pequena carta, que em vão Cecilia tentára tornar jovial, justificava a
ligeira nuvem que viera assombrar a fronte, habitualmente serena, da
bondosa Jenny; habituada como estava ás alegrias sem motivo, á
despreoccupação da sua amiga, tantas vezes reveladas em cartas e em
conversas anteriores, estranhava com razão estes indicios de tristeza.
Além d'isso, o que na vespera ouvira a Manoel Quentino sobre as mudanças
subitas da filha, não lhe tinha ainda esquecido.
Era no que pensava, quando Carlos a procurou no quarto; e foi essa a
causa principal da apprehensão, exagerada talvez, com que soube da
visita feita pelo irmão a Cecilia, e da anticipacão com que previa o
futuro d'esta, tão estreitamente ligado ao procedimento de Carlos.
O estado de Carlos tambem não satisfazia. A segurança que, diante
d'elle, affectára, ella propria a não sentia. Inquietava-a o acontecido,
sem saber bem porquê. A seu pezar, já nenhum outro pensamento a
distrahia d'aquelle.
Para tranquillisar-se, tratava de convencer-se de que eram infundados os
receios. Recordava todas as passageiras inclinações que conhecera no
irmão e que tão depressa, e sem consequencias más para ninguem, vira
desvanecer; esforçava-se em explicar de mil maneiras a inquietação de
Cecilia com exclusão d'aquella, que, não obstante, uma voz interior
teimava em repetir-lhe.
De pensamento em pensamento, foi levada áquellas disposições de
espirito, nas quaes se aprazia em contemplar as feições amadas da mãe, a
sua conselheira de além tumulo.
E assim, a piedosa filha, com a fronte pendida sobre aquelle retrato,
caíu em um meditar profundo, que por muito tempo se prolongou.
A final ergueu os olhos ao céo e pareceu dirigir-lhe uma oração mental.
O olhar do Senhor baixaria sobre este anjo, que o implorava para
serenar-lhe o espirito? É certo que, passados alguns instantes,
diffundia-se-lhe no semblante a costumada placidez.
XIX
AGGRAVAM-SE OS SYMPTOMAS
Com toda a sua natural bondade, e superior penetração de espirito,
commettera Jenny uma imprudencia.
Não hesitando em confessar ao irmão as apprehensões que sentia, ao
pensar nos resultados da visita feita por elle a Cecilia, deixando-lhe
entrever a possibilidade de que se originasse d'ahi, para a pobre
rapariga, um d'esses sentimentos, a que imprudentemente se abrem os
corações juvenis e que tão depressa adquirem ás vezes a força de paixão,
Jenny, a previdente Jenny, apressára o mal, que julgára conjurar assim.
Escutando-a, Carlos, longe de reflectir nas sérias consequencias que
podia arrastar comsigo tal paixão, se porventura nascesse, estava
sentindo um agradavel prazer em a ouvir fallar na possibilidade d'ella;
sorria-lhe já seductoramente esse amor, nas mal delineadas fórmas, sob
que lhe apparecia como cousa de futuro e contingente ainda, que era.
Toda a cautela é pouca com estas imaginações, sempre promptas a voar
para a região dos sonhos dourados.
É preciso usar para com ellas da prudencia que se deve ter com as
creancas, surprendidas á borda de um abysmo; o brado, que se solta
instinctivamente com o fim de as salvar, é que muitas vezes as
precipita; mais vale encommendal-as á Providencia e não lhes mostrar o
perigo, senão depois d'elle passado. Ha situações na vida em que tambem
o coração se aproxima, brincando, de um despenhadeiro; todo o conselho
n'este caso é igualmente arriscado; o sobresalto, que produz, póde
effectuar a quéda.
Aconteceu isto com Carlos Whitestone.
É notavel a importancia que, n'estas cousas de coração, damos á opinião
alheia! Andamos muito tempo a hesitar sobre o nome de certos
sentimentos, que nos inspira uma mulher, e apesar de contínuo reflectir,
não ousamos chamar-lhe amor; um dia, porém, encontramos o primeiro
estouvado, que se lembra impensadamente de o classificar como tal, e
logo a nossa opinião a curvar-se perante tão ponderosa auctoridade. Ha
exemplos até de alguem quasi se chegar a convencer de que ama uma
mulher, só á força de lh'o repetirem.
Mais desculpa tinha comtudo Carlos; porque não era Jenny sujeita a
formar juizos levianos, nem a exprimir suspeitas e receios, que não
tivessem fundamento.
Por isso tudo, saíu elle do quarto da irmã, muito peior do que viera.--E
perdoem-me as leitoras, se chamo peiorar ao progredir no caminho do
amor; não lhe chamaria por certo assim, se não fosse o cortejo de
contrariedades, que de ordinario acompanha esta paixão.
O resto do dia passou-o Carlos no quarto, em completa ociosidade.
Ociosidade! E poderá dar-se tal nome a esses longos intervallos de
repouso apparente, em que descansam os musculos, mas em que o cerebro
executa porventura os seus mais violentos e fadigosos exercicios?--Se o
leitor tem a infelicidade de não possuir um d'estes espiritos frios, que
sem cessar absorvidos pelo cumprimento dos deveres da vida positiva, não
sentem a necessidade de sacudir, de quando em quando, o jugo, para
correrem por dominios mais propriamente seus, dirá se era ociosidade
aquillo.
Desde esse dia, a vida de Carlos ia entrar em uma d'aquellas phases, que
ao romancista, não resolvido a illuminar os seus quadros de outra luz,
que não seja a da realidade, levantam serios embaraços.
Quando uma paixão sincera domina o coração do homem, exalta-se,
sublima-se n'elle o que é a vida subjectiva; mas a vida exterior, a
apparente, a que só avulta para quem não possue olhos que vejam, e
coração que entenda o coração d'este homem, essa, baixa ao nivel das
puerilidades.
Quando a dignidade varonil, o empertigamento masculino se conservam
irreprehensiveis e intactos no auge de uma paixão, é de receiar sempre
pela sinceridade d'ella.
Tudo quanto é convencional esquece então.
Ora, no homem mais grave e sisudo, ha sempre escondida a crença de
outros tempos. O elemento pueril não morre nunca de todo em ninguem. A
arte social applica-se com afan a occultar das vistas alheias esse
legado da infancia; os mais sisudos são os que melhor o conseguem; mas
basta um descuido de momento, uma distracção, e elle ahi vem á
superfície.
Assim se explicam as proverbiaes canduras dos mathematicos e dos
amantes.
Os jogos foram tambem inventados por esse motivo. Fingiu-se acreditar
que era uma cousa grave o _wist_, o voltarete, o _boston_, etc., etc.,
para qualquer pessoa poder, em publico, entregar-se a elles, sem offensa
da sisudez convencional; porque, se se não fizessem estas concessões á
creança humana, que ás vezes tem impertinencias, corria-se o risco de
mais escandalosas rebelliões da parte d'ella.
Mas, como dissemos, uma paixão verdadeira, uma d'essas, cada vez mais
raras, paixões, nas quaes o prazer de amar lucta, em intensidade, com o
de ser amado, absorve muito o espirito, para que elle possa exercer a
vigilancia precisa sobre a travêssa creança, de que fallamos.
E, a não haver indulgengia da parte de quem espia estas quebras de
seriedade, a victima da paixão corre o perigo de ser menos bem olhada.
Por isso temo fazer chronica do que se passou em Carlos, nos dias
successivos á conferencia que teve com a irmã; porque, em tudo, pouco se
nos deparará digno de um heroe de romance.
Appéllo porém para as reminiscencias dos leitores, para depois, sendo
necessario, parodiar a defeza de Christo á peccadora.
Um dos primeiros phenomenos manifestados em Carlos foi uma subita
timidez, n'elle verdadeiramente excepcional; uma perfeita timidez de
creança; completo contraste com os seus passados arrojos, que ainda o
haviam acompanhado na primeira visita feita a Cecilia.
Agora pela primeira vez se sentia acanhado.
Impellia-o o coração a tornar a ver Cecilia; saíu no meio da tarde com
esse intento, dirigiu-se para a rua, onde ella morava; de longe, ao
dobrar a esquina, pareceu-lhe descobril-a á janella. Que fortuna! Não é
verdade? Assim parece que deveria reputar o facto. Pois não teve coragem
de lhe passar pela porta e, sem ser visto, seguiu caminho differente.
Mas com que má vontade ia contra si proprio!
D'ahi a pouco assomava de novo á mesma esquina; não estava ninguem á
janella; pareceu animar-se com esta observação e caminhou para diante
d'esta vez.
Ia ao mesmo tempo contente e mortificado, por não ver ninguem. Não sei
se admittem que uma só causa tenha assim effeitos oppostos; fica-lhes
livre darem ao facto a interpretação que quizerem: eu limito-me a
registal-o.
Quando ia já proximo da casa, appareceu subitamente alguem á janella.
Era Cecilia; adivinhou Carlos que era ella, antes de reconhecer. Com a
apparição ficou mortificado e contente; outra vez o mesmo phenomeno
paradoxal.
Apressou logo os passos e tomou uns ares de homem atarefado, como se
quizesse dar a entender que a sua passagem por alli era puramente casual
ou motivada por negocio urgente.
«Incoherencia!» dirá um galanteador de profissão. Incoherencia, é
verdade; e pobre da paixão, que não dá para incoherencias. Se o rigor
syllogistico resiste a uma d'estas commoções do coração, não vale a pena
tomal-a a serio.
Ao passar por defronte da janella, Carlos cumprimentou Cecilia,
timidamente, quasi canhestramente, sem lhe sobrar coragem para a fitar e
não ousando voltar de novo a cabeça, em todo o resto da rua, que seguiu
até o fim.
Interiormente redobrava a impaciencia e má vontade contra si proprio.
Elle, que sempre se reconheceu arrojado, agora com acanhamentos de
namorado noviço!
Parou na alameda, que ficava ao fim da rua. Não lhe saíu aquillo da
ideia.--Que quer isto dizer?--pensava elle--Então não estou eu
transformado em estudante de quinze annos, que nem frieza de animo tem
para cumprimentar a prima, por quem julga morrer de amores? Acho-lhe
graça!
E enchendo-se de brios, preparou-se, passados momentos, com maior
denodo, para voltar.
Mas, apesar de todas as prevenções, a coragem ia-lhe faltando, á medida
que se aproximava do logar do perigo.
Justamente na occasião, em que o attingia, chegava Manoel Quentino á
porta de casa.
Era uma d'estas coincidencias felizes, de que, em outra occasião, Carlos
saberia tirar partido.
D'esta vez quasi sentiu que ella se désse.
Foi obrigado a parar, depois de ter, sem a menor apparencia de audacia,
cumprimentado de novo Cecilia, que estava á janella.
--Então por estes sitios!--disse-lhe Manoel Quentino admirado--O que o
trouxe por aqui hoje?
Carlos balbuciou algumas palavras, que não formularam resposta alguma.
Manoel Quentino sorriu maliciosamente.
--Ora ande lá, ande lá com Deus.
Carlos córou.--Córou!
--Acredite que vim... por acaso--insistia elle.
--Sim, sim; pois eu bem sei--continuava Manoel Quentino no mesmo tom.
Carlos estava sobre brazas.
--Serio...
--Serio, sim, serio... pois é lá homem que falle de outra fórma?... Ora
vá com nossa Senhora, vá... eh! eh! eh!...
Carlos não teve arte de demorar a conversa, durante a qual não aventurou
um só olhar para Cecilia e nem animo lhe assistiu para aceitar o
offerecimento que lhe fez Manoel Quentino de subir e descansar algum
tempo.
Partiu, cada vez mais desgostoso comsigo, parecendo ter sido o seu
principal empenho occultar, e não revelar, a Cecilia o que principiava a
sentir por ella.
E agora uma pergunta: não o comprehenderia Cecilia? Parece racional
dizer que não; mas quem póde lá adivinhar como o coração da mulher
adquire certa ordem de conhecimentos, sobre tudo se...
Mas ponhamos de parte _ses_ menos discretos; que os sentimentos de
Cecilia não são para se devassarem assim de passagem.
O resto do dia Carlos passou-o só no quarto, a ler.
Ha alguma cousa tambem de particular na maneira de ler, quando se está
em taes disposições de espirito.
Preferem-se os romances; mas não é pelo lado litterario, que mais se
apreciam; porém exactamente como os apreciam as creanças e a maioria das
mulheres--pelas peripecias do enredo;--e, permitta-se-me dizer, que
imagino ser esta a classe dos leitores, que mais deve lisongear o
romancista.
Seguem-se então com ardor as phases successivas de uma paixão descripta
alli; deixa-se tomar o coração de amor pela heroina; assume-se o
caracter do heroe; e não se perdoa ao auctor quando termina por alguma
catastrophe a historia, que escreve.
Isto aconteceu com Carlos. Symptoma terrivel! Leu em uma especie de
embriaguez um romance inteiro de Walter-Scott, e muito tempo depois
ficou a pensar no que lera; não tanto nas bellezas, que, em todos os
generos, abundam nas ainda menos afamadas obras do grande romancista,
como na felicidade dos noivos; porque, nos ultimos capitulos dos seus
romances, raras vezes Walter-Scott deixa de os unir sacramentalmente.
Á noite voltou Carlos a passar por casa de Cecilia. Havia luz na sala da
frente, luz que só se percebia por uma entreaberta das portas
interiores. Eram as horas do serão e do chá de José Fortunato.
Carlos saboreou um prazer indefinivel em observar aquella luz. Vão vendo
os leitores experientes se não é de inspirar receios o estado do Carlos.
Em casa evitava Jenny; receiava-se d'ella; Jenny, pela sua parte,
julgava prudente não provocar novas conferencias sobre o assumpto.
Se ella soubesse que já não era com estes meios brandos, que havia de
vencer!
No primeiro domingo, depois d'estas scenas, Carlos que, com toda a
diplomacia, soubera de Manoel Quentino ser a Cedofeita que elle e a
filha costumavam ir á missa, rompeu com os deveres de protestante e
aproximou-se da porta d'aquelle vetusto templo catholico, ás horas a que
sabia dever terminar alli o officio divino.
Passeiava na alameda lateral com toda a resolução de se fazer d'esta vez
notado.
Mas, ao saír a primeira gente da igreja, apoderou-se d'elle a costumada
timidez, e, já com receio de ser percebido, foi encostar-se ao portão de
ferro do cemiterio contiguo, por não ter tempo de ir mais longe.
Serviu o mal a inspiração;--mal e bem ao mesmo tempo; porque, ainda
n'aquelle momento, havia no espirito de Carlos o mesmo antagonismo de
aspirações, que era, havia dias, o seu estado habitual.
Coincidia com o receio de ser visto a vontade de ser descoberto. Não
póde haver logica na expressão, quando falta ao objecto que se exprime.
É certo porém que Manoel Quentino, saíndo da igreja com a filha,
encaminhou-se para o cemiterio.
N'aquelle cemiterio repousava a mãe de Cecilia, e raro era o domingo em
que Manoel Quentino, depois da missa, não ia orar alli, junto da
sepultura da esposa.
Quando Carlos percebeu a direcção, que elles seguiam, era tarde para
retirar-se. Manoel Quentino já o tinha visto; Cecilia tambem.
O pae sorriu-lhe com familiaridade; Cecília córou, ao corresponder ao
acanhado cumprimento de Carlos.
--Então veio orar pelos mortos?--disse Manoel Quentino, com malicia.
Carlos encetou vagas explicações da sua presença alli.
--Pois se veio orar pelos mortos, achou companhia--continuou o
velho;--que eu, infelizmente, tenho aqui por quem o faça. Ora deixe-me
ver se encontro o cóveiro, para que nos abra a porta do cemiterio.
E, com este intento, dirigiu-se para a sacristia, deixando sem ceremonia
Carlos só na presença de Cecilia.
Precisarei de dizer que este inesperado e involuntario encontro enleiou
sobremaneira os dois? Falla-se muito dos embaraços de uma primeira
entrevista. Não serei eu quem os negue; quer-me porém parecer que a
segunda é ainda mais difficil de sustentar, quando a primeira não foi de
todo insignificante.
O que é verdade é que a imaginação de Carlos não lhe suggeriu uma só
palavra que dissesse.
Nem sequer fallou no tempo! Cecilia não foi mais eloquente, fixou os
olhos na porta da igreja, por onde desapparecera o pae, e emmudeceu.
N'isto uma velha mendiga, d'estas que nunca faltam á porta das igrejas
ao findar a missa, aproximou-se d'elles, coxeando e gemendo.
--Meu rico senhor,--disse ella dolentemente a Carlos--tenha compaixão
d'esta velhinha, que já não o póde ganhar.
Carlos não lhe dava attencão.
A velha insistiu:
--Ora dê, dê, meu fidalgo; e que nosso Senhor o veja dar.
--Não póde ser--disse distrahidamente Carlos.
A velha recorreu a Cecilia.
--Minha linda menina, peça-lhe que me dê uma esmolinha, peça; e que
nosso Senhor os faça a ambos felizes, já que tão bem os talhou um para o
outro.
Cecilia tentou sorrir, mas a confusão obrigou-a a baixar os olhos;
Carlos não menos confuso tambem com o equivoco da mendiga, tirou do
bolso uma moeda de prata e deu-lh'a, dizendo:
--Ahi tem; e vá com Deus, mulher.
Mas a mendiga entendeu que não devia supprimir assim as competentes e
diffusas formulas da sua gratidão.
--Ora nosso Senhor os faça muito felizes e os deixe viver muito tempo na
companhia um do outro, já que tão bem os juntou! Coitadinhos! Eu hei de
rezar muito ao Senhor para que os abençoe e os tenha a ambos na sua
divina guarda. Adeus, meu senhor, adeus; adeus, minha senhora. Nosso
Senhor Jesus Christo os ha de sempre ver do céo e dar-lhes a felicidade
que desejam. Ora coitadinhos!... Padre nosso, que estaes no céo...
Carlos e Cecilia viram-a afastar-se e sorriram, sem olhar um para o
outro, e sem saber bem o que dissessem. Voltou Manoel Quentino e nenhum
lhe referiu o caso, que com certeza o faria rir.
Este silencio é, no meu entender, de maxima significação.
Carlos acompanhou Manoel Quentino e Cecilia até á modesta campa, sobre a
qual um nome, uma data e muitas flores marcavam o logar, onde jazia a
que os dois ainda então choravam com saudade. Ao chegarem alli, Cecilia
ajoelhou e recolheu-se por algum tempo em oração piedosa; Manoel
Quentino, de pé, encostado á grade, orava tambem.
O contagio d'aquella commoção apoderava-se da alma de Carlos. Não sabia
elle igualmente o que era ser orphão de mãe?
Duas almas, que receberam, ainda em plena infancia, a precoce provação
d'esta dolorosa experiencia, devem entrar mais rapidas em intelligencia
de affectos. Ha um laço invisivel a prendel-as já.
Quando no templo, ou junto de uma campa, uma se enleva na oração, a
piedade filial da outra adivinha todas as palavras d'aquella prece,
resente todas as angustias d'aquella dor.
Calado, triste, fitou Carlos os olhos na sympathica figura de mulher que
orava assim, e quasi se sentiu impellido a ajoelhar-se-lhe ao lado e a
orar tambem.
Ao erguer-se, encontrou Cecilia os olhos de Carlos, ainda fitos n'ella.
Havia tanta sincera compaixão, impressa n'aquelle olhar, tanta d'essa
sympathia, que desvanece hesitações e inspira confiança, que, pela
primeira vez, Cecilia ousou olhal-o de face, dizendo-lhe com gesto de
gratidão e commovida:
--Trouxemol-o a um triste logar, snr. Carlos. Perdoe-me se não poupei o
espectaculo, pouco de alegrar, das orações de uma filha junto do tumulo
de sua mãe.
--Ha muitas especies de alegria, minha senhora--respondeu Carlos.--Ás
vezes os sentimentos melancolicos trazem comsigo algum prazer tambem, um
prazer suave, intimo, consolador. Agradeço-lhe ter-me proporcionado um
d'esses prazeres.
E calaram-se.
Manoel Quentino, findas as suas orações, deu-se pressa em saír d'aquelle
logar, ao qual não era affeiçoado.
A dupla qualidade, doce e amarga, da saudade faz com que uns, para quem
a primeira predomina, gostem de renoval-a; e que outros, que pelo
contrario lhe sentem mais o travor do que a doçura, se apressem a
fugir-lhe. Manoel Quentino era dos ultimos.
Carlos saíu com elles do cemiterio. Cecilia caminhava adiante. Carlos,
com os olhos n'ella, entretinha com Manoel Quentino aturada conversa
sobre os mais diversos assumptos. O velho guarda-livros fallava da
agricultura, de emprezas de commercio, de politica patria, de
melhoramentos municipaes, parando muitas vezes, no meio da rua, para dar
mais forca ás suas reflexões. Carlos escutava-o com paciencia e
docilidade, até então sem exemplo, e pelas quaes o proprio Manoel
Quentino estava maravilhado.
Ás vezes, ao chegarem a uma travessa, que podia conduzir Carlos mais
directamente a casa, o guarda-livros dizia-lhe:
--Agora então vae por aqui?
--Não; eu acompanho-o mais algum tempo--respondia Carlos.
--Não, mas veja lá...
--Não tem duvida; sigamos.
Só muito próximo já da casa de Manoel Quentino é que este insistiu de
tal maneira com Carlos para que não fosse mais adiante, «a não querer
fazer-me companhia ao jantar»--acrescentava elle--que, a seu pezar,
Carlos condescendeu.
Despediu-se affectuosamente de Manoel Quentino e de Cecilia, com olhar
um pouco menos timido já do que os antecedentes, mas do qual ainda se
envergonharia qualquer galanteador dos menos arrojados. Ao dobrar a
esquina, que lhe devia roubar á vista o pae e a filha, ousou voltar-se
para olhar ainda.
Manoel Quentino desapparecia já do portal; Cecilia, que ficára um pouco
atraz, voltára-se... occasionalmente--julgo eu que occasionalmente--de
maneira que os seus olhares trocaram-se com os de Carlos.
Este facto, bem simples, foi durante todo o dia alimento para a
imaginação do rapaz.
Não ha imaginações que de menos se sustentem, do que a dos namorados.
Dê-se-lhe um facto insignificante, um sorriso, uma palavra, um olhar, e
ella saberá extrahir de tão pouco infinitas riquezas de alimentação...
espiritual. D'ahi em diante, o acaso...--não sei que fosse outra
cousa--fazia com que, todas as tardes, Cecilia estivesse á janella,
quando Carlos passava a cavallo, em direcção aos arrabaldes; e de noite,
quando o snr. Fortunato principiava a notar que ia já tardando o chá,
havia sempre um momento, em que Cecilia resolvia ir ver como estava o
tempo, ficando alguns minutos por dentro dos vidros a contemplar o céo.
Ora queria ainda o acaso...--continuando a suppôr que era elle o motor
de tudo isto--que fosse exactamente n'essa occasião, que voltasse Carlos
dos arrabaldes, para onde de tarde passára. Não lhe era possivel
desconhecer o perfil de Cecilia, assim apparente no fundo illuminado da
janella; por isso naturalmente a cortejava, e, como a luz de um lampeão
se reflectia n'aquelle momento sobre o cavalleiro, tambem Cecilia não
podia deixar de reconhecel-o, e por isso naturalmente lhe correspondia
ao cumprimento.
Successos d'esta importancia preencheram muitos dias mais. Não
terminaria este capitulo, se fosse a registral-os todos. Amplie-o a
memoria dos leitores. Póde fazel-o, porque este capitulo é commum aos
romances de toda a gente.
No entretanto estranhava Jenny cada vez mais o irmão, e Manoel Quentino,
de seu lado, cada vez mais se preoccupava com as mudanças no genio de
Cecilia.
Carlos rompera completamente com os antigos habitos de vida.
Notava-se-lhe a falta nos cafés, no theatro, nas assembleias, nos grupos
dos amigos.
Passava horas e horas no quarto; ás vezes, com a cabeça pousada nas
mãos, sem ler, sem escrever, sem fazer cousa alguma; outras, ouviam-o os
criados passeiar por muito tempo, fumando charuto após charuto, e
enchendo de fumo a atmosphera em que respirava.
Saía, ora a pé, ora a cavallo, mas quasi sempre os passeios eram para
fóra da cidade. Affeiçoára-se subitamente á companhia de um velho
inglez, o typo mais massador d'esta colonia portuense, a ponto de ir ás
vezes esperal-o ao escriptorio e acompanhal-o com paciencia admiravel
até casa--a qual ficava na direcção da de Manoel Quentino.
Se alguma vez succedia ficar ao pé de Jenny, esta admirava-se da mudança
de ideias, que se operára n'elle; se procurava mostrar-se jovial,
percebia-se-lhe o esforço para conseguil-o. Tudo isto dava muito que
pensar á irmã.
Um dia, Jenny viu-o arremessar de si, com manifesto enfado, um livro que
estava lendo.
Olhou e reconheceu um volume das obras de Byron.
--Que é isso?!--perguntou Jenny, sorrindo--Que má vontade é essa hoje
contra o auctor que tanto aprecias?
--Impacienta-me ás vezes este poeta lord, para te fallar sinceramente.
Ha tanta amargura e tanto sarcasmo em algumas d'estas paginas, que,
pouco a pouco, nos fazemos maus, depois de uma aturada leitura d'esses
admiraveis poemas. É sublime, mas é desconsolador. Leio-o com a cabeça
atordoada, mas com o coração confrangido. Os instinctos da aguia são
mais altos e heroicos do que os das pombas; mas nós todos queremos as
pombas mais perto de casa e não nos consolaria tanto a vizinhança da
aguia, embora nos excite mais a curiosidade quando, uma ou outra vez, a
fitamos.
Jenny, em vez de sorrir a estas reflexões do irmão, tão alheias ao seu
modo ordinario de pensar, fitou-o com maior seriedade e, depois de um
instante de silencio, disse-lhe: