VIII

--Com que, então, divertiu-se muito, principe, em casa da Natalia

Dmitrievna? indaga Maria Alexandrovna, deitando olhar soffrego para a

futura prêsa.

(Enceta de proposito as hostilidades do modo mais innocente. De

commovida, tem o coração aos pulos.)

Depois de jantar, transferiram o principe para a sala onde este havia

entrado pela manhã. O ginjinha, com lastro de seis copos de champanhe,

já não conserva equilibrio. Em compensação, não cessa de badalar. Maria

Alexandrovna percebe que é apenas uma excitação de momento e que o

hospede, d'alli a nada, ferra comsigo a dormir. Cumpre pois aproveitar a

occasião. Nota com jubilo que o voluptuario ginjinha dispara á Zina uns

olhares de gula. Rejubilam os seus maternaes sentimentos.

--Ex-trê-ê-ma-mente! e, não sabe? é uma mulher incom-pa-ra-á-vel...

aquella Natalia Dmitrievna, uma incompa-ra-vel mulher!

A despeito dos muitos cuidados, aquelles louvores tributados á rival

fazem sangrar o ciume a Maria Alexandrovna.

--Ora vamos, principe! exclama com os olhos a ferir lume, se essa sua

Natalia Dmitrievna é uma mulher incomparavel, tapa-me a boca, mas é

preciso que o principe conheça muito mal esta nossa sociedade! Não passa

tudo de um alarde descarado de sentimentos ausentes, comédia, verniz,

oiro ao de cima.

Erga uma pontinha ás apparencias, e encontrará um verdadeiro inferno

escondido por baixo das flores, uma ninhada de viboras promptas a

tragál-o.

--De-vé-ras! Estou pa-a-asmado!

--Sou eu que lh'o digo! Ah! meu principe! Ora escute, é a Zina!

Assiste-me o dever--e a tanto me vejo obrigada--de contar ao principe

uma aventura ridicula que se deu a semana passada, com aquella Natalia

Dmitrievna--lembras-te?--Sim, principe, com aquella Natalia a quem tanto

admira.

Ah! meu caro principe, affirmo-lhe que não sou mexeriqueira, mas devo

contar-lhe isto unicamente para lhe dar uma amostra viva e irrisoria da

nossa sociedade.

Haverá quinze dias veiu visitar-me essa tal Natalia Dmitrievna. Estavam

servindo o café, e eu tinha que sair. Lembro-me muito exactamente das

pedras de açucar que ficaram no meu açucareiro de prata: estava cheio.

Volto, e que hei de eu ver? Restavam apenas tres pedrinhas. Ora, a

Natalia Dmitrievna tinha ficado sósinha! Que me diz a isto?

Tem casa, dinheiro, tudo que lhe apetece... É comico e pequenino, pois

não acha?--E por aqui já pode avaliar o que é esta nossa sociedade em

Mordassov.

--De-ve-ras?--É uma gulodice... sobre-natural! Mas como é que ella pôde

engulir um açucareiro?

--E ahi tem a sua mulher incomparavel, principe; se já se viu uma

vergonha assim? Eu por mim estou que antes queria morrer, do que

resolver-me a praticar um acto tão nojento!

--Está c... claro!... está... claro!--Mas ainda assim--sempre lhe digo,

que é uma linda mulher!

--Quem? A Natalia Dmitrievna! Ora vamos, principe, ella o que é é uma

pipa. Ah! principe, principe, que está dizendo? Sempre fiz outra opinião

do seu bom gosto!

--Está--c... claro--uma pipa!--Mas ainda assim--sempre lhe digo que é

bem feita; e depois, aquella pequer... rucha que dansava... essa tambem

é... bem feita.

--A Sónitchka? Ora! Uma pequena! Tem apenas quatorze annos.

--Está... claro!--mas ainda assim,... é tão leve... e com umas

formas..., tão... geitozinhas!... E a outra que dan... sou com ella?

--Ah! aquella serigaita d'aquella orphã, principe?

--Está claro--orphã! É porquinha,--devia ao menos ter lavado as

mãos,--mas é sedu-u-ú-ctora.

E o principe, emquanto vae falando, não despega, com crescente avidez, o

monóculo do semblante da Zina.

--Mas... que... linda... me... nina! tartamudéa... meio estarrecido...

--Zina, vê se tocas alguma coisa, ou antes... canta. Canta que é uma

delicia, principe; chega a ser uma virtuose, ouso affirmál-o, uma

verdadeira virtuose. E se soubesse, principe, prosegue a meia voz Maria

Alexandrovna emquanto Zina se approxima do piano, com aquelle seu andar,

lento e cadenciado, que põe num sobresalto o jarreta, e se soubesse a

que ponto é amoravel, como é carinhosa para commigo! Que coração! Que

sentimentos!

--Está claro! Sentimentos! E se quer que lhe diga... ainda não conheci

senão uma mulher que se lhe possa comparar como formosura, responde o

principe a engulir a saliva, é a condessa Naniskara; que Deus tem. Já lá

vae ha trinta annos. Que mulher! Que maravilhosa formosura! Casou com o

cozinheiro.

--Com o cozinheiro, principe!?

--Está claro--o cozinheiro, um francez, no estrangeiro.--E arranjou-lhe

lá no estrangeiro um titulo de conde. Um homem muito instruido, com uns

bigodinhos.

--E como é que viviam, e onde, principe?

--Está claro--viviam muito bem! E d'ahi, não tardou muito que se não

apartassem.--Elle roubou-a e safou-se. Quer-me parecer que jogaram as

cristas lá por causa de um môlho.

--Que queres que eu toque, mamã?

--Por que não cantas, antes? Se soubesse como ella canta, principe!

Gosta de musica?

--Está c... laro! Um encanto--um encanto! Gosto immenso de musica!

Co... onheci muito Beethoven, no estrangeiro.

--Beethoven! Ora imagina, filha, o principe conheceu Beethoven! clamou

Maria Alexandrovna, maravilhada. Ah! principe, pois devéras, conheceu

Beethoven?

--Está c... laro: Eramos intimos amigos. Tinha o nariz sempre atulhado de

rapé... Que sujeitinho tão ratão!

--Quem, Beethoven?

--Está c... laro,--Beethoven? E não seria talvez Beethoven... mas sim

outro qualquer. Ha muito allemão, por toda a parte... Que eu, afinal,

parece-me que estou equivocado.

--E que hei de eu cantar, mamã?

--Ah, Zina! Canta-me aquella romança, não te lembras? Aquella que tem um

accento tão cavalheiresco: a castellã e o seu trovador--Ah principe, sou

doida pelos assuntos cavalheirescos! Os castéllos! aquelle viver

mediéval! Trovadores, arautos! Festas e torneios!... Vou te fazer o

acompanhamento, Zina... Sente-se aqui, mais perto, principe! Ai! os

castéllos, os castéllos!

--Está c... laro! os castéllos... tambem gosto de cas... tellos, repete o

principe assestando na Zina o olho solitario: Mas... santo Deus! que

romança!... Estou a conhecêl-a... Ha que tempos... que tempos que a

ouvi... recorda-me... ah! meu Deus!...

Não me incumbo de dizer o que foi que succedeu ao principe, quando a

Zina entrou a cantar. Cantava uma romança francêsa, muito antiga e que

estivera em moda, nos seus tempos. A Zina cantou a primor. A voz pura de

contralto ia direita ao coração. O lindo rosto, os magnificos olhos, os

dedos fusiformes a voltarem as folhas, os bastos e negros cabellos, tão

lustrósos, o seio afflante, a sua pessoa féra e linda, toda ella,

concorria tudo a enfeitiçar o pobre do gêbo. Não despegou os olhos de

cima d'ella emquanto ella esteve a cantar. Suffocava de commovido.

Aquelle senil coração, esquentado pelo champanhe, pela musica e pelas

reminiscencias, palpitava cada vez com mais força, e como não havia

palpitado ha tanto tempo! Estava a ponto de chorar quando ella acabou.

--Oh! minha linda menina! exclamava, a beijar-lhe os dedos, estou

encantado!--E só agora é que me lembro... mas... mas... Oh! minha linda

menina!...

O principe nem foi senhor de concluir.

Maria Alexandrovna sentiu haver chegado o momento psicologico.

--Para que anda a dar cabo de si, principe?--encetou com solemnidade.

Quantos sentimentos, quantas forças vitaes, quanta riqueza moral lhe não

resta ainda? E com tudo isso, foi emparedar-se por toda a vida num

carcere! Fugir do mundo! Das amizades! É imperdoavel! Pense bem,

principe! Encare a vida, como se dissessemos, com uns olhos limpidos!

Lembre-se do passado, da sua aurea juventude, dos seus dias sem

cuidados. Resuscite esse passado, resuscite-se a si proprio! Volte a

viver entre a sociedade dos vivos: vá até ao estrangeiro... á Italia, á

Hespanha, principe, á Hespanha. Precisava de um guia, de um coração que

lhe tivesse amor, que o estimasse e que lhe fosse simpathico.

Pois bem! O principe tem amigos, appelle para elles e virão em monte. Cá

estou eu que seria a primeira a dar de mão a tudo, e a deitar a correr

para acudir ao seu chamado! Não me esqueço da nossa antiga amizade,

principe! Deixaria, até, meu marido, se estivesse mais nova, e fosse tão

formosa como minha filha, fazia-me sua companheira, sua amiga, sua

mulher, até, se o desejasse.

--Estou certo de que, nos seus tempos, deve de ter sido uma mulher

encantadora, disse o principe a assoar-se.

Tinha os olhos arrazados de lagrimas.

--A nós proprios sobrevivemos nos nossos filhos, principe, responde

effusiva Maria Alexandrovna. Tambem eu tenho o meu anjo da guarda, a

amiga dos meus pensamentos, do meu coração, principe! Rejeitou até agora

sete pedidos de casamento, por se não querer apartar de mim.

--E por conseguinte, vae comsigo quando me ac... com... ompanhar ao

estrangeiro? Sendo assim, irei para o estrangeiro... está resolvido...

exclama o animadissimo principe.--Absolutamente!... E se eu pudesse

lison... jear-me com a es... pe... rança... Mas é uma menina po...

rtentosa, portentosa! Ah! minha linda menina!

E o principe volta outra vez a beijar os dedos á Zina. Tentou até

ajoelhar-lhe aos pés, o pobre do homem.

--Então!... então, principe, ia dizendo que se pudesse lisonjeál-o a

esperança?... agarrou no ar Maria Alexandrovna, sentindo brotar-lhe novo

accesso de eloquencia. Que homem tão singular é o principe!... Não se

considera então digno da attenção das mulheres! A formosura não consiste

apenas na mocidade! Lembre-se de que é uma reliquia da aristocracia

russa! É o representante dos mais refinados, dos mais cavalheirescos

sentimentos, e das mais requintadas maneiras! E a Maria não amou o

Mazeppa[10] porventura? Li algures que Lauzun, um marquêz seductor da

côrte de Luis... não sei quantos... já velho, conquistou uma das mais

supinas beldades do seu tempo!... E demais, quem foi que lhe metteu em

cabeça que já era velho? Quem se atreveu a afirmál-o? Homens como o

senhor envelhecerão jámais, porventura? O principe, tão opulentamente

dotado de sentimento, de alegria, de espirito, de força vital, de tão

delicadas maneiras! Fosse o principe para ahi a qualquer estação balnear

com uma mulher joven, com uma beldade como a Zina, para não irmos mais

longe,--e eu lhe diria que effeito colossal não havia de produzir, o

senhor, reliquia da nossa aristocracia; ella, uma belleza de rainha!

Ella, com aquelle seu pisar majestatico, de braço dado com o principe, a

cantar n'uma sociedade aristocratica; o principe, pela sua parte, a

fuzilar ditos de espirito! Era caso para acudirem os banhistas em pêso a

fazer-lhe côrte! Dava brado por toda essa Europa! Pois teria a seu favor

os jornaes, todos elles folhetins, e surgia um grito unanime: "Principe!

Principe!"

Um club da Má-Lingua · 第 13 / 25 题