--Olhem agora!--dizia ella--Não que uma demora assim! Eu nunca vi!...

Quem sabe lá? Não lhe fosse por ahi acontecer alguma!...

--O que lhe havia de acontecer, mulher? Você tambem!--disse Cecilia,

tranzida de susto com esta vaga insinuação da criada.

--O que lhe havia de acontecer?--proseguiu esta--Ellas em qualquer parte

se armam. Até na cama se quebra uma perna. Veja aquelle velho, que

passava d'antes todos os dias por aqui para a alfandega. Então não

escorregou um dia no degrausito da porta, que não tinha mais do que

isto--e indicava uma mão travessa;--caíu, e de tal maneira, que no fim

de oito dias estava enterrado.

Cecilia empallidecia só de ouvir estas palavras.

--Mas, se tivesse succedido alguma cousa, tinha já mandado dizer.

--Conforme, menina... Ás vezes acontecem os males em sitios, onde

ninguem conhece uma pessoa, e se se não póde fallar... Ahi está que...

--Havia logo de succeder tudo mal. Nem que o pae fosse para algum sertão

de selvagens. Você tem cousas!

--Pois sim, mas o que é certo é que se a demora fosse natural, elle é

que já tinha mandado aviso. Pois então não havia de saber a canceira e

susto que causava á menina?

Cecilia afastou-se, impaciente, d'esta Cassandra de cozinha, e voltou á

janella.

Estavam já accesos os lampeões da rua. As sombras da noite parecia

estenderem-se ao coração de Cecilia.

--A menina quer que traga luz?--perguntou a criada, entrando na sala.

Esta pergunta, obrigando-a a notar o adiantado da hora, soou

funebremente aos ouvidos de Cecilia.

--Não--disse ella, com voz alterada.--Luz, tão cêdo!

--Cêdo?! Onde vão as sete, menina! Está de ver que não vem.

--Que não vem! Que não vem! Você está douda, mulher? Pois não ha de

vir?--exclamou, com dobrada impaciencia e quasi com raiva, Cecilia,

debruçando-se mais na janella.

--A menina não faz nada em o esperar assim. Lá por estar ahi não é que

elle vem mais depressa--ponderou tolamente a snr.ª Antonia.

--Não lhe importe; deixe-me--disse-lhe sêccamente Cecilia.

--Uma cousa assim!--proseguiu a criada--Não que quando a gente mal se

precata! Sáe uma pessoa muito socegada de sua casa e só Deus sabe para

quê! Para onde iria tambem aquella creaturinha do Senhor? Quem póde lá

dizer o que lhe succedeu? Sume-te! Eu lembro-me de que um dia meu pae...

--Vá buscar luz, vá--ordenou Cecilia, para escapar ao caso, que Antonia

apparelhava, com o piedoso intento de tirar d'elle talvez uma inducção

pouco de tranquillisar.

Antonia saíu.

Cecilia, de assustada que estava, já não sabia o que fizesse.

Qualquer vulto, que assomava ao principio da rua, lhe parecia o pae;

seguia-o com anciosa curiosidade, cêdo transformava-se em desalento esta

curiosidade, porque o via passar indifferente para além da porta da

casa.

Andavam já bem perto dos olhos as lagrimas em Cecilia, quando Anlonia

voltou com a luz.

--Então, ainda nada?--perguntou a criada.

Cecilia não lhe respondeu.

--Quer que feche as janellas?

--Não.

--Não tem que ver; a cousa não é natural. O pae é amigo de recolher-se

cêdo e não era homem que não mandasse recado, no caso de, de todo em

todo, não poder vir. Ninguem me tira d'isto. Aquillo foi cousa que lhe

succedeu por lá.

O relogio deu meia hora depois das sete.

--Já sete e meia! Sempre é demais! Ó menina, eu vou extrahir o chá, não

acha?

--Não; cale-se para ahi. Quero lá saber de chá. Bem me importa a mim o

chá. Você perdeu o juizo?

--É que o snr. José Forrunato não tarda por ahi...

--Pois se vier, veio. Não tenho mais em que pensar, senão no snr. José

Fortunato! Deixe-me, deixe-me.

Antonia era d'estas pessoas, a quem as maiores inquietações não fazem

perder a ideia das suas obrigações habituaes. Emquanto o espirito se

perturba e a bôca lhe traduz os pensamentos, as mãos, independentes da

imaginação, proseguem na tarefa do costume.

Cecilia não; caracter apaixonado, era toda da ideia que a possuia. A

irresolução, que devia áquelle estado de anciosa duvida, para tudo a

inhabilitava.

Em nada consentia que lhe fallassem n'aquelle momento, nada queria

escutar, de nada queria saber.

Anciada, nervosa, impaciente, febril, passava de uma para outra janella,

voltava ao interior da sala, chegava ao patamar, e corria á janella

outra vez.

Em uma d'estas occasiões ouviu duas mulheres, que passavam na rua,

dizerem:

--Uma desgraça assim! Foram todos; uns morreram, outros ficaram

aleijados para toda a vida.

O coração de Cecilia bateu com violencia ao ouvir aquillo. Não pôde

reprimir-se, que não perguntasse ás mulheres de que desgraça fallavam.

E tremia de ouvir a resposta. Disseram-lhe que era de uma saibreira, que

desabára na vespera sobre uns trabalhadores. Respirou!

De outra vez, era um homem que viera a correr desde o principio da rua e

parára defronte da casa, irresoluto, como quem procurava reconhecer uma

de entre aquellas diversas moradas. Cecilia queria perguntar-lhe quem

elle procurava, mas quasi não tinha voz para o fazer, tal era o intenso

terror, que se apossou d'ella, ao ver este homem.

Parecia-lhe impossivel que não fosse algum mensageiro de desgraças.

A final conseguiu fallar-lhe. O homem procurava um vizinho.

Cecilia guiou-o, ainda mal restabelecida do susto que sentira.

Tendo voltado á sala ouviu tocar a campainha do portal.

Estremeceu alvoroçada de esperanças e de temores.

--Será elle?

N'este tempo já Antonia vinha no corredor e com fleugma inalteravel

atalhou:

--É o snr. José Fortunato; são as horas.

Cecilia voltou as costas despeitada e triste. Sentiu no coração uma

quasi má vontade contra o nocturno visitador.

Era de facto o snr. José Fortunato que chegava.

--Muito boa noite, menina; passou bem?--disse José Fortunato, ao entrar

para a sala.

--Muito afflicta, snr. José Fortunato, muito afflicta, não faz

ideia!--respondeu Cecilia.

--Sim?!--tornou o outro, pousando os varios artigos do seu complicado

vestuario, guarda-chuva, capote, _cache-nez_, luvas, chapéo, a caixa do

tabaco, e tomando assento no logar do costume.

--Pois não quer saber?--continuou Cecilia--meu pae saíu esta tarde, a

dar um passeio, e são as horas que vê, e não voltou ainda a casa!

--Na verdade, é... é celebre! Succeder-lhe-hia alguma cousa?

Pergunta suficientemente tola.

José Fortunato rivalisava com Antonia, na maneira de intervir na

presente crise; as suas palavras, longe de serem tranquillisadoras,

tinham por effeito exacerbar a inquietação e o susto.

Cecilia sentiu esse effeito, porque chegou logo á janella, com maior

anciedade ainda, dizendo a tremer:

--Que lhe havia de succeder?...

--O snr. Manoel Quentino--continuava José Fortunato, placidamente

sentado á mesa--havia já alguns dias que andava assim não sei como. Eu

disse-lhe ainda antes de hontem:--«Homem, é preciso olhar por isso,

antes que vá a mais; consulte alguem.»--Mas elle, não, senhor; _tinha_

lá aquelle genio.

A escolha do tempo para o verbo era para fazer redobrar os terrores de

Cecilia. _Tinha_! Este bom homem de José Fortunato era d'estas cousas;

dir-se-hia que, para elle, Manoel Quentino já não podia merecer as

honras do presente de um verbo! Não contente com isto principiou:

--Estas mudanças de tempo não são nada boas, sobre tudo em certas

idades. Tem havido por ahi muitas molestias repentinas. Ahi está que

aquelle Gambôa, que era empregado na camara, teve hontem um ataque de

apoplexia e foi-se, enquanto o diabo esfrega um olho.

--Jesus! snr. Fortunato; por quem é, não falle n'essas cousas!--exclamou

Cecilia angustiada--Se tivesse succedido alguma desgraça a meu pae, não

havia já de ter vindo alguem dizel-o aqui? Aquillo é que se demorou...

--Pois eu não digo, menina, que... mas ás vezes; olhe que a gente para

adoecer basta estar vivo e depois um desastre... Ahi está que tambem o

pae tinha um outro mau costume, de que eu tambem o avisei muitas vezes;

ia sempre áquelles vapores inglezes, quando elles entravam, e, apesar de

ser homem pesado, porque já não é creança, usava n'ísso de muito pouca

cautela, e, ás vezes, na atracação... Olhe que é uma cousa perigosa!

Para quem não sabe nadar...

As palavras de José Fortunato soavam aos ouvidos de Cecilia, como um

dobre a finados.

--Snr. José Fortunato!--disse ella, quasi erguendo as mãos--Não vê que

com essas palavras me mata? Demais, meu pae não tinha hoje de ir a bordo

de vapor algum. Hoje ao domingo! Estou a dizer-lhe que foi passeiar.

--Socegue, menina. Eu espero tambem que não tenha succedido nenhuma

desgraça. Isto era um modo de fallar. Deus é bom e sabe a falta que o

snr. Manoel Quentino cá fazia ainda. Nem quero que me lembre similhante

desgraça! Credo! Santissima Trindade! Ainda se elle fosse homem, que

tivesse regulado os seus negocios; mas parece-me que não fez ainda

disposições. Eu bem sei que tudo quanto elle tem é da menina, mas ainda

assim, havia ahi uns dinheiros mal parados... e... e... sempre é bom

olhar por essas cousas...

Cecilia não pôde reter o pranto, que lhe acudiu aos olhos a estas

lugubres considerações do seu interlocutor.

--Então não se afflija--dizia este, no mesmo tom de voz.--Que fazemos

nós em nos estarmos a affligir? não fazemos nada; por isso... E demais,

se fosse vontade de Deus que alguma desgraça acontecesse, a menina não

ficaria desamparada; tem amigos e protectores... Perdia um bom pae, isso

perdia; mas.

--Ó snr. José Fortunato, pelas almas, não me falle assim! Isso é

crueldade.

--Eu não digo isto para a affligir. Socegue. Mas n'estas cousas é bom

suppôr o peior.

E, ainda que nas melhores intenções, continuou o snr. José Fortunato

n'este homoeopathico systema de conforto.

A agitação de Cecilia augmentava.

--Antonia!--bradou ella, vendo passar a criada no corredor--Tenha

paciencia; eu não posso socegar. Esta incerteza mata-me, vá, vá você ao

escriptorio, vá por ahi, vá saber... vá procurar... O snr. José

Fortunato está agora aqui e... Vá. vá.

--Ó menina! não vê que é noite fechada?! Uma mulher só por essa cidade

abaixo, feita uma Maria tola!

--Ó creatura, então que tem?

--Ora essa? Então que tem?!

--Não é bonito, não--concordou José Fortunato, tomando posição mais

commoda.

Cecilia não lhe deu resposta, correu de novo á janella.

A rua estava deserta.

--Olhe se lhe faz mal esse ar--dizia José Fortunato.--A menina parece

que está já um pouco tomada da garganta. É preciso cautela; estas

constipações despresadas... Seria bom beber alguma bebida quente.

Ah! snr. José Fortunato, snr. José Fortunato! ahi anda já um pouco de

egoismo; a hora do chá vae passando. Ó barro humano!

--Não sei bem o que tem mão em mim, que não vou eu mesma!--exclamou

Cecilia ao voltar da janella--E se isto continúa assim, não respondo por

o que farei. Oh! Não ser eu rapaz!

José Fortunato não comprehendeu qual era o seu dever n'esta occasião.

Foi defeito de percepção e não de vontade.

A intelligencia era-lhe ronceira e as boas lembranças acudiam-lhe, mas

tarde; quando já não era tempo de realisal-as. Foi por isso que só teve

a dizer:

--Pois olhem o milagre! Se a menina fosse rapaz!... Mas desengane-se,

snr.ª D. Cecilia, se tiver succedido alguma desgraça ao pae, mais

minuto, menos minuto, ella ha de saber-se.

--Agradecida, pela consolação!--não pôde deixar de dizer Cecilia, com

manifesto mau humor.

--De uma vez tinha eu ido a um magusto, ahi para os lados da Cruz da

Regateira, e ao voltar...

Lá parecia ao snr. José Fortunato aquella occasião apropriadissima para

contar um caso.

Antonia dispunha-se para ouvil-o.

Cecilia fez um movimento de impaciencia e voltou para a janella.

No momento, em que chegou alli, avizinhava-se vindo da extremidade da

rua, opposta aquella d'onde ella esperava o pae, um homem a cavallo.

Era Carlos; voltava do costumado passeio extra-urbano.

Cecilia reconheceu-o, e acudiu-lhe uma lembrança.

Emquanto o cavalleiro vencia a distancia que o separava ainda de casa,

Cecilia voltou-se para dentro, dizendo:

--Então não querem ir saber de meu pae, não?

O emprego do verbo no plural foi um empuxão dado á pêrra intelligencia

do snr. José Fortunato, o qual, pela primeira vez, se lembrou de que

podiam ser de algum prestimo os seus serviços.

--Ó menina! mas não vê que é noite fechada?--disse Antonia, como, havia

pouco tempo, dissera já.

O snr. Fortunato estava ainda elaborando mentalmente a descoberta que

fizera. Cecilia não esperou pelo resultado de tal elaboração.

Carlos Whitestone estava por baixo das janellas d'ella, e cortejava-a.

Cecilia não hesitou.

--Snr. Carlos--disse com a voz tremula de sobresalto.

Carlos, surprendido por se ouvir chamar assim, aproximou logo o cavallo

da janella.

--Minha senhora?

--Perdôe-me, por quem é, isto que faço;--continuou Cecilia--mas desde o

principio da tarde que meu pae saiu e ainda não voltou a casa, nem

d'elle tenho noticia! Imagine o meu susto! Sabe por acaso, se...

--E para onde foi elle, quando saiu?

--Disse-me que ia passeiar... mas...

--E não voltou!--atalhou Carlos, estranhando tambem aquella excepcional

demora.

--Que lhe terá succedido, meu Deus?!--exclamou Cecilia, recebendo a

communicação da surpreza de Carlos e transformando-a logo no mais

apprehensivo terror.

As resoluções em Carlos eram tão promptas, como morosas em José

Fortunato.

--Socegue, minha senhora. Eu vou já saber d'isso e conte que, dentro em

pouco, lhe trarei aqui seu pae.

--Oh! muito agradecida, snr. Carlos, muito agradecida!--disse Cecilia,

com a voz repassada de gratidão.

Carlos cortejou-a de novo e partiu a galope.

Ao vel-o partir, a consolação de uma esperança entrou pela primeira vez

no coração de Cecilia.

Carlos era para ella um d'estes homens, que, se um dia tentam o

impossivel, conseguem-o.

Ao voltar-se, achou Cecilia, a dois passos de si, Antonia e o snr. José

Fortunato, que olhavam com physionomias estupidamente pasmadas.

--Que foi fazer, menina?!--disseram elles quasi ao mesmo tempo.

--Aquillo a que me obrigaram. Se podesse, ia eu. Ha muito que não

estaria aqui já, cansando inutilmente o espirito a procurar explicações

e só a encontral-as assustadoras; se tivesse mais alguem a quem

recorrer, não iria incommodar uma pessoa, a quem...

--Mas, n'esse caso, porque me não disse? então não estava eu

aqui?---perguntou José Fortunato, com a maior candura d'este mundo.

Cecilia fitou-o com olhar de raiva e nem lhe pôde responder.

--A fallar a verdade--disse Antonia--não sei o que parece! Pois a menina

vae assim, sem mais nem menos, fallar da janella para baixo, com aquelle

senhor?...

--Se a vizinhança por ahi visse...--acrescentava o outro, espreitando

para verificar se a sobredita vizinhança teria de facto visto--E então

quem? Um cabeça no ar... o filho...

--Basta!--exclamou Cecilia, não podendo já reprimir-se mais tempo--Era

escusado isto, era, se outras pessoas tivessem tido já a lembrança e a

caridade de o fazer. Ha uma hora que me vêem n'esta afflicção e só sabem

dar-me consolações, que fariam rir a quem não tivesse no coração esta

agonia que eu tenho. Agora então veem com os reparos da vizinhança; a

vizinhança não me tira uma só das canceiras com que estou, para que eu

me deva importar com ella.

José Fortunato estava deveras condoído por se não ter lembrado a tempo

dos seus deveres. Era sestro do homem.

--Ó snr.ª Antonia, faz favor de me vir alumiar--dizia elle, procurando

já munir-se dos seus numerosos petrechos de campanha.

--Onde vae? onde é que vae?--perguntou Cecilia--Já agora o que está

feito, está feito. Quando o snr. Fortunato fosse ao fim da rua, já o

snr. Whitestone teria corrido a cidade toda. É melhor ficar.

José Fortunato ficou.

Tambem era qualidade sua esta pouca tenacidade, com que pugnava pelas

resoluções tomadas.

No entretanto Carlos voava por toda a cidade, que, em pouco tempo,

atravessou de norte a sul.

Por milagre não atropellou ninguem. Muitos dos que escaparam áquella

carreira impetuosa, áquella velocidade, comparavel á do acrolitho,

ficavam a murmurar phrases, mais ou menos impacientes, contra o

imprudente cavalleiro.

Chegou, no fim de alguns minutos, ao escriptorio da rua dos Inglezes.

O silencio d'aquelle logar, a essas horas, formava perfeito contraste

com a animação que alli reinava nas manhãs dos dias de semana.

Carlos fez estremecer a casa com as rijas pancadas que descarregou na

porta.

Alguns vizinhos chegaram á janella.

O criado do escriptorio correu a receber as ordens do seu patrão mais

novo.

Carlos, mesmo a cavallo, perguntou-lhe se tinha visto Manoel Quentino

n'aquella tarde.

Disse-lhe o criado que o vira atravessar o mercado do peixe, em direcção

a Campanhã; que, sendo esse o seu passeio predilecto, era provavel

que...

Carlos não ouviu o resto, partiu a galope outra vez, na direcção

indicada.

--Sume-te!--disse o criado comsigo--Parece que leva diabo no corpo.

Com igual rapidez seguiu Carlos toda a margem direita do rio, horas

antes trilhada por Manoel Quentino. Era preciso ser excedente

cavalleiro, para se não esbarrar por um caminho d'aquelles, a taes horas

da noite e com tal impetuosidade de carreira.

Carlos dirigiu-se ao armazem de vinhos, que a casa Whitestone possuía em

Campanhã. Nas vizinhanças morava o mestre tanoeiro, que acudiu a saber

quem era e o que pretendia o nocturno cavalleiro, que ameaçava rebentar

as dobradiças das grossas portas de castanho do armazem.

Vendo Carlos, ficou espantado. Carlos perguntou-lhe por Manoel Quentino.

O homem respondeu que, ao cerrar da tarde, o vira subir a estrada do

Padrão, e que devia ter já voltado a casa havia muito tempo.

Carlos proseguiu a sua corrida, deixando tão estupefacto este, como

deixára o criado do escriptorio.

Na estrada passou por um grupo de sujeitos, que regressavam, cantando,

do «bom retiro» campestre, onde, á mesa e á sombra da ramada, haviam

passado a tarde inteira.

Carlos conheceu-os. Eram alguns dos mais folgazãos membros da classe

commercial, pela maior parte conhecidos de Manoel Quentino.

Ia a passar-lhes adiante, quando se lembrou de informar-se com elles

tambem a respeito do velho.

Responderam-lhe rindo e contaram-lhe da mystificacão, que o leitor sabe

já, porque eram estes os mesmos que nós já encontramos. Os homens riam

ainda, ao lembrarem-se da pressa com que Manoel Quentino galgára a

costeira de Campanhã.

--Que estupida graça!--disse Carlos, preparando-se para seguir o

caminho.

--Ora essa!--respondeu um do bando--Até será uma alegria para o velho,

quando chegar a casa e vir que...

--Se não tiver morrido antes pelo caminho--atalhou Carlos; e, picando o

cavallo, partiu a galope.

--O homem vae doudo--disse um.

--Esbarra-se!--acrescentou outro.

--É um inglez de menos. Que o leve o diabo.

E continuaram a cantar e a rir.

Carlos chegou em um momento á capella do Padrão.

D'ahi seguiu, a trote mais moderado, pela estrada, informando-se aqui e

além a respeito de Manoel Quentino. Poucos indicios colheu, até que por

acaso interrogou a mulher, á ombreira de cuja porta o velho

guarda-livros se encostára.

Esta deu-lhe assustadoras informações do estado em que o viu, e agourou

mal do destino do homem.

Verdadeiramente inquieto, proseguiu Carlos nas suas pesquizas, até

chegar á alameda do Repouso.

Em um dos bancos de pedra pareceu-lhe distinguir o vulto escuro de um

homem. Aproximou-se.

Com sentimento de verdadeira alegria, reconheceu Manoel Quentino.

Cêdo porém succedeu o susto a esta primeira impressão.

O velho estava immovel e com as feições transtornadas, como se fora

cadaver já.

Carlos segurou-lhe o braço, que sacudiu com violencia.

--Manoel Quentino! Manoel Quentino--bradava elle.

Respondeu-lhe um som rouco e inarticulado.

Carlos chamou-o mais alto outra vez.

Áquella voz conhecida, Manoel Quentino abriu lentamente os olhos e fixou

em Carlos a vista esgazeada.

--Que é isto, Manoel Quentino? Que faz aqui? Que tem? Diga: que lhe

succedeu?

Depois de alguns esforços, o velho conseguiu exprimir uma resposta

desordenada.

--Eu... eu vinha... não sei o que senti em mim... Quando me disseram

da... doença de Cecilia... quiz correr... e... e faltou-me a vista...

e... Eu já não estava bom... O frio... julgo que foi o frio... Por mais

que quiz ver se me movia... Agora mesmo.

--Socegue. Sua filha está boa e só com muito cuidado pela sua demora.

Veja se póde erguer-se.

--Mas... alli... em baixo... disseram-me...

--Foi uma estupida graça de uns senhores, que, avaliando a delicadeza

dos sentimentos dos outros por a dos seus, julgaram dever solemnisar o

1º de abril d'aquella maneira cruel.

--Deus lhes perdôe, se assim foi...

--Foi; disseram-m'o elles mesmos. Ande, venha. Não faça maiores

inquietações em casa, do que as que já vão por lá.

--Pobre filha!... Eu vou... mas não sei se...

Manoel Quentino tentou levantar-se, porém vacillaram-lhe os passos e

caíu sentado outra vez.

Carlos estava irresoluto; não sabia o partido que tomasse.

--Então, Manoel Quentino, veja se ganha forças. Experimente se póde

montar a cavallo.

Novo esforço do velho, succedido de igual resultado.

O embaraço de Carlos augmentava.

Pensava já em o levar na garupa, quando passou na estrada uma sege de

aluguer, que voltava para a cidade. O boleeiro deixava ir os cavallos a

passo e assobiava; uma especie de jockei dormia ao lado d'elle; Carlos

conheceu o boleeiro.

--Ó Gonçalo.

--Quem me chama?

--Vae vasio o carro?

O boleeiro reconheceu Carlos.

--Ah! é v. s.ª? Vae vasio, vae, sim senhor, meu patrão.

--Então ajuda-me a transportar para lá este sujeito, que está doente, e

leva-nos a toda a brida para a rua de...

O boleeiro correu a prestar o auxilio pedido.

--E tu--acrescentou Carlos, para o improvisado jockei--monta n'esse

cavallo, e leva-m'o a casa. Avia-te!

Carlos era obedecido como um dos freguezes de mais prompto e generoso

pagamento que havia na cidade.

--E olha--disse elle ainda para o jockey--de passagem vae ainda a casa

do doutor F. e pede-lhe que venha sem demora ver o snr. Manoel Quentino,

a sua casa. Dize-lhe que vaes do meu mando. Anda.

O rapaz partiu como um foguete.

Carlos e o boleeiro ajudaram Manoel Quentino a entrar na sege; dentro em

pouco faiscavam as pedras das calçadas sob as patas dos cavallos,

fustigados com toda a alma por o boleeiro, cujo ardor o estimulo de uma

gorgeta excepcional instigava.

Carlos tinha cumprido a promessa feita a Cecilia.

Foi com um grito de jubilo, que Cecilia, cujos terrores haviam

recrudescido com a demora, viu parar a carruagem á porta de casa e saír

d'ella o pae, amparado cuidadosamente pelo braço de Carlos Whitestone.

Os primeiros momentos absorveram-os inteiramente as expansões de

alegria.

Correu ao portal e ahi recebeu nos braços o pae, chorando commovida.

Desentranhava-se aquelle piedoso sobresalto em phrases soltas, sem nexo,

em exclamações, em perguntas, em beijos, em lagrimas e em sorrisos.

Manoel Quentino subiu as escadas apoiado de um lado em Cecilia, do outro

em Carlos. Foi assim que entrou para a sala, onde Antonia e José

Fortunato, no meio de felicitações, de perguntas, e até de conselhos,

lançavam olhares de desconfiança a Carlos, que nem attenção lhes dera

ainda.

Passada a primeira explosão de alegria, incoherente e irreflectida,

houve logar no coração de Cecíiia para duas ordens de sentimentos

oppostos.

O primeiro foi de gratidão para Carlos.

Estendendo-lhe amigavelmente a mão, disse-lhe, com um olhar, uma

inflexão de voz, e um rubor de faces, que multiplicavam o pouco valor da

palavra:

--Muito obrigada.

Phrase insignificante, que n'esta occasião teve mais eloquencia, do que

um discurso.

Depois inquietou-a outra vez o estado em que via o pae. A decomposição

do rosto, a pallidez, a tristeza não habitual, reproduziram vivos os

receios, que a chegada d'elle serenára.

Interrogou-o então sobre os promenores do succedido. Carlos deu uma

rapida explicação. Cecilia escutava-o com o sobresalto do susto e

lagrimas de reconhecimento. Antonia e José Fortunato acharam nos factos

pretextos para formularem conselhos de prudencia, a que elles só deram

attenção.

Cecilia redobrou de cuidados para com o pae: que os aceitava com certa

frieza morbida, que a assustava.

Carlos associou-se por vezes á joven e carinhosa enfermeira e, com tão

intelligente solicitude, que obteve d'ella frequentes sorrisos de

approvação e de agradecimento.

Quando o medico chegou, ainda Carlos não deixára a casa.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 18 / 30 段