Que triste não era a alegria que Cecilia affectava, ao trazer para o
quarto do pae as flores, que preparára de manhã, cheia de contentamento!
Lidar com flores, assim, com tanta melancolia, só quando se enfeita com
ellas um tumulo. Marejava-lhe nos olhos o pezar do coração; de pouco lhe
valia o sorriso nos labios. O serão acabou cêdo. Cecilia precisava de
estar só; queria-se livre de todo o constrangimento, queria poder
chorar, sem receio de vistas curiosas, de perguntas indiscretas, de
reflexões impertinentes.
Será necessario dizer que velou toda a noite?
Levantou-se na madrugada seguinte com resolução formada.
--Eu é que era louca--pensava ella--illudi-me sem fundamento...
acreditei... e por que acreditei eu?... De que me queixo?... Nem direito
tenho a resentir-me. Paciencia!--dizia a meia voz, suspirando--Hei de
ter força bastante para tirar esta loucura d'aqui.--E levava a mão á
cabeça, e, depois de reflectir, murmurava, mais baixo ainda, descendo-a
para o logar do coração:--E d'aqui nada terei que arrancar?
Manoel Quentino foi n'essa manhã para o escriptorio. A convalescença era
completa, mas para o ser tambem a sua alegria seria preciso que, ao
despedir-se da filha, não tivesse notado no semblante d'ella outra vez a
antiga expressão dolorosa.
Horas depois d'elle saír, passava Carlos, segundo o costume, por baixo
das janellas, d'onde ordinariamente Cecilia o esperava.
D'esta vez, achou-as fechadas, e corridas as cortinas.
Carlos estranhou aquillo, e por muito tempo não desviou os olhos
d'ellas.
Através d'essas desapiedadas cortinas alguém o observava porém. Era
Cecilia.
Vejam como ella tentava arrancar da cabeça, ou antes do coração, o que
chamára «loucura»?
E desejaria devéras arrancal-a?
Sem ser vista, seguia todos os movimentos de Carlos; viu-o passar; olhar
com attenção para as janellas; caminhar mais de vagar á medida que se
afastava; parar, e, parecendo tomar uma subita resolução, retroceder,
atravessar a rua e entrar para o portal da casa.
Cecilia recuou, como se podesse temer ser vista de fóra.
Cêdo ouviu tocar a campainha da cancella.
Cecilia estremeceu e dirigiu-se ao corredor.
Já ahi encontrou Antonia, que descia para ver quem tocava.
--Antonia--disse-lhe rapidamente Cecília--se for alguem a procurar-me...
diga-lhe que... que não posso fallar, que... estou doente... Seja quem
for... Entende?
--Entendo, sim, menina--respondeu Antonia, com um sorriso de quem
entende de mais.
Foi com modos desabridos que recebeu Carlos...
Este perguntou-lhe se Manoel Quentino tinha ido de facto para o
escriptorio, porque, vendo todas as janellas fechadas, lembrára-se de
que tivesse talvez recaído.
Antonia respondeu:
--Pois fique descansado. Foi para o escriptorio, foi, sim, senhor. Elle
agora está de todo. E a menina manda dizer que não póde fallar a
ninguem, porque está doente.
--Doente?!--perguntou Carlos com uma inflexão de voz, que fez quasi
arrepender Cecilia, que o escutava, da ordem que dera á criada.
--Não é cousa de cuidado, graças a Deus;--proseguiu esta--mas, em todo o
caso, não a deixará tão cedo receber visitas... de ceremonia. E ha de
dar-me licença, que tenho a minha vida.
E, acto contínuo, ouviu-se o bater da cancella, que se fechava.
--Antonia--disse Cecilia á criada, assim que esta chegou ao patamar,
trazendo nos labios um sorriso de victoria--a fallar a verdade você foi
de uma grosseria!
--Ora deixe lá, menina. Tudo é preciso com certa gente.
Carlos, ao sair do portal, pensava:
--Despeitos! Será por eu não ter vindo hontem? Deus o queira; tudo se
explicará em meu abono e depois o direito a uma compensação será optimo
advogado na minha causa. A indifferença era peior.
D'alli foi Carlos para o escriptorio, onde deu a Manoel Quentino os
parabens, pelo seu restabelecimento.
--Sinto--acrescentou--não ter podido hontem festejar, como tencionava, o
seu ultimo dia de doença, mas o que houve lá em casa... Já sabe?
--Já sei--respondeu Manoel Quentino, que se mostrava algum tanto
embaraçado.
--Esta manhã ia com tenção de saber de si--continuou Carlos.--Vendo
todas as janellas fechadas, receiei que se tivesse sentido peior. Soube
porém que era sua filha que se achava incommodada.
--Cecilia?!--exclamou Manoel Quentino, já assustado.
--Socegue--respondeu Carlos, sorrindo, porque o espanto de Manoel
Quentino acabava de confirmar as suspeitas, que tivera--pela maneira por
que me fallou a criada, imagino que não é de gravidade o incommodo. Nem
tempo tive de averiguar d'isso, tal foi a pressa com que ella me fechou
a porta. A boa mulher parecia ter mêdo de mim. Fallou-me com um
arreganho!
Manoel Quentino fez que sorria; mas era evidente que alguma cousa lhe
pezava no coração.
Depois de curta hesitação, aproximou-se de Carlos, e ainda com modo
constrangido, disse-lhe, chamando-o de parte:
--Snr. Carlos, eu tenho-o por um homem de bem; por isso prefiro
fallar-lhe com franqueza a andar com jogo encoberto, que nem é para o
meu genio, nem para o seu.
Carlos ficou surprendido com aquellas palavras, tão inesperadas como
mysteriosas.
--Então que temos, Manoel Quentino? Falle. Parecem communicações graves
as que tem para me fazer--dizia elle, olhando-o interrogadoramente.
--Escute. Eu sei os favores que lhe devo e sei a fé que se póde
depositar no seu caracter, que será tudo quanto quizerem, menos capaz de
uma infamia.
Carlos escutava-o cada vez mais admirado.
Manoel Quentino proseguiu, augmentando-se-lhe o embaraço com que
principiou:
--Mas... no mundo, em que vivemos, ha a verdade e ha as apparencias,
e... não basta sómente attender á primeira, é preciso tambem salvar as
outras...
--Mas a que vem tudo isso?--perguntava Carlos.
--A propósito de uma... de uma loucura, mas que, apesar de saber que o
é, eu tenho obrigação de attender. Esta manhã veio ter ao escriptorio
pela porta interna uma carta anonyma. Queira lel-a, e depois dirá o que
devo fazer.
A carta, cuja lettra era visivelmente disfarçada, dizia:
«Alguem, que toma a peito a reputação dos seus amigos, avisa-o de que as
visitas do snr. Carlos a sua casa, estão já dando que fallar á
vizinhança. Lembre-se de que, pela sua reputação, esse rapaz é uma
visita pouco propria em qualquer casa, onde existe uma menina de dezoito
annos.»
Assignado: «Um amigo desinteressado.»
Carlos, acabando de ler esta carta, passou-a para Manoel Quentino,
dizendo-lhe com profundo despreso:
--Estas são ferroadas de insectos, que se esmagam com o pé.
--Não julgue que me deixo levar por esses protestos de amizade
desinteressada;--disse Manoel Quentino--mas, tanto peior se, como
suspeito, ha antes malevolencia n'isto. A bôca, d'onde saíram estes
conselhos, espalhará a calumnia; e, se tenho coragem para me rir d'ella,
quando se refira a mim só, estalar-me-hia o coração, se de minha filha
se dissesse uma só palavra que a affligisse, que lhe causasse uma
lagrima.
--Tem razão--respondeu Carlos, curvando a cabeça, pensativo.
--Agora diga; que me aconselha que faça? Confio no seu cavalheirismo, e
por isso é a si e a mais ninguem que peço conselho.
--Obrigado, Manoel Quentino--respondeu Carlos, apertando-lhe a mão.--É
preciso que se me fechem as portas da sua casa.
---Carlos! O senhor bem vê que eu não lhe mereço essa ironia.
--Não é ironia. É effectivamente preciso que eu deixe de visital-o. Eu
saberei comprehender a sua posição; acredite-me. É justo que pague a
leviandade, com que me afiz a habitos, que, reconheço-o hoje, não eram
talvez os que a minha indole me pedia. Paciencia.
Manoel Quentino abraçou-o commovido.
Á noite, Mr. Richard e Carlos e muitos dos seus amigos assistiram na
capella ingleza do Campo Pequeno ás ceremonias funebres pela velha Kate,
em cuja sepultura o proprio Mr. Richard lançou, segundo o costume
inglez, os primeiros punhados de terra.
No fim do enterro, Carlos despediu-se de Manoel Quentino, que viera
assistir ao acto.
O bom homem, já habituado á companhia de Carlos nos serões, não teve mão
em si que lhe não dissesse:
--Venha commigo, Carlos; ao menos hoje ainda. Riremos um bocado; isto de
ir para casa com as ideias de um enterro na cabeça, não é grande
cousa... Venha. É dar muita importancia ao mundo, privarmo-nos, por
causa d'elle, da...
--Não, Manoel Quentino; convem por agora interromper as minhas visitas.
Talvez um dia o procure, mas... Adeus, adeus.
E voltou a casa.
Jenny viu-o tão melancolico, que lhe disse:
--Charles, quando d'antes tinhas alguma cousa que te affligisse,
confiavas-m'a. Por que já o não fazes agora?
--Jenny, concede-me algum tempo. Talvez, dentro em pouco, eu tenha muito
que te dizer e muitos conselhos a pedir-te.
Foi a resposta que obteve.
Carlos não faltou á palavra que dera a Manoel Quentino.
Dois dias se seguiram a este sem que a vizinhança do guarda-livros
tivesse que reparar nas assiduas passagens de Carlos por aquella rua,
nem a snr.ª Antonia de soffrer a contrariedade das suas visitas.
Mas, se na sobredita vizinhança houvesse quem depois da meia noite
estivesse acordado, poderia ás vezes ver passar um homem por diante das
janellas fechadas d'aquella casa, e olhal-as como se esperando que ellas
a final se cansassem de sua desesperadora discrição.
Taes eram já as proporções que havia tomado em Carlos o que Jenny
chamára uma phantasia!
Porque esse homem era elle.
Chegára-se a maio. Era uma d'estas noites de luar, serenas, tepidas,
perfumadas, em que um instincto irresistivel nos leva a procurar as
arvores, a escutar de perto o murmurio das fontes. Abafa-se nas salas.
Demorára-se Carlos d'esta vez diante das janellas de Cecilia em uma
d'aquellas contemplações, de que só os espiritos frios podem ter animo
de zombar, quando certo rumor na pequena janella de grades, que se abria
no muro do quintal de Manoel Quentino, lhe chamou a attenção.
Carlos retirou-se para a parte assombrada da rua e esperou. A janella
abriu-se, e o luar, batendo em cheio do lado d'ella, illuminóu a suave
figura de Cecilia.
Carlos permaneceu immovel.
Cecilia estava só; e quem, se não ella, tinha n'aquella casa imaginação
bastante para se seduzir com os encantos de uma noite assim?
Recostando-se á janella, a filha de Manoel Quentino conservava-se tambem
immovel. Havia tanta languidez no reclinar da cabeça sobre a mão, tanta
belleza e poesia n'aquella figura pallida, que a phantastica luz do luar
mais pallida fazia, que, ainda sem ter a imaginação de Carlos, era
possivel quasi acreditar por momentos ser aquillo uma apparição de noite
de estio, como, nas suas lendas, as concebe a phantasia popular.
Que lisongeira voz segredou ao ouvido de Carlos, que era n'elle que
aquella mulher pensava? Vaidades de coração, e tantas vezes mentirosas
illusões dos desejos, quem ha ahi que possa gabar-se de nunca vos ter
experimentado?
Cecilia foi subitamente despertada d'aquelle quasi sonho, em que parecia
arrebatal-a a claridade do luar, por a voz de alguem que lhe pronunciava
o nome por baixo da janella.
Cecilia reconheceu, estremecendo, aquella voz. Era a de Carlos.
--Ó snr. Carlos!--exclamou ella, sobresaltada e fazendo um movimento
instinctivo para retirar-se.
--Escute--disse Carlos--escute-me. São poucas palavras só as que tenho a
dizer-lhe. Vim aqui sem esperança de lhe fallar. Contento-me ha muitos
dias com menos. Ver as janellas da casa em que mora tem-me bastado. Mas,
uma vez que o acaso a trouxe ahi, deixe-me não perder a unica occasião
que tenho agora para lhe dizer o que desejava...
--Mas bem vê que...
--Ouça-me. Dei a minha palavra a seu pae de que não voltaria a esta
casa. Houve alguem interessado em interromper as minhas visitas, e
conseguiu-o, porque eu mesmo julguei necessario interrompel-as.
Acreditará que o fiz sem custo, Cecilia?
Cecilia não respondeu, porque não podia.
--De hoje em diante só um motivo me póde trazer de novo aqui, a sua
casa, á luz do dia, e aos olhos de todos; mas antes, preciso interrogar
o seu coração, Cecilia. Elle só me póde auctorisar a adoptal-o, esse
motivo que digo.
Cecilia ganhou coragem e conseguiu emfim responder:
--Snr. Carlos, a doença de meu pae acabou. O generoso procedimento que
teve para com elle, durante os dias d'essa doença, creia que fez nascer
em mim sentimentos de... gratidão, que nunca mais esquecerei. Recordo-me
de que fui a primeira a implorar o seu auxilio, e sei de que importancia
foi o que me concedeu. Por nós quiz o snr. Carlos abandonar, e por muito
tempo, habitos de vida proprios da... sua idade, e... da sua posição...
O ultimo dia da enfermidade de meu pae, pelo menos, devia para si, snr.
Carlos, ser o primeiro dia de liberdade e... e foi. Se meu pae entendeu
que devia exigir... ou pedir-lhe que terminasse o... sacrificio, não me
compete a mim ir de encontro ás resoluções de meu pae. Não vejo a
necessidade de adoptar qualquer motivo para renovar umas visitas, que
hoje não teem razão para serem renovadas... por isso...
--Mas, Cecilia, e se essa razão, e forte, e irresistivel, e urgente,
estiver em mim, no meu coração?...
--Snr. Carlos, espero que me faça a justiça de acreditar que...--e a voz
de Cecilia tremia ao dizer isto--que eu sou ainda superior a esses
galanteios. Se as circumstancias, que acompanharam o nosso primeiro
encontro, lhe poderam deixar impressões que o levem a tratar-me assim,
peço-lhe que se recorde de que Jenny, de que sua irmã, ainda me trata
como amiga, depois de saber tudo quanto n'aquella noite se passou.
--Cecilia!
--Adeus, snr. Carlos. Sei que ha muita nobreza de sentimentos na sua
alma e por isso espero d'ella que comprehenda a necessidade de acabar
com isto. Adeus.
E retirou-se apressadamente da janella.
Carlos ficou por muito tempo immovel no logar em que Cecilia o havia
deixado, e sem saber como explicasse tão rigorosa severidade.
Não tinham decorrido muitos minutos, assomou á mesma janella um vulto
que, curvando-se para a rua, disse em tom de zombaria, para Carlos:
--Muito boa noite. Com licença.
E fechou as portas da janella.
Era a snr.ª Antonia, que tinha espiado de longe Cecilia, sem que
conseguisse ouvir o dialogo d'ella com Carlos.
Logo que a sua jovem ama se retirou, correu a observar quem estava na
rua, viu e reconheceu Carlos ainda junto do muro.
Carlos, achando-se surprendido, estremeceu e partiu d'alli inquieto.
--Saberia ella que a ouviam e por isso fallaria assim? Ou espial-a-hão
sem que o desconfie? Alguma cousa deve ter-se passado, desfavoravel para
mim, para ser assim tratado. A minha falta só não explica...
E chegou a casa, pensando n'isto tudo.
XXIX
OS AMIGOS DE CARLOS
A scena, que descrevemos no precedente capitulo, aggravou o estado moral
de Carlos.
Cada vez mais concentrado, passava horas inteiras no quarto ou
entranhava-se pelas ruas de verdura do jardim; cada vez mais triste, nem
Jenny podia já inspirar-lhe aquellas promptas alegrias de outros tempos
e tanto do caracter d'elle.
Jenny convenceu-se de que era mais do que um mero capricho o que assim
se assenhoreára do coração do irmão.
E em Cecilia que seria?
A filha de Manoel Quentino havia desde muito evitado a presença de sua
amiga. D'isto mesmo desconfiava Jenny.
--É preciso sondar aquelle coração tambem, e se o encontrar assim...
então... então...
Esta reflexão terminou-a ella sentando-se á secretária e escrevendo:
«Cecilia.
É amanhã o dia dos meus annos. Não me reservará para então a surpreza de
me assegurar que ainda vive? Repare que ha dois longos mezes que a não
vejo. Fico esperando-a, desde o romper do dia de ámanhã.
Sua amiga
Jenny_.»
O dia seguinte era de facto o do anniversario de Jenny.
Cecilia recebeu a carta e hesitou sobre o que lhe convinha fazer. Tinha
receio de ir, temia encontrar-se com Carlos; tinha remorsos de recusar,
havia tanto que evitava a companhia d'aquella que sempre lhe dera provas
de tanta estima! Além de que, terminára com a doença do pae o pretexto
com que ella justificava a ausencia. Era demais um dia santo o dos annos
de Jenny, e, como tal, mais livre para Cecilia. Em toda a noite não
resolveu comtudo o que fizesse, nem fallou a alguem do convite recebido.
Começou o dia seguinte.
Carlos acordára com a resolução formada de abraçar algum partido
decisivo. Era-lhe insoffrivel a incerteza, em que estava vivendo.
Com a cabeça apoiada entre as mãos, todo recolhido ao mundo interior e
cortadas as relações com o externo, procurou assim descobrir o melhor
caminho, por onde saísse d'aquella situação, insupportavel para o genio
d'elle.
Não sei se deva aconselhar o meio como efficaz. Talvez seja mais
prudente pensar com os olhos abertos para o mundo que nos rodeia, visto
que n'elle vivemos e actuamos, e que, a não o incluirmos como elemento
nos nossos calculos, corremos o risco de adoptar resoluções, que mais
tarde nos valham choques incessantes e dolorosos conflictos.
O pensar com os olhos fechados é só bom quando se trata de cousas
puramente metaphysicas; mas procurar assim regras de procedimento na
vida, é imprudente.
O resultado que produziu em Carlos este systema de pensar, foi a
seguinte carta, que elle escreveu com vivacidade quasi febril:
«Cecilia.
Ha dias recusou ouvir-me, quando o acaso me aproximou de si; não
leve o rigor ou a desconfiança a ponto de desviar os olhos d'esta
carta que escrevo, subjugado por uma necessidade irresistivel, por
uma violencia do coração. Quando lhe fallei com toda a sinceridade,
que inspira uma paixão vehemente, Cecilia tomou as minhas palavras
por um simples galanteio e recusou escutal-as; e não haveria na
minha voz alguma cousa a assegurar-lhe que eu não mentia? Como
poderei esperar agora que seja mais efficaz esta carta, á qual não
posso transmittir aquillo que se não traduz em palavras: o
sentimento? Como a poderei convencer, Cecilia? Se imagina sequer o
respeito, a veneração que tenho pelo nome de minha irmã, não
acreditará que possa mentir, invocando-o, ao affirmar-lhe que a amo,
Cecilia; se crê que a memoria de minha mãe é para mim de tanta
adoração e saudades, como as que se apoderavam do coração de Cecilia
e lhe transluziam no rosto, quando a vi ajoelhada no tumulo da sua,
pela memoria de minha mãe lh'o juro tambem Que mais quer? que mais
exige? Não me julgue pelo passado; entre elle e a minha vida de hoje
elevou-se uma barreira, no dia em que principiei a trazer a sua
imagem no pensamento e o seu nome, etc., etc...»
Eu pouparei ao leitor a transcripção na _integra_ d'esta carta, que
proseguia assim por mais algumas paginas e em estylo que, provavelmente,
lhe deve ser familiar.
Carlos terminava por pedir a Cecilia, que lhe revelasse tambem o estado
dos seus sentimentos. «Qualquer que seja a resposta, obrigar-me-ha a um
passo decisivo para o meu futuro», terminava elle.
Acabava de assignar, fechar e sobrescriptar esta carta, e pensava na
maneira de a enviar ao seu destino, quando ouviu um som de passos e de
vozes, que cada vez parecia mais proximo, até que muitas, repetidas e
violentas pancadas fizeram oscillar a porta do quarto, como se ameaçasse
um arrombamento.
Carlos levantou-se em sobresalto, sem que lhe occorresse logo a
explicação de todo aquelle ruido.
--Olá, santo ermitão--dizia uma voz pelo buraco da fechadura--abri a
porta a uns pobres romeiros, que de longe vem, attrahidos pela fama da
vossa piedosa vida.
--_Monsieur Charles_--continuava outra voz--_lás des soins d'ici bas, se
retira loin du tracàs_, á maneira do rato da fabula, que se penitenciava
em um queijo; queira Deus que este tambem...
--Por causa de uma mulher recolheu-se Achilles á tenda, abandonando os
companheiros. Os invulneraveis teem destas fraquezas.
--Alto lá, a insinuação é grave ou, pelo menos, anticipada. Nada de
condemnar antes de ouvir.
--Abre, abre, Carlos; por ordem superior!
Carlos teve ainda alguns momentos de hesitação.
A vozeria redobrava; repetiam-se, com mais violencia, as pancadas na
porta.
Resolveu-se emfim a abril-a.
Entraram. Eram os principaes companheiros dos seus passados
divertimentos, muitos dos quaes já encontramos n'aquelle jantar da Aguia
d'Ouro. Fartos de o aguardarem todas as noites, sem que em nenhuma de
tantas o vissem apparecer, tinham resolvido procurar esse transfuga dos
seus arraiaes.
Operou-se completa mudança de scena, digna, pela celeridade, de um
tablado inglez.--Em poucos momentos, um bando de rapazes invadiu o
quarto; e cêdo, cadeiras, mesas, sofás e leito foram occupados por
elles, como por um enxame de abelhas.--Tudo era desordem minutos depois.
--Então que é isto? que é isto? Que quer dizer esta mysteriosa
reclusão?--perguntava um, estendendo-se no sofá, em postura digna do
sultão.
--Como se ha de explicar este eclipse total de um dos mais luminosos
astros da nossa brilhante pleiade? A Venus do proscenio de S. João chora
por ti; o genio que preside á feitura das costelletas da Aguia esmorece;
no Guichard a deusa do paradoxo lamenta um dos seus mais fervorosos
servos; é uma serie de calamidades por ahi além. Como as explicas
tu?--Isto dizia outro, vasando meio vidro de _curious essence_ sobre o
fino lenço de bretanha.
--Expliquem-as como quizerem--respondeu Carlos, sentando-se com enfado,
que não procurava encobrir.
--Ora que tem isso que explicar? disse o do sofá--Não fallaram ahi em
eclipses? As minhas recordações de lyceu dizem-me que o eclipse é em
geral o resultado da interposição de um astro entre nós e o eclipsado.
Procurem aquelle que nol-o tem occulto...
--Imaginem que estive doente--acudiu Carlos, tentando desviar a conversa
da direcção que este seu amigo lhe dera.
--Rejeitada a explicação por maioria--bradou um rapaz louro e de modos
feminis, typo de Apollo de _cake_, cartaz vivo de cabelleireiros e
alfaiates, ageitando ao espelho as complicadas madeixas de um cabello
monumental.
--Por unanimidade--bradaram mais dois.
--Adopto-a eu--contradictou um occupado a despejar quantas gavetas
encontrava, á procura de lumes para accender o charuto.--Carlos está
doente, mas... do coração... Pois que é o amor?
--_Ah nhe d'amore
La fiamma io sento_
trauteou o do toucador, cantando a aria de Rosina.
--A tua alma está doente, Carlos--sentenciou um estudante de medicina,
que era tido na conta de espirituoso.--E essa pathologia é a minha
especialidade.
--Que falle a sciencia então; que falle a sciencia--exclamaram alguns.
O estudante sentou-se ao lado de Carlos, revestiu-se de um ar de
gravidade doutoral, e tomando-lhe'o pulso, principiou:
--A alma padece de mui variadas fórmas. Temos os pruridos da duvida,
doença chronica nos philosophos que procuram a certeza; hypertrophias de
crenças, mal frequente aos vinte annos; aneurismas de aspirações, muito
vulgares em bachareis formados; ictericias de desespêro, nos chefes de
familia numerosa; fracturas de caracter, nos homens politicos; luxações
de senso commum, nos poetas; paralysias de ociosidade, nos empregados
publicos; dyspepsias de indignação, nos contribuintes; _noli me tangere_
de susceptibilidades, nos deputados fluctuantes; convulsões de
enthusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em
pretendentes sem protecção; cancros de exigencias, em diplomatas
indispensaveis; epilepsias de ciumes, nos maridos; e as cataractas do
amor, em...
--É a doença de Carlos, é a doença de Carlos.
Carlos moveu-se com impaciencia.
--Pois é terrível doença!--continuou o orador--Vejamos. Causas:--É hoje
inquestionavel que esta especie de cegueira procede de ordinario da
exposição do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao halito
embalsamado de uns labios de mulher. Para evitar o contagio
construíram-se em tempo varios estabelecimentos hygienicos a que
chamaram conventos. A doença porém zombou d'elles, como costumam fazer
as verdadeiras epidemias dos lazaretos e cordões sanitarios, e até no
famoso hospicio de Thebaida se manifestaram casos d'ella. A mocidade é
condição favoravel para se contrahir o mal; porém na velhice é elle mais
para temer, por de mais tristes consequencias. De resto, traz de
ordinario comsigo esta molestia sérias complicações.
Carlos mordia os labios de impaciencia; o amigo continnuou, entre as
gargalhadas dos outros: