isto sempre... Fallam que nem um bacharel... e vae-se a trabalhar e...
passe por la muito bem! não atam nem desatam!... Então? Veja se se
lembra de algum methodo mais simples de sair do aperto... Qual!... Aqui
é que eu os quero ver... No fogo é que se conhecem os soldados... Isto
de queimar polvora em fogos presos não presta para nada... Ora escreva,
escreva lá, faça o que eu lhe disser e deixe-se de theorias. Não tenha
vergonha de aprender. Todos aprendem até á morte.
E principiou a indicar-lhe a maneira de riscar o papel, as inscripções
que tinha a fazer, as verbas que devia registrar, e isto tudo sem lhe
deixar passar por alto a minima particularidade.
Carlos obedecia-lhe com tal docilidade de discípulo, que fazia rir
Cecilia.
--Vá; escreva ahi, no alto da folha--disse Manoel Quentino--Factura
de... agora um genero qualquer que queira carregar.
--De paciencia então, que é genero de que o Manoel Quentino bem precisa
agora para aturar a molestia.
--Então! está a brincar ou que faz? paciencia preciso, mas é para o
aturar a si.
--Paciencia confiada ao cuidado de meu pae!--dizia Cecilia--Valha-nos
Deus! que não é homem que tenha cautela com a mercadoria.
--E adeus! Estão as duas creanças a brincar. E eu que as ature!
Se Manoel Quentino tivesse mais algum conhecimento dos pequenos
mysterios do coração, não fallaria assim collectivamente de Carlos e
Cecilia, isto de os confundir debaixo da denominação generica de
creanças era imprudente, no estado actual dos sentimentos de ambos.
Proseguiu a indicação da maneira de encher a factura e com isto terminou
a lição.
Em seguida, serviu-se o chá, que n'aquella noite não soube a José
Fortunato, como de costume.
Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si,
espantado de tanto que sabia Carlos.
--Que esperteza de rapaz!--dizia elle para Cecilia, quando esta, depois
de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de
caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da
noite--Tem diabo! Como entende tão bem estas cousas de commercio, a que
andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que não tivesse a
experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece até que adivinha! É
até um peccado andar fóra da vida do negocio... Deem-lhe alguns annos de
pratica, e verão o que d'alli sáe.
Cecília calava-se.
XXIII
DIPLOMACIA DO CORAÇÃO
A educação commercial de Carlos continuou e com os mais rapidos e
auspiciosos progressos. Á segunda noite espantava elle Manoel Quentino,
apresentando-lhe os lançamentos, que pela manhã fizera e nos quaes o
experimentado guarda-livros nada teve que notar.
A custo pôde convencer o fogoso discipulo de que não convinha que elle
proprio escrevesse nos livros geraes, onde era contra as praxes
apparecer lettra de mais do que um individuo. Bastava, dizia o velho, e
já não era pequeno serviço, que Carlos o auxiliasse no expediente e
deixasse tudo preparado para que, ao terminar o seu impedimento, elle,
Manoel Quentino, só tivesse a transcrever no _Diario_ e no _Razão_ as
transacções operadas durante essa época.
No fim de tres ou quatro serões, Manoel Quentino já não tinha que
ensinar mais ao discipulo.
Elle sabia tudo!
Terminaram pois as lições, mas não terminaram com ellas as visitas de
Carlos, como seria natural que acontecesse. Mudaram apenas de caracter
aquelles serões.
Carlos era agora o que se encarregava da leitura das folhas, com grande
mágoa de José Fortunato, que não podia encontrar na diversão metade do
prazer que n'ella recebia, quando a leitura era feita por Cecilia.
De mais a mais, Carlos divertia-se muitas vezes á custa do velho.
Sabendo de Manoel Quentino que elle era possuidor de varios papeis de
credito, raro era o dia em que, no decurso da leitura, não improvisava
noticias e insinuações, que faziam entrever uma imminente baixa de
fundos e porventura uma banca-rota.
José Fortunato declamava então contra os governos presentes, passados e
futuros, com toda a acrimonia que lhe era possivel.
Quando os dois velhos tratavam ás vezes alguma discussão acalorada,
Carlos aproveitava a occasião de entrar com Cecilia em um dialogo, cuja
indole era cada vez mais perigosa para o coração de ambos. E senão,
ouçamos.
Cecilia trabalhava, certa noite, em uma camisa de panninho para o pae.
--Que nome se dá a isso que está a fazer?--perguntou Carlos, curvando-se
sobre a costura.
--É uma camisa--respondeu Cecilia, sorrindo. Pois nem conhece!?
--Que é uma camisa sei eu; não perguntava isso; mas... essa costura em
que está agora a trabalhar, como se chama?
--Isto? É um posponto.
--Ah! um posponto!... Um posponto é a mesma cousa que um sobre-cosido;
pois não é?
Cecilia desatou a rir a esta pergunta.
--Não, senhor, não é. Nem tem nada uma cousa com outra.
--Não?! Pois olhe... parece, porque... posponto é... como quem diz:
depois do ponto; sobre-cosido, sobre ou depois do cosido, e portanto...
depois do ponto tambem.
--Será; mas... em todo o caso, são cousas diversas.
--Então que differença fazem?
--Ora que curiosidade! Ha de interessar-lhe muito agora conhecer essa
differença.
--E porque não? Não vê que ando com vontade de ampliar os meus
conhecimentos? Não tem reparado na minha docilidade a ouvir as lições de
escripturação?
--Mas essas podem servir-lhe.
--Mas vamos; um posponto é isso; muito bem. E agora um sobre-cosido?
Cecilia, rindo, procurou na obra, que estava a fazer, o exemplo já
realisado de um sobre-cosido e mostrou-o a Carlos, dizendo:
--Ahi está um sobre-cosido. Agora estude a differença, a ver se a sabe
explicar.
Carlos examinou-o com apparente attenção e a mais composta seriedade.
E Cecilia interrompia o trabalho, só por causa d'isto.
--Então?--perguntou ella maliciosamente, quando Carlos deu mostras de
haver terminado o exame.
--Reconheço que de facto são cousas diversas, mas não posso bem dizer em
que consiste a differença.
--O que o deve affligir muito.
--Mas diga--insistia Carlos, que parecia devéras empenhado em elucidar
este negocio dos pospontos--todas as costuras se fazem a posponto?...
Cecilia não podia escutar com seriedade este inquerito inesperado.
--Não, senhor;--respondeu a rir--conforme a qualidade da obra, assim se
prefere a qualidade do ponto.
--Ah! visto isso, o posponto... é um ponto tambem?
--Pois está claro. É um ponto que se dá assim. Ora repare.
E Cecilia, acompanhando a palavra com a acção, principiou a trabalhar
com todo o vagar, ao passo que Carlos assistia á demonstração com a
attenta seriedade de um discipulo. Ainda que me parece que menos vezes
lhe seguiam os olhos os movimentos da agulha, do que se fixavam a
admirar a perfeita modelação e delicado colorido da mão que a movia.
--Repare--dizia Cecilia--dá-se, supponhamos, o primeiro ponto; maior ou
menor, conforme a delicadeza da obra, já se sabe. Assim. Ora agora, a
agulha entra aqui mesmo pelo meio d'este primeiro ponto... Vê?... E vae
saír adiante, de maneira que este segundo ponto tenha o mesmo
comprimento do primeiro. Entende? A terceira vez entra por onde saíu a
primeira, a quarta por onde saíu a segunda... e assim por diante...
Entende agora?
--Muito bem. E o sobre-cosido?
--Mas como lhe deu para querer saber doestas cousas?
--É uma esquisitice. Concordo. Mas... então que quer? Mau é que eu tenha
um d'estes desejos. Incommodo-me deveras, se os não satisfaço.
--Ah! Não sabia que era assim caprichoso!
--E não concebe esta maneira de sentir?
--Eu, não.
--Não diga que não. É impossivel. A imaginação feminina, sem duvida mais
delicadamente sensivel do que a nossa, não póde ignorar estes pequenos
caprichos. O capricho é, a meu ver, uma prova de superioridade moral em
que o tem. Vamos; termine a minha lição.
--Então que quer saber agora?
--Que é um sobre-cosido?
Cecilia condescendeu ainda em lhe explicar o que era o sobre-cosido,
como já lhe explicára o que era o posponto. Carlos deu-se no fim por
satisfeito.
Agitou-se ainda algum tempo a discussão a respeito de assumptos d'esta
natureza.
Carlos foi durante ella sempre serio; Cecilia, a cada momento, a
interrompia com o riso, que lhe desafiava a estranha lição, que nunca
esperára ter de dar a um discipulo d'este genero.
Em quasi todos os serões, passados em casa de Manoel Quentino, os
colloquios entre Carlos e Cecilia versaram sobre objectos de igual
transcendencia e sustentaram-se em um tom da mesma gravidade que este,
que registamos.
Ahi estão uns colloquios inoffensivos e inconsequentes, pensará talvez o
leitor. Pois engana-se, se pensa assim. Recorde-se da sentença de quem,
n'estas cousas de amor, escreveu _ex-professo_:
_Parva leves capiunt animos_.
De facto, nada ha de tanta influencia para o coração como um colloquio
assim, bem futil, bem insignificante, no estado a que haviam chegado os
sentimentos de Carlos e de Cecilia.
Quanto mais ligeiro, quanto mais pueril é o assumpto de um dialogo
d'estes, tanto mais se empenham os corações dos que o sustentam.
Os dialogos amorosos, que estamos costumados a escutar entre o galan e a
primeira dama, no tablado dos theatros, ou a ler nos capitulos dos
romances, dialogos cortados de interjeições e cheios de subtis theorias
do mais acrisolado sentimento, são excepções na vida real; e, quando se
dão, sáe-se d'elles mais livre, mais disposto a esquecer, menos propenso
a sonhar; servem como de expansão aos affectos accumulados--expansão em
que estes ás vezes completamente se dissipam. Mas os constrangimentos,
os silencios, dos quaes a imaginação em vão procura livrar-se, e sobre
tudo o conversar aturado sobre mil cousas futeis e indifferentes, isso
sim, que é bem mais para temer; porque, emquanto dura a troca reciproca
de formulas insignificantes, o coração põe em campo outros emissarios
secretos e invisiveis, que adiantam consideravelmente as negociações
pendentes e conseguem realisar a entrega da praça, sem o minimo combate
manifesto.
Digam-o os numerosos pares, para quem voam as horas e desapparece o
mundo, de enlevados que se entregam a esses interminaveis dialogos,
motivo de zombarias apparentes e de occultas invejas dos que os não
podem gosar; digam se, quando mais sinceros sentiam em si os affectos,
eram metaphysicas e transcendentes especulações sobre o amor o que assim
lhes absorvia as attenções e os cuidados; digam se, quando, ao terminar
um d'esses felizes dias, tentavam reproduzir as impressões recebidas no
decurso d'elle, recordando as palavras ditas e escutadas n'aquellas
longas entrevistas, outra cousa lhes conseguia avivar a memoria que não
fosse dialogos pouco dramaticos, banalidades sobre assumptos
indifferentes, mas sob cujo disfarce o coração achára meio de dizer
muito, e até mais eloquentemente, do que ainda poeta algum o pôde
exprimir--nem o proprio Petrarca nos seus trezentos e dezoito sonetos.
Isto aconteceu a Carlos Whitestone. Poucas vezes voltára a casa mais
possuido d'essa intima e indefinida alegria de quem assiste em si ao
ateiar de uma paixão, do que na noite, em que se verificou o dialogo,
que o leitor provavelmente julgou sem consequencias.
Prolongou-se este estado de cousas. O medico, a quem fora confiado o
tratamento de Manoel Quentino, prudente em demasia, apenas lhe promettia
esperanças de o deixar saír passada uma semana mais.
Carlos não pensava com frieza de animo no termo d'aquelle praso.
Poderia, sem causar estranheza, continuar, ainda depois d'elle, as
visitas que lhe eram já tão necessárias? Até alli servia-lhe o pretexto
de vir dar contas a Manoel Quentino do serviço da manhã; mas depois?
Carlos continuou a ser diligente nos negocios do escriptorio. Mr.
Richard ainda não acabára de conformar o espirito áquella mudança do
filho.
Em casa de Manoel Quentino, só este era quem talvez não suspeitava um
segundo motivo na assiduidade de Carlos. Antonia e José Fortunato já a
commentavam havia muito.
E Cecilia? Respondam por mim as leitoras.
Uma noite ia o snr. José Fortunato a retirar-se, e entre elle e Antonia
travou-se, já no portal, o seguinte dialogo:
--Então, snr.ª Antonia, que lhe parece este inglez aqui sempre mettido?
--Que quer que lhe faça? O que me admira é o snr. Manoel Quentino não
reparar...
--Mas diga-lhe que...
--Eu?! Deus me livre! O snr. José Fortunato é quem...
--Eu?! Nada; n'essa me não metto; mas a snr.ª Antonia tem quasi
obrigação de...
--Eu lhe digo... Eu, como o outro que diz, não quero fallar, sem
primeiro me encher de razão... Hei de tirar umas informações a respeito
do inglez, e depois...
--Informações de quem?
--Mesmo defronte da casa d'elle vive uma cunhada do homem da sobrinha de
uma comadre minha, de quem eu sou muito conhecida e amiga; ámanhã, se
tiver tempo, sempre hei de lá chegar. Porque a mim consta-me que este
rapaz é um estoira-vergas dos meus peccados...
--Elle lá se vê!
--Ora o que nos havia de apparecer!
E os dois despediram-se; José Fortunato para ir curtir em casa as cruas
mágoas do coração; Antonia para assentar, no repouso do travesseiro,
sobre a maneira de obter da cunhada do homem da sobrinha da sua comadre
as informações de que precisava, para se encher de razão.
XXIV
EM QUE A SENHORA ANTONIA PROCURA ENCHER-SE DE RAZÃO
A cunhada do homem da sobrinha da comadre da senhora Antonia habitava,
como da bôca da dita senhora soubemos, defronte de Mr. Richard
Whitestone. Era a morada uma pequena casa terrea, a cuja meia porta
passava a inquilina metade do tempo, observando ou transmittindo aos
outros o resultado das suas observações.
Se o amor de saber define etymologicamente o philosopho, difficil será
encontrar algures individualidade tão bem acondicionada para se lhe
encabeçar o disputado titulo, como a snr.ª Joséfinha da Agua-benta; que
por este nome era sua graça conhecida em todo o bairro.
Era mais que amor de saber o que a possuia; era ancia, era febre, era
delirio!
Ás nove horas da manhã do dia seguinte áquelle, em que entre José
Fortunato e Antonia se tramára, _in limine_, aquella conspiração, de que
lavramos acta, achava-se a diligente criada de Manoel Quentino,
inflammada no santo ardor domestico, á porta da sua, conhecida e amiga,
no louvavel intuito de colher informações a respeito de Carlos
Whitestone.
--Snr.ª Joséfinha!--chamou a snr.ª Antonia para dentro de casa,
elevando, em desentoado falsete, a voz inclassificavel.
--Hui!--respondeu de dentro outra voz, digna de emparelhar com esta.
--Passou bem?
--Mas quem é?
E uma figura de mulher de meia idade, perfeito typo de mulher de
soalheiro, foi pouco e pouco tomando vulto e relevo no vão escuro da
porta, e assomou emfim á cancella.
--Ai, pois é vocemecê, snr.ª Antonia? entre.
--Ai, nada, não entro, que não me posso demorar.
--Então que pressas são essas hoje?
--Bem vê que são nove horas, e preciso de olhar pelo jantar.
--Isso tem muito tempo--disse a snr.ª Joséfinha da Agua-benta,
encostando-se á cancella, e proseguiu:--Então quem a trouxe por estes
sitios?
--Fui alli adiante a um recado do patrão, e sempre quiz bater para saber
de si.
--Muito obrigada. Então ainda se dá bem na casa?
--Vamos andando. Da maneira por que hoje as cousas estão, ainda não é
das peiores.
--Diz bem. A soldada, a fallar a verdade... acho que não é lá das de
tentar, mas...
--Está feito, está feito; ha-as melhores e ha-as peiores--disse a snr.ª
Antonia, que não gostava de entrar em particularidades da sua vida, nem
para isso vinha.
--Elle tambem...--insistia a outra--não póde alargar-se muito. Um
caixeiro...
--Deixe lá. Ha por ahi patrões, que vivem em maiores apertos.
--Diga-m'o a mim, snr.ª Antoninha. Olhe a minha Luiza... Conhece? A
filha do nosso Antonio. Pois esteve alli abaixo a servir seis mezes em
casa do commendador Collaço e saíu de lá porque aquillo chega a pouca
vergonha. Os criados passavam fome de rato. Olhe que chegavam a dar-lhe
pão de uma semana e a comprar sardinha da caravella para a ceia d'elles.
Pois quem via aquillo na rua, parecia que tinham as rendas do bispo.
--Pschi! E quando ao menos são promptos na soldada!
--Promptos?! Isso sim! A uma criada, que lá esteve tres annos, ainda
hoje estão a dever um anno inteiro. Ora isso é mesmo uma dor de
consciencia, não acha?
--Mas então que quer? O luxo é muito.
--É assim, é. Diz bem. É uma cousa por maior! Vocemecê ha de conhecer
aquelle Maltez, que é não sei o quê na administração, um homem bem
afigurado, que anda sempre com um cão preto...
--Ai, bem sei. O cunhado d'aquelle militar de quem dizem as más
linguas...
--Tal e qual. Pois não sei se tem reparado no luxo com que se apresentam
as filhas e a mulher. Ó santo Deus! Emfim uma cousa é ver, outra é
dizer. Aqui ha dias passaram ahi todas e eu benzi-me e tornei-me a
benzer! Não que nem a rainha póde luxar assim. Qual! Ora, veja a snr.ª
Antoninha, o pae dizem que não ganha mais de trezentos mil réis por
anno. Milagres não se fazem... O dinheiro não nasce no quintal...
--Deus sabe d'onde elle vem.
--Eu tambem sei alguma cousa, vamos lá. Sei a quem magoam muitas
d'aqúellas grandezas. Olhe que a senhora d'elle tem chegado a pedir
emprestado a uma rapariga, filha de uma amiga minha, que esteve lá a
servir muitos annos. A rapariga, coitadinha, que se mata a trabalhar...
porque ella hoje é engommadeira, teve vergonha de dizer que não, e
adeus, minha vida.
--Tola foi; cá para mim é que elles vinham bem guiados.
--Por isso eu digo: a snr.ª Antoninha não é das que tem razão de queixa.
--Ai, não sou, não, senhora; isso não sou; graças a Deus.
--O passadio é bom?
--É bom, é, sim, senhora; lá n'isso não ha que dizer...
--O peior que alli tem é a prisão; pelos modos sáe poucas vezes. Tirante
lá, aos domingos, o ir visitar o Senhor ao Carmo.
--Bem vê que o patrão quasi nunca está em casa... e é uma menina só...
--E a pequena não tem por ahi já a sua inclinação? Ha de ter...
--Não... Que eu saiba...
--Ha de ter, ha de ter. Hoje em dia! Olhe a snr.ª Antoninha aquella
rapariga do Cosme Villas-boas, uma creança se póde dizer... pois o que
ahi vae já com ella por causa do filho do escrivão!
--Sim. Então?...
--Ora! nem quero que me lembre! É um desafôro! O pae d'ella, no outro
dia, pescou-o a fallar com a pequena, e correu para o rapaz com uma
navalha. O rapaz fugiu, e a mãe d'elle veio então á janella e pôz-se a
berrar com o velho. Sempre disseram cousas uma á outra aquellas duas
creaturas! Um passo assim!
--Não que ha gente n'este mundo!
--O pae pelos modos queria-a casar com o brazileiro, que anda a fazer
aquellas casas em Santa Catharina.
--Isso era uma mina para a rapariga!
--Mas então que quer? Virou-se lá para o filho do escrivão.
--Forte tola!
--E elle então que é uma figura! Não o conhece?
--Eu não.
--É mesmo cinco réis de gente. Um desconjuntado, um lorpinha...
--São gostos.
--É assim; diz bem. Mas então a sua ama...
--Essa... por emquanto... É aqui como a sua vizinha.
--Qual?
--A do inglez, a filha do patrão lá do meu amo.
--Ah! Essa então! É aquillo que alli está. É uma boa menina, isso é;
muito amiga da pobreza... Exquisita como todas as inglezas, mas no
mais... Olhe que, desde que somos vizinhas, ainda não teve uma palavra
que me dissesse! Á janella ninguém a vê, e quando passa por aqui, faz-me
uma cortezia muito séria e mais nada.
--Ella é muito da menina lá de casa.
--É. Eu tenho visto a sua ama vir ahi muitas vezes.
--É uma boa familia esta.
--É, isso é. Não ha que se lhe diga.
--O velho julgo que é pessoa capaz.
--É, é assim meio maniaco, mas a final não é mau sujeito, não. Tem suas
venetas, como quasi todos os inglezes... mas...
--E o rapaz mesmo...
--O snr. Carlos? Ai, por amor de Deus, não me falle n'isso.
A snr.ª Antonia chegára emfim ao topico desejado.
--Então?
--Isso é uma peça de fazenda!
--Que me diz!
--Faz lá ideia do que alli está! Um estroina assim não ha! Recolhe-se a
casa lá porque altas horas da noite. Dorme até ao meio dia. Ora veja a
snr.ª Antoninha que vida póde ser a d'elle.
--Então joga?
--Elle joga, elle fuma, elle passa a vida nos botequins e nos theatros,
elle bebe, elle anda sempre com más companhias.
--Que tal! Hein!
--Isso não faz ideia! Em casa anda tudo a ferver por causa d'aquelle
menino. Não falla com o pae, a irmã passa um martyrio com elle. Disse-me
a Susana, que é ainda minha prima, e que esteve lá a servir oito dias,
que aquillo é uma pouca vergonha. Ás vezes está a mortificar aquella
pobre irmã, e ralha, e ralha, e torna a ralhar, e ella então,
coitadinha, chora que é uma dor do coração. Ha dias em que não faz outra
cousa.
--Arrenego eu o Judas Iscariote!
--E então, snr.ª Antoninha, é um menino a quem tudo faz conta. Não sei
se me entende? Seda e chita é tudo panno para elle fazer obra. Dizia o
Luiz, que foi muito tempo criado d'elle, que eram tantas as cartas que
recebia de differentes, que era uma cousa por maior!
--Tratante! O que elle precisava...
--Diz que ahi com uma comediante do theatro gastou elle contos de réis
ao pae. Até o velho quiz mandal-o para Inglaterra.
--Fosse e nunca voltasse! Arrenego-o eu!
--É da pelle do mafarrico. Depois então diz que bebe!
--Faltava mais essa!
--Pois se elle é inglez! Às vezes, quando vem para casa, já de dia
claro, chega a ser preciso deital-o na cama, porque não da accôrdo de
si.
--Olhem que vergonha! Uma pessoa fina, e... A gente sempre vê cousas!...
--Aqui ha tempos... Vá vendo a snr.ª Antoninha; ia eu já a abrir a porta
da rua, pela madrugada, e entrava aquella creaturinha para casa. Vinha
amarello, esgadelhado; bem se conhecia o estado d'aquella cabeça.
--Não, tambem com uma vida assim não póde ir muito longe.
--Pois não, não... E é até uma felicidade para elle, se morrer.
--Aposto que a estas horas ainda dorme?
--Abriu agora mesmo as janellas. Hoje madrugou.
--Então é alli o quarto d'elle?
--É, é alli mesmo á entrada. O pae e a irmã saíram logo pela manhã cêdo.
Pelos modos diz que chegou da Inglaterra um inglez muito rico com uma
filha, a quem elles foram visitar. Disse-me a Dorotheia, que é a
despenseira, que o velho quer ver se casa o filho com a tal ingleza.
--E o rapaz?
--O rapaz?... bem pensa elle n'isso!... Olhe lá se elle os foi visitar.
Haviam chegado as duas mulheres a este ponto do dialogo, quando entrou
na rua uma sege da praça, puxada com toda a força por dois vigorosos
cavallos, e veio parar á porta da casa de Mr. Richard Whitestone.
O boleeiro saltou immediatamente da taboa para receber as ordens da
pessoa que vinha dentro e que as gelosias corridas das portinholas
furtavam á curiosidade das duas mulheres.
Em seguida tocou á campainha; appareceu-lhe, passado algum tempo, o
criado particular de Carlos; trocadas poucas palavras entre ambos, este
retirou-se, voltando cêdo depois com a resposta.
Tendo-a ouvido, o boleeiro veio abrir a porta da carruagem, da qual saiu
então uma senhora de elegante apparencia, toda vestida de preto e cujas
feições se occultavam em um longo véo, impenetravel aos olhos ávidos de
Antonia e da sua amiga.
Esta senhora desappareceu pelo portão do jardim em companhia do criado
de Carlos.
A snr.ª Antonia e a snr.ª Joséfinha trocavam entre si olhares
eloquentes.
--Mas...--murmurou Antonia.
--Que é?... Diga.
--Não me tinha dito que o pae e a filha haviam saído?
--Ha mais de uma hora.
--Então...
--Então o quê?
Os olhos proseguiram algum tempo o dialogo.
--Ora sempre é desafôro!--disse a snr.ª Antonia, após o dialogo, dos
olhos.
--É isto que vê.
--Conheceu-a?
--Eu não.
--Mas com este descaro?!
--É para que veja.
--Não, pois não saio d'aqui, sem descobrir quem ella é, ou pelo menos...
--Ora diga a snr.^a Antoninha se isto não é fazer pouco caso da
vizinhança.
E as duas continuaram n'estes santos commentarios. A snr.ª Joséfinha
chegou a adiantar algumas perguntas ao boleeiro, que lhe viera pedir
lume para accender um cigarro. Este, porém, só lhe pôde dizer que era
uma senhora ainda nova e bonita, que morava em Santa Catharina.
Antonia tomou conta na rua.
As conjecturas continuaram até que de novo appareceu no portal a pessoa
que era objecto d'ellas. Agora acompanhava-a Carlos, que, com toda a
galanteria, a ajudou a entrar no carro, entrando tambem atraz d'ella,
depois de haver dado algumas ordens ao boleeiro.
E o carro partiu outra vez, com toda a velocidade, pelo caminho por onde
viera.
Estavam estupefactas as duas espectadoras da scena.
--Reparou?--disse a snr.ª Joséfinha.
--É que já me não escapa mais.
--Pareceu-me nova.