Jenny não lhe deu tempo de dominar esta primeira impressão e de tomar um

partido.

--Não se constranja. Falle. Está diante da irmã de Carlos. Sei o facto a

que se refere. Eu tambem tenho o maior interesse em conhecer a pessoa de

quem fallava. Por isso acabe o que ia a dizer...

--Ora nem vale a pena. A minha ideia não era....

Jenny resolvera não abandonar aquelle ensejo de resolver o mysterio, que

se promptificára a elucidar em oito dias. Um secreto presentimento lhe

assegurava que d'esta pesquiza resultaria a justificação do irmão.

--Vamos--insistiu ella, dando ás palavras o tom de familiaridade propria

a inspirar confiança.--Dizia que tinha descoberto a morada d'aquella

senhora...

--Eu não disse...

--Não negue. Ouça-me. Eu sei tudo o que se tem passado entre meu irmão e

Cecilia.

--Sabe?!

O que Jenny não sabia era quaes as ideias da snr.ª Antonia sobre este

assumpto, e por isso continuou com a maior precaução:

--Sei, e bem vê que, não só como irmã, mas como amiga, devo... preciso

de...

--Mas quaes são as tenções da senhora?

--Concorrer para evitar o infortunio de ambos--respondeu Jenny,

ambiguamente.

Antonia interpretou a seu modo a resposta.

--Pois bem; eu sei que a senhora tem muito juizo, e por isso digo-lhe,

esta manhã...

N'isto ouviu-se Cecilia fechar a porta do quarto.

--Silencio;--disse Jenny--Cecilia vem ahi. Vamos sair juntas. Não lhe

diga nada, emquanto não fallar commigo. É para bem d'ella. Ámanhã pela

manhã procure-me. Sabe onde moro?

--Sei, sim, minha senhora.

--Então não falte. Vocemecê é uma mulher de juizo, e por isso quero

fallar-lhe. E não diga a Cecilia!

--Esteja descansada--disse Antonia, a quem as ultimas palavras de Jenny

tinham em extremo lisongeado e ganho de coração para a causa d'ella.

Cecilia chegou á sala.

Dentro em pouco, ambas aquellas duas mulheres de belleza incontestavel,

ainda que de tão diversa indole, partiam no elegante carro, conversando

e rindo, com a despreoccupação da juventude.

Jenny tinha com anticipacão dado as ordens para o passeio.

Seguiram pela estrada da Foz. Passaram quasi toda a manhã á beira-mar.

Jenny parecia outra. A sua seriedade ingleza cedera o logar a uma

vivacidade de conversação e a um contentamento, quasi de creança.

Tudo lhe era motivo para alegria, que pouco a pouco se communicou a

Cecilia tambem.

Ha poucas cousas tão fatalmente contagiosas como a alegria das pessoas

sérias.

Foi uma deliciosa manhã a das duas raparigas. Cecilia estava muito longe

de prever em que terminaria aquillo.

Á uma hora voltavam para o carro e ás duas entrava elle, com grande

surpreza e sobresalto de Cecilia, pela rua dos Inglezes, então em plena

actividade commercial.

A presença das duas amigas causou sensação na Praça. Todos conheciam

Jenny; raros, se alguns, podiam dizer quem fosse Cecilia.

Um inglez veio cumprimentar Jenny. Ella aproveitou a occasião para lhe

apresentar Cecilia. Dentro em pouco corria voz na Praça de que era a

filha de Manoel Quentino a senhora que acompanhava a ingleza.

Mr. Whitestone veio receber a filha ao portal. Ao ver Cecilia, trocou um

sorriso de intelligencia com Jenny. Com toda a galanteria as ajudou a

descer do carro.

Foi grande a surpresa de Manoel Quentino, vendo entrar a filha no

escriptorio.

Jenny applaudiu o espanto do velho, rindo com vontade. Mr. Richard

tambem não ficou sério.

Não menos surprendido foi Carlos com o encontro, que estava bem longe de

esperar.

Entre Cecilia, Carlos e Manoel Quentino conservou-se invencivel

constrangimento.

Perto das tres horas, os grupos que estavam ainda na Praça, viram sair

do portal do escriptorio a familia Whitestone, Cecilia e Manoel

Quentino, e todos tomarem logar no carro. Momentos depois este, guiado

por Carlos, atravessava por entre esses grupos, e seguia toda a extensão

da rua, deixando atraz de si uma esteira de commentarios.

Manoel Quentino ia enleiado; Cecilia, pensativa; Jenny, contente.

XXXVIII

JUSTIFICAÇÃO DE CARLOS

No dia seguinte pela manhã, era a snr.ª Antonia introduzida com muita

deferencia no quarto de Jenny. A criada de Manoel Quentino estava

penhorada com tantas attenções, e era já, de corpo e alma, creatura da

inglezinha, como ella chamava a Jenny Whitestone.

Jenny fel-a sentar junto de si e pediu-lhe que lhe dissesse quanto sabia

da tal senhora, a quem alludira na vespera.

Antonia com muitas digressões, a que era inclinada, contou como

n'aquella manhã, passando por a rua de Santa Catharina, vira estar o

snr. Paulo, segundo caixeiro do escriptorio de Mr. Richard, fallando, da

rua para a janella, com uma senhora, que lhe sorria com affecto.

Antonia, obedecendo a natural curiosidade, affirmou-se na tal senhora e

reconheceu-a a mesma que procurára Carlos e saíra com elle n'aquella

manhã, em que Antonia viera colher informações da snr.ª Josefinha da

Agua-benta.

--Era ella sem tirar nem pôr. Emquanto a mim, alguma comediante do

theatro, porque dizem... mas perdôe-me a senhora o eu estar com isto.

Jenny fingiu não attender á opinião de Antonia e perguntou:

--E diz então que mora?

--Na rua de Santa Catharina.

E entrou na minuciosa descripção da casa, com todas as particularidades,

que a podessem fazer conhecida.

Jenny já não tinha nada mais a saber de Antonia.

Ao recompensar generosamente a boa vontade da informação, disse, como

para acalmar os escrupulos ficticios de Antonia:

--Creia que lhe fico ainda obrigada por o que me contou. E agora tenho a

pedir-lhe outra cousa.

--Diga, minha senhora, diga.

--A snr.ª Antonia não ha de dizer que veio aqui.

--Ora essa!

--Estou certa de que não diz; além d'isso, falle verdade, quer muito mal

a meu irmão?

--Eu, minha senhora?--disse Antonia, visivelmente enleiada com a

interpellação.

--É provável que sim. Quasi todos são injustos para Carlos, antes de o

conhecerem. Depois, vendo como elle é bom, generoso e delicado, acabam

por adoral-o.

A snr.ª Antonia ficou abalada nos seus juizos a respeito dos dotes

criticos da cunhada da sobrinha do homem da sua comadre.

--Ora diga--continuou Jenny--não são prevenções sómente as que tem

contra meu irmão?

--Sim... eu... quero dizer... a fallar a verdade...

--Pois bem; só lhe peço que, durante alguns dias, não pense bem nem mal

de Carlos, até... até ter noticias minhas.

--Ó minha senhora, pois eu pensava lá...

--Vá, vá, snr.ª Antonia, para que Cecilia não desconfie. Não lhe diga

cousa alguma, nem falle na tal senhora...

--Esteja descansada.

Logo que Antonia saiu, Jenny deu ordem para prepararem o carro.

E quando lhe annunciaram que esta ordem estava cumprida, desceu ao

portal e entrando para o carro, disse ao criado, que a ajudou a subir:

--Ao alto de Santa Catharina.

Em pouco tempo, achou-se transportada lá. Jenny, pelos signaes que

recebera de Antonia, e conservava de memoria, pôde reconhecer a casa da

tal senhora e mandou parar defronte d'ella.

Só então hesitou pela primeira vez n'esta serie de actos, a que

obedecera como subjugada por quasi instinctiva violencia.

--Em casa de quem vou eu entrar?--pensou ella---Que mulher será esta?

Carlos afiançou-me... porém...

Á porta da casa contigua estava um criado, olhando com curiosidade para

o carro era que viera Jenny.

Jenny mandou perguntar a este criado informações a respeito da senhora

que vinha procurar.

Obteve a resposta de que morava na tal casa uma senhora viuva, na

companhia do filho.

Jenny não hesitou mais; saltou para o passeio e tocou a campainha.

Passados minutos, era recebida em uma modesta, mas asseiada sala, por

uma senhora ainda bella, apesar de haver já passado o verdor da

juventude.

Jenny foi direita ao fim da visita.

--Minha senhora--disse ella--eu chamo-me Jenny Whitestone.

A senhora estremeceu de surpreza. Jenny proseguiu com uma concisão,

verdadeiramente ingleza:

--Venho de proposito procural-a, e não sei ainda a quem tenho a honra de

fallar. O fim da minha visita é este: Meu irmão, Carlos Whitestone, saíu

ha dias de casa na companhia de uma senhora; entrou em uma loja de

ourives, e vendeu um relogio, que, pouco tempo antes, recebera de meu

pae.--Este facto foi sabido; meu pae experimentou com isto grande

desgosto, e esta acção de Carlos tem sido interpretada de maneira

desfavoravel para elle e trazido comsigo dissensões domesticas, que

trabalho por aplacar. Meu irmão afiança não ter sido indigno o motivo do

sacrificio que fez d'aquella dadiva do affecto paterno; insiste porém em

não o explicar. Eu creio na palavra de Carlos, porque o conheço; mas nem

todos depositam n'elle a mesma confiança. Soube por acaso que era v.

exc.ª a senhora, que n'aquella manhã acompanhava meu irmão. Poderei

obter de v. exc.ª provas para a justificação de Carlos?

Emquanto Jenny fallava, a senhora mostrava-se cada vez mais agitada,

como se diversas sensações se combatessem n'ella. Ao ouvir-lhe esta

pergunta, respondeu com as lagrimas nos olhos:

--Póde, sim, minha senhora; mas... depois de v. exc.ª as ver, dirá se me

será possivel deixar de pedir-lhe que não use d'ellas.

--Como?--perguntou Jenny, admirada.

Em vez de responder, a senhora levantou-se e aproximou-se de uma

secretária, que abriu. Voltou dentro em pouco, trazendo alguns papeis na

mão.

--Eu sou a mãe de Paulo, o caixeiro do escriptorio do snr. Whitestone.

--Ah!

--Queira ler esta carta, minha senhora.

Era uma carta de Paulo á mãe.

Jenny leu; a meia leitura, saltavam-lhe já as lagrimas dos olhos e

comprehendia tudo.

N'esta carta Paulo confessava-se criminoso e dizia-se perdido para

sempre. O muito amor, que tinha á mãe, tornára-lhe insupportavel a ideia

de que a menor privação fizesse sentir á pobre senhora as amarguras de

unia existencia, para cujo amparo só elle ficára, depois da morte de seu

pae.--Este sentimento piedoso perdeu-o. Não bastando para tratal-a, como

desejava, os ordenados do escriptorio, contrahiu dividas primeiro; para

as saldar, jogou nas loterias; acresceu o mal; e mais tarde, em um

momento de desespêro, durante o mez da doença de Manoel Quentino,

subtrahiu uma avultada somma da caixa, fechando os olhos ás

consequencias.--A confiança de Carlos era facil de illudir; mas na

vespera do regresso de Manoel Quentino ao escriptorio, Paulo previu que

o desconfiado guarda-livros cêdo descobriria tudo. Após o susto, veio o

remorso, e após o remorso, a resolução desesperada. Para evitar o

suicidio, resolveu fugir da cidade. N'esta carta despedia-se portanto da

mãe, e recommendava-lhe que pedisse protecção a Mr. Richard e sobretudo

a Carlos, em cujo caracter generoso o pobre rapaz confiava cegamente.

--Ó meu bom Charles!--disse Jennv, ao acabar de ler--eu bem sentia que

havia de ser digno de ti o motivo, que te levou áquillo. Comprehendo

tudo, meu irmão...

--Seu irmão é uma alma sublime, a quem Deus pagará em venturas as

lagrimas de gratidão, que elle me tem feito derramar.

Jenny apertou commovida as mãos da senhora, que chorava.

Contou a mãe de Paulo os promenores das scenas, que se passaram

n'aquella manhã: como, ao acordar, dera pela ausencia do filho e

encontrára esta carta a explical-a; o seu desespêro, a sua irresolucão;

a ignorancia, em que ficou sobre o destino de Paulo.--Disse depois como

o bilhete de um amigo desconhecido, indicando a Paulo a hora a que devia

estar a bordo do navio, lhe dera indicios.

Depois contou toda a entrevista com Carlos, a quem ella recorrera

desesperada. A prompta disposição d'este para valer-lhe, como, obtida

com a venda do relogio a somma do alcance de Paulo, Carlos a acompanhára

á Foz, até bordo do navio, e lhe restituira o filho, que ella já

suppunha perdido.

--Horas depois--concluiu ella--recebia eu em casa este bilhete de Paulo.

Jenny leu-o. Dizia apenas:

«Tudo está salvo, minha boa mãe. A generosidade do snr. Carlos livrou-me

da deshonra. Resta-me o dever da regeneração, que sinto agora mais vivo

do que nunca.»

--E agora diga, minha senhora, devo accusar meu proprio filho? Não era

por mim que elle se perdia? E devo pagar-lhe assim? É de justiça, bem

sei; mas... perdôe-me se me falta a coragem. Não desculpará esta

fraqueza a uma mãe?

Jenny abraçou-a com ternura.

--Tranquillise-se, minha senhora. Não é a esse coração que eu pedirei

tal sacrificio. Deus me inspirará algum meio de valer a todos. Sinto-me

agora com força para tudo.

--Pobre Paulo! O muito amor que me tem foi que o levou áquillo. Ainda

hoje sente remorsos tão vivos!... Elle bem faz por se alegrar, mas...

conheço que lhe peza esta pena dentro da alma. «Se eu fosse só--disse-me

elle ha dias--se a minha desgraça não podesse cair sobre a cabeça de

mais ninguem, eu já teria confessado tudo! Envergonho-me de mim mesmo,

quando penso no meu silencio.» E eu, senhora, que abençoaria a hora, em

que espontaneamente elle o confessasse, não tenho coragem para

dizer-lhe: Falla! Parece-me quasi uma ingratidão... Era como se eu

propria, sabendo que elle se deshonrára por mim, o apontasse deshonrado

aos olhos dos outros.

Jenny consolou a pobre mãe e prometteu-lhe não revelar a alguem o que

d'ella acabára de saber.

Saíu d'alli com a alegria no coração a generosa irmã de Carlos.

De caminho ia pensando na maneira de proceder para patentear ao pae a

innocencia de Carlos, sem trahir a confiança, que a mãe de Paulo

depositára n'ella.

De subito acudiu-lhe uma ideia, que a fez sorrir. E, em vez de voltar

para casa, como tencionava, deu ordem para que a conduzissem ao

escriptorio da rua dos Inglezes.

Mr. Richard, que passeiava na Praça, vendo chegar a filha, aproximou-se

d'ella sorrindo.

--Que madrugada é esta, Jenny?

--Admira-se? pois ha muito que ando por fóra.

--Então é dia de feira?

--Não, senhor; mas tenho hoje de lhe dar contas de um trabalho de que me

encarreguei.

--Qual?

--Um problema que prometti resolver em oito dias.

--Ah! e então?...

--E então, nem tanto tempo me foi preciso; já possuo a solução; agora só

me resta uma difficuldade.

--Qual é?

--Achar a maneira apropriada de lh'a fazer saber.

--Isso não custa a imaginar.

--Não é muito facil, porque prometti que não serei eu que a diga.

--E então quem ha de ser?

--É o que venho procurar.

--Aqui?

--Lá acima, ao escriptorio, onde me deixará subir e demorar algum tempo.

--Como quizeres. E póde saber-se se a solução é satisfactoria?

--A melhor possivel.

--Duvido.

--Verá.

--Verei.

--Duas palavras mais; os seus caixeiros sabem todos inglez?

--Manoel Quentino...

--Esse sei que sim; os outros?

--Paulo não o falla, mas entende-o; o outro nem o entende, nem o falla.

--Bem. Outra cousa. Ha de fazer-me uma promessa.

--Dize.

--Quando souber a solução do problema, se reconhecer que foi severo de

mais para com seu filho, será, em compensação, indulgente para com o

verdadeiro culpado.

--Pois ha culpados?

--Promette?

--Mas...

--Prometterei, porém...

--Até logo. Ou eu me engano muito, ou, d'aqui a meia hora, póde vir

saber o resultado.

--De ti?

--De mim não. Até logo.

E desappareceu, subindo com ligeireza as escadas carunchentas do

escriptorio.

Ao entrar alli dentro, Jenny revestiu-se de um d'aquelles ares graves e

pensativos, que tão bem lhe iam á physionomia sympathica.

Estavam na sala Manoel Quentino, Paulo e o outro caixeiro, e todos se

levantaram, ao verem entrar a joven ingleza.

--Por favor, deixem-se estar como estão--disse ella, sentando-se ao pé

de Manoel Quentino.--Quero descansar algum tempo aqui; mas não

interrompam os trabalhos.

--Estava bem longe de a esperar hoje por estes sitios, miss Jenny--disse

Manoel Quentino, continuando a trabalhar.

--Precisei de fallar com o pae... Mas que tem, Manoel Quentino?

Parece-me triste; Cecilia como está?

--Graças a Deus, menina, Cecilia... não está mal.

--Então não esteja triste. Para tristezas basto eu.

--Então miss Jenny está triste?

--E não pouco, Manoel Quentino.

Manoel Quentino sorriu, como quem duvidava.

--De que se ri? Julga-me incapaz de sentir a tristeza?

--Não, mas não vejo o que possa causar-lh'a.

--Então ouça e diga se o motivo não é para estes e peiores effeitos.

Jenny, passando de repente a fallar inglez, como se desejasse ser

sómente comprehendida por Manoel Quentino, a quem se dirigia em tom

confidencial, proseguiu:

--Charles tem excellente coração, como sabe; mas uma cabeça!... Sem o

querer, é o motivo de continuados desgostos em casa. Ahi está que se dá

agora com elle um facto, bem singular, que é a causa da minha tristeza.

E Jenny principiou a contar a Manoel Quentino a historia do relogio, o

desgosto de Mr. Richard, a insistencia de Carlos em occultar as razões

que o moveram áquella venda, razões que elle se limitava a affirmar não

serem vis.

--Mas que quer?--proseguia Jenny--quem o acreditará? Eu e mais ninguem.

O conceito que geralmente fazem de meu irmão, não lhe serve de fiança

valiosa. Isto tem feito existir entre Charles e o pae, ha já muitos

dias, uma frieza... mais do que frieza, uma quasi hostilidade, que me

afflige. Se soubesse, Manoel Quentino, o que tenho chorado por causa

d'elles!...

Jenny que, como dissemos, fallava agora em inglez e como quem não

receiava que alguem mais a comprehendesse na sala, lançava de quando em

quando olhares furtivos para Paulo e via-o mudar de cor, passar de

pallido a córado, empallidecer de novo, córar outra vez, emquanto mal

segurava na mão tremula a penna, com que escrevia.

Jenny seguia com prazer todos estes signaes, e por elles conjecturava

que estava sendo entendida.

--Verduras!--disse Manoel Quentino, procurando desculpar Carlos.

--Que importa que o sejam? São motivo bastante para nos fazer soffrer a

todos.

Jenny insistiu muito n'isto, exagerou as côres sombrias com que pintou o

horizonte domestico. N'isto fallava ainda, quando Mr. Richard entrou no

escriptorio. Jenny receiou que qualquer pergunta d'elle inutilisasse

todo o artificio, e por isso correu ao encontro do pae e, fingindo

abraçal-o, disse-lhe ao ouvido:

--Não se refira a nada do que ha pouco lhe disse e demore-se aqui no

escriptorio.

Mr. Richard fez, sorrindo, um signal de assentimento.

Jenny sustentou uma conversa insignificante, sem nunca perder de vista

Paulo, cuja turbação indicava uma violenta lucta interior. Jenny

agourava bem do que ia observando n'elle.

Emfim deixou afrouxar a conversa e fez ao pae signal para que entrasse

no gabinete. Mr. Whitestone assim o fez.

A agitação de Paulo cresceu. Jenny espiava-lhe todos os movimentos e

expressões. Viu-o pousar a penna e erguer-se, como movido por forte

resolução. Jenny tremeu de sobresalto! Depois fez-se pallido, passou a

mão pela fronte e sentou-se outra vez. Jenny desanimou. Ergueu-se emfim

resoluto, e sem parar um momento mais, dirigiu-se ao gabinete de Mr.

Richard e pediu licença para entrar.

--Entre--disse de dentro a voz do negociante.

Paulo entrou, fechando a porta atraz de si.

Jenny não pôde conter-se; saíram-lhe involuntariamente dos labios estas

palavras:

--Está ganha a causa!

Manoel Quentino olhou para ella admirado.

Jenny pôz-se a rir.

--Se soubesse, Manoel Quentino, que se está agora mesmo desmoronando o

ultimo e pequeno estorvo, que se oppunha á sua felicidade!...

Manoel Quentino cada vez a comprehendia menos.

Jenny nada mais disse.

A conferencia de Paulo e de Mr. Richard durou muito tempo. De fóra só se

percebia um indistincto rumor de vozes, sem se distinguir uma só

palavra.

A final abriu-se a porta outra vez.

Passou por Jenny o tremor de incerteza.

O primeiro que saiu foi Paulo; trazia as faces afogueadas, os olhos

vermelhos; mas, por entre estes vestigios de tristeza, transluzia certo

ar de contentamento de alma, que tranquillisou Jenny.

Momentos depois saiu Mr. Richard. Através da impassibilidade e frieza

apparente da physionomia do velho, o olhar de Jenny percebeu que lhe ia

muita alegria no coração.

Mr. Richard deu algumas ordens, fez algumas recommendações, e depois,

voltando-se para a filha, disse-lhe que estava á disposição d'ella.

Retirava-se do escriptorio a uma hora excepcional.

Jenny acompanhou-o.

--Saíste-te perfeitamente da tua incumbencia, Jenny--disse-lhe o pae,

quando a sós com ella no carro.

--Então não saí?

--E como o conseguiste?

--Mais de vagar!... Esse é o meu segredo. Diga, não estará Carlos ainda

justificado?

Um sorriso foi a resposta que obteve esta pergunta; sorriso de orgulho,

de affecto, de commoção, que tudo estava então experimentando aquelle

coração de pae.

--Carlos tem uma alma generosa, leal; eu tenho sido devéras injusto com

elle.

Jenny exultou ao ouvir esta confissão.

--Escuso de perguntar--disse ella--se foi indulgente com o culpado:

tenho até a pedir-lhe perdão de ter antes exigido a promessa d'aquillo,

que por certo espontaneamente faria.

--Enganas-te; eu castigo.

Jenny olhou-o inquieta.

--O castigo é um dever moral--proseguiu o pae.--É o meio de regeneração.

As almas fracas e vis castigam-se com rigores; só o mêdo póde

refreial-as. Mas Paulo, apesar da sua fraqueza, tem vigorosos ainda os

instinctos da honra; para estes o castigo, que regenera, é o pagar a

culpa com o beneficio. No mesmo dia, em que Manoel Quentino for meu

socio, Paulo será nosso guarda-livros, ser-lhe-hão augmentados os

salarios e confiada a caixa.

Jenny beijou as mãos do pae.

--Deus não castigaria por outra fórma.

--Não digas heresias, Jenny.

Haviam chegado a casa.

--Agora pódes fazer a Manoel Quentino o teu presente--disse Mr. Richard.

--E depois...

--Depois examinaremos de vagar o resto das tuas loucuras.

XXXIX

CORÔA-SE A OBRA

Manoel Quentino estava ainda em casa, na manhã do dia seguinte, quando

Antonia lhe veio annunciar que a «inglezinha» chegára em uma carruagem e

perguntava por elle.

Cecilia e Manoel Quentino correram ao encontro de Jenny.

--Estranham-me a madrugada? Que querem? Não pude dormir toda a noite com

a lembrança d'esta visita. Desejava encontrar ainda em casa o snr.

Manoel Quentino e como sei dos seus habitos matinaes...

--Ainda tenho meia hora--disse o guarda-livros, consultando o relogio.

--O fim da minha visita é simplesmente entregar-lhe em mão propria uma

mensagem de meu pae. Quer ver?

E passou para as mãos do velho a carta, que o leitor conhece já.

Emquanto Manoel Quentino se dispunha a lel-a, Jenny dizia a Cecilia:

--Então como vae esse coração?

--O coração?

--Sim; eu não quero que elle se deixe curar senão por mim. Entendes?

--E acha-o doente?--perguntou Cecilia.

--E acha-o são?--perguntou Jenny, imitando-a.

Cecilia ia a responder, mas suspendeu-se, olhando para o pae.

--Jesus! Que tem meu pae? Olhe!

Manoel Quentino, que acabára de ler a carta de Mr. Richard, estava

efectivamente perturbado; fizera-se pallido, e tremia olhando para o

escripto, que conservava na mão.

Jenny sorriu.

Cecilia correu para o pae.

--Que é isso? que é o que tem?

Manoel Quentino mostrou-lhe em silencio a carta do inglez.

Cecilia leu-a em um relance de olhos. No fim, banhada de lagrimas,

abraçou o pae com transporte.

--Oh que felicidade, meu pae!

O velho parecia hesitar ainda entre a alegria da nova e não sei que

amargo pensamento, que teimava em enlutal-a.

--É de certo á influencia d'este anjo--disse Cecilia, designando

Jenny--que devemos esta ventura.

O guarda-livros olhou tambem para Jenny, e, com certa perturbação de voz

mal disfarçada, perguntou-lhe:

--Miss Jenny, a que serviços devo eu uma tão generosa recompensa?

--Serão poucos os de dezoito annos de fidelidade, Manoel Quentino?

Vamos--continuou sorrindo--querem ver que nos sáe um desconfiado?

Asseguro-lhe eu, Jenny--continuou com voz firme e grave, porque julgou

divisar um raio de desconfiança no olhar de Manoel

Quentino---asseguro-lhe eu, que vi escrever essa carta e que beijei,

reconhecida, a mão que a escreveu, asseguro-lhe que póde e que deve

aceitar a mercê--se mercê se póde chamar--com a certeza de que a obteve

por nobres e reaes serviços.

Estas palavras desarmaram Manoel Quentino. Todas as sombras suscitadas

pela leitura se desfizeram.

Havia-lhe de facto occorrido, que lhe queriam compensar d'aquella

maneira as tenções, menos leaes, de Carlos para com a filha, e, com esta

ideia, o orgulho e o despeito, mal sopeados ainda, revoltaram-se-lhe no

coração outra vez.

Mas o conceito, em que tinha Jenny, não lhe deixava supportar estes

escrupulos, desde que por ella os via condemnados.

Agora porém era Cecilia a que ficava pensativa.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 29 / 30 段