Não é possivel dizer que ideias se succederam no espirito de Manoel

Quentino ao ouvir tudo isto. Correu-lhe pela vista o véo das nevoas, que

antecedem uma vertigem. Tomou-se-lhe o coração de dor e de cólera;

esqueceu todas as considerações que poderia ainda sopeal-o, e rompendo,

em vociferações incoherentes, por entre os criados que o rodeiavam,

appareceu, como vimos, verdadeiramente allucinado diante de Mr. Richard

e dos estupefactos convivas.

O olhar de Manoel Quentino, animado por expressão estranha, correu em um

momento a sala.

A ausencia de Cecilia acabou de perturbar o velho.

Fitou Carlos, cheio de raiva prompta a fazer explosão, e atravessando,

com andar mal seguro, o espaço que o separava d'elle, veio pousar-lhe a

mão no hombro, dizendo em voz suffocada e tremula por o esforço que

fazia a reprimir a violencia da paixão crescente:

--Snr. Carlos, eu venho aqui saber de minha filha.

A estas palavras, Jenny descórou. Os dois inglezes conservaram-se

boquiabertos; Mr. Whitestone não desviou mais de Manoel Quentino e de

Carlos o olhar penetrante.

--Snr. Carlos!--repetia Manoel Quentino, com uma expressão em que se

revelava ao mesmo, tempo a angustia e a cólera--Sou eu!... eu ... repare

bem! É um pae, que lhe vem pedir contas de sua unica filha!

Carlos, a quem a surpreza parecia haver paralysado,--a surpreza e

porventura ligeiros remorsos de consciencia tambem,--olhava para Manoel

Quentino e, córando e empallidecendo, permanecia como subjugado pelo

olhar de irritação d'aquelle velho, que o interrogava assim.

Manoel Quentino, ao ver esta perturbação, perdeu todo o poder que ainda

conservava sobre si.

--Carlos--disse elle--o senhor abusou da confiança do homem que lhe

abriu sem hesitar as portas de sua casa; o senhor zombou cruelmente

d'estes cabellos brancos, que foram creados em serviço honrado e sem

vergonha; o senhor esmagou o coração que se lhe abrira, como o de um

pae... o senhor é... é um infame!

Quem visse a postura e o rosto de Carlos julgaria verdadeira a

accusação. Surprendido inesperadamente por ella, faltou-lhe a reacção

para repellil-a.

Mr. Whitestone, ao escutar as ultimas palavras de Manoel Quentino,

empallidecera, phenomeno raro n'elle, e que se julgaria

irrealisavel.--Cêdo porém o sangue reagiu contra a repressão que o

expellira das faces, e affluiu com maxima intensidade a ellas. Os olhos,

brilhando com fulgor extraordinario, não se desviavam do filho, como á

espera de vel-o protestar contra aquella grave accusação.

Jenny, erguendo a cabeça, por um movimento cheio de dignidade,

adiantou-se na sala. Subira-lhe tambem ás faces um rubor de impaciencia,

vendo o irmão emmudecer perante uma accusação, que ella sabia ser

injusta.

Com fogo no olhar e vivacidade na voz, que eram pouco do caracter

d'ella, disse, dirigindo-se a Manoel Quentino:

--Manoel Quentino, acaba de fazer uma accusação, que o deshonra, porque

é falsa.

O velho guarda-livros voltou-se para Jenny, e em lucta entre a duvida e

a esperança, perguntou anciosamente:

-Falsa?

--Sim, falsa;--repetiu Jenny com firmeza--tão falsa, como cruel! Eu sei

o que a motiva.... Mas se, em dezoito annos de convivencia com

Cecilia,--que são todos os que ella tem de vida,--Manoel Quentino

aprendesse a conhecel-a, se depositasse mais fé nos nobres sentimentos

d'aquelle coração, que é obra sua, se tivesse mais confiança na sua

propria filha, hesitaria sempre ao accusal-a, e não viria aqui soltar

essas expressões que a poderiam perder, embora innocente...

A porta da sala, em que Cecilia ficára, abriu-se, e a filha de Manoel

Quentino appareceu, pallida e sobresaltada, porque tinha reconhecido a

voz do pae e suspeitado tudo.

Jenny, vendo-a, caminhou apressada para ella, e, apertando-a nos braços,

disse para Manoel Quentino:

--A filha, de quem vinha saber, estava commigo. Receia ainda por ella?

Manoel Quentino correu para Cecilia e abraçou-a com phrenesi.

Mas as suspeitas, que as informações de Antonia lhe haviam feito nascer,

não estavam de todo suffocadas n'aquelle espirito.

Reparando na pallidez e no ar de abatimento da filha, e lembrando-lhe a

anterior confusão de Carlos, Manoel Quentino afastou-a brandamente de

si, fitou-a por algum tempo em silencio e perturbado, e depois disse com

tristeza e affecto:

--Por que estás assim pallida e commovida, filha? Por que perdeste

aquella alegria de outros tempos? Por que choraste?

E, voltando-se para Carlos, acrescentou já sem a primeira vehemencia,

mas ainda com amargura:

--A quem hei de eu pedir contas d'estas lagrimas, snr. Carlos? Das

d'ella... e das minhas?

Cecilia, ouvindo-o dizer isto, encostou-se vacillando ao seio de Jenny.

--Basta, Manoel Quentino!--disse esta com voz severa--Respeite-se! Essa

exaltação é indigna de si. Respeite-se e peça perdão a Deus do que está

fazendo padecer a este anjo com essas palavras. Vamos, Cecilia, não

podemos ficar mais tempo junto de quem, devendo ser o primeiro a

fazer-lhe justiça, é o primeiro a offendel-a, duvidando de si. Vamos.

Manoel Quentino ergueu as mãos para Jenny.

--Espere! espere! E se tem poder para me tirar do coração isto, que m'o

esmaga, faça-o, faca-o! Por muito que os outros soffram, quem soffre

aqui mais sou eu!

Havia na voz do pobre pae a commoção mais sincera!

Jenny parou a escutal-o.

Manoel Quentino estendeu para ella a carta de Carlos, que trouxera

comsigo.

--Quem escreveu esta carta a minha filha?

Jenny ficou enleiada á vista da carta; olhou para Carlos, cuja

physionomia lhe disse tudo.

Cecilia ergueu tambem a cabeça com espanto.

Em Manoel Quentino, que notou a perturbação de Jenny, redobrou com isto

a anciedade, e sem attender a que ia sacrificar Cecilia, insistiu

imprudentemente:

--Quem escreveu esta carta a minha filha? Esta carta recebida ainda ha

poucas horas? Ella ahi está ainda como me chegou ás mãos. Abram-a,

leiam-a, e, se o que contiver não justificar as minhas suspeitas...

se...

E Manoel Quentino, ao dizer isto, ia já abrir a carta, quando a voz de

Mr. Richard o deteve.

--Não é preciso. Essa carta é minha.

Eram as primeiras palavras ditas por o velho inglez, desde o principio

da scena, á qual assistira até então immoyel e silencioso. Mr. Richard

Whitestone era homem de rapida percepção e de resoluções não mais

demoradas.

Entrando-lhe a intelligencia em uma corrente de pensamentos, em poucos

instantes lhe attingia o fim e, acto contínuo, formulava a si mesmo um

plano de procedimento, que logo punha em pratica. Tinha já comprehendido

tudo; a confusão de Carlos e o seu grau de culpabilidade, os fundamentos

da accusacão de Manoel Quentino e a generosa e nobre intervenção de

Jenny. Previu a imminente derrota da filha, perante um documento, cuja

existencia ella não suspeitava; previu as consequencias d'esta scena; o

perigo que corria a reputação de Cecilia; o descredito que resultaria

para o nome de Carlos, que era tambem o d'elle--Richard--e o de Jenny; e

immediatamente talhou para si papel em uma situação na qual elle só

poderia intervir com bom exito.

Manoel Quentino, ouvindo ao patrão aquellas palavras, ditas em tom firme

e seguro, ficou a olhal-o embaraçado.

Jenny fitou as feições inalteradas do pae e comprehendeu-o.

A boa e generosa menina sentiu desejos de se lhe lançar ao collo, para

lhe agradecer aquella prompta e feliz resolução.

Carlos conheceu que lhe córavam as faces, ao ver quanta magnanimidade

havia no procedimento do pae.

Era a segunda lição, que, n'aquelle dia, recebia dos seus; lição de

grandeza de alma, salvadora da reputação de uma pessoa, que elle

sinceramente amava, mas que, com actos irreflectidos, segunda vez ia

perdendo.

--Esta carta é de v. s.ª?--repetia Manoel Quentino, deixando

insensivelmente cair a carta, que conservára na mão.

Jenny correu a apanhal-a e passou-a para as mãos de Mr. Richard, que

trocou um olhar de intelligencia com a filha.

Travára-se n'aquelle momento tacita alliança entre os dois para salvar a

reputação de uma rapariga, innocente e indefeza.

--É minha, sim--continuou Mr. Richard, tomando a carta e abrindo-lhe

naturalmente o fecho.--É minha... ou melhor, é... de nós

ambos--acrescentou, designando Carlos com a mão, mas sem o

fitar.--Tinhamos resolvido preparar uma surpreza a Jenny hoje, que é dia

de seus annos, convidando Cecilia, que ha muito tempo não viamos aqui.

Mas gorou-se o plano, porque Jenny, já antes de nós, a tinha convidado;

e fez muito bem. Ahi está o que é... Esta carta foi escripta por Carlos

e dictada por mim... E se duvída?--concluiu, fazendo o gesto de entregar

a carta a Manoel Quentino.

Era um d'estes expedientes heroicos, que tudo podem perder ou salvar.

Servem-se d'elles, em occasiões assim, os homens de coragem e de

sufficiente confiança em si proprios, para não receiarem trahir no

semblante a posição critica, em que ficam collocados, depois de os

empregarem.

A esses taes é quasi sempre o meio efficaz e salvador.

Manoel Quentino não ousou aceitar a prova, que se lhe offerecia.--Os

habitos de respeito, contrahidos em longos annos de serviço e que um

momento de indignação, quasi de delirio, lhe tinha feito esquecer,

dominaram-o de novo, restituindo-lhe a sua natural brandura e timidez de

caracter.

--Perdão--disse elle, quasi com humildade e como arrependido já da

excitação anterior.--Perdão; eu julguei...

--Está bom, está bom--atalhou Mr. Richard com modo de quem não desejava

continuar no assumpto.--É preciso ser menos... prompto em obedecer a...

certas exaltações... inconvenientes.

O epitheto foi dito depois de alguma hesitação em adoptal-o.

Manoel Quentino ia ainda a abrir a bôca para desculpar-se, porém Mr.

Richard o impediu.

--Não fallemos mais n'isto.... Não vale a pena. Sente-se e faça-nos

companhia á mesa.

--Perdão, Mr. Richard, mas...

Mr. Richard fingiu que o não ouvia; chamou por um criado para preparar

logar e talher para Manoel Quentino. Este sentou-se, quasi sem bem

reparar no que fazia.

Jenny e Cecilia saíram outra vez da sala.

O jantar continuou.

Tinha porém perdido para sempre a feição jovial do principio.

O que se passára e a presença de Carlos e de Manoel Quentino, qual

d'elles mais constrangido e sombrio, inutilisavam todos os esforços de

Mr. Richard para restabelecer no dialogo a perdida animação.

As libações repetiram-se, mas sem longos _toasts_.

--A seu sobrinho, Mr. Brains!--dizia por exemplo Mr. Richard, bebendo.

Mr. Brains fazia uma mesura a agradecer. Os outros levavam os calices

aos labios.

--A seu amigo Roxboy, Mr. Whitestone!--dizia em seguida Mr. Brains.

Mr. Whitestone agradecia; os outros repetiam a saudação como

anteriormente.

--Mr. Morlays, a seu tio das Indias!

Mesura de Mr. Morlays. Os outros como antes.

Estes mesmos laconicos _toasts_ terminaram. A feição da assembleia

carregava-se cada vez mais.

Mr. Richard fez um ultimo esforço para a desanuviar.

--Outra canção, Mr. Brains!--disse elle, enchendo-lhe o copo.

O inglez fitou Mr. Richard com olhos de estremunhado.

--Eu cantar! Para a transição ser menos sensivel, que cante Mr. Morlays

primeiro.

Mr. Morlays grunhiu um monosyllabo imperceptivel e esvasiou até á ultima

gotta o calix, que tinha defronte de si.

--Então cante Mr. Morlays--insistiu Mr. Richard, sem grandes esperanças

do convite ser aceito.

Contra a espectativa geral, o sorumbatico inglez levantou-se e enfiando

as mãos nos bolsos do collete, pronunciou, era tom funebre, o nome da

canção que se propunha a cantar.

--_The old saxton_--o velho cóveiro--de Park Benjamin.

Mr. Brains fez um gesto de arripiado. Mr. Morlays, imperturbavel,

principiou cantando.

Eis o sentido da canção que elle, com exquisito tacto da opportunidade,

julgou dever escolher:

«Junto de uma sepultura, cavada de pouco, estava o velho cóveiro,

encostado á enxada, já gasta pelo uso. Tinha terminado a tarefa e parára

á espera do cortejo funeral que transpunha n'aquelle momento a porta

aberta do cemiterio. Era uma relíquia do tempo passado este velho! Os

cabellos estavam-lhe tão brancos, como a espuma do mar; e dos labios

tremulos saíam-lhe, em voz submissa, estas palavras:--Venham venham! que

eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Para homens e para creanças, anno após anno, uns de

pezares, outros de alegrias, edifiquei essas casas que por ahi jazem em

torno, em cada recanto d'este funereo terreno. Mãe e pae, filhos e

filhas, um por um, vieram acolher-se á minha solidão. Mas, ou estranhos

ou parentes, venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Muitos estão commigo, e comtudo estou só! Eu sou o

rei dos mortos! Meu throno faço-o de um sepulcro de pedra ou de frio

marmore, e o meu sceptro de commando é a enxada, que empunho. Todos os

homens são meus vassallos, quer cheguem da choupana, quer cheguem das

salas, todos, todos, todos! Agitem-se embora na ancia do prazer ou na

ancia do trabalho! Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo

todos!

Sim, eu os guardo! Seu leito final é aqui; aqui debaixo, no escuro seio

da terra.»--«E o cóveiro calou-se, porque o cortejo funeral passava

silenciosamente n'aquella planicie. E eu disse commigo: Ao findar dos

seculos, uma voz, mais poderosa do que a d'este velho cóveiro, bradará

mais alto do que o tremendo clangor da trombeta final: Venham! venham!

que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!»

Imagine-se o effeito que a voz do cantor, a musica e a lettra da canção

produziriam depois de um jantar.

A musica obrigava a repetir por mais de uma vez o estribilho final de

cada estancia no original.

--_I gather them in, gather, gather, gather, I gather them in_--cantava

Mr. Morlays, com entonação, que fazia lembrar um sino dobrando a

finados.

Não se concebe estomago que ficasse imperturbado após uma sobremesa

d'estas.

O cantor seguia com malignidade, verdadeiramente satanica, o effeito do

canto sobre o acto visceral dos seus amigos.

Mr. Brains reprimia a custo a indignação que sentia.

Acabando de cantar, Morlays sentou-se e bebeu novo calix de vinho.

Apenas um monosyllabo sêcco de Mr. Richard Whitestone o congratulou.

A misanthropia de Mr. Morlays, azedada com o escandalo de Manoel

Quentino, folgou com a vingança que tomára. D'ahi por diante todos

somente suspiravam por se levantar da mesa.

Mr. Brains foi o primeiro, que ousou fazel-o. Á indole jovial do

Democrito inglez repugnava a atmosphera pesada que estava respirando

alli. Mr. Morlays imitou-o. O mau humor d'este crescera de ponto com as

occorrencias do dia. As suas caprichosas digestões estavam em risco de

serem perturbadas, e em consequencia d'isso teve a humanidade muito que

soffrer no conceito de tão hypochondriaco personagem.

Carlos retirou-se tambem ao quarto.

XXXV

A SENTENÇA DO PAE

Manoel Quentino, ficando só na presença do patrão, não se sentia á sua

vontade. Foi pois com verdadeira satisfação que recebeu um recado de

Cecilia, a pedir-lhe que a acompanhasse a casa.

Despediu-se de Mr. Richard, a quem dirigiu pela segunda vez mal

formuladas desculpas, que o inglez recebeu com affabilidade, e ao mesmo

tempo com ares de quem preferiria não ouvir fallar mais em tal.

Manoel Quentino foi ter com Cecilia, que estava na outra sala com Jenny.

--Cecilia, perdôa-me se duvidei de ti;--disse elle com a voz

suffocada--perdoa a minha imprudencia de ha pouco, filha; foi uma

loucura. Bem o vejo agora. Perdôa-a ao muito amor de teu pae...

A commoção não o deixou continuar.

Cecilia lançou-se-lhe, chorando, nos braços.

--Manoel Quentino, que está a fazer?--disse Jenny--Não vê como a

afflige?

--Menina--respondeu Manoel Quentino, voltando-se para ella--perdôe-me

tambem se pude imaginar que a sua protecção de santa...--de verdadeira

santa, miss Jenny--que essa abençoada protecção podia deixar-se vencer.

E, por quem é, não se esqueça de velar por ella, por minha filha!

--Mais valiosa protecção encontra Cecilia era si mesma--respondeu

Jenny.--É um coração forte.

Manoel Quentino tinha a cabeça da filha encostada ao peito; ouvindo

estas ultimas palavras, cingiu-a ainda mais a si, e murmurou para Jenny,

procurando não ser percebido por Cecilia:

--Forte?... Era... emquanto lhe pertencia.

Jenny demorou o olhar nas feições do velho.

Aquella resposta dava a entender que algumas suspeitas lhe restavam

ainda da verdade; que elle podia estar convencido já da innocencia da

filha, que podia julgar com menos severidade e duvida as tenções e

procedimento de Carlos, mas sem haver fechado de tal maneira os olhos á

evidencia, que suppozesse que nada havia de commum entre os corações dos

dois.

Jenny respondeu, percebendo isto:

--Forte ha de sel-o sempre; resta fazel-o feliz.

--Se miss Jenny o não conseguir, quem mais o conseguirá?

--Trabalharei--disse Jenny, sorrindo.

--Dê-lhe a serenidade do seu coração e tel-a-ha salvado.

Jenny, que abraçava n'este momento Cecilia, ouvindo estas palavras,

meneou a cabeça, e, entre risonha e melancolica, disse ao ouvido da sua

amiga:

--Não é assim que eu desejo salvar-te.

Pela primeira vez a tratava por tu.

Emquanto se passava esta scena, Carlos de volta ao quarto engolfava-se

em pensamentos profundos. Tudo quanto succedera lh'o estava reproduzindo

a memoria, e cópia de affectos e de paixões agitavam-lhe o coração em

palpitar desordenado.

Que lhe competia fazer? Como devia sair da posição em que se achava? De

que maneira compensar com uma resolução nobre, digna dos sentimentos que

percebia no coração, a insuperavel timidez, que durante o jantar se

apoderára d'elle.

N'isto pensava Carlos, quando o criado lhe entrou no quarto, annunciando

que Mr. Richard Whitestone o mandára chamar ao gabinete.

Carlos esperava esta entrevista, que, depois do succedido, podia

dizer-se inevitavel; elle proprio a procuraria talvez espontaneamente;

mas, apesar d'isso, não se sentia preparado para ella; nem outra cousa

lhe succederia, talvez, quando mais espaçada fosse.

Causou-lhe pois o effeito de imprevista.

Vacillavam-lhe os passos ao dirigir-se ao gabinete do pae, como se fora

um réo, caminhando para o tribunal, em que vae ser julgado.

Quando Carlos entrou, Mr. Richard estava em pé, encostado ao marmore do

fogão. Tinha a expressão tão severa, quanto era possivel á sua

physionomia ingleza, e conservava na mão a carta de Carlos, como quem

acabava de a ler n'aquelle momento.

Carlos parou no meio da sala, esperando que o pae lhe dirigisse a

palavra.

Mr. Whitestone estendeu para o filho a carta aberta, perguntando com

modo rapido e incisivo:

--Que ha de verdade n'isto que se diz aqui?

--Tudo--respondeu Carlos, procurando dar á voz a firmeza, que não

sentia.

Mr. Whitestone enrugou a fronte ao ouvir a resposta; fez um leve

movimento de hombros e de labios, e, passando a carta para o filho,

apenas lhe disse:

--Ahi a tem. Rasgue-a, queime-a. Deve fazel-o... porque destruirá assim

a prova de uma nova... infamia.

As faces de Carlos cobriram-se de intenso rubor.

--Meu pae!--balbuciou elle.

--Repito-o; de uma infamia--proseguiu Mr. Richard com redobrada

acrimonia.--Não sou eu o primeiro que lh'o diz; e se já se calou

vergonhosamente diante da primeira accusação, não é muito que escute a

segunda com a mesma... humildade.

E acabando de dizer isto, pôz-se a passeiar no quarto, como costumava

quando assim exaltado, e continuou:

--É falso orgulho esse que... todo se alvoroça ao ouvir uma palavra e

com tanta facilidade se conforma, ao que é bem peior, á feia acção que

ella exprime. É orgulho de theatro... Não comprehendo devéras.

Carlos respondeu:

--Eu posso estranhar que a accusação me venha de quem me devia conhecer

melhor, e de quem não está dominado, como o primeiro que me accusou, por

um excesso de paixão violenta, mas desculpavel. Estranho e lamento que,

no curto periodo de alguns dias, tenha já ouvido duas vezes de meu pae a

accusação de... infame.

Mr. Richard, que, emquanto o filho fallára, ia augmentando a velocidade

dos passos, com que media a sala, parou repentinamente n'este ponto e

fitou Carlos com um olhar cheio de fogo.

--Estranha, por quê? Faz favor de me dizer? Não me apontará algum nome

mais exacto para dar ás suas acções?... Devéras que não sei... Julgo que

não quererá arguir-me de demasiado severo?... Repito o que já lhe disse

no outro dia. Tenho sido em excesso benevolente comsigo, tenho fechado

de proposito os olhos a muitos desvarios seus, desculpando-lh'os com o

verdor dos annos. Mas acções ha, que nem a creanças se desculpam... E,

sempre que nos actos de um homem existe o caracter de... baixeza...

Carlos não pôde suspender um movimento instinctivo de reacção, ao ouvir

esta palavra.

Mr. Richard, percebendo-o, repetiu com mais força, e olhando fixamente

para o filho:

--De baixeza... e de villania!... Em taes casos, é criminosa a

indulgencia; e nunca é demais toda a severidade de opinião contra esse

homem. Escusa de protestar com esses movimentos e gestos. Mais

severamente do que eu, o accusava ha pouco a sua propria consciencia,

obrigando-o a calar-se e a abaixar a cabeça diante das arguições

d'aquelle homem... que... que... que tentára deshonrar.

--Eu já lhe disse, senhor--acudiu Carlos, com vehemencia desusada para

com o pae--que tudo quanto escrevi n'essa carta é verdadeiro. Seria

imprudente, fui de certo; d'isso me accuso eu; mas diz-me a consciencia

que estou sendo severamente julgado e por isso...

--Era bom que a sua consciencia tivesse acordado mais cêdo. Escusava de

ter deixado que da bôca de um estranho, e diante de testimunhas, caisse

sobre o nome de seu pae e de sua irmã uma accusação grave e que nós

mentissemos para o salvar. Esses escrupulos veem bastante tarde. Deve

confessar.

Carlos curvou a cabeça e ficou silencioso.

Mr. Richard ficou tambem algum tempo calado, depois proseguiu:

--É verdadeiro tudo quanto diz n'essa carta! Lembre-se de que ainda ha

poucos dias marcava n'esta mesma casa, na casa em que habita sua irmã,

entrevistas a...

Carlos não o deixou continuar:

--Peco-lhe que não renove essa insinuação, senhor; já dei a minha

palavra em como ella era injusta. Não posso offerecer prova mais

convincente, mas custa-me devéras ver que me recusam esta. No dia em que

succedeu o facto, a que allude, n'esse dia em que pela primeira vez ouvi

o epitheto de infame da bôca de meu proprio pae, já eu me sentia bem

outro do que tinha sido até alli. Creia-me, senhor; não é uma vã

inclinação, um ephemero capricho de rapaz, o que sinto por Cecilia. A

unica importante mudança de caracter, que tenho experimentado na vida,

operou-a ella sem uma palavra, sem uma tenção formada, sem denunciar um

desejo. Adivinhei-a talvez, mas não que ella se me revelasse nunca.

Cecilia só de per si conseguiu, e sera esforço, o que nem as

reprehensões de meu pae, nem os conselhos e os pedidos de Jenny haviam

conseguido nunca, por isso creio na sinceridade dos meus pensamentos

para com ella, por isso...

Mr. Richard escutava o filho com manifesta impaciencia; parecia que lhe

seria quasi tão desagradavel o ver Carlos conseguir justificar-se, da

maneira por que o estava fazendo, como persistir sob a accusacão de

menos leal, que lhe tinha sido feita.

O amor proprio de Mr. Richard--porque emfim é forçoso confessar que Mr.

Richard tinha amor proprio tambem--não se sentia muito lisongeado com

esta sincera paixão de Carlos por Cecilia, a filha do seu guarda-livros.

Um enxame de preconceitos se alvoroçava todo a esta ideia; preconceitos

que a razão clara e forte de Mr. Richard se pejaria de reconhecer como

legitimos, mas aos quaes, sem o saber, se sujeitava.

Eram de diversas ordens.

Preconceitos de inglez, primeiro que tudo; nunca é com absoluta

indifferença que o filho da Gran-Bretanha vê uma mulher de outro paiz

roubar-lhe o coração de algum dos seus parentes. Ha em toda a alma

ingleza a profunda convicção mais ou menos declarada de uma

superioridade de raça, que a não deixa encarar desapaixonada alliancas

d'estas.

Depois sobrevinham os preconceitos de commerciante, o qual, por mais

consideração e estima que tenha por um guarda-livros, não póde de todo

em todo olhal-o como de natureza igual á sua, e não se lisongeia

demasiado com obter nora ou genro em casa d'elle.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 27 / 30 段