--Este mundo é um grande theatro.
Pouco a pouco, ascendeu a conferencia a mais sublimados assumptos. A
questão politica abriu campo a mais vasta questão social, onde os dois
inglezes continuaram a conservar cada um a sua provada individualidade
ao serviço da causa da patria commum.
Mr. Brains, o optimista, abraçava-se com entranhado affecto ás utopias.
N'este momento, estendendo a vista através dos seculos futuros, estava
percebendo ao longe a tão almejada unidade dos povos, realisada por uma
só nação, por uma legislação unica, por uma lingua commum; a suppressão
da palavra «guerra» d'esse vocabulario universal, em consequencia de não
ter objecto a que se applicar; e depois a materia, subjugada pela
intelligencia, obrigada a trabalhar, e o espirito, livre da attenção as
impertinentes exigencias da vida positiva, a entrar em especulações de
ordem superior, em concepções metaphysicas.
--Então é que se realisará o ultimo fim do homem na terra! Que não viva
eu, Mr. Whitestone, para saudar esse grande dia! Que não possa dizer, na
lingua universal de então, o meu «bom dia» ao sol que romper!
Mr. Richard, sorrindo com ares de quem não tinha fé muito ardente em tão
dourado futuro, perguntou:
--E que lingua será essa, Mr. Brains? alguma das existentes hoje, que se
generalisará; ou outra nova, que terá de se formar ainda?
--Quem o póde dizer, Mr. Richard? Isso é segredo do futuro. Mas não ha
duvida que existem grandes plausibilidades a favor da ingleza.
--Ah! sim?
--Por certo. Primeiro que tudo, é a Inglaterra a primeira nação
colonial. Em todas as cinco partes do mundo é já familiar o inglez. A
joven America, nos seus elementos mais vigorosos, nos que hão de vencer
os outros, é de origem ingleza tambem. E depois, meu caro Mr. Richard, a
França tem em si inoculado o principio destruidor, que ha de
sacrifical-a; a França é papista, o que vem a ser o mesmo que estar
condemnada á morte. Demais, o caracter philosophico da lingua ingleza...
Não o seguiremos agora na dissertação philologica, cujo corollario foi
que, com o andar dos seculos, toda a humanidade fallaria inglez--lei
que, se se realisasse, talvez concorresse a produzir grave desafinação
na celebrada harmonia dos orbes, pelo lado da humanidade.
Mr. Morlays tomou a palavra para ir á mão ao compatriota.
Como era de prever, não tinham tanto de lisongeiras as vistas de Mr.
Morlays sobre os destinos sociaes. A humanidade, principalmente a que
não era ingleza, não devia, pensava elle, bater as palmas ao futuro, que
se lhe antolhava.
Sempre que meditava n'estas cousas, Mr. Morlays, em vez de sorrir a
utopias, sonhava catastrophes. Foi por isso que ponderou em tom lugubre:
--Não creio, Mr. Brains, não creio que seja possivel realisar-se d'essa
maneira e por o successivo progresso dos povos essa nacionalidade
univesal. Segundo o que eu tenho lido, o mundo, em que pousamos os pés,
é essencialmente sujeito a convulsões; encerra um nucleo inflammado,
que, a cada momento, lhe está alterando a superficie. Grandes
cataclismos tem já presenciado a humanidade, e quem sabe quantos
presenciará ainda? Parte dos continentes que habitamos, segundo se lê
nos livros dos naturalistas, foram outr'ora todos cobertos de aguas;
sendo de crer que nações de outros tempos estejam sepultadas hoje nos
abysmos do mar. Ora, se no futuro se operarem ainda d'essas revoluções,
como é plausivel acreditar, a parte continental do globo será submergida
e do seio das aguas surgirão superficies não povoadas. O que é possivel
é que, em virtude das especiaes condições geographicas da Inglaterra e
da sua natureza insular, ella não participe da sorte dos grandes
continentes, dos quaes está desligada; que prevaleça e sobreviva á ruina
e submersão d'elles, vendo até acrescerem ao seu territorio as novas
terras, que o cataclismo arrancar do fundo dos mares. Então talvez, e só
assim, se poderá realisar o futuro, que Mr. Brains imagina, sendo os
inglezes os unicos possuidores do globo.
Depois, como se receiasse que esta tão extravagante como patriotica
theoria geologica não tivesse sido comprehendida, acrescentou:
--Porque... reparem. Vejam este chapéo--e tomou para exemplo o chapéo de
panno, que servia a Mr. Richard durante as suas operações
horticolas.--Supponhamos esta copa o mundo; sendo as saliencias das
dobras os continentes, e as cavidades os mares; aquella pequena
saliencia do meio, que fica isolada das outras, seja a Inglaterra.
Carregando eu nas saliencias exteriores, até as desfazer, as cavidades
elevam-se e vão augmentar a saliencia do meio. Vêem?
E, como para não perder a feição pessimista ainda n'esta concepção,
concluiu:
--Talvez fosse uma felicidade que todas as saliencias se desfizessem de
vez!
Já vêem os leitores que, embora por processos differentes, os dois
compatriotas de Peel aguardam com fé viva o mesmo phenomeno na historia
do futuro:--O soberano predominio da nação ingleza sobre o mundo
inteiro.
Esta é de facto a crença de todo o verdadeiro inglez, diversificando
apenas, como os dois grandes exemplares que o leitor tem á vista, na
maneira de concebel-a realisada.
Mr. Richard sorriu á theoria historico-geologica do amigo.
--Será bom que, por cautela, nos vamos passando para a ilha, Mr.
Morlays. O fundo dos mares não é grande clima para viver, e o consul de
sua magestade não nos isentará de sermos engulidos como simples
portuguezes.
Mr. Brains applaudiu cordialmente a observação do amigo Richard.
Á medida que se adiantava a manhã e que os odoriferos vapores da
cozinha, atravessando as salas, chegavam ás pituitarias, britannicamente
apuradas, dos convivas, a conversa principiou a baixar das alturas, por
onde pairara, para assumptos mais terrenos e comesinhos.
Ás tres horas, sentindo o instincto a impellil-os para a mesa do jantar,
abandonaram os tres inglezes o gabinete de Mr. Richard e passaram para a
sala de recepção, onde Jenny e Cecilia, sentadas uma junto da outra,
conversavam intimamente.
XXXIII
EM HONRA DE JENNY
--Oh! fez bem em vir, Cecilia;--disse Mr. Richard, caminhando com a mão
estendida para a filha de Manoel Quentino--fez bem em vir alegrar a
festa de Jenny.
--Alegrar!--repetiu Cecilia, trocando com a sua amiga um olhar de
melancolia e de intelligencia.
--Alegrar, sim--respondeu Jenny, apertando-lhe as mãos com
affecto.--Então cuida que não é alegria sufficiente a que a sua presença
nos dá?
Cecilia suspirou.
--Está doente, Cecilia?--perguntou Mr. Richard, reparando para o ar de
abatimento que se lhe lia no semblante.
--Uma ligeira indisposição, de que me prometteu hoje mesmo curar-se, em
attenção aos meus annos, não é verdade?--respondeu Jenny por ella e em
ar de gracejo.
Mr. Morlays, o lugubre, aproximou-se n'este momento de Jenny.
--Miss Jenny--disse elle--eu costumo saudar com jubilo os anniversarios
das pessoas que estimo, como mais um passo dado para o livramento da
vida.
--Oh! Mr. Morlays--respondeu Jenny, sorrindo--tão pesado lhe parece o
captiveiro, para assim suspirar pelo termo d'elle?
--Deixe-o fallar, miss Jenny;--acudiu Mr. Brains--o mau humor de Mr.
Morlays explica-se até pela presença de algumas brancas entre os seus
cabellos ruivos e pelas duas sinistras pégadas de pata que já se lhe
divisam no canto das orbitas.
Mr. Morlays fez uma careta e encolheu os hombros; mas não respondeu.
--Nós outros--acrescentou Mr. Brains--nós outros, os feios e fortes da
humanidade--eh! eh! eh!... temos razão para nos lamentar, á aproximação
das horas do occaso; mas as que na vida nos servem de astros... essas
são sempre brilhantes; porque, até no occidente, nos encantam as
estrellas. Veja pois sem cuidado correr o tempo, miss Jenny.
Esta galanteria, de um requinte britannico, mereceu a desapprovação de
Mr. Morlays.
--É inexacta comparação--tornou sisudamente--essa dos astros á vida do
homem. A quéda e o extinguir dos astros são ficticios. Occultam-se-nos,
mas não se apagam. Melhor se compararia a vida a um foguete.
--Oh! A um foguete? Singular comparação!--exclamou Mr. Brains, rindo.
--Vamos lá a ver, vamos lá a ver--disse Mr. Richard Whitestone,
sentando-se.
Mr. Morlays, medindo a sala a passos largos, desenvolveu a imagem,
assim:
--O homem, como o foguete, principia a animar-se por uma faisca que se
ateia; eleva-se então com chamma e estrondo, pára um momento... e
depois... estoura, e cáe veloz, silencioso, extincto, deixando na terra
sómente o esqueleto que o fogo já não anima.
Mr. Richard sorriu á original imagem do seu amigo e conviva.
Mr. Morlays tem razão.
--E quando daremos nós o estouro da metaphora?--perguntou o risonho Mr.
Brains, mostrando uma fileira de bem ordenados dentes, e depois
acrescentou:--Concordo com Mr. Morlays; mas peço-lhe que note que se ha
foguetes que descem como elle diz, silenciosos e extinctos, a arte
pyrotechnica tem inventado tambem alguns, cuja quéda é alumiada por
lagrimas de côres, que os acompanham até á terra. Eu por mim imitarei ao
caír o foguete de lagrimas... Eh! eh! eh!
A conversa continuou n'este teor e fórma, até á chegada de Carlos.
Cecilia, vendo-o entrar, aproximou-se da janella, onde Jenny se lhe foi
em breve reunir.
Mr. Brains saudou Carlos, cantando:
_I'm afloat! I'm afloat, etc., etc._
que são as primeiras palavras de uma popular canção ingleza.
Carlos correspondeu, sorrindo, ao cumprimento.
Mr. Morlays não foi menos caracteristico do que o companheiro.
--Ainda mais outro anno nos encontramos aqui, Mr. Charles. Quem sabe
onde para o anno terá de ir quem nos quizer procurar?
Mr. Brains apressou-se a responder.
--Ao cemiterio do Campo Pequeno, de certo que não, Mr. Morlays; porque,
quando para alli resolvesse ir, escusado seria procural-o lá, porque é
de crer que não estivesse de humor para tratar de negocios. Eh! eh!
eh!...
A hilaridade não se communicou a Mr. Morlays, que pelo contrario ficou
mais sombrio.
Mr. Whitestone, desde que o filho entrára, occupava-se em uma singular
tarefa. Foi sentar-se ao piano e principiou a correr os dedos pelas
teclas com presteza e com uma desharmonia só supportavel ao seu ouvido
inglez.
Esta especie de divertimento era d'aquelles, a que, por excentricidade,
mui frequentemente se entregava.
Felizmente para os dois convivas, os ouvidos d'elles não eram mais
pechosos em cousas de harmonia, do que os de Mr. Richard; porque se não
fosse isso, nem eu sei calcular os resultados gravissimos que podia ter
aquella barbara occupação.
Cecilia, Jenny e Carlos, esses estavam muito absorvidos por os proprios
pensamentos, para que os incommodasse o selvagem prazer de Mr.
Whitestone, sob cujos dedos gemia, como um suppliciado, o magnifico
piano de Erhard, victima d'esses caprichos anti-musicaes.
Emquanto isto se passava, Cecilia dizia a Jenny:
--Por favor lh'o peço, Jenny! Deixe-me ficar aqui! Eu não sei se poderia
por muito tempo suster esta tristeza que se me pôz no coração. Tenho
mêdo de chorar.
--Creança!--respondia Jenny--Não estou eu ao pé de si? Não seja assim
fraca. Esse seu coração deu-se agora a phantasiar desgraças impossiveis,
que não se concebem.
--Impossiveis?!
--Impossiveis, sim. Olhe, Cecilia; eu andei primeiro do que a menina em
imaginar futuros negros. Cecilia ria ainda e eu estava já séria. Este
Carlos tem-me obrigado muitas vezes a isto e d'esta vez sobre tudo...
--Jenny!
--D'esta vez sobre tudo, porque eu sabia que era um coração que elle
encontrára no caminho e... aquelle estouvado podia não reparar... e
magoal-o. Avisei-o.
--Ó Jenny!
--Avisei-o; porque, bem vê, Cecilia, todos os sacrificios são dolorosos.
Sacrificar orgulhos, sacrificar vaidades, sacrificar até caprichos, tudo
é sacrificar; e eu não imagino que isso se faça sem esforço; mas os
sacrificios do coração... oh! esses...
--Matam!--concluiu Cecilia, quasi insensivelmente.
--Pois não matam? Isso sabia... quero dizer--emendou a sorrir--isso
suppunha eu. Por isso pedi a Carlos que se esquecesse... Sim, que se
esquecesse; no tempo em que eu lhe pedia isto, talvez ainda não viesse
d'ahi grande mal.
Cecilia não respondeu. Um suspiro respondeu por ella.
--E quem sabe--proseguiu Jenny, olhando-a--se seria eu que me enganava
ao pensar assim? É certo porém que meu irmão não me obedeceu.
--Não?--interrogou Cecilia, com expressão de duvida.
--Não; longe de esquecer, avivou impressões, e em poucos dias eram já
tão fundas, que me assustavam.
Cecilia meneou a cabeça ainda, como quem duvída.
--Vamos, Cecilia; não me olhe d'essa maneira. Quem lhe ensinou a
desconfiar assim? Com quem aprendeu esses modos de sorrir, tão pouco da
sua idade?
Cecilia baixou, silenciosa, a cabeça.
--Convencida de que se passavam cousas novas no coração de meu irmão...
--E convenceu-se d'isso?
--Convenci. Não eram os antigos caprichos, muito meus conhecidos. Não
eram aquellas phantasias, que tão bem se davam com os seus habitos de
vida, que nem o obrigavam a alteral-os.
--Não eram?
--Não. Com grande espanto meu, vi-o mudar. Fez voluntariamente o que nem
os meus rogos...--pois eu creio que bem vontade teria de me
satisfazer--o que nem os meus rogos haviam conseguido. Desde que o
percebi, desde que assim o vi tão outro do que sempre fora, mudei tambem
de pensar. O meu unico fim, Cecilia, creia, era a felicidade de Carlos e
a sua. Emquanto julguei que ella estava no esquecimento a tempo,
trabalhei por apressal-o; desde que me convenci de que este esquecimento
era impossivel, desde que me convenci de que não era n'elle que estava a
felicidade... então... voltei os esforços em direcção diversa.
Tocou a campainha, annunciando o jantar.
Os dois inglezes, tão insensiveis ao escandalo musical perpetrado por
Mr. Richard, estremeceram agora á voz do instrumento, tocado pela
desembaraçada mão do escudeiro na sala do jantar.
--Para a mesa!--exclamou Mr. Richard, deixando em paz o piano--Não temos
a esperar por ninguem.
Em consequencia da recente morte de Kate, os convites não se tinham
estendido além dos dois intimos da casa--Morlays e Brains.
Os dois inglezes e Carlos encaminharam-se para as duas senhoras.
Cecilia, vendo-os, disse segurando a mão de Jenny:
--Jenny, Jenny; se é minha amiga, deixe-me ficar aqui!
--Que diz, Cecilia?
--Não posso, sinto que não posso forçar-me a ponto de...
Calou-se, estremecendo.
Carlos estava junto d'ella, offerecendo-lhe o braço para a conduzir á
sala do jantar.
Jenny tinha fitado attentamente a sua amiga, e parecera convencer-se de
que lhe seria effectivamente custoso o constrangimento de algumas horas,
a que se ia sujeitar.
--Não, Charles;--disse, em vista d'isso e sem desviar os olhos
d'ella--Cecilia não póde fazer-nos companhia. Está incommodada e precisa
de alguns minutos de repouso.
Mr. Richard aproximou-se, perguntando o que era.
--Nada;--respondeu Jenny--mas seria crueldade constrangel-a. É um
incommodo passageiro, mas, em todo o caso, é um incommodo.
--Será bom retirar-se ao quarto de Jenny.
Cecilia escusou-se, dizendo que ficaria bem alli.
Jenny prometteu vir em breve fazer-lhe companhia.
Mr. Whitestone indicou uma poltrona propria para descanso, e foram
jantar.
--Que quer isto dizer, Jenny?--perguntou Carlos, encontrando-se com a
irmã á porta da sala.
--Que está a chegar o momento de dizeres adeus ás tuas leviandades,
Charles. Quero ver que fundo de sisudez ha n'este meu estouvado irmão.
--Mas...
--Repara que esperam por nós.
E entrando para a sala, tomaram logares á mesa.
O leitor não espera de mim a fiel enumeração de todos os pratos, com que
se adornou n'este dia a mesa, sempre abundante e variada, de Mr.
Richard.
Nada faltou de tudo quanto possue o cunho caracteristico da cozinha
britannica, desde o _roast-beef_ ao _plum-pudding_, desde a batata ao
_chester_.
Os tres inglezes fizeram as devidas honras á maestria do cozinheiro. Mr.
Morlays chegou a sorrir; Mr. Brains esgotou todas as interjeições do
vocabulario patrio e assegurou que nem no _Erectheum club_, em St. James
_square_, se jantava melhor; Mr. Richard Whitestone contou todas as suas
historias e expôz theorias de culinaria.
Jenny e Carlos eram os unicos silenciosos e preoccupados. Jenny via com
impaciencia a morosidade do jantar e escutava distrahida os cumprimentos
dos convivas. Carlos tremeu, como nunca, perante o inesgotavel thesouro
das reminiscencias paternas.
Com todos os vagares foi o jantar aproximando-se d'aquella phase critica
dos jantares, especialmente inglezes, em que a gravidade e a etiqueta
são postas de lado inteiramente, em que a parte feminina levanta
arraiaes e foge amedrontada ante as bandeiras da orgia que, aos
primeiros _toasts_, começam a desenrolar-se; e em que os convivas
masculinos, livres do unico laço que os refreiava, preparam-se a
reproduzir nas salas scenas vulgares em mais baixos tablados.
Nada falta: vinhos entornados, crystaes partidos, _toasts_
interminaveis, discussões em que ninguem sabe o que discute, corpos
estendidos por debaixo da mesa e, em alguns, um somno digno dos sete
dormentes.
Tinha attingido o jantar de Mr. Whitestone este periodo de transição.
Jenny agradecera os primeiros brindes que lhe foram dirigidos.--O
proprio Mr. Morlays fora diffusissimo na sua saudação, que parecia haver
modelado por a de um personagem de Dickens, como se verá do seguinte
excerpto:
--E sendo Mr. Richard Whitestone um dos raros caracteres honrados que se
encontram na vida--terminára Mr. Morlays--e sendo miss Jenny Whitestone
em tudo digna filha de Mr. Richard Whitestone, eu faço votos pela
felicidade de Jenny Whitestone, para que possa assim recompensar Mr.
Richard Whitestone pela sua honradez, probidade, cavalheirismo;
recompensa que Mr. Richard Whitestone não póde nem deve esperar do
mundo. Sendo demais miss Jenny Whitestone a terna irmã de Mr. Charles
Whitestone, coração leal, generoso, sem fermento de maldade social, eu,
bebendo á saude de miss Jenny Whitestone, brindo tambem Mr. Charles
Whitestone, porque o sentimento fraterno faz uma só d'aquellas duas
almas, da mesma sorte que miss Jenny Whitestone receberia, como dirigido
a si, um _toast_ a Mr. Charles Whitestone, seu affectuoso irmão. De
maneira que este brinde individual a miss Jenny Whitestone transforma-o
a sympathia cordial que liga esta familia exemplar em um brinde
collectivo á familia Whitestone. Miss Jenny Whitestone!
E bebeu.
--_Hear_! _hear_!--applaudiu Mr. Brains, batendo com os nós dos dedos na
mesa, o que já fizera durante todo o _speech_, mais por força de habito,
do que por se tornar necessario o recommendar attenção em tão limitada e
attenta assembleia.
Jenny agradeceu modestamente o eloquente discurso.
Mr. Richard brindou os hospedes em termos não menos laconicos.
Carlos, em poucas palavras, desempenhou-se de identicos deveres.
E os _toasts_ succediam-se e o nivel do liquido descia nas garrafas de
crystal.
Jenny levantou-se. Era tempo de deixar sós os convivas. Ia soar para
elles a hora de liberdade.
Carlos viu com inveja o movimento da irmã. Não a poder imitar! Ficou
porém.
A desapparecer atraz do reposteiro da sala a ultima dobra do vestido
branco de Jenny e uma transformação completa a operar-se na scena.
Mr. Brains passou a perna por cima do braço da cadeira e deixou-se
escorregar até ficar com a cabeça á altura da mesa. Mr. Morlays estendeu
os cotovêlos por esta adiante, metteu a cabeça entre as mãos, posição na
qual as faces lhe tomaram um geito de caricatura, eminentemente comico;
Mr. Richard, esse fez balançar a cadeira sobre os dois pés posteriores.
Àccenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atraosphera da sala,
encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.
Os criados retiraram-se discretamente.
--Uma canção, Mr. Brains--disse Mr. Richard Whitestone.
--Mr. Morlays que cante--respondeu aquelle.
--Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um _dies illa_--notou Mr.
Richard, rindo.
Mr. Morlays fez uma careta, com pretensões a sorriso.
--As digestões costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade--dizia
Mr. Brains.
--As feras saciadas são menos terriveis--acrescentou Mr. Richard
jovialmente e batendo com familiaridade no hombro do seu amigo Morlays.
Este tornou a sorrir, a seu modo.
--Vamos á canção!--insistiu Richard, voltando-se para Mr. Brains--Vamos
á canção.
--Mas a presença aqui do amigo Morlays faz receiar que succeda como no
brinde de Lucrecia. Lembra-se? Se nos saía vinho de Syracusa?
Depois dos risos, concedidos á reflexão de Mr. Brains, este dispôz-se a
cantar.
Nós, os portuguezes, que mais de que uma vez alcunhamos de sorumbaticos
e melancolicos os nossos alliados bretões, somos talvez na Europa o povo
mais sisudo e grave dos tempos modernos.
Eu creio que nem a philosophia e o _landwehr_ da Allemanha; nem o
_knout_ e a sombria política da Russia; nem os fuzilamentos e o
militarismo da Hespanha; nem os _meetings_ e os _fenians_ da Inglaterra;
nem o suffragio universal e a febre napoleonica da França, teem
conseguido tornar as respectivas nações mais avêssas ao canto, do que a
nossa. Com o nosso céo, com a nossa vegetação, com os nossos vinhos e
com a nossa lingua e com tão pouca disposição para nos occuparmos de
cousas sérias--e n'esse particular nenhum povo nos leva a palma--esta
quasi aversão que temos ao canto, denota uma indole essencialmente
sisuda e pouco de gente do meio-dia.
Em qualquer jantar nacional, qual seria o conviva que teria coragem para
imitar Mr. Brains, satisfazendo ao pedido do seu amphitryão e
dispondo-se a cantar?
E, se algum houvesse, com que olhos de escandalisados o não encarariam
os outros?
Ninguem ha mais pussillanime diante do ridiculo do que o portuguez;
ninguem que mais corajosamente o encare de face, do que o cidadão
britannico. Ora o ridiculo imita os costumes insidiosos de certos cães,
que mordem as pessoas que lhes fogem, e recuam diante de quem os espera
a pé firme.
O que é verdade é que Mr. Brains, vergando-se sobre as costas da
cadeira, com as pernas estendidas, os olhos meios fechados, a mão
pousada sobre o corpo, principiou a cantar com voz de impossivel
classificação, em timbre nazal e em musica inglezamente monótona, uma
canção de Sharpe feita para occasiões como esta.
O sentido era pouco mais ou menos este:
Vá! sem mêdo enchei os copos
De vinho, côr de rubim;
Levem-o aos labios as damas;
Consagral-o-hão assim.
No peito o vinho alimenta
Da amizade o almo calor,
E o engenho d'elle regado,
Ascende em vôo maior.
Enchei os copos, fiae-vos
N'esta bebida de reis
Com tanto que...
Estava escripto que os dotes vocaes e os talentos artisticos de Mr.
Brains não seriam devidamente apreciados. A lembrança da scena do
banquete da Lucrecia fora até certo ponto fatidica!
De facto, quando o inglez chegava áquelle verso da canção, um forte e
cada vez mais proximo rumor, como de passos precipitados, de vozes em
confusão, de supplicas e de ameaças, partindo da sala immediata, veio
emmudecer a larynge do cantor e enrugar a testa de Mr. Whitestone, a
quem, á hora solemne do jantar, impacientavam interrupções.
Quando ia a elevar a voz para saber a causa d'aquelle desacato, abriu-se
com violencia a porta da sala, e aos olhos espantados de todos os
presentes desenhou-se a figura de Manoel Quentino, pallido, agitado,
como nenhum d'elles o tinha ainda visto.
Ao mesmo tempo Jenny, attrahida pelo ruido, apparecia á outra porta da
sala.
Mr. Richard Whitestone olhou pasmado para o guarda-livros.
XXXIV
MANOEL QUENTINO ALLUCINADO
Melhor do que qualquer dos personagens d'esta scena, prevê o leitor os
motivos do apparecimento de Manoel Quentino na sala e do estado de
perturbação em que se apresentou.
As revelações da criada tinham-o feito já, como vimos, sair
desorientado. Chegando a casa de Mr. Richard, soube do criado de Carlos,
que Cecilia havia entrado pela manhã no jardim; mas conjecturava este
que ella provavelmente se retirara já, porque a não vira mais em
casa.--Os criados, que serviam á mesa, confirmaram a conjectura,
assegurando a Manoel Quentino que Cecilia não tinha assistido ao jantar.