falta... Ah... mas a marca também!... um C.!... Este lenço é de Cecilia!
Como é possível?!...
Jenny julgou que era tempo de intervir.
--Ora ahi temos o snr. Manoel Quentino embaraçado com uma cousa bem
simples--disse ella, rindo.--Esse lenço, é de Cecilia, é; que duvida?
Deixou-o ella, por esquecimento, ha dias... na terça-feira... em minha
casa. Este buliçoso tem o costume de levar tudo do meu quarto, sem me
consultar, e, julgando que era meu...
--Ah! bem me parecia que era o lenço que eu tinha dado a Cecilia. Estava
admirado!
Carlos olhava para Jenny e para Manoel Quentino, como sem saber ainda
bem o que pensar d'aquillo.
--Espero que m'o restituirás--disse Jenny--a mim é que compete
entregal-o a Cecilia.
Carlos ia a responder, talvez imprudentemente, quando um gesto da irmã
lhe impôz silencio e acabou de explicar tudo.
Emfim já não era mysterio para elle o nome da desconhecida do baile.
Tirando o lenço das mãos de Manoel Quentino e entregando-o á irmã,
disse, com entonação de intelligencia, para esta:
--Tens razão, Jenny. És tu, a quem compete entregal-o. Acredita que foi
por esquecimento que eu não te fallei n'este... roubo... O que reputo
uma felicidade.
--Porquê?--perguntou Jenny, fazendo-se séria.
--Por... por causa da surpreza que veio agora causar ao nosso amigo
Manoel Quentino.
--Não, eu só estranhei...
Jenny mudou o assumpto da conversa.
Carlos ficou pensativo. Voltou á plateia, ao principiar o segundo acto.
Todos lhe estranharam a distracção e a indifferença com que assistia á
discussão, que ainda durava, sobre o facto da pateada.
Nem mais attenções lhe mereceram os cantores e a opera.
Jenny observava-o do camarote, e não deixou de reconhecer essa
indiferença na posição invariavel, em que elle se conservou durante dois
actos e um intervallo inteiro, como alheio a tudo o que em volta de si
se passava.
--Que resultará agora de todo aquelle meditar?--pensava a irmã.
Ao principiar o ultimo acto, Carlos voltou ao camarote.
Manoel Quentino, não podendo luctar mais tempo contra a força do habito,
adormecera. Mr. Richard estava absorvido em um dialogo, com um seu
compatriota, de cabellos e suissas côr de neve, gravata da côr das
suissas, e tez côr de rosa de Alexandria; fallavam nos triumphos lyricos
da celebre Malibran, que ambos tinham, quando rapazes, escutado em
Londres; no estylo de canto da phenix dos tenores--o famoso Rubini, o
qual haviam admirado em 1831, no _Queen's Theatre_; no _D. Giovanni_, de
Mozart, musica de que nunca se saciam os tympanos britannicos; e na
_Beggar's Opera_ de Gray--protesto do gosto nacional contra a escola
italiana, que se riu do protesto.
Carlos, sentando-se junto da irmã, podia pois julgar-se a sós com ella.
--Então a minha bella incognita do dóminó de seda...--principiou elle.
Jenny olhou receiosa para Manoel Quentino.
--Não tenhas mêdo--disse Carlos.--Dorme e ameaça resonar.
--Estás agora convencido, Charles--disse Jenny ainda a meia voz--da
verdade do que eu te dizia aquella manhã?
--A respeito?...
--A respeito da tua aventura da noite de carnaval. Cecilia é uma menina
bem educada e de grande delicadeza de sentimentos. Deu imprudentemente
aquelle passo, que Deus sabe quantos desgostos lhe poderia vir a causar,
se a tua generosidade não prevalecesse a final sobre as tuas...
loucuras; como ha de continuar a prevalecer ainda, assim o espero. Não
estiveste tu mesmo para a perder no conceito dos que a não respeitam,
porque a não conhecem? Não terias agora remorsos?
--Mas Cecilia...
--No mesmo dia, em que tu me fallaste n'isso, me veio ella contar tudo.
Tambem tenho a sua confiança. E se soubesses com que receios o fez! se
visses com que lagrimas não fingidas me interrompeu, quando eu lhe ia a
confessar o que pensavas das mulheres, que se encontram sós e mascaradas
n'aquelles logares!
--Pois tu disseste-lhe... Ó Jenny!...
--O bastante para a acautelar de passos, como aquelle; visto que nem
sempre apparecem protectores que, no meio das suas velleidades,
conservem ainda uns restos de sentimentos generosos...
--Valha-te Deus, Jenny! Mas... na verdade que me custa ainda a
acreditar! Pois era Cecilia! Confesso-te, Jenny, que nunca suppuz que
aquella rapariga tivesse tanta graça, tanta intelligencia, tanto...
--Não é d'essa injustiça que eu desejo ver-te arrependido, Charles, mas
antes da do conceito que fizeste de Cecilia, do modo como a trataste, só
por a veres onde nem quizeste suppôr que podesse estar tua irmã...
--E repito!--acudiu Carlos, com vivacidade.
--Pois bem, Charles--respondeu Jenny placidamente, mas em tom
reprehensivo.--Digo-te eu então que as qualidades, que a vida inteira de
Cecilia dão-lhe direito a exigir de ti tanta consideração e estima, como
a que dizes ter-me. É ainda hoje a minha melhor amiga.
Carlos olhou para a irmã, admirado; tal era a gravidade, que lhe
descobriu no olhar e na voz.
Devemos confessar que elle nunca viu em Cecilia outra cousa mais do que
uma rapariga bonita, a qual muitas vezes lhe merecera olhares
complacentes, mas de quem tão depressa se esquecia, como d'ella se
afastava.
Recordo-me de haver dito, que esta qualidade, de não desafiar
immediatamente impressões profundas, caracterisava a especie de belleza,
que Cecilia possuia.
Nos seus dotes moraes nunca pensára Carlos; e para que havia elle de
pensar n'isso? Por estes motivos a seriedade, de que se revestira
subitamente o rosto de Jenny, impressionou-o.
--Bem, Jenny--respondeu elle, fazendo-se serio tambem.--As tuas palavras
rehabilitariam até aquelles que precisassem de ser rehabilitados. E
Cecilia, creio-o firmemente, não está n'esse caso. Censuras, em tudo
isto, só as mereço eu. Hei de provar-te que assim o penso.
Jenny estendeu-lhe a mão.
--Agora reconheço-te pelo que és. Agradecida.
E depois, apontando para Manoel Quentino:
--Escuso de lembrar-te que elle ignora tudo.
--E ficará ignorando.
Manoel Quentino sonhava-se agora no escriptorio, a fazer uma baralhada
conta de sommar.
Passados momentos, rodava pelas ruas da cidade a carruagem, que
transportava a casa a familia Whitestone.
Das tres pessoas, que ella conduzia, nenhuma fallou durante todo o
caminho.
XVII
CONTAS DE CARLOS COM A CONSCIENCIA
Impressionado pelas occorrencias d'aquella noite, que lhe afugentavam o
somno, Carlos ao voltar a casa, encostou-se pensativo á mesa e abriu
machinalmente um livro.
Quiz o acaso que fosse um volume das obras de Byron e nas _Horas de
Ocio_. Carlos leu:
_Woman! experiance might have told me..._
a attenção já o não acompanhou ao segundo verso. Fora fatal a primeira
palavra:--_Woman_!--mulher!--Apoiada n'este magico substantivo, a
imaginação ganhou esforço e, deixando os sentidos seguirem os versos
restantes, divagou, á sua vontade, mais rapida e por mais longe do que
elles.
O caminho, que estes continuaram seguindo, provavelmente poderá o leitor
encontral-o, se quizer, na sua bibliotheca: deixaremos porisso Byron em
paz, e iremos, como podermos, atraz da imaginação de Carlos.
Principiou por se recordar da revelação que a um acaso devera momentos
antes. Recordar, disse eu? Para com rigor me poder servir do termo, era
necessario que tal descoberta lhe tivesse já, por instantes sequer,
deixado livre o campo do pensamento; e teria? É licito duvidar.
Entrou depois Carlos em tarefa mais activa, qual foi a de tentar avivar
a imagem de Cecilia, que apenas lhe apparecia como vaga reminiscencia, e
velada por uma nuvem, que elle em vão procurava dissipar.
Se o leitor já alguma vez pôz hombros a emprezas d'estas, deve saber que
desesperadoras difficuldades ellas trazem quasi sempre comsigo. Quanto
mais ardente é o desejo de recordar uma physionomia, que ainda não temos
bem gravada na memoria, tanto mais parece comprazer-se um maligno
espirito de impacientar-nos, alterando-lhe completamente o typo,
combinando os elementos physionomicos mais disparatados, debuxando a
capricho o perfil, colorindo mentirosamente os cabellos e a tez,
assombrando com a mais grosseira infidelidade as inflexões e os relevos.
Em uma palavra, Carlos, que tinha visto frequentes vezes Cecilia, ainda
que nunca muito attentamente, não pôde, por mais que o tentasse, tirar
da memoria uma imagem distincta d'essa rapariga.
Em compensação recordava-se do metal de voz sonoro, com que ella lhe
fallára no baile, da graciosa maneira de rir, de tudo quanto lhe
dissera, de todas as pequenas circumstancias d'aquella aventura do
carnaval, de todas, e tão profundamente se deixou embeber n'estas
cogitações que, apoiada a cabeça entre as mãos, os cotovêlos sobre a
mesa, e os olhos meio fechados, nem se lembrava de Byron, que
sinceramente julgava continuar a ler, nem sequer tinha consciencia do
logar onde estava.
A luz amortecida diffundia no aposento soturna claridade, e o silencio
era tal, que Carlos ouvia-se respirar.
De repente, como que tentando sair d'aquelle estado, afastou de si o
livro com vivacidade.
Vergou a cabeça para traz sobre as costas da cadeira, e passou a mão
pelos olhos, á maneira de quem desperta de um sonho. Mas, depois de
avivar a luz, caiu de novo na mesma abstracção de que saíra.
Foi porém só a mão esquerda que se encostou á cabeça d'esta vez,
emquanto que a direita pegou em uma penna e pôz-se a desenhar e a
escrever á tôa sobre uma folha de papel branco, que lhe estava ao
alcance.
Escusado é dizer que a alma não tomava parte n'isto.
Segundo a theoria de Xavier de Maistre, _la bête_ ou o _outro_, que, em
nós, devemos distinguir do _eu_, cansára-se de ler e escrevia agora. A
alma, essa continuava na tarefa anterior, meditava ainda.
Observo porém que são perigosas muitas vezes as occupações, a que o tal
_outro_ se entrega, quando sacode por momentos o jugo do companheiro. O
mesmo Xavier de Maistre aponta-nos exemplos d'isso.
Uma das distracções mais arriscadas é esta de escrever, A mão é
indiscreta; e a razão se se descuida, está sendo atraiçoada, quando
menos o pensa, por estes automaticos movimentos, que parecem sem
significação.
Olhae por cima do hombro do homem absorvido em graves pensamentos, cuja
mão move ao acaso a penna sobre uma folha de papel; entre muita cousa
insignificante, é raro que uma ou outra palavra, um ou outro signal não
symbolise, não denuncie a ideia dominante, que o possue.
Esse outro motor ou principio, que nos domina as acções, quando a
consciencia não as regula e dirige, parece ter, como a alma, uma memoria
tambem. Exerce-a sobre as particularidades insignificantes, que
acompanharam qualquer acontecimento de importancia para o nosso destino.
Impressionou-nos uma revelação? quando o pensamento se estiver occupando
d'ella, a memoria do _outro_ reproduzirá a maneira de trajar da pessoa,
de quem a ouvimos, a côr das paredes do aposento, onde a escutamos, uma
phrase dita simultaneamente por um homem que passava. Ora, muitas vezes
estes accessorios teem ainda bastante analogia com o facto principal,
para que um espirito investigador, sabendo-os, possa ir por elles, de
deducção em deducção, até o fundo dos nossos pensamentos.
D'ahi vem o perigo de confiar, em taes momentos, a penna da mão, que se
move sob a vontade d'este guia, o qual não tem a discrição necessaria
para não deixar no papel vestigios das suas curiosas memorias.
Era o que estava succedendo a Carlos.
Principiou por desenhar, distrahidamente, um elmo; isto parece nada ter
que ver com as provaveis cogitações do seu espirito, n'aquelle momento.
Cumpre-me, porém, declarar que, na occasião em que no theatro, pela
primeira vez, Carlos reparou em Cecilia, passava por diante d'elle um
individuo, embrulhado em um manto romano e com um elmo, exactamente
similhante ao do desenho.
Depois do elmo, delineou a penna uma meia mascara; aqui já a analogia é
mais evidente e dispensa commentarios; uma mão, depois; pensava talvez
na de Cecilia, cuja belleza notára ao apertar-lh'a, á despedida.
Adiante...--agora parece maior o desacerto--um lampeão de praça! É
verdade que havia um a illuminar a mysteriosa incognita, no momento em
que, na afflicção, invocára o nome de Jenny, e conseguira, graças a esse
nome invocado, evitar a ulterior perseguição de Carlos. E é provavel que
fosse esta a razão de similhante desenho, visto que, em seguida, a mão
escreveu por muitas vezes, e em diversas fórmas de lettra:--_irmã, por
sua irmã, por Jenny_! Depois chegou a vez de um orgão de
igreja;--esboço, que só julgará incoherente quem se não recordar da
santa do kalendario, da qual esse é o emblema. De facto, a ideia do
sacro instrumento veio de Santa Cecilia, e a ideia da santa não era das
que acudiriam á mente de um protestante, se, cá na terra, alguma
homonyma, por canonisar, a não chamasse lá. Após isto, escreveu uma
palavra absurda, singular, inqualificavel; foi esta:--_Ailicec_; mas
inverta-a o leitor e cessará a estranheza, que ella lhe possa causar;
seguiram-se-lhe outras, não menos exquisitas, e formadas de diversas
combinações das mesmas sete lettras, que emfim appareceram dispostas por
ordem natural na palavra: Cecilia. Mais abaixo,--singular
transição!--escreveu Carlos em caracteres bem
legiveis:--Papa;--depois:--Calvino; e, acto continuo, o nome de um
compatriota e amigo seu, que, mezes antes, tinha casado com uma senhora
catholica.--Veja o leitor se poderá interpretar estes signaes, e ao
mesmo tempo diga se não estava sendo de grande indiscrição para a alma,
o _outro_, companheiro inseparavel d'ella.
A final a mão traçou, muito de vagar, as duas seguintes palavras
reunidas:--Cecilia Whitestone.
A razão pareceu então despertar, e, espantada com o que viu feito na sua
ausencia, tentou pôr termo a similhantes imprudencias; e a mão
subitamente passou um traço por as duas ultimas palavras, logo depois de
escriptas.
Carlos levantou-se para passeiar no quarto.
Principiou então a convencer-se de que tinha de facto sido injusto em
formar tão levianamente um conceito pouco favoravel da mascara, e menos
cavalheiro do que devia, no seu procedimento para com ella. Jenny
havia-o reprehendido por isso tudo--e Carlos julgou ouvir a propria
consciencia applaudindo Jenny. Chegou a persuadir-se de que tinha
remorsos, e pareceu-lhe necessario imaginar alguma maneira de remediar
tão grandes culpas.
Ouviu duas horas, ainda a pensar n'isto.
Deitou-se vestido sobre o leito; e cada vez a parecer-lhe mais
necessaria e urgente uma resolução n'aquelle sentido!
Eram tres horas, quando julgou ter somno. Deitou-se por baixo da roupa,
e apagou a luz.
O socego, que o rodeiava, um d'estes socegos nocturnos, tão completos
que até o roer da larva invisivel, occulta no seio da madeira, se ouve
distinctamente, impacientava-o, longe de convidal-o ao repouso. Quando o
espirito está agitado, quando uma ideia qualquer nos inquieta, o
silencio, a tranquillidade exterior parecem-nos um escarneo e
irritam-nos.
Em menos de um quarto de hora já a cama estava em desordem, e a
travesseira no chão. Carlos accendeu de novo a vela, trouxe um livro
para a cama e esteve meia hora com elle aberto nas mesmas paginas.
Sentou-se impaciente no leito, e imaginou que tinha febre.
E assim se conservou até ás cinco horas da manhã, que foi sómente quando
adormeceu, ou antes se deixou caír exhausto por o cansaço, que produz a
insomnia.
E que resultou de tanto pensar? Vêl-o-hemos brevemente.
Vamos agora a casa de Manoel Quentino, onde nos encontraremos com
antigos conhecimentos.
Ao voltar do theatro, contára Manoel Quentino á filha, não só o enredo
da _Lucia_, que não podéra concluir no camarote, mas todos os principaes
successos da noite; esqueceu-lhe porém o episodio do lenço, ao qual não
dera importancia.
Cecilia escutou-o calada.--Dir-se-hia que já a impacientava ouvir tantas
vezes fallar em Carlos; porque, de facto, parecia proposito formado em
Manoel Quentino o ter sempre que contar do rapaz, d'essé estouvado, a
quem, apesar de todos os estouvamentos, o bom homem queria devéras.
A julgar pela apparencia de ligeira mortificação, que tomava n'esses
instantes o rosto de Cecilia, devia suppôr-se que existia n'ella uma
forte antipathia para com o predilecto do pae.--Mas será prudente não
confiar demasiado no rigor logico d'estas deducções physionomicas, e
muito mais em mulheres.
No dia seguinte pela manhã, ao partir para o escriptorio, Manoel
Quentino não deixou a filha menos melancolica do que nos anteriores; até
lhe pareceu mais falta de côr. Falta de côr! Deus sabe os intimos e
dolorosos estremecimentos, que estas palavras desafiam no coração de um
pae! São para elle as faces rosadas de uma filha, como o firmamento para
estas organisações impressiveis em excesso, onde, ao toldar-se de nuvens
o céo, se projectam as sombras da tristeza; onde, quando elle ostenta um
azul sem mácula, se reflecte a luz das alegrias.
Imagine-se o cuidado, com que devia partir o bom homem.
Que tratos não dava á memoria! Que concepções mais ou menos
extravagantes! que minuciosas investigações sobre todos os seus proprios
actos e palavras não vinha fazendo pelo caminho, só para descobrir a
causa d'aquella mal disfarçada melancolia! E tudo em vão!
No escriptorio não o deixou este cuidado; mais de uma vez, se surprendeu
com a penna, a incansavel companheira, parada no meio de uma palavra,
com os olhos fitos no papel, e sem verem cousa alguma; em completa
abstracção, elle, tão pouco propenso a isso!
Depois da morte da mulher--havia quinze annos--, e da doença de
Cecilia--havia seis--nunca tal lhe acontecera; estranhava-se.
Alguma razão tinha Manoel Quentino para estes cuidados.
Não que se podesse dizer Cecilia verdadeiramente triste; a imaginação do
pae, excitada pelo seu muito amor, exagerava o mal, á força de o temer;
mas perdera a despreoccupação, quasi infantil, que era natural n'ella;
desgostára-se de repente de alguns passatempos, que, no meio das
canceiras domesticas, ainda conservava de creança; tomára-se
inesperadamente do gosto de passeiar só pelos corredores e pelas ruas do
quintal, que não era proprio do seu caracter pouco meditativo, até então
pelo menos. Manoel Quentino estranhava, por exemplo, não a ver fazendo
saltar o agil e engraçado gato maltez, que não andava pouco sentido com
a mudança; não a ouvir já cantar a meia voz, quando trabalhava á janella
do quintal; ou formular observações, innocentemente satyricas, a
respeito de alguns vizinhos, e as impertinentes perguntas com que, muito
de proposito, costumava impacientar a criada; nem o mais ligeiro indicio
denunciava agora n'ella uma indole propensa ao jovial.
Na manhã, em que Manoel Quentino luctava com as apprehensões que estas
mudanças em Cecilia lhe despertavam, trabalhava ella no quarto com as
janellas fechadas, contra o seu costume, e tão distrahida, que não era
raro parar-lhe a agulha a meio caminho da costura.
Por mais de uma vez, Antonia, vindo consultal-a sobre negocios
domesticos, foi constrangida a repetir a pergunta, porque Cecilia não a
tinha comprehendido--o que, seja dito em abono da snr.ª Antonia da
Natividade, não procedia de falta de clareza na redacção da phrase.
De uma d'estas fundas abstracções, tão repetidas n'aquella manhã em
Cecilia, veio arrancal-a o toque impetuoso da campainha do portal.
A este som Cecilia estremeceu e dirigiu os olhos para o relogio da sala,
com um gesto de surpreza. Pouco passava da uma hora; não podia ainda ser
o pae que voltasse, e raras vezes outra mão que não a d'elle fazia assim
soar a campainha--muito menos áquellas horas do dia.
A estranheza augmentou e quasi degenerou em inquietação e susto com a
entrada da criada, cuja physionomia não era de facto, n'aquelle momento,
para tranquillisar ninguem.
A veneravel matrona trazia estampado no rosto, vigoroso de expressão, o
mais completo espanto.
Cecilia, vendo-a, ergueu-se de subito e fez-se pallida, como se já
aguardasse uma má noticia.
--Menina!... menina!...--dizia, a custo, a criada, fóra de respiração.
--Jesus! Que é, Antonia? que é?--perguntou Cecilia, batendo-lhe o
coração com tal violencia, que parecia despedaçar-lhe o peito.
--Ai que ainda não estou em mim! continuava a outra.
--Diga, mulher! diga o que é.
--Ora que ha de ser! Ai!... Não se assuste... Safa!... Eu sempre
fiquei!...
--E não diz!
--Digo, digo, menina. Pois porque não havia de dizer? Para isso vim.
--Pois não parece. Não vê o susto em que estou?
--Susto?! Não é caso d'isso, socegue... É que... aí, deixe-me, por amor
de Deus, respirar...
Cecilia ajuntou as mãos com impaciencia.
--É um senhor--disse por fim Antonia--um senhor todo asseiado e bonito,
que quer... Ai! sempre se me pregaram umas dores de cabeça!
--Que quer o quê, Antonia?
--Que quer fallar á menina.
--A mim! Você que diz, mulher? Isso póde lá ser!
--Tanto póde, que elle lá está.
--Lá! Aonde?
--Na sala das visitas.
--Pois mandou-o entrar?! Valha-me Deus!
--Então que havia eu de fazer? Se elle procurava a menina... Não, a
delicadeza não fica mal a ninguem; sobre tudo com pessoas delicadas
tambem. Havia de ver que modos aquelles tão bonitos! Obsequio vae,
obsequio vem; senhora para aqui, senhora para alli; não é lá como estes
cabouqueiros, que ás vezes veem por ahi, que julgam que todos foram
creados a borôa e a caldo verde, como elles. Não, senhora; bem se vê que
este é pessoa fina...
--Mas... é impossivel. Ha engano; não póde ser a mim que elle procura...
Você ouviu bem?
--Ouvi, menina, ouvi. Ora que scisma! Graças a Deus não estou tonta de
todo. Ia agora deixar entrar assim, sem mais nem menos, um homem pela
casa dentro, sem ouvir, sem perguntar... Credo, menina! melhor conceito
faça de mim. Olhem agora! Ora essa não está má! Não, se eu não entendia
aquillo, estava bem servida com a minha vida! Por as palavras se entende
a gente e nosso Senhor nos dê sempre ouvidos para ouvir, olhos para ver
e juizo para entender. Amen.
--Está bom, está bom. Já agora não ha remedio senão ir ver quem é. E o
pae não estar em casa!...
--Ora não temos nenhum ataque de ladrões. Nem que fosse alguma cousa do
outro mundo... Se a menina estivesse só, não digo ... mas na companhia
de uma pessoa de ... de representação...
Cecilia parecia ainda irresoluta.
Antonia insistiu:
--Então, menina! Olhe que isso até parece mal tambem. Fazer esperar
assim aquelle senhor! A final não sei de que tem receio. Então se a
gente vae a...
--Ora cale-se, mulher, cale-se. Se eu sei o que você tem estado para ahi
a prégar...--interrompeu-a Cecilia, já impaciente--Que hei de ir, sei
eu. Já que o mal está feito...
--O mal! Ó menina, não me diga isso, por quem é. Então queria que eu...
Cecilia, depois de rapidamente se ageitar ao espelho, voltou as costas á
snr.ª Antonia, e dirigiu-se para a sala onde a criada introduzira a
estranha visita, que tanto a estava inquietando.
Antonia seguiu-a, resmoneando o resto das suas reflexões.
Ao entrar, não viram ninguem. A pessoa, que alli esperava, saíra para a
varanda de pedra, que deitava sobre o quintal. Voltou porém, logo que
percebeu que as duas haviam entrado na sala, mas, como ficasse com as
costas voltadas á luz, não foi logo possivel a Cecilia reconhecer quem
fosse.
Cecilia deu alguns passos, com hesitação, dizendo:
--Ao que parece, v. s.ª deve ter vindo enganado.
--Não, minha senhora, não vim. É v. exc.ª mesma que eu procuro.
Cecilia parou estupefacta. A voz, que assim lhe respondia, era-lhe
conhecida; a pessoa não o era menos.
Ella reconheceu Carlos Whitestone.
O sobresalto e a confusão, que se apoderaram da filha de Manoel
Quentino, n'esse momento, são indescriptiveis, mas faceis de conceber
por quem tenha escutado, com Jenny, a dupla confidencia, de que atraz
fizemos menção.
Cecilia teve de apoiar-se ao encosto da cadeira proxima, para disfarçar
a sua turbação, as faces córaram intensamente e a custo pôde dizer, em
voz tremula e sumida:
--Ó snr. Carlos!... V. s.ª aqui!...
--Venho cumprir um dever, minha senhora.
--Queira sentar-se--disse Cecilia, quasi constrangida ella propria a
fazel-o para não cair.
--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a sós?--perguntou Carlos,
designando Antonia, com o olhar.