--Com que, então, divertiu-se muito, principe, em casa da Natalia
Dmitrievna? indaga Maria Alexandrovna, deitando olhar soffrego para a
futura prêsa.
(Enceta de proposito as hostilidades do modo mais innocente. De
commovida, tem o coração aos pulos.)
Depois de jantar, transferiram o principe para a sala onde este havia
entrado pela manhã. O ginjinha, com lastro de seis copos de champanhe,
já não conserva equilibrio. Em compensação, não cessa de badalar. Maria
Alexandrovna percebe que é apenas uma excitação de momento e que o
hospede, d'alli a nada, ferra comsigo a dormir. Cumpre pois aproveitar a
occasião. Nota com jubilo que o voluptuario ginjinha dispara á Zina uns
olhares de gula. Rejubilam os seus maternaes sentimentos.
--Ex-trê-ê-ma-mente! e, não sabe? é uma mulher incom-pa-ra-á-vel...
aquella Natalia Dmitrievna, uma incompa-ra-vel mulher!
A despeito dos muitos cuidados, aquelles louvores tributados á rival
fazem sangrar o ciume a Maria Alexandrovna.
--Ora vamos, principe! exclama com os olhos a ferir lume, se essa sua
Natalia Dmitrievna é uma mulher incomparavel, tapa-me a boca, mas é
preciso que o principe conheça muito mal esta nossa sociedade! Não passa
tudo de um alarde descarado de sentimentos ausentes, comédia, verniz,
oiro ao de cima.
Erga uma pontinha ás apparencias, e encontrará um verdadeiro inferno
escondido por baixo das flores, uma ninhada de viboras promptas a
tragál-o.
--De-vé-ras! Estou pa-a-asmado!
--Sou eu que lh'o digo! Ah! meu principe! Ora escute, é a Zina!
Assiste-me o dever--e a tanto me vejo obrigada--de contar ao principe
uma aventura ridicula que se deu a semana passada, com aquella Natalia
Dmitrievna--lembras-te?--Sim, principe, com aquella Natalia a quem tanto
admira.
Ah! meu caro principe, affirmo-lhe que não sou mexeriqueira, mas devo
contar-lhe isto unicamente para lhe dar uma amostra viva e irrisoria da
nossa sociedade.
Haverá quinze dias veiu visitar-me essa tal Natalia Dmitrievna. Estavam
servindo o café, e eu tinha que sair. Lembro-me muito exactamente das
pedras de açucar que ficaram no meu açucareiro de prata: estava cheio.
Volto, e que hei de eu ver? Restavam apenas tres pedrinhas. Ora, a
Natalia Dmitrievna tinha ficado sósinha! Que me diz a isto?
Tem casa, dinheiro, tudo que lhe apetece... É comico e pequenino, pois
não acha?--E por aqui já pode avaliar o que é esta nossa sociedade em
Mordassov.
--De-ve-ras?--É uma gulodice... sobre-natural! Mas como é que ella pôde
engulir um açucareiro?
--E ahi tem a sua mulher incomparavel, principe; se já se viu uma
vergonha assim? Eu por mim estou que antes queria morrer, do que
resolver-me a praticar um acto tão nojento!
--Está c... claro!... está... claro!--Mas ainda assim--sempre lhe digo,
que é uma linda mulher!
--Quem? A Natalia Dmitrievna! Ora vamos, principe, ella o que é é uma
pipa. Ah! principe, principe, que está dizendo? Sempre fiz outra opinião
do seu bom gosto!
--Está--c... claro--uma pipa!--Mas ainda assim--sempre lhe digo que é
bem feita; e depois, aquella pequer... rucha que dansava... essa tambem
é... bem feita.
--A Sónitchka? Ora! Uma pequena! Tem apenas quatorze annos.
--Está... claro!--mas ainda assim,... é tão leve... e com umas
formas..., tão... geitozinhas!... E a outra que dan... sou com ella?
--Ah! aquella serigaita d'aquella orphã, principe?
--Está claro--orphã! É porquinha,--devia ao menos ter lavado as
mãos,--mas é sedu-u-ú-ctora.
E o principe, emquanto vae falando, não despega, com crescente avidez, o
monóculo do semblante da Zina.
--Mas... que... linda... me... nina! tartamudéa... meio estarrecido...
--Zina, vê se tocas alguma coisa, ou antes... canta. Canta que é uma
delicia, principe; chega a ser uma virtuose, ouso affirmál-o, uma
verdadeira virtuose. E se soubesse, principe, prosegue a meia voz Maria
Alexandrovna emquanto Zina se approxima do piano, com aquelle seu andar,
lento e cadenciado, que põe num sobresalto o jarreta, e se soubesse a
que ponto é amoravel, como é carinhosa para commigo! Que coração! Que
sentimentos!
--Está claro! Sentimentos! E se quer que lhe diga... ainda não conheci
senão uma mulher que se lhe possa comparar como formosura, responde o
principe a engulir a saliva, é a condessa Naniskara; que Deus tem. Já lá
vae ha trinta annos. Que mulher! Que maravilhosa formosura! Casou com o
cozinheiro.
--Com o cozinheiro, principe!?
--Está claro--o cozinheiro, um francez, no estrangeiro.--E arranjou-lhe
lá no estrangeiro um titulo de conde. Um homem muito instruido, com uns
bigodinhos.
--E como é que viviam, e onde, principe?
--Está claro--viviam muito bem! E d'ahi, não tardou muito que se não
apartassem.--Elle roubou-a e safou-se. Quer-me parecer que jogaram as
cristas lá por causa de um môlho.
--Que queres que eu toque, mamã?
--Por que não cantas, antes? Se soubesse como ella canta, principe!
Gosta de musica?
--Está c... laro! Um encanto--um encanto! Gosto immenso de musica!
Co... onheci muito Beethoven, no estrangeiro.
--Beethoven! Ora imagina, filha, o principe conheceu Beethoven! clamou
Maria Alexandrovna, maravilhada. Ah! principe, pois devéras, conheceu
Beethoven?
--Está c... laro: Eramos intimos amigos. Tinha o nariz sempre atulhado de
rapé... Que sujeitinho tão ratão!
--Quem, Beethoven?
--Está c... laro,--Beethoven? E não seria talvez Beethoven... mas sim
outro qualquer. Ha muito allemão, por toda a parte... Que eu, afinal,
parece-me que estou equivocado.
--E que hei de eu cantar, mamã?
--Ah, Zina! Canta-me aquella romança, não te lembras? Aquella que tem um
accento tão cavalheiresco: a castellã e o seu trovador--Ah principe, sou
doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castéllos! aquelle viver
mediéval! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o
acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os
castéllos, os castéllos!
--Está c... laro! os castéllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o
principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que
romança!... Estou a conhecêl-a... Ha que tempos... que tempos que a
ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...
Não me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a
Zina entrou a cantar. Cantava uma romança francêsa, muito antiga e que
estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de
contralto ia direita ao coração. O lindo rosto, os magnificos olhos, os
dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, tão
lustrósos, o seio afflante, a sua pessoa féra e linda, toda ella,
concorria tudo a enfeitiçar o pobre do gêbo. Não despegou os olhos de
cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido.
Aquelle senil coração, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas
reminiscencias, palpitava cada vez com mais força, e como não havia
palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.
--Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou
encantado!--E só agora é que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda
menina!...
O principe nem foi senhor de concluir.
Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.
--Para que anda a dar cabo de si, principe?--encetou com solemnidade.
Quantos sentimentos, quantas forças vitaes, quanta riqueza moral lhe não
resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num
carcere! Fugir do mundo! Das amizades! É imperdoavel! Pense bem,
principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos!
Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem
cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a
viver entre a sociedade dos vivos: vá até ao estrangeiro... á Italia, á
Hespanha, principe, á Hespanha. Precisava de um guia, de um coração que
lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.
Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e virão em monte. Cá
estou eu que seria a primeira a dar de mão a tudo, e a deitar a correr
para acudir ao seu chamado! Não me esqueço da nossa antiga amizade,
principe! Deixaria, até, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse tão
formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua
mulher, até, se o desejasse.
--Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher
encantadora, disse o principe a assoar-se.
Tinha os olhos arrazados de lagrimas.
--A nós proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde
effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a
amiga dos meus pensamentos, do meu coração, principe! Rejeitou até agora
sete pedidos de casamento, por se não querer apartar de mim.
--E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao
estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... está resolvido...
exclama o animadissimo principe.--Absolutamente!... E se eu pudesse
lison... jear-me com a es... pe... rança... Mas é uma menina po...
rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!
E o principe volta outra vez a beijar os dedos á Zina. Tentou até
ajoelhar-lhe aos pés, o pobre do homem.
--Então!... então, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjeál-o a
esperança?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo
accesso de eloquencia. Que homem tão singular é o principe!... Não se
considera então digno da attenção das mulheres! A formosura não consiste
apenas na mocidade! Lembre-se de que é uma reliquia da aristocracia
russa! É o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos
sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria não amou o
Mazeppa[10] porventura? Li algures que Lauzun, um marquêz seductor da
côrte de Luis... não sei quantos... já velho, conquistou uma das mais
supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em
cabeça que já era velho? Quem se atreveu a afirmál-o? Homens como o
senhor envelhecerão jámais, porventura? O principe, tão opulentamente
dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de força vital, de tão
delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estação balnear
com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para não irmos mais
longe,--e eu lhe diria que effeito colossal não havia de produzir, o
senhor, reliquia da nossa aristocracia; ella, uma belleza de rainha!
Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de braço dado com o principe, a
cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a
fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pêso a
fazer-lhe côrte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor
os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe!
Principe!"