E o senhor a dizer: "Pudesse eu lisonjear-me com a esperança?"

--Os jornaes... está claro, está claro!... Os folhetins... balbucia o

principe, que não percebeu nem metade do aranzel de Maria Alexandrovna e

cada vez está mais lamecha... Mas... minha rica menina... se se não

sen... te fa... tigada, repita outra vez aquella romança que cantou

inda'gora...

--Ah! principe, ella sabe outras ainda mais bonitas! Conhece a

_Andorinha_? Já a ouviu?

--Está claro... mas já não me lembra...

Não... não!... aquella que cantava ha pouco: não quero a _Andorinha_!

Quero aquella tal romança: disse o principe a pedinchar como um

pequerrucho.

A Zina recommeça a alludida romança. O principe não pode ter mão em si e

ajoelha-lhe aos pés a chorar...

--Oh! minha formosa castellã! (Treme-lhe a voz de senilidade e de

commoção).

Oh! minha en... can... tadora castellã! Oh! minha querida menina! Quanta

coisa me não veiu recordar do passado!... E eu, então, vivia esperançado

em outro porvir. N'esse tempo cantava eu com a viscondessa... uns

duêtos... essa mesma romança... e agora... ah! Sei muito bem o que me

espera!

O principe proferiu aquella discurso em voz entrecortada e offegante,

intoiriu-se-lhe a lingua... tornam-se inintelligiveis algumas palavras.

Apenas se vê que atingiu o acume da commoção. Maria Alexandrovna

apressa-se em lançar azeite no lume.

--Principe! quer me parecer que se vae apaixonando pela Zina.

A resposta do principe vae além de quanto ousaria esperar Maria

Alexandrovna.

--Estou apaixonado por ella a ponto d'enlouquecer! exclama o velhito

muito exaltado e sempre de joelhos.

Estou prompto a sacrificar-lhe a minha vida... pudesse eu ao menos ter

esperança... Mas levante-me, por quem é... sinto-me um tanto fraco... Se

eu... ao menos, pudesse nutrir a es... pe... perança offerecia-lhe o meu

coração... e então... eu... Havia de cantar-me todos os dias

ro--ro--man--manças, e eu a olhar para ella sempre... sempre...

sempre... ai, meu Deus!

--Principe, principe! Está offerecendo a minha filha a sua mão, quer-m'a

roubar, a mim, a minha Zina! O meu enlevo, o meu anjo, Zina! Não te

deixarei nem por quanto ha! Zina! Venha alguem arrancál-a dos braços,

dos braços de sua mãe; se é capaz!

Maria Alexandrovna atira-se á filha e estreita-a nos braços, comquanto

se sinta repellida com força. A mamã exaggera um tanto ou quanto a

comedia, e a Zina está em transes de asco. Mas não abre a bôca, é tudo

quanto deseja Maria Alexandrovna.

--Já rejeitou nove partidos só para se não apartar da mãe! clama. Agora,

comtudo, o meu coração antevê o apartamento. Não ha ainda um instante,

reparei que olhava para o principe de modo particularissimo... A sua

aristocracia, a sua finura seduziram-n'a, principe!.. Oh! O principe

apartar-nos-ha... estou-o a sentir.

--A... dó... óro-a! murmura o principe a tremelicar como uma folha.

--Com que então desamparas a tua mãe! exclama Maria Alexandrovna

atirando-se outra vez ao pescoço da filha.

A Zina, morrendo por pôr ponto a tão penosa scena, estende ao principe a

linda mão, e faz esforço para sorrir. O principe agarra respeitoso

n'aquella mão e por pouco a não come com beijos.

--Agora, sim, agora é que eu principío a viver!...

--Zina! diz com solemnidade Maria Alexandrovna: é o mais delicado, o

mais nobre dos homens! Um cavalleiro da edade média! Ella bem o sabe,

principe, e sabe-o até demais, por minha desgraça!... Ah!... Oxalá cá

não tivesse apparecido... Entrego nas suas mãos o meu thesouro...

Conserve-o, principe!... Escute os rógos de uma mãe! Qual será a mãe que

poderá levar-me a mal a minha magua?!

--Basta! mamã! murmura a Zina.

--Ha de defendêl-a, principe, a sua espada ha de fulgir se as calumnias

se atreverem a tocar-lhe!

--Basta mamã, aliás...

--Está c... claro... a minha espada!... murmura o principe. Quero que o

ca... casamento se realize, quanto antes... agora... é que eu devéras

prin... cipío a viver!... Tenciono mandar desde já a Dur-kha-khanovo...

Tenho lá uns brilhantes, quero pôl-os a seus pés.

--Que ardor, que arrebatamentos, que nobreza de alma! E lembrar-me eu,

principe, de que se estava a perder n'aquelle ermo!... Não me canço em

repetir... Eu, quando me lembro d'aquella... infernal... toda eu me

horrorizo!...

--Mas que queria que eu fizesse?

Tinha tanto... mê... mêdo! choraminga o principe. Queriam pregar commigo

numa casa de saude... e tive... mê... mêdo!

--N'uma casa de saude! Ah! que miseraveis! Que vileza, que crueldade!...

Já me constou isso mesmo, principe! Mas essa gente está doida! Mas por

quê... por quê?...

--Se quer que... lhe diga, nem eu o sei, responde o ginjinha caindo

derrengado de cansaço na poltrona. Foi assim--estava eu n'um ba... baile,

e contei-lhe uma anecdóta.--Desagradou-lhes e ahi está... e resultou

d'ahi uma historia... uma histo... ria.

--E foi esse apenas o motivo?

--Não foi, eu tambem tinha jogado as cartas com o principe Pedro

Dmirititch, e perdido immenso... tinha dois reis e três... da... damas...

quero dizer, três da... da... mas e dois r... reis... Não é isto... um

r... r... rei e só... da... damas!

--E foi só por isso!--por isso!--Infernalissima protervia! Não chore,

principe! Não lhe torna a acontecer! D'aqui em diante, encontra-me a seu

lado, meu principe!--Pois não me aparto da Zina, e veremos quem é que se

atreve a abrir bocca. Sabe o que lhe digo, principe? Que o seu casamento

vae deixál-os consternados; vae envergonhál-os! Hão de ver que ainda é

capaz... quero dizer... comprehenderão que tão peregrina beldade nunca

iria casar com um mentecapto!--E agora, pode olhar para elles rosto a

rosto, de cabeça erguida!

--Está--claro... rosto a rosto!--murmura o principe fechando os olhos.

--Está derreado de todo, diz comsigo Maria Alexandrovna; creio que

estarei a soltar palavras ao vento.

--Está commovido, meu principe, precisa de ir descançar, diz debruçada

sobre elle com maternal sollicitude.

--Está... c... claro... encostar-me um bocadinho.

--É tal qual... Estes abalos!--Espere ahi, vou acompanhál-o. Eu propria

irei deitál-o, se for necessario... Por que é que está a olhar tanto

para aquelle retrato, principe?

É o retrato de minha mãe, não era uma mulher, era um anjo! Oh! oxalá

ella ainda cá estivesse! Era uma santa, uma santa, sim, nem lhe posso

dar outro nome!

--Uma s... anta, é bonito!... Eu tambem tive mãe, uma senhora

extrê... ê... ma... mente nut... trida... E d'ahi, não é isso que eu queria

dizer... Estou um tanto fatigado... Adeus... minha linda menina...

amanhã... em sum... ma... não importa... Até mais ver... até mais ver!...

Tenta fazer um gesto gracioso, mas escorrega no pavimento encerado, e

por pouco se não desiquilibra.

--Cuidado, principe. Encoste-se ao meu braço! grita Maria Alexandrovna.

--Um encanto! um encanto! Agora sim, agora começo a viver!

Ficou a sós a Zina. Sentia uma oppressão, um desprezo para comsigo

mesmo. Com as faces a escaldar, as mãos contraídas, os dentes

enclavinhados. Inérte, e a vergonha a arrazar-lhe os olhos de

lagrimas...

N'este lance, eis se abre a porta e investe pela sala dentro o

Mozgliakov--fulvo de raiva!

Um club da Má-Lingua · 第 14 / 25 题