--Não imagino, sei. Cuidas tu, Charles, que tenho perdido de vista o

irmão, que tão longe d'ella tem procurado andar? Ai, não tenho, não.

--E que tens visto a essa distancia?--perguntou Carlos, gracejando.

--O bastante para me affligir; o bastante para pedir a Deus que me

inspire um dia, em que talvez seja mais carregada do que nunca a nuvem

que venha ameaçar-nos.

--Visionaria!

--Oh! se o fosse!

--Não me dirás tu, Jenny, como te deu para seres tão apprehensiva d'esta

vez! Logo d'esta, em que não é um capricho o que se apoderou do coração

de teu irmão!

--Não é?

--Não, digo-t'o afoutamente, não é. É um sentimento novo para mim

aquelle, a que ando sujeito... Ahi volto eu ás velhas confidencias de

outros tempos; não reparas?

--D'esta vez, Charles, ha duas pessoas, que ambas me são caras,

empenhadas n'isto; eis uma causa da minha inquietação. D'esta vez, se de

um dos lados sómente houver sinceridade...--e será do teu lado, a

havel-a sómente de um?--recaírá sobre o outro todo o peso de

irremediavel infortunio; outra causa que me faz estremecer. E quando

sejam sinceros ambos, não haverá tantas luctas a travar? tantos

obstaculos a vencer? É de tudo isto que vem as minhas apprehensões.

--Socega, Jenny; eu tenho mais confiança no futuro do que tu.

N'este ponto, entrou um criado com recado de Mr. Richard a Jenny, de que

eram horas de preparar-se para a visita a Mr. Smithfield.

--Então, Charles... Vens?--disse ella ainda uma vez para o irmão.

--Por quem és, Jenny, não insistas mais. Basta que te diga que não sei

de motivo tão forte que me podesse obrigar hoje a faltar á minha

promessa. O mais que fazes é perturbar-me o socego de espirito para toda

a noite, com o remorso de não ter condescendido comtigo.

Jenny curvou a cabeça e saíu do quarto.

Carlos correu a retel-a á porta, para dizer-lhe ainda uma vez:

--Perdôa-me, Jenny.

Ella só pôde responder-lhe, commovida:

--Vae.

Passados minutos, vieram da parte de Mr. Richard perguntar a Carlos, se

elle o acompanharia á visita ao compatriota Smithfield. Carlos respondeu

que lhe era impossivel fazel-o aquella noite.

Recebendo esta resposta do filho, Mr. Richard pôz-se a esfolhar com

impaciencia uma rosa que tinha na mão.

XXVII

O MOTIVO MAIS FORTE

Meia hora depois, ouviu Carlos o rodar da carruagem, que levava Mr.

Richard e Jenny á hospedaria, em que estava alojado Mr. Smithfield.

Julgára que respirarìa satisfeito, quando tivesse emfim conseguido ficar

toda aquella noite á sua propria disposição; mas cêdo reconheceu que o

esperára em vão.

Ha situações na vida era que, para qualquer lado que a resolução nos

encaminhe, gera-se-nos sempre no animo um remorso, mais ou menos

intenso, por haver abandonado os outros.

Em uma d'estas dilemmaticas contingencias se tinha achado o espírito de

Carlos.

Na vespera havia de facto promettido, não a Manoel Quentino, como á irmã

dissera, mas a Cecilia, o que maior força dava ainda á promessa, que não

faltaria á festa, disfarçadamente planeada por ella, para celebrar o

restabelecimento do velho.

Era uma especie de innocente conspiração entre os dois; e é provavel que

o leitor ou leitora não ignorem o ardor com que, de ordinario, o coração

se vota a este genero de emprezas, com este genero de allianças.

Carlos não tinha coragem de faltar, nem que fosse para suspender

aquellas lagrimas que vira imminentes nos olhos da irmã. Resistiu pois,

como vímos.

Mas a resistencia deixou de si vestigios dolorosos; aquelle pezar,

causado a Jenny, sentia-o ainda o coração de Carlos; ficára-lhe a dor

intima, que até os alvoroços de prazer, excitados pela lembrança da

proxima entrevista com Cecilia, pareciam exacerbar.

Porque ha d'estas contradicções nos sentimentos humanos; é por a mesma

razão que, ás vezes, a negrura dos presagios mais se condensa entre os

maiores fulgores da felicidade, e que se aviventa a luz de vagas

esperanças nas mais tenebrosas situações da vida.

As horas porém adiantavam-se, e Carlos preparou-se para o serão festivo,

que o esperava.

N'esta noite empregou na tarefa de se vestir um esmero, para que raras

vezes lhe sobrava paciencia.

Parecia estar-se apromptando para um baile.

--Que importuna occasião escolheu este Mr. Smithfield para a sua

visita!--pensava Carlos, emquanto ajustava ao espelho o laço da gravata

de seda--Por causa d'elle é que Jenny me deixou assim pezaroso... Mas

d'onde virá a exagerada apprehensão, que ella mostra d'esta vez?--E

vestia o collete branco.--Não a devia tranquillisar o conhecimento que

tem de Cecilia? Não devia até desejar que o meu coração se fixasse aqui,

que não fosse mais longe? Só se receia de mim... Verdade é que o meu

passado... Oh! mas d'esta vez...

No meio de uma turba de agradaveis pensamentos desvaneceu-se a impressão

penosa, que lhe deixára a despedida da irmã.

Afagando-os a todos, terminou Carlos a sua acurada _toilette_ e

dispôz-se a partir, acompanhado por um cortejo de esperanças, tão vivas

e palpitantes, que nem lhe deixavam sentir já o ligeiro remorso que, de

mistura com ellas, lhe havia entrado o coração.

Ia já a transpôr o limiar da porta, quando um subito rumor de vozes, de

passos apressados e gritos agudos, como arrancados por a mais dolorosa

tortura, o fizeram parar.

Informou-se, cheio de inquietação, do motivo d'aquelle ruido.

--É a snr.ª Catharina, que está com um dos seus ataques--respondeu o

criado, a quem elle se dirigiu.

Eram tão frequentes estes accessos na velha Kate, que, desde que Carlos

soube ser essa a causa do rumor que ouvira, não lhe deu mais importancia

e caminhou outra vez para a porta.

Redobrou porém a violencia dos gritos, e tanta e tão crescente angustia

exprimiam, que o génio de Carlos não lhe permittiu mais tempo ouvil-os

impassivel; obedecendo a generoso impulso, subiu apressado as escadas e

entrou n'aquelle mesmo quarto, onde já acompanhamos Jenny.

Illuminava o aposento apenas a froixa claridade de uma lamparina, quando

Carlos entrou alli.

Em volta do leito da velha ingleza agrupavam-se todas as criadas da

casa.

A pobre louca estrebuxava tão violentamente com os braços, que ellas mal

conseguiam segural-os.

Gesticulando com movimentos desordenados, soltando, entre gritos agudos,

palavras sem nexo, reunindo syllabas sem significação, descomposta e com

os cabellos em desordem, aquella desgraçada inspirava ao mesmo tempo

compaixão e terror.

Carlos aproximou-se do leito.

A velha Kate, vendo chegar uma nova figura junto de si, fitou n'elle um

olhar de expressão quasi selvagem e, depois de algum tempo, pôz-se a rir

e a bater as palmas, com os modos infantis proprios d'aquelles estados

de embecilidade.

--Olhem!... É elle!... é elle!... --dizia ao mesmo tempo, reparando cada

vez mais em Carlos--Como veio para aqui?... Inda bem que vieste!...

Agora sim!... Quero ver agora quem me fará mal?... Vem cá, Dick, vem

cá!... Agora sim!...

E acenava-lhe para que se aproximasse do leito.

Carlos condescendeu.

--Vejam! vejam!--dizia a velha, passando as mãos pelos cabellos de

Carlos--É outra vez o Dick, que eu conheci... Este sim!... Já não tem

nenhuns cabellos brancos... Este sim... Eu bem dizia que havia de

voltar. O outro não era verdadeiro... Agora já não receio esses

malditos, que me teem aqui presa ha tanto tempo!... Que venham!... Tu

não me has de deixar só com elles outra vez, Dick, não? Olha que me

matam!

--Socega, Kate, socega--disse Carlos carinhosamente--Ninguem te quer

fazer mal.

--É porque tu não sabes ainda o que elles me teem feito!... Olha;

repara... Não vês o cadeiado que me pozeram aos pés?... Nem os posso

mover... nem os sinto!... E agora... metteram-me aqui no peito um

ferro... aqui... cá o sinto dentro.... Arde, como se estivesse em

braza... E este laço?... não vês este laço, que me deitaram ao

pescoço?... não vês como está apertado?... suffoca-me!... Ai!... ai!...

E respirando a custo, apertava com ancia, o braço de Carlos, que a

segurava.

--Então, Kate, vê se descansas;--dizia elle--eu vou já mandar tirar-te

tudo isso, que te afflige assim...

--Então... manda... manda! Por compaixão, Dick, manda; não deixes

martyrisar assim a velha Kate!... Por amor de teus filhos, Dick! Eu não

tenho forças para soffrer tanto! Estou muito velha, Dick, muito

velha!... tem compaixão de mim!...

E rompia em soluços tão expressivos de dor, que até as criadas não foram

superiores á commoção.

Depois encostou a cabeça ao hombro de Carlos, dizendo-lhe ao ouvido, com

expressão de susto e de mysterio:

--Foram ellas que me fizeram todo este mal, não foram?

--Não; socega...

--Foram! foram, sim!--bradou, elevando a cabeça com violencia e

inflammando-se-lhe outra vez o olhar, que parecia despedir faiscas, como

sempre que era contrariada.

--Pois foram, foram; mas...

--Então não fiquemos aqui. Vamos outra vez para a Inglaterra, Dick. Para

que me trouxeste tu para esta casa? Para quê?

--Descansa, que havemos de ir; mas é preciso que estejas socegada.

--Estou... não vês que estou?... mas... não me deixes só,

não?--acrescentava, com entonação de supplica, quasi infantil.

--Então não vês aqui tanta gente?

--Não a quero. Manda-a embora; a todos... manda-os a todos embora!... Eu

quero estar só comtigo...

--Mas...

--Manda-os embora, por amor de Deus, manda-os embora!

Carlos não teve coração para resistir a este pedido da louca.

Á sua ordem saíram as criadas do quarto, deixando Carlos só com ella.

--Fecha, fecha essa porta, para que não entrem outra vez, fecha.

Carlos fechou a porta.

--E agora vem cá; senta-te aqui, ao pé de mim; eu não posso dormir, se

tu aqui não estás... E eu queria dormir... Tenho somno.

E tomou entre as suas as mãos de Carlos.

Carlos sentiu que as d'ella começavam a arrefecer, d'essa frialdade de

gêlo, que excita em nós uma repulsão instinctiva. Pela primeira vez lhe

acudiu a ideia de que podia ser aquella a ultima noite da pobre mulher.

Este pensamento fel-o olhar para ella com mais attenção.

A escassa luz da lamparina ainda lhe permittiu conhecer a profunda

alteração de feições, que a pobre demente apresentava.

Deram nove e dez horas, e Carlos não saíra de junto da velha criada,

que, segura ás mãos d'elle, estremecia ao menor movimento que sentisse,

como receiando ser abandonada outra vez. Era tal o terror que mostrava

de ficar só, que tirou o animo a Carlos de tentar sequer deixal-a.

Assim as horas, que elle contava passar na companhia de Cecilia, iam-lhe

correndo junto d'esta desgraçada octogenaria, que com discursos

incoherentes, de mistura com risos e com prantos igualmente expressivos

de desvario, o conservou alli.

Pouco a pouco, principiou a tornar-se-lhe mais tardia e inintelligivel a

pronuncia, mais sumida a voz, mais ennevoado o olhar.

--Pozeram-me estes ferros...--murmurava ella, interrompendo-lhe a ancia,

a cada instante, as palavras sem nexo que dizia--pensam que eu não

sou... Kate?... sou Kate, sou!... Foi á viuva do fogueiro... que eu

dei... o vestido verde... O fogueiro morreu... morreu no mar... É porque

não são bons christãos... Não foi o gallo que cantou, foi a coruja...

Dizia que eram esmeraldas e... assim é que a irmã se perdeu... O cedro

chorava... era o pae d'ella...

Carlos, pousando-lhe a mão no pulso, mal o pôde já perceber... Tentou

sair, para chamar alguem que ministrasse os soccorros precisos, mas a

contracção, com que a velha o segurou, o estremecimento que lhe correu

pelo corpo, ao sentir a tentativa de Carlos, obrigaram-o a desistir.

--E para quê?--pensava elle--ninguem já agora arrebatará esta presa á

morte. Pelo menos que seja tranquillo o passamento. Deixal-a morrer em

paz.

E ficou, ficou elle só, unico espectador d'aquella scena lugubre,

d'aquelle espectaculo pouco talhado para a sua juventude, para a sua

indole e para os vestidos de gala, com que, para bem outros fins,

esmeradamente se preparára.

Era notavel o contraste. A velha caiu em silencio profundo, apenas

cortado de surdos gemidos.

Dava meia noite, quando uma respiração mais ampla, após um profundo

repouso, fechou o circulo d'aquella longa existencia.

Carlos conheceu que tinha diante de si um cadaver.

Depois de por algum tempo a encarar melancolicamente, desceu-lhe, com

piedoso respeito, as palpebras sobre os olhos amortecidos.

Foi n'este piedoso mister que o vieram encontrar Jenny e Mr. Richard.

Voltando da visita a Mr. Smithfield e sua filha, souberam no portal que

Carlos não havia saído, em consequencia do violento accesso que

acommettera Kate.

Ahi mesmo se desvaneceu toda a irritação de animo em Mr. Richard.

--Então não saíu?

--Não, senhor,--disse o criado--havia-se vestido para saír, mas até

agora tem estado só no quarto da snr.ª Catharina.

O velho inglez, que tinha ainda pela que fora sua ama uma verdadeira

affeição, sentiu-se commovido ao ouvir isto.

Elle e Jenny correram então ao aposento de Kate.

--Expirou agora--disse Carlos, ao vel-os entrar.

O pae e a filha acercaram-se apiedados do leito.

Jenny não recusou lagrimas de saudade áquella velha mulher, que ella,

tão longe, quanto lhe ia pelo passado a memoria, se recordava de ver

sempre junto de si.

Mr. Richard curvou tambem a cabeça, perante aquelle tão solemne

espectaculo.

Carlos ficava-lhe defronte e ao lado a irmã.

Jenny, enxugando os olhos, voltou-se para elle.

E, como se obedecesse a irresistivel impulso do coração, apertou-o nos

braços, dizendo:

--É n'isto que te reconheço, Charles. Quem poderá duvidar ainda da

generosidade da tua alma?

Carlos correspondeu ao abraço da irmã, beijando-a affectuosamente na

fronte.

E ao descingir-se-lhe dos braços, encontrou a mão de Mr. Richard, que se

estendia francamente para a sua.

--O seu proceder foi o de um homem de bem e... de coração, Charles.

Honra-o--disse, com voz tremula, o inglez.

Carlos apoderou-se d'aquella mão, que se lhe estendia, e curvou-se para

beijal-a.

Perante aquelle leito mortuario desvanecera-se de todo a tempestade

domestica.

Foi assim que Carlos faltou á promessa que tinha feito a Cecilia, falta

que horas antes pensava e dizia não haver motivo tão forte que o levasse

a commetter.

Resistiu de facto aos resentimentos do pae, resistiu,--e mais custoso

lhe foi--ás lagrimas da irmã; mas não teve animo para resistir á

compaixão por uma pobre mulher, velha, demente e moribunda.

Ficou, para lhe fechar os olhos.

Era assim o caracter de Carlos.

XXVIII

FORMA-SE A TEMPESTADE EM OUTRO PONTO

A snr.ª Antonia não perdera o seu precioso tempo, nem desaproveitára a

sciencia adquirida por meio das observações da manhã.

Ao voltar a casa, encontrára na rua o snr. José Fortunato, e a elle,

como fiel alliada, communicára logo alli o peculio de descobertas, com

que enriquecera o thesouro dos seus já numerosos conhecimentos.

José Fortunato horrorisou-se com a serie de estupendas noticias, que

ouviu de tão auctorisada bôca.

--Não ha que fiar nos homens de hoje!--foi a sentença que elle lavrou,

depois de ponderar os famosos artigos d'aquelle libello diffamatorio.

--A mim não me enganou o melro--fez-lhe notar a snr.ª Antonia.

--Pois olhe que a mim...

--Agora o que é preciso é abrir os olhos fechados, que ha lá por casa.

--Abrir?!... Melhor seria fechar alguns, que já se abriram de mais para

elle... Não sei se me entende?

--Entendo, entendo. Não ha de ter duvida. Socegue.

E a snrª Antonia, serenando assim as apprehensões do seu protegido,

entrou para casa. José Fortunato ia pensando:

--Se eu avisasse o pae, mas de maneira que não soubesse que era eu...

Cecilia andava contente aquella manhã.

O seu bom coração deixára-se repassar todo de alegrias, d'essas alegrias

travêssas, agitadoras, de quem não quer reflectir no que as faz nascer;

alegrias que, vindo á luz, gosam da luz como as creanças, as quaes a

festejam com risos e cantares, ainda sem saudades do passado, nem

incertos temores do futuro, a amargurarem-lhes tão ingenuo prazer.

Pobre rapariga! Mal sabia ella, que bem de perto a seguia a nuvem, que

havia de assombrar-lhe o fulgor d'aquelle contentamento!

Antonia machinava em silencio contra ella. Á similhança da aranha, em

traiçoeira emboscada, aguardava paciente que aquella buliçosa borboleta,

que voava em volta de si, viesse prender as azas na sua enredada teia.

Cecilia demorava-se porém pouco tempo junto d'ella, e pouco tempo em

toda a parte. Lembrava uma avezita prisioneira, quando, ao amanhecer de

um dia de sol desanuviado, após longos de nuvens e de chuva, bate as

azas, salta de poleiro em poleiro, esvoaça de encontro ás grades da

gaiola, e ensaia de novo o canto, havia muito interrompido.

Occupada com os preparativos do que ella chamava a festa do pae, Cecilia

não parava um momento. Descia ao quintal, para colher flores;

escondia-se no quarto, para formar ramos, e com elles enfeitar as

jarras; passava á sala de Manoel Quentino, para que a ausencia não fosse

estranhada, e com o fim de dizer ao pae algumas palavras de affecto;

depois voltava ao quintal e sempre com a ligeireza e agilidade, proprias

d'aquelle corpo flexivel e elegante e d'aquella nervosa compleição.

De quando em quando, chegava tambem á janella, esperançada em que um

feliz acaso lhe satisfizesse não sei bem que secretas aspirações, as

quaes talvez a leitora adivinhe.

Foi em uma d'estas occasiões, que Antonia, encontrando-se com ella no

corredor, lhe disse á queima-roupa:

--Já esta manhã vi o snr. Carlos.

Cecilia perturbou-se; mas inquiriu, affectando indifferença:

--Aonde?

--Ia a saír de casa. Entrou com uma senhora nova para uma carruagem...

--Havia de ser Jenny, a irmã...

--Ai, não; não era, não, senhora. Essa tinha saído com o pae, logo pela

manhã, que m'o disse a snr.ª Joséfinha. Esta tal, que eu digo, chegou de

fóra. Pelos modos... é das taes comediantes do theatro... que elle

conhece.

--Comediantes?!--disse Cecilia, não procurando já disfarçar a

inquietação.

Após este preludio, a snr.ª Antonia entrou de alma e coração na materia,

que esgotou completamente. Disse quanto ouviu, quanto viu e, mais ainda,

quanto pensou e concluiu de tudo o que ouvira e vira, graças áquelle

vigor de deducção logica, que era dos mais caracteristicos dotes d'esta

senhora.

Cecilia, comquanto lhe parecessem exageradas as opiniões da criada,

sentia que se lhe ia enlutando o coração ao ouvil-a; e que toda aquella

disposição para rir e cantar, com que lhe principiára o dia, se lhe

estava transformando em irresistivel desejo de chorar.

No estio dos nossos climas amanhece ás vezes o dia puro e formosissimo;

o céo é azul; resplendentes os raios do sol; tepida e perfumada a

viração, que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco, parece que o

sol desmaia; que desbota o azul do céo; que nos abafa a atmosphera

inflammada; accumulam-se no horizonte, e espalham-se depois por todo o

firmamento, nuvens de um azulado de chumbo;--fórma-se a trovoada.

Esta manhã de Cecilia foi bem similhante a um d'estes dias de verão.

Quando Antonia acabou de expôr as conceituosas reflexões a respeito do

caracter e vida de Carlos, e de provar á saciedade ser elle possuidor

das peiores qualidades d'este mundo, Cecilia separou-se subitamente

d'ella e correu a fechar-se no quarto.

Foi com as faces pallidas e com os olhos vermelhos que ella appareceu

diante do pae ao jantar. Contrastava tanto com estes vestigios de

tristeza o sorriso, a que pretendia obrigar os labios, que o effeito era

mais triste ainda.

Todo se alvoroçou o coração de Manoel Quentino, ao vel-a; tão contente

pela manhã, e agora assim! Olhava para a filha, mas não se atrevia a

interrogal-a.

Cecilia bem fez por se mostrar jovial; fallou sempre durante o jantar,

mas havia tanto de facticio n'aquella vivacidade, que ninguem se podia

illudir, quanto mais o pae!

Reinou, durante todo o dia, entre Manoel Quentino e a filha aquella

especie de mutua desconfiança, que se dá sempre com duas pessoas, quando

ha entre ellas um segredo, guardado por uma e suspeitado por outra, e no

qual ambas evitam fallar.

Aproximou-se a noite.

José Fortunato foi pontual.

Cecília estava cada vez mais agitada; o coração era-lhe disputado por

esperanças, misturadas de receios, de ver chegar Carlos á hora

promettida, e por o presentimento, que lhe segredava que elle não viria

aquella noite.

A impaciencia, que d'aqui lhe nascia no espirito, revelava-se nas mais

pequenas cousas. Quanto mais se fechava a noite, tanto mais era para

notar em Cecilia aquella especie de excitação nervosa, em que as

occorrencias do dia a haviam lançado.

Chegou a ser cruel para com José Fortunato.

Ás vezes, até as respostas, que dava ao pae, saíam-lhe com certo

azedume, de que immediatamente se arrependia, empregando depois tanto

ardor nas desculpas, que ainda mais afligiam e inquietavam o velho.

Segundo o costume, era ainda á doença, e só á doença, que elle attribuia

aquillo tudo, e por vezes, chamando a filha a si, insistiu, depois de a

beijar, em lhe tomar o pulso.

Manoel Quentino, que não entendia cousa alguma de organisações nervosas,

julgava ver na frequencia das pulsações em Cecilia um symptoma evidente

de febre e, por sua vontade, já teria rodeiado a filha de todo esse

apparato medico, com que, sob pretexto de combater uma doença, tantas

vezes se aggravam incommodos ligeiros.

Deram sete, oito, nove horas, e Carlos não apparecia.

A snr.ª Antonia andava com ares triumphantes. José Fortunato trocava

olhares de intelligencia com ella.

--Estou muito admirado da demora de Carlos!--dizia Manoel

Quentino.--Está decidido que não vem.

--Será melhor trazer o chá--lembrou Antonia.

--Será melhor esperar que lh'o mandem trazer--acudiu Cecilia com frieza.

Manoel Quentino, ao ouvir o tom d'esta resposta, fixou tristemente os

olhos na filha. Estranhava-a.

--O snr. Carlos teve pelos modos hoje outras distracções--observou José

Fortunato.

--E eu que o diga--acrescentou Antonia.

--Que diabo estão vocês a rosnar?--perguntou Manoel Quentino.

--É que...--ia Antonia a explicar-se, quando Cecilia a interrompeu.

--Ande, Antonia, ande; traga então o chá, ande; avie-se.

E disse isto com a impaciencia de quem não admittia demoras.

Antonia obedeceu. Cecilia deixou tambem por um pouco a sala.

O snr. José Fortunato aproveitou o ensejo para fazer o seu amigo sciente

do que havia, em relação a Carlos.

Muito contra o que esperava, em vez de o ver indignado e horrorisado

quasi, achou-o com umas disposições para levar o caso a rir, que o

maravilharam.

--Aquella cabeça não toma rumo!--dizia Manoel Quentino--Nem eu sei como

por tanto tempo aturou o serviço do escriptorio! E olhe que foi bom e

real serviço o que elle fez! Inda estou para saber como aquelle diabo de

rapaz pôde em tão pouco tempo fazer o que a muitos leva annos! Mas então

com que... esta manhã... Hein? Fugiu o passaro da gaiola? E de

carruagem! Fugirá a sobredita senhora com o rapaz para o deserto? Eh!

eh! eh!... Bem; então... n'esse caso... vamos nós tomando o nosso chá,

snr. Fortunato, vamos. Já o podiam ter dito; escusavamos de ter alterado

as horas...

Quando Cecilia voltou á sala, inda Manoel Quentino ria, a bom rir.

--Cecilia--disse-lhe elle--vamos ao nosso chá; voltamos hoje aos nossos

antigos habitos, filha. Isto de passaros novos fogem, pilhando a gaiola

aberta... Os que ficam são estes, como o snr. José Fortunato, que já

estão trôpegos de todo... Eh! eh! eh!...

O snr. José Fortunato não gostou demasiadamente da imagem. Manoel

Quentino proseguiu:

--Aqui o amigo contou-me agora a historia de uma certa carruagem e de um

certo rapaz, que Antonia lhe disse... é muito engraçada... Eh! eh! eh!

--Eh! eh! eh!--fez o snr. José Fortunato tambem--mas ficou-lhe bastante

caro o entrar no duetto, visto que Cecilia o castigou, dizendo:

--Engraçada? Então é por excepção. Não é essa a principal qualidade das

historias do snr. Fortunato.

José Fortunato pôz-se logo muito serio; Manoel Quentino olhou espantado

para a filha.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 22 / 30 段