COLLECÇÃO DE AUTORES PORTUGUEZES.
Tomo I.
CANTOS.
COLLECÇÃO DE POESIAS
DE
A. GONÇALVES DIAS.
TERCEIRA EDICÇÃO.
COM O RETRATO DO AUTOR.
LEIPZIG:
F. A. BROCKHAUS.
1860.
AO SEO AMIGO
o
D^R. G. S. DE CAPANEMA
OFFERECE ESTA EDICÇÃO
DOS SEOS CANTOS
O AUTOR.
SIRVA DE PROLOGO.
A collecção de poesias, que agora reimprimo, vae illustrada com algumas
linhas de A. Herculano, a que devo a maior satisfação que tenho até
hoje experimentado na minha vida litteraria.
Merecer a critica de A. Herculano, já eu consideraria como bastante
honroso para mim; uma simples menção do meo primeiro volume, rubricada
com o seo nome, desejava-o de certo; mas esperal-o, seria da minha
parte demasiada vaidade.
Ora, em vez da critica inflexivel, que eu devera, mas não ousava
receiar; em vez da simples noticia do apparecimento de um volume, que
não seria de todo ruim, pois que teria merecido occupar a sua attenção;
o illustre escriptor poz por alguns momentos de parte a severidade que
tem direito de usar para com todos, quando é tão severo para comsigo
mesmo,--e, benevolamente indulgente, dirigio me algumas linhas, que me
fizerão comprehender quão alto eu reputava a sua gloria, na plenitude
de contentamento, de que as suas palavras me deixarão possuido.
O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras:
essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira
pronunciar com admiração e respeito.
Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse
artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais
razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar
nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em
serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um
thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o
escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda
maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que
nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando
digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.
Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo
bom amigo Gomes de Amorim.
Dresde 30 de Março de 1857.
FUTURO LITTERARIO DE PORTUGAL E DO BRAZIL.[1]
POR OCCASIÃO DA LEITURA DOS
PRIMEIROS CANTOS: POESIAS DO S^r A. GONÇALVES DIAS.
Bem como a infancia do homem a infancia das nações é vivida e
esperançosa; bem como a velhice humana a velhice dellas é tediosa
e melancholica. Separado da mãe patria, menos pela serie de
acontecimentos inopinados, a que uma observação superficial lhe atribue
a emancipação, do que pela ordem natural do progresso das sociedades,
o Brazil, imperio vasto, rico, destinado pela sua situação, pelo favor
da natureza, que lhe fadou a opulencia, a representar um grande papel
na historia do novo mundo, é a nação infante que sorri: Portugal é
o velho aborrido e triste, que se volve dolorosamente no seu leito
de decrepidez; que se lamenta de que os raios do sol se tornassem
frouxos, de que se encurtassem os horisontes da esperança, de que um
crepe funebre vele a face da terra. Perguntae, porêm, ao povo infante,
que cresce e se fortifica alem dos mares, que se atira ridente pelo
caminho da vida, se é verdade isso que diz o ancião na tristeza do seu
vegetar inerte, e que, encostado na borda do tumulto, deplora, pobre
tonto, o mundo que vae morrer!
Em Portugal, os espiritos que o antigo poeta designou pelo epitheto
de _bem nascidos_; aquelles que ainda tentam esquivar-se no
sanctuario da sciencia ou da poesia ao pego da podridão dissolvente que
os cerca, no meio dos seus generosos esforços chegam a illudir a Europa
com essas aspirações do futuro, que tambem nelles não são mais do que
uma illusão. As suas tentativas quasi fazem acreditar que para esta
nação moribunda ainda resta uma esperança de regeneração; que nas veias
varicosas deste corpo semi cadaver de novo se vae injectar sangue puro;
que temos ainda algum destino a cumprir antes de nos amortalhar-mos no
estandarte de D. João I. ou na bandeira de Vasco da Gama, e de irmos
emfim repousar no cemiterio da historia. O desengano chega, porêm,
em breve. O talento que forcejava por fugir do lethargo febril que
nos consome, retrocede ao entrar no templo, e volve ao lodaçal onde
agonisamos. É que a turba que ahi se debate, ou o apupa, ou lhe arroja
adiante tropeços, ou o corrompe com dadivas e promessas; e fallando-lhe
ás paixões más, ás ambições insensatas, lhe clama: vem refocilar-te no
lodo. E, desanimado ou tentado, o talento despenha-se, e attufando-se
no charco, acceita as lisonjas ou o oiro immundo, que lhe atiram,
embriaga-se com os outros perdidos, e renega da missão sacrosanta, que
se lhe destinára no ceu.
Que é feito de tantos engenhos que despontaram nesta nossa terra desde
que a imprensa libertada chamou os que sentiam chamejar em si um
espirito não vulgar ao convivio das intelligencias? Que é feito dessas
tres ou quatro épochas em que, nos ultimos quinze annos, a mocidade
parecia querer deixar inteiramente aos pequeninos homens grandes do
paiz o agitarem-se, o morderem-se, o devorarem-se acerca dos graves
interesses, das profundas questões das bolhas de sabão politicas? Que
é feito dessa phalange ardente, ambiciosa de uma gloria pura, que
principiava a exercitar-se nas lides do entendimento? De tudo isso;
de toda essa mocidade brilhante e esperançosa que resta? Algum crente
solitario, que deplora em silencio a queda de tantos archanjos. Os
outros sacerdotes, apostatando da religião das lettras, attiraram-se
á arena das facções, e manchados pela baba dos odios civis, cobertos
da lama das praças, arroxeados e sangrentos pelas punhadas do pugilato
politico, desbaratando em esforços estereis a seiva interior, la vão
disputando no meio de homens, gastos como a effigie de velha moeda,
sobre qual ha de ser a forma do ataúde, e como se talhará a mortalha,
em que o cadaver de Portugal deve descer á sepultura. Que outra coisa,
de feito, ha ahi sobre que se dispute ainda?
Por isso, quando vejo começar a surgir entre nós um novo poeta; quando
oiço a primeira harmonia que sussurra nas cordas de lyra noviça,
quizera poder chegar-me escondidamente ao descuidado e inexperiente
cantor, e dizer-lhe ao ouvido: Cala-te, alma virgem e bella; cala-te,
que estás n’um prostibulo! Olha que _elles_ não te ouçam! Se o teu
hymno reboar por essas torpes alcovas, sabe que pouco tardará a hora de
te prostituires.
O poeta portuguez d’hoje é a avezinha que enlevada nos seus gorgeios
se balança depois do pôr do sol no ramo do ulmeiro pendente sobre o
rio. As outras voaram para os seus ninhos, e ella deixou vir a noite,
e ficou alli, triste, só, desconsolada, soltando a espaços um doloroso
pio.
Poeta, n’esta terra é noite! Por que não te acolheste ao teu ninho?
Agora o que te resta é morrer. Vae abrigar-te entre os orbes; vae
derramar em canções a tua alma no seio immenso de Deos. Ahi é que
sempre é dia.
Nós somos hoje o hilota embriagado, que se punha defronte da meza nas
philitias de Sparta, para servir de licção de sobriedade aos mancebos.
O Brazil é a moderna Sparta, de que Portugal é a moderna Helos.
Estas amarguradas cogitações surgiram-me na alma, com a leitura de
um livro impresso o anno passado no Rio de Janeiro, e intitulado:
_Primeiros Cantos: Poesias por A. Gonçalves Dias._ N’aquelle paiz
de esperanças, cheio de viço e de vida, ha um ruido de lavor intimo,
que sôa tristemente cá, n’esta terra onde tudo acaba. A mocidade,
despregando o estandarte da civilisação, prepara-se para os seus graves
destinos pela cultura das lettras; arroteia os campos da intelligencia;
aspira as harmonias dessa natureza possante que a cerca; concentra
n’um foco todos os raios vivificantes do formoso ceu, que a allumina;
prova forças emfim para algum dia renovar pelas ideias a sociedade,
quando passar a geração dos homens _praticos e positivos_,
raça que lá deve predominar ainda; por que a sociedade brazileira,
vergontea separada ha tão pouco da carcomida arvore portugueza, ainda
necessariamente conserva uma parte do velho cepo. Possa o renovo dessa
vergontea, transplantada da Europa para entre os tropicos, prosperar e
viver uma bem longa vida, e não decahir tão cedo como nós decahimos!
É geralmente sabido que o jovem imperador do Brazil dedica todos os
momentos que pode salvar das occupações materiaes de chefe do Estado ao
culto das lettras. Mancebo, prende-se á mocidade, aos homens do futuro,
por laços que de certo as revoluções não hão de quebrar; porque o
progresso social não virá accomettel-o inopinadamente nas suas crenças
e habitos. Quando a ideia se encarnar na realidade, o seu espirito como
as outras intelligencias que o rodeiam, ter-se-ha alimentado della, e
saudará como os seus mais alumiados subditos o pensamento progressivo.
Não notaes n’estas tendencias do moço principe um symbolo do presente,
e uma prophecia consoladora acerca do porvir do Brazil?
A imprensa na antiga America portugueza, balbuciante ha dois dias,
já ultrapassa a imprensa da terra que foi metropole. Ás publicações
periodicas, primeira expressão de uma cultura intellectual que se
desinvolve, começam a associar-se as composições de mais alento--os
livros. Ajuncte-se a este facto outro, o ser o Brazil o mercado
principal do pouco que entre nós se imprime, e será facil conjecturar
que no dominio das lettras, como em importancia e prosperidade, as
nossas emancipadas colonias nos vão levando rapidamente de vencida.
Por si sós esses factos provariam antes a nossa decadencia, que o
progresso litterario do Brazil. É um mancebo vigoroso que derriba um
velho cachetico, demente e paralitico. O que completa, porêm, a prova
é o exame não comparativo, mas absoluto, de algumas das modernas
publicações brazileiras.
Os _Primeiros Cantos_ são um bello livro; são inspirações de um
grande poeta. A terra de Sancta Cruz que já conta outros no seu seio,
pode abençoar mais um illustre filho.
O auctor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos
do escriptor ainda pouco amestrado pela experiencia: imperfeições de
lingua, de metrificação, de estylo. Que importa? O tempo apagará essas
maculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas paginas deste
formoso livro.
Quizeramos que as _Poesias Americanas_ que são como o portico do
edificio occupassem nelle maior espaço. Nos poetas transatlanticos ha
por via de regra demasiadas reminiscencias da Europa. Esse Novo Mundo
que deu tanta poesia a Saint-Pierre e a Chateaubriand é assaz rico para
inspirar e nutrir os poetas que crescerem á sombra das suas selvas
primitivas.
Como argumento disso, como exemplo da verdadeira poesia nacional do
Brazil citarei aqui dous trechos das _Poesias Americanas_: o Canto
do Guerreiro e um fragmento _Morro do Alecrim_.
(Aqui vem transcripta por inteiro a poesia intitulada «O canto do
Guerreiro» (pag. 4) e as ultimas strophes do «Morro do Alecrim».)
Abstendo-me de outras citações, que occupariam demasiado espaço, não
posso resistir a tentação de transcrever das _Poesias Diversas_
uma das mais mimosas composições lyricas, que tenho lido na minha vida.
(Aqui vem transcripta a poesia intitulada «Seos olhos». Veja-se pag.
19.)
Se estas poucas linhas, escriptas de abundancia de coração, passarem
os mares, receba o auctor dos _Primeiros Cantos_ o testemunho
sincero de sympathia, que a leitura do seu livro arrancou a um homem,
que o não conhece, que provavelmente não o conhecerá nunca, e que
não costuma nem dirigir aos outros elegios _encommendados_, nem
pedil-os para si.
Lisboa (Ajuda) 30 de Novembro de 1847.
A. HERCULANO.
PRIMEIROS CANTOS.
PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.
Dei o nome de “_Primeiros Cantos_” ás poesias que agora publíco,
porque espero que não serão as ultimas.
Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço
regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação
portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu
pretendia exprimir.
Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em
epochas diversas--debaixo de céo diverso--e sob a influencia de
impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego
e nos pincaros ennegrecidos do Gerez--no Doiro e no Tejo--sobre as
vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para
mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ...
é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa
arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa
e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim
desperta a vista de uma paisagem ou do oceano--o aspecto emfim da
natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento--o coração com o
entendimento--a idéa com a paixão--colorir tudo isto com a imaginação,
fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o
sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia--a Poesia grande e
sancta--a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a
sinto sem a poder traduzir.
O esforço--ainda vão--para chegar a tal resultado é sempre digno de
louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o
julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em
acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.
Rio de Janeiro--Julho de 1846.
INDICE.
Pag.
Sirva de Prologo vii
Futuro litterario de Portugal e do Brazil,
artigo do Sr. A. Herculano ix
Prologo da primeira edicção dos Primeiros Cantos xv
PRIMEIROS CANTOS.
POESIAS AMERICANAS.
Canção do Exilio 3
O Canto do Guerreiro 4
O Canto do Piaga 7
O Canto do Indio 9
Cachias 11
Deprecação 12
POESIAS DIVERSAS.
A Leviana 14
A minha Musa 15
Desejo 19
Seos olhos 19
Innocencia 21
Pedido 22
O Desengano 23
Minha vida e meos amores 24
Recordação 27
Tristeza 28
O Trovador 30
Amor! delirio--engano 34
Delirio 37
Epicedio 39
Soffrimento 41
VISÕES.
I. Prodigio 43
II. A Cruz 44
III. Passamento 46
IV. ---- 50
V. A Morte 53
O Vate 55
A morte prematura da Ill^{ma} S^{ra} D..... 57
A Mendiga 59
A Escrava 63
Ao Dr. J. D. Lisboa Serra 66
O Desterro de um pobre velho 68
O Orgulhoso 71
O Cometa 72
O Oiro 73
A um Menino 74
O Pirata 77
A Villa Maldicta 81
Quadras da minha vida. Recordação e desejo 87
HYMNOS.
O Mar 95
Ideia de Deos 97
O romper d’alva 100
A tarde 103
O Templo 107
Te Deum 109
Adeos aos meos Amigos do Maranhão 110
SEGUNDOS CANTOS.
Consolação nas lagrimas 115
Canção 116
Lyra 117
Agora e sempre 118
A Virgem 119
Rosa no mar! 121
O Amor 123
Sempre ella 124
Mimosa e bella 126
As duas amigas 128
Sonho 130
Solidão 131
A um Poeta exilado 134
Palinodia 135
Os suspiros 139
Queixumes 141
Ao Anniversario de um casamento 145
Canto inaugural.--A memoria do Conego J. de C. Barbosa 146
Tabyra. Aos Pernambucanos 149
Tabyra (Poesia Americana) 150
A Lua 157
A Noite 160
A Tempestade 162
NOVOS CANTOS.
O homem forte 169
Dies irae 170
Espera! 172
A Saudade 174
Não me deixes! 176
Zulmira 177
A uma Poetiza 178
Angelina 178
Rola 180
Ainda uma vez--adeos! 181
O Somno 186
Se eu fosse querido! 186
A flôr do amor 187
A sua voz 190
Se se morre de amor! 191
A morte é vária 193
SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.
Loa da Princeza Sancta 196
Gulnare e Mustaphá 211
Soláo do Senhor Rey Dom João 240
Soláo de Gonçalo Hermiguez 251
ULTIMOS CANTOS.
Dedicatoria ao meo amigo A. T. de Carvalho Leal 271
POESIAS AMERICANAS.
I. O Gigante de pedra 275
II. Leito de folhas verdes 280
III. Y-juca-pyrama 281
IV. Marabá 296
V. Canção do Tamoyo 298
VI. A Mangueira 301
VII. A Mãe d’agua 302
POESIAS DIVERSAS.
Nenia á morte sentidissima do Serenissimo Principe Imperial,
o Senhor D. Pedro 310
Olhos verdes 314
Cumprimento de um voto 316
Lyra quebrada 318
A Pastora 319
A Infancia 322
Urge o tempo 325
Sobre o tumulo de um menino 326
Menina e moça 326
Como eu te amo 327
As duas corôas 330
Harpejos 333
Triste do Trovador 335
Velhice e mocidade 336
As flores 341
O que mais dóe na vida 344
Flôr de belleza 346
O Anjo da harmonia 348
A Historia 349
A concha e a virgem 350
Sei amar 351
Amanhã 352
Por um ai 353
Protesto--(Imitação de uma poesia javaneza) 355
Fadario 357
O assassino 359
A uns annos 361
Quando nas horas 362
Retractação 366
Anhelo 369
Que me pedes 370
O Ciume 370
A Nuvem doirada 373
Sonho de virgem 374
Meo anjo, escuta 378
Os beijos 379
Desesperança 381
Se queres que eu sonhe 383
O Baile 385
Desalento 387
A queda de Satanaz 390
Canção da Bug-Jargal 392
Agar no deserto 394
HYMNO.
O meo Sepulchro 404
Saudades á minha Irmã 410
Notas 417
PRIMEIROS CANTOS.
POESIAS AMERICANAS.
Les infortunes d’un obscur habitant des bois auraient-elles moins de
droits à nos pleurs que celles des autres hommes?
CHATEAUBRIAND.
* * * * *
CANÇÃO DO EXILIO.
Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn?
Kennst Du es wohl?--Dahin, dahin!
Möcht’ ich ... ziehn.
GOETHE.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorgeião,
Não gorgeião como lá.
Nosso céo tem mais estrellas,
Nossas varzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em scismar, sósinho, á noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que taes não encontro eu cá;
Em scismar--sósinho, á noite--
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permitta Deos que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfructe os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
COIMBRA--Julho 1843.
* * * * *
O CANTO DO GUERREIRO.
I.
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não gerão escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
--Ouvi-me, Guerreiros,
--Ouvi meo cantar.
II.
Valente na guerra
Quem ha, como eu sou?
Quem vibra o tacápe
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
--Guerreiros, ouvi-me;
--Quem ha, como eu sou?
III.
Quem guia nos ares
A frexa implumada,
Ferindo uma preza,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
--Guerreiros, ouvi-me,
--Ouvi meo cantar.
IV.
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seos feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
--Guerreiros, ouvi-me:
--Quem ha, como eu sou?
V.
Na caça ou na lide,
Quem ha que me affronte?!
A onça raivosa
Meos passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céo.
--Quem ha mais valente,
--Mais dextro do que eu?
VI.
Se as matas estrujo
Co’os sons do Boré,
Mil arcos se encurvão,
Mil setas lá vôão,
Mil gritos rebôão,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
--Quem é mais valente,
--Mais forte quem é?
VII.
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruido:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
D’uma ave a cantar,
São elles--guerreiros,
Que faço avançar.
VIII.
E o Piaga se ruge
No seo Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frexados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viverão,
Mil homens são lá.
IX.
E então se de novo
Eu tóco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal elles se escôão
Aos sons do Boré.
--Guerreiros, dizei-me,
--Tão forte quem é?
* * * * *
O CANTO DO PIAGA.
I.
Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da tribu Tupi,
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi.
Esta noite--era a lua já morta--
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrivel caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodigios que vi!
Arde o páo de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o accendi!
Eis rebenta a meos pés um phantasma,
Um phantasma d’immensa extensão;
Liso craneo repousa a meo lado,
Feia cóbra se enrosca no chão.
O meo sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro--ossos, carnes--tremi,
Frio horror me côou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi!
II.
Porque dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a fallar,
Porque dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céos um negrume
Toda a face do sol offuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estridulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem--vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te prohibe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não pódes augurios cantar?!
Ouve o annuncio do horrendo phantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugirão da Taba!
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!
III.
Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, hi vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas taes monstros contêm.
Trás embira dos cimos pendente
--Brenha espessa de vario cipó--
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Taes e quaes, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas azas abrindo ao tufão,
Como um bando de candidas garças,
Que nos ares pairando--lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das aguas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro...--o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade--
Dons crueis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por invio sertão;
Anhangá de prazer ha de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deoses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugirão da Taba,
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!
* * * * *
O CANTO DO INDIO.
Quando o sol vae dentro d’agoa
Seos ardores sepultar,
Quando os passaros nos bosques
Principião a trinar;
Eu a vi, que se banhava....
Era bella, ó Deoses, bella,
Como a fonte cristallina,
Como luz de meiga estrella.
Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa,
Porque eu te visse assim, como te via,
Calcára agros espinhos sem queixar-me,
Que antes me dera por feliz de ver-te.
O tacápe fatal em terra estranha
Sobre mim sem temor veria erguido;
Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto
Nas agoas, como a lua, retratado.
Eis que os seos loiros cabellos
Pelas agoas se espalhavão,
Pelas agoas, que de vel-os
Tão loiros se enamoravão.
Ella erguia o collo eburneo,
Porque melhor os colhesse;
Niveo collo, quem te visse,
Que de amores não morresse!
Passára a vida inteira a contemplar-te,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,
Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto,
Sem que o som do Boré que incita á guerra
Me infiltrasse o valor que m’has roubado,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.
As vezes, quando um sorriso
Os labios seos entreabria,
Era bella, oh! mais que a aurora
Quando a raiar principia.
Outra vez--d’entre os seos labios
Uma voz se desprendia;
Terna voz, cheia de encantos,
Que eu entender não podia.
Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma
Sentir d’amores tão sereno e fundo,
Que a vida me prendeo, vontade e força.
Ah! que não queiras tu viver commigo,
Ó Virgem dos Christãos, Virgem formosa!
Sobre a areia, já mais tarde,
Ella surgio toda núa;
Onde ha, ó Virgem, na terra
Formosura como a tua?
Bem como gotas de orvalho
Nas folhas de flôr mimosa,
Do seo corpo a onda em fios
Se deslizava amorosa.
Ah! que não queiras tu vir ser rainha
Aqui dos meos irmãos, qual sou rei delles!
Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa.
Odeio tanto aos teos, como te adóro;
Mas queiras tu ser minha, que eu prometto
Vencer por teo amor meo odio antigo,
Trocar a maça do poder por ferros
E ser, por te gozar, escravo delles.
* * * * *
CACHIAS.
Quanto es bella, ó Cachias!--no deserto,
Entre montanhas, derramada em valle
De flores perennaes,
Es qual tenue vapor que a brisa espalha
No frescor da manhã meiga soprando
Á flor de manso lago.
Tu es a flor que despontaste livre
Por entre os troncos de robustos cédros,
Forte--em gleba inculta;
Es qual gazella, que o deserto educa,
No ardor da sésta debruçada exangue
Á margem da corrente.
Em molle seda as graças não escondes,
Não cinges d’oiro a fronte que descanças
Na base da montanha;
Es bella como a virgem das florestas,
Que no espelho das aguas se contempla,
Firmada em tronco annoso.
Mas dia inda virá, em que te pejes
Dos, que ora trajas, simplices ornatos
E amavel desalinho:
Da pompa e luxo amiga, hão de cahir-te
Aos pés então--da poesia a c’roa
E da innocencia o cinto.
* * * * *
DEPRECAÇÃO.
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz!
Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande mudança.
Anhangá impiedoso nos trouxe de longe
Os homens que o raio manejão cruentos,
Que vivem sem patria, que vagão sem tino
Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.
E a terra em que pisão, e os campos e os rios
Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos:
Por que lhes concedes tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibrão, são teos?
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz.
Teos filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
E hoje em que apenas a enchente do rio
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão
Dos seos, que já dormem, os ossos levar.
Teos filhos valentes causavão terror,
Teos filhos enchião as bordas do mar,
As ondas coalhavão de estreitas igáras,
De frexas cobrindo os espaços do ar.
Já hoje não cáção nas matas frondosas
A corça ligeira, o trombudo coati...
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
O Piaga nos disse que breve seria,
A que nos infliges cruel punição;
E os teos inda vagão por serras, por valles,
Buscando um asilo por invio sertão!
Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande tardança.
Descobre o teo rosto, resurjão os bravos,
Que eu vi combatendo no albor da manhã;
Conheção-te os feros, confessem vencidos
Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!
* * * * *
POESIAS DIVERSAS.
* * * * *
A LEVIANA.
Souvent femme varie,
Bien fol est qui s’y fie.
FRANCISCO I.
Es engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mez d’Abril;
Es como a nuvem doirada
Deslisada,
Deslisada em céos d’anil.
Tu es vária e melindrosa,
Qual formosa
Borboleta n’um jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.
Es pura, como uma estrella
Doce e bella,
Que treme incerta no mar;
Mostras nos olhos tua alma
Terna e calma,
Como a luz d’almo luar.
Tuas formas tão donosas,
Tão airosas,
Formas da terra não são;
Pareces anjo formoso,
Vaporoso,
Vindo da etherea mansão.
Assim, beijar-te receio,
Contra o seio
Eu tremo de te apertar;
Pois me parece que um beijo
É sobejo
Para o teo corpo quebrar.
Mas não digas que es so minha!
Passa azinha
A vida, como a ventura,
Que te não vejão brincando,
E folgando
Sobre a minha sepultura.
Tal os sepulcros colora
Bella aurora
De fulgores radiante;
Tal a vaga maripôsa
Brinca e pousa
D’um cadaver no semblante.
* * * * *
A MINHA MUSA.
Gratia, Musa, tibi; nam tu solatia praebes.
OVIDIO.
Minha Musa não é como nympha
Que se eleva das agoas--gentil--
Co’um sorriso nos labios mimosos,
Com requebros, com ar senhoril.
Nem lhe pouza nas faces redondas
Dos fagueiros anhelos a cor;
N’esta terra não tem uma esp’rança,
N’esta terra não tem um amor.
Como fada de meigos encantos,
Não habita um palacio encantado,
Quer em meio de matas sombrias,
Quer á beira do mar levantado.
Não tem ella uma senda florida,
De perfumes, de flores bem cheia,
Onde vague com passos incertos,
Quando o céo de luzeiros se arreia.
* * * * *
Não é como a de Horacio a minha Musa;
Nos soberbos alpendres dos Senhores
Não é que ella reside;
Ao banquete do grande em lauta mesa,
Onde gira o falerno em taças d’oiro,
Não é que ella preside.
Ella ama a solidão, ama o silencio,
Ama o prado florido, a selva umbrosa
E da rola o carpir.
Ella ama a viração da tarde amena,
O susurro das agoas, os accentos
De profundo sentir.
D’Anacreonte o genio prazenteiro,
Que de flores cingia a fronte calva
Em brilhante festim,
Tomando inspirações á doce amada,
Que leda lh’enflorava a eburnea lyra;
De que me serve, a mim?
Canções que a turba nutre, inspira, exalta
Nas cordas magoadas me não pousão
Da lyra de marfim.
Correm meos dias, lacrimosos, tristes,
Como a noite que estende as negras azas
Por céo negro e sem fim.
É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d’amargo pranto
D’orfã singela;
É triste como o som que a brisa espalha,
Que cicia nas folhas do arvoredo
Por noite bella.
É triste como o som que o sino ao longe
Vai perder na extensão d’ameno prado
Da tarde no cahir,
Quando nasce o silencio involto em trevas,
Quando os astros derramão sobre a terra
Merencorio luzir.
Ella então, sem destino, erra por valles,
Erra por altos montes, onde a enchada
Fundo e fundo cavou;
E pára; perto, jovial pastora
Cantando passa--e ella scisma ainda
Depois que esta passou.
Alem--da chóça humilde s’ergue o fumo
Que em risonha spiral se eleva ás nuvens
Da noite entre os vapores;
Muge solto o rebanho; e lento o passo,
Cantando em voz sonora, porém baixa,
Vêm andando os pastores.
Outras vezes tambem, no cemiterio,
Incerta volve o passo, soletrando
Recordações da vida;
Roça o negro cipreste, calca o musgo,
Que o tempo fez brotar por entre as fendas
Da pedra carcomida.
Então corre o meo pranto muito e muito
Sobre as humidas cordas da minha Harpa,
Que não resôão;
Não chóro os mortos, não; chóro os meos dias,
Tão sentidos, tão longos, tão amargos,
Que em vão se escôão.
Nesse pobre cemiterio
Quem já me dera um logar!
Esta vida mal vivida
Quem já m’a dera acabar!
Tenho inveja ao pegureiro,
Da pastora invejo a vida,
Invejo o somno dos mortos
Sob a lage carcomida.
Se qual pegão tormentoso,
O sopro da desventura
Vae bater potente á porta
De sumida sepultura;
Uma voz não lhe responde,
Não lhe responde um gemido,
Não lhe responde uma prece,
Um ai--do peito sentido.
Já não têm voz com que fallem,
Já não têm que padecer;
No passar da vida á morte
Foi seo extremo soffrer.
Que lh’importa a desventura?
Ella passou, qual gemido
Da brisa em meio da mata
De verde alecrim florido.
Quem me dera ser como elles!
Quem me dera descansar!
Nesse pobre cemiterio
Quem me dera o meo logar,
E co’os sons das Harpas d’anjos
Da minha Harpa os sons casar!
* * * * *
DESEJO.
E poi morir.
METASTASIO.
Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Siquer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meo!
Dá, Senhor Deos, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meo sentir;
Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meo silencio, que me siga
Dos ares na amplidão!
Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céos remontem
N’um extasis de amor!
* * * * *
SEOS OLHOS.
Oh! rouvre tes grande yeux dont la paupière tremble,
Tes yeux pleins de langueur;
Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble!
Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble
Que tu fermes ton coeur.
TURQUETY.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrellas incertas, que as agoas dormentes
Do mar vão ferir;
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Tem meiga expressão,
Mais doce que a briza,--mais doce que o nauta
De noite cantando,--mais doce que a frauta
Quebrando a soidão,
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.
São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travêssos;--causando tormento,
Com beijos nos págão a dôr de um momento,
Com modo gentil.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Assim é que são;
A vezes luzindo, serenos, tranquillos,
As vezes vulcão!
As vezes, oh! sim, derramão tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes fallece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece,
Me fazem chorar.
Assim lindo infante, que dorme tranquillo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, scismando mil coisas,
Não pensa--a pensar.
Nas almas tão puras da virgem, do infante,
As vezes do céo
Cae doce harmonia d’uma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se véste
De pranto co’um véo.
Quer sejão saudades, quer sejão desejos
Da patria melhor;
Eu amo seos olhos que chórão sem causa
Um pranto sem dôr.
Eu amo seos olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seos olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que fallão de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo essos olhos que fallão de amores
Com tanta paixão.
* * * * *
INNOCENCIA.
Sans nommer le nom qu’il faut bénir et taire.
S. BEUVE.
Ó meo anjo, vem correndo,
Vem tremendo
Lançar-te nos braços meos;
Vem depressa, que a lembrança
Da tardança
Me aviva os rigores teos.
Do teo rosto, qual marfim,
De carmim
Tinge um nada a côr mimosa;
É bello o pudor, mas chóro,
E deploro
Que assim sejas tão medrosa.
Por innocente tens medo
De tão cedo,
De tão cedo ter amor;
Mas sabe que a formosura
Pouco dura,
Pouco dura, como a flôr.
Corre a vida pressurosa,
Como a rosa,
Como a rosa na corrente.
Amanhã terás amor?
Como a flôr,
Como a flôr fenece a gente.
Hoje ainda es tu donzella
Pura e bella,
Cheia de meigo pudor;
Amanhã menos ardente
De repente
Talvez sintas meo amor.
* * * * *
PEDIDO.
Hontem no baile
Não me attendias!
Não me attendias,
Quando eu fallava.
De mim bem longe
Teo pensamento!
Teo pensamento,
Bem longe errava.
Eu vi teos olhos
Sobre outros olhos!
Sobre outros olhos,
Que eu odiava.
Tu lhe sorriste
Com tal sorriso!
Com tal sorriso,
Que apunhalava.
Tu lhe fallaste
Com voz tão doce!
Com voz tão doce,
Que me matava.
Oh! não lhe falles,
Não lhe sorrias,
Se então só qu’rias
Exp’rimentar-me.
Oh! não lhe falles,
Não lhe sorrias,
Não lhe sorrias,
Que era matar-me.
* * * * *
O DESENGANO.
Já vigilias passei namorado,
Doces horas d’insomnia passei,
Já meos olhos, d’amor fascinado,
Em vêr só meo amor empreguei.
Meo amor era puro, extremoso,
Era amor que meo peito sentia,
Erão lavas de um fogo teimoso,
Erão notas de meiga harmonia.
Harmonia era ouvir sua voz,
Era ver seo sorriso harmonia;
E os seos modos e gestos e ditos
Erão graças, perfume e magia.
* * * * *
E o que era o teo amor, que me embalava
Mais do que meigos sons de meiga lyra?
Um dia o decifrou--não mais que um dia--
Fingimento e mentira!
Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia,
Como uma flôr!
Porque tão cedo o talisman quebraste
Do nosso amor?
Porque n’um só instante assim partiste
Essa annosa cadeia?
De bom grado a soffreste! essa lembrança
Inda hoje me recreia.
Quão insensato fui!--busquei firmeza,
Qual em ondas de areia movediça,
Na mulher,--não achei!
E da esp’rança, que eu via tão donosa
Sorrir dentro em minha alma, as longas azas
Doido e nescio cortei!
E tu vás caprixosa proseguindo
Essa esteira de amor, que julgas cheia
De flôres bem gentis;
Pódes ir, que os meos olhos te não vejão;
Longe, longe de mim, mas que em minha alma
Eu sinta qu’es feliz.
Pódes ir, que é desfeito o nosso laço,
Pódes ir, que o teo nome nos meos labios
Nunca mais soará!
Sim, vai;--mas este amor que me atormenta,
Que tão grato me foi, que me é tão duro,
Commigo morrerá!
Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia
Como uma flôr!
Oh! que bem cedo o talisman quebraste
Do nosso amor!
* * * * *
MINHA VIDA E MEOS AMORES.
Mon Dieu, fais que je puisse aimer!
S. BEUVE.
Quando, no albor da vida, fascinado
Com tanta luz e brilho e pompa e gallas,
Vi o mundo sorrir-me esperançoso:
--Meo Deos, disse entre mim, oh! quanto é doce,
Quanto é bella esta vida assim vivida!--
Agora, logo, aqui, além, notando
Uma pedra, uma flôr, uma lindeza,
Um seixo da corrente, uma conxinha
A beiramar colhida!
Foi esta a infancia minha; a juventude
Fallou-me ao coração:--amemos, disse,
Porque amar é viver.
E esta era linda, como é linda a aurora
No fresco da manhã tingindo as nuvens
De rosea côr fagueira;
Aquella tinha um quê de anhelos meigos
Artifice sublime;
Feiticeiro sorrir dos labios della
Prendeo-me o coração;--julguei-o ao menos.
Aquella outra sorria tristemente,
Como um anjo no exilio, ou como o calix
De flôr pendida e murcha e já sem brilho.
Humilde flôr tão bella e tão cheirosa,
No seo deserto perfumando os ventos.
--Eu morrêra feliz, dizia eu d’alma,
Se podesse enxertar uma esperança
N’aquella alma tão pura e tão formosa,
E um alegre sorrir nos labios della.
A fugaz borboleta as flôres todas
Elege, e liba e uma e outra, e foge
Sempre em novos amores enlevada;
N’este meo paraiso fui como ella,
Inconstante vagando em mar de amores.
O amor sincero e fundo e firme e eterno,
Como o mar em bonança meigo e doce,
Do templo como a luz perenne e sancto,
Não, nunca o senti;--somente o viço
Tão forte dos meos annos, por amores
Tão faceis quanto indi’nos fui trocando.
Quanto fui louco, ó Deos!--Em vez do fructo
Sasonado e maduro, que eu podia
Como em jardim colher, mordi no fructo
Putrido e amargo e rebuçado em cinzas,
Como infante glotão, que se não senta
Á mesa de seos paes.
Dá, meo Deos, que eu possa amar,
Dá que eu sinta uma paixão,
Torna-me virgem minha alma,
E virgem meo coração.
Um dia, em qu’eu sentei-me junto della,
Sua voz murmurou nos meos ouvidos,
--Eu te amo!--Ó anjo, que não possa eu crer-te!
Ella, certo, não é mulher que vive
Nas fezes da deshonra, em cujos labios
Só mentira e traição eterno habitão.
Tem uma alma innocente, um rosto bello,
E amor nos olhos...--mas não posso crê-la.
Dá, meo Deos, que eu possa amar,
Dá que eu sinta uma paixão;
Torna-me virgem minha alma,
E virgem meo coração.
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo
Terna voz lhe escutei:--Sonhei comtigo!
Ineffavel prazer banhou meo peito,
Senti delicias; mas a sós commigo
Pensei--talvez!--e já não pude crê-la.
Ella tão meiga e tão cheia de encantos,
Ella tão nova, tão pura e tão bella...
Amar-me!--Eu que sou?
Meos olhos enxérgão, em quanto duvída
Minha alma sem crença, de força exhaurida,
Já farta da vida,
Que amor não doirou.
Máo grado meo, crer não posso,
Máo grado meo que assim é;
Queres ligar-te commigo
Sem no amor ter crença e fé?
Antes vai collar teo rosto,
Collar teo seio nevado
Contra o rosto mudo e frio,
Contra o seio d’um finado.
Ou supplíca a Deos commigo
Que me dê uma paixão;
Que me dê crença á minha alma,
E vida ao meo coração.
* * * * *
RECORDAÇÃO.
Nessun maggior dolore....
DANTE.
Quando em meo peito as afflicções rebentão
Eivadas de soffrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em circulos de ferro, com tal força,
Que delle o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de soffrer cançada,
Bem que affeita a soffrer, siquer não pode
Clamar: Senhor piedade;--e que os meos olhos
Rebeldes, uma lagrima não vertem
Do mar d’angustias que meo peito opprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso
Que a sós comtigo, em pratica serena,
Melhor futuro me augurava, as doces
Palavras tuas, sofregos, attentos
Sorvendo meos ouvidos,--nos teos olhos
Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastára ainda
Porque de os ver me saciasse!... O pranto
Então dos olhos meos corre espontaneo,
Que não mais te verei.--Em tal pensando
De martyrios calar sinto em meo peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto soffre.
* * * * *
TRISTEZA.
Que leda noite!--Este ar embalsamado,
Este silencio harmonico da terra
Que sereno prazer n’alma cançada
Não expreme, não filtra, não diffunde?
A brisa lá susurra na folhagem
D’espessas matas, d’arvores robustas,
Que velão sempre e sós, que a Deos elevão
Mysterioso côro, que do Bardo
A crença quasi morta inda alimenta.
É esta a hora magica de encantos,
Hora d’inspirações dos céos descidas,
Que em delirio de amor aos céos remontão.
Aqui da vida as lastimas infindas,
Do myrrado egoismo a voz ruidosa
Não chegão; nem soluços, risos, festas,
--Hilaridade vã de turba incauta,
Nescia de ruim futuro; ou queixa amarga
Do decrepito velho, enfermo, exangue,
Nem do mancebo os ais doídos, preso
Ao leito do soffrer na flôr da vida.
Aqui reina o silencio, o religioso,
Morno socego, que povôa as ruinas,
E o mausoléo soberbo, carcomido,
E o templo magestoso, em cuja nave
Suspira ainda a nota maviosa,
O derradeiro arfar d’orgão solemne.
Em puro céo a lua resplandece,
Melancolica e pura, simelhando
Gentil viuva que pranteia o extincto,
O bello esposo amado, e vem de noite,
Vivendo pelo amor, máo grado a morte,
Ferventes orações chorar sobre elle.
Eu amo o céo assim, sem uma estrella,
Azul sem mancha,--a lua equilibrada
N’um céo de nuvens, e o frescor da tarde,
E o silencio da noite adormecida,
Que imagens vagas de prazer desenha.
Amo tudo o que dá no peito e n’alma
Tregoas ao recordar, tregoas ao pranto,
Á v’hemencia da dôr, á pertinacia
Tenaz e acerba de crueis lembranças;
Amo estar só com Deos, porque nos homens
Achar não pude amor, nem pude ao menos
Signal de compaixão achar entre elles.
Menti!--um inda achei; mas este em ocio
Feliz descança agora, em quanto aos ventos
E ao cru furor das verde-negras ondas
Da minha vida a barca aventureira
Insano confiei; em céo diverso
Luzem com luz diversa estrellas d’ambos.
Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava
As duas uma só,--co’o mesmo brilho
Uma e outra nos céos meigas brilhavão!
Hoje scintilla a delle, em quanto a minha
Entre nuvens, sem luz, se perde agora.
Meo Deos, foi bom assim! No immenso pégo
Mais uma gota d’amargor que importa?
Que importa o fel na taça do absyntho,
Ou uma dôr de mais onde outras reinão?
* * * * *
O TROVADOR.
Elle cantava tudo o que merece de
ser cantado; o que ha na terra de grande
e de sancto--o amor e a virtude.--
N’uma terra antigamente
Existia um Trovador;
Na Lyra sua innocente
Só cantava o seo amor.
Nenhum saráo se acabava
Sem a Lyra de marfim,
Pois cantar tão alto e doce
Nunca alguem ouvira assim.
E quer donzella, quer dona,
Que sentira commoção
Pular-lhe n’alma, escutando
Do Trovador a canção;
De jasmins e de açucenas
A fronte sua adornou;
Mas só a rosa da amada
Na Lyra amante poisou.
E o Trovador conheceo
Que era trahido--por fim;
Poz-se a andar, e só se ouvia
Nos seus labios: ai de mim!
Enlutou de negro fumo
A rosa de seo amor,
Que meia occulta se via
Na gorra do Trovador;
Como virgem bella, morta
Da idade na linda flôr,
Que parece, o dó trajando,
Inda sorrir-se de amor.
No meio do seo caminho
Gentil donzella encontrou:
Canta--disse; e as cordas d’oiro
Vibrando, a triste cantou.
«Teo rosto engraçado e bello
«Tem a lindeza da flôr;
«Mas é risonho o teo rosto:
«Não tens de sentir amor!
«Mas tão bem por esse dia
«Que viverás, como a flôr,
«Mimosa, engraçada e bella,
«Não tens de sentir amor!
«Oh! não queiras, por Deos, homem que tenha
«Tingida a larga testa de pallor;
«Sente fundo a paixão,--e tu no mundo
«Não tens de sentir amor!
«Sorriso jovial te enfeita os labios,
«Nas faces de jasmim tens rosea côr;
«Fundo amor não se ri, não é corado...
«Não tens de sentir amor;
«Mas se queres amar, eu te aconselho,
«Que não guerreiro, escolhe um trovador,
«Que não tem um punhal, quando é trahido,
«Que vingue o seu amor.»
Do Trovador pelo rosto
Torva raiva se espalhou,
E a Lyra sua, tremendo,
Sem cordas d’oiro ficou.
Mais além no seo caminho
Donzel garboso encontrou:
Canta--disse; e argenteas cordas
Pulsando, o triste cantou.
«Aos homens da mulher enganão sempre
«O sorriso, o amor;
«É este breve, como é breve aquelle
«Sorriso enganador.
«Teo peito por amor, Donzel, suspira,
«Que é de jovens amar a formosura;
«Mas sabe que a mulher, que amor te jura,
«Dos lindos labios seos cospe a mentira!
«Já frenetico amor cantei na lyra,
«Delicias já sorvi n’um seo sorriso,
«Já venturas fruí do paraiso,
«Em terna voz de amor, que era mentira!
«O amor é como a aragem que murmura
«Da tarde no cahir--pela folhagem;
«Não volta o mesmo amor á formosura,
«Bem como nunca volta a mesma aragem.
«Não queiras amar, não; pois que a ’sperança
«Se arroja além do amor por largo espaço.
«Tens, brillando ao sol, a forte lança,
«Tens longa espada scintillante d’aço.
«Tens a fina armadura de Milão,
«Tens luzente e brillante capacete,
«Tens adága e punhal e bracelete
«E, qual lúcido espelho, o morrião.
«Tens fogoso corsel todo arreiado,
«Que mais veloz que os ventos sorve a terra;
«Tens duellos, tens justas, tens torneios,
«Que os fracos corações de medo cerra;
«Tens pagens, tens varletes e escudeiros
«E a marcha afoita, apercebida em guerra
«Do luzido esquadrão de mil guerreiros.
«Oh! não queiras amar!--Como entre a neve
«O gigante volcão borbulha e ferve
«E sulfurea chamma pelos ares lança,
«Que após o seo cahir torna-se fria;
«Assim tu acharás petrificada,
«Bem como a lava ardente do volcão,
«A lava que teo peito consumia
«No peito da mulher--ou cinza ou nada--
«Não frio mas gelado o coração!»
E o Trovador despeitoso
De prata as cordas quebrou,
E nas de chumbo seo fado
A lastimar começou.
«Que triste que é n’este mundo
«O fado d’um Trovador!
«Que triste que é!--bem que tenha
«Sua Lyra e seu amor.
«Quando em festejos descanta,
«Rasgado o peito com dôr,
«Mimoso tem de cantar
«Na sua Lyra--o amor!
«Como a um servo vil ordena
«Um orgulhoso Senhor,
«Canta, diz-lhe; quero ouvir-te:
«Quero descantes de amor!
«Diz-lhe o guerreiro, que apenas
«Lidou em justas de amor:
«--Minha dama quer ouvir-te,
«Canta, truão trovador!--
«Manda a mulher que nos deixa
«De beijos murchada flôr:
«--Canta, truão, quero ouvir-te,
«Um terno canto de amor!
«Mas se a mulher, que elle adora
«Atraiçôa o seo amor;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal--o Trovador!
«Se escuta palavras della,
«Que a outros jurão amor;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal--o Trovador!
«Se vê luzir de alguns labios
«Um sorriso mofador;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal--o Trovador!
«Que triste que é n’este mundo
«O fado d’um Trovador!
«Pezar lhe dá sua Lyra,
«Dá-lhe pezar seo amor!»
E o Trovador n’este ponto
A corda extrema arrancou;
E n’um marco do caminho
A Lyra sua quebrou:
Ninguem mais a voz sentida
Do Trovador escutou!
* * * * *
AMOR! DELIRIO--ENGANO.
Y el llanto que en su cólera derrama,
La hoguera apaga del antiguo amor!
ZORRILLA.
Amor! delirio--engano.... Sobre a terra
Amor tão bem fruí; a vida inteira
Concentrei n’um só ponto--ama-la, e sempre.
Amei!--dedicação, ternura, extremos
Scismou meo coração, scismou minha alma,
--Minha alma que na taça da ventura
Vida breve d’amor sorveo gostosa.
Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata
Oásis, paraiso, eden ou templo
Habitámos uma hora; e logo o tempo
Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,
Doce encanto que o amor nos fabricára.
E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro,
Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,
Ou quer na branca nuvem que velava
O circulo da lua,--quer no manto
D’alvacenta neblina que baixava
Sobre as folhas do bosque, muda e grave,
Da tarde no cahir; nos céos, na terra,
A ella, a ella só, vião meos olhos.
Seo nome, sua voz--ouvia eu sempre;
Ouvia-os no gemer da parda rola,
No trepido correr da veia argentea,
No respirar da brisa, no susurro
Do arvoredo frondoso, na harmonia
Dos astros ineffavel;--o seo nome!
Nos fugitivos sons de alguma frauta,
Que da noite o silencio realçavão,
Os ares e a amplidão divinisando,
Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o
Arfava de prazer meo peito ardente.
Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella
Não senti sua mão tremer na minha;
Não lhe escutei um languido suspiro,
Que vinha lá do peito á flor dos labios
Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos
A magica fragrancia respirando,
Escutando-lhe a voz doce e pausada,
Mil venturas colhi dos labios d’ella,
Que instantes de prazer me futuravão.
Cada sorriso seo era uma esp’rança,
E cada esp’rança enlouquecer de amores.
E eu amei tanto!--Oh! não! não hão de os homens
Saber que amor, á ingrata, havia eu dado;
Que affectos melindrosos, que em meo peito
Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!
Oh! não,--morra commigo o meo segredo;
Rebelde o coração murmure embora.