Ainda o preoccupavam preconceitos de capitalista; por mais philosophicas

doutrinas que estes expendam sobre a vaidade das riquezas, na pratica da

vida não abstrahem d'esse elemento quando combinam calculos para

resolver o problema da felicidade. Finalmente até preconceitos de pae

lhe offuscavam a luz da inlelligencia, pois não obstante a severidade

das arguições que lhe ouvimos, é certo que poucas mulheres no mundo lhe

pareciam dignas do seu Carlos. Tudo isto o fazia pois escutar de má

vontade a declaração do filho, a quem interrompeu precipitadamente.

--Está bom. Eu não preciso saber a historia das transformações do seu

caracter, o qual até me parece ser demasiadamente sujeito a ellas. E se

é essa a garantia unica que tem da sinceridade dos seus sentimentos, ha

de concordar que é bem fraca. Mas seja como for; depois do succedido,

parece-me escusado indicar-lhe o melhor partido que tem a abraçar.

Carlos elevou para o pae o olhar interrogador.

Mr. Richard guardou, por instantes, silencio; depois acrescentou:

--Dentro em oito dias sae um vapor para Londres...

--Mas...

Mr. Richard fingiu não ouvir a interrupção, e continuou:

--Ha muito que se faz necessaria uma entrevista pessoal com Mr. Woodfall

Hope, porque...

--Não sei se me será possivel obedecer-lhe, senhor.

Mr. Whitestpne voltou-se com vivacidade para o filho, e, visivelmente

irritado, disse:

--Espero que não commetta a baixeza de querer demorar-se aqui, depois do

que se passou. Não me faça envergonhar de o ter por filho.

Carlos desacostumára-se a arrostar por muito tempo com a severidade do

pae. Sentia-se incapaz de reagir diante d'aquelle olhar. Baixou a cabeça

e calou-se.

Mr. Richard acrescentou instantes depois, em voz ainda severa, porém já

menos rispida:

--Póde retirar-se e faça por ser homem de bem. Ha erros que deixam

vestigios, que nunca se apagam mais. Respeite as familias, porque o

contrario é deshonrar a sua. Se se lembrasse de que tinha uma irmã...

N'este ponto ouviu-se rumor á porta do quarto.

--Que temos?--perguntou Mr. Richard, impaciente.

Era um criado que vinha do mando de Jenny perguntar se Mr. Richard a

podia receber.

Mr. Richard fez um signal affirmativo, e voltando-se para Carlos:

--Saia. Sua irmã precisa fallar-me.

Carlos curvou a cabeça e saiu sem dizer palavra. Era ainda o réo que

deixava o juiz, não o filho que se despedia do pae.

Carlos encontrou-se com a irmã na sala contigua. Ella estendeu-lhe a

mão, dizendo:

--Vês, Charles, vês o resultado das tuas loucuras?

--Loucuras, Jenny! Pois ainda lhes chamas assim?

--Principio a ter vontade de lhe dar outro nome, principio; e é por isso

que venho aqui.

--Que vens fazer?

--Advogar a causa de uma má cabeça, em attenção a um pobre coração, que

não tem culpa nenhuma em andar unido áquella estouvada.

--Ó Jenny!--exclamou Carlos, tomando, cheio de confiança, as mãos da

irmã.

--Então! Deixa-me, que o pae espera-me.

E separando-se do irmão, disse a rir:

--Que difficil papel me fazem representar em toda esta historia!

XXXVI

A DEFEZA DA IRMÃ

Jenny abriu vagarosamente a porta do gabinete de Mr. Richard.

Este andava ainda de um para o outro lado, a passos largos, com a cabeça

baixa e as mãos atraz das costas.

Ao ouvir abrir a porta, parou, aguardando quem chegava.

--És tu, Jenny?--disse, ao ver o rosto da filha, e usando de uma

affabilidade, que formava completo contraste com a aspereza com que se

dirigira a Carlos.

Jenny aproximou-se do pae e, apoderando-se-lhe da mão, beijou-a com

affecto.

--Que quer dizer isso, Jenny?--disse Mr. Richard, procurando retiral-a.

--Deixe-me agradecer-lhe, senhor, uma acção generosa, nobre, digna de

si, e que me fez sentir, mais do que nunca, o orgulho de ser sua filha.

--Ora essa, Jenny. E foi para isso que vieste?--perguntou Mr. Richard,

sorrindo e já sem o menor vestigio de rugas na fronte, momentos antes

contrahida.

--E para mais alguma cousa--respondeu Jenny, com a respeitosa

familiaridade de filha, a quem diz a consciencia que nada lhe será

recusado.

--Então falla.

--Sabe tudo, não é verdade?

--Sei; infelizmente sei.

--E que tenciona fazer? E perdôe-me o querer assim penetrar as suas

resoluções; mas tantas vezes voluntariamente m'as confia, que me

animo...

--Fazes bem, Jenny, fazes bem--atalhou Mr. Richard, affectuosamente--Eu

não me esqueço de que és uma boa conselheira.

--Bem; então d'esta vez?...

--Já reflecti; e tomei algumas providencias. Carlos partirá para Londres

no vapor que...

Jenny moveu a cabeça, em signal de desapprovação.

Mr. Whitestone, percebendo o gesto da filha, olhou para ella em silencio

alguns momentos.

--Parece que não approvas, Jenny.

Jenny calou-se.

--Responde, falla. Com toda a franqueza dize-me o que pensas d'esta

medida.

--Pois bem; direi. Não era isso que eu esperava de meu pae.

--Então?--perguntou Mr. Richard, com levissimo tom de despeito.

--O seu proceder de ha pouco deixou-me esperar outra resolução mais...

mais... mais acertada--concluiu, depois de modesta hesitação e

corrigindo a força da phrase com a brandura da expressão.

--Que podia eu fazer?

Jenny, em vez de responder directamente, continuou:

--Quer obrigar a partir Charles, quando elle levaria comsigo, no

coração, alguma cousa que o não deixaria ser feliz no desterro--porque é

um desterro a que o vae condemnar; quer obrigal-o a partir, quando,

atraz de si, aqui, deixaria alguem, que sentiria essa ausencia como uma

condemnação cruel...

Mr. Richard olhou admirado para a filha, ao ouvil-a fallar assim;

depois, com ar mais grave do que até ahi, respondeu, parando defronte

d'ella:

--Não, Jenny; quero obrigar a partir Charles para acabar a tempo com um

capricho, que podia vir a fazer a infelicidade d'elle e...--depois de

hesitar por algum tempo, o velho inglez concluiu:--e d'ella, d'esse

alguem de quem tu fallas, supponho eu. Não vês que é uma inclinação de

dois dias essa de Carlos?

--Não é, senhor, não é. Eu sinto que não é. D'esta vez bem vejo que é

sincera.

Mr. Whitestone encolheu os hombros, sorrindo.

--A Jenny ainda não aprendeu a conhecer seu irmão.

--Tenho seguido passo a passo, desde o principio, esta paixão de

Charles. Já desconfiei d'ella tambem; já receei por Cecilia, e tentei

dissuadir meu irmão do que imaginei não passar n'elle de um capricho.

Depois reconheci que me enganára.

Mr. Richard abanou a cabeça, em signal de duvida.

--Ha quanto tempo te convenceste da sinceridade d'essa paixão em

Carlos?...

--Ha muitos dias; desde...

Mr. Richard sorriu...

--E se eu tiver provas de que, ainda ha bem poucos, teu irmão era ainda

o mesmo irreflectido e estouvado rapaz de outros tempos?

--Provas?...

--Se eu te mostrasse que elle hoje, ainda como d'antes, não hesita, para

satisfazer doudas e pouco delicadas phantasias, em cortar por certas

contemplações, respeitaveis para quem possue intactos os sentimentos de

familia, ridiculas talvez para elle?

--É injusto... demasiadamente severo para Charles, senhor.

--Pergunta-lhe se foi em homenagem a essa rapariga, por quem o imaginas

apaixonado ha tanto tempo, que elle vendeu o relogio, de que no dia de

seus annos eu lhe tinha feito presente. Affligiu-me este facto, não por

o valor do objecto, mas porque me revelou uma fraqueza na alma de meu

filho, uma tibieza nos sentimentos de dignidade, que não esperava

encontrar n'elle.

--Charles affirmou-me que fora um motivo poderoso o que o obrigára...

--Mentiu!--disse Mr. Richard com azedume.

--Ó senhor!--exclamou Jenny, como exprobrando-lhe a dureza da expressão.

--O motivo sei eu qual foi...

--Terá provas certas de que o sabe?

Mr. Richard vacillou a esta pergunta, dizendo depois:

--Quasi evidentes.

Jenny sorriu ao repetir:

--Quasi.

Mr. Richard, como excitado por aquelle sorriso, insistiu:

--De certo não foi Cecilia a pessoa que n'esse dia procurou teu irmão e

o acompanhou de carruagem até á loja do ourives, onde se effectuou a

venda.

Jenny soube pela primeira vez estas particularidades, mas, animada pela

confiança que o irmão lhe souhera inspirar, disse sem hesitação:

--E são esses os unicos fundamentos da accusação?

--E julgo que...--e mudando repentinamente de tom, acrescentou:--Mas,

deixando isso, a não fazer o que fiz, que querias tu que eu fizesse?

Jenny, desviando os olhos para um periodico de gravuras que estava sobre

a mesa, respondeu:

--Não sei que mal haveria em ceder ao impulso d'aquelles dois corações,

visto que...

Mr. Richard bateu, algum tempo impacientemente, uma pancada com a mão na

secretária, junto da qual tinha parado.

--Julguei que Jenny não conhecia o mundo por o ter visto nas paginas dos

romances.

--Não, senhor; não o conheço d'ahi; mas tambem o não conheço por

experiencia pessoal. Das lições de meu pae obtive o pouco que d'elle

sei; por isso avalio o bom e o mau das nossas acções na vida, á luz do

dever e da consciencia. Não foi o que me ensinou?

Mr. Richard aceitou com um sorriso a correcção filial.

--Pois foi á luz do dever e da consciencia que eu procedi.

--Julguei que, depois do acontecido, o dever lhe aconselharia outra

cousa.

--Algum absurdo? Loucuras?... Phantasias? És mulher a final, Jenny!

Jenny aproximou-se do pae, que viera sentar-se em uma cadeira junto do

fogão; apoiou-se-lhe ao hombro e, a meia voz, disse-lhe como a brincar:

--Desejava agora, por um momento só, deixar de ser sua filha, senhor.

--Para quê?

--Para me atrever a fazer-lhe uma pergunta.

--Auctoriso-te a fazel-a, Jenny--respondeu o inglez, completamente

desarmado contra a diplomacia da filha.

--Auctorisa? Eu sei?!

--Exijo até que a faças.

--Sou mulher a final! disse o pae... Póde ser... E como mulher tenho

talvez o meu fraco pelo sentimento--preconceitos do coração... Não é

isto?... Mas... era a pergunta que eu, se não fosse sua filha, lhe

quereria fazer: mas esse seu espirito, recto, esclarecido e forte...

julgará sem preconceitos d'esta vez?

--Que preconceitos queres que sejam os meus?--perguntou Mr. Richard,

desviando os olhos.

--Quem sabe lá? Cecilia é filha de Manoel Quentino, um homem honrado,

mas... subalterno; fiel, mas pobre; um caracter generoso, mas... educado

na escola da obediencia; capaz de se sacrificar por nós, mas... vivendo

dos ordenados da nossa casa.

--Douda! Então não me fazes a justiça de acreditar que a força da minha

razão seria bastante para vencer esses preconceitos de educação...

quando os tivesse?--disse Mr. Richard, porém de modo, que estava

justificando Jenny.

--Assim o espero; por isso é que...

--Não--interrompeu Mr. Ricnard--não é isso o que me faz hesitar. O

motivo é diverso. É porque não creio na duração dos sentimentos de

Carlos; é porque lhe conheço o caracter leviano, e hesito por essa razão

em fazel-o chefe de uma familia, que elle não saberia guiar e que

tornaria desgraçada.

--Não é justo para com seu filho, senhor. Elle herdou os dotes do seu

coração. É leal e generoso. E será salval-o, fazel-o entrar pelo coração

no caminho do dever.

--Dizes-te amiga de Cecilia, Jenny, e não hesitas em arriscar-lhe assim

imprudentemente a felicidade?

Jenny demorou algum tempo sobre o pae um olhar quasi malicioso.

--Eu, pelo menos--disse ella por fim--tenho uma garantia: é o coração de

Charles, que está do meu partido; mas ainda ha bem pouco tempo que o pae

concebia outra alliança para meu irmão, á qual até este pequeno auspicio

faltava. Que fez da confiança, que então depunha em seu filho, ao querer

fazel-o chefe de uma familia? Por que não hesitava então, e hesita

agora? Ser-lhe-hia indifferente a felicidade de Alice Smithfield, da

filha do seu amigo? De certo que não; mas é que sabia que Charles,

promettendo fazel-a feliz, havia de ser fiel a essa promessa. E agora...

Mr. Richard não atinou com a resposta que désse a este argumento da

filha.

Ergueu-se e voltou a passeiar.

D'ahi a instantes parou, e dirigindo-se a Jenay, disse:

--E demais, se, depois do que succedeu diante de testimunhas, eu fosse

seguir o teu conselho, não soffreria a reputação d'essa pequena com

isso? O mundo não veria n'este acto, que póde ser... que creio mesmo que

seja, muito justo, mas que é preciso confessar tambem que não é natural,

não veria n'esse acto a reparação de offensa maior?

Jenny sentiu-se alentada ao ver a nova face, que o pae dava á discussão.

--E a partida repentina e inesperada de Charles, depois dos factos que

succederam, não dará logar a vozes menos favoraveis ainda para ella,

para elle e... para nós todos?

Mr. Whitestone não respondeu.

--Eu conheço pouco o mundo, é verdade;--proseguiu a filha--mas parece-me

que, em todo o caso, elle fallará; o que se tem a fazer é dar ás nossas

acções a feição mais natural, para que menos curiosidade lhe excitem.

Conduzamol-as de modo a deixar-lhe entrever os motivos, que nos convier

que elle supponha; mas sem mostrarmos o proposito de revelar-lh'os, para

que não desconfie da intenção e procure então os verdadeiros.

Mr. Richard olhava para a filha com um sorriso, já muito desanuviado.

--Bravo! que machiavelismo! Não te sabia tão diplomata. Vamos á

applicação ao caso presente.

Jenny sorria tambem, mas de intima satisfação, porque se presentia

victoriosa.

--Trata-se de diminuir pouco a pouco a estranheza do acto, que o faz

hesitar; preparar as opiniões para aceital-o como natural.

--E como? Que queres que eu faça?

--O que lhe dictar o coração. Não é a mim que compete aconselhal-o.

Mr. Whitestone baixou a cabeça, com ar de reflexão.

Jenny principiou a dizer, como se fallasse para si propria, mas de

maneira que fosse escutada por o pae:

--O mundo é assim. Dá-se-lhe a verdadeira explicação dos factos, raras

vezes a acredita. Forja-se outra ás vezes menos natural e plausivel,

quasi sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira é generosa e

nobre, e a falsa interesseira e mesquinha. A alliança de Charles com a

filha de Manoel Quentino, tendo por explicação sómente o affecto dos

dois, seria estranha e incomprehensivel; mas se Manoel Quentino, em vez

de ser guarda-livros, fosse um socio da casa...

Mr. Richard, ouvindo estas palavras, desviou para a filha o olhar. Viu-a

distrahida, examinando, com apparencias de attenção, um pesa-papeis de

crystal.

Mr. Richard teve uma lembrança.

Aproximou-se da secretária, e, tomando uma folha de papel, escreveu

n'ella algumas linhas.

Jenny sorria, como se estivesse de longe lendo tudo o que o pae se

pozera a escrever.

No fim o inglez releu com attenção o que havia escripto; dobrou

cuidadosamente o papel e entregando-o á filha, disse com rapidez, como

se receiasse que a resolução, que abraçára, lhe fugisse ainda:

--Ahi tens. Entrega isso a Manoel Quentino. É uma memoria dos teus vinte

e dois annos.

Jenny, que astuciosamente deixára ao pae o prazer e a gloria da boa

ideia, cuja insinuação viera d'ella, suspeitou logo qual a natureza do

escripto e disse com effusão:

--Agora sim! Torno a reconhecer o seu coração generoso.

--Então já sabes o que isso contém?

--Adivinho-o sem o ler. Attendendo aos antigos serviços prestados por

Manoel Quentino á casa Whitestone, meu pae associa-o de hoje em diante

ao negocio e á sua firma. Não é verdade?

--Quasi por formaes palavras--respondeu Mr. Richard, passando

amigavelmente a mão por as faces da filha.

--Que mais ordena, miss Jenny?--perguntou jovialmente o inglez.

--Peço mais uma cousa.

--Dize.

--Peço para não fazer desde já uso d'este papel.

--Então?

--Este facto, que serve para preparar a opinião publica para o outro...

não é verdade?

--Eu não prometti ainda...

--Este facto--continuou Jenny, fingindo que não ouvia a

resposta--causaria ainda estranheza, se não fosse preparado tambem com

antecedencias.

--Como?

--Recordo-me de que não ha muitos dias o pae me fallou de um negocio

commercial, em que esteve para tomar parte a casa Whitestone, o que não

fez por instancias de Manoel Quentino, instancias que a salvaram de um

abalo, talvez fatal para ella. Não foi assim?

--Foi. O homem mostrou d'essa vez um tino commercial...

--A quantas pessoas fallou já d'esse serviço do seu guarda-livros?

--Que eu saiba a nenhuma. Certas tentativas, por felicidade frustradas,

não é muito conveniente revelal-as, pois podem abalar a confiança na

prudencia da casa...

--Pois, se me permitte dar-lhe um conselho, deixe que se faça d'esta vez

excepção á regra. Durante esta semana, eu se estivesse no seu logar,

fallaria a toda a gente n'aquillo. O nome de Manoel Quentino havia de

andar, n'estes oito dias, nos ouvidos de todos. Toda a Praça havia de

ficar sciente dos seus prestantes serviços... e depois que haveria que

estranhar quando se enviasse ao pae de Cecilia este documento, em cujas

dobras vae a felicidade de duas pessoas?

--E julgas tu que a gratidão é facto mais natural para o mundo, do que a

iniciativa no beneficio? Se subtrahires da explicação o elemento

«interesse», o facto será incomprehensivel.

--N'esse caso é deixar ao mesmo tempo suspeitar que Manoel Quentino tem

conseguido accumular riquezas, e que da nossa parte...

Mr. Richard sorriu.

--Mais aceitavel será o facto á opinião, ainda que... É uma trabalhosa

semana a que me destinas! Não recuso porém a tarefa; veremos o que é

possivel fazer. Mas o meu egoismo não me consente ver-te assim

desoccupada, emquanto eu trabalho.

--Então em que tenho a occupar-me?

--Na justificação de teu irmão. O meu assentimento aos teus ultimos

projectos, Jenny, fica dependente d'essa condição. Emquanto não me

convenceres de que foi nobre o motivo que levou Carlos a vender aquelle

relogio, não esperes de mim...

--Mas Charles insiste em occultar-m'o.

--Pois fosse a empreza facil, que não a confiaria de ti. Não julgues

isto capricho da minha parte. Tu bem deves comprehender a importancia

d'essa justificação. A fé não basta; é mister provas. Os teus planos

baseiam-se na excessiva confiança em teu irmão; é fraca base para a

felicidade da pessoa, de quem advogas a causa.

--Procurarei obter provas.

--Então dentro de oito dias.

--Dentro de oito dias.

E o pae e a filha separaram-se do melhor accôrdo.

Os preconceitos de Mr. Richard não haviam absolutamente serenado; mas

Jenny tinha conseguido, por assim dizer, destacal-os do intimo, em que

elles viviam dominando, e apresental-os á vista do pae que,

envergonhando-se d'elles, os renegou.

Mr. Richard estimaria ainda encontrar outra solução á crise presente;

mas por causa alguma consentiria já em se mostrar sob o imperio dos seus

preconceitos clandestinos.

XXXVII

COMO SE EDUCA A OPINIÃO PUBLICA

No dia seguinte Manoel Quentino saíu cêdo para o escriptorio.

Andou toda a manhã pensativo o guarda-livros.

Quanto mais reflectia na scena da vespera e em outras antecedentes,

tanto mais confirmada lhe parecia a vaga desconfiança de que não fora

inteiramente verdadeira a explicação de Mr. Richard.

Mas não lhe queria mal por ella o velho guarda-livros; antes

inteiramente lh'a agradecia. Assustava-o porém o estado do coração de

Cecilia. Seria ainda tempo de arrancar de lá aquella affeição tão louca,

que por imprevidencia deixára crescer.

Nisto pensava ainda Manoel Quentino, quando entrou no escriptorio um dos

mais sisudos e abastados negociantes da Praça, e muito affavelmente o

cumprimentou, dirigindo-lhe as mais lisongeiras expressões sobre os seus

relevantes serviços á casa Whitestone e applaudindo a sagacidade com que

antevira a suspensão de pagamentos de uma poderosa casa de Londres e

evitára que a firma Whitestone soffresse na quebra. Manoel Quentino

ficou surprendido com o inesperado cumprimento. Elle já nem pensava

n'aquillo, nem imaginava que Mr. Richard, unico que o podia contar, o

conservasse tão presente na memoria.

O grande conceito, em que tinha o negociante que lhe fallára, não

deixava porém ser-lhe indifferente o louvor recebido d'elle.

A surpreza do velho augmentou, quando a este primeiro se succedeu outro

e quando todos os que n'aquella manhã entravam no escriptorio pareciam

apostados a reproduzir, com pequenas variantes, phrases iguaes de

louvor.

A consideração que Mr. Whitestone gosava na Praça fizera com que por

toda ella se espalhasse com rapidez a fama dos serviços prestados por

Manoel Quentino, a quem o honrado inglez, fiel ás promessas que fizera a

Jenny, exaltou com uma vehemencia de phrase e de expressão, pouco

habitual á sua fleugma britannica, e que por isso mesmo leve dobrado

effeito.

Como sempre acontece, á medida que a noticia se transmittia,

ampliavam-se os serviços de Manoel Quentino. A opinião publica, que até

então nem attentára n'elle, suppondo-o um ente inteiramente nullo,

soffreu um d'estes reviramentos subitos, de que por certo os leitores

hão de conhecer exemplos.

Em um grupo de negociantes, estacionados no passeio da rua dos Inglezes,

discutiu-se toda a manhã Manoel Quentino. Um insistia em dar a entender

aos collegas que havia muito adivinhára o homem; outro proclamava-o já o

primeiro guarda-livros do Porto; outro fazia valer o seu profundo

conhecimento da lingua ingleza; outro a sua perfeição calligraphica;

outro a sua actividade, o seu desembaraço em operações e escripta

commerciaes, e a sua longa pratica, etc., etc.

--Disse-me ha pouco Mr. Whitestone--acrescentou a isto tudo um

barão--que o homem tem já o seu peculio bem bonito.

Mr. Whitestone não se esquecera d'esta parte do plano de Jenny.

--Que duvida!--disseram alguns.

--Sabem o que alli está?--fez notar um brazileiro--É um bom director de

banco.

--E olhe que é verdade.

Esta opinião prova a que ponto subira, em poucas horas, o credito de

Manoel Quentino. Julgal-o apto para director de um banco era o mais alto

grau a que podia eleval-o o conceito publico. Tal foi o effeito do

artificio de Jenny.

Mr. Richard via com prazer o bom exito do plano. O amor proprio de

artista estava a suffocar o resto de preconceitos, que ainda sobreviviam

n'elle. Por prudencia chamou de parte Mr. Brains, que viu na Praça, e

deu-lhe a entender que convinha não fallar na scena do jantar da

vespera.

--Porque, Mr. Brains--disse elle--bem vê que aquelle pateta de Carlos

portou-se de maneira, que será pouco airoso para um inglez se se vier a

saber...

Feita esta reflexão, o orgulho nacional terminava a obra, encadeiando a

lingua de Mr. Brains; a de Morlays tambem a mesma causa foi, além da

misanthropica incommunicabilidade, sufficiente para a refreiar.

N'esta mesma manhã, Cecilia, achando-se só em casa, julgou ouvir uma

carruagem parar-lhe á porta.

Indo á janella, ficou agradavelmente surprendida vendo Jenny, que descia

de um elegante carro descoberto, entrar para o portal.

Cecilia correu a recebel-a nos braços.

--Este sol não me deixou desde pela manhã ficar quieta,

Cecilia--disse-lhe Jenny.--Appeteceu-me tomar ar e vim, para me fazeres

companhia.

--Eu?

--Sim, tu; e desde já te declaro que não me sinto de animo para aceitar

desculpas. Veste-te e vamos.

--Mas, Jenny... repare...

--Reparo que são dez horas e que não tenho paciencia para esperar mais.

Queres que te leve á força?

--Mas estou só...

--Emquanto te vestes alguém virá de certo, e se não vier... Emfim estou

resolvida a cortar por todas as objecções, ainda que seja de uma maneira

absurda. Vê lá se pódes luctar commigo.

Cecilia sorriu a este capricho de Jenny; era tão pouco sujeita a elles,

que a filha de Manoel Quentino suspeitou que alguma ideia occulta andava

n'isto.

Retirou-se porém para obedecer-lhe.

Jenny ficou só na sala.

Não esteve muito tempo sem que ouvisse passos na escada.

Era Antonia que voltava de fóra.

Antonia não suspeitava a presença de Jenny em casa. O jockey, para

evitar o resfriamento da horsa, conduzira o carro até o fim da rua, de

maneira que Antonia, ao chegar, nada viu á porta, que lhe denunciasse a

visita.

Achando a sala aberta, suppôz que era Cecilia que estava alli e ainda do

corredor principiou a clamar:

--Bem se diz: não ha nada que o tempo não descubra. Agora mesmo acabo de

saber aonde mora a tal sujeita, com quem o snr. Carlos saiu de carruagem

aquella manhã. Não que nem de proposito! Ia eu...

Aqui interrompeu-se de subito, porque reconheceu que estava fallando a

Jenny, em vez de Cecilia.

--Boa te vae--exclamou Antonia, mortificada. Mas já tinha dito bastante

para que Jenny não a deixasse retirar.

--Espere, acabe. Aonde mora essa senhora? Diga.

Antonia estava visivelmente embaraçada.

O typo inglez de Jenny mostrou-lhe immediatamente que era na presença da

propria irmã de Carlos, que ella tinha imprudentemente avançado aquellas

palavras.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 28 / 30 段