--Olha para mim, Charles.--Carlos levantou os olhos para ella.--Dizes

isso do coração?

--Digo; por que m'o perguntas?

--Por desejar sabel-o.

E calou-se, abaixando de novo a cabeça para a costura, em que

trabalhava.

De outra vez, aproximando-se da irmã, que tambem estava trabalhando,

Carlos tirou-lhe da caixa da costura a Biblia, e, abrindo-a ao acaso,

leu algum tempo em silencio. Depois, pousando-a sobre a mesa, disse em

tom de gracejo:

--Sempre que recordo estes singelos costumes patriarchaes, descriptos no

_Genesis_, não posso deixar de pensar nos muitos esforços que o homem

parece ter feito para embaraçar, cada vez mais, o caminho da sua

felicidade. Vê tu, Jenny, a simplicidade com que se fez todo este

casamento de Isaac e de Rebecca, e compara-a ás mil impertinentes

difficuldades, que, sob o nome de conveniencias, hoje é preciso vencer,

para se realisar um intento similhante...

Jenny respondeu-lhe no mesmo tom:

--Que estás a dizer, Charles? Quererias tu devéras ver renovados esses

costumes? Se, imitando Abrahão, o pae mandasse um servo, á terra dos

seus avós, procurar mulher para o filho, aceital-a-hia este rebelde

Isaac, embora o servo tivesse, como o da Escriptura, pedido e recebido

antes de Deus a inspiração que lhe assistiu á escolha?

Carlos pôz-se a rir. Passados momentos, respondeu:

--Mas pelo menos, n'esses tempos, os que já se mettiam a talhar o futuro

dos outros, inspiravam-se de boa origem; hoje... a affabilidade da

mulher que abaixasse o cantaro para matar a sêde ao viandante e aos seus

camêlos, não bastaria por certo para mostrar n'ella a escolhida por

Deus. O servo de hoje, antes de lhe pendurar os pendentes nas orelhas, e

de lhe enfiar os braceletes nos pulsos, quereria saber das posses e da

posição social da rapariga...

Este dialogo, não menos do que o primeiro, deu que entender a Jenny.

Pela sua parte, Cecilia não fornecia menos motivos á estranheza do pae.

Todos aquelles symptomas, que Manoel Quentino já antes descobrira

n'ella, haviam recrudescido agora.

Exagerára-se em Cecilia a especie de exaltação, frequente nas mulheres

nervosas, que faz tão promptos n'ellas os risos como as lagrimas, sob a

influencia de motivos igualmente pueris. Um amanhecer chuvoso e sombrio,

uma flor desfolhada pelo vento, uma borboleta tolhida pela geada,

avultam como desgraças grandes; o dispersar das nuvens, os primeiros

rebentos de uma planta, a primeira andorinha que se vê passar, a

primeira manhã que o cantar das aves sauda, desafiam expansões, proprias

dos grandes jubilos.

Excita-se a impaciencia com uma palavra; vencem-se antigas aversões com

um só olhar; um nada basta para destruir longos projectos; novas

resoluções vigoram rapidas; acredita-se cegamente nas inspirações do

momento; desconfia-se de resoluções meditadas; em uma palavra, tudo

então é mobilidade no caracter da mulher. Nunca ha menos logica nos

sentimentos, do que em situações assim. O coração pulsa sem rithmo

regular, o rubor e a pallidez disputam incessantemente as faces

virginaes, trahindo mysteriosas luctas interiores.

Manoel Quentino, pouco versado n'estes phenomenos do coração, via-lhes

só as manifestações, que eram bastantes para o inquietarem. Ninguem lhe

tirava da ideia que a filha estava para caír doente, que a doença da mãe

se transmittiria a ella tambem. E com esta apprehensão o pobre homem era

quem adoecia devéras.

XX

MANOEL QUENTINO PROCURA DISTRACÇÕES

O dia 1.º de abril de 1855 caíu ao domingo.

Mencionamos esta circumstancia, cuja exactidão o leitor póde, se quizer,

verificar; porque não foi ella insignificante para os destinos das

differentes pessoas, entre as quaes vae travada a acção da historia que

escrevemos.

São estas cousas justamente as que tão falliveis tornam as previsões

humanas; do facto ligeiro e pêco rebentam ás vezes taes e tantos

successos estupendos, que não só revolucionam a sorte de um homem, mas

até a dos imperios.

Como a referida circumstancia não se realisaria, se não fossem os annos

bissextos, segue-se que, por tal facto, a sorte dos que figuram n'esta

narração ficou ligada a não menos graúdas; personagens do que Julio

Cesar e Gregorio XIII, que foram os que, em épocas successivas,

regularam n'este ponto o kalendario, tal como hoje está.

Feita esta reflexão de philosophia da historia, prosigamos.

Sendo domingo, jantou Manoel Quentino mais cêdo, e, como visse de tarde

que a tristeza da filha se não dissipava, insistiu com esta para que não

ficasse em casa. Lembrou-lhe uma visita a Jenny. Cecilia acolheu o

alvitre com repugnancia visivel.

Um sentimento de delicadeza obstava-lhe a que procurasse a sua amiga

mais intima. Na mesma casa, em que ella vivia, vivia Carlos tambem, e eu

julgo que o leitor terá percebido, sem que eu lh'o tenha dito, que não

era já o filho de Mr. Whitestone uma pessoa indifferente para Cecilia.

Manoel Quentino instou porém com a filha para que saísse «a tomar ar e

distrahir»--dizia elle--e pediu isto de maneira, que Cecilia resolveu

fazer-lhe a vontade, indo visitar as filhas do major Mattos, que moravam

algumas casas acima da sua.

--Vae, vae;--disse Manoel Quentino--sempre te distrahirás mais com

ellas, do que ficando toda esta santa tarde commigo.

--E então o pae ha de ficar só?

--Eu... eu estou bem assim...

--Isso é que não--replicou Cecilia--irei, se me promette que vae dar um

passeio tambem.

--Pois sim, sim. Tudo se ha de arranjar. Lá por isso não seja a duvida.

--Mas então vista-se.

--Deixa-me descansar.

--Eu não saio, sem o ver saír.

Manoel Quentino foi obrigado a condescender. Estava intimamente

persuadido de que era vantajoso para a filha passar aquella tarde com

alguem, que a distrahisse; porque elle, nas tristes disposições de

espirito em que se sentia, não via bem como o fizesse.

Saíu pois, para obrigar Cecilia a saír, e, ao mesmo tempo, ia em busca

de distracções tambem.

Era um excellente homem Manoel Quentino, mas dotado de pouca penetração

para investigar o enigma da tristeza de uma rapariga de dezoito annos. O

seu excessivo amor de pae não o deixava ver claro n'isto. Tudo se lhe

figurava presagio de doença, e essa ideia fixa privava-o da necessaria

frieza, para ver claro n'estas cousas.

Cada manhã, ao acordar, era um pensamento negro o primeiro que se lhe

apossava do espirito--«Irei encontrar Cecilia com doença

declarada?»--pensava elle.

Todas as tardes, ao voltar a casa, em vez de tremer com o anticipado

prazer de encontrar e abraçar a filha, tremia com o susto de a vir achar

enferma.

Por mais que fizesse para tirar aquillo da ideia, não o podia conseguir.

Dormindo, inquietava-lhe os sonhos; comendo, vertia-lhe fel na comida;

trabalhando, distrahia-lhe a attenção do trabalho.

Os amigos do guarda-livros viam-o com olhos inquietos e murmuravam, uns

com os outros, na ausencia d'elle:

--Este pobre Manoel Quentino tem cousa que o rala.

--Está acabado, está.

--Se assim continúa, bem póde o snr. Richard ir lançando, as vistas

sobre outro caixeiro, porque este...

N'esta tarde fez Manoel Quentino um esforço desesperado para saír

d'aquelle sobresalto, em que andava.

Mas o pensamento humano, quando devéras tomado por uma ideia fixa, em

vão se esforça por arrancal-a de si; em vão se desvia para direcções

diversas; um como pendor natural o faz voltar de novo a ella. Póde-se,

de alguma sorte, comparal-o a estes dados falsificados que, qualquer que

seja a maneira por que se arrojem á mesa, mostram sempre aos olhos a

mesma face, em virtude da desigual distribuição de massa na sua

espessura.--Os phenomenos de equilibrio moral parece obedecerem a leis,

comparaveis ás do equilibrio physico.--A estabilidade do pensamento está

intimamente dependente da proporcional intensidade das ideias que sobre

elle actuam. Agitem um pensamento e deixem-o depois entregue a si, sem

novas causas a solicital-o; a ideia mais grave lhe determinará a posição

de equilibrio; para que esta se possa indifferentemente verificar em

qualquer sentido, é necessario que todas as ideias o solicitem com força

igual--phenomeno só proprio dos espiritos fatuos.

Como vimos, Manoel Quentino não pensava por aquelle tempo senão na

tristeza da filha, tristeza por elle supposta preludio de doença, que

cêdo a viria disputar ao seu amor. Durante toda a tarde não houve

corrente de pensamentos, suscitados pelos objectos que via, que a final

de contas não terminasse n'aquelle.

Sempre que Manoel Quentino emprehendia um passeio, com o fim de se

distrahir, não hesitava na escolha do itinerario. Desde tempos

immemoriaes adoptára um e nem lhe passava por o sentido modifical-o.

Deixava-se conduzir por o habito n'isto, como em tudo o mais.

Atravessava a cidade até á Ribeira; seguia depois, pela margem direita

do rio, até Campanhã; chegando ao Esteiro, tomava pela estrada de cima,

que o levava ao jardim de S. Lazaro, e emfim recolhia-se a casa.

Foi o que fez n'aquella tarde. A cidade atravessou-a lidando ainda com o

pensamento de tristeza, com que saíra de casa.

A primeira diversão operou-a só a vista do mercado de peixe, na Ribeira.

As lanchas valboeiras tinham, n'aquelle instante, chegado ao caes. As

regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam,

animavam o mercado com movimento e vozeria.

Este espectaculo, cheio de vida commercial, não achou indifferente

Manoel Quentino. Agradava-lhe aquelle trafego; examinava com olhos

conhecedores a excellencia do peixe, e informava-se curioso dos preços

que regulavam o mercado. Ao saír d'alli, ia pensando:

--Não ha nada para arranjo domestico, como a pescada. É o peixe mais

innocente que ha. Com razão lhe chamam a gallínha do mar. Ahi está a

sardinha, que é gostosa; mas é mais doentia tambem. Que a sardinha de

Espinho ainda não tanto, mas esta da barra!... D'onde virá a

differença?... Pois não será toda ella o mesmo peixe?... Só se é da

praia aqui ser mais pedregosa e o peixe saír mais batido... Que esta

costa da Foz sempre é muito cheia de pedras!... Só o perigo que correm

as embarcações aqui!... Ainda no outro dia, aquella grande desgraça dos

oito pescadores que naufragaram!... Muita pena teve Cecilia, quando as

folhas contaram de um que deixou uma creancinha orphã! Pobre Cecilia!...

tem um coração!... Coitada!... É um anjo... Assim que me lembro

d'aquella tristeza em que anda...

E ahi estava a ideia fixa com elle! Parece que ella propria fora a que

dispozera esta fileira de ideias associadas, para conduzir a si o

pensamento.

A impressão produzida pelo mercado desvanecera-se de todo; Manoel

Quentino proseguiu no passeio, já outra vez melancolico.

Mais adiante, tendo passado a ultima casa, que lhe tolhia a vista do rio

e a da margem opposta, volveu naturalmente os olhos para o vulto

escalvado e sombrio da Serra do Pilar, coroada pelo seu convento em

ruinas e a sua igreja circular. Os tristes vestigios das guerras civis

estão ainda n'aquelle logar muito evidentes, para que a lembrança

d'ellas não acuda subita ao espirito de quem quer que o contemple por

momentos.

Manoel Quentino, como quasi todos os portuenses da sua idade, havia sido

mais do que simples espectador das scenas tragicas d'essas memoraveis

épocas.

--Ha vinte e tantos annos--pensava elle--não havia, a estas horas, tanto

socego, por aquelles sitios, não. Nem tambem estes passeios pela beira

do rio eram tanto de appetecer como agora. Havia mais perigos, do que o

dos nevoeiros do Douro. A fallar a verdade sempre era um tempo

aquelle!... O que eu passei!... Parece-me que ainda foi o outro dia, e

já lá vão vinte e tantos annos!... Oh! mas que alegria tambem, quando se

abriram as linhas!... N'esse tempo era ainda a mãe de Cecilia uma

creança. Só quatro annos depois é que eu principiei a pensar n'ella...

Pobre rapariga!... Parece-me que ainda a estou a ver!... delgadinha,

desmaiada, boa para todos, mas trabalhadeira ao mesmo tempo... É por

isso que receio... Valha-me Deus! assim que me lembro da tristeza da

pequena!...

E da Serra do Pilar e do tempo do Cerco conseguira aquella ideia

dominante achar caminho para se lhe insinuar de novo no pensamento. E, o

que mais é, parece que cada vez trazia comsigo maior cortejo de

sinistros presagios.

Ao chegar á fonte do Carvalhinho, subiu uns degraus de pedra que alli

ha, e beheu, mesmo do caneiro, alguns goles de agua; cousa que nunca se

esquecia de fazer, porque tinha fé particular nas virtudes medicinaes

d'aquella excellente agua.

--Ah!--dizia elle outra vez distrahido--Consola beber uma agua assim!

Para aguas o Porto! Dizem que em Lisboa são más as aguas! Pois é das

cousas mais precisas para a saude. É verdade que eu vejo por aqui tambem

muitas doenças, apesar das aguas boas. E sobretudo a gente nova está

saíndo tão franzina e tão fraca, que é uma cousa por maior! E o medo,

que eu tenho, quando reparo em Cecilia! É tão delicada, tão...

E ahi estava outra vez assombrado para grande espaço de tempo.

Chegou á quinta chamada da China,--um dos passeios favoritos das classes

populares portuenses.

Desciam a rampa, que antecede o portão, alguns bandos de gente do povo,

rindo, cantando, em plena festa; iam em direcção ao rio. As barqueiras

de Avintes aproximavam os barcos da margem para os receber; outras,

ainda a grande distancia, chamavam, com toda a força d'aquelles pulmões

robustos, as pessoas que vinham por terra. Cruzavam-se os barcos,

movidos pelos vigorosos braços d'estas engraçadas e joviaes remeiras, e

carregados com os frequentadores das diversões campestres do Areinho e

da pesca do savel. Tudo era riso e cantigas no rio.

Manoel Quentino via tudo isto, e escutava entretido o canto de uma

barqueira, que dizia:

As riquezas d'este mundo

Para mim não tem valor:

Eu sou rica nos tens braços,

Sou rica do teu amor.

E elle pôz-se a pensar:

--Como esta pobre gente vive satisfeita n'esta vida trabalhosa do

rio!... Ao vento, á chuva, e sabe Deus o que tem em casa para comer! E é

um gosto como ellas cantam e riem!... Raparigas de quinze e dezeseis

annos consola vel-as já mover aquelles remos, que esfalfariam um homem,

como eu. Não ha como estes ares e esta vida do campo, para fazer as

pessoas robustas. Se eu adivinhasse que Cecilia aproveitaria com

elles!...

E retomava o pensamento a posição de equilibrio estavel, de que por

instantes se desviára.

Chegou ao ponto da margem, chamado Rego Lameiro. Ahi opéra o Douro uma

das suas subitas e surprendentes transformações. Expiram as collinas

fronteiras de uma e outra margem, interrompidas por um valle

deliciosissimo, onde a vegetação é mais abundante, mais povoadas as

verduras, e onde se encorporam em riachos as aguas escoadas dos proximos

declives. Apreciam-se tão raros intervallos, em que o Douro, o severo

Douro, sorri, como se aprecia um raio de alegria em rosto habitualmente

carregado.

N'este sitio alarga-se o leito das aguas, diminue portanto a força da

corrente d'ellas, chegando, nas marés baixas, a permittir a formação de

pequenos ilhotes de areia, para onde vão brincar as creanças dos

pescadores. A tortuosidade das margens, furtando á vista o seguimento do

rio, dá a este a completa apparencia de um pequeno, mas pittoresco lago.

Os olhos descobrem, de um lado, o extenso areal de Quebrantões, ao qual

succedem prados e leziras sempre verdes, veigas fertilissimas, arvoredos

espessos e, escondidas por o meio, as risonhas casas de algumas pequenas

povoações campestres; adiante as quintas da Pedra Salgada, e através do

véo azulado da distancia, a aprazivel aldeia de Avintes; do outro lado o

palácio do Freixo com seus torreões e balaustradas e as quintas e

ribeiras de Valbom e Campanhã. E se é ao fim do dia, quando o sol doura

todo o quadro, reflectindo-se afogueado nas vidraças voltadas ao

occidente, e a viração da tarde enfua as velas brancas das pequenas

embarcações do logar, e o céo é azul e as aguas limpidas, a paizagem

compensa bem os privados de gosar as bellezas mais celebradas por

viajantes e poetas, as analogas das quaes só a nossa cegueira nos não

deixa ás vezes ver a dois passos da porta.

Era aqui que Manoel Quentino se sentava sempre durante alguns minutos,

sobre uma pedra solta da margem.

--Como isto é bonito!--pensava elle--É que nem ha outro passeio assim,

nos arredores do Porto. E a tarde então está tão serena e socegada, que

até se percebe d'aqui tudo o que se diz no Areinho. Se eu tivesse

dinheiro, era onde comprava uma quinta. Chegando aos sabbados, saía do

escriptorio e mettia-me n'um barco... ou a pé mesmo... A final é um

passeio... É verdade que se viesse Cecilia, sempre era longe. Ainda que

ella não se cansa... Não se cansa?... não se cansava... agora...

E a ideia negra, aquella pertinaz ideia negra, a tomar outra vez posse

de Manoel Quentino! e, com o ir adiantando-se a tarde, parecia cada vez

mais negra, como se as sombras crescessem para ella tambem!

D'ahi em diante, não se modificou o processo das cogitações do velho.

Uma fabrica de cortumes, umas creanças, a quem deu esmola, uns armazens,

tudo quanto viu, após varias oscillações do pensamento, faziam caír

Manoel Quentino na preoccupacão anterior.

De maneira que o passeio, aquelle passeio que o devia distrahir, antes

lhe exacerbou o mal, que o atribulava.

Subia elle já a íngreme costeira, que leva do Esteiro de Campanhã até o

sitio do Padrão. A tarde arrefecera subitamente. Ou fosse o resultado

d'aquelle contínuo pensar em cousas tristes ou influencias de outras

causas, é certo que Manoel Quentino principiou a não se sentir bom.

Pesava-lhe a cabeça, como ourada; dobravam-se-lhe os joelhos de

fraqueza; sentia um geral quebrantamento no corpo, que lhe dificultava

já o regresso a casa; e depois a melancolia a condensar-se-lhe no

coração, que parecia que lh'o estava a apertar com mão de ferro.

Quasi se arrastava por aquella custosa estrada acima desalentado e

melancolico.

Chegando a uma das vendas, onde, aos domingos de primavera e estio,

costumam celebrar festivas merendas alguns joviaes habitantes da cidade,

chegaram-lhe aos ouvidos cantos e risadas, que, no atordoamento em que

ia, o incommodavam; pareceu-lhe ouvir pronunciar o seu nome, no meio

d'aquella vozeria; mas já não podia dispor da attenção para escutar o

que diziam. Continuou caminhando.

De repente, appareceu á porta um dos da companhia a chamal-o.

Manoel Quentino voltou-se lentamente para elle, sem dizer palavra.

--Então d'onde vem, snr. Manoel Quentino?

--D'ahi de baixo--respondeu, com voz fraca.

--E não encontrou ninguem conhecido pelo caminho?

--Eu, não.

--Pois ainda agora o procuraram aqui.

--A mim?!

--Sim; então não sabe o que ha?--disse o sujeito, que lhe fallava com

certos modos de importancia e cuidado.

O coração de Manoel Quentino principiou a bater desordenado.

--Eu não...

--Pois vieram, ha poucos minutos, procural-o aqui, para que fosse, já,

já, a casa, porque...

--Porque?...--interrogou Manoel Quentino, passando-lhe um calefrio por

todo o corpo e seccando-se-lhe subitamente a bôca, como em accesso de

febre.

--Porque... pelos modos... sua filha... estava bastante doente...

Disseram que o tinham antes ido procurar ao escriptorio... mas...

Manoel Quentino já não escutava; encontrando forças no seu amor,

sobresaltado assim, quasi deitou a correr por o mesmo caminho, pelo qual

com dificuldade se arrastára até alli.

O que lhe dera o aviso pôz-se a rir, ao vel-o partir com tal pressa.

--Venham ver, venham cá ver!--dizia elle para os companheiros.

Um d'elles chegou á porta.

--Pobre homem! Chama-o. Olha que isso póde fazer-lhe mal.

--Ó Manoel Quentino! Psiu! Olhe que é hoje o l.°de abril, homem! Manoel

Quentino!

Mas o pobre velho nem o ouviu; cada vez corria mais.

Estes homens tinham celebrado o 1.° de abril--este dia que, não sei por

quê, o uso popular consagra a reciprocas mystificações--ferindo no mais

doloroso o coração de um pae! E ainda poderam rir!

Louvado seja Deus! Ha gente assim graciosa no mundo!

--Vão lá agora segural-o,--disse o mystificador--deixa-o, maior alegria

o espera ao chegar a casa.

E voltou a divertir-se.

No entretanto Manoel Quentino proseguia n'aquella marcha rapida,

desordenada, como se desejasse fazer desapparecer de subito a distancia,

que inda o separava da filha, e ia murmurando:

--Cecilia... pobre filha!... Ó nossa Senhora!... que desgraça! que

desgraça! para que saí eu?... Não póde ser... Mas para me virem assim

chamar... Quem sabe se... Grande perigo! grande perigo, por certo!

Virgem Santa! E este caminho é tão longo!... E ella morta talvez por me

ver chegar... Ó filha, filha...

E as lagrimas caíam-lhe em fio pelas faces.

O atordoamento de cabeça augmentava; a energia muscular, que a nova

recebida momentaneamente lhe dera, cedia de novo logar ao mesmo

desfallecer, que, antes, lhe vergava os membros. O pobre velho

aterrava-se ao perceber isto.

--Oh! dae-me forcas, Senhor, dae-me forças para chegar depressa! Por

misericordia!--dizia elle, tremendo--A minha pobre filha!...

E os ouvidos zuniam-lhe cada vez mais; diante dos olhos, passavam-lhe,

de quando em quando, faiscas, manchas avermelhadas, nuvens de sangue;

ouvia o bater das fontes e das carotidas; furtava-se-lhe o chão debaixo

dos pés; andava e não se sentia andar; já não tinha poder de regular os

movimentos, que se succediam sem a coordenação regular.

Uns homens, que passaram por elle, pararam a examinal-o, e Manoel

Quentino ouviu-lhes ainda dizer:

--Olha como vae aquella alminha! ha de custar-lhe a dar com a porta de

casa.

Estas palavras affligiram ainda mais este pobre pae, já tão afflicto.

Tinha chegado á capellinha do Padrão.

--Que angustias, meu Deus! Valei-me, nossa Senhora!--murmurou elle.

Encostou-se algum tempo ás grades da porta, porque já não podia andar.

Fez uma oração fervente, d'estas orações que, se não abrirem de prompto

caminho até o throno de Deus, é porque para sempre se fecharam já as

portas do céo a todas as preces da humanidade. Mais sentida, mais do

coração, do que aquella, é que se não fazem no mundo.

Pareceu ganhar vigor por um pouco. Proseguiu, mas com o andar mais tardo

e vacillante. Cêdo porém voltaram as ameaças do mal. Um entranhado

terror apoderou-se-lhe do coração, uma como mysteriosa consciencia de

proximo perigo.

As luzes da illuminação publica appareciam-lhe coloridas de vermelho. A

perturbação de vista augmentou; tudo girava em volta d'elle; os objectos

tornavam-se-lhe indistinctos, afigurava-se-lhe que o terreno descia de

repente, e em uma descida tão rapida, que elle teve de parar para não

caír. Encostou-se á ombreira de uma porta.

Ouviu a voz de alguem, que já nem viu, dizer-lhe:

--O senhor não está bom? Entre para descansar.

--Não--disse elle com certo desabrimento, como se aquelle conselho lhe

desvanecesse cruelmente a illusão, que fazia por conservar ainda.

E de novo tentou caminhar.

Estava proximo do cemiterio publico, chamado do Repouso; deu mais alguns

passos.

Os mesmos symptomas atacaram-o de novo e com maior violencia; a vertigem

foi completa; o chão pareceu faltar-lhe.

O bom do homem ainda pôde murmurar:

--Senhor!... Senhor!... por piedade!... pois hei de morrer aqui, sem ver

minha filha?!...

E caíu sobre um dos bancos de pedra da alameda que está em frente do

cemiterio.

XXI

O QUE VALE UMA RESOLUÇÃO

Cecilia, pensando que o pae não prolongaria demasiado o passeio, voltou

a casa ainda com dia.

Anoiteceu, porém, sem que Manoel Quentino apparecesse.

Tudo era sombras na rua: para o lado do mar coloria-se o céo do rubor

inflammado do crepusculo... e ninguem!

O coração de Cecilia principiou a ennevoar-se de vagos receios, que ella

até fugia de definir.

Mas estas nevoas foram-se condensando em cerração, á medida que descia a

noite, e Manoel Quentino sem apparecer! A imaginação de Cecilia começava

já a lembrar-lhe mil escuras explicações d'aquella extraordinaria

demora.

A boa rapariga não podia socegar.

Vinha á janella com esperanças de avistar o pae no principio da rua, e

retirava-se para dentro outra vez, pezarosa e assustada porque o não

via.

Fallava a Antonia, desejando ouvir d'ella alguma supposicão, que a

tranquillisasse; mas a criada, tambem assustada com a demora do amo,

longe de a animar, aterrava-a com as suggestões da sua fertil

imaginativa.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 17 / 30 段