Poetico paiz, que um mar sinistro banha,
Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador,
Que se chamava Amel, com a mulher Pennor.
Tinham elles um filho, uma creança loura,
Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura;
Ao voltarem a casa, alegres, todos tres,
Na praia os surprende a noite de uma vez.
Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte!
N'esse tempo as marés eram vivas. A morte
Sobre as ondas boiava, indomita, cruel!
Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel:
--«Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima!
Viverás mais do que eu! Animo! Sobe acima
Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim.
E, ao veres-me sumir... ai, lembra-te de mim!»
Pennor obedeceu. Firmando-se na areia,
Desapparece Amel na vaga, que o rodeia.
--«Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu!
Qual de nós soffre mais?--tu, que morres, ou eu,
Que te vejo morrer?»--E as aguas, que subiam,
O corpo da infeliz no vortice envolviam.
Olhando para o filho, assim lhe diz a mãe:
--«Filho, vamos morrer! Olha a maré que vem!
Viverás mais do que eu! Vá! filho, vá! coragem!
«Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem,
Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!»
E o mar a submergiu. Chora a creança e vae
Pouco a pouco afundir-se. Á flor da agua revolta,
Apenas já fluctua a trança loura e solta...
...Uma fada passou sobre o affrontado mar;
Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar;
Estende a mão piedosa e, segurando a trança,
Com ella attrahe a si a pallida creança.
E, sorrindo, dizia:--«Ai, que pesada que és!»
Mas viu cêdo a razão; inda segura aos pés
Do filho estremecido, a pobre mãe começa
A erguer tambem da onda a humida cabeça.
Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois,
E repetiu ainda:--«Ai, que pesados sois!»
É que, após a mulher, seguia-se o marido
Estreitamente aos pés da terna esposa unido.
Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu,
E, leve, para a praia o vôo dirigiu
Com este cacho vivo, esta humana cadeia,
Cujos élos o amor piedosamente enleia.
Pousando o livro, Jenny continuou:
--Seguem-se mais quatro versos, consagrados á moralidade do conto, os
quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.
--De certo. A allegoria é transparente, até sem commentarios. Mas,
dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se,
pairando sobre a praia, um dia, em que as marés não fossem vivas, nem o
mar ameaçasse devorar a piedosa familia... que faria ou diria ella, se
encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, tão ridiculo n'esse
caso, como tocante nas condições, em que o considera a lenda? A fada por
certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: «Ai, que varridos
sois!» Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem,
correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que
supprimiste?--terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e
com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas
replicando:
--Não, não é preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar
formam-se ás vezes em um momento. E ninguem póde prever a época, em que
é para receiar o perigo. Não viste como os pescadores voltavam a casa,
«alegres todos tres», portanto confiados no mar? Se, tendo esta
confiança, se houvessem separado e não caminhassem com as mãos unidas?
Ao vir a maré, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem
Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creança, vindo á
tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasião
de salvar aquelle ... cacho vivo... Entendes?
--E tão longe ando eu já, que vos não possa offerecer os hombros, se a
maré vier um dia ameaçar-nos?
--Não, Charles; nem é a ti, tal como és, que eu ralho e quero mal; mas a
um Charles, que ás vezes gostas de fingir. É singular! ha certas almas
generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforçam-se por
parecerem más! Para que has de estar a fazer mentir a tua bôca, dizendo
o que não sentes?
--Não nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco,
mas...
Jenny collocou-lhe a mão diante dos labios.
--Que esse «mas» fique para ámanhã. Por emquanto inda não confio muito
n'elle.
--Então negas-me a justificação?
--Não vês que, melhor do que tu, te está a justificar a minha confiança?
É por isso que não quero ouvir-te. É tarde. Boa noite, Charles.
--Boa noite, Jenny.
E os dois irmãos separaram-se, apertando cordialmente as mãos.
Carlos ía mais reconciliado outra vez com as doçuras da vida domestica.
Ficára-lhe muito agradavel impressão d'este dialogo com Jenny, para que
podesse deixar de ser essa a sua opinião final.
XVI
NO THEATRO
Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a _Lucia de
Lammermoor_.
Mr. Richard Whitestone não era assiduo frequentador do theatro lyrico.
Havia porém uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava lá, uma
vez pelo menos.
Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores
inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a
cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu
acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas
operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da
litteratura ingleza.
O _Othello_, o _Macbeth_, os _Capulletos_, as _Prisões de Edimburgo_, os
_Foscaris_, o _Marino Faliero_ e outras n'este mesmo caso, luctavam
vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico
aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude,
que o leitor já conhece.
Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de
assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.
Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o
attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott,
cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por
sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado
outr'ora.--A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os
Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus
famosos conterraneos.
No numero das taes operas contava-se _Lucia de Lammermoor_. Assumpto
escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar
typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe.
Havia de ir por força.
Foi; mandou tomar um camarote para aquella noite. A plateia nunca lhe
agradou. Estava mais comsigo e com os seus no camarote; e isto de estar
comsigo e com os seus tinha para elle a força de necessidade.
Era costume invariavel de Mr. Richard convidar Manoel Quentino, n'estas
occasiões.
Grande mortificação causava a este tal convite, mas não se atrevia a
recusar. Aceitava e agradecia até, porém, a occultas, suspirava por ter
de privar-se uma noite dos suaves prazeres dos seus serões domesticos,
das attenções e cuidados filiaes de Cecilia e até das monótonas
reflexões do amigo José Fortunato; este não sentia menos pezar em
modificar habitos já inveterados n'elle e prescindir do chá e dos
bocejos do vizinho.
Mas não havia remedio. Manoel Quentino ía.
Depois de resolvido a isso, entendia então que tinha restricto dever de
chegar a tempo. Era o guarda-livros a pontualidade em pessoa; em tudo
observava o preceito de antes esperar do que ser esperado; e, comquanto
não fosse provavel que esperassem por elle para começar o espectaculo, é
certo que, pouco depois de anoitecer, viam-o já a passeiar no atrio do
theatro, aguardando que lhe abrissem as portas dos corredores.
Assim fez n'esta noite.
Logo que as viu patentes, comprou o libretto da opera; porque nunca pôde
tambem resignar-se a ouvir cantar, sem entender o que se cantava; subiu
para o camarote e, á escassa luz que havia ainda na sala, pôz-se a ler.
Depois assistiu ao accender das serpentinas, á afinação dos instrumentos
da orchestra, ao encher gradual da plateia, dos camarotes e das
varandas, o que para elle constituia uma parte da divisão e não das
menos curiosas. Aguava porém este inoffensivo prazer o cuidado que lhe
estava dando a demora da familia Whitestone; temia já que ella não
chegasse ao principio da opera. Isto não o deixava socegar.
Emfim ouviu abrir-se, atraz de si, a porta do camarote; voltou-se.
Eram Mr. Richard e Jenny, que chegavam.
Mr. Richard saudou, com familiaridade, o guarda-livros; Jenny
apertou-lhe a mão com affecto.
--Não o esperava agora aqui!--disse Jenny, tirando a capa e reparando as
leves desordens da sua _toilette_.
--O snr. Whitestone fez-me o favor de me dizer que viesse.
--E Cecilia?
--Cecilia!--disse Manoel Quentino, encolhendo os hombros--eu já lhe não
digo nada. Para quê? Com'assim, não se resolve nunca a vir.
Mr. Richard, emquanto a filha se preparava, viera á frente do camarote
passar um exame rapido á sala.
--E o Carlinhos?--perguntou Manoel Quentino a Jenny emquanto se
encarregava, com soffrivel galanteria, de acommodar a capa, que ella
acabava de tirar.
--É provavel que esteja cá--respondeu Jenny.
--Aonde? Na plateia?
--De certo.
--Tendo camarote! É vontade de gastar dinheiro!--pensou para si o
economico Manoel Quentino.
Depois de tomarem todas as respectivas posições, Manoel Quentino,
ficando junto da cadeira de Jenny, entendeu que não devia estar calado.
--Sempre me lembra--disse elle, portanto--quando venho ao theatro, de
ver representar a celebre Josepha Thereza Soares! Aquillo é que era
mulherzinha! Que tambem a Grata Nicolini... não sei se lhe diga... Se
quer que lhe falle verdade, menina, agradavam-me mais as peças, que se
representavam d'antes, do que as de hoje. Só os vestuarios e as vistas!
Agora são salas e casacas, casacas e salas e acabou-se. É o pae que quer
que a filha case com um velho rico; é a filha que quer casar com um
rapaz pobre, que é poeta; é o rapaz a descompôr o velho; a rapariga a
morrer... e passe por lá muito bem. Não lhe acho graça nenhuma. Eu
queria que vissem: _D. José II, visitando os carceres_--_Camilla ou os
subterraneos_--_O Barba rôxa_--_Ha dezeseis annos ou os
incendiarios_--_Os sete infantes de Lara_--_A Ignez de Castro..._
E Manoel Quentino dispunha-se a continuar esta revista theatral, quando
Jenny o interrompeu, perdendo assim a melhor occasião de se informar,
entre outras cousas, dos merecimentos da celebre Josepha Thereza, de
quem inda agora ouvimos fallar com saudades os frequentadores
reformados, cujos legitimos successores são os _dilletanti_ de hoje.
--Carlos tem ido ao escriptorio?--perguntou Jenny, a meia voz.
--Esteve lá ... no outro dia, na terça-feira, por infelicidade
minha--respondeu o guarda-livros, lembrando-se dos enganos a que dera
occasião a tal visita.
--Porque diz por infelicidade?
Manoel Quentino ia a contar a Jenny a especie de auxilio, que lhe
prestára Carlos no escriptorio; mas, parecendo-lhe ver em Mr. Richard,
ainda que apparentemente distrahido, certos indicios de estar prestando
attenção ao que elle dizia, julgou conveniente mudar de rumo e
respondeu:
--É que eu, apesar dos meus cincoenta e cinco annos, não tenho mão em
mim que não me distraia, vendo-o; e, com a minha palestra, nem trabalho
eu... nem...
Aqui hesitou alguns instantes, porque lhe parecia demasiado lisongeiro o
que ia dizer, mas a final sempre concluiu:
--Nem... nem... nem o deixo trabalhar a elle.
O proprio Mr. Richard mordeu os labios, para encobrir um sorriso.
Jenny, a mesma Jenny, não pôde conservar-se inteiramente séria; mas,
sorrindo, agradeceu com gesto de bondade as generosas intenções do
guarda-livros.
Pareceu-lhe, porém, conveniente desviar a direcção da conversa e porisso
lembrou a Manoel Quentino:
--Mas ainda não me disse por que Cecilia não veio.
--E eu sei lá? Não vem, porque não quer. Já d'antes era uma santa
historia para a resolver a aproveitar-se de qualquer convite, que a
menina tinha a bondade de lhe fazer. É lá de um genio particular aquella
pequena; e desde creança que assim a conheço! Que se lhe ha de fazer?
Mas agora sobre tudo... A rapariga tem o quer que é a affligil-a. Isso é
que tem. Ella bem faz por disfarçar; mas...
Manoel Quentino tomou n'este ponto ares de mysterio e proseguiu em tom
mais baixo:
--Eu não sei, mas... acho-a outra ha dias para cá. Não lhe tenho querido
dizer nada, porque... porque sei como ella é, e tenho mêdo de
mortifical-a ainda mais, porém...
--Mas então--perguntou Jenny, sinceramente attenta ao que Manoel
Quentino lhe dizia--o que é que lhe faz julgar?...
--Acho triste a rapariga. Olhos de pae não se enganam com essa pressa.
Os outros nada vêem, mas os meus... A Cecilia não era assim; quem a viu
d'antes! Ella ri e graceja ainda, é verdade; mas ha alli certo modo, que
eu lhe estranho. A menina, que bem a conhece, ha de ter visto...
--Não; não tenho notado mudança n'ella.
--Não que tambem... eu lhe digo... Ora deixe-me ver... Ella não voltou a
sua casa desde... desde terça-feira, não? É isso mesmo. De então para cá
é que eu mais tenho notado...
Jenny escutava com crescente curiosidade o que Manoel Quentino dizia.
--Ahi está que hoje...--continuou elle--depois de eu chegar a casa...
mas peço-lhe, por amor de Deus, que lhe não vá dizer estas cousas; ella
põe-se por lá depois a scismar...
--Fique descansado--disse Jenny, procurando não perder uma só das
palavras que ouvia.
--Pois esta tarde... Eu já notára que ella ao jantar não tinha comido
quasi nada... e eu, a fallar verdade, não gosto de ver aquillo.
N'aquellas idades é que é o comer, e as cousas não correm bem, quando
não ha appetite. Pois não lhe parece?
Jenny fez um movimento de affirmação, comquanto eu não dê por assentado
que ella tivesse sobre o appetite absolutamente as mesmas ideias que
Manoel Quentino.
--E depois?--perguntou ella.
--De tarde--continuou o velho--a pequena, contra o seu costume,
metteu-se para o quarto, a ponto de me assustar; não tive mão em mim,
que a não chamasse. Não me respondeu logo. Lembrou-me se lhe teria dado
alguma cousa, e, já sobresaltado, ia a descer as escadas, para ver o que
era, quando ella me appareceu, mas... ó menina, ou me engano muito, ou a
rapariga tinha chorado; ella vinha a rir, vinha, mas eu...
--Foi de certo illusão sua; por que havia Cecilia de chorar?
--Pois ahi está o que me afflige. É o não saber! Ás vezes lembra-me...
serei eu a causa? Ora é preciso que lhe diga que eu antes queria
trabalhar como um negro toda a minha vida, e não ter um triste bocado de
pão para comer, do que dar motivo a uma só lagrima d'ella.
E havia um tremor na voz de Manoel Quentino, ao dizer isto, que commoveu
Jenny.
--Socegue--disse-lhe ella, animando-o.--De certo não é a causa d'essa
tristeza, que lhe parece notar em Cecilia. Que mais póde fazer por ella,
do que o que faz?
--E tudo merece, menina, e mais! Assim eu podesse. É um anjo! Não
imagina.
--Não imagino, sei; pois não é ella a minha mais querida amiga?
Manoel Quentino não pôde ter-se, que não tomasse as mãos de Jenny e as
apertasse commovido.
N'isto rompeu a orchestra a symphonia da opera; fez-se silencio na sala.
As ideias de Manoel Quentino seguiram novo curso; esqueceu as
confidencias que tinham deixado Jenny pensativa, e, prestando ouvidos á
musica, fixou os olhos no panno, que esperava ver subir immediatamente.
--Pois a historia d'esta peca--dizia elle, emquanto o panno não subia--é
bem bonita, mas muito triste. Pelos modos, era um fidalgo..., não me
lembro agora d'onde...
E, depois de pensar um momento, acrescentou:
--De Hespanha, acho eu... Era, era de Hespanha...
Mr. Whitestone estava distrahido; mas não ha distracção possível que
impeça um inglez de corrigir qualquer inexactidão, que, embora de leve,
toque pela sua nacionalidade; por isso interrompeu immediatamente a
narrativa de Manoel Quentino, emendando-a.
--Ho! não, não. De Hespanha! Ho! Da Escossia, da Escossia. _In the
Lothian county_. _The bride of Lammermoor_, de sir Walter-Scott. É bem
conhecido isso.
--Ai, é verdade, é da Escossia, é. Já me não lembrava. Pois este
fidalgo, ao que parece, tinha lá umas birras com outro seu vizinho,
tambem muito nobre, é verdade, mas sem nada de seu. Eram rixas velhas e
até me parece que uma demanda dos meus peccados! Vae logo o... o S.
Pedro e faz com que este tal se namore da irmã do outro. Que isto
acontece muitas vezes.
N'este ponto foi o panno acima.
Manoel Quentino, depois de exame passado á scena, proseguiu:
--Esses homens de saias, que ahi estão, são os criados do tal fidalgo.
Andam á cata do amante, que vinha fallar com a rapariga ao jardim.
O argumento exposto por Manoel Quentino proseguiu por este teor e
estylo, sem que Mr. Richard nem Jenny lhe dessem attenção.
Depois da chegada do barytono e durante o recitativo d'este, ia Manoel
Quentino vertendo em vernaculo as phrases italianas que percebia, por
conseguinte aquellas que menos precisavam de ser vertidas.
«_Mortalnemico_»--recitava no palco o barytono.--«_Mortal
inimigo_»--traduzia o velho do camarote.--«_Di mia prosapia_»--dizia
um.--«_Elle mesmo confessa que tem prosapia_»--interpretava, e d'esta
vez desastradamente, o outro.--«_Io fremo_!»--acrescentava d'ahi a pouco
tempo o cantor.--«Diz que treme»--traduzia Manoel Quentino.
E assim por diante, até que Mr. Richard, ao principiar no palco a aria:
_Cruda... funesta smania_.
pôz termo com ligeiro _psiu_ aos luminosissimos esclarecimentos do
guarda-livros.
Manoel Quentino calou-se logo, promettendo a continuação para o primeiro
intervallo.
Antes do fim do acto, deu-se na plateia um incidente vulgar no nosso
theatro, e cuja frequente repetição, em certos annos, mantem em perpetua
tribulação o espirito dos emprezarios.
Á entrada da prima-donna, e antes d'ella soltar a primeira nota,
romperam de um dos lados da sala alguns signaes de desagrado.
A maioria do publico, alheia ás altas questões de bastidor, elementos
d'estas subitas tempestades, estranhou ver assim reprovar quem, dias
antes, se applaudia com phrenesi, porventura exagerado.
Manifestou-se portanto reacção, extremaram-se os campos,
desenvolvendo-se, de parte a parte, um ardor, que, durante alguns
minutos, interrompeu o espectaculo.
Na plateia tudo era movimento e confusão; nos camarotes, os homens
penduravam-se, para observarem, _au vol d'oiseau_, a borrasca humana que
se lhes desencadeiava aos pés, e alguns, menos impacientes, formulavam,
lá de cima, acerbas censuras, que se perdiam no espaço; as senhoras
quasi desmaiavam de assustadas; outras, mais animosas, examinavam a
binoculo as peripecias da contenda; a orchestra, deixando de tocar, e
erguida em massa, passára a ser espectadora; os cantores cruzavam os
braços e imitavam-a; os habitantes das varandas,--porventura os unicos
espectadores de boa fé e de amor de arte sem mescla,--urravam de
indignados; a auctoridade punha-se em pé no camarote e pedia para ser
ouvida...
No meio d'este tumulto, Mr. Richard dava evidentes signaes de desagrado,
traduzidos por muitos _hos!_ por muitos estalidos de lingua, por muito
sacudir de cabeça, e por pancadas de impaciencia com os nós dos dedos no
encosto do camarote.
Manoel Quentino, igualmente escandalisado, era mais verboso na expressão
de sua indignação.
Esse fartou-se de fallar, de ralhar, de gesticular, de censurar as
auctoridades, de formular projectos absurdos de policia theatral, e isto
tudo, quasi debruçado no camarote, e fitando a massa escura da plateia,
cujo alvoroto ia crescendo.
Jenny olhava tambem na mesma direcção, mas o motivo era outro.
No camarote proximo ouvira fallar com severidade dos amotinadores da
sala, e, entre os nomes mencionados, escutára o do irmão. Jenny
estremeceu, e d'ahi vinha o cuidado com que examinava a plateia.
No entretanto, Manoel Quentino bradava:
--Eu, se fosse á auctoridade, mandava todos para o Carmo. Isto é um
desaforo. Vem uma pessoa para se divertir, e vae... e vae... e vae...
A hesitação no terminar a phrase era devida a ter alguma cousa attrahido
a attenção do velho para um ponto da sala.
--Oh! oh!--disse elle por fim--Ora, se elle lá não havia de estar!
Podera! A festa não se fazia sem elle. Estava de ver!
--Quem?--perguntou Jenny, receiando comprehendel-o.
--Lá está tambem o Carlinhos; pois não vê?
--Onde? Onde?--perguntou logo, com vivacidade, Mr. Richard.
Manoel Quentino sentiu ao mesmo tempo a mão de Jenny a apertar-lhe o
braço, como para recommendar-lhe discrição. Antes porém de a sentir, já
elle tinha percebido a necessidade de ser prudente.
--Acolá!--e apontou em direcção exactamente opposta ao logar, em que
estava Carlos.
--Aonde, homem?... Não vejo.
--Pois não será elle? Alli, ao pé d'aquelle sujeito de chapéo branco. O
snr. Richard ainda não vê... Admira!... Olhe, elle lá vae embora... Olhe
agora... Adeus, lá foi...
--Não era elle.
--Era, era... Até me parece que elle me fez signal de lá, como quem...
sim... como quem... estava zangado com este desaforo.
Principiava Manoel Quentino a prejudicar a causa que defendia, levando
longe demais a defeza. Era sestro seu.
Carlos achára-se effectivamente envolvido na maior força do tumulto,
ainda que com fim louvavel, qual era o de pacificar dois amigos, prestes
a entrar em combate por causa d'esta questão theatral. Levantando porém
occasionalmente os olhos para o camarote, percebeu um signal de supplica
e inquietação em Jenny, e porisso, emquanto os olhos de Mr, Richard,
guiados traiçoeiramente por Manoel Quentino, o procuravam em outro
ponto, cedeu elle o logar a novos apaziguadores e saiu da plateia.
Manoel Quentino, que lhe seguia os movimentos, respirou então, dizendo:
--Elle ahi vem; verá v. s.ª que não tarda. E tem razão em vir; não se
pôde estar lá em baixo com similhante gente.
Effectivamente Carlos não tardou a entrar. O primeiro olhar foi para a
irmã, que soube tranquillisal-o com outro, e habilital-o a comprehender
o papel, que lhe convinha representar diante do pae.
Carlos, entendendo-a, foi severo para com os desordeiros, o que
evidentemente agradou a Mr. Richard.
No entretanto, havia-se restabelecido a serenidade na sala; o primeiro
acto terminou sem outra novidade mais do que a de ser no fim a
prima-donna applaudida com enthusiasmo pelos mesmos que a tinham pateado
á entrada.
Mysterios de theatro, os quaes nunca pude penetrar.
Mr. Whitestone saíu no intervallo; Carlos ficou.
Manoel Quentino tomou então a palavra para prégar um sermão a Carlos,
sobre os perigos das más companhias. Carlos escutou-o, rindo e
commentando-lhe as sentenciosas palavras com ditos jocosos, que não
permittiam ao velho a manutenção d'aquella seriedade, que reclamava tão
substancioso assumpto.
Passado tempo, principiou Carlos a analysar as differentes _toilettes_ e
typos femininos, que adornavam os camarotes, critica em que nem sempre
era em demasia benevolo. De uma das occasiões em que, para proseguir
n'este exame, procurava limpar os vidros do binoculo, tirou do bolso um
pequeno lenço de mulher, com cercadura de renda, para o qual se pôz a
olhar admirado.
Depois, segurando-o por uma das pontas, e mostrando-o á irmã, disse,
sorrindo:
--Ainda me tinha esquecido isto, Jenny.
--O quê?
--Outra apprehensão que fiz, com esperança de por ella obter
esclarecimentos, e... que cabeça a minha!... nem já sabia que o tinha em
meu poder...
--Mas a que te referes?
--Então esqueceste-te já da minha confidencia, no dia do carnaval?
--Ah!--disse Jenny, olhando immediatamente para Manoel Quentino.
As vistas d'este tinham-se tambem fixado no lenço, e parecia examinal-o
cada vez com mais curiosidade.
--Dá-m'o--disse Jenny, estendendo a mão para recebel-o.
--Não posso--respondeu Carlos, retirando a sua, a rir.
--Dá-me licença?--disse Manoel Quentino, estendendo tambem a mão para
elle.
--Para o entregar a Jenny depois?
--Não, não é; queria ver...
--Que tem você a ver com este lenço?--perguntou Carlos, dando-lh'o.
Jenny mostrava-se cada vez mais inquieta.
Manoel Quentino examinava o lenço com attenção.
--É celebre!--dizia elle--É exactamente um dos lenços que eu dei a minha
filha no dia dos annos d'ella.
--Como?--perguntou Carlos, olhando para a irmã.
A inquietação de Jenny redobrava.