--E bonita.

--Então que me diz a isto?

--Que estou atordoada!

--Já viu um descaramento assim?

--Eu não.

A snr.ª Antonia retirou-se d'alli, devéras indignada e decidida a

intervir em casa do amo, para desmascarar o libertino, que se

introduzira sorrateiramente n'ella a pretexto de serviços

desinteressados e de falsa amizade.

Antonia conseguira o seu intento, enchera-se tanto de razão, que já

ameaçava trasbordar por ella fóra.

XXV

TEMPESTADE DOMESTICA

Ás quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone

a casa, com aquelle ar de satisfação ingleza, que já lhe conhecemos, e

em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas sérias e

principiou a gosar as doçuras do _não fazer nada_. Parte da manhã

passára-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de

facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.

Como n'estas intenções do discreto inglez conseguira entrar a

despenseira, não sabemos nós; mas é certo que, ou por força de logica ou

por occulta inspiração, havia ella acertado, ao informar a snr.ª

Joséfinha da Agua-benta. Comquanto o não ter sido acompanhado pelo filho

n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez,

consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar á noite,

na segunda visita que tencionava fazer.

Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira

_Butterfly_, impaciente com a morosidade do dono, que tão a miudo a

obrigava a retroceder.

Trauteando por entre dentes o predilecto: _cheer_, _boys_, _cheer_,

caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia

a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da

rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se

impressionado por algum objecto que vira n'ella.

Por muito tempo durou este exame.

Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar.

E não o conseguindo de fóra do mostrador, entrou na loja.

--Faz favor de deixar-me ver um relogio, que está ahi exposto?--disse

elle para o ourives.

O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe

promptamente ao pedido.

Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa attenção.

--É um bello relogio!--dizia o ourives--Valioso por todos os respeitos.

Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabeça, e proseguiu calado no

exame.

--É inglez, não é verdade?--perguntou d'ahi a instantes.

--É, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.

--E então... mandou-o vir directamente da Inglaterra?

--Não, senhor...

O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que

estava pensando, ao olhal-o assim, não sei; mas uma sombra de

desconfiança parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes

continuou:

--Para fallar com franqueza a v. s.ª, ainda não ha muitas horas que o

comprei.

--Ah! E... póde saber-se a quem?...

--Comprei-o a um rapaz, que eu conheço de vista, mas cujo nome ignoro...

Supponho que é tambem inglez... Vinha em carro com uma senhora...

Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:

--Com uma senhora?...

--Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou á espera

d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fóra da

terra, e propôz-me a compra do relogio e da corrente... Entramos em

ajuste...

--Bem, bem; pouco me importa isso--disse Mr. Richard, com ligeiras e

convulsivas contracções de labios, que eram n'elle indicio de cólera

reprimida.--Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?

O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que

Mr. Richard não lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda

vez, o relogio e a corrente, com que havia já presenteado o filho.

Porque não havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de

que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora

presentes.

Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas

lá por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de

irritação, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.

O criado, que estava á porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o

mesmo que recebera pela manhã a visita, que tanto indignára a snr.ª

Antonia.

--A que horas saíu hoje o snr. Carlos?--perguntou Mr. Richard, em tom de

voz sêcco e aspero.

--Ás... ás dez horas--respondeu, já sobresaltado, o criado.

--Só?

O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um

olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.

--Só?--repetiu o inglez, com mais força.

--Não... não senhor...--respondeu o criado.

--Então?

--Com... com...

--Com quem?--perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.

--Com uma senhora, que... que veio procural-o... mas... era já de

idade--acrescentou o homem, como correctivo.

Porém Mr. Richard já lhe havia voltado as costas, entrando para casa.

Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma só

ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e

sem lhe excitar desejos de decifral-a.

Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, ás perguntas

de Jenny, e quiz saber se Carlos já tinha vindo para casa.

Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar,

desejava ir ao quarto d'elle.

Era esta resolução tão extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou

fixamente para o pae.

Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer após si uma

d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.

Pretendeu conjural-a.

--Pois vamos--disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.

--Não, não--respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.--Eu

pretendo... preciso de fallar-lhe a sós.

Jenny soltou-lhe o braço, a que já se apoiára desanimada com a frieza,

mal occulta, d'aquellas palavras.

Mr. Richard tentou abrandar a impressão do primeiro movimento, dizendo:

--É de negocios que se trata... Até já!... No entretanto, pódes mandar

servir o jantar.

Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vão adivinhar a razão

d'aquella entrevista.

Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.

Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canapé,

pensava... em Cecilia provavelmente.

Ao ver o pae, que tão raro o procurava no quarto, levantou-se com

alvoroço e mal occulto espanto.

Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a

corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o

dominio de violenta commoção:

--Ahi tem. Quando vender as... as dadivas das... das... pessoas que...

que o estimam... seja para... fins que... que o não envergonhem, nem...

deponham tristemente contra... o seu caracter...

Á vista do relogio foi tal a commoção que se apoderou de Carlos, que

nada pôde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como

se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguições do

pae era merecida.

Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita

confirmação das suas suspeitas.

Cresceu n'elle com isto a irritação.

--Seja extravagante muito embora... mas... mas... nunca seja... nunca

seja vil...

Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a

cabeça.

--Senhor!--exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a

indignação que sentira.

--Vil, sim--repetiu Mr. Richard com mais força, como se excitado por

aquella apparencia de reacção.--Quero que não faça d'esta casa theatro

das suas... aventuras... escandalosas.

--Mas...

--Lembre-se de que é aqui--proseguiu, sem o attender, o pae--aqui,

debaixo d'estes tectos, que não tem a delicadeza de respeitar, que é

aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae... que foi aqui que sua

mãe morreu... que é aqui que vive sua irmã.

--Creio que ainda não dei motivos para...

--Quem o procurou esta manhã? Com quem saiu de carruagem? Com que fim

vendeu esse relogio?

Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relação

áquellas perguntas; nem era de animo tão docil, que ouvisse, sem se

irritar tambem, estas severas recriminações, feitas antes de julgamento

minucioso.

O seu orgulho revoltou-se.

--Não posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que...

Mr. Richard atalhou-o:

--Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado

aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que não tenho feito

caso. Mas quero, mas exijo... E inda tenho força bastante para o

conseguir, póde crêl-o... Quero e exijo que se respeite o meu nome e...

e a minha casa. Fique entendendo.

--Mas eu já lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos

d'esta manhã não podiam deshonrar nem o seu nome, que é o meu tambem,

nem esta casa, que eu respeito como...

--A sua palavra de honra! Não basta. Bem vê que tenho motivos para

duvidar d'ella... e porisso...

--N'esse caso, como não tenho outra garantia a offerecer, calo-me.

Depois de uma resposta como essa, quando é de um pae que a recebemos,

não nos resta outro partido, além do silencio--disse Carlos, com

decidida resolução de não continuar este dialogo, receiando com razão

que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa,

que altercava com elle.

Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse,

ainda com severidade, mas em tom menos elevado:

--Parece-me que concordará commigo em que me assiste o direito de pugnar

pelo decôro da minha casa?

Carlos não respondeu.

--É um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva

benevolencia é também immoralidade--disse ainda o pae.

O mesmo silencio da parte de Carlos.

--Espero que não tenha deixado adormecer em si tão profundamente os

sentimentos de honra, que não comprehenda já este dever da minha parte.

Nenhuma resposta ainda.

Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vão esperaria d'elle

defeza ou desculpa.

Saiu portanto do quarto.

Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao chão, com movimento

de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China,

que se fez pedaços; em seguida pôz-se a percorrer o quarto a passos

largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!

A campainha soou emfim, chamando para o jantar.

Carlos tentou dar á physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal

succedido. Lá estava o olhar de Jenny a espial-o, e não era ella a que

se illudiria com estes fingimentos pueris.

Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.

O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o

solemne silencio da sala. Até os criados andavam em bicos de pés,

dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli

dentro.

Jenny ainda tentava sorrir ás vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o

sorriso nos labios, á vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae

e do irmão. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadversão entre

elles! Como tão de repente se condensára esta tempestade, que ella nem

tempo tivera para tentar desvanecer?

O jantar terminou como começára, silencioso e triste. Carlos foi o

primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard não teria d'esta vez

companhia para o seu tão apreciado pospasto.

O inglez começava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudança de

pensar. Estava-lhe já parecendo que havia sido muito severo para com o

delicto do filho.

Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretação que

dera ao facto, e ainda quando não fosse, era a final uma leviandade de

rapaz, que talvez não merecesse tão asperas censuras.

O tolerante inglez só esperava por o primeiro ensejo para naturalmente,

airosamente, realisar a reconciliação com o filho. Onde ia já o seu

resentimento?

Ficou pois devéras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para

saír, levando comsigo as esperanças do almejado ensejo.

Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o

irmão.

Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, não deu pelo gesto

do pae.

Já Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as

primeiras palavras que, desde que se sentára dissera:

--Chegou hontem á noite... Mr. Smithfield, de Londres...

Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se

esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar

para a porta.

--Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield--disse ainda Mr.

Richard.

Carlos tornou a parar, e vendo que o pae não acrescentava mais nada, deu

ainda alguns passos.

--É um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes

como... pessoaes--disse Mr. Richard.

Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia já proximo da porta.

E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mão para o reposteiro.

--Estivemos lá, esta manhã, eu e Jenny.

Carlos não disse nada; esperou ainda.

Mr. Richard acrescentou:

--E ficamos de voltar esta noite... Elles partem ámanhã para o Minho

e... Perguntaram por... por ti.

Mr. Richard realisára um grande esforço: pozera de parte o tom

ceremoniatico com que até ahi tratára o filho.

Carlos, que já desviava o reposteiro, vendo que o pae não proseguia,

curvou-se respeitosamente e saíu, como se não tivesse comprehendido o

sentido d'aquellas insinuações.

Mr. Richard viu-o saír, e de novo se lhe carregaram as feições, que

haviam já desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os

dedos uma avelã, com que estivera brincando, tal foi a força, de que a

contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.

Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era

necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a não sabia. Levantou-se e

foi encostar-se ao hombro do pae.

--Que tem?--disse-lhe com voz affectuosa.

--Faço quanto posso para viver em paz, mas já vejo que não é possivel.

--Então por quê?

--Pois não viste?

E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.

--Carlos tem vinte annos--acrescentou, passeiando ainda.--Aos vinte

annos, ha já deveres para todo o homem... E se elle se esquece de que os

tem e de que os deve e ha de cumprir... eu que sou pae...

À entrada de um criado interrompeu-o.

Mr. Richard sentou-se, pôz-se a ler o _Times_ e recaiu no silencio, de

que nada mais o tirou. Seria o _Times_ que o absorvia assim? O que é

certo é que em toda a tarde não desviou os olhos da primeira columna do

jornal.

Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a

ler!

Jenny dirigiu-se ao quarto do irmão.

XXVI

INEFFICAZ MEDIAÇÃO DE JENNY

Jenny foi encontrar o irmão apparentemente entretido a torcer as longas

orelhas do _terra nova_; mas não era necessario ser muito versado em

physiognomia, para perceber que lhe não estavam n'aquillo as attenções.

--Que foi isto, Charles?--disse Jenny, com a voz ainda turvada de

commoção--Por amor de Deus, isto que é?

Carlos levantou a cabeça, e respondeu, fingindo sorrir:

--Não te assustes, Jenny. Eu e o pae representamos hoje uma peça do

antigo repertorio, do repertorio da infancia. Elle lembrou-se de me

ralhar, como a uma creança; eu fiz como as creanças costumam, amuei.

Ora, aos dez e doze annos, scenas d'estas tinham para mim uma feição de

tragedia; aos vinte, predomina n'ellas o caracter de perfeita comedia...

--Mas... o que se passou entre vós, que désse logar a isto?

--Nada ou quasi nada. Interpretaram mal uma acção minha. Eu podia, mas

não devia, explical-a; afiancei porém, sob minha palavra de honra, que

não era exacta a interpretação que lhe davam; e meu pae, que acabava de

se apregoar respeitador e mantenedor da boa fama do nome Whitestone, foi

o primeiro a manchal-o, duvidando de uma palavra de honra firmada com

elle.

--Jesus, Charles!... Que has de sempre ter d'essas susceptibilidades com

uma pessoa de quem não deves suspeitar que possa nunca fazer do teu

caracter conceito algum desfavoravel!

--Mas se m'o assegurou!

--Pobre pae! E imaginas que era friamente que elle te reprehendia? Eu

não sei ainda o motivo que deu origem a essa scena, que disseste, mas...

--Um motivo insignificante. Esta manhã precisei de dinheiro; era urgente

a necessidade e a somma avultada. Não gósto de recorrer a outra pessoa,

quando posso recorrer a mim. Demais, estava só em casa. Commigo só tinha

um objecto, que promptamente me podia valer a quantia de que precisava.

Era o relogio e a corrente, que recebi do pae quando...

--E foste?... Ó Charles!--disse Jenny, olhando com desapprovação para o

irmão.

--Tirei da corrente este pequeno sinete de agatha, a parte menos valiosa

do presente, para conservar uma memoria d'elle. Sabes que não é pelo

preço dos objectos, que me offerecem, que eu os aprecio. Vendi o mais;

confesso que vendi. Passadas horas o acaso fez-me o favor de conduzir

meu pae pela mão justamente até á loja do ourives, onde relogio e

corrente estavam já expostos á venda. Reconheceu-os, comprou-os de novo,

e trouxe-m'os, dizendo-me por essa occasião algumas palavras que... que

só a elle poderia, e deveria, ter a paciencia de ouvir.

--Mas... que má cabeça a tua! Para que foste vender aquelle relogio, que

elle, coitado, com tanto gosto mandára vir para ti?

--Porque se tratava de alguma cousa mais importante e mais grave do que

os arrufos de um pae, por mais respeitaveis que elles possam ser.

Jenny fez involuntariamente um gesto de duvida.

--Acredita-me, Jenny. Não duvides tu, como elle duvidou. Affirmo-te,

tomando os mais sagrados testimunhos, que, se ainda se désse o motivo

que se deu, não hesitaria, apesar do que houve, em vender outra vez este

mesmo relogio e esta mesma corrente.

--Então que forte motivo foi esse?

--Não posso dizer-t'o.

--Já me não contas, como d'antes, os teus segredos, Charles?

--Este não é meu.

Jenny calou-se.

Carlos olhou por algum tempo para a irmã; depois veio pegar-lhe nas

mãos, dizendo:

--Olha bem para mim, Jenny. Tu estás a duvidar tambem da minha palavra.

--Não... Charles... não duvido.

--Dize: pódes acreditar que teu irmão, com todos os seus estouvamentos,

commetta uma vileza?

--Ó Charles! Que pergunta!

--Pódes acreditar que elle se esqueça por um momento do muito respeito e

amor que te deve, Jenny? e da veneração que sempre teve pela memoria da

mãe, que mal chegou a conhecer?

--Não, Charles, não. Para que me perguntas isso? Ninguem, melhor do que

eu, te conhece o coração e te avalia os sentimentos; bem o sabes.

Ninguem te faz mais justiça--respondeu Jenny, sensibilisada com a

manifesta commoção, que se conhecia na voz de Carlos, quando lhe fallára

assim.

--Pois de tudo isto me accusaram ha pouco... E foi meu pae!

--E julgas que o pensava, ainda quando t'o dizìa... se o disse?

--Se o não pensasse, calar-se-hia ao ver o mal que me causavam aquellas

accusações e a maneira por que eu as repelli... mas insistiu.

--Perdôa-lhe tu tambem isso. Vamos; comquanto eu não faca a injustiça de

te suppôr capaz de acções, tão carregadamente más, como essas que

dizias, acredito tambem que não seja de tudo um justo este incorrigivel

irmão que tenho, e creio que precisará um pouco da indulgencia, que

recusa ter para com os outros. Tudo isso passou já. Olha, meu Charles,

tu deves fazer como os lagos e como os prados, que não conservam

vestigios das nuvens que os assombraram, ao passarem por diante do sol.

Se visses como o pae ficou, assim que te retiraste da mesa! Coitado! Se

foi injusto comtigo, está pagando bem cara a injustiça! Acredita que a

sente mais do que tu. Eu estava a reconhecer n'elle o desejo de te pedir

desculpa por alguma cousa, de que se arrependia já. Mas, que queres?

estas passagens não se podem fazer assim depressa, ainda que haja a

melhor vontade. E tu não lhe déste tempo. Serias um anjo, Charles, se

fosses bom e generoso a ponto de...--E olha que era uma vingança

tambem.--Se fosses bom e generoso a ponto de voltares para a sala e

vires fazer companhia ao pae esta tarde...

--Tu, que me conheces, Jenny, como pódes lembrar-te d'essa proposta? Não

sabes como eu sou? Percebeste alguma vez em mim a aptidão para

dissimular, de que precisaria, se quizesse fazer o que me indicas? Os

meus resentimentos são curtos, é verdade; mas, emquanto duram, não sei

disfarçal-os. Ámanhã já nada terei na memoria talvez de tudo isto; mas

hoje, mas agora, aggravaria o mal, se me apresentasse tão cêdo diante do

pae.

Jenny não insistiu, porque reconheceu a verdade d'esta reflexão do

irmão. D'ahi a pouco, disse-lhe:

--Dou duas horas de vida ao teu resentimento, e já é suppôl-o muito

vividouro. Ao anoitecer, nem sombras haverá d'elle. Acompanhar-nos-has

então a casa de Mr. Smithfield, o que será o maior prazer que pódes

causar ao pae; e o dia de ámanhã virá sem nuvens.

--Não, Jenny, não vos posso acompanhar esta noite.

--Não digas que não, Charles. Então és assim reservado?

--Não; mas... tenho destino para esta noite já.

--E de tanta urgencia, que não possas...

--Não posso faltar, não.

--Ó Charles, não ouviste o que o pae disse?--«Mr. Smithfield é um homem

que tem feito serviços á casa...»

--Hoje não posso; amanhã visitarei esse senhor.

--Ámanhã partem elles para o Minho.

--Tanto peior. Vêl-o-hei na volta.

--Vaes desafiar uma tempestade, recusando-te a tão pequeno sacrificio.

--Que querem? Digam a esse homem, que eu tenho mau caracter, que sou

desagradecido, intratavel, grosseiro, egoista; e que por isso não deve

estranhar a minha pouca pressa em ir dar-lhe os emboras pela sua feliz

viagem.

Carlos disse tudo isto com impaciencia, que sobresaltou a irmã.

Foi com ligeiro tremor de voz, que ella lhe respondeu:

--Tu bem sabes que não é isso que eu posso dizer de ti, Charles, nem

deixar que os outros, na minha presença, digam.

Carlos abrandou inimediatamente, ao ouvir estas palavras.

--Pobre Jenny! És a unica pessoa que me conhece devéras.

--E tu a que te conheces menos--respondeu a irmã, com doçura, e depois

acrescentou:--Vens?

--Não posso.

-Charles!

--Mas se eu prometti!... Olha, Jenny, se és minha amiga, não insistas

mais a este respeito; que não seja o dia de hoje tão aziago para mim,

que esteja destinado a receber durante elle desgostos das pessoas a quem

mais estimo.

As lagrimas assomaram d'esta vez aos olhos de Jenny.

--Era para t'os evitar, que eu insistia, Charles... Perdôa-me se...

E a commoção não a deixou continuar.

Carlos apoderou-se-lhe das mãos, que cobriu de beijos.

--Minha boa Jenny! minha generosa irmã! perdôa-me tu, perdôa a este

estouvado, que nem sabe o que diz. De joelhos te devia implorar, filha,

eu, que te pago em lagrimas os sorrisos que me dás. Tu a pedir-me

perdão! Eu a perdoar-te, Jenny! O quê?... O conforto que me tens dado

sempre?... Esta serenidade, que me fazes durar na vida, anjo? As

caricias e cuidados de mãe que me ensinaste a conhecer? pobre mãe, só

dois annos mais velha do que este mau filho, que não sabe senão

affligil-a! É isto que tenho a perdoar-te? Dize. Não repares para as

loucuras d'esta minha cabeça. E agora escuta-me. Eu desejava fazer-te a

vontade, mas... hontem... o... Manoel Quentino mostrou-me desejos de

celebrar na minha companhia o ultimo dia de reclusão, a que a doença o

tem obrigado. Ámanhã já elle sáe. É uma pequena e suave festa de

familia, e na qual sómente servem de galas os affectos e as flores. Esta

manhã não pude ir visital-o, como elle me pediu... Era agora, á noite,

que eu tencionava ir... Queres que eu deixe de satisfazer o desejo do

pobre homem?

Jenny, depois de fitar por algum tempo o irmão, suspirou, baixando os

olhos.

--Responde, Jenny--repetiu Carlos--e se julgares que, no meu logar,

poderias fazel-o, sem que um pequeno remorso t'o estorvasse, eu

obedeço-te e... não irei.

Jenny permanecia calada.

--Então?--repetiu Carlos.

--Que queres que te responda, Charles? Seria sem hesitação que eu te

diria «vae», se estivesse convencida de que é esse sentimento de

generosidade o que te chama lá.

--Então duvidas do que eu disse?

--Não. Mas duvido, e ha muito, do conhecimento que tens de ti proprio.

Ensinaste-me a ler em ti, Charles, n'aquelles tempos, em que me

communicavas todos os teus pensamentos; habituei-me então, e leio ainda

agora, que evitas essas longas conferencias de outras épocas...

--Que evito! Pois imaginas?...

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 21 / 30 段