Era dia santo, como já dissemos. Manoel Quentino não tivera portanto de

saír cêdo para o escriptorio. Depois de proceder a uma _toilette_, mais

escrupulosa do que a dos dias e trabalho, envolveu-se no classico capote

de cabeção, traste rico em memorias da vida passada, e desceu ao

quintal, a fazer horas para a missa. Ahi, passeiando por baixo das

ramadas, que de todos os lados o orlavam, e que já n'aquella época do

anno se revestiam de folhas viçosas, aproveitava Manoel Quentino os

raios de um desanuviado sol de primavera, cedendo pouca attenção ás

flores dos alegretes lateraes, e ao gorgeio dos passaros, que por sobre

a cabeça lhe andavam festejando a manhã.

O pensamento de Manoel Quentino vagueava longe d'alli.

Efectivamente todo o sombrio cortejo de ideias tristes, que a melancolia

de Cecilia, havia pouco tempo, lhe suscitára, voltava a assenhorear-se

de novo d'elle, e com a passada persistencia.

--Tambem esta vida, que ella passa, é de tão poucas distracções! A

fallar a verdade! Aos dezoito annos! Sim... É preciso espairecer. Em vez

de estar aqui a perder tempo, o que eu devo é ir por ahi fóra com ella.

E pensando assim, foi caminhando para casa.

--Cecilia--disse, ao encontrar a filha--a manhã está tão bonita! Vamos

nós por ahi fóra?

--Aonde?

--Por ahi. Damos uma volta, antes da missa. Nós que fazemos aqui

mettidos?

Cecilia, julgando satisfazer os desejos do pae, condescendeu.

Meia hora depois saíram ambos. Cecilia pensava ainda se se resolveria a

assistir á festa do anniversario de Jenny.

Poucas palavras se trocaram entre o pae e a filha, durante todo o

passeio. Vieram terminal-o a Cedofeita, aonde assistiram á missa.

Á saída do cemiterio, que, segundo o costume, foram depois visitar,

Cecilia pareceu pela primeira vez saír da hesitação, em que desde a

vespera estava, e disse, parando á entrada da rua, que a devia conduzir

pelo mais curto caminho a casa de Mr. Richard Whitestone:

--Nem sei o que faça. Jenny pediu-me para ir passar hoje o dia com ella.

-Hoje!

--Sim, escreveu-me para m'o pedir...

--Como quizeres, filha... Ainda que hoje é dia santo e eu...

Manoel Quentino ia exprimir a pena que lhe causava o prescindir

n'aquelle dia da companhia da filha, mas calou-se, receiando com isso

constrangel-a. Cecilia comprehendeu-o porém.

--Eu sei, pae, eu sei que não gosta de se ver só n'estes dias, que passa

em casa--e bem poucos são! Mas olhe, ha tambem certas companhias, que

mais nos entristecem do que ainda a mesma solidão; e a minha hoje não

podia alegral-o muito.

--Que dizes, Cecília? Que lembrança!

--Acredite-me.

--E por quê?

--Porque me sinto triste, e não poderia, por mais que fizesse,

constranger-me.

Manoel Quentino commoveu-se a ponto de lhe apontarem lagrimas aos olhos.

--Eu já tinha notado essa tristeza, Cecilia, já. Não m'a descobres tu,

que ha muito ella me dá cuidado--Mas, já que me fallaste n'ella, dize-me

a razão: o que te afflige, o que é que tens? Não te sentes boa?

--Não me pergunte nada, meu pae; que não lhe posso... que não lhe sei

responder.

Manoel Quentino ficou por algum tempo com os olhos na filha, que

desviava os seus, e não pôde soltar palavra.

--Pois então vae--disse por fim Manoel Quentino--vae. A menina Jenny é

boa e estou que te saberá consolar melhor do que eu... Vae! não serei eu

que te aparte da companhia d'aquelle anjo.

Cecilia beijou a mão do pae, que, ao separar-se d'ella, lhe viu lagrimas

nos olhos.

Á entrada da rua, por onde Cecilia seguiu, permaneceu Manoel Quentino

até a perder de vista.

--Aquellas lagrimas! aquellas lagrimas!--murmurava elle, de mal comsigo

mesmo por não as saber explicar--E eu que a não posso ver assim sem me

dar vontade de chorar tambem! É forte cousa!

E continuou, com a cabeça baixa, a caminhar para casa.

Manoel Quentino, de distrahido que ia, não cortejou a vizinhança, acto

de polidez, a que raras vezes faltava; e por pouco não ia passando além

da porta de casa sem a conhecer.

Antonia, ao vel-o entrar só, perguntou admirada:

--Então a menina?

--A menina não janta em casa.

--Ora essa! E não me disseram nada!

--Ella resolveu agora mesmo.

--Sempre fazem cousas! E aonde foi ella jantar?

--A casa de Jenny.

--De quem?!

--De Jenny, do snr. Whitestone...

--Que me diz!

--Sim; a casa do snr. Richard Whitestone.

--Está bom, está! Bem digo eu!

--Então que é que tem?

--Nada; não tem nada. Visto isso, quer que tire o jantar?

--Sim, tire.

Manoel Quentino jantou pouco. Jantar, a que não assistisse Cecilia, não

era jantar que lhe prestasse.

--Então o senhor não come?--dizia-lhe, a cada passo, Antonia.

--Não tenho vontade.

--Boa te vae!

Manoel Quentino levantou-se da mesa e foi sentar-se á janella.

Antonia, depois de sacudir a toalha, tossiu como quem tinha alguma cousa

a dizer.

Manoel Quentino não deu por isso.

Antonia resolveu-se a tomar a iniciativa.

--Ora agora que já jantou, sempre lhe quero dizer uma cousa, snr.

Manoel.

--Diga lá.

--Ainda que, a fallar a verdade, eu não devia talvez...

--Pois então, não diga.

--Mas, por outro lado, é tambem da minha obrigação...

--Pois então, diga.

Antonia percebeu a grande indifferenca de animo, em que estava o patrão,

e sentiu vontade de instigal-o um pouco.

--Ora diga-me, snr. Manoel Quentino, o senhor é cego?

--Julgo que não.

--Pois olhe que o parece. Então não tem conhecido mudança de genio cá na

menina?

A pergunta alterou de facto o tom das respostas do velho guarda-livros;

foi já voltado pàra a criada e com vivacidade, que respondeu:

--Tenho, sim, por quê? Você tambem?...

--Pois podéra! Aquillo são lá os modos d'ella?

--Não são, Antonia, isso não são.

--Nem para lá caminham.

--E você não sabe o que aquillo será? ella não se lhe tem queixado de

algum mal, de alguma doença?...

--Doença? ora adeus! Que eu saiba não. Elle ha muitas doenças...

--Isso sei eu.

--Pois sim, mas... algumas, em que não pensa, é que... Doença do

coração.

--Do coração!--exclamou Manoel Quentino, fazendo-se pallido--Pois

Cecilia queixou-se do coração? Que diz, mulher.

--Adeus, que me não entende! Quero eu dizer... Olhe... a final as cousas

são assim! A menina tem dezoito annos...

--Olhem que novidade! Isso sei eu; mas queixou-se?...

--Então se sabe, se sabe, snr. Manoel Quentino, e se se não lembra de

mais nada, não sei que lhe faça.

Uma ideia surgiu pela primeira vez ao espirito de Manoel Quentino, e,

força é confessar, que não veio muito cêdo.

--Pois será?...--voltando-se para a criada, acrescentou com modo

grave:--Antonia, você diga o que sabe. Bem vê que preciso de olhar por

isso. Falle, mulher.

--Pois n'esse caso... snr. Manoel Quentino--disse a criada, como se,

sómente convencida d'estas razões, se resolvesse a fallar--eu não quero

encargos de consciencia, e, para seu governo, sempre lhe digo que deve

vigiar por este negocio.

--Que negocio? Por que negocio hei de eu vigiar? Eu não a entendo.

--Pois não tem visto devéras o que por ahi vae?

--Eu não; você bem sabe que eu fecho a casa com as costas e por isso...

--Então aquellas visitas do filho do inglez...

--Adeus, adeus! Cuidei que era outra cousa!--redarguiu Manoel Quentino,

encolhendo os hombros--Ahi vem você tambem. Pobre rapaz! Lá por ter suas

verduras, já não póde entrar em uma casa, que não digam logo... Que

mundo este!...

--Ai, e julga que não é assim? Então está bom. Pois ande lá, ande...

--Mas na verdade você imaginou? Ó mulher, não viu como foi e porque foi

que aquelle pobre moço veio aqui a primeira vez?

--Eu, não, senhor. Pois olhe que tenho pensado bem n'isso.

--Pois não se lembra d'aquella tarde em que eu tardei e que Cecilia...

--Se me faz favor, não foi essa a primeira vez.

--Foi, sim.

--Não foi, não, senhor.

--Ó mulher! que demonio de cabeça a sua! pois, na verdade, não se

lembra?...

--Eu só me lembro de que, muito tempo antes d'esse dia, veio aqui uma

tarde aquelle senhor; perguntou pela menina, disse que lhe queria

fallar; eu mandei-o entrar para a sala; a menina foi ter com elle; ao

vel-o fez-se vermelha, como uma romã, e mandou-me sair; e eu ouvi-os

estar a conversar perto de meia hora...

--Você está douda, mulher?

--Não estou, não, senhor.

--Quando foi isso?

--Logo depois do entrudo. Lembra-me bem de que foi tres ou quatro dias

depois d'aquelle em que deixou ir a menina com as do Mattos; cousa que

eu, no seu logar, não fazia, mas...

--Mas Cecilia não me fallou nunca n'essa visita!

--Isso sei eu.

--E você?...

A menina recommendou-me que não lhe dissesse nada, porque era uma

surpreza que lhe queriam fazer... Mas, por mais que eu lhe perguntasse o

que era, nada de novo.

Manoel Quentino principiava a sentir-se inquieto. Comtudo a confiança

que depositava em Cecilia era tal, que, não obstante conhecer o caracter

leviano de Carlos, hesitava ainda em suppôr mal do que, pela primeira

vez, ouvia.

--E depois voltou?

--Até o tal dia, em que o senhor adoeceu, não; mas quem o quizesse ver

era chegar, ahi a certas horas da manhã, e ao cerrar da noite, á

janella.

--Sim; eu lembro-me de que ás vezes...

--Alli, a estanqueira é quem me fez reparar.

--Mas isso lá...

--Pois não tem nada, bem sei; mas, quasi sempre a menina, ás mesmas

horas, estava á janella...

--Cecilia?!

--É verdade. E d'esse tempo é que vem aquella mudança n'ella.

Manoel Quentino passou a mão pela testa, como para arredar de si uma

ideia afflictiva.

--Depois então--continuou Antonia--veio o pé da sua doença e dos

negocios do escriptorio, e ahi o tivemos mettido em casa. Então julga o

snr. Manoel Quentino devéras que elle teria paciencia para assim aturar

tanto tempo, se...

--Cale-se, mulher!--exclamou Manoel Quentino, com voz alterada--Carlos é

generoso. Para servir um amigo, não hesita em sacrificios.

--Será; mas olhe que não fui eu só que desconfiei.

--Era preciso ser muito infame para abusar assim da confiança de um

homem velho, honrado e doente... Não; nem Carlos nem Cecilia entrariam

n'essa indigna combinação!...

--Eu não digo que fosse combinação de ambos; tanto não digo eu; mas

emfim... além de mim, houve quem pensasse...

--Isso sei eu; e cá recebi o golpe. A carta anonyma não deixou de me

chegar ás mãos. Mostrei-a a Carlos; e saiba então que foi elle, elle

proprio, que resolveu não voltar cá mais.

--Ai, sim? pois essa não sabia eu! Agora é que vejo de que casta elle é.

Então quer que lhe diga? Depois que elle deixou de cá vir, uma noite

ouvi correr o fecho da porta do quintal.

Era noite de luar; ainda estava a pé e espreitei á janella. A menina

descia a escada do pateo.

Manoel Quentino olhava para a criada com o gesto desfigurado, e a

respiração quasi suspensa.

--E depois?

--Deu-me uma pancada no coração e fui, pé ante pé, pelas escadas abaixo.

Cheguei ao quintal. A menina estava á janella de grades e fallava para a

rua com alguem. Com mêdo de ser vista não pude chegar-me perto e não

ouvi o que diziam. Fui dar a volta, pelo lado dos limoeiros, d'onde

podia ouvir melhor, mas, quando cheguei, ia a menina embora. Fui á

janella, e lá o vi a elle...

--Mente! mulher! você tem estado a mentir desalmadamente!

--Ora essa, snr. Manoel Quentino! Assim Deus salve a minha alma! Isto

era lá cousa que eu dissesse, se não fosse verdade?!

Manoel Quentino levantou-se e pôz-se a passeiar no quarto, com agitação.

--Pois será possivel, meu Deus, que assim possa haver maldade no coração

de um homem? Carlos! Carlos, a quem eu estimava como filho, a quem eu

sempre defendia, quando o accusavam de estouvado! Carlos, que se dizia

meu amigo! que parecia incapaz de uma acção infame!

--Por esse mesmo tempo andava elle de carro com as comediantes...

--Se tudo isto é verdade... então... Oh! mas Cecilia tambem... Cecilia!

Ella dissimular, fingir... enganar-me! Ella!...

E o pobre velho quasi se suffocava a chorar.

--Custa-me estar a affligil-o assim, snr. Manoel Quentino; as então? que

se lhe ha de fazer?--continuava Antonia--Quando ha pouco me disse que a

menina tinha ido jantar a casa do inglez... veja lá, sabendo eu o que

sabia... veja como devia ficar.

--Jenny foi quem a chamou; junto d'aquella nada receio por Cecilia... De

todos posso vir a duvidar--quem sabe o que terei ainda de aprender?--mas

de Jenny, d'essa!...

--E seria de facto a snr.ª Jenny quem mandou chamar a menina?

Manoel Quentino fitou a criada com olhar fulgurante de indignação.

--Que damnada tenção tem você hoje de me inquietar, mulher? Que maldita

suspeita é essa, lingua de vibora? Não vê que póde matar-me com essas

palavras envenenadas, não vê, demonio?

--Deus me perdoe, snr, Manoel Quentino, que não faço isto por mal. Mas,

sabe o amor que tenho á familia, e não queria que alguma desgraça

acontecesse...

--Cale-se, mulher, cale-se! Eu sei que são boas as suas intenções; mas

Cecilia disse-me que Jenny fora quem a convidara.

--Pois eu não digo que não. Eu sei até que a menina hontem recebeu uma

carta de mando da snr.ª Jenny; ella não me disse o que ella continha,

nem eu lh'o perguntei. Mas, esta manhã, logo depois que saíram, veio ahi

um criado de lá com outra carta; não era o mesmo, mas sim um que eu vi,

no dia do passeio com a comediante, e que, pelos modos, é criado só do

rapaz.--De quem vem essa carta? perguntei-lhe eu.--«Vem, disse o

brejeiro, com modos avelhacados e sorrindo, vem de miss Jenny». Mas, eu

não sei... a carta é tão differente das que...

--E essa carta?--perguntou Manoel Quentino, fóra de si.

--Essa carta está lá dentro.

--E Cecilia?...

--Esta não a leu ella, porque veio depois que saíram.

--Vá buscar-m'a.

--Mas talvez seja da filha, talvez; eu...

--Vá buscar-m'a--exclamou Manoel Quentino, elevando mais a voz.

Em poucos momentos foi executada a ordem.

Manoel Quentino passeiava, levava as mãos á cabeça, fechava os olhos,

aspirava com ancia, parecia louco.

Antonia trouxe a carta. Manoel Quentino lançou os olhos para o

sobrescripto e estremeceu.

Reconhecera o talhe da lettra de Carlos!

Deixou-se cair com desalento na cadeira que tinha proxima.

--Ó meus Deus! estarei destinado a este infortunio?...--murmurava elle,

com a cabeça escondida entre as mãos, através das quaes passavam as

lagrimas.

Depois, com movimento de raiva, tentou abrir a carta que conservava

ainda nas mãos; mas suspendeu-se por um melindroso sentimento de

delicadeza, que não conseguiu vencer.

--Não, não a abrirei! Não ha infamia que desculpe uma villeza.

Antonia, que promettera farto alimento á curiosidade, suspirou de

despeito.

--Então não lê?

--Não--respondeu sèccamente Manoel Quentino, que principiou de novo a

passeiar pela sala a passos largos. Depois, tomando uma subita

resolução, parou e disse, erguendo a cabeça:--Antonia, o meu chapéo e o

meu casaco.

Antonia abriu para elle os olhos espantados.

--Credo! que vae fazer, senhor?

--O meu chapéo e o meu casaco!

--Snr. Manoel Quentino! onde é que quer ir? O senhor não está em si!

--Não ouviu, mulher?! O meu chapéo e o meu casaco!

Havia na voz do pae de Cecília uma entonação especial, que, sendo nova

para a snr.ª Antonia, não pôde a experiencia d'ella dizer-lhe de que

seria presagio, e por isso prudentemente resolveu obedecer, sem mais

commentarios.

Dentro em pouco, voltou com os objectos pedidos, dizendo apenas, como a

mêdo:

--Mas, aonde vae, senhor?

--Saber a verdade--respondeu Manoel Quentino; e, sem ulterior

explicação, desceu apressado as escadas.

Antonia parecia paralysada de espanto.

--Sume-te!--dizia ella--O homem vae varrido! Ora queira Deus! queira

Deus que elle não vá para ahi fazer alguma! Nossa Senhora nos livre de

tentações do demonio e dos mais inimigos da alma.

A snr.ª Antonia professava um odio, desenganadamente cordial, contra os

taes inimigos que mencionou.

XXXII

OS CONVIVAS DE MR. RICHARD

Na mesma manhã, em que se realisaram os acontecimentos narrados nos

ultimos capitulos, Mr. Whitestone, depois de muito lidar no jardim e na

estufa, transplantando, mondando, alporcando, semeiando, regando as

varias plantas da sua collecção, com não pequeno detrimento de muitas,

recolhera-se emfim ao gabinete, e por curiosidade abrira o volume da

_Vida e Opiniões_ de Tristram Shandy, mina inesgotavel de prazer e de

instrucção para o bem disposto _gentleman_. De cada vez que o lia--e

raro era o periodo de vinte e quatro horas que passava sem o

fazer--descobria no livro cousas novas, sérias, jocosas, philosophicas,

de profundeza especulativa, de utilidade prática, tudo emfim. Mr.

Richard mostrava-se intimamente convencido da opinião expressa por o

proprio Sterne, a respeito d'esta obra singular e de difficil

classificação: «O verdadeiro _Shandeismo_ dilata os pulmões e o coração

(diz elle algures), e á maneira de todas as affecções que participam

d'esta propriedade, faz com que o sangue e os outros guias vitaes do

corpo corram livremente em seus canaes e que gire livre e desimpedida a

roda da vida.»

Ora effectivamente meia hora de leitura de uma pagina humoristica de

Sterne era em Mr. Richard remedio efficaz contra melancolias e

contrariedades na vida.

Abrira Mr. Richard o livro ao acaso, e lia agora a pagina, em que se diz

como o pae de Tristram, ao saber da morte de um dos filhos, encontrára

lenitivo, em lhe ser este acontecimento pretexto para considerações

philosophicas a respeito da morte.--«Um bem que encadeiasse a lingua de

meu pae (diz Tristram), e um infortunio que a soltasse, eram quasi

iguaes para elle, e ás vezes era o infortunio o mais apreciado dos

dois.»

Estas palavras deram que pensar a Mr. Richard; elle imitava estes

apreciadores de vinho que conservam muito tempo no paladar cada gole que

sorvem, e olham com indignação para os grosseiros bebedores, que

despejam de um trago tão preciosa bebida.

--E é assim;--reflectia elle, pousando o livro e saboreando a

consideração que lera--ou mais ou menos succede o mesmo com toda a

gente. Se fosse possivel fazer correr o mundo tanto á vontade dos que

d'elle murmuram constantemente, que se lhes tirasse todo o pretexto de

murmurar, causar-se-lhes-hia não pequena mortificação.

Estes pensamentos foram interrompidos por o criado, que entrou para

annunciar:

--Mr. Morlays.

--_Verbi gratia_--disse para si Mr. Richard, depois de ter dado ordem de

mandar entrar o annunciado.

Effectivamente o inglez, que chegava, era um d'estes pessimistas, para

quem o universo inteiro se apresenta tingido das mais escuras côres; era

uma victima, ao mesmo tempo lastimavel e insupportavel, do _mau humor_,

que o douto _Feuchtersleben_ chama--prosa vulgar da vida, irmão do tédio

e da preguiça e envenenador que lentamente traz comsigo a morte.

Mr. Whitestone, homem laborioso e contente do mundo, estava em constante

opposição ao seu compatriota e amigo, que era d'estes que teem feito

adquirir aos nevoeiros de Londres a immerecida fama de fomentadores do

_splen_--fama, contra a qual principiam, com muito criterio, a

protestar os homens pensadores, descobrindo antes na ociosidade,

favorecida por as fabulosas riquezas de alguns _lords_, a causa

d'aquelle mal de suicidas.

O aspecto de Mr. Morlays denuncial-o-hia á medicina antiga como uma

victima d'esse mysterioso humor negro, que ella chamou _atrabilis_. Era

a variedade do inglez, que póde denominar-se escura; e a escuridade, que

lhe estava no rosto, projectava-se-lhe tambem nas disposições moraes.

O gabinete, em que se reuniam os dois inglezes, era um compendio do

quanto póde tornar o curso da vida facil e suave; tudo alli respirava

conforto; tudo favorecia aquelle doce repousar de fadigas melhor do que

por ninguem saboreado pelos _Her magesty's subjects_, residentes nos

nossos climas meridionaes.

Cadeiras de varias fórmas e mecanismos, nas quaes se esmerára o genio

inventivo em multiplicar e variar as molas, em distribuir as

articulações, em combinar os movimentos, em contornar os angulos e

saliencias até accommodal-as, o mais possivel, a todas as posturas, por

mais caprichosas e extravagantes, que o instincto do repouso as podesse

suggerir; tapetes, onde os pés se profundavam como na relva dos campos;

cortinas a temperarem a intensidade da luz, e finalmente o fogo,

companheiro inseparavel d'estas organisacões do norte, ainda n'aquelle

mez quasi de estio, a crepitar e a lamber com a lingua inflammada as

grades do fogão. Mr. Whitestone pensava como S. Francisco de Salles, a

quem attribuem a opinião de que o fogo é bom durante doze mezes no anno.

Mr. Morlays encontrou em tudo isto motivos para observações de critica

atrabiliaria.

--Maus habitos, Mr. Richard, maus habitos! Estes costumes

elanguescedores são os que tem operado a visivel degeneração da raça

humana. As escrofulas...

--Misericordia, Mr. Morlays! Que feia palavra para antes de

jantar!--exclamou Mr. Richard, rindo.

--São os males da civilisação. Depois do assucar, o peior inimigo do

nosso organismo é o fogão.

--Então o assucar tambem?

--O assucar! Eu tenho para mim que a mais lastimosa descoberta da

industria do homem foi a d'esse pó insidioso, que traiçoeiramente nos

tem envenenado o corpo todo, misturando-se ao sangue...

--É celebre! Eu tinha ideia de que Mr. Morlays era até apaixonado pelo

doce!

--E que prova isso? A nossa natureza é feita assim. Adquirido o habito

do mal, até o mal, até a dor, lhe é indispensavel.

Mr. Richard ficou algum tempo calado, como a meditar sobre a lei do

habito enunciada pelo seu amigo.

Depois perguntou:

--Não haverá meia hora na vida, durante a qual Mr. Morlays veja este

mundo com bons olhos?

--O defeito não está nos meus olhos, creia; mas no que a elles se

apresenta de contínuo. Este é o peior dos mundos, acredite.

--Tristram Shandy--disse Mr. Richard, sorrindo--lamenta tambem não ter

nascido na lua ou em outro qualquer planeta, excepto Jupiter e Saturno,

por causa de serem muito frios; por isso que, diz elle, em outro

qualquer não lhe podiam ter corrido as cousas peior do que n'este, o

qual elle julga ter sido feito com os acrescimos e as aparas dos

outros... Eh! eh! eh!... Mr. Morlays não hesitaria em dizer o mesmo;

estou vendo.

--E por que havia de hesitar?

O criado, entrando outra vez, annunciou Mr. Brains.

--Oh! oh!--disse Mr. Richard--ahi vem o antidoto contra a sua influencia

pessimista.

--Este vê tudo azul-celeste!--notou Mr. Morlays, com sorriso de

commiseração.

Ouviu-se no corredor uma voz cantando jovialmente:

_God save Victoria!

Long live Victoria!

God save the Queen!_

E Mr. Brains, inglez que reagia pertinazmente contra a sisuda etiqueta

nacional, entrou com grande exhibição de cumprimentos e mesuras para a

direita e para a esquerda, simulando atravessar por entre filas de

personagens, que o saudavam, e ia dizendo:

--Mylords! myladies! gentleman! sem incommodo! sem incommodo!--e

chegando perto de Mr. Richard:--Bons dias, lord Whitestone, bons dias;

folgo muito de vos ver tão bem disposto. Oh! nosso leal subdito, lord

Morlays!--como vae o diabo preto, que vos acompanha para toda a parte?

--Não tão bem disposto como o diabo côr de rosa de Mr. Brains.

--Nem por isso, nem por isso. Descuidou-se hoje, deixando-me varrer

todas as ostras do mercado, sem me reservar nenhuma! Cheguei a acreditar

que Mr. Morlays tinha razão; o mundo tem provações! Eh! eh!...

--Ria, ria. Eu confesso que me seria difficil imaginar outro mundo

peior.

--Oh! Para isso basta supprimir as ostras da creação. Perde logo

cincoenta por cento do valor que tem. Eh! eh! eh! Uma comida leve, que

não compromette o estomago! antes o predispõe a mais substancial

refeição.

Não acompanharemos, através das diversas transições, o longo e

substancioso dialogo mantido entre os tres inglezes.

As questões mais graves, que agitavam então as intelligencias e pejavam

de papeis os gabinetes diplomaticos da Europa, o destino das nações, a

futura sorte dos povos, tudo, n'aquella manhã, foi tratado por elles e

decidido em termos categoricos e com tanta consciencia e

infallibilidade, como só a dá e permitte o fôro de subdito inglez, cujos

privilegios, debaixo d'este ponto de vista, parece não terem limites.

Monarcas, generaes, ministros, diplomatas, publicistas, todos passaram

em comprida procissão aos olhos d'este triumvirato, que os julgou e

sentenciou com a impavidez e precisão proprias do espirito britannico.

A guerra da Crimeia historiaram-a elles a seu modo: com grande exaltação

da Inglaterra, e acerba critica da França, a cujo exercito nada mais

concediam senão uma fanfarronice, ás vezes feliz.

Escusado será dizer que tudo isto era condimentado com reflexões

lugubres de Mr. Morlays e com ditos joviaes de Mr. Brains. O primeiro,

para deprimir a França, inventava exemplos de crueldade, e quasi de

canibalismo, commettidos pelo soldado francez: o segundo, com o mesmo

patriotico fim, contava anecdotas comicas, nas quaes se demonstrava o

quixotismo dos alliados da velha Inglaterra. Mr. Whitestone aceitava

tudo de boa vontade.

A illacão, que dos seus arrazoados tirava Mr. Morlays, era quasi sempre

esta:

--Este mundo é um covil de feras!

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 25 / 30 段