--Os symptomas são variados. Em geral o doente tem physionomia de parvo

caracteristica; no intervallo dos accessos cáe em uma especie de

beatifica idiotia, da qual nem os causticos o arrancam. Nos paroxismos

chega a arrepellar os cabellos, a amarrotar os collarinhos, a soltar

gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e arrulhar de maneira que

causa o desespêro dos pombos. Nos casos mais fortes, a doença toma um

caracter de malignidade e o doente faz-se poeta. N'este estado o medico

perde as esperanças e reclama os sacramentos... do matrimonio.

--E o tratamento? e o tratamento?--perguntaram alguns rindo.

--A hygiene é tudo, meus amigos; mal vae se a profilaxia não atalhou a

molestia. Nas _Confissões_ de João Jacques allude-se, como preservativo,

ás mathematicas. Não approvo. Para mim é averiguado que as mathematicas

tem só por effeito o imprimir á doença a feição perniciosa. O

mathematico amoroso é a mais rebelde especie de doente, de que ha

noticia. Entra nos incuraveis. Os meus preceitos são outros. Recommendo

a gastronomia, porque as funcções do estomago e do coração são

antagonistas. Aconselho a leitura do _Feliz independente_, e de todas as

obras de bom senso--antidoto do amor.--Mas se a molestia, apesar de

tudo, progride, então o especifico mais heroico para radicalmente a

curar...

--Qual é?--perguntaram simultaneamente.

--O casamento.

De todos os circumstantes foi Carlos o único que não applaudiu a

dissertação do amigo. Passeiava a passos largos com impaciencia

crescente.

--Peço-lhes, por especial favor, que me deixem em paz--disse elle,

acalmada a trovoada de gargalhadas.

--Deves-nos uma confidencia--tornou-lhe o do sofá, tomando uma posição

ainda mais orientalmente commoda.

--É uma satisfação--acrescentou outro, empunhando um florete, e pondo-se

em posição de esgrima.

Carlos nunca se sentira de tão má vontade para com os seus amigos.

--A cousa é facil de explicar--disse elle sêccamente.--Sabem que sou,

que sempre fui homem de caprichos. A agradavel convivencia dos meus

amigos principiara a enfastiar-me de morte. Resolvi pois furtar-me ao

prazer--invejavel--de os ver. Ahi teem. Passando-me isto,

encontrar-me-hão de novo talvez, e talvez que não.

--Nada, nada. A camara, ouvidas as explicações do ministro, não se dá

por satisfeita, nem passa á ordem do dia--replicou o do florete.--Ha

ainda cousas a esclarecer. Você deve-nos um relatorio. Aquella celebre

mascara? aquelle mysterioso dominó, que prometteu seguir até o fim do

mundo, nas vesperas da sua sequestração? Nunca mais se fallou em tal, e

ha quem insista em ver ahi o principio de tão subita conversão.

Carlos recebeu uma desagradavel impressão com a importuna lembrança e

sentiu vontade de tomar a serio a posição bellica, que o interpellante

conservava, e fazel-o arrepender de possuir tão boa memoria.

Limitou-se porém a responder:

--Não me perguntem cousa alguma a esse respeito, porque nada lhes posso

dizer.

--Ah! mysterios!... Ai, amor! amor!--exclamou o do espelho, e continuou,

cantando:

_Dove non ride amore

Giorno non v'ha sereno..._

--Deixem Carlos; um juramento, feito a horas mortas, tendo por

testimunhas as estrellas, e uns olhos, mais brilhantes ainda, é sagrado.

--Nada posso dizer, porque nada sei--acudiu Carlos, despeitado pela

interpretação que deram ás suas primeiras palavras.

--E nada sabes, porque nada viste? Meu caro, a tua discrição vae sendo

de mau gosto--disse o do sofá, executando um movimento, em virtude do

qual lhe subiram as pernas cincoenta centimetros e lhe desceu outro

tanto a cabeça.

--_Eureka_! _Eureka_!--bradou um que se aproximára da mesa--uma prova

irrecusavel do crime!... O instrumento do delicto! Uma carta!...

A estas palavras Carlos estremeceu. O da descoberta empunhava com gesto

triumphante a carta escripta momentos antes a Cecilia.

--Uma carta! E de que especie?--perguntava o côro.

--Ora! _papier rose_ e _odeur enivrant_--respondeu o outro,

aproximando-a do nariz, com gesto expressivo.

Carlos teve vontade de atirar pela janella fóra aquelle seu amigo, que

proseguiu:

--E o sobrescripto diz...

--O quê?... o quê?...--perguntaram todos, acercando-se d'elle com

ardente curiosidade.

--É indiscrição de mais!--exclamou Carlos, levantando-se para lhe

arrancar a carta das mãos.

Os outros detiveram-o.

--Que é isso? D'onde te surgiram, á ultima hora, esses escrupulos de

donzella ingenua?

--Prohibo-lhes que... -- dizia Carlos, esforçando-se por se lhes livrar

dos braços.

--Ora deixa-te de pieguices--respondiam elles, rindo e continuando a

segural-o.--Lê tu d'ahi depressa, antes que o leão se solte. Olha que

está furioso! Não imaginas.

--«Excellentissima senhora»--lia vagarosamente o da carta, como para

prolongar mais a scena que o divertia.

--Ah... Ex... cel... len... tis... si... ma!--repetiam os outros,

accentuando cada syllaba.

--Cecilia de...--continuava o que lia.

--Ce... ci... lia! Oh nome musical!

--Phylarmonica invocação!

--Santa patrona da harmonia!

--Inspiradora da harpa!

Por um movimento mais energico e imprevisto, Carlos conseguiu afastar o

grupo, que lhe estorvava a passagem, e correndo á mesa, tirou finalmente

a carta das mãos do que a havia descoberto.

--Ha certas familiaridades, para que não auctoriso ninguem--disse elle,

pallido e agitado de indignação e de raiva.

Depois tocou a campainha com violencia.

Acudiu ao chamamento o seu criado particular.

Carlos entregou-lhe a carta, dizendo:

--Leva ao seu destino.

Ia o criado a retirar-se, quando elle o reteve para lhe dizer ainda a

meia voz:

--Se te perguntarem... dize que é do mando de... _miss_ Jenny.

O criado, mostrando ter comprehendido, saíu.

Todos haviam guardado silencio até então, seguindo com pasmo os

movimentos de Carlos.

Depois do criado se retirar, ainda este silencio se manteve por algum

tempo; a final uma voz disse:

--Bonito final de acto! O criado sáe, Carlos senta-se sorumbatico, e os

outros actores contemplam-o attonitos e... aparvalhados--_Tableau_.

A estas palavras, todos se entre-olharam e, como se se achassem uns aos

outros ridiculos, soltaram unisona gargalhada.

Carlos julgou melhor sorrir tambem, ainda que interiormente se lhe

estivesse redobrando a impaciencia.

--Palavra de honra!--continuou um--que nunca vi Carlos assim. Está

romantico.

--Ultra!

--Furioso!

--Como um leão!

--Como um touro!

--Como um turco!--disse o de tendencias orientalistas.

--Vá, vá, Carlos; observa os bons principios. O amor fez te selvagem.

Civilisa-te.

--Conta-nos a historia d'essa Cecilia.

--É alta ou baixa?

--Morena ou loura?

--Typo grego ou oriental?

--Aposto que é a do dóminó.

--Com certeza.

--Vá, homem; conta-nos como isso principiou.

--Olha que uma paixão concentrada é um ninho de aneurismas;

cautela!--disse o medico das doenças de alma.

--Cecilia! É euphonico na verdade!

--Peço-lhes que não continuem a fallar assim de um nome que eu...

respeito.

Uma risada geral acolheu o pedido.

--Ah! ah! ah! Estás muito bom!

--Está delicioso!

--Nunca o vi apurado a este ponto!

--Ó Carlos!

--_Povero amico~_!

O rubor de despeito e de cólera tingiu as faces de Carlos.

--Repito. Que eu respeito. Julgo que me darão licença para poder fallar

serio alguma vez.

--Ah! de certo. Mas, sempre que isso acontecer, eu não me hei de poder

ter com riso.

--Tu a fallares serio!

--Então de facto estás apaixonado? Pois conta-nos isso. Bem sabes que os

amigos são para as occasiões.

--_Amicus certus..._

--Canta a tua aria de confidencia, que o côro te secundará...

--Quando não, procuraremos, descobriremos, e depois então seremos

implacaveis, crueis! Vê lá!

--Fatal dóminó!

--Pois acreditas?

--É elle com certeza.

--Ó Carlos, acautela-te. Colheste a flor em mau terreno; apanhaste a

perola em agua bem envolta, um baile de mascaras!

Carlos tentou obrigal-os ao silencio pelo silencio.

--Estou resolvido a não lhes dar explicações. Por isso quando quizerem

deixar de ser inutilmente importunos...

Ainda por muito tempo não adoptaram elles essa resolução. A assembleia

manteve-se em ruidosa e desordenada discussão por mais de meia hora.

Carlos fingiu ler.

Emfim viu-os sair e respirou, como se livre de um peso, que lhe

comprimisse o peito.

--Adeus, Carlos, _muchas venturas_!--dizia um.

--Faço votos pela tua felicidade--secundava outro.

--Adeus, adeus.

Um cantava:

Ai quem me dera em Sevilha,

Onde a travêssa hespanhola

Sob a elegante mantilha

As negras tranças enrola.

E a alegre companhia abandonou tumultuariamente o quarto.

XXX

PESO QUE PÓDE TER UMA LEVIANDADE

Com a saída dos amigos, não se dissipou immediatamente em Carlos a má

impressão que lhe deixára aquella visita.

Não sei que haja alguem tão indifferente e sobranceiro á opinião alheia,

que possa ouvir, sem se commover e revoltar, o nome só que seja de

qualquer pessoa estimada, pronunciado menos reverentemente por labios

estranhos e de mistura com as phrases e palavras de uma conversa

leviana.

Um delicado pudor de coração sobresalta-se, quando assim exposto a

olhares profanos o idolo do seu mais puro e secreto culto.

Desgostoso com os outros, não estava Carlos mais satisfeito comsigo.

Soltára inconsideradamente da mão a carta escripta a Cecilia, e só agora

reflectia na pouca delicadeza com que o fizera, e na inconveniente

escolha de emissario. Um outro motivo de inquietação o perturbava ainda.

No momento de expedir o criado com a mensagem, esquecera-lhe que, sendo

dia santo, Manoel Quentino estaria provavelmente em casa; e como poderia

Cecilia occultar-lhe o conteúdo da carta, ainda quando lhe dissesse que

era de Jenny?

Todas estas considerações foram, a pouco e pouco, levando Carlos a um

d'esses estados de impaciencia e de agitação de espirito, inconciliaveis

com o repouso do corpo, o qual provocam a acção, ao movimento.

As indefinidas aspirações que, em taes estados, sentimos, sendo

superiores aos meios de que dispomos para satisfazel-as, accumulam em

nós excessos de energia, que se revelam por uma actividade sem plano,

sem fim, á qual cedemos como a necessidade organica, não tentando, nem

conseguindo regulal-a ou conduzil-a.

Por isso, como se no limitado espaço do quarto abafasse, Carlos

levantou-se para saír.

Transpunha já a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o

estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima,

lhe fez desviar a cabeça.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamação de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada apparição vinha tão completamente realisar os secretos e

vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso

effeito das evocações do proprio coração, que--illusões só concebidas

por quem já assim as sentiu alguma vez--Carlos quasi acreditou ser

verdadeiro milagre de amor a presença de Cecilia, alli, n'aquelle

momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que

estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appêllo, que elle

lhe dirigira, de que a leitura da carta bastára para a determinar, de

que, cheia de confiança, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem

do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rirá sómente o leitor, que tenha

já passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mão tremula para a pobre

rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

--Oh! obrigado, Cecília; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; não comprehendia ou receiava comprehender

demasiado o sentido d'aquellas palavras.

--Agora ouça-me, ouça-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o

que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei;

ouça...

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mão de Cecilia, e esta,

como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de

esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem

tentava retirar-se.

Carlos proseguiu:

--Cecilia, se veio, foi porque acreditou que havia sinceridade nas

palavras que eu lhe disse, não é verdade? Não é verdade que não

suspeitará nunca mais que seja um simples galanteio, indigno de si, o

que me leva a repetir-lhe uma, e mil vezes, que a amo?

Estas palavras restituiram a Cecilia a consciencia que perdera quasi. O

sangue abandonou-lhe subitamente as faces, para cêdo affluir com mais

violencia a ellas; saiu-lhe dos labios um grito que mal pôde reprimir, e

tentou retirar a mão, que Carlos continuava a segurar nas suas.

--Snr. Carlos!--disse ella, com a voz agitada de sobresalto e confusão.

--Não se retire assim, Cecilia. Nada receie. Amo-a muito, mas respeito-a

tanto, quanto a amo; e mais depressa...

Não pôde continuar; um rumor de passos e de vozes, que se ouviu na rua,

e já proximo ao portão do jardim, fel-o estremecer.

Teve um presentimento; obedecendo-lhe attrahiu rapidamente Cecilia para

dentro do quarto, em cujo limiar se passára esta curta scena, e fechou

sobre si a porta com precipitação.

Cecilia olhava-o assustada.

Ia a bradar, quando Carlos lhe pôz a mão na bôca, dizendo:

--Silencio por piedade!

Foi prudente. O jardim era já de novo invadido por a mesma turba de

estouvados que, momentos antes, abandonára o campo. Chegaram ainda a

tempo de verem fechar a porta do quarto e saudaram a descoberta com

gargalhadas.

Passados momentos, escutavam-se-lhes as vozes de fóra.

--Abre a porta, abre a porta; agora é inutil a dissimulação, Carlos.

Seguimol-a, tivemos um presentimento; vimol-a entrar. Ha de ser ella.

Não o negues. Abre!

Cecilia, ao escutar estas palavras, sentia-se desfallecer.

--Oh! meu Deus!--exclamou, erguendo assustada as mãos para o céo.

Carlos parecia fulminado.

--Então, Carlos, então? Abre, que maneiras novas são essas? Tu não eras

assim.

--Isso fica-te mal.

--Só queremos vel-a e retiramo-nos.

--Vel-a e apresentar-lhe os nossos respeitos.

--Então, então?

Carlos teve um momento de desespêro. Sem bem attender no que fazia, sem

calcular consequencias, deu um passo em direcção da porta, com o olhar

inflammado e os labios tremulos de cólera.

Impediu-lhe porém a passagem Cecilia, que quasi lhe caiu de joelhos aos

pés.

--Quer-me perder, snr. Carlos!--dizia ella com a voz tomada de

afflicção--Quer-me perder?!

Carlos parou, e tentando erguel-a disse, não menos commovido:

--Cecilia; juro-lhe pelo que ha de mais sagrado que...

N'este momento uma das vozes dizia:

--Então, avarento, não nos queres mostrar essa tua Cecilia?...

Estas palavras fizeram estremecer a filha de Manoel Quentino.

Ao ouvir assim o seu nome pronunciado, e d'aquella maneira, por labios

estranhos, ergueu-se com um movimento energico, cheio de orgulho e de

dignidade revoltada, e, cobrindo-se-lhe as faces do rubor da indignação,

disse, voltando para Carlos o olhar cheio de amargura:

--Em que lhe tinha merecido eu isto, senhor?

--Cecilia!...--balbuciou Carlos, empallidecendo.

Foi ella a que d'esta vez, afastando-o com soberana altivez, caminhou

para a porta em passo firme e seguro.

Carlos collocou-se diante d'ella.

--Que vae fazer?--exclamou com voz supplicante.

--Deixe-me! Menos de receiar para mim é, alli fóra, a presença d'essa

gente, do que aqui a sua protecção _generosa_.

Esta ultima palavra saiu-lhe dos labios quasi expressiva de despreso.

--Cecilia, pois julga?...

--Alli póde haver crueldade, que nem as minhas lagrimas commovam, mas

aqui... ha peior... ha a infamia... que me feriu no coração.

E o tom commovido, com que disse isto, mostrava começar a dissipar-se já

a energia, de que se inspirára ao principio.

Á palavra «infamia» Carlos deixou tambem o irresoluto embaraço, que o

enleiára até então; tomando as mãos de Cecilia e olhando-a em face,

disse-lhe, tendo na voz toda a eloquencia da sinceridade:

--Cecilia, não ha tempo agora para me justificar. Mas aceite-me um

juramento. Pela memoria de minha mãe, pela vida de meu pae, pela

felicidade de minha irmã lhe juro que não mereço essas suspeitas.

Um hypocrita poderia pronunciar este mesmo juramento, mas não com o tom

de persuasão e de verdade que a voz de Carlos possuia n'aquelle

instante.

Não se mente assim.

Cecilia acreditou-o; todas as suspeitas, que por momentos lhe haviam

assombrado o espirito, se desvaneceram.

Extincta a indignação, com a força ficticia que emprestára áquella

natureza feminina, readquiriu o imperio perdido á brandura propria do

sexo, que com razão n'ella confia, como na mais irresistivel arma.

Assomaram-lhe por isso, e abundantes, as lagrimas aos olhos, e, cortada

de soluços, só pôde murmurar, apertando convulsivamente a mão de Carlos:

--Salve-me! Salve-me então, snr. Carlos; que estou perdida!

O ruido que, durante esta rapida scena, mais rapida a passar-se do que a

descrever-se, não havia cessado, redobrava agora de vehemencia.

Carlos só achou um meio para sair d'aquella situação. Correu á sala da

bibliotheca, e abriu-a. Cecilia fugiu para ella e quasi instinctivamente

fechou a porta atraz de si.

O expediente era arriscado ainda, porque os criados podiam ver apparecer

Cecilia d'aquella parte da casa, o que não menos a comprometteria. Não

occorreu outro porém á lembrança de Carlos.

Depois de procurar por alguns instantes desvanecer todos os vestigios da

agitação, que a scena descripta lhe causára, foi abrir finalmente a

porta aos seus importunos amigos.

--Então tomaram-me hoje para victima de motejos, meus senhores?

--Deixa-te de ares de tyranno de comedia, que te não vão bem. Vamos a

saber que é d'ella?

--Quem?

--Ora, quem! A rapariga?

--Continuam as zombarias?

--Homem, não o negues. Encontramol-a alli acima, á esquina. Não sei qual

foi de nós que teve um diabolico presentimento. Seguimol-a de longe.

Vimol-a hesitar, ao chegar ao portão. Symptoma infallivel! A final

entrou. Corremos. Ainda assistimos ao fechar da porta... e agora esta

demora pouco delicada... a tua má vontade... Demais, a alguns pareceu

ouvir rumor de vozes aqui dentro. Ora vamos; confessa.

--Não te faças piegas; que sentimentalismos são esses?

--Tu que n'estas cousas foste sempre dos mais exigentes; que sempre

pugnaste por os direitos de boa camaradagem!...

--Eu que o diga. Lembras-te, d'aquella vez na Carriça?

--E em Leça commigo? Cheguei a desesperar com as exigentes curiosidades

d'este senhor.

--Vê lá se preferes que a procuremos.

--Querem obrigar-me a ser incivil, mandando-os saír?

--Incivil estás tu sendo já.

--E tu a fazeres drama, Carlos! Desconheço-te.

--Está decidido--disse o louro adamado--o homem reage. O remedio é

facil. Procuremol-a. Elle por certo que a não confiou á familia para

guardar. Deve estar escondida aqui.

--Batamos a mata. A gazella ha de apparecer.

E n'um instante principiou desordenada pesquiza em todo o aposento. Não

houve movel nem escondrijo, que não fosse revistado.

--E na bibliotheca?--disse por fim uma voz.

--É verdade! Na bibliotheca!--repetiram os outros. E todos caminharam

para lá.

Carlos tremeu por Cecilia.

--Prohibo-lhes que abram essa porta!--exclamou, com voz perturbada.

--Bravo! Acertamos! Ouvem-o?

--Ah! _diavolo_! Está fechada por dentro.

Carlos respirou.

--É a primeira vez que me lembra achal-a assim. Mysterio! Deixa ver se

pela fechadura...

--Carlos, abre ou manda abrir esta porta.

--Escutem. Ha rumor lá dentro.

--Deixa ouvir.

--É ella.

O que espreitava, continuou:

--Pareceu-me que vi agora o vestido de uma mulher.

--Ah!

--Foi ler _Paulo e Virginia_. Conselho de Carlos, que está dado a

leituras brandas.

--Ah! ah! ah!

--Pschiu! Calae-vos.

Carlos levantou-se desesperado.

--E eu exijo silencio. Alguem se aproxima. É ella. _Incessu patuit

dea..._ É mais razoavel do que tu; veio ás boas.

Carlos lembrou-se da anterior tentativa de Cecília e receiou que se

renovasse.

Agora já elle lhe não poderia impedir os passos. Perdeu com esta ideia

toda a força moral; sentiu-se desalentado.

A chave girou na fechadura.

--Desbarretem-se, meus senhores. Eil-a emfim!--disse um dos do rancho.

Carlos fechou os olhos, como se na presença de perigo imminente; a mão

apertava-se-lhe convulsamente sobre a caixa de revolvers que tinha perto

de si.

Em vez porém do tumulto que esperava ouvir, e que Deus sabe a que

excesso o arrastaria, seguiu-se tão profundo silencio, que o obrigou a

erguer a cabeça surprendido.

Todos os rapazes, havia pouco ainda tão turbulentos, recuavam agora

calados e descobertos e como procurando occultar-se uns com os outros.

No lìmiar da porta, que se abria, apparecia a figura candida e serena de

Jenny, com o braço passado pela cinta de Cecilia, a cuja cabeça,

suavemente animada por um sorriso de melancolia, sustentado a custo,

servia o seu hombro de apoio.

Jenny conservou-se por algum tempo assim, olhando-os com gesto composto

e admirado, que parecia subjugal-os.

Havia n'esta scena um quadro que impressionava.

As feições angelicas da irmã de Carlos revelavam tanta doçura e tanta

nobreza ao mesmo tempo, e as de Cecilia tanta melancolia e tambem tanta

confiança na amiga a que se amparava, que os mais levianos do bando

curvaram respeitosamente a cabeça diante d'aquellas duas mulheres.

Só um olhar como o de Carlos, exercitado no estudo do rosto da irmã,

podia notar-lhe nos labios um leve tremor, a denunciar que áquella

apparente placidez não correspondia uma completa serenidade de coração.

Era comtudo affavel e segura a voz com que ella se dirigiu aos amigos de

Carlos.

--Peço desculpa de os ter feito esperar. _Julgamos_ que meu irmão tinha

já saído e _viemos_ ambas procurar um livro.

E depois, mostrando-lhes Cecilia:

--É minha amiga... ou mais do que amiga... é quasi minha irmã.--E

acrescentou, sorrindo para ella:--Cêdo o será, não é verdade?

Cecilia estremeceu e voltou para Jenny o olhar admirado. Ia talvez a

fallar.

Jenny reprimiu-a, apertando-lhe occultamente a mão; e proseguiu,

sorrindo:

--Perdôe-me a indiscrição, Cecilia; talvez até nem indiscrição fosse já,

porque... estes senhores são... os amigos de meu irmão Carlos.

E estas palavras soube dizel-as Jenny com delicada inflexão de ironia na

voz, que augmentou o embaraço dos que a escutavam.

Curvando-se ligeiramente para elles, Jenny saíu da sala com Cecilia.

Carlos não ousou erguer os olhos para a irmã.

Vendo-a saír, voltou-se para os seus antigos companheiros, que

principiavam a formular desculpas, e disse-lhes com provocadora frieza:

--Espero que estará satisfeita a sua curiosidade. Ordenam mais alguma

cousa?

--Desculpa, Carlos; nós julgamos...

--Tu bem vês que não sabiamos...

--Ó menino, acredita que...

--Palavra, que pensei que era a do dóminó.

--Tambem eu.

--Espero que não leves a mal.

--Aquillo era brincadeira.

--Adeus, Carlos; apparece. Faze-te visivel.

--Mil perdões e... e parabens.

E deixaram o quarto.

Na rua diziam:

--E esta!

--Carlos casar-se!

--_Requiescant in pace_!

--Amen.

A porta a fechar-se sobre o ultimo, e Carlos a correr á bibliotheca para

ajoelhar aos pés da irmã.

--Jenny! Jenny! O amor que eu te tinha é pouco para o que te devo. É

preciso adorar-te, minha irmã.

Jenny ergueu-o, e, olhando-o com expressão triste e meiga, disse:

--Deixa esse excesso de affeição para alguem, que já agora tem mais

direito a ella do que eu.

E apontou para Cecilia, que, chorando, escondia o rosto no seio da

amiga.

Carlos dirigiu-se a ella commovido:

--Cecilia Cecilia, quererá perdoar-me?

Cecilia estendeu-lhe a mão, sem responder, nem levantar o rosto.

Carlos curvou-se para beijal-a.

Uma lagrima assomou aos olhos de Jenny.

Erguendo-os ao céo, murmurou, dirigindo-se talvez á imagem da mãe,

presente á sua imaginação:

--Obrigada! obrigada!

Que lhe agradeceria Jenny? A inspiração que d'ella lhe viera, de certo.

XXXI

O QUE SE PASSAVA EM CASA DE MANOEL QUENTINO

Voltando ao principio da manhã d'este dia, vejamos o que se passára em

casa de Manoel Quentino, que assim é indispensavel á intelligencia dos

ulteriores successos que temos de narrar.

Ao acordar n'aquella manhã, Cecilia não tinha ainda resolvido se

aceitaria o convite de Jenny. Prolongára-se até então a lucta de

resoluções, entre as quaes vacillava.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 24 / 30 段