E qual vemos dos céos descendo rapido

Um fugaz meteóro, vi descendo

Um anjo do Senhor;--parou sobre ella,

E mudo a contemplava.--Uma tristeza

Sympathica, indizivel pouco e pouco

Do anjo nas feições se foi pintando:

Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova

Conhece enferma e chóra.--Ella no peito

Menor sentiu a dôr, e humilde orava.

II.

De um vasto edificio nas frias escadas

Eu vi-a sentada;--era um templo, dizião

Secreto concilio de socios piedosos,

Que o bem tinha juntos, que bem só fazião.

Defronte um palacio soberbo se erguia,

E d’elle partia confuso rumor:

--A dança girava, e a orchestra sonora

Cantava alegria, prazeres e amor.

E quando ao palacio um conviva chegava,

Rugindo-se abria o ruidoso portão;

Effluvios de incenso nos ares corrião

Da rua esteirada com vivo clarão.

E a triste mendiga alli ’stava ao relento,

Com fome, com frio, com sede e com dôr;

E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto,

Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor.

E á porta do vasto sombrio edificio

Um vulto chegou.

--Senhor, uma esmola!--bradou-lhe a mendiga:

E o vulto parou.

E rude no accento, no aspecto severo,

Lhe disse:--O teo nome?--

Tornou-lhe a mendiga:--Senhor, uma esmola,

Que eu morro de fome.

--Não dizes teo nome?--lhe torna o soberbo.

--Sou orphã, sosinha;

Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo,

Se eu chóro mesquinha!

Em vís meretrises não cabe esse orgulho,

Tornou-lhe o Senhor,

Que á noite, nas trevas, contractão no crime,

Vendendo o pudor.

E a porta do templo--erguido á piedade

Com força batia;

Co’o peso do insulto accrescido a crueza

A triste gemia.

III.

Ouvi depois um rodar que a todo o instante

Mais distincto se ouvia; e logo um forte,

Fascinador clarão por toda a rua

Se derramou soberbo.--Infindos pagens

Ricas librés trajando, mil archotes

Nos ares revolvião;--fortes, rapidos,

Fumegantes corseis, sorvendo a terra,

Tiravão rica sege melindrosa.

Sobre a terra saltou airosa e bella

A dona, em frente do festivo paço;

E a mendiga bradou:--Senhora minha,

Dai uma esmola, dai!--Á voz dorida

Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo

Não era o coração;--foi-lhe importuno,

Mais que importuno ... da mesquinha o grito!

E da mendiga o protector celeste

Parecia fallar em favor d’ella;

E a rica dona o escutava, como

Se ouvisse a interna voz que dentro mora.

E eu dizia tambem:--Ó bella Dona,

Dai-lhe uma esmola, dai;--de que vos serve

Um óbolo mesquinho, que não póde

Siquer um diche sem valor comprar-vos?

Ah! bella como sois, que vos importão

Custosas flôres, com que ornais a fronte?

Para a salvar do vortice do crime,

O preço d’ellas, de uma só, da coisa,

Que sem valor julgardes, é bastante.

Sabeis?--Além da vida, além da morte,

Quando deixardes o oiropel na campa,

Quando subirdes do Senhor ao throno,

Sem andrajos siquer, tambem mendiga,

Alli tereis as lagrimas do pobre,

A benção do affligido, a prece ardente

Do que soffrendo vos bemdice,--ó Dona...

........................................

Fechou-se a porta festival sobre ella!

E a donzella se ergueo, córou de pejo,

Lançando os olhos pela rua escusa,

E segura no andar, e firma, á porta

Do palacio bateo--entrou--sumio-se.

E o anjo, como afflicto sob um peso,

Um gemido soltou; era uma nota

Melancolica e triste,--era um suspiro

Mavioso de virgem,--um soído

Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia,

Que a brisa da manhã roçou medrosa.

IV.

Dos muros ao travez meos olhos virão

Soberba roda de convivas,--todos

Velludos, sedas, e custosas galas

Trajavão senhoris.--Reinava o jogo

Aváro e grave, leda e viva a dança

Em vortices girava, a orchestra doce

Cantava occulta; condensados, bastos,

Em redor do banquete estavão muitos.

A mendiga alli estava,--não trajando

Sujos farrapos, mas delgadas telas.

Chovião brindes e canções e vivas

Á Deosa airosa do banquete; todos

Um volver dos seos olhos, um sorriso,

Uma voz de ternura, um mimo, um gesto

Cubiçavão rivaes;--e alli com ella,

Como um raio do sol por entre as nuvens

Lá na quadra hibernal penetra a custo

Quasi sem vida, sem calor, sem força,

Menos brilhante vi seo anjo bello.

Nos curtos labios da feliz mendiga

Passava rapido um sorriso ás vezes;

Outras chorava, no volver do rosto,

Na taça do prazer sorvendo o pranto.

Encontradas paixões sentia o anjo:

Parecia chorar co’o seo sorriso,

Parecia sorrir co’o choro della.

* * * * *

A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre,

Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre!

MARINO FALIERO.

Oh doze paiz de Congo,

Doces terras d’além mar!

Oh! dias de sol formoso!

Oh! noites d’almo luar!

Desertos de branca areia

De vasta, immensa extensão,

Onde livre corre a mente,

Livre bate o coração!

Onde a leda caravana

Rasga o caminho passando,

Onde bem longe se escuta

As vozes que vão cantando!

Onde longe inda se avista

O turbante musulmano,

O Yatagan recurvado,

Preso a cinta do Africano!

Onde o sol na areia ardente

Se espelha, como mar;

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d’além mar!

* * * * *

Quando a noite sobre a terra

Desenrolava o seo véo,

Quando siquer uma estrella

Não se pintava no céo;

Quando só se ouvia o sopro

De mansa brisa fagueira,

Eu o aguardava--sentada

Debaixo da bananeira.

Um rochedo ao pé se erguia,

D’elle á base uma corrente

Despenhada sobre pedras,

Murmurava docemente.

E elle ás vezes me dizia:

--Minha Alsgá, não tenhas medo;

Vem commigo, vem sentar-te

Sobre o cimo do rochedo.

E eu respondia animosa:

--Irei comtigo, onde fores!--

E tremendo e palpitando

Me cingia aos meos amores.

Elle depois me tornava

Sobre o rochedo--sorrindo:

--As agoas d’esta corrente

Não vês como vão fugindo?

Tão depressa corre a vida,

Minha Alsgá; depois morrer

Só nos resta!...--Pois a vida

Seja instantes de prazer.

Os olhos em tomo volves

Espantados--Ah! tão bem

Arfa o teo peito anciado!...

Acaso temes alguem?

Não receis de ser vista,

Tudo agora jaz dormente;

Minha voz mesmo se perde

No fragor d’esta corrente.

Minha Alsgá, porque estremeces

Porque me foges assim?

Não te partas, não me fujas,

Que a vida me foge a mim!

Outro beijo acaso temes,

Expressão de amor ardente?

Quem o ouvio?--o som perdeo-se

No fragor d’esta corrente.

Assim praticando amigos

A aurora nos vinha achar!

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d’além mar!

* * * * *

Do rispido Senhor a voz irada,

Rabida sôa,

Sem o pranto enchugar a triste escrava

Pavida vôa.

Mas era em mora por scismar na terra,

Onde nascera,

Onde vivera tão ditosa, e onde

Morrer devera!

Soffreo tormentos, porque tinha um peito,

Qu’inda sentia;

Misera escrava! no soffrer cruento,

Congo! dizia.

* * * * *

AO DR. JOÃO DUARTE LISBOA SERRA.

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade,

Mais um canto de lagrimas ardentes,

Oh! minha Harpa,--oh! minha Harpa desditosa.

Escuta, ó meu amigo: da minha alma

Foi uma lyra outr’ora o instrumento;

Cantava n’ella amor, prazer, venturas,

Até que um dia a morte inexoravel

Triste pranto de irmão veio arrancar-te!

As lagrimas dos olhos me cahirão,

E a minha lyra emmudeceo de magoa!

Então aventei eu que a vida inteira

Do bardo, era um perenne sacerdocio

De lagrimas e dôr;--tomei uma Harpa:

Na corda da afflicção gemeo minha alma,

Foi meo primeiro canto um epicedio;

Minha alma baptizou-se em pranto amargo,

Na fragoa do soffrer purificou-se!

Lancei depois meos olhos sobre o mundo,

Cantor do soffrimento e da amargura;

E vi que a dôr aos homens circumdava,

Como em roda da terra o mar se estreita;

Que apenas desfructamos,--miserandos!

Desbotado prazer entre mil dôres,

--Uma rosa entre espinhos aguçados,

Um ramo entre mil vagas combatido.

Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito,

E a minha voz queixosa perguntou-lhe:

--Senhor, porque do nada me tiraste,

Ou porque a tua voz omnipotente

Não fez seccar da minha vida a seve,

Quando eu era principio e feto apenas?

Outra voz respondeo-me dentro d’alma:

--Ardão teos dias como o feno,--ou durem

Como o fogo de tocha resinosa,

--Como rosa em jardim sejão brilhantes,

Ou baços como o cardo montesinho,

Não deixes de cantar, ó triste bardo.--

E as cordas da minha harpa--da primeira

Á extrema--da maior á mais pequena,

Nas azas do tufão--entre perfumes,

Um cantico de amores exaltárão

Ao throno do Senhor;--e eu disse ás turbas:

--Elle nos faz gemer porque nos ama;

Vem o perdão nas lagrimas contritas,

Nas azas do soffrer desce a clemencia;

Sobre quem chora mais elle mais vela!

Seo amor divinal é como a lampada,

Na abobada d’um templo pendurada,

Mais luz filtrando em mais opácas trevas.

Eu o conheço:--o cantico do bardo

É balsamo ao que morre,--é lenitivo,

Mas doloroso, mas funereo e triste

A quem lhe carpe infausto a morte crúa.

Mas quando a alma do justo, espedaçando

O envolucre de lodo, aos céos remonta,

Como estrada de luz correndo os astros,

Seguindo o som dos canticos dos anjos

Que na presença do Senhor se elevão;

Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro!

Mas na excelsa visão que se me antolha

Bebo consolações,--minha alma anceia

A hora em que tão bem ha de asilar-se

No seio immenso do perdão do Eterno.

Chora amigo; porém quando sentires

O pranto nos teos olhos condensar-se,

Que já não póde mais banhar-te as faces,

Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra,

Onde o orvalho se cria, onde parece

Que a timida esperança nasce e habita.

E se eu--feliz!--poder inda algum dia

Ferir por teo respeito na minha harpa

A leda corda onde o prazer palpita,

A corda do prazer que ainda inteira,

Que virgem de emoção inda conservo,

Suspenderei minha harpa d’algum tronco

Em off’renda á fortuna;--alli sosinha,

Tangida pelo sopro só do vento,

Ha de mysterios conversar co’a noite,

De acorde extreme perfumando as brisas;

Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros

Que não ha de cantar a desventura,

Tendo cantos gentis vibrado n’ella.

* * * * *

O DESTERRO DE UM POBRE VELHO.

Et dulces moriens reminiscitur Argos.

VIRG.

O! schwer ist’s, in der Fremde sterben unbeweint!

SCHILLER.

A aurora vem despontando,

Não tarda o sol a raiar;

Cantão aves,--a natura

Já começa a respirar.

Bem mansa na branca areia

Onda queixosa murmura,

Bem mansa aragem fagueira

Entre a folhagem susurra.

É hora cheia de encantos,

É hora cheia de amor;

A relva brilha enfeitada,

Mais fresca se mostra a flôr.

Esbelta joga a fragata,

Como um corsel a nitrir;

Suspensa a amarra tem presa,

Suspensa, que vai partir.

Em demanda da fragata,

Leve barco vem vogando;

Nelle um velho cujas faces

Mudo choro está cortando.

Quem era o velho tão nobre,

Que chorava,

Por assim deixar seos lares,

Que deixava?

«Ancião, porque te ausentas?

Corres tu traz de ventura?

Louco! a morte já vem perto,

Tens aberta a sepultura.

«Louco velho, já não sentes

Bater frouxo o coração?

Oh! que o sente!--É lei d’exilio

A que o leva em tal sazão!

«Não ver mais a cara patria,

Não ver mais o que deixava,

Não ver nem filhos, nem filhas,

Nem o casal, que habitava!...

«Oh! que é má pena de morte,

A pena de proscripção;

Traz dôres que martyrisão,

Negra dôr de coração!

«Pobre velho!--longe, longe

Vás sustento mendigar;

Tens de soffrer novas dôres,

Novos males que penar.

«Não t’ha de valer a idade,

Nem a dôr tamanha e nobre;

Tens de tragar vis affrontas,

--Insultos que soffre o pobre!

«Nada acharás no degredo,

Que falle dos filhos teos;

Ninguem sente a dôr do pobre...

Só te fica a mão de Deos.

«O sol, que além vês raiando

Entre nuvens de carmim,

N’outros climas, n’outras terras

Não verás raiar assim.

«Não verás a rocha erguida,

Onde t’ias assentar,

Nem o som bem conhecido

Do teo sino has de escutar.

«Ha de cahir sobre as ondas

O pranto do teo soffrer,

E n’esse abysmo salgado,

Salgado, se ha de perder.»

Já chegou junto á fragata,

Já na escada se apoiou,

Já com voz intercortada

Ultimo adeos soluçou.

Canta o nauta, e sólta as velas

Ao vento que o vai guiar;

E a fragata mui veleira

Vai fugindo sobre o mar.

E o velho sempre em silencio

A calva testa dobrou,

E pranto mais abundante

O rosto senil cortou.

Inda se vê branca a vela

Do navio, que partio;

Mais além--inda se avista!

Mais além--já se sumio!

* * * * *

O ORGULHOSO.

Eu o vi!--tremendo era no gesto,

Terrivel seo olhar;

E o senho carregado pretendia

O globo dominar.

Tremendo era na voz, quando no peito

Fervia-lhe o rancor!

E aos demais homens, como um cedro á relva,

Se cria sup’rior.

E o pobre agricultor, junto a seus filhos,

Dentro do humilde lar,

Quizera, antes que os d’elle, ver de um Tigre

Os olhos fusilar:

Que a um filho seo talvez quizera o nobre

Para um Executor;

Ou para o leito infesto alguma filha

Do triste agricultor.

Quem ousaria resistir-lhe?--Apenas

Algum pobre ancião

Já sobre o seo sepulchro, desejando

A morte e a salvação.

* * * * *

Alguns dias apenas decorrêrão;

E eis que elle se sumio!

E a lagem dos sepulchros fria e muda

Sobre elle já cahio.

E o barbaro tropel dos que o servião

Exulta com seo fim!

E a turba applaude; e ninguem chora a morte

De homem tão ruim.

* * * * *

O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei

qui factus est ut nullum timeret.

JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa!

A immensa cabelleira o espaço alastra,

E o nucleo, como um sol tingido em sangue,

Alvacento luzir vérte agoireiro

Sobre a pavida terra.

Poderosos do mundo, grandes, povo,

Dos labios removei a taça ingente,

Que em vossas festas gyra; eis que rutila

O sanguineo cometa em céos infindos!...

Pobres mortaes,--sois vermes!

O Senhor o formou terrivel, grande;

Como indocil corsel que morde o freio,

Retinha-o só a mão do Omnipotente.

Alfim lhe disse:--Vai, Senhor dos Mundos,

Senhor do espaço infindo.

E qual louco temido, ardendo em furia,

Que ao vento solta a coma desgrenhada,

E vai, nescio de si, livre de ferros,

De encontro ás duras rochas,--tal progrede

O cometa incansavel.

Se na marcha veloz encontra um mundo,

O mundo em mil pedaços se converte;

Mil centelhas de luz brilhão no espaço

A esmo, como um tronco pelas vagas

Infrenes combatido.

Se junto d’outro mundo acaso passa,

Comsigo o arrastra e leva transformado;

A cauda portentosa o enlaça e prende,

E a astro vai com elle, como argueiro

Em turbilhão levado.

Como Leviathan perturba os mares,

Elle perturba o espaço;--como a lava,

Elle marcha incessante e sempre;--eterno,

Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege,

--As vezes o infinito.

Elle carece então da eternidade!

E aos homens diz--e magestoso e grande

Que jamais o verão; e passa, e longe

Se entranha em céos sem fim, como se perde

Um barco no horisonte!

* * * * *

O OIRO.

Oiro,--poder, encanto ou maravilha

Da nossa idade,--regedor da terra,

Que dás honra e valor, virtude e força,

Que tens offertas, oblações e altares,--

Embora teo louvor cante na lyra

Vendido Menestrel que pôde insano

Do grande á porta renegar seo genio!

Outro, sim, que não eu.--Bardo sem nome,

Com pouco vivo;--sobre a terra, á noite,

Meo corpo lanço, descançando a fronte

N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.

Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens

Que tem gravados scintillantes mundos!

Com a vista no céo percorro os astros,

Vagueia a minha mente além das nuvens,

Vagueia o meo pensar--alto, arrojado

Além de quanto o olhar nos céos alcança.

Então do meo Senhor me calão n’alma

D’amor ardente enlevos indiziveis;

Se tento ás gentes redizer seo nome,

Queimadoras palavras se atropellão

Nos meos labios;--prophetica harmonia

Meo peito anceia, e em borbotões se expande.

Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes

Tens prodigios, teo poder immenso:

O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro,

A terra ao céo, o tempo á eternidade!

Do mundo as illusões, vaidade, engano,

Da vida a mesquinhez--prazer ou pranto--

Tudo esse nome arrastra, prostra e some;

Como aos raios do sol desfeito o gelo,

Que em ondas corre no pendor do monte,

Precipite e ruidoso,--arbustos, troncos

Comsigo no passar rompidos leva.

* * * * *

A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EX^{ma} S^{ra} D. M. L. L. V.

I.

Gentil, engraçado infante

Nos teos jogos inconstante,

Que tens tão bello semblante,

Que vives sempre a brincar,

--Dos teos brinquedos te esqueces

Á noitinha,--e te entristeces

Como a bonina,--e adormeces,

Adormeces a sonhar!

II.

Infante, serão as côres

De varias, viçosas flôres,

Ou são da aurora os fulgores

Que vem teos sonhos doirar?

Foi de algum ente celeste,

Que de luzeiros se veste,

Ou da brisa é que aprendeste,

Que aprendeste a suspirar?

III.

Tens no rosto afogueado

Um qual retrato acabado

De um sentir aventurado,

Que te ri no coração;

É talvez a voz mimosa

De uma fada caprichosa,

Que te promette amorosa

Algum brilhante condão!

IV.

Ou por ventura es contente,

Porque no sonho, que mente,

Phantasiaste innocente

Algum dos brinquedos teos!...

Senhor, tens bondade infinda!

Fizeste a aurora bem linda,

Creaste na vida ainda

Um’outra aurora dos céos.

V.

O som da corrente pura,

A folhagem que susurra,

Um accento de ternura,

De ternura divinal;

A indizivel harmonia

Dos astros no fim do dia,

A voz que Memnon dizia,

Que dizia matinal;

VI.

Nada d’isto tem o encanto,

Nada d’isto póde tanto

Como o risonho quebranto,

Divino--do seo dormir;

Que nada ha como a Donzella

Pensativa, doce e bella,

E a comparar-se com ella...

Só de um infante o sorrir.

VII.

Mas de repente chorando

Despertas do somno brando

Assustado e soluçando...

Foi uma revelação!

Esta vida acerba e dura

Por um dia de ventura

Dá-nos annos de amargura

E fragoas do coração.

VIII.

Só aquelle que da morte

Soffreo o terrivel córte,

Não tem dôres que supporte,

Nem sonhos o acordarão:

Gentil infante, engraçado,

Que vives tão sem cuidado,

Serás homem--mal peccado!

Findará teo sonho então.

* * * * *

O PIRATA.

(EPISODIO.)

Nas azas breves do tempo

Um anno e outro passou,

E Lia sempre formosa

Novos amores tomou.

Novo amante mão de esposo,

De mimos cheia, lh’off’rece;

E bella, apesar de ingrata,

Do que a amou Lia se esquece.

Do que a amou que longe pára,

Do que a amou, que pensa n’ella,

Pensando encontrar firmeza

Em Lia, que era tão bella!

N’esse palacio deserto

Já luzes se vêm luzir,

Que vem nas sedas, nos vidros

Cambiantes reflectir.

Os echos alegres sôão,

Sôa ruidosa harmonia,

Sôão vozes de ternura,

Sons de festa e d’alegria.

E qual ave que em silencio

A face do mar desflora,

Á noite bella fragata

Chega ao porto, amaina, ancóra.

Cáe da popa e fere as ondas

Inquieta, esguia falua,

Que resvala sobre as agoas

Na esteira que traça a lua.

Já na vacua praia toca;

Um vulto em terra saltou,

Que na longa escadaria

Preságo e torvo enfiou.

Malfadado! por que aportas

A este sitio fatal!

Queres o brilho augmentar

Das bodas do teo rival?

Não, que a vingança lhe range

Nos duros dentes cerrados,

Não, que a cabeça referve

Em mãos projectos damnados!

Não, que os seos olhos bem dizem

O que diz seo coração;

Terriveis, como um espelho,

Que retratasse um vulcão.

Não, que os labios descorados

Vociferão seo rival;

Não, que a mão no peito aperta

Seo pontagudo punhal.

Não, por Deos, que taes affrontas

Não as sóe deixar impunes,

Quem tem ao lado um punhal,

Quem tem no peito ciumes!

Subio!--e vio com seus olhos

Ella a rir-se que dançava,

Folgando, infame! nos braços

Porque assim o assassinava.

E elle avançou mais avante,

E vio ... o leito fatal!

E vio ... e cheio de raiva

Gravou no meio o punhal.

E avançou ... e á janella

Sosinha a vio suspirar,

--Saudosa e bella encarando

A immensidade do mar.

Como se vira um espectro,

De repente ella fugio!

Tal foge a corça nos bosques

Se leve rumor sentio.

Que foi?--Quem sabe dizel-o?

Forão vislumbres de dôr;

Coração, que tem remorsos,

Sente continuo terror!

Elle á janella chegou-se,

Horrivel nada encontrou...

Sómente, ao longe, nas sombras,

Sua fragata avistou.

Então pensou que no mundo

Nada mais de seo contava!

Nada mais que essa fragata!

Nada mais de quanto amava!

Nada mais!...--que lh’importava

De no mundo só se achar?

Inda muito lhe ficava--

Agoa e céos e vento e mar.

Assim pensava, mas n’isto

Descortina o seo rival,

Não visto;--a mão na cintura

Cingio raivosa o punhal!

Mas pensou...--não, seja d’ella,

E tenha zelos como eu!--

Larga o punhal, e um retrato

Na dextra mão estendeo.

Porém sentio que inda tinha

Mais que branda compaixão;

Miserando! inda guardava

Seo amor no coração.

Infeliz! não foi culpada;

Foi culpa do fado meo!

Nada mais de pensar n’ella;

Finjamos que ella morreo.

Por entre a turba que alegre

No baile--a sorrir-se estava,

Mudo, triste, e pensativo

Surdamente se afastava.

De manhã--quando o saráu

Apagava o seo rumor,

Chegava Lia a janella,

Mais formosa de pallor.

Chegou-se;--e além--no horisonte

Uma vela inda avistou;

E co’a mão tremula e fria

O telescopio buscou!

Um pavilhão vio na pôpa,

Que tinha um globo pintado;

E no mastro da mesena

Um negro vulto encostado.

Erão chorosos seos olhos,

Os olhos seos enxugou;

E o telescopio de novo

Para essa vela apontou.

Quem em o vulto tão triste

Parece reconheceo;

Mas a vela no horisonte

Para sempre se perdeo.

* * * * *

A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter

ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant

eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam

ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.

LAMENT.

I.

O immenso aposento a luz alaga

Com soberbo clarão,

E as mezas do banquete se devolvem

Pelo vasto salão;

E os instrumentos palpitantes sôão

Frenetica harmonia;

E o côro dos convivas se levanta

Pleno d’ebria alegria!

Alli se ostenta o nobre vicioso

Rebuçado em orgulho,--o rico infame,

Cheio de mesquinhez,--o envilecido,

Immundo pobre no seo manto involto

De miserias, torpeza e villanias;

--A prostituta que alardêa os vicios,

Menospresando a castidade e a honra,

Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada.

E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia,

Os cantos immoraes, canções impudicas,

Gritos e orgia involta em negro manto

De fumo e vinho,--os ares aturdião;

E muito além, no meio d’alta noite,

Nos echos, ruas, praças rebatião.

II.

Depois, ainda suja a bocca, as faces,

D’immundo vomitar,

Com vacillante pé calcando a terra

Os viras levantar.

A larga porta despedia em turmas

A nocturna cohorte;

Ouviu-se depois por toda a parte

Gritos, horror de morte!

E ninguem vinha ao retinir de ferro,

Que assassinava;

Porque era d’um valente o punhal nobre,

Que as leis dictava.

Outra vez a cahir se emmaranhavão

Da porta pelo umbral:

Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes,

Em sangue tincto o punhal.

E vinha o sol manifestar horrores

Da noite derradeira;

E a morte vária revelava a furia

Da turba carniceira.

E o sacrilego padre só vendia

O tum’lo por dinheiro;

Vendia a terra aos mortos insepultos,

O vil interesseiro!

Ou lá ficavão, como pasto aos corvos,

Por sobre a terra núa;

E ninguem de tal sorte se pesava,

Que ser podia a sua!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse aos homens della,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«D’essa terra tão bella.»

III.

E a mortifera peste luctuosa

Do inferno rebentou,

E nas azas dos ventos pavorosa

Sobre todos passou.

E o mancebo que via esperançoso

Longa vida futura,

Doido sentio quebrar-lhe as esperanças

Pedra de sepultura.

E a donzella tão linda que vivia

Confiada no amor,

Entre os braços da mãi provou bem cedo

Da morte o dissabor.

E o tremulo ancião qu’inda esperava

Morrer assim

Como um fructo maduro destacado

D’arvore emfim,

Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno,

Como um bulcão,

Que affronta o nauta quando avista a terra

Da salvação.

Era deserta a villa, a casa, o templo--

Ar de morte soprou!

Mas a casa dos vis nos seos delirios

Ebria continuou!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse os homens d’ella,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«Dessa terra tão bella.»

IV.

Eis o aço da guerra lampeja,

Do fogoso corsel o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja,

Eis da morte represso o gemido.

Já se aprestão guerreiros luzentes,

Já se enfreião corseis bellicosos,

Já mancebos se partem contentes,

Augurando a victoria briosos.

Brilha a raiva nos olhos;--nas faces

O interno rancor pódes ler;

Eia, avante!--clamarão os bravos,

Eia, avante!--ou vencer ou morrer!

Eia, avante!--briosos corramos

Na peleja o imigo bater;

Crua morte na espada levamos!

Eia, avante!--ou vencer ou morrer!

Eis o aço da guerra lampeja,

Do corsel bellicoso o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja

E da morte represso o gemido.

V.

E a selva vomitou homens sem conto

A voz do omnipotente,

Como a neve hibernal que o sol derrete,

Engrossando a corrente.

E em redor d’essa villa se estreitarão,

Cingidos d’armadura;

E a villa se doeo no intimo seio

De tão acre amargura.

Mas os fortes bradarão:--Eia, avante!--

Promptos a batalhar;

Mas o braço e valor ante os imigos

Se vierão quebrar.

E um anno inteiro sem cessar lutarão,

Cheios de bizarria,

Como dois crocodilos que brigassem

D’um rio a primazia!

Cantos · 第 3 / 17 段