Cecilia, ainda mal senhora sua, fez signal á criada, que, collocada no

limiar da porta, mostrava poucas disposições de abandonar o posto, e por

isso fingiu não perceber a ordem, apesar de ter entendido bem até as

palavras de Carlos.

O genio de Cecilia precisava de reagir contra o enleio, que a tomára;

encontrou auxiliar na impaciencia com que repetiu a ordem, acrescentando

com certo desabrimento:

--Saia.

Antonia não resistiu. Subiu as escadas, de mau humor, resmungando:

--Olhem agora o peralvilho! Ora já viram! Louvado seja Deus! Sempre ha

gente n'este mundo! Que não vá eu descobrir o grande segredo! Melhores

barbas do que as d'elle teem confiado na filha de meu pae. O snr. doutor

Raposo, um lettrado de mão cheia... pois não punha nenhuma aquella em

fallar diante de mim dos seus autos e demandas. Servi tres annos o

doutor Dionysio, e, depois de jantar, contava-me tudo o que via e ouvia

por casa das familias, onde tratava de medico. E, graças a Deus! nunca

tiveram de se arrepender d'isso. Está para nascer o primeiro que tenha

razão de queixa da minha lingua... Olha agora .. O lerma, o magricellas,

o dois de paus...

E procurando parodiar burlescamente os modos de Carlos:

--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?!... Tem duvida, tem,

sim, senhor; e então que acha?... Ou, se não tem, devia ter... Então

escuta-se assim um creancelho, um homem, que nem põe navalha na cara,

sem estar presente uma pessoa de juizo? Hein?--E ella então: «Saia!»

Gósto d'isto! «Saia»; não que elle não ha mais «Saia». Não sáe, não,

senhora, não sáe assim com essa pressa. Ora ahi está... Ou se sáe é

porque... é porque... é por a gente querer viver bem com todos; é o que

é... não é por mais nada!

A palinodia prolongou-se n'esta afinação; e a reputação de Carlos ficou

de rastos no conceito da snr.ª Antonia.

Logo depois de se perder nas escadas o som dos passos de Antonia,

Cecilia, tremula e confusa, continuou:

--Não posso ainda imaginar a que deva a honra...

Carlos não a deixou proseguir.

--Perdão, minha senhora, v. exc.ª deve suppôr qual o fim, que me levou a

solicitar este favor...

--Eu?!--perguntou Cecilia, a tremer.

--Sim, minha senhora--continuou Carlos--se v. exc.ª me conhecesse, se

tivesse aprendido a fazer-me justiça, devia prever, ao ver-me entrar

hoje aqui, em sua casa, que só um motivo me podia trazer.

--E era?--murmurou Cecilia, quasi receiando-se da resposta.

--Pedir-lhe perdão, minha senhora.

--Perdão!...

Cecilia sentiu o atordoamento precursor da vertigem, ao ouvir aquellas

palavras.

--Sei tudo, minha senhora--proseguiu Carlos--e acredite que tenho

sinceros remorsos de não haver adivinhado logo; nunca senti assim o

effeito das minhas leviandades.

--Mas... sabe... o quê, senhor?--balbuciou Cecilia, como se tentasse

ainda duvidar do que era já certeza para ella.

--Não me quer poupar ao desgosto de recordar uma scena, em que eu fui

tão culpado?

--Pois Jenny disse-lhe?--exclamou, quasi involuntariamente, Cecilia,

como fallando comsigo mesma.

E os olhos brilharam-lhe de lagrimas, prestes a desprenderem-se-lhe

pelas faces.

Carlos atalhou-a:

--Não, minha senhora; Jenny não foi indiscreta. O acaso revelou-me tudo

o que eu, desde aquella noite, tanto desejava saber. Minha irmã apenas

me fez comprehender bem toda a pouca delicadeza do meu procedimento e a

necessidade de uma justificação; é essa que eu venho aqui offerecer-lhe.

V. exc.ª tem direito a ella, como o teria Jenny e como eu o exigiria de

quem tratasse minha irmã... tão grosseiramente, como eu tratei v. exc.ª

--Mas, snr. Carlos, toda a culpa tive-a eu...

--Não diga isso! Insistir em não me reconhecer culpado é apenas uma

maneira delicada de recusar-me o perdão que, de proposito, vim aqui

implorar-lhe.

Cecilia não respondeu; Carlos proseguiu:

--V. exc.ª é a melhor amiga de Jenny; ella mesma, hontem, m'o disse.

Peço-lhe que me não julgue indigno da sua amizade tambem, minha senhora.

Eu supponho-me igualmente o melhor amigo de minha irmã. Duas pessoas,

que teem assim a estima de um anjo, como aquelle, devem estimar-se uma á

outra; não lhe parece?

--Mas eu, snr. Carlos, nunca tive motivos para... não tenho direito para

deixar de... estimal-o.

--Perdôa-me portanto?

Cecilia guardou por algum tempo silencio, depois, fazendo esforço sobre

si mesma, disse com vivacidade:

--Snr. Carlos, não fallemos mais n'isto, peço-lhe... Esqueçamos tudo,

como se tivesse sido um sonho... mau.

E terminando assim o pensamento, baixou os olhos, como desfallecida pela

violencia da lucta, que sustentára.

Carlos não replicou immediatamente. Houve um silencio de alguns

segundos, incommodo para ambos; emfim, olhando para Cecilia:

--Esquecer!--disse Carlos, de uma maneira, que parecia mostrar não lhe

ser demasiado grata a proposta, e depois acrescentou:--Pois sim...

Esqueçamos, visto que assim o quer. Mas eu tenho a esquecer,

arrependendo-me; já o fiz; v. exc.ª, perdoando; por que recusa fazel-o?

Perdôa?

Cecilia ia de novo negar-se a admittir-lhe a culpa, mas, erguendo os

olhos, viu Carlos que lhe estendia a mão e, sem bem attentar o que

fazia, estendeu também a sua, murmurando:

--Perdôo.

Quando, reflectindo, a quiz retirar, e juntamente a palavra, já não era

tempo.

Logo que ouviu de Cecilia o perdão, que viera de proposito solicitar

alli, Carlos levantou-se.

--Obrigado, minha senhora--disse elle.--Cumpri o meu dever; agora parto

satisfeito.

A pobre rapariga não podia responder mais nada; se ainda lhe estava

parecendo um sonho tudo aquillo!

--Mais duas palavras só;--disse ainda Carlos, pegando no chapéo--quando

v. exc.ª chegou, não estava eu aqui dentro; reparou? N'esse momento,

minha senhora, acabava de fazer uma singular decoberta.

--Uma descoberta?!

--Muito singular. Ha poucos dias--continuou Carlos, aproximando-se da

janella, junto da qual estava já Cecilia--passeiava eu n'aquelles

pinheiraes... acolá. Meditava... nem posso bem dizer em quê. Não sei de

que maneira me attrahiu a vista, e depois me occupou a imaginação, uma

casa, que avistei d'alli. Tinha a varanda revestida de trepadeiras, uma

roseira no intervallo das duas janellas e, no andar de cima, apparecia

frequentemente uma senhora, toda occupada em trabalhos domesticos,

n'esse lidar modesto, que rodeia, a meus olhos, de suave perfume de

poesia as mais bellas figuras de mulher.

Cecilia baixou os olhos, córando, e pareceu entretida a examinar a

andarella do castiçal de vidro, que lhe ficava á mão.

--Imagine agora a minha surpreza, quando, ha pouco, chegando aqui,

reconheci esta varanda, esta janella, esta roseira, por as mesmas que de

tão longe me haviam chamado a attencão. D'ahi--acrescentou,

sorrindo--facil me foi concluir quem era a senhora. Não haverá mysterio

n'isto? Não parece que esta roseira queria aconselhar-me de longe o

passo que hoje dei? Eu, por mim, estou tentado a crêl-o, e tanto que,

por gratidão, peço-lhe licença, minha senhora, para levar commigo uma

memoria d'ella. Permitte-me que córte uma d'aquellas flores?

Cecilia só pôde sorrir em resposta, baixando a cabeça.

Carlos aproximou-se da japoneira e cortou um botão, ainda mal

desabrochado; voltando á sala, curvou-se respeitosamente diante de

Cecilia, e, depois de mais outra phrase de cumprimento, saíu.

Ella viu-o saír, sem que fizesse o menor movimento, e por muito tempo

permaneceu no mesmo logar e na mesma posiçao em que havia ficado.

Dominava-lhe o espírito um turbilhão de ideias, que ora o mortificavam,

ora, não sei de que maneira, o embalavam agradavelmente.

Foi ainda Antonia quem fez cessar mais esta abstracção.

--Então quem era a final este senhor de tantos recatos e

cautelas?--perguntou a criada, a quem a curiosidade mordia com

verdadeira sofreguidão.

--Pois não conheceu? Era o filho do snr. Ricardo, do patrão do pae...

--Ai sim?! Como está um homem! A ultima vez que o vi, era elle uma

creança... Pois olhe que... a respeito de educação... póde com a que

tem... Sempre é herege!

--Por que diz isso?

--Então não viu o descôco, com que lhe pediu, e na minhã cara, para me

mandar embora? E a menina então... foi logo! E que queria por fim este

chincharabelho?

--Nada... E sabe?... Escusa de fallar a meu pae... n'esta visita...

--É porque... Jenny... e o irmão querem causar uma surpreza a meu pae...

para o dia dos annos d'elle e... avisam-me... por isso...

Decididamente Cecilia não tinha geito para mentir; hesitava, córava, a

dizer isto, que não era possivel illudir-se ninguem.

A criada que, segundo ella mesma dizia, tinha olhos para ver, notou este

rubor e confusão, e commentou-os a seu modo:

--Aqui anda cousa. Ora queira Deus, queira!... Nem sei se diga ao snr.

Manoel Quentino... Mas nada, nada; ella lá sabe voltar o pae para onde

quer e a final quem fica mal sou eu. Lá se arranjem... Humh! Uma

surpreza para o dia dos annos. Pois não foste! Para mim é que elles veem

com isto!

Cecilia, procurou encerrar-se no quarto; pegou de novo na costura; mas

posso afiançar que não adiantou o trabalho.

Manoel Quentino tinha razão; alguma cousa affligia a filha.

XVIII

CONTAS DE JENNY COM A CONSCIENCIA DE CARLOS

Saíndo de casa de Manoel Quentino, Carlos não ia menos agitado, do que

deixára a filha do guarda-livros.

Aquella visita de Carlos, visita que, a seus proprios olhos, elle

procurava fazer passar como a mais natural reparação de uma das suas

muitas leviandades, talvez perante a analyse imparcial tenha de receber

outra qualificação, que não a de um cumprimento de dever.

Se se tratasse de outra mulher, que não fosse Cecilia, de outra com

menos graças attractivas, embora com mais direitos ainda á reparação,

talvez Carlos não chegasse a convencer-se tão profundamente e tão

depressa, como parecia ter-se convencido, da instante e imperiosa

necessidade d'aquelle passo que dera; talvez o pensamento de tal visita

o não tivesse possuido toda a noite e, pelo menos, não se resolveria por

certo a realisal-o, sem haver consultado Jenny, a sua boa conselheira em

todos os actos da vida; mas, longe de a consultar, antes lhe andou

occultando com cuidado o projecto emquanto o meditava, como com receio

de ser dissuadido d'elle.

Ha certos homens, escrupulosos respeitadores da lettra das leis, que

praticarão desafogados qualquer acção, averiguadamente illicita, sempre

que possam sophismar os artigos do Codigo de maneira que se resalvem da

pronuncia judicial; dando-se-lhes pouco que o espirito, que os dictára

ao legislador, fique muito maltratado pelo sophisma.

Isto, que se pratíca com as leis civis, poucos são os que, todos os dias

e a cada momento, o não fazem tambem em relação ao codigo intimo da

consciencia. Raros ousam, se alguns, arrostar contra as prescripções

d'este juiz inflexivel e perscrutador, e confessar o delicio

desassombrados; quasi todos as discutem, as torcem, as commentam,

alteram e sophismam, até as pôrem em accôrdo apparente com os actos que

praticaram.

O orgulho leva muitas vezes o criminoso a recusar defender-se nos

tribunaes humanos; nem o despreso geral, nem as severidades da lei são

bastantes para o obrigarem a vergar a cabeça; tem coragem para adoptar o

crime, deixando-lhe o nome de crime; mas esse mesmo, a sós, no tribunal

da consciencia, procurará com ardor pleitear a causa, que abandonou

perante juizes, de cujas mãos pôde saír a sentença de morte.

Longe de nós o querer estabelecer analogias, muito intimas, entre estes

perpetradores de grandes maldades e Carlos, que, para com a consciencia,

só tinha a justificar-se de um d'esses peccaditos que, mais ou menos, ha

de forçosamente commetter quem tenha nas veias um sangue de vinte annos.

Mas é um tal jury o da consciencia, que, sempre que taes pleitos são

necessarios no seu tribunal, a causa é já por isso má. Para as justas

dispensa advogados.

Não procuremos illudir-nos nós, como Carlos; sem querer duvidar dos bons

sentimentos d'elle, póde-se ir buscar outras razões para a visita, cujos

promenores no ultimo capitulo relatamos.

O que é fóra de duvida é que depois d'aquella vigilia, em que o leitor o

viu, não teve Carlos pensamento e imaginação, senão para descobrir um

meio de tornar a encontrar-se com Cecília, e de fallar-lhe.

O resultado foi o que sabemos.

Se havia sido tão profunda a impressão produzida por a casual revelação

do theatro n'aquelle espirito affectado já de vagos preludios do mal,

mais a fundo se gravou ainda depois da visita feita a Cecilia.

Parecia que nas poucas palavras que n'essa entrevista Cecilia

pronunciára, Carlos tinha decifrado sentidos occultos; pensava n'ellas.

Depois a coincidência de ter sido quasi evocado por aquella mal

distincta figura de mulher, quando dias antes fitára de longe

distrahidaraente os olhos em uma janella, avultava-lhe agora como uma

cousa acima do simples acaso; por pouco estava a acreditar que a secreto

influxo lhe haviam n'esse dia obedecido os olhos.

Vejam se não é serio o estado do coração de Carlos, que assim está quasi

a tornal-o supersticioso.

Eram duas horas da tarde, quando Carlos chegou a casa. Tomando logo por

a rua do jardim, para onde se abriam as janellas do quarto da irmã,

parou por baixo d'ellas, e bateu nos vidros uma leve pancada.

Pouco depois agitaram-se, afastando-se, as cortinas, e o vulto de Jenny

acudiu áquelle signal.

--És tu, Charles?! A estas horas!

--Pódes fallar-me, Jenny?

--Entra.

Carlos tornou outra vez por a rua, por onde viera; entrou no portal;

atravessou alguns corredores e dentro em pouco achava-se no quarto de

Jenny.

Jenny estava occupada na feitura do enxoval de uma creança

recem-nascida, cuja pobre familia era soccorrida por a bondosa menina.

Carlos sentou-se ao lado da irmã.

Jenny continuou a trabalhar.

--Então que milagre é este? As magnolias do jardim haviam de fazer um

espanto ao verem-te entre si a estas horas do dia!

--Sabes d'onde eu venho?--perguntou Carlos, em vez de responder, e

brincando machinalmente com um colar de coraes, que tirára de cima do

toucador.

--Eu, não--disse Jenny sem olhar para o irmão.

--Venho de casa de Manoel Quentino.

--De casa de Manoel Quentino? E a que foste lá?

--Pedir perdão a Cecilia.

Houve um intervallo de silencio.

Jenny voltára-se subitamente para Carlos, fixando n'elle o olhar serio e

penetrante; Carlos com a cabeça baixa parecia todo absorvido na tarefa

de contar o numero de coraes, de que se compunha a enfiadura.

--Dizes a verdade, Charles?--perguntou Jenny, ainda immovel, e

continuando a fital-o.

--Então por que não ha de ser isto verdade?--replicou Carlos, tambem na

mesma posição.

-E fallaste-lhe?

--Fallei.

--Que lhe disseste?

--Confessei-me culpado de quanto tivera logar n'aquella noite do baile

e... pedi-lhe perdão...

--E ella?...

--E ella...--proseguiu Carlos, pousando emfim o colar--depois de algumas

modestas hesitações... perdoou-me.

--Ah! Charles, Charles! Essa tua cabeça!...--disse Jenny a meia voz, e

com inflexão benignamente reprehensiva.

--Então--tornou-lhe Carlos com modos de ligeiro enfado--Não fiz bem? Não

era esse o meu dever? Eu esperava até que me applaudisses a acção e

tu...

A estas palavras Jenny não pôde reprimir um movivento de impaciencia;

arredou a costura em que trabalhava, tomou as mãos de Carlos, e fitando

nos d'elle os olhos limpidos e serenos, como o céo de primavera,

perguntou-lhe com um meio sorriso:

--Falla-me a verdade, Charles. A verdade só, entendes? Para que

procuraste tu Cecilia?

--Que pergunta! Pois não te disse já? Não era do meu dever?...

--Não, não era. Melhor seria fingires sempre que ignoravas tudo, do que

dares áquella pobre menina motivo para córar na tua presença. Esse acto,

que dizes eu devia applaudir, não partiu do teu coração, que é muito bom

e muito generoso, partiu mas foi d'esta cabeça--e pousava-lhe a mão na

fronte;--d'esta cabeça, que é uma estouvada.

--És injusta d'esta vez, Jenny.

--Não sou. Quero acreditar que te illudisses a ti proprio; mas, se

pensares melhor, verás que tenho razão. Hontem, ao saíres do theatro,

estavas triste. Bem o senti. E por que estavas triste? Eram remorsos

pela má opinião, que tinhas formado de quem te merecia sómente

respeitos, que não tiveste?

--Eram.

--Não eram, Charles, não eram. Para que procuras tu enganar-me? Não

eram. Tu sómente lamentavas o fim de uma aventura, á qual tinhas

imaginado mais longa duração. O caracter da pessoa, de que se tratava,

mostrava-te, depois que a conheceste, que eram sem fundamento as tuas

esperanças, e tu então...

--Jenny!

--Para que o queres negar? Olha que eu tenho a vaidade, e o orgulho

tambem, de saber ler nos teus pensamentos. Ha muito o aprendi e tu mesmo

me auxiliaste.

Carlos baixou os olhos e principiou a torcer machinalmente a corrente do

relogio.

Desde este momento a victoria era de Jenny. Ella comprehendeu-o e

proseguiu:

--Depois a imaginação, essa travêssa imaginação, que nós ambos

conhecemos, pôz-se a trabalhar. Ella não podia resignar-se a ver

terminar tão depressa o romance, que phantasiára tão longo, e lidou, e

lidou, e apesar de te recolheres hontem mais cêdo, não durou a tua

vigilia menos do que a d'aquella celebre noite do carnaval; não é

verdade? Confessa. E o coração a dizer-te, muito baixo, que devias...

que era mais generoso deixar acabar tudo alli, e a imaginação a crear

difficuldades, a inventar deveres, a entreter-te de não sei que pontos

de honra muito exigentes; e então o coração, o pobre coração, que cada

vez ia perdendo mais terreno, a lembrar-te que pelo menos consultasses

tua irmã, Charles, e a outra, a má, nem isso te concedeu; provou-te a

vantagem de me occultares tudo! Tinha mêdo de que eu podesse

dissuadir-te! E tu a obedeceres á imaginação, e a levantares-te, a

partires, a procurares Cecilia, e a pedir-lhe um perdão de creança, que

em outras circumstancias te faria rir, e a pobre menina a conceder-t'o,

sem bem saber o que fazia. Confessa, Charles, confessa, a verdade

d'isto.

Carlos não pôde disfarçar um sorriso, e, levando aos labios a mão que a

irmã pousára na sua, murmurou:

--Feiticeira!

Jenny sorriu tambem.

--Na verdade!--proseguiu ella, d'ahi a pouco--é uma forte imaginação

essa tua, que tanta cousa consegue de ti! e comtudo...--acrescentou,

cobrindo-se de repente de mais seriedade--e comtudo eu prefiro ainda

dirigir-me ao teu coração, que tambem é forte, porque é muito sensivel e

muito generoso e que a ha de poder vencer; não é verdade? É a elle que

eu vou fallar, Charles, e espero que serei escutada.

--Falla, Jenny, falla. Aconselha-me. Bem sabes que ha muito te tenho por

meu bom anjo. Falla--disse Carlos, affectuosamente.

--Ora dize-me, Charles--continuou Jenny, cada vez mais commovida:--não

imaginas o que póde resultar d'essa tua phantasia, a deixares-te assim

arrastar por ella? Cecilia até hoje tem sido feliz. No passado não tinha

nada que a envergonhasse ou que lhe désse pena; no futuro não antevia

nuvem, que de longe a ameaçasse. Era uma vida aquella tranquilla e

serena, como não imaginas. Mas Cecilia tem dezoito annos, Charles, e um

coração cheio de confiança e uma imaginação... um pouco á similhança da

tua... Conheço-a, a ella tambem. Se alguma vez se apoderar d'aquelle bom

espirito qualquer ideia, se passar uma hora a acalentar qualquer

illusão, acredita que já não será sem esforço, e sem dor, que a

arrancará de si. E dize-me, Charles: a tua consciencia, que é justa, não

havia de querer mal, e muito, á tua phantasia, que é uma enganadora, se

ella fizesse, com seus conselhos, nascer essa illusão, obrigando-te a

sacrificar ao capricho de uma manhã o futuro inteiro de uma existencia?

--Mas de que maneira imaginas tu esse sacrificio?--interrogou Carlos,

levantando os olhos para a irmã.

--De que maneira? Pois dize-me: se Cecilia, que podia esquecer aquella

scena do baile e todas as suas consequencias, principiasse, depois da

tua visita, a pensar mais n'ella? se, sabendo-te senhor de um segredo

seu, principiasse a... a pensar mais em ti? se, córando na tua presença

de acanhamento ao principio, pouco a pouco... quem sabe lá?... viesse a

córar... de commoção... de... amor?...

E, ao pronunciar esta palavra, as faces de Jenny tingiam-se de desmaiado

carmim.

Carlos sorriu, vendo-o.

--Tu ris, Charles? É porque estranhas em mim estas palavras ou por

suppôres infundados os meus receios? Em qualquer dos casos não tens

razão. O que não conheço por mim, ha muito aprendi a conhecer por os

outros, e por ti, Charles, principalmente por ti. Eu sei como essas

cousas se passam; como o capricho se transforma em ideia fixa, como a

ideia arrasta após de si a paixão. Eu sei, Charles; que o tenho visto em

ti e sei que Cecilia tem imaginação, como a tua, que a póde conduzir a

esses extremos; com a differença de que em ti a paixão transforma-se

ainda em esquecimento, e n'ella... Se te viesse a amar...

--Que grande mal! Amal-a-hia eu tambem, Jenny.

Jenny desviou a cabeça, procurando exprimir enfado, e tornou-lhe:

--Eu a fallar-te ao coração, Charles, e tu a responderes-me com a

phantasia! Creança de vinte annos! quando se te poderá fallar serio?

Pois bem; ás creanças permitte-se-lhes brincar, menos com os objectos,

com que não sabem lidar ainda. Tu ainda não aprendeste a lidar com os

affectos e com o coração dos outros, sem perigo para elles. Por isso eu

te peço que não continues. Não imaginas o que poderia resultar d'ahi, em

que luctas te verias envolvido, se um dia...

--Eu tenho coragem para luctar--disse Carlos, um pouco estouvadamente.

--Guarda-a para quando a lucta for inevitavel; mas não provoques tu

mesmo a experiencia, que é sempre dolorosa.

--Não te comprehendo.

--Eu só te peço, Charles, que deixes de uma vez esse capricho, que te

senhoreia ainda, bem o vejo. Pára, Charles, pára, se queres evitar no

futuro o arrependimento tardío; pára, se te queres poupar a remorsos. É

a tua irmã, que te pede isto, e tu... dizias estimar-me...

--Não faltava senão que o duvidasses agora, Jenny--disse Carlos, meio

agastado.

--Não duvido, Charles, e tanto que tenho fé em que has de saber vencer

esse capricho.

Carlos baixou a cabeça e ficou silencioso por algum tempo.

--Não sei, Jenny--disse d'ahi a pouco, levantando-se e passeiando no

quarto--não sei até se é só capricho isto.

--Então é já paixão?--disse Jenny com olhar malicioso, e pegando outra

vez na costura, em que trabalhava--Uma paixão de dois dias! Como cresceu

depressa! Vamos, Charles; não sejas creança. Contento-me com que

interrogues desapaixonado a tua consciencia, e o que ella te disser...

--Ai, não te fies muito na minha consciencia, Jenny. Não vês como ella

me aconselha?

Jenny fez um gesto de incredulidade, olhando para o irmão.

--Ella? Então foi devéras a consciencia que te aconselhou a visita a

Cecilia? Falla com franqueza.

Carlos não pôde insistir.

Continuou passeiando com os olhos fitos no chão.

A final parou, e olhando para a imagem da irmã, que do espelho o fitava,

disse, com modo sacudido:

--Vou tentar obedecer-te, Jenny; mas receio...

--Não me falles em receios. Sem fé nada se alcança, incredulo. Coragem!

ainda ha pouco te gabavas de a possuir para as luctas.

--Adeus, Jenny. O que te posso dizer é que se podér desvanecer em mim

esta impressão que me causou Cecilia...--Bem vês que te estou fallando

agora com franqueza--não receiarei nunca mais pelo meu coração.

--Recordo-me de já me teres dito uma cousa assim... de outra vez.

Carlos ia a responder, mas, como se procurasse fugir a uma conversa que

o mortificava, saíu com precipitação do quarto.

Jenny viu-o saír e ficou pensativa.

Momentos depois entrou Elisa com uma carta.

--De quem vem isso?--perguntou Jenny.

--De casa do snr. Manoel Quentino.

Jenny conheceu a lettra de Cecilia. Abriu a carta e leu:

«Minha boa Jenny.

Contra o que lhe tinha promettido, não me é possivel hoje visital-a.

Não me sinto boa, e receio ter de me conservar em casa por alguns

dias. Meu pae mostra-se inquieto pela minha saude e ainda que não

seja senão para o tranquillisar, preciso de privar-me do prazer de a

ver. Jenny, lembre-se de mim e peça a Deus que me conceda a bondade

de coração e a serenidade de espirito da menina, pois com este meu

genio e cabeça, duvido da felicidade na vida. Adeus.

Sua amiga,

_Cecilia_».

--Ah! tambem ella!--murmurou Jenny, ao terminar a leitura, e ficou mais

pensativa do que antes, e uma pequena ruga desenhou-se-lhe na fronte.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 15 / 30 段