Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e

substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face

exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava

para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da

intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia

fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e

sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo

distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma

criada.

Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se

de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que

lhe estavam a appetecer.

--Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios

domesticos...--pensava elle--Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a

gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim

inteiramente á nossa felicidade...

Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny.

Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella

doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o

sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A

seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as

attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.

A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de

todo no mar. Carlos reparou então que era tempo de voltar a casa.

Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus

poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da

cidade não lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que

pertencia a habitação.

A nossa costumada discrição impede-nos de compensar este defeito.

Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas

a passos mais apressados.

Já proximo da porta, sentiu uma mão, que se lhe pousava no hombro.

Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

--Que fazes tu, homem?

--Recolho-me.

--D'onde vens?

--Do campo.

--Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

--Ás vezes.

--Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos

inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a

respeito do volume do Serrão?

--Ainda não.

--Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu

procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje

um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu

systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o

que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de

partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na _Berenice_;

outra de Victor Hugo, no _Ruy Blas_. São as palavras finaes de uma e de

outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: _Helas_! Ruy

Blas morre nos braços da rainha e murmura: _Merci!_ Basta-me

isto.--_Helas_!--é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem

no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem

confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado.

_Merci_!--é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do

padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a

confundir-se com o prazer... é pois a phrase digna de uma litteratura

viva, inspirada do futuro...

A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a

estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella

noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que

pôde.

--Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade

a Jenny. Ficarei em casa--disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.

Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou

comsigo:

--Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.

XV

VIDA INGLEZA

O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.

Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de

satisfação, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e não se

dava ao trabalho de formular uma oração inteira, sempre que com qualquer

palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.

--_Roast beef_?... Salame?... Fiambre?... Ostras?--Era a maneira, pela

qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que

preferiam servir-se.

--Mostarda... Queijo... Aquillo... Isto... Traz... Tira... Leva...--Eram

as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma

promptidão, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.

Carlos não se mostrava mais expansivo. Além da pouca disposição para

fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito

fóra das habituaes condições de espirito, e em outra qualquer companhia

de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.

Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam

diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observação

a Carlos, e aventurava até algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse

possivel comtudo generalisar conversa.

Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de serviço, a gravidade e

asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava não sei que aspecto

solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.

Á medida, porém, que se repetiam as libações e que o effeito dos

variados vinhos se combinava na cabeça de Mr. Richard, o velho inglez

principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a

desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe

impunham as regras da etiqueta britannica.

Verificava-se n'isto uma opinião de Fielding, escriptor que disputava a

Sterne as predilecções litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o

auctor do _Tom Jones_ que o vinho tem a propriedade de trazer á luz o

verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de

sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como

dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por convenção; mas no

fundo permanecia a jovialidade, que vinha á superficie, á medida que se

adiantava o jantar.

Ainda na presença de Jenny, já elle começára a ensaiar alguns gracejos,

a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e

algumas extravagancias do tempo de rapaz.

Carlos procurava então maliciosamente o olhar da irmã, a qual, pelo

contrario, evitava com discrição o d'elle; porque estas historias ambos

as sabiam já de cór, tão infalliveis ellas occorriam em determinadas

circumstancias.

Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um perú

recheado, esperava já a narração de como, na sua infancia, Mr. Richard,

então chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do

collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do

reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, ás

occultas, fizeram com ella.

O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle

rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este

saboroso artigo comestivel, ao qual, desde então, se concederam as

honras de _baronet_, como parece indicar o nome de _Sirloin_ ou _Sir

loin_, com que os inglezes o designam.

Um prato de avelãs trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre

aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo

tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creança, trepára com

feliz exito, até um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho

por espaço de alguns minutos.

O _pudding_ era pretexto para fallar no monstruoso _pudding_ que se

cozinhava na Inglaterra, em não sei que solemnidade popular, e d'ahi a

enumeração de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias

festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord

Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o

personagem eleito para aquelle alto cargo é processionalmente levado á

presença do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua

eleição. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do

ceremonial, bem como todas as attribuições dos multiplicados cargos de

que se compõe a excepcional corporação de Londres, desde o alto Lord

Mayor até o mais modesto bedel de parochia.

Como na procissão fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr.

Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia

minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por

occasião dos tumultos populares occorridos durante o processo de

divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a

respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.

Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignação e deferencia filial;

Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a attenção

do rosto lhe estivesse no espirito tambem.

Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume,

hoje mais seguido, mas originariamente britannico.

Então tomavam maior incremento ainda as libações de Mr. Richard

Whitestone.

Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma

outra occasião se repetiam.

Carlos, de ordinario, perdia tambem então um pouco do habitual

retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com

mais desafogo n'este dialogo.

N'aquella tarde, porém, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi

distrahido, perante a crescente communicabilidade.

N'este dialogo _inter pocula_ eram infalliveis as referencias do

negociante ao seu livro favorito--O _Tristram Shandy_, de Sterne.

Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi

de cór e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma

vontade, não obstante não encontrar no decurso da leitura já alguma

cousa imprevista.

Carlos, ainda quando não tivesse lido a obra, tinha já razão para a

conhecer a fundo, graças ás quotidianas citações do pae; era porém

obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.

As dissertações philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e

venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e façanhas do Corporal

Trim, as interminaveis e extravagantes divagações de Tristram, o

supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com

vivacidade.

Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertações, que respiram

certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroçar os

ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu

fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram até das passagens

favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.

Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.

Ao levantar da mesa, tomavam-se posições ao fogão; a conversa

continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr.

Richard Whitestone tinha passado já.

N'este primeiro periodo de declinação sobrevinham as citações do _Tom

Jones_.

Mr. Richard não se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da

penna de Fielding e as judiciosas reflexões que o auctor mistura á

narrativa.

Depois, a proximidade do calor do fogão, as exhalações do carvão inglez,

a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o _punch_,

deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.

Passava a fallar de politica, citava o _Times_; n'esta noite disse a

Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no

caso de não encontrar apoio na camara dos communs.

Isto já foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos

destinos do parlamento inglez.

Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito

alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em

considerações sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava

heroicamente para reprimir bocejos de fastio.

Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha já umas entonações surdas,

que, combinadas ás pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um

effeito soporifero irresistivel.

Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as

cousas a este periodo critico, voltava outra vez á sala. Era então que o

irmão aproveitava a occasião para saír.

N'esta noite ficou.

Jenny olhou-o admirada.

Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resolução

de ser condescendente aquella vez, ficando.

A irmã agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:

--Bem sei. Ainda não te passou o desgosto pelo mau resultado da tua

aventura. Paciencia!

Carlos voltára a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica

e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um

serão inglez.

Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.

Desalentado pela falta de indicações em relação ao mysterio da mascara,

na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para saír, sem

esperanças de o elucidar.

Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogão, junto do qual Mr.

Richard quasi dormitava, não era a que o podia satisfazer.

O viver intimo, cujos encantos Carlos julgára ter concebido aquella

tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao

coração, de alguma cousa, cuja necessidade começava a sentir emfim.

Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras

chammas, que não eram as que lambiam o _fender_ do fogão; animado por

mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que

dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais

arreigados e extremosos.

Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a

monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginára poder

saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.

Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras

noites que passára como aquella em casa.

Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr.

Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.

Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard

sentou-se ao lado do fogão, tambem accêso alli; Carlos, proximo d'elle;

Jenny ao piano.

Jenny, conhecendo por experiencia as predilecções paternas, abriu a

collecção dos _Cantos populares_ de Russell e procurou uma poesia de

Morris; a qual tanto o pae como o irmão ouviam sempre com piedoso

recolhimento.

O motivo d'esta attenção estava sobre tudo na lettra, que parecia feita

de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida

passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou

essa poesia, intitulada a _Biblia de minha mãe_, cuja traducção é a

seguinte:

«Este livro é tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me

irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a

fronte turvada, aperto-o ao coração. É esta a arvore de familia, á

sombra da qual já muitas gerações se teem abrigado.--As mãos de minha

mãe folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.

Ai, como me estão lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com

estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se após a

oração da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me

calava no intimo do seio; ha muito que elles estão com os mortos

silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.

Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, ás filhas, á familia toda!

Como era sereno o olhar de minha mãe, ao curvar a cabeça para escutar a

palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!--Que

memorias me occorrem em tropel n'este momento!--De novo parece reviver,

dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.

Tu, ó Biblia! és o mais seguro amigo do homem! Eu tenho já experimentado

a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um

conselheiro, um guia! As minas da terra não possuem o thesouro, que me

compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me

ensina como se deve morrer.»

O assumpto da canção ingleza, depois que Jenny a terminou, fez caír

naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard

citou um versiculo, outro e outro, até que uma duvida lhe impediu de

proseguir: d'ahi o pedido feito por elle á filha, para verificar a

exacta redacção do texto.

Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre á

mão, e leu.

Carlos gostava de ouvir ler a irmã aquellas singelas e sublimes paginas

da Biblia.

Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos

filhos da Grã-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:

O mundo a porfiar que os bretões grunhem

E os bretões, etc., etc., etc.

porém uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com

intelligencia e graça, parece transformar essa lingua ingrata em não sei

que cantar de aves, que tem attractivos, até para os que não a

comprehendem.

O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do

Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.

Infelizmente, porém, a leitura descarnada e despida de commentos

d'aquellas paginas não bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard

Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as

interpretações de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal

igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico

inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.

Jenny olhava para o irmão e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e

pelo menos simulasse attenção ás divagações do pae. Serviu-se ás dez

horas chá preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animação para, a

proposito do chá, fallar na importancia da companhia das Indias

Orientaes, nos serviços feitos por ella ao commercio, na sua historia,

nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em

seguida expôz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das

colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial

portuguez, e em seguida uma expressa condemnação da politica franceza em

geral.

Mr. Richard odiava cordialmente a França. Ou elle não fosse inglez.

Emfim, ás onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras

começaram a pesar-lhe; a chamma do fogão a amortecer, sem que as tenazes

fizessem o seu officio, avivando-a.

Meia hora depois, separava-se a familia, não tendo Carlos, em toda a

noite, dito uma duzia de palavras.

Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmão através dos corredores, que

conduziam ao quarto de cada um.

--Então que tens tu a dizer da minha conversão? d'esta commovente e

miraculosa regeneração do filho prodigo?--perguntou Carlos a Jenny,

quando chegavam á porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.

--Que não sei se será muito duradoura--respondeu a irmã.

--E como queres que o seja, Jenny? Não viste que narcoticas delicias as

d'este conversar ao fogão? Dormir é um prazer; mas na minha idade!

--Então, Charles!--disse Jenny, olhando para elle, com ar de

reprehensão.

--Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero

devéras nas minhas tentativas de reconciliação com a fada do lar

domestico, com aquelle genio bom, que protegia a «gata borralhenta» na

historia que nos contavam em creança. Vim para casa, sonhando umas

delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de

achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se

em uma côr... pardacenta...

--Talvez tu sejas muito exigente.

--Ai, não o era, não. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir

ámanhã e depois e sempre a historia do perú do reverendo Jackson? a das

festas do Lord Mayor? a das assuadas á rainha Carolina? ou deve-se-me

estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da

nossa igreja, ou...?

--Tens razão; é preciso principiar por educar o coração, antes de tentar

regenerar-te.

--O coração?! Que queres dizer?

--Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te.

Ora é claro que este viver de familia não entretem uma imaginação como a

tua, se é só para satisfazeres a imaginação que ficas; e concebo que

tudo isto te deve ser insupportavel, se o coração se fechou já de todo

aos unicos gôsos, que nós podemos prometter-te.

--Não me faças tão endurecido, que não saiba já apreciar os tocantes

prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que não sei o que vale

a tua affeição e até a do pae? Mas ouve, filha, e não sejas muito severa

commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito á sua vontade, na

portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar...

--Em quê?

--Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito

bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo...

--Pelo campo!... Tu?!

--É verdade, pelo campo, eu... mas... certas ideias, dizia, que me

haviam occorrido por lá. Agora vejo melhor; e penso que se não deve até

viver tão ligado, como era costume na antiga vida patriarchal. É justa,

ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco

mais os laços de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a

animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de

cada um. E é assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou

tres homens de indoles e de gostos diversos, só porque são parentes, a

ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de acção? O mais que

succede, é nenhum d'elles poder dispôr de toda a energia das suas

faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que estão, e...

odio não direi... mas... ás vezes... certa má vontade... pequenas

dissensões, e... quando menos se espera, mais azedas discordias ainda,

são as inevitaveis consequencias d'isso.

Jenny abanava a cabeça, fitando o irmão, emquanto elle fallava.

--Que doutrinas!--disse ella por fim--que triste philosophia a tua... de

hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.

Carlos pôz-se a rir.

--Então porquê, Jenny? Que achas tu em mim de tão incomprehensivel?

--Ha dias... na manhã que se seguiu a uma das muitas noites, que passas

fóra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de

agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas doçuras da vida de

familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me

lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album.

Hoje então...

--Tudo se explica; é pela razão, que eu disse. Tentei apertar-me nos

taes ambicionados laços, seduzido pelas promessas dos romancistas

moralisadores; a final vi que me magoavam como laços que eram... Mas que

versos foram esses, que me despertaram tão salutares ideias? Não me

recordo.

--Se queres que t'os leia?...--perguntou Jenny, pousando a mão na chave

da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.

--Se quero? peço-t'o.

Os dois irmãos entraram na sala quadrada, onde, até a meia altura da

parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas

brochuras e encardernações inglezas. Havia no meio da sala uma solida

mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos,

lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos pés, torcidos

em espiral,--um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente

resuscitada, graças sobre tudo ás predilecções dos inglezes, que a teem

tornado já rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias

publicações recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e

em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados

parecia convidarem á leitura.

Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros

livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmão se sentava

ao lado d'ella.

--Se me não engana a memoria--dizia Jenny--é a traducção de uma lenda

popular da Bretanha que se intitula...--Tendo encontrado justamente a

pagina que procurava, concluiu:--_Amel e Pennor_.

--Não tenho já a menor ideia do que seja.

--Ora ouve então.

E Jenny principiou a ler, com suavidade e graça inexprimivel, a seguinte

lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor

francez á musa popular da Bretanha.[1]

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 12 / 30 段