Que de vezes, pensando a sós commigo,

Não disse eu entre mim:--Anjo formoso,

Da minha vida que farei, se acaso

Faltar-me o teo amor um só instante;

--Eu que só vivo por te amar, que apenas

O que sinto por ti a custo exprimo?

No mundo que farei, como estrangeiro

Pelas vagas crueis á praia inhóspita

Exanime arrojado?--Eu, que isto disse,

Existo e penso--e não morri,--não morro

Do que outr’ora senti, do que ora sinto,

De pensar nella, de a revêr em sonhos,

Do que fui, do que sou e ser podia!

Existo; e ella de mim jaz esquecida!

Esquecida talvez de amor tamanho,

Derramando talvez n’outros ouvidos

Frases doces de amor, que dos seos labios

Tantas vezes ouvi,--que tantas vezes

Em extasis divino aos céos me alçárão,

--Que dando á terra ingrata o que era terra

Minha alma além das nuvens transportárão.

Existo! como outr’ora, no meo peito

Férvido o coração pular sentindo,

Todo o fogo da vida derramando

Em queixas mulherís, em molles versos.

E ella!... ella talvez nos braços d’outrem

Com sua vida alimenta uma outra vida,

Com o seo coração o de outro amante,

Que mais feliz do que eu, inferno! a goza.

Ella, que eu respeitei, que eu venerava

Como a reliquia sancta!--a quem meus olhos,

Receiando offendel-a, tantas vezes

De castos e de humildes se abaixárão!

Ella, perante quem sentia eu presa

A voz nos labios e a paixão no peito!

Ella, idolo meo, a quem o orgulho,

A força d’homem, o sentir, vontade

Propria e minha dediquei,--sugeita

Á voz de alguem que não sou eu,--desperta,

Talvez no instante em que de mim se lembra,

Por um osculo frio, por caricias

Devidas dum esposo!...

Oh! não poder-te,

Abutre roedor, cruel ciume,

Tua funda raiz e a imagem d’ella

No peito em sangue espedaçar raivoso!

Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora,

Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe

Um quebrado suspiro do imo peito,

Que d’éras ja passadas se recorda.

Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto

Enrubecer-se ao deparar comtigo!

Preza serás tambem d’átros cuidados,

Terás ciume, e soffrerás qual soffro:

Nem menor que o meo mal quero a vingança.

* * * * *

DELIRIO.

Quando dormimos nosso espirito véla.

ESCHYLO.

A noite quando durmo, esclarecendo

As trevas do meu somno,

Uma etherea visão vem assentar-se

Junto ao meu leito afflicto!

Anjo ou mulher? não sei.--Ah! se não fosse

Um qual véo transparente,

Como que a alma pura alli se pinta

Ao travez do semblante,

Eu a crêra mulher...--E tentas, louco,

Recordar o passado,

Transformando o prazer, que desfructaste,

Em lentas agonias?!

Visão, fatal visão, porque derramas

Sobre o meo rosto pallido

A luz de um longo olhar, que amor exprime

E pede compaixão?

Porque teo coração exhala uns fundos,

Magoados suspiros.

Que eu não escuto; mas que vejo e sinto

Nos teos labios morrer?

Porque esse gesto e morbida postura

De macerado espirito,

Que vive entre afflicções, que já nem sabe

Desfructar um prazer?

Tu fallas! tu que dizes? este accento,

Esta voz melindrosa,

N’outros tempos ouvi, porém mais leda;

Era um hymno d’amor.

A voz, que escuto, é magoada e triste,

--Harmonia celeste,

Que á noite vem nas azas do silencio

Humedecer as faces

Do que enxerga outra vida além das nuvens.

Esta voz não é sua;

É accorde talvez d’harpa celeste,

Cahido sobre a terra!

Balbucias uns sons, que eu mal percebo,

Doridos, compassados,

Fracos, mais fracos;--lagrimas despontão

Nos teos olhos brilhantes...

Choras! tu choras!... Para mim teos braços

Por força irresistivel

Estendem-se, procurão-me; procuro-te

Em delirio afanoso.

Fatídico poder entre nós ambos

Ergueo alta barreira;

Elle te enlaça e prende ... mal resistes...

Cédes emfim ... acórdo!

Acórdo do meo sonho tormentoso,

E chóro o meo sonhar!

E fecho os olhos, e de novo intento

O sonho reatar.

Embalde! porque a vida me tem preso;

E eu sou escravo seo!

Acordado ou dormindo, é triste a vida

Desque o amor se perdeo.

Ha comtudo prazer em nos lembrarmos

Da passada ventura,

Como o que educa flôres vicejantes

Em triste sepultura.

* * * * *

EPICEDIO.

Passa la bella donna e par che dorma.

TASSO.

Seo rosto pallido e bello

Já não tem vida nem côr!

Sobre elle a morte descança,

Involta em baço pallor.

Cerrárão-se olhos tão puros,

Que tinhão tanto fulgor;

Coração que tanto amava

Já hoje não sente amor;

Que o anjo bello da morte

A par desse anjo baixou!

Trocárão brandas palavras,

Que Deos sómente escutou.

Ventura, prazer, ledice

D’uma outra vida cantou;

E o anjo puro da terra

Prazer da terra engeitou.

Depois co’as azas candentes

O formoso anjo do céo

Roçou-lhe a face mimosa,

Cubrio-lhe o rosto co’um véo.

Depois o corpo engraçado

Deixou a terra sem vida,

De tenue pallor coberto,

--Verniz de estatua esquecida.

E bella assim, como um lirio

Murcho da sésta ao ardor,

Teve a innocencia dos anjos,

Tendo o viver d’uma flôr.

Foi breve!--mas a desgraça

A testa não lhe enrugou,

E aos pés do Deos que a creára

Alma inda virgem levou.

Sáe da larva a borboleta,

Sáe da rocha o diamante,

De um cadaver mudo e frio

Sáe uma alma radiante.

Não choremos essa morte,

Não choremos casos taes;

Quando a terra perde um justo,

Conta um anjo o céo de mais.

* * * * *

SOFFRIMENTO.

Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo

Que não seja soffrer?

O homem nasce, e vive um só instante,

E soffre até morrer!

A flôr ao menos, nesse breve espaço

Do seo doce viver,

Encanta os ares com celeste aroma,

Querida até morrer.

É breve o romper d’alva, mas ao menos

Traz comsigo prazer;

E o homem nasce e vive um só instante:

E soffre até morrer!

Meo peito de gemer já está cançado,

Meos olhos de chorar;

E eu soffro ainda, e já não posso alivio

Sequer no pranto achar!

Já farto de viver, em meia vida,

Quebrado pela dôr,

Meos annos hei passado, uns após outros,

Sem paz e sem amor.

O amor que eu tanto amava do imo peito,

Que nunca pude achar,

Que em balde procurei, na flôr, na planta,

No prado, e terra, e mar!

E agora o que sou eu?--Pallido espectro,

Que da campa fugiu;

Flôr ceifada em botão; imagem triste

De um ente que existio...

Não escutes, meo Deos, esta blasfemia;

Perdão, Senhor, perdão!

Minha alma sinto ainda,--sinto, escuto

Bater-me o coração.

Quando roja meo corpo sobre a terra,

Quando me afflige a dôr,

Minha alma aos céos se eleva, como o incenso,

Como o aroma da flôr.

E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto,

Bemdigo a minha dôr,

Que vai além da terra aos céos infindos

Prender-me ao creador.

Bemdigo o nome teo, que uma outra vida

Me fez descortinar,

Uma outra vida, onde não ha só trevas,

E nem ha só penar.

* * * * *

VISÕES.

* * * * *

I.

PRODIGIO.

N’aquelle instante em que vacilla a mente

Do somno ao despertar, quando pejada

Vem doutros mundos de visões ethereas:

Quando sobre a manhã surge brilhante

A luz da madrugada,--eu vi!... nem sonhos

Era a minha visão, real não era;

Mas tinha d’ambos o talvez.--Quem sabe?

Foi caprixo fallaz da phantasia,

Ou foi certo aventar d’eras venturas?

A ira do Senhor baixou tremenda

Sobre uma vasta capital!--em pedra

Tomou-se a gente impura. Muitos homens

As portas ferreas, largas, vi sentados.

Melhor do que um pintor ou statuario

A morte, que de subito os colhera

No ardor, no afan da vida, conservou-lhes

A acção--partida em meio, com tal força,

Que a mente seo máo grado a completava.

Um tinha os labios entre-abertos; outro

Parecia sorrir; mais longe aquelle

Derramava um segredo, baixo, á medo,

Nos ouvidos do amigo; austero o guarda

Com rosto carregado e barba hirsuta

Nas mãos callosas sopesava a lança.

Dos mercadores na comprida rua

Passavão muitos compradores;--este

Contava montes d’oiro;--á luz aquelle

Expunha a seda do Indostão, de Tyro

A purpura brilhante, a damasquina

Custosa tela entretecida d’oiro.

Cortez sorrindo, o mercador gabava

As cores vivas, o tecido, o corpo

Do estofo que vendia. Nos serralhos

Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas

Bradava á prece o Muezzin...

--N’um largo,

Fofo e vasto divan sentado, um velho

Os versos lia do Alcorão;--só elle

D’entre tanto punir ficára illeso.

* * * * *

II.

A CRUZ.

Era um templo d’arabica structura,

Magestoso, elegante;--alem das nuvens

Se entranhava nos céos subtil a agulha;

Sobre o zimborio retumbante e vasto

Ondas e ondas de vapor crescião.

Dentro corrião tres compridas naves

Sobre dois renques de columnas, onde

Baixos relevos da sagrada historia

Da base ao capitel se emmaranhavão.

Ardia a luz na alampada sagrada;

No sagrado instrumento o som dormia.

Junto á cruz--da fachada egregia pompa--

Muitos homens eu vi de torvo aspecto;

Muitos outros, servís, com mão armada

Profundos golpes entalhavão nella.

Um daquelles no emtanto assim fallava:

«Quando esta humilde cruz rojar por terra;

«Levando a crença de Jesus comsigo

«Nós outros, da verdade Sacerdotes,

«Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros

«Que desvendamos a impostura, o erro,

«A mentira sagaz, a crença louca,

«Entrada facil da razão no templo

«Teremos todos; e de então no throno,

«Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos,

«Sanctos juises da verdade sancta,

«Pregaremos o justo, a paz, concordia

«E os seus deveres que dimanão faceis

«Do amor do lucro e do interesse; todos

«--Vasallos da razão, nossos vassallos--

«Um eden terreal farão do mundo.»

No emtanto aos crebros golpes do machado

A cruz pendia obliqua sobre a terra.

Creando novas forças com tal vista,

Os operarios mais frequentes golpes

Repetem, vibrão, continuão;--sôa

Por toda a parte o echo,--o som, mais longe,

Retumba, morre--e novamente echôa.

Nisto a cruz--geme--estrala; um grito sóbe

Unisono e geral!...

Como sois grande,

Senhor, Senhor meo Deos!--Eu vi, morrendo

Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se,

Como aos raios do sol a flor mimosa

Que a raiva do tufão vergára insana.

* * * * *

III.

PASSAMENTO.

Era um quarto espaçoso;--alli se vião

Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas,

Ricos tapetes multicor bordados,

E franjas complicadas d’um céo d’oiro

Pendentes,--vastos rases narradores

De lenda pia ou de briosos feitos.

Mas de tanto luzir, de tanto ornato

Ora por mãos aváras depredado

O vasto d’área revelava aos olhos,

Tendo n’um canto escuro um leito apenas.

Do leito alguem rasgára o cortinado.

E da curva amação polida e bella

Aqui, alli, pendia a seda em fios,

Bem como tranças de mulher formosa

Por sobre o seio nú.--Alli no leito

Jazia um moribundo; em torno os olhos

Cheios de pasmo e de terror volvia,

Bebendo pelos sofregos ouvidos

Mal sentido rumor d’outro aposento.

Confusas vozes, altercar ruidoso,

E o tinir de metal ouvia apenas!

Então por vezes tres no leito afflicto

Erguer-se maquinou de raiva insano!

Por tres vezes cahio, gemendo, sobre

O leito que da queda se sentia.

Da morte o cru torpor nos membros frios

Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso

Da vida o amor debate-se nas ancias

Desse passo fatal...

--Eis nisto á porta.

Um Padre assoma,--d’entre as mãos erguidas

Da hostia sancta resplendor luzia;

E palavras de paz, de amor, divinas,

Que nos labios do justo Deos entorna,

Abundantes soltava. Longos annos

De piedoso soffrer o corpo enfermo

Alquebrárão por fim; as cãs nevadas

Raras tremião sobre a testa, como

Tremia na garganta a voz cançada.

Dizia o bom do velho:--«Irmão, nas ancias,

«No extremo agonisar da morte amiga

«Ergue os olhos ao céo;--do céo te venha

«Esse divino amor, que só lá mora,

«Que filtra por nossa alma, que nos deixa

«Mais celeste prazer, mais doce arroubo,

«Do que a terra sóe dar...

«Infames, trédos,

«Bufarinheiros de palavras, corvos

«De negro, feio agoiro, que esvoação

«Com grito grasnador por sobre o campo,

«Onde a peleja de reinar começa;

«Dizes-me tu--a mim! a mim que ao fóro

«Caminho inda hoje entre alas de clientes,

«Que so me visto de velludo e d’oiro,

«Em quanto vives de burel coberto,

«Co’os labios sobre o pó mordendo a terra!

«Dizes-me tu--a mim!...»

Ergueo-se,... e o corpo

Cahio de fraco sobre o leito; o velho

No emtanto humilde orava, que alma sancta

Do mal cabido insulto não se offende.

Jehovah, que entre myriadas

Vives de estrellas formosas,

Que das flôres melindrosas

Da terra--os anjos formaste;

Jehovah, que pela agoa

Lustrar quizeste o Messias,

Que ao beato, ao sancto Elias

Nas chammas purificaste;

Jehovah, que a mente apuras

No fogo do soffrimento,

Que divino, alto portento

Déste fazer á Moisés,

Quando a negra rocha dura

Tocando co’a tenue vara,

Rebentou a lympha clara,

Lambendo-lhe mansa os pés;

Jehovah, que eterno existes,

Cujo ser em si se encerra,

Que formaste o céo e a terra,

Que te chamas--o que é,[2]

--Faz, Senhor d’altos prodigios,

Com que a mente empedernida

Não se aparte desta vida

Sem sentir a sancta fé.

E tu, Christo, que soffreste

Martyrios por nosso amor,

Tu que foste o Salvador,

Salva-o, Senhor, por quem es.

Dá que em palavras piedosas

Se derrame contristado,

Como o rochedo tocado

Pela vara de Moisés.

E o confuso rumor do outro aposento

Crescia mais e mais.--Do moribundo

Os cúpidos herdeiros dividião

Por si a vasta herança; os torvos olhos

Ião de rosto a rosto, fusilando

Ameaças de morte.

No entanto o velho exanime e sem forças

Curtia amargos transes, que avarento,

E tendo a vida inutil presa a terra

Com toda a força d’alma,--agora em ancias

Sentia o halito vital fugir-lhe,

E a terra abandonal-o.

Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!...

Só não chorava, que do pranto a fonte

Jazia extincta; mas pensava triste:

--Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos

Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo

Do extremo agonisar.

E a mente, já medrosa, em feio quadro

Lhe pintava os seos feitos;--a vingança,

Que tão grande prazer lhe tinha sido,

Ora em martyrios se tomava; a chusma

Dos homicidios seus crescia torva,

E no leito o cercava.

Crença infantil! dizia; loucos, cegos

Prejuizos do vulgo;--e assim dizendo

Os vãos phantasmas repellir buscava.

Mas a crença infantil, os prejuizos

Do nescio vulgo, rispidos tornavão,

Como insecto importuno.

Debalde por não ver cerrava os olhos,

Sobre os olhos debalde as mãos crusava,

Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão,

E mais distinctas se pintavão n’alma

--Tão bem molesta, qual se pinta o corpo

Do espelho no polido.

E do seo passamento o caso infando

Narrava uma após outra, sobre o peito

Mostrando o golpe funebre e cruento;

Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo

Parecia sorrir!... era qual louco

Que soffre e um riso finge.

E das visões indo a fugir se arroja

De sobre o leito delirante; as sombras

Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão.

O moribundo a esta, a aquella, a todas

Volvo o pavido rosto, no mover-se

Progressivo, incessante.

E preso ao duro embate da vertigem.

As mestas sombras ao redor com elle

Fugir sentia; o pavimento, a casa

Rapido rodava; a terra e tudo,

Como aos soluços d’um vulcão tremendo,

As forças lhe tolhião.

E o orgulhoso que feliz vivera,

Movendo a seo bom grado mil escravos,

Querendo a terra dominar co’um gesto;

Ora mesquinho, solitario e louco,

Face a face lutando com seos crimes,

Morria impenitente.

* * * * *

IV.

----

Era o vulto de um homem morto que afastando

o sudario se hia erguer do tumulo para revelar

alguns dos temerosos mysterios, que encerra a

apparente quietação dos sepulchros.

O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce

Mais feia a escuridão

Á luz da sacra pyra que derrama

Frouxo e tibio clarão.

Calou-se o canto, a prece,--é mudo o templo;

Apenas fraco sôa

Da torre o bronze, que a nocturna brisa

De rumores povôa.

Mas eis que de um sepulchro a pedra fria

S’ergue e sobre outras cáe.

Não se escuta rumor!--da campa livre

Medroso espectro sáe.

O rosto ossificado em torno volve,

Volve a suja caveira;

Do liso craneo os longos dedos varrem

A funebre poeira.

Mas inda inteiro o coração se via

Do peito nas cavernas,

Inda sangrento lagrimas chorava

De negro sangue eternas.

E caminhando, qual se move a sombra,

Ao orgão e assentou!

Já não dormem os sons, não dormem echos...

--O triste assim cantou:

«Onde estás, meo amor, meos encantos

Por quem só me pezava morrer,

Doce encanto que a vida me prendes,

Que inda em morto me fazes soffrer?

«Doce amor, minha vida no mundo,

Desse mundo em que parte serás;

Em que scismas, que pensas, que fazes,

Onde estás, meo amor, onde estás?

«Ah! debalde na campa gelada

Fria morte me poude deitar!

Foi debalde,--que eu sinto, que eu ardo;

Foi debalde, que eu amo a penar.

«Ah! si eu triste no mundo podesse

Como outr’ora viver, respirar....

Não soubera dizer-te os ardores

Que o sepulchro não poude apagar.

«Onde estás?--Já da morte o bafejo

Por teo rosto divino roçou;

Já na campa descanças finada,

Que o teo corpo sem vida tragou?

«Mas a morte não poude impiedosa

Crua foice vibrar contra ti!

Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro

Crús ardores quaes sempre soffri.

«E eu não posso o teo nome á noitinha

Entre as folhas saudoso cantar,

Nem seguir-te nas azas da brisa,

Nem teo somno de sonhos doirar.

«Nem lembrar-te os queridos instantes

Que a teo lado arroubado passei,

Sem cuidados de incerto futuro,

Só cuidoso da vida que amei.

«Não te lembras da noite homicida

Em que um ferro meo peito varou,

Quando a facil conversa de amores

Teo marido cioso quebrou?!

«Desde então hei penado sósinho,

Verte sangue meo peito--de então;

Poude a morte acabar-me a existencia,

Mas delir-me não poude a paixão!

«Nosso adultero affecto no mundo

Não se acaba;--assim quiz o Senhor!

Não se acaba...--qu’importa?--hei gozado

Teos encantos gentis, teo amor.

«Por te amar outras fragoas soffrera,

Outros transes e dôr e penar;

Oh! poder que eu podesse outra vida

E outro inferno soffrer por te amar!»

Mas da aurora ja raiava

Macio e brando clarão;

Macia e branda a canção

Do negro espectro soava.

E medroso se collava

Ao orgão seo negro véo,

Que imiga não se ajuntava

Ao seo vulto a luz do céo.

Pouco a pouco se perdia

O negro espectro; a canção

Pouco a pouco enfraquecia:

Do dia ao tenue clarão,

Era o cantar um soído

Fraco, incerto e duvidoso;

Era o vulto pavoroso

D’uma sombra vão tremido.

* * * * *

V.

A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait

malheureuse d’être immortelle.

FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo

O grato e bello clarão;

Eu sonhava! já mais brandos

Erão meos sonhos então.

Condensou-se o ar n’um ponto,

Cresceo o subtil vapor;

Vi formada uma belleza,

Cheia de encantos, de amor.

Mas na candura do rosto

Não se pintava o carmim;

Tinha um quê de cera juncto

Á nitidez do marfim.

--Quem es tu, visão celeste,

Bello Archanjo do Senhor?

Respondeo-me:--Sou a Morte,

Cru phantasma de terror!

--Ah! lhe tornei: Es a morte,

Tão formosa e tão cruel!

--Correndo o mundo sósinha

No meo pallido corsel,[3]--

Assim dizia--«Tu julgas

Que não tenho coração,

Que executo os meos deveres

Sem pesar, sem afflicção?

--Que inda em flôr da vida arranco

Ao joven, sem compaixão,

Á donzella pudibunda

Ou ao longévo ancião?

--Oh! não, que eu soffro martyrios

Do que faço aos mais soffrer,

Soffro dôr de que outros morrem,

De que eu não posso morrer;

--Mas em parte a dôr me cura

Um pensamento, que é meo,--

Lembro aos humanos que a terra

É só passagem pr’a o céo.

--Faço ao triste erguer os olhos

Para a celeste mansão;

Em labios que nunca orárão

Derramo pia oração.

--É meo poder quem apura

Os vicios que a mente encerra,

Ao fogo da minha dôr;

Sou quem prendo aos céos a terra,

Sou quem prendo aos céos a terra,

Ao ser do seo Creador.

--Mas qu’importa? Sem descanço

É-me forçoso marchar,

Abater impías frontes,

Regias frontes decepar.

--Passar ao travez dos homens

Como um vento abrasador;

Como entre o feno maduro

A foice do segador.

--E prostrar uma após outra

Geração e geração,

Como peste que só reina

Em meio da solidão.»--

Desponta o sol radioso

Entre nuvens de carmim;

Cessa o canto pesaroso,

Como corda aurea de Lyra;

Que se parte, que suspira

Dando um gemido sem fim.

* * * * *

O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire;

Pour mon coeur, ami de toute gloire,

Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront.

Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes,

Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes

Ne jeta d’ombre sur mon front.

V. HUGO.

Vate! vate! que es tu?--Nos seos extremos

Fadou-te Deos um coração de amores,

Fadou-te uma alma accesa borbulhando

Hardidos pensamentos, como a lava

Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens.

Vate! vate! que es tu?--Foste no principio

Sacerdote e propheta;

Erão nos céos teos cantos uma prece,

Na terra um vaticinio.

E elle cantava então:--Jehovah me disse,

Magestoso e terrivel.

«Vês tu Jerusalém como orgulhosa

«Campêa entre as nações, como no Libano

«Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce?

«Breve a minha ira transformada em raios

«Sobre ella cahirá;

«Um fero vencedor dentro em seos muros

«Tributaria a fará;

«E quando escravos seos filhos, sobre pedra

«Pedra não ficará.»

E os reprobos de sacco se vestião;

Em pó, em cinza involtos;

E collando co’a terra os torpes labios,

E açoitando co’as mãos o peito imbelle,

Senhor! Senhor!--clamavão.

E o vate emtanto o pallido semblante

Meditabundo sobre as mãos firmava,

Supplicando ao Senhor do interno d’alma.

Forão sanctos então.--Homero o mundo

Creou segunda vez,--o inferno o Dante,--

Milton o paraiso,--forão grandes!

E hoje!... em nosso exilio erramos tristes,

Mimosa esp’rança ao infeliz legando,

Maldizendo a soberba, o crime, os vicios;

E o infeliz se consola, e o grande treme.

Damos ao infante aqui do pão que temos,

E o manto além ao misero rachitico;

Somos hoje Christãos.

* * * * *

Á MORTE PREMATURA DA ILL^{ma} S^{ra} D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes

Mesure plus de maux.

LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade

Qual flôr, que anticipada foi colhida,

Murchada está da mão da sorte dura.

CAMÕES, _Soneto_.

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena,

Gozando a viração das frescas auras,

Que do Brazil os bosques brandamente

Fazião balançar,--e que espalhavão

No ether encantado odor, pureza--

Do que a rosa mais bella,--meiga e casta,

Como as virgens do sol,

Que de vezes não foi ella pendente

Dos braços fraternaes em meigo abraço;

Como mimosa flôr presa, enlaçada

A tenro arbusto que a vergontea debil

Lhe ampara docemente!...

E o Irmão que só n’ella se revia,

O Irmão que a adorava, qual se adora

Um mimo do Senhor;

Que a tinha por pharol, conforto e guia,

Os seos dias contava por encantos;

E as virtudes co’os dias pleiteavão.

E ella morreo no viço de seos annos!...

E a lagem fria e muda dos sepulchros

Se fechou sobre o ente esmorecido

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças!...

Campa! campa! que de terror incutes!

Quanto esse teo silencio me horrorisa!

E quanto se assemelha a tua calma

A do cruel malvado que impassivel

Contempla a sua victima torcer-se

Em convulsões horriveis, desesp’radas;

Crúas vascas da morte!...

Quem tão má te creou?

Tu que tragas o ente que esmorece

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças?!

O pharol se apagou! a luz sumio-se!

Como o fugaz clarão do meteóro,

Extinguio-se a esperança;--e o mal-fadado

Sobre a terra deserta em vão procura

Traços d’essa que amou, que tanto o amára;

Da joven companheira de seos brincos,

Pezares e alegrias.

Elle a procura!... o viajor pasmado

Nos campos de Pompéia, alonga a vista

Pela amplidão do praino,

Destroços e ruinas encontrando,

Onde esperava movimento e vida.

Não poder eu a troco de meu sangue

Poupar-te dessas lagrimas metade!

Oh! poder que eu podesse!--e almo sorriso,

Que tanto me compraz ver-te nos labios,

Inda uma vez brilhasse!

E essa existencia,

Que tão cara me é, t’a visse eu leda,

E feliz como a vida dos Archanjos!

Infeliz é quem chora: ella finou-se,

Porque os anjos á terra não pertencem;

Mas lá dos immortaes sobre os teos dias

A suspirada irmã vela incessante.

Vinde, candidas rosas, açucenas,

Vinde, roxas saudades;

Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas,

Que hão de a campa adornar por mim depostas

Em holocausto á victima da morte.

Innocencia, pudor, belleza e graça

Com ella n’essa campa adormecêrão.

Anjo no coração, anjo no rosto,

Devera o amor chorar sobre o teo seio,

Que não grinaldas funebres tecer-te;

Devera voz d’esposo acalentar-te

O somno da innocencia,--não grosseira

Canção de trovador não conhecido.

COIMBRA, Junho de 1841.

* * * * *

A MENDIGA.

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Et quand vous paraîtrez devant le juge austère,

Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre,

Je puis la demander aux cieux!

TURQUETY.

I.

Eu sonhei durante a noite...

Que triste foi meo sonhar!

Era uma noite medonha,

Sem estrellas, sem luar.

E ao travez do manto escuro

Das trevas, meos olhos vião

Triste mendiga formosa,

Qu’infortunios consumião.

Era uma pobre mendiga,

Porém candida donzella;

Pudibunda, affavel, doce,

Amorosa, e casta, e bella.

Vestia rotos andrajos,

Que o seo corpo mal cubrião;

Por vergonha os olhos d’ella

Sobre ella se não volvião.

Pelas costas descobertas

Cortador o frio entrava;

Tinha fome e sede,--e o pranto

Nos seus olhos borbulhava.

Cantos · 第 2 / 17 段