Bem lenta a esvoaçar;

Vai de uns a outros, dos festins conviva,

Hospede em todo o lar!

Ou já torvo rugir da guerra accesa

Espalha a confusão;

E a esposa, e a filha, de terror oppressa,

Não sente o coração.

E o pae, e o esposo, no morrer cruento,

Vomita o fel raivoso;

--Milhões de insectos vis que um pé gigante

Enterra em chão lodoso.

E do povo corrupto um povo nasce

Esperançoso e crente,

Como do podre e carunchoso tronco

Hastea forte e virente.

II.

Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos

Equilibra nos ares;

Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras

Do pelago fremente,

A cujo sopro a maquina estrellada

Vacilla nos seos eixos,

A cujo aceno os cherubins se movem

Humildes, respeitosos,

Cujo poder, que é sem igual, excede

A hyperbole arrojada!

Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos,

O Senhor dos prodigios.

III.

Elle mandou que o sol fosse principio,

E razão de existencia,

Que fosse a luz dos homens--olho eterno

Da sua providencia.

Mandou que a chuva refrescasse os membros,

Refizesse o vigor

Da terra hiante, do animal cançado

Em praino abrasador.

Mandou que a brisa susurrasse amiga,

Roubando aroma á flôr;

Que os rochedos tivessem longa vida,

E os homens grato amor!

Oh! como é grande e bom o Deos que manda

Um sonho ao desgraçado,

Que vive agro viver entre miserias,

De ferros rodeado;

O Deos que manda ao infeliz que espere

Na sua providencia;

Que o justo durma, descançado e forte

Na sua consciencia!

Que o assassino de continuo vele,

Que trema de morrer;

Em quanto lá nos céos, o que foi morto,

Desfructa outro viver!

Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege

A maquina estrellada,

Que ao triste dá prazer; descanço e vida

Á mente atribulada!

* * * * *

O ROMPER D’ALVA.

Quand ta corde n’aurait qu’un son,

Harpa fidèle, chante encore

Le Dieu que ma jeunesse adore,

Car c’est un hymne que son nom.

LAMARTINE.

Do vento o rijo sopro as mansas ondas

Varreo do immenso pego,--e o mar rugindo

Ás nuvens se elevou com furia insana;

Ennovelladas vagas se arrojárão

Ao céo co’a branca espuma!

Raivando em vão se encontrão soluçando

Na base d’erma rocha descalvada;

Em vão de furias crescem, que se quebra

A força enorme do impotente orgulho

Na rocha altiva ou na arenosa praia.

Da tormenta o furor lhe accende os brios,

Da tormenta o furor lh’enfreia as iras,

Que em teimosos gemidos se descerrão;

Da quieta noite despertando os echos

Além, no valle humilde, onde não chega

Seo sanhudo gemer, que o dia abafa.

Mas a brisa susurrando

A face do céo varreo,

Tristes nuvens espalhando,

Que a noite em ondas verteo.

Além, atraz da montanha,

Branda luz se patenteia,

Que d’alma a dôr afugenta,

Se dentro sentida anceia.

Branda luz, que afaga a vista,

De que se ama o céo tingir,

Quando entre o azul transparente

Parece alegre sorrir;

Como es linda!--Como dobras

Da vida a força e do amor!

--Que tão bem luz dentro d’alma

Teo luzir encantador!

No teo ameno silencio

A tormenta se perdeo,

E do mar a forte vida

Nos abysmos se escondeo!

Porque assim de novo agora

Que o vento o não vem toldar,

Parece que vai queixoso

Mansamente a soluçar?

Porque as ramas do arvoredo,

Bem como as ondas do mar,

Sem correr sopro de vento,

Começão de murmurar?

Sobre o tapiz d’alta relva,

--Rocio da madrugada--

Destilla gotas de orvalho

A verde folha inclinada.

Renascida a natureza

Parece sentir amor;

Mais brilhante, mais viçosa

O calix levanta a flôr.

Por entre as ramas occultas,

Docemente a gorgear,

Acordão trinando as aves,

Alegres, no seo trinar.

O arvoredo n’essa lingoa

Que diz, porque assim susurra?

Que diz o cantar das aves?

Que diz o mar que murmura?

--Dizem um nome sublime,

O nome do que é Senhor,

Um nome que os anjos dizem,

O nome do Creador.

Tão bem eu, Senhor, direi

Teo nome--do coração,

E ajuntarei o meo hymno

Ao hymno da creação.

Quando a dôr meo peito acanha,

Quando me rala a afflicção,

Quando nem tenho na terra

Mesquinha consolação;

Tu, Senhor, do peso insano

Livras meo peito arquejante,

Seccas-me o pranto que os olhos

Vertendo estão abundante.

Tu pacificas minha alma,

Quando se rasga com pena,

Como a noite que se esconde

Na luz da manhã serena.

Tu es a luz do universo,

Tu es o ser creador,

Tu es o amor, es a vida,

Tu es meo Deos, meo Senhor.

Direi nas sombras da noite,

Direi ao romper da aurora:

--Tu es o Deos do universo,

O Deos que minha alma adora.

Tão bem eu, Senhor, direi

Teo nome--do coração,

E ajuntarei o meo hymno

Ao hymno da creação.

* * * * *

A TARDE.

Ave Maria! blessed be the hour!

The time, the clime, the spot where I so oft

Have felt that moment in its fullest power

Sink o’er the earth so beautiful and soft....

BYRON.

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores,

Mãe da meditação, meo doce encanto!

Os rogos da minha alma emfim ouviste,

E grato refrigerio vens trazer-lhe

No teo remansear prenhe de enlevos!

Em quanto de te ver gostão meos olhos,

Em quanto sinto a minha voz nos labios,

Em quanto a morte me não rouba á vida,

Um hymno em teo louvor minha alma exhale,

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!

I.

É bella a noite, quando grave estende

Sobre a terra dormente o negro manto

De brilhantes estrellas recamado;

Mas nessa escuridão, nesse silencio

Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel

Que espanta e desespera e geme n’alma;

Um quê de triste que nos lembra a morte!

No romper d’alva ha tanto amor, tal vida,

Ha tantas côres, brilhantismo e pompa,

Que fascina, que attrahe, que a amar convida;

Não pode supportal-a homem que soffre,

Orfãos de coração não podem vel-a.

Só tu, feliz, só tu, a todos prendes!

A mente, o coração, sentidos, olhos,

A ledice e a dôr, o pranto e o riso,

Folgão de te avistar;--são teos,--es d’elles.

Homem que sente dôr folga comtigo,

Homem que tem prazer folga de ver-te!

Comtigo sympathisão, porque es bella,

Qu’es mãe de merencorios pensamentos,

Entre os céos e a terra extasis doce,

Entre dôr e prazer celeste arroubo.

II.

A brisa que murmura na folhagem,

As aves que pipitão docemente,

A estrella que desponta, que rutila,

Com duvidosa luz ferindo os mares,

O sol que vai nas agoas sepultar-se

Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro;

Perfumes, murmurar, vapores, brisa,

Estrellas, céos e mar, e sol e terra,

Tudo existe comtigo, e tu es tudo.

III.

Homem que vive agro viver de côrte,

Indifferente olhar derrama a custo

Sobre os fulgores teos;--homem do mundo

Mal pode o desbotado pensamento

Revolver sobre o pó; mas nunca, oh nunca!

Ha de elevar-se a Deos, e nunca ha de elle

Na abobada celeste ir pendurar-se,

Como de rosea flôr pendente abelha.

Homem da natureza, esse contemple

De purpura tingir a luz que morre

As nuvens lá no occaso vacillantes!

Ha de vida melhor sentir no peito,

Sentir doce prazer sorrir-lhe n’alma,

E fonte de ternura inexgotavel

Do fundo coração brotar-lhe em ondas.

Hora do pôr do sol!--hora fagueira,

Qu’encerras tanto amor, tristeza tanta!

Quem ha que de te ver não sinta enlevos,

Quem ha na terra que não sinta as fibras

Todas do coração pulsar-lhe amigas,

Quando d’esse teo manto as pardas franjas

Sóltas, roçando a habitação dos homens?

Ha hi prazer tamanho que embriaga,

Ha hi prazer tão puro, que parece

Haver anjos dos céos com seos acordes

A misera existencia acalentado!

IV.

Socia do forasteiro, tu, saudade,

N’esta hora os teos espinhos mais pungentes

Cravas no coração do que anda errante.

Só elle, o peregrino, onde acolher-se,

Não tem tugurio seo, nem pae, nem ’sposa,

Ninguem que o espere com sorrir nos labios

E paz no coração,--ninguem que extranhe,

Que anceie afflicto de o não ver comsigo!

Cravas então, saudade, os teos espinhos;

E elles, tão pungentes, tão agudos,

Varando o coração de um lado a outro,

Nem trazem dôr, nem desespero incitão;

Mas remanso de dôr, mas um suave

Recordar do passado,--um quê de triste

Que ri ao coração, chamando aos olhos,

Tão espontaneo, tio fagueiro pranto,

Que não fora prazer não derramal-o.

E quem--ah tão feliz!--quem peregrino

Sobre a terra não foi? Quem sempre ha visto

Sereno e brando deslisar-se o fumo

Sobre o tecto dos seos; e sobre os cumes

Que os seos olhos hão visto á luz primeira

Crescer branca neblina que se enrola,

Como incenso que aos céos a terra envia?

Tão feliz! quando a morte involta em pranto

Com gelado suor lh’enerva os membros,

Procura inda outra mão co’a mão sem vida,

E o extremo scintillar dos olhos baços,

De um ente amado procurando os olhos,

Sem prazer, mas sem dôr, alli se apaga.

O exilado! esse não; tão só na vida,

Como no passamento ermo e sosinho,

Sente dôres crueis, torvos pezares

Do leito afflicto esvoaçar-lhe em torno,

Roçar-lhe o frio, o pallido semblante,

E o instante derradeiro amargurar-lhe.

Porém, no meo passar da vida á morte,

Possa co’a extrema luz d’estes meos olhos

Trocar ultimo adeos com os teos fulgores!

Ah! possa o teo alento perfumado,

Do que na terra estimo, docemente

Minha alma separar, e derramal-a

Como um vago perfume aos pés do Eterno.

* * * * *

O TEMPLO.

....Jéhovah déploie autour de nos demeures

Le linceul de la nuit, et la chaîne des heures

Tombe anneau par anneau.

TURQUETY.

I.

Estou só n’este mudo sanctuario,

Eu só, com minha dôr, com minhas penas!

E o pranto nos meos olhos represado,

Que nunca vio correr humana vista,

Livremente o derramo aos pés de Christo,

Que tão bem suspirou, gemeo sosinho,

Que tão bem padeceo sem ter conforto,

Como eu padeço, e soffro, e gemo, e choro.

Remorso não me punge a consciencia,

Vergonha não me tinge a côr do rosto,

Nem crimes perpetrei;--porque assim choro?

E direi eu por que?--Antes meu berço,

Que vagidos de infante vividouro,

Os sons finaes de um moribundo ouvisse!

Que esperanças que eu tinha tão formosas,

Que mimosos enlevos de ternura,

Não continha minha alma toda amores!

Esperanças e amor, que é feito d’elles?

Um dia me roubava uma esperança,

E sosinho, uma e uma, me deixárão.

Morrerão todas, como folhas verdes

Que em principios do inverno o vento arranca.

E o amor!--podia eu sentil-o ao menos;

Quando eu via a desdita de bem perto

Co’ um sorriso infernal no rosto squalido,

Com fome e frio a tiritar demente,

Acenando-me infausta?--quando vinda

Minha hora já sentia, em que os meus labios,

Tremendo de vergonha, soluçassem

Ao f’liz com que eu na rua deparasse,

De mãos erguidas: Meo Senhor, piedade!

Eis porque soffro assim, porque assim gemo,

Porque meo rosto pallido se encova,

Porque sómente a dôr me ri nos labios,

Porque meo coração já todo é cinzas.

Cantos · 第 4 / 17 段