snr. Fortunato tem cousas!
Fortunato já estava arrependido do que dissera.
--Com menos motivos--acudiu Manoel Quentino--se arriscou ha tempos na
Foz o Carlitos, lá o filho do meu patrão. Virou-se no meio do rio um
pequeno barco valboeiro, que ía governado por duas creanças, uma das
quaes nem sabia nadar; e elle, que andava ás gaivotas com outros
inglezes--que é o seu gosto--não esperou mais nada e zás... mergulhou
como um peixe e salvou a creança. Depois continuou a caçar, com a roupa
molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer
doença.
Cecilia estava tão entretida a examinar não sei o quê, que vinha no
periodico, tão perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava
attenção ao episodio, narrado por Manoel Quentino.
É verdade que, assim que o snr. José Fortunato, depois de ouvil-o,
disse, com os seus modos sêccos:--«Estroinices», Cecilia levantou a
cabeça com impeto e fitou-o córando e com uma expressão, pouco
lisongeira para o velho.
Eu não sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como
ella estava, movimento, que aliás não teve consequencias, pois, voltando
á posição anterior, passou a ler o folhetim.
Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. Não lhe levem isto a mal
os folhetinistas. José Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a
maneira de ler de Cecilia inoculára-lhe o gosto dos romances. Tomava
agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de fé que
tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os
personagens, entre quem se travava a acção. Censurava por isso com a
mesma violencia, e louvava com a mesma satisfação esses heroes
phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.
Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar
do chá. Fortunato lia para si os annuncios.
Manoel Quentino passava então pelo somno.
Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos
contagiosos;--os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma
d'esta noite:
Primeira parte:--Fortunato principia por dizer--«Pois é
verdade.»--Replica-lhe Manoel Quentino--que a vida estava para
elle.--«Queixe-se, que tem de quê»--diz o outro--«E não tenho
pouco»--responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e
pausa.
Segunda parte:--Manoel Quentino queixa-se de umas dores de
cabeça.--Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel
Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe
que não use de café ao almoço. Bocejos reciprocos.
Terceira parte:--O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala
tem diminuto pé direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, é
o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos
estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transição para fallar
contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os
caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao
outro.
Quarta parte:--Fortunato diz que está a expirar o carnaval. Manoel
Quentino replica que lhe não deixa saudades. Fortunato faz igual
declaração. Manoel Quentino vê com maus olhos a chegada da quaresma, por
causa das confissões. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas.
Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de
confissões. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau
de vetustez, e d'elle conhecido.
D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graças á entrada de Cecilia e de
Antonia com o taboleiro do chá.
Era notavel a transformação, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto
das tostas e do leite. Então que querem? Não era que o homem precisasse
d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade
gustativa e, por os mysteriosos laços do physico e do moral, lá se lhe
ia entender com a alma por fim.
Esta satisfação interior desentranhava-se em amabilidades para com a
Hebe domestica d'aquella ambrozia--a snr.ª Antonia.
--Ai, snr.ª Antonia--dizia elle--assim é que é; cada vez mais nova.
--Não me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.
--Acabada! Ainda mal principiou...
Eu não sei se era intenção do snr. Fortunato terminar aqui a oração,
cujo sentido fica um tanto obscuro. E não o sei, porque n'este ponto
Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:
--Faz favor de ver se está bom do assucar, snr. Fortunato.
--Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim,
muito bem; mais uma agora e mais nada... assim... agora mais não. Está
muito bem.
Depois de cada um tomar a sua posição respectiva, o snr. Fortunato
principiou a fallar, misturando na bôca as palavras com chá, com leite,
e com tostas e bolos.
--Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da
prisão.
--Pois quem foi preso?--perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a
dormir, não sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na
folha.
--Então não ouviu?--disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo--Ella foi
bem pilhada, isso lá foi. Porque o homem, pelos modos, não sabia que o
desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado
quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse...--Aqui o
snr. Fortunato engrossou a voz.--«Eu sou a ultima das tuas victimas!»--E
o filho então é que veio a saber d'isto: sim, porque até alli não sabia
nada. Veio então a saber que a irmã do amigo do commendador é que tinha
dado o dinheiro, que elles entregaram á tal viuva do cunhado do
escrivão.
Manoel Quentino mexia machinalmente o chá, olhando boquiaberto para o
amigo, sem que percebesse uma só palavra, apesar do snr. Fortunato
gesticular, voltado para elle.
--Que diacho de embrulhada é essa? Eu se o entendo!
--Então não leu?--teimava o outro--Elles tinham combinado que, logo que
partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador;
e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram
encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas...
--Mas quem demonio é essa gente toda? Que mexerofada de
cousas!--exclamou Manoel Quentino, devéras impaciente.
--Então não ouviu?--insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade
de expressão se exacerbava ao expôr as enredadas aventuras de um romance
francez.
Cecilia, que ao principio não attentára no dialogo comico, que se estava
trocando entre os velhos, não pôde deixar de rir com vontade, ao dar por
elle.
--Mas onde aconteceu isso tudo, homem?--perguntava Manoel Quentino.
--Em Paris. Pois não...
--O pae não vê que o snr. Fortunato está a fallar do romance?
--Ah! isso sim.
--Pois que cuidava?
--Eu sei lá o que cuidava. Eu cá de romances não entendo. E agora por
isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me
havia de emprestar lá uns romances... Eh! eh! Tem diabo o rapaz.
--Tambem está um estroina!--disse o snr. Fortunato, que era dos que
tinham Carlos na conta de homem perigoso.
--Mas deixe lá, que é uma boa alma!--respondeu Manoel Quentino--Ninguem
lhe póde querer mal. É capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer
um pobre. Ahi está que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na
cidade, trazendo o cavallo á arreata e na sella vinha uma pobre velha,
que elle encontrou na estrada com um pé desmanchado; outro que fosse...
Ó Cecilia, então? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o
snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?
--Ai, perdão--disse Cecilia, córando pela distracção em que caíra.
Não sei bem por que isto a fez córar assim; mas o facto deu-se.
O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar
para si, e para a chicara, as attenções, disse por delicadeza:
--Não tinha pressa.
Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.
--Mas emquanto á tal historia da mulher--dizia Fortunato, recebendo de
Cecilia a outra chavena--isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois...
--Então; faz favor de ver se quer mais assucar--disse Cecilia, com um
certo modo desabrido, que eu tambem não sei explicar, e que contrastava
com a doçura que lhe era habitual.
O snr. Fortunato notou-o.
--Está muito bem, menina--disse elle.--Faz-me o favor de mais uma
colherinha. Está muito bem.
--Menos isso, snr. Fortunato--continuou Manoel Quentino.--Bem se vê que
não conhece o Carlitos. De imposturas é que elle nunca foi. Já em
creança...
--Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos--disse Cecilia de modo tão
affectuoso, que alvoroçou a sensibilidade do velho.
--Deixa estar, filha, que eu cá me vou servindo.
--Pois sim--insistia o snr. Fortunato--mas que elle não é lá de muitos
bons costumes, isso é que é verdade.
--Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato--disse Cecilia sêccamente, ordem
que, por excepcional, surprendeu a todos.
Tambem não sei bem explicar a razão d'esta ordem.
--Tudo isso não passa de rapaziada--proseguiu Manoel Quentino.--Mas o
que se chama fundo, boa alma, isso tem.
--Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que não toma rumo de vida...
--Tambem ha muitas más almas á testa de grandes estabelecimentos, snr.
Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!--disse Cecilia
com ironia.
--Pois bem sei que não, menina, mas...
--Mas, mas, meu caro--disse Manoel Quentino--o que ninguem póde negar é
que está alli um homem de bem... é verdade isso... Muitos fazem peior
com menos a desculpal-os.
O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porém
absteve-se de tomar parte n'elle.
Terminou o chá. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o
somno. José Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e ás vezes
ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse
qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.
--Ora vamos até casa--disse José Fortunato erguendo-se.
--Olhe se se agasalha--recommendou-lhe Manoel Quentino.
--Antonia, venha alumiar--disse Cecilia.
E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas,
conversando com Antonia até á porta da rua a respeito de frieiras, e
mettia-se em casa, onde a imaginação teimava em recordar-lhe a doce
figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.
--Estranhei hoje os modos da rapariga--dizia elle ao deitar-se.
Uma perfida paixão começára, havia muito, a minar o coração do pobre
homem.
Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco
tempo depois de Fortunato sair.
O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:
--Este snr. Fortunato ás vezes!...
--É caturra, é...
--E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.
--Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.
Cecilia retirou-se.
Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia
não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento
do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de
Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de
Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos
Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição.
Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de
sonhos, que nos deixa extenuados.
Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do
rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia
cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não
escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular,
ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um
cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar.
Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o
snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr.
Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o
impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes
em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e
agora era ella a que fugia de Carlos.
Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os
diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia
n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.
Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida--o que
não pouco inquietou Manoel Quentino.
XIV
IMMINENCIAS DE CRISE
Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite,
andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras,
a sua desconhecida da vespera.
Jenny notára a impaciencia, com que o irmão tinha aguardado a noite e,
ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:
--Adeus, Charles; quer-me parecer que te não recolherás d'esta vez pelas
quatro horas da manhã.
--Quem sabe, Jenny?
--Adivinho-o.
Effectivamente não eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone,
cansado de procurar em vão, em cada dóminó e sob cada mascara de seda, a
incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposição
do espirito.
Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:
--Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, já
pensará em outra cousa.
Acabára de facto o carnaval. Expirára essa época votada á folia e á
loucura sem rebuços e abria-se agora a da penitencia e dos sermões.
Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias,
deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos véos, durante
o qual a piedade e a moda levam ás sextas-feiras a multidão para a
igreja de S. João Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes
proximos, para assistir á procissão dos Passos e ao respectivo sermão do
encontro.
Quasi toda a manhã de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.
Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a
lembrança da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar,
sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber
quem ella fosse, concorria para o não deixar tranquillo agora. Estava
dando tratos á imaginação, para se lembrar de qualquer meio conducente á
solução d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia
a imaginação atormentada.
Saíu emfim, sem saber para quê, nem para onde; em vez de procurar os
centros de reunião mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver
e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo,
caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda não edificada da
rua da Boa Vista.
Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram tão raras as
occasiões de se ver assim entre arvores e fóra do povoado,
principalmente áquellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando
uma impressão singular.
Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!
Internou-se por pinhaes e campos, até perder de vista a estrada. Parou
emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manhã, não são
necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o
pensamento a uma d'essas divagações, a que anda tão sujeito o dos
poetas.
A vastidão do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das
montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e
obrigam a meditar até os menos propensos a contemplações abstractas.
Haja porém um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou
tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que é uma poesia tambem, e
menores causas bastarão para se produzirem effeitos ainda maiores.
O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sêccas
do chão, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio
do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas
tojeiras, nas praias o movimento de expansão das actinias, ou rosas do
mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos,
sem importancia para quem os vê com animo distrahido, são já alimento
bastante para phantasias mais apuradas.
Carlos tinha a imaginação predisposta para estas impressões subtis, e,
como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada
intensidade.
Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos póde
conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de
vida que, após longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O céo não
tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o véo transparente de nebrinas.
Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se já na primavera, se
tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal
podia agitar as folhas movediças das arvores que o inverno respeita. Era
tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar
lentamente, em columnas direitas, sem que uma viração as quebrasse, e só
muito alto se dissipava na atmosphera.
Do logar onde parára, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do
campo, chamando o gado, rindo ou cantando.
Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o
silencio deixavam-as chegar até alli sonoras e perceptiveis.
Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.
--É uma singular loucura--pensou elle--julgar que se aproveitam os dias
da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que
teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar
d'ella em tempo. E como é que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante
de um café; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo
menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das
praças, ou em lojas á moda. Na verdade, que delicioso viver! E o
espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em nós, quando assoma
a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos
proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades
creadas. E diz-se então que soube gosar da vida o que voluntariamente se
privou das mais gratas impressões, que podem sentir-se n'ella!
Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no
pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.
--Nem eu sei--proseguia elle--como ainda experimento prazer, ao achar-me
aqui só. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se até a faculdade de
saber sentir assim, a sós; quando é talvez d'esta maneira que a
imaginação mais subtil se mostra...
Vejam os leitores até onde iam já arrastando Carlos os attractivos
d'aquella solidão suburbana!
Operou-se porém uma transformação nas suas ideias, que parecia vogarem,
e á vela cheia, seduzidas pelas doçuras da vida de anachoreta. Um
pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.
--Mas não--reconsiderou elle--não basta sentir; é necessario transmittir
as expressões dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final
de contas, não são os confidentes mais proprios. Tudo precisa de
reflectir-se, para não perder na immensidade; a luz, n'um espaço vasto,
dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se
outra oração, reflectindo-o, o não reforça. É porisso que a presença de
um amigo... Mas que amigos tenho eu?
Tremo devéras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a
responder a esta pergunta, que fez a si proprio.
--F...,--continuou elle--cuja amizade não resistirá á primeira falta de
senso que lhe notar n'um folhetim; C..., que romperá commigo, se eu
tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitação; L..., que
abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle
corresse o perigo de enlamear as botas de polimento..., e todos os mais
da mesma força. Vão lá escolher um d'esses homens para companheiro
n'estas _viagens sentimentaes_.
Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu
espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultára,
continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como
scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar.
Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:
--Ahi está; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno
reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas
d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice... Ha
certas vibrações de sensibilidade, que não se póde communicar... a não
ser... a não ser a um coração de mulher... Ellas sim, teem certas
puerilidades sublimes, que... Ora adeus! Temos outra como a dos amigos.
Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S...,
mulher nervosa, que teria um deliquio só ao ver aquella
sardonisca--sensibilidade de toucador; a C..., essa então, mulher forte,
que só um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E...,
belleza de salão, que se levanta ao meio dia, admira a natureza... nos
jardins, e lamenta que a solidão não tenha gente que veja como ella a
sabe apreciar...; e as outras regulam por isto. Verdade é que eu tambem
com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira...
N'este ponto tomaram as suas meditações outro caracter. Alguns passos
mais adiante, já elle meditava:
--Á força de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos
casamentos de paixão, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de
que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devéras... se aproveitar
estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo...
O leitor sabe de certo até onde podem chegar as excursões do pensamento,
quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como
elle, se está em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, não
estranhará que, momentos depois, já assim estivesse pensando Carlos:
--Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se
queira como amante, que se estime como irmã, que se venere como mãe, que
se proteja como filha..., é evidentemente o destino mais natural ao
homem; o complemento da sua missão na terra...
Quando Carlos Whitestone chegára a formular, no pensamento, esta
profissão de fé, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabeça de vinte
annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do
pinheiral opposta áquella, por onde havia entrado.
D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado
por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas;
umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.
Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcação do pinhal. O horizonte
que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo
d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o
espirito não tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplação.
Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava
d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de
trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas
florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de
camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda,
que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre
a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.
Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de
Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como
estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem
n'esta vida.
Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço
de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do
espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta
vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto
incendio.
O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima
apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia
mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e
pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar
que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.