IX

--Ouvi tudo, tudo!

A Zina a fitar-lhe uns olhos espantados.

--Ah! E são esses os seus sentimentos! exclama com a voz tomada. Até que

por fim aprendi a conhecêl-a!

--A conhecer-me? repete a Zina (fulgem-lhes os olhos, de colera).

Atreve-se a falar-me assim?

Dá um passo para o mancebo.

--Tudo ouvi! insiste solemne o Mozgliakov, recuando porém um passo, mau

grado seu.

--Ouviu?--Espionou, diga! emenda a Zina a mirál-o com desprezo.

--Espionei, seja? É verdade, decidi-me a praticar semelhante vilania!

Mas, graças a ella... fiquei afinal sabendo que é a mais... nem sei como

qualificar a sua... tartamudeava o mancêbo, de mais em mais atrapalhado

sob o olhar da Zina.

--E quando haja ouvido a tudo, que é que me poderá lançar em rosto? Quem

lhe deu o direito de me accusar, de me falar n'esse tom?

--Com que direito!... Eu!? E ainda m'o pergunta!? Intenta casar com o

principe... e a mim não me assiste o direito...!... Pois não me deu a

sua palavra?

--Quando?

--Quando, essa é melhor!

--Esta manhã, sem irmos mais longe, o senhor a apertar commigo e a minha

resposta formal foi que nada lhe podia afirmar de positivo.

--Mas não me rejeitou em absoluto, e por conseguinte, guardava-me para o

não chega--poupava-me!...

Contrahiu-se o semblante á Zina com dolorosa sensação, mas não se atenua

o desprezo que sente para comsigo.

--Se o não escorraçei, responde em voz grave e compassada, mas algo

trémula, foi unicamente por compaixão. Supplicava-me que esperasse, que

lhe não dissesse que não. "Vá aprendendo a conhecer-me"--disse o senhor

um dia, "e quando se houver convencido de que sou um homem de caracter

digno, é possivel que me não rejeite." Foram estas as suas palavras, no

principio das nossas relações, não as poderá renegar: E agora atreve-se

a dizer, que o guardo para o não chega! Pois não percebeu, esta manhã, o

meu aborrecimento por ver como antecipava de quinze dias o seu regresso?

E todavia, não lhe encobri esse meu enfado, e o senhor foi o proprio a

notál-o, visto que me perguntou se me não agastava este seu regresso

permaturo. Chama então poupar um homem o não lhe poder encobrir o fastio

que alguem experimenta em ver esse homem? Ah! Eu então guardava-o para o

não chega!? Não! eu dizia commigo, a seu respeito: "Se não é demasiado

intelligente, é bondoso, quando menos"... agora, comtudo, fiquei

sabendo--a tempo, felizmente--que tem tanto de mau como de tolo, e só o

que me resta é desejar-lhe boa jornada! Adeus!

A Zina volta-lhe as costas e caminha, de seu vagar, para a porta.

Mozgliakov comprehende que tudo está perdido; referve-lhe a raiva.

--Ah! com que, eu, então, sou tolo! vociféra; tolo!--Muito bem! Adeus!

Mas, antes de me ir embora, saiba que a toda a gente ha de constar a

infame comédia que aqui estão representando... tanto a senhora como sua

mãe. Vou contar tudo a toda a gente, que embebedam o principe, que o

subornam! Ha de ouvir falar de Mozgliakov!

Estremece a Zina, vae para reponder, mas, volvido um instante de

reflexão, encolhe os hombros, desdenhosa, e bate-lhe com a porta na

cara. N'este conflicto, assoma aos hombraes Maria Alexandrovna. Ouviu as

ultimas exclamações de Mozgliakov e adivinhou o restante. O Mozgliakov

sem, se ir ainda embora! O Mozgliakov á ilharga do principe! O caso

espalhado por toda a cidade pelo Mozgliakov! E todavia, é indispensável

guardar segredo... Maria Alexandrovna, n'um relance, tudo calculou, a

tudo preveniu, e urde um plano para aplacar o Mozgliakov.

--Que tem, meu amigo? diz estendendo-lhe a mão, cordial.

--Como _meu amigo_! exclama o outro furibundo. E depois de tudo isto;

meu amigo! _Morgen Früh_[11], minha senhora. Metteu-se-lhe então em

cabeça embaçar-me outra vez?

--Sinto, devéras, acredite, sinto immenso vêl-o em um estado de espirito

tão estranho, Pavel Alexandrovitch. Que linguagem! Nem sequer méde as

palavras em presença de uma senhora!

--Em presença de uma senhora!... Será quanto quiser... menos uma

senhora.

(Ignoro o que é que elle queria dizer, mas, com certeza, devia de ser um

qualquer ultrage, de esmagar.) Maria Alexandrovna com os olhos n'elle e

um risinho de commiseração:

--Sente-se, diz, com tristeza, apontando para a cadeira na qual, um

quarto de hora antes, estivéra sentado o principe.

--Mas no fim de contas, não me dirá, Maria Alexandrovna?... exclama

Mozgliakov, desnorteado. Está-me tratando como se a senhora estivesse

innocente e fosse eu o culpado! Não pode ser!... Vae muito além dos

limites! É abusar da paciencia... de todo... digo-lh'isto!

--Meu amigo... responde Maria Alexandrovna--e deixe-me dar-lhe ainda

este titulo, pois neste mundo não terá melhor amiga...--o senhor está

afflicto, excitado, ferido no coração, e devo pois relevar-lhe

semelhantes desmandos de linguagem. Pois bem, vou abrir-me com o senhor.

Tanto mais que eu, até certo ponto, não deixo de ter culpas para com o

senhor. Sente-se, pois, e conversemos. A voz de Maria Alexandrovna

assumiu o auge da meiguice, é compungida a sua expressão phisionomica.

Senta-se Mozgliakov.

--Esteve escutando á porta, diz ella com uns modos de exprobação e de

indulgencia, ao mesmo tempo.

--Escutei, sim! E por que não? Nem que eu fôra um asno!... Se quer ao

menos fiquei sabendo o que andava a maquinar contra mim, responde

Mozgliakov, haurindo valôr da propria colera.

--E resolver-se a senhora, com a sua educação, as suas maneiras, a

representar semelhante papel! Santo Deus! Mozgliakov está aos pulos na

cadeira.

--Maria Alexandrovna, não posso ouvir-lhe uma palavra mais! Melhor será

que se lembre do que está fazendo, a despeito da sua educação e das suas

maneiras, e diga-me se lhe assiste o direito de accusar a outrem!

--Ainda uma pergunta, prosegue ella sem responder. Quem foi que lhe

suggeriu a ideia de escutar á porta? Quem será que anda por aqui a

espiar-me os passos? É isso o que eu não se me dava de saber!

--Lá quanto a isso, tenha paciencia, não serei eu quem lh'o diga.

--Muito bem, eu tratarei de o saber... Dizia eu, pois, Pavel, que não

deixo de ter culpas para com o senhor, mas, se é que póde julgar-me com

conhecimento de causa, verá que se tenho alguma culpa é a de lhe querer

bem em demasia.

--Com que então, quer-me bem?--Esta a caçoar commigo, e certifico-lhe

que não torna a enganar-me; serei muito creança mas nunca até esse

ponto!

E elle, n'um sarilho na poltrona, e a poltrona a tremer.

--Por quem é, meu amigo, socegue se é possivel, escute com attenção, e

verá que ha de concordar commigo. Eu, a principio, tencionava contar-lhe

tudo, pôl-o em dia com tudo sem que se lhe tornasse necessario

aviltar-se ao ponto de escutar ás portas. Se o não fiz, foi unicamente

porque o negocio se achava ainda em estado de projecto e podia

mallograr-se. Bem vê a franqueza de que uso para com o senhor. E, acima

de tudo mais, não se volte contra minha filha, que de nada tem culpa. É

doida pelo senhor, e custou-me os olhos da cara arrancar-lh'a ao senhor

e persuadil-a a acceitar o offerecimento do principe.

--E eu, que com os meus proprios ouvidos, ouvi,--n'este instante, provas

d'esse tal louco affecto, replica ironico Mozgliakov.

--Muito bem! Mas em que termos se lhe dirigiria o senhor? É assim que se

expressa um namorado? Será essa a linguagem propria de um homem de fino

trato? Offendeu-a, irritou-a.

--Como se fosse questão de fino trato, Maria Alexandrovna! Esta manhã,

ambas me faziam boa cara, mas assim que eu saí e mais o principe,

puzéram-me pelas ruas da amargura.--Estou sciente de tudo... tudo.

--Bebido da mesma fonte ignobil, provavelmente, observou Maria

Alexandrovna com risinho de desdem. É verdade, Pavel Alexandrovitch,

púl-o pelas ruas da amargura e, confesso, Deus sabe quanto me custou.

Quanto não tive eu que luctar com os proprios sentimentos! Mas bastará o

facto de eu me ver na necessidade de o calumniar para lhe provar a

difficuldade que eu encontraria em obter d'ella que desistisse do

senhor! É possivel que não veja um palmo adeante do nariz? Se ella lhe

não tivesse amor, eu teria alguma necessidade de appellar para

calumnias? E ainda o senhor não sabe o melhor! Tive que valer-me da

minha maternal auctoridade para lh'o arrancar a ella do coração! Em

conclusão, depois de esforços inauditos, consegui alcançar uns arremedos

de consentimento... E visto que esteve á escuta, não deixaria de notar

que ella não me ajudou em presença do principe com uma palavra, sequer,

ou com um gesto. Cantou para alli como um automato; em visiveis

afflições toda ella, e foi por ter dó d'ella, que eu carreguei com o

principe. Tenho a certeza, até, de que se pôz a chorar, assim que se

apanhou sósinha. O senhor bem viu, quando entrou... Mozgliakov

recorda-se de que effectivamente a Zina estava a chorar quando elle

entrou.

--Mas a senhora, a senhora, por que é que está assim tão contra mim,

Maria Alexandrovna? Por que é que me foi calumniar segundo é a propria a

affirmál-o.

--Ora, isso agora é outro negocio; e se o senhor m'o tivesse perguntado

em termos logo ao principio, ha muito tempo que lhe teria dado resposta.

Sim, tem razão, fui eu que fiz tudo, eu, sósinha: não esteja a accusar a

Zina. Por que foi que o fiz? E eu respondo-lhe: primeiramente, por

interesse da Zina. O principe é rico, representante de nobilississima

casa, tem relações, e casando com elle a Zina faz um optimo casamento.

Emfim, se elle morrer, o que não poderá tardar muito, pois todos nós,

mais ou menos, somos mortaes,--n'esse caso, a Zina, nova e viuva,

pertencendo á alta sociedade, fica riquissima e casa com quem quizer.

Ora, está claro que irá casar com o homem a quem ama, e que foi o

primeiro a quem teve amor, e cujo coração terá martirizado casando com o

principe. E bastará o arrependimento... O acto que terá mais a peito

será o de remediar a propria falta.

--Hum! rosna Mozgliakov pensativo, a contemplar os bicos das botas.

--Em segundo logar... mas serei breve a semelhante respeito, é possivel

que me não comprehendesse. O senhor só o que sabe é ler o tal seu

Shakspeare, fonte aonde exclusivamente vae beber os seus nobres

sentimentos; e d'ahi, o senhor está tão moço! Eu, comtudo, sou mãe,

Pavel Alexandrovitch. Caso a Zina com o principe um tanto por causa

d'elle tambem, visto que para elle o casamento pode representar a

salvação! Ha tanto tempo que voto amizade áquelle honradissimo ancião,

tão bondoso, cavalheiresco! Quero arrancál-o ás garras d'aquella

infernal creatura que ha de pregar com elle na cova!... Invoco a Deus

por testemunha em como foi patenteando á Zina todo o alcance do heroismo

da sua dedicação que eu pude convencêl-a.

Arrastou-a o irresistivel prestigio da abnegação. Ella propria tem o que

quer que seja de cavalheiresco. Submetti-lhe o meu projecto sob colôr de

um acto christão. Vaes ser, lhe disse eu, o amparo, a consolação, a

amiga, a filha, a beldade, o idolo de um homem que talvez que nem um

anno tenha de vida. Mas sequer ao menos, extinguir-se-ha no dôce calôr

do amor. Estes seus ultimos dias parecer-lhe-hão um paraiso. Onde é que

vê n'isto egoismo, Pavel? Não! e não! É um acto de irmã de caridade.

--A senhora, então, procede desse modo, por amizade para com o

principe... á laia de irmã de caridade? commenta o ironico Mozgliakov.

--Comprehendo essa sua pergunta, Pavel Alexandrovitch, é clarissima.

Suppõe que estou fazendo uma confusão jesuitica dos interesses do

principe com os meus. Pois bem, é possivel que me tivesse atravessado

pela mente semelhante calculo, inconscientemente, porém, e sem

resquicios de jesuitismo. Espanta-o esta minha franqueza? Peço-lhe

apenas uma mercê, Pavel Alexandrovitch: não involva a Zina n'este

negocio! Está pura que nem uma pomba. Não calcula; sabe apenas amar,

pobre pequena! Se houve alguem que calculasse, esse alguem fui eu, e só

eu! Indague, porém, sinceramente da sua consciencia e diga-me quem seria

que no meu logar não haveria calculado? Calculamos os nossos interesses,

as nossas mais generosas acções, até, sem darmos por isso,

instinctivamente. Pois; se enganam, quantos alarmam que procedem movidos

por pura nobreza de alma. Eu, porém, não quero enganál-o. Confesso que

calculei. Mas, sempre quero que me diga, seria levando em vista o meu

interesse pessoal? A mim, Pavel Alexandrovitch, que mais me será

preciso? Vivi o meu seculo[12], calculei para bem d'ella, do meu anjo,

da minha filha: e qual será a mãe que m'o lance em rosto?

As lagrimas inundavam o rosto de Maria Alexandrovna.

Pavel Alexandrovitch tem escutado com pasmo semelhante confissão:

latejam-lhe as palpebras, esforça-se por comprehender.

--Qual seria a mãe, sim! diga lá!... pergunta elle, em conclusão.

Mas cae em si, acto continuo, e:

--Canta lindamente, Maria Alexandrovna, mas tinha-me dado a sua palavra,

tinha-me alentado a esperança... Como posso eu supportar semelhante

coisa? Terei que engulir a propria vergonha!

--E acredita talvez que não pensei no senhor, meu querido Pavel? Pelo

contrario, em todos os meus calculos, o senhor tinha a sua parte. Ouso

dizer, até, que foi por sua causa que eu emprehendi este negocio.

--Por minha causa! exclama Mozgliakov, desnorteado, d'esta vez. Como

assim?!

--Meu Deus! Como é que se pode ser tão simples, ter vistas tão

limitadas! exclama Maria Alexandrovna erguendo as mãos ao ceu. Esta

mocidade! O tal Shakspeare! E ahi tem o que elle lhe arranjou, aquelle

sonhador, aquelle phantasista! Viver da intelligencia e dos pensamentos

alheios! E o senhor a perguntar--_meu bom Pavel Alexandrovitch_, qual é

n'este caso o seu interesse. Para maior clareza, consinta-me uma leve

digressão. A Zina ama-o, é incontestavel Mas tenho notado que, a

despeito do seu manifesto amor, o caracter de Pavel Alexandrovitch, as

suas aspirações lhe tem incutido uma tal ou qual desconfiança. Por

vezes, e como que de caso pensado, contêm-se, é fria para com o senhor.

Eis o resultado das reflexões que a levaram a desconfiar. Pois não

reparou tambem n'isto que lhe estou dizendo, Pavel Alexandrovitch?

--Reparei, sim, hoje ainda. Mas que quer dizer com isso, Maria

Alexandrovna?

--Bem vê, o senhor foi o proprio a reparar n'isso: logo, não me enganei.

E acima de tudo, foi a estabilidade do seu caracter, a sua constancia o

que mais duvidas lhe incutiu. Sou mãe, e não havia de conhecer o coração

de minha filha! Ora imagine agora que, em vez de entrar aqui com

exprobações, e até com injurias, em vez de a irritar, de a offender, de

a melindrar, a ella tão bella, tão pura e soberba, e por esse facto, a

despeito ainda da sua vontade, ir tornar-lhe mais firme a desconfiança

com respeito ás suas inconstancias; supponha que acceitava com brandura

a noticia, com lagrimas de magua, com desespero, até, mas com

dignidade...

--Hum!

--Mau! Não me interrompa. Pavel Alexandrovitch. Quero expôr-lhe um

quadro que possa ferir-lhe a imaginação. Ora imagine que ia ter com ella

e lhe dizia: "Zina, amo-te mais que a propria vida, mas afastam-nos umas

razões de familia. Comprehendo essas razões: trata-se da tua ventura e

não me atrevo a insurgir-me contra ella. Perdôo-te, Zinaida; sê feliz se

puderes!" E dito isto, lhe lançava uns olhos, uns olhos de cordeiro nas

vascas da agonia, se me é licita a expressão. Ponha tudo isto na sua

ideia e calcule o effeito que haveria produzido uma scena assim no

coração della!

--Pois sim, Maria Alexandrovna, supponhamos tudo isso--É certo que eu

podia ter me expressado d'esse modo... mas nem por isso deixaria de

voltar pelo mesmo caminho com um não pelas ventas.

--Não, não, e não, meu amigo. Não me interrompa! Quero acabar de

pintar-lhe o quadro para que no animo lhe produza uma impressão nobre e

completa. Imagine, pois, que a vinha a encontrar; d'ahi a tempos, na

alta sociedade, num baile illuminado _à giorno_, ao som de uma musica

enebriante, no meio de um sem numero de beldades, e, no melhor da festa

tão deslumbrante, o senhor, para alli, sósinho e triste, a scismar,

pállido, encostado para alli, algures, a uma columna, mas de modo a dar

nas vistas; o senhor a seguil-a com os olhos na vertigem da dansa; ao pé

do senhor a vibrarem os divinos accordes de Strauss. Fuzila por todos os

lados nas conversas o espirito da alta sociedade; e o senhor sósinho,

enfiado, melancholico, immerso na propria paixão.

Considere--em que estado ficará a Zina quando o vir! E com que olhos o

não ha de ella contemplar! "E eu," pensará ella, "que duvidei d'aquelle

homem! Tudo me sacrificou! Despedaçou o proprio coração por minha

causa!" Certamente, o seu amor de outr'óra resuscitar-lhe-hia lá dentro

com força irresistivel.

Deteve-se Maria Alexandrovna para cobrar alento. Mozgliakov a barafustar

na cadeira, que por pouco não estoira de todo. Maria Alexandrovna

prosegue:

--A Zina, por causa da saude do principe, parte para o estrangeiro, para

Italia ou para Hespanha, o paiz das murtas, dos limoeiros, do azulino céu

do Guadalquivir, o país do amor, o país onde se não pode viver sem amar,

onde as rosas e os beijos adejam por assim dizer no ar. E o senhor vae

atrás d'ella, compromette a sua situação, as suas relações, tudo!... E

principia então o seu romance de amor: amor, mocidade, Hespanha... Deus

meu!... É certo que será platonico o seu amor, puro... mas o senhor... em

summa, enlanguescem a contemplarem-se um ao outro... Espero que me haverá

comprehendido, meu amigo?--Não faltarão, por lá, entes soêzes, vis,

miseraveis para affirmar que não foi a lembrança do seu parentesco com o

velho que o arrastou ao estrangeiro. Muito de proposito me referi ao

platonismo do seu amor; não ignoro que haverá quem lhe atribua differente

significação.

Mas sou mãe, Pavel Alexandrovitch e seria incapaz de o impellir para mau

caminho!... É claro que o principe os não poderá vigiar a ambos; isso

que importa, comtudo? Poder-se-ha fundar n'isso semelhante accusação?

Até que por fim, morre o principe abençoando o proprio destino. Ora

diga-me quem é que depois ha de casar com a Zina, a não ser o senhor? É

parente tão afastado do principe que o parentesco nunca poderia

representar um impedimento ao consorcio. Acceita-a, joven, rica,

princêsa, e em que ensejo? Quando os mais nobres senhores se poderiam

ufanar da sua alliança! Por causa d'ella, entra na mais alta sociedade;

obtêm um posto de summa importancia, promoções. Diz o senhor que dispõe

de cento e cincoenta almas? Mas depois será rico. O principe não deixará

de fazer um testamento nos termos, por isso lhe respondo eu. E em

conclusão, o principal, é o ella estar segura dos seus sentimentos e o

senhor vir a ser para ella um heroe pela virtude e pela abnegação. E

ainda me pergunta, onde vae n'isto o seu interesse? Tem-n'o deante dos

olhos, a contemplál-o, a rir-se para o senhor, e a dizer-lhe: "Aqui me

tens!" Ora vamos, Pavel Alexandrovitch!...

--Maria Alexandrovna! exclama Pavel Alexandrovitch, a tudo fiquei

percebendo, agora! Portei-me como homem grosseiro, vil, reles!...

Levanta-se com vivacidade e puxa pelos cabellos ás mancheias.

--E como homem inconsiderado, accrescenta Maria Alexandrovna,

inconsiderado, eis o que o senhor é!

--Sou um asno, Maria Alexandrovna! exclamou com desespero o môço. E

agora, está tudo perdido! E eu que a amava com loucura!

--É possivel que não esteja tudo perdido, declara Madame Moskalieva,

baixinho, como quem está reflectindo.

--Ah! se fosse possivel! Ajude-me! aconselhe-me! Valha-me! E pôs-se a

chorar o Mozgliakov.

--Meu amigo, diz em apiedada voz Maria Alexandrovna e estende-lhe a

mão,--praticou esse seu acto no ardor do seu affecto, estava exasperado,

nem sequer tinha consciencia do que fazia. E ella não deixará de o

avaliar.

--Amo-a com loucura e estou prompto a sacrificar-lhe seja o que for!

clama o Mozgliakov.

--Ora escute, justifica-lo-hei aos olhos d'ella.

--Maria Alexandrovna!

--Sim, fica tudo por minha conta: collocál-os-hei em presença um do

outro. E o senhor diz-lhe tudo tal qual eu acabo de lh'o dizer.

--Ah! meu Deus! Que bondade a sua, Maria Alexandrovna!... Mas... não

seria possivel procedermos a isso desde já?

--Deus nos defenda! Sempre é muito estouvado, meu amigo! Ella, então,

que é tão soberba! Ia tomar isso como uma nova insolencia, um ultraje,

até! Eu arranjarei tudo, e não ha de passar d'amanhã; agora, comtudo, vá

se embora, vá até casa do tal negociante, ou para onde lhe apetecer...

Ou, se, antes quer, volte esta noite, mas não serei eu que lh'o

aconselhe.

--Vou m'embora! vou m'embora!

Meu Deus! Resuscitou-me! Mas uma pergunta, ainda: e se o principe não

morre tão cedo?

--Valha-nos Deus! Sempre é muito ingenuo, meu caro Pavel! O senhor o que

deve é rogar a Deus que conserve os dias d'aquelle vélhito, todo elle

bondade, carinho, cavalheirismo! Devemos desejar-lhe longa vida, de todo

o coração! E eu serei a primeira; noite e dia, com lagrimas, a rezar

pela ventura de minha filha! Mas, ai de mim! A saude do principe,

coitado, quer me parecer que está muito abalada! E demais, elle não

deixará de fazer a sua visita á capital, de levar a Zina aos bailes, e

receio muito, muito, acredite, que isso concorra a dar cabo d'elle!

Orêmos, porém, meu caro Pavel, e quanto ao mais, entreguêmo-nos nas mãos

de Deus! Espére, arme-se de paciencia, seja viril, e viril, acima de

tudo! Nunca puz em duvida a nobreza dos seus sentimentos... Aperta-lhe

com força as mãos, e o Mozgliakov sáe do aposento em bicos de pés.

--Até que em fim! Vi-me livre de um imbecil! diz com ares de triumpho. E

agora vamos aos outros... Abre-se a porta e entra por ali dentro a Zina.

Vem mais pallida do usual; fulgem-lhe os olhos com febril clarão.

--Mamã, veja se acaba com isto, que eu estou, que já nem posso mais; é

tão nojento tudo isto que me vem tentações de fugir por ahi fora. Não me

faça padecer por muito mais tempo, não me irrite! Este lodaçal causa-me

engulho, entendeu?

--Zina, que tens tu, meu anjo?... Estiveste escutando á porta! exclama

Maria Alexandrovna olhando de fito para a filha.

--Escutei, é verdade.--Veja se m'o quer lançar em rosto, como o fez

aquelle imbecil? Juro-lhe que se porfiar em obrigar-me a representar

semelhante papel em tão vergonhosa comedia, renuncío a tudo, e acabo com

tudo, com uma só palavra. Não ha duvida que me resolvi a prestar-me á

principal vilania, mas foi por me não conhecer a mim mesma; atabáfo com

semelhante vergonha!

E sae atirando com a porta.

Maria Alexandrovna segue-a com a vista e fica a scismar.

"É andar ligeira, depressa! É de si que depende tudo, e em si que

consiste o maior perigo, e se esses miseraveis porfiarem em se colligar

contra nós, se principiam para ahi a dar á lingua, tudo está perdido! E

ella não poderá resistir contra tantas arrelias e acabará por

entregar-se mediante uma rejeição. Custe o que custar e sem demora, urge

carregar para o campo com o principe. Prego commigo lá, n'um pulo, e

carrégo com aquelle estafermo do senhor meu esposo para aqui. Sequer ao

menos sirva para alguma coisa! E assim que o outro accordar,

safamo-nos."

Toca a campainha.

--E então! a parêlha? pergunta ao creado que entra.

--Está prompta, ha que tempos, responde o criado.

(Maria Alexandrovna mandou pôr o trem no acto de acompanhar o principe

ao quarto d'este.)

Veste-se á pressa e corre ao quarto da Zina para lhe transmitir o seu

plano e dar-lhe as devidas instrucções. A Zina, comtudo, nem lhe quer

dar ouvidos, debruçada no leito com o rosto enterrado no travesseiro

ensopado de lagrimas; a arrancar com as niveas mãos os compridos

cabellos; tem os braços nus até ao cotovêlo. Saccóde-a, a revézes, um

estremeção. A mãe dirige-lhe a palavra, sem que a Zina consinta em

erguer a cabeça.

Maria Alexandrovna insiste por instantes, depois, sae, inquietissima.

Sobe para a carruagem e recommenda que espertem a parelha.

"O peor de tudo", vae ruminando comsigo, "é a Zina ter ouvido a conversa

que eu tive com o Mozgliakov. Empreguei com ella e com elle quasi que os

mesmos argumentos; ella é orgulhosa e offender-se-hia, talvez... Hum! o

que a tudo sobreleva, é a necessidade de por mãos á obra, antes de que

conste seja o que fôr! Que desgraça! E se eu, para mais ajuda, não fosse

encontrar em casa aquelle meu imbecil?!"

Ante esta hypothese, enraivece-se, toma-se de um rancor que nada

vaticina de bom para Aphanassi Matveich. E Maria Alexandrovna

impaciente, a esfervilhar!

Os cavallos despedem a galope.

X

A carruagem não corre, vôa.

Dissémos que, n'aquella mesma manhã, emquanto ella andava em procura do

principe, por todos os cantos da cidade, já havia accudido á mente de

Maria Alexandrovna um alvitre genial: era o confiscar por sua vez o

principe quanto antes, e pregar com elle no campo;--n'aquella aldeia

onde floria em paz o beatifico Aphanassi Matveich. Ia pois realizar

aquella sua inspiração. Mas não encubramos ao leitor que principiava a

sentir-se atribulada por uma inquietação inexplicavel. Aos proprios

heroes acontece outro tanto, e no ensejo, justamente, em que estão

prestes a atingir seus fins. Advertia-a um qualquer instincto de que

havia perigo na permanencia em Mordassov.

"Uma vez no campo, vire-se tudo isto pés, com cabeça, que a mim tanto se

me dá!"

É certo, que ainda no proprio campo, não ha tempo para perder: tudo

poderá acontecer, tudo... E n'essa conformidade, Maria Alexandrovna

acha-se resolvida a concluir immediatamente o consorcio. O cura da

aldeia procederá á ceremonia na propria residencia. D'alli a dois dias,

no outro dia, talvez, em caso de urgencia. Quantos casamentos se não tem

visto, aldravados para alli em duas horas! Quanto ao principe, é levál-o

a acceitar como necessidade de bom sizo uma tal precipitação, semelhante

ausencia de toda e qualquer festa. "Será mais decente e mais nobre"...

Poder-se-hia até seduzil-o pelo lado romanesco do negocio e fazer-lhe

vibrar assim a fibra sentimental do coração. Enebriál-o-ha, se tanto fôr

necessario, mantêl-o-ha n'aquelle estado de embriaguez, e a Zina ha de

ser princêsa.

Se houver algum escandalo lá por Petersburgo ou por Moscou entre a

parentéla do principe, consolações não hão de faltar. Em primeiro logar,

são coisas que ainda estão para vir; em segundo, Maria Alexandrovna está

convencida de que, na alta sociedade, nada se faz sem escandalo, e muito

mais tratando-se de casamento: que é estilo. Mas os escandalos da alta

sociedade, a seu ver, tem uma côr mui particular de grandiosidade, no

genero do _Monte-Christo_ e das _Memorias do Diabo_. Finalmente, a Zina

bastar-lhe-ha mostrar-se, e a mãe ajudál-a com seus conselhos, e toda a

gente ficará desarmada, acto-continuo, entre todas aquellas condessas e

princêsas, não havendo uma só que seja capaz de resistir á mordassoviana

habilidade de Maria Alexandrovna, sósinha contra todas ellas juntas ou

contra cada uma em particular.

E é animada por semelhante pensamento que Maria Alexandrovna vem ter com

Aphanassi Matveich o qual lhe é necessario, segundo seus planos.

Effectivamente, levar o principe para o campo é levál-o para casa de

Aphanassi Matveich com quem o principe é possivel não se dar lá muito de

travar conhecimento: mas se Aphanassi Matveich fôr o proprio a

convidál-o, o caso muda de figura. E demais, a apparição de um chefe de

familia, de edade veneranda, de gravata branca, casaca, chapeu na mão,

acorrendo expressamente das suas propriedades, á noticia de que se acha

em Mordassov o principe K... é caso para produzir optimo effeito no amor

proprio d'aquelle ginjinha.

Até que por fim, havendo tragádo três verstas a carruagem, o cocheiro

Safron pára junto ao patim de um comprido edificio com um unico andar,

casarão de madeira, com uma extensa fieira de janélas, e envolto n'umas

tilias venerandas. É a residencia estável de Maria Alexandrovna.

Já se acham illuminadas as janélas.

--Onde está o manequim? clama Maria Alexandrovna caíndo como uma

trovoada, no vestibulo. Que faz aqui esta toalha? Ah! estava aborrecido,

e ainda não saiu do banho! E sempre n'aquelle fadario do chá! E então!

Para que estarás tu para ahi a esbogalhar esses olhos, meu idiota

incuravel? Por que é que se não corta esse cabello?!

Grichka! Grichka! Por que é que não cortaste o cabello ao _barine_

conforme te dei ordem, a semana passada?

Maria Alexandrovna premeditára operar em casa de Aphanassi Matveich uma

entrada menos violenta. Mas ao vêl-o entretido a sorver o seu cházinho,

com toda a sua pachorra, não foi senhora de sopitar a indignação. Para

ella, tamanhos cuidados, e para elle, para aquelle ente inutil, aquella

paz podre! Semelhante contraste chóca de modo cruel Maria Alexandrovna.

E todavia, o manequim, ou para nos expressarmos com mais urbanidade,

aquelle a quem applicam o ápodo, está sentado em frente do samovár;

inerte, bôcca e olhos escancarados, petrificado, quasi, pela apparição

da consorte. O adormecido vulto do Grichka assoma ao vestibulo. O

Grichka tosqueneja os olhos durante toda esta scena.

--Se elle não deixa... E ahi esta porque é que o não fiz, profere em voz

encatarroada e socarrôna. Peguei na tesoira para ahi umas dez vezes, e a

dizer-lhe: A _barinia_ não tarda por ahi e apanhamos ambos a nossa

conta!--E vae elle e diz-me:--Não--espera ahi: quéro que me frizes no

domingo; e é preciso para isso que o cabello tenha comprimento.

--Muito me contas: Com que então elle, friza-se? Inventaste então essa

obra dos frizados, assim que eu virei costas?

Que termos são esses? Cuidas talvez que embellezas assim essa tua cabeça

de idiota? Santo Deus! Que desordem que por aqui vae! E que cheiro! Não

me dirás, miseravel, d'onde provém semelhante cheiro? vociféra a

consorte a crescer de mais em mais ameaçadora para o innocente e

assarapantado de todo Aphanassi Matveich.

--Ah... mi-minha mãezinha, balbucía o esposo sem se erguer e desfechando

sobre o seu generalissimo uns olhos assustados e suplices, mi... mi...

minha mãezi...

--Quantas vezes não tenho eu tentado encaixar-te n'essa cabeça de burro

que não sou tua mãezinha, pedaço de pygmeu? Como te atreves a tratar por

semelhante nome uma senhora nobre cujo logar é na alta sociedade, e não

ao pé de um aguadeiro da tua laia?

--Mas, Maria Alexandrovna, tu com tudo isso não deixas de ser minha

mulher em face das leis! e eu... estou-te falando... na qualidade de

marido! Objecta Aphanassi Matveich, levando a um tempo a mão aos

cabellos para os defender.

--Ah! Carranca! Cêpo! Se já se viu! Mulher d'elle em face das leis!...

Que quererá dizer uma mulher em face das leis? Haverá na alta sociedade

alguem que empregue semelhante termo de seminarista:--em face das

leis?--E quem te deu o atrevimento de me recordares que sou tua mulher,

a mim que faço quanto posso para o esquecer? E para que estavas tu a

tapar a cabeça com as mãos?

Olhem para este cabello! Todo encharcado! Não está enxuto estas tres

horas mais chegadas! Como hei de eu carregar com elle? Haverá meio de o

arrancar d'aqui?--Que hei de eu fazer? Maria Alexandrovna péga ás

carreiras pela casa fóra, a estorcegar as mãos. A desgraça é nulla e

facil de remediar, não ha duvida, mas se ella não pode ter mão n'aquelle

seu genio imperial, impaciente em presença do minimo impecilho! Sente

que precisa de desabafar a colera na pessoa de Aphanassi Matveich, visto

como a sua habitual tirannia desandou para si em necessidade. E depois,

toda a gente sabe o acervo de inopinadas grosserias de que são capazes,

longe das vistas dos mirones, uns certos entes delicados e pechósos da

sociedade mais graúda. Aphanassi Matveich, estupido e tremelica, cança a

vista a seguir com os olhos as evoluções todas da consorte.

--Grichka, exclama esta por fim, traze já, já, ao _barine_ tudo que é

preciso para se vestir de ceremonia, calça, casaca, gravata e colete,

brancos. Vá, despacha!

Onde iria parar a escova do cabello?

--Mas se eu acabo de sair do banho, minha mãezinha, vou apanhar algum

resfriamento...

--Qual historia!...

--Estou com a cabeça encharcada!...

--Ênxuga-se. Grichka, escova o cabello ao _barine_, até que enxugue. Com

mais força... mais... ainda mais... Assim!

O fiel e zeloso Grichka esfréga, com quanta força tem, o seu _barine_ a

quem, para mais commodidade, agarrou pelo cachaço, encostando-o para

trás no divan.

Aphanassi Matveich por pouco não desata a chorar.

--E agora, em pé!... Vê se o levantas, Grichka, dá cá a pomada...

--Vá, abaixas-te ou não, miseravel!

Abaixa-te, já te disse, meu papa jantares.

Maria Alexandrovna com as proprias mãos besunta a grenha ao marido,

puxando sem dó nem consciencia pelos cabellos, bastos e grisalhos que

elle, por sua desgraça, não deixou cortar. Aphanassi Matveich põe-se a

gemer, a suspirar e aguenta, Deus sabe como, semelhante provação.

--Miseravel! Foste tu que murchaste as flores da minha mocidade!...

Abaixa mais essa cabeça, não ouves! Abaixa-te!

--Mas como é que eu murchei as tuas flores, minha mãezinha? regouga o

esposo de bruços no divan.

--Manequim! Nem sequer percebeste a allegoria! Agora vê se te penteias.

--Grichka, veste-o depressa, anda!

A nossa heroina senta-se n'uma poltrona a vigiar com olhos de inquisidor

a ceremonia indumentaria.

Aphanassi Matveich lá conseguiu tomar folego, e, quando se chegou ao

laço da gravata, afoita-se a ponto de emittir opiniões ácêrca do feitio

e da perfeição da laçada. Em conclusão, assim que envergou a casaca, a

distincta personagem tem reconquistado de todo o aprumo e pega a

rever-se ao espelho com manifesto desvanecimento.

--Mas para onde é que tu me levas, Maria Alexandrovna? indága, a fazer

moquenquices á propria imagem.

Maria Alexandrovna hesita em acreditar n'aquillo que ouviu.

--Não ouvem isto? Ora o manequim! E como te atreves tu a perguntar-me

para onde é que eu te lévo?

--Mas já se vê que o devo de saber, minha mãezinha.

--Caluda! Torna-me tu a tratar de mãezinha, e muito mais no sitio aonde

vamos, e ficas sem chá um mês inteiro.

O marido, espavorido, nem bole sequer.

--Se já se viu? Nem sequer conseguiu apanhar a mais réles condecoração?

Colherão de marmita!--exclama ao contemplar com desprezo a casaca do

marido, casaca virgem de toda e qualquer insignia.

Até que por fim, Aphanassi Matveich sente-se melindrado.

--Eu não sou colherão de marmita, sou conselheiro, minha mãezinha,

pondéra com assômo de nobre indignação.

--Quê--quê--quê?--A raciocinar, por mais que me digam! Ora o mujik, o

ranhoso! Tenho pêna de me faltar tempo para te ensaboar esse bestunto,

quando não... Mas não as perdes, deixa estar!... Grichka, dá-lhe o

chapéu e a _chuba_[13]. Assim que eu saír, arruma estes três quartos e o

quarto aberto. Vá, pega n'essa vassoira! tira as capas aos espelhos, aos

relogios e quero tudo prompto em menos de uma hora! E tu, tambem, veste

a casaca, e dá luvas aos criados! Ouviste, Grichka? Ouviste?

Sobem para a carruagem. Aphanassi Matveich está com uma cara espantada.

Maria Alexandrovna dá voltas ao miolo para lhe encasquetar na cabeça e

na memoria as recommendações mais essenciaes, elle, porém,

interrompe-lhe as suas cogitações.

--Maria Alexandrovna, eu esta noite tive um sonho tão exquisito, diz,

após breve silencio.

--Ápre! Manequim de uma figa! E eu que estava a pensar!... Como te

atreves tu a vir-me para cá com esses teus sonhos de mujik? Escuta, e

olha que t'o digo pela ultima vez, se te atreveres, hoje, a fazer a

minima allusão aos taes sonhos ou ao quer que seja,... toma sentido...

nem sei o que ha de ser de ti! Escuta bem: o principe K... está

hospedado em nossa casa. Lembras-te do principe K...

--Se lembro! minha mãezinha, lembro-me muito bem! E por que é que elle

nos dispensou tamanha honra?

--Cala-te, não é da tua conta! Tu, com a maxima amabilidade, e como dono

de casa, vaes convidál-o a vir comnosco para o campo. Partimos ainda

hoje. Mas se lhe disseres uma palavra só que seja, em toda a noite, ou

amanhã... ou no outro dia... ou em toda a roda do anno, mando-te guardar

gansos! Nem palavra! São essas as tuas funcções--e mais nada!

Intendeste?

--Mas se me fizerem perguntas?

--Não importa! Cálas-te.

--Pois sim, mas uma pessoa nem sempre pode ficar calado, Maria

Alexandrovna!

--Responde com monosylabos, um _hum!_... ou coisa que o valha, para que

fiquem na persuasão de que és homem espirituoso e que reflectes antes de

responder.

--Hum!...

--E atenta bem n'isto que te estou dizendo. Carrégo comtigo: ouviste

falar do principe, e acto-continuo, doido de contente, deste-te pressa

em vir apresentar-lhe os teus respeitos e convidál-o a ir para o campo.

Percebeste?

--Hum!

--Para que estás tu já a dizer: _hum!_ meu parvalhôco! Responde.

--Está bom, minha mãezinha, tudo se fará á medida dos teus desejos. Mas,

não me dirás por que é que eu tenho que o convidar?

--Quê, quê? pois ainda te mettes a raciocinar?! Que tens tu com isso? E

ainda te atreves a fazer-me perguntas?

--Mas... é que eu, por mais que faça não posso perceber como é que eu o

hei de convidar sem dizer palavra!

--Eu falarei por ti, e tu, fazes-lhe a tua cortesia, e mais nada,

percebeste?--De chapeu na mão...

--Percebi..., minha mãe... Maria Alexandrovna.

--O principe é espirituosissimo: diga elle o que disser, ainda quando se

não dirija á tua pessoa, responde-lhe a tudo com um sorriso bonacheirão

e alegre, percebeste?

--Hum!

--E elle a dar-lhe com o _hum!_ Vê se acabas com o tal _hum!_--a mim,

responde-me ao que eu te perguntar. Percebeste?

--Percebi, Maria Alexandrovna, percebi muito bem. E como é que eu não

havia de perceber? Mas estou a dizer _hum!_ para me ir exercitando. O

que tu queres é que eu me ponha a olhar para o principe, com um ar de

riso... mas quando elle não me vir?

--Forte espantalho! Forte idiota! Cala-te, cala-te, e cala-te! Olha e

sorri.

--Mas se elle é capaz de suppor que sou surdo!

--Olhem a desgraça! Sequer ao menos não ficará sabendo que és um

imbecil.

--Hum! E se mais alguem me fizer perguntas?

--Ninguem t'as faz, deixa estar! E demais, não estará lá ninguem. E se

por infelicidade, do que Deus nos defenda, apparecer alguem e te

perguntarem alguma coisa, responde desde logo com um sorriso sarcastico.

Sabes o que vem a ser um sorriso sarcastico?

--Uma careta muito espirituosa, pois não é verdade, minha mãezinha?

--Eu te darei o espirituoso, deixa estar, manequim! E quem é que te iria

suppor capaz de ter espirito, meu asneirão? Um risinho de escarneo,

percebeste? De escarneo e de desdem.

--Hum!

--Ai! Estou toda eu em suores frios por causa d'este estafermo! murmura

Maria Alexandrovna. Não ha mais que ver, acho que fez uma jura em como

me havia de murchar de todas as minhas flores! Teria sido muito melhor o

prescindir delle.

A raciocinar por esta forma, Maria Alexandrovna tudo é olhar pela

vidraça do trem e atiçar o cocheiro. Voam os cavallos, e ella a achar

que se não mexem. Aphanassi Matveich, alapardado a um canto, a repetir

mentalmente a lição. Até que emfim a carruagem alcança a casa de Maria

Alexandrovna! Mas ainda bem a nossa heroina não tinha posto pé no patim,

eis que vê passar ao lado do seu proprio trem um trenél coberto, de dois

assentos, o trenél da Anna Nikolaievna Antipova.--Vinham n'elle duas

senhoras. Uma dellas é a propria Anna Nikolaievna Antipova, a outra a

Natalia Dmitrievna, duas amigas sinceras e recentes. Maria Alexandrovna

olha para ellas, e o coração dá-lhe um báque. Ainda bem não abrira a

bocca para exclamar, eis que chega outra carruagem, com outra visitante.

Ouvem-se alegres exclamações.

--Maria Alexandrovna com o Aphanassi Matveich... ambos no mesmo trem!

Feliz coincidencia! E nós que vinhamos passar a noite em sua casa!

Agradabilissima surpreza!

As visitantes galgam a escada a pipilarem que nem andorinhas, Maria

Alexandrovna contempla-as, estupefacta.

--E não vos tragar o chão! diz, lá comsigo; cheira-me isto a conluio...

Pois sim!... vocês o que não tem é unhas para luctar commigo, minhas

amiguinhas!... Esperem um nadinha!...

Um club da Má-Lingua · 第 15 / 25 题