reconheceu, não foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade
de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse
acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem,
em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe
disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de
occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger,
perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas... sabe o que elle me
respondeu?
--Que foi?
--Se eu lh'o digo, Cecilia, é para que a menina faça sempre o que lhe
aconselharem os presentimentos do seu bom coração, e creia que são
excellentes as inspirações que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a
Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle
dóminó, e a que me via perseguida, respondeu-me que não havia
probabilidade d'isso, porque... pessoas que...
--Oh! não diga mais, Jenny, não diga mais--atalhou Cecilia, quasi
fechando-lhe os labios com a mão; e os olhos inundaram-se-lhe de
lagrimas que, umas após outras, lhe rolaram pelas faces.
Era uma das irresistiveis expansões d'aquella impetuosa natureza.
--Bem vê, Cecilia--proseguiu Jenny com affecto--bem vê que não tinha
razão Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora não se
afflija, menina. Affligir, porquê? Foi uma brincadeira de raparigas e
sem consequencias além d'aquellas--acrescentou, sorrindo--de que nem a
inspiração, que Deus lhe mandou, a pôde livrar. E se isto a faz chorar
assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?
--Jenny, prometta-me nunca dizer a... a ninguem que era eu...
--Socegue. Dentro em pouco nem eu mesma o sei já.
--Oh! meu Deus só o suppôr!...
Jenny conseguiu serenar a rapida tempestade, que turvára o espirito de
Cecilia, e distrahir-lhe a attenção para outros objectos.
Antes de saír de casa de Mr. Richard, já ella tinha rido, e quando
entrou na sua, trazia o espirito tranquillo, e respirava com o desafôgo
dos dezoito annos, e d'aquella indole sem preoccupações.
Feliz idade e feliz coração!
XIII
VIDA PORTUENSE
Manoel Quentino habitava em uma rua proxima do extremo occidental da
cidade, afastada assim do maior bulicio d'ella--bulicio que, desde as
tres horas da tarde até ás seis da manhã, era para o guarda-livros
insupportavel.
Os gostos de Manoel Quentino tinham de facto variações diurnas tão
regulares, como as de um instrumento meteorologico.
Nas horas de vida commercial impacientava-o o socego do bairro em que
vivia; ao romper do sol por detraz dos outeiros, que elle avistava ao
longe das janellas do seu quarto, tomava-o a febre do trabalho; o cantar
matutino das aves por entre os arbustos do quintal, a não ser aos
domingos e dias santos, não o tentava a ficar a ouvil-as; parecia que
mais bellezas de harmonia achava nos gritos dos vendilhões, que enchem
as ruas da cidade baixa. Pelo contrario, ao declinar da tarde,
entrava-lhe no coração a nostalgia domestica; começava a odiar o
escriptorio, a rua dos Inglezes, o borborinho das praças, e a suspirar,
como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa
descer o astro do dia, e sumir-se no oceano; espectaculo magnifico, ao
qual da varanda da sala do jantar assistia com o prazer do espectador
que de um camarote de frente presenceia fascinado a vista final de
gloria de um drama sacro.
O arranjo interior da pequena casa de Manoel Quentino exprimia certo
bem-estar, certo conforto, que principiava a querer transpôr os limites
que o separavam do luxo.
Permittiam-o os ordenados que Manoel Quentino, como primeiro
guarda-livros, recebia das mãos de Mr. Richard, mãos nunca tão
apertadas, que não deixassem saír algumas mealhas mais do que o
ajustado.
Preciso é porém confessar que o espirito economico e a intelligente
administração de Cecilia concorriam em grande parte para este resultado.
Pelas suas mãos, de bem pequenas afeitas ao tracto domestico, tão
escrupulosamente regulados andavam os capitaes, que não só satisfaziam
ao necessario, mas derivavam-se ainda para o que se póde já dizer
superfluo.
Escusado é quasi acrescentar que Cecilia era o idolo de Manoel Quentino.
N'ella se concentravam todas as affeições do velho. Tinha apenas seis
annos a filha, quando lh'a deixára confiada a esposa, que elle chorava
ainda; emquanto cercava a innocente de constante vigilancia e de
cuidados assiduos que, por inspirações do coração, soubera amenisar de
carinhos e de meiguices verdadeiramente maternaes, robusteceu-se-lhe
aquelle amor a ponto de referir d'ahi por diante a elle todos os outros
sentimentos, que o moviam.
Nunca lhe pareceu demasiada qualquer despeza feita com Cecilia.
Empenhou-se em dar-lhe uma educação esmerada, e conseguiu-o.
Exultava de prazer, vendo crescer em vida, em intelligencia, em bondade,
aquella bonita creança, junto de cujo berço velára noites e noites,
scismando no futuro d'ella.
Pouco a pouco deixára-se possuir de um respeito, de uma veneração pela
filha, que tinham seus vislumbres de idolatria.
A primeira madeixa loura cortada aos cabellos de Cecilia, ainda menina,
trazia-a o velho sempre comsigo, como talisman milagroso; o menor
bilhete, dos que ella lhe escrevia para o escriptorio, a respeito de
qualquer negocio domestico, archivava-o, como reliquia, que seria
profanação deixar perder.
Tinha puerilidades Manoel Quentino!... puerilidades que só farão rir aos
poucos, que não as tenham tido iguaes. Movia-o, quasi até ás lagrimas,
qualquer phrase affectuosa d'aquellas insignificantes correspondencias.
Como elle era feliz lendo, no alto do bilhete, por exemplo: «Meu bom
pae» ou «meu querido pae», e no fim d'elle--«sua extremosa filha» ou
«sua filha obediente».
Por irresistivel impulso aproximava dos labios aquellas palavras e
beijava-as com fervor.
Quando, no meio do trabalho quotidiano, que elle, como vimos, executava
com uma fleugma e regularidade, que deviam fazer suppôl-o homem pouco
sujeito a expansões, a ideia de Cecilia lhe passava pelo espirito, tinha
movimentos de creança.
Pousava a penna, interrompia a conta, correspondencia, ou o que quer que
fosse em que estivesse occupado, para esfregar as mãos de contente, como
o rapaz de escola ao acudir-lhe de subito a lembrança de um feriado
proximo.
Ás vezes não resistia a dar dois passeios no escriptorio, trauteando, e
a vir á janella, com a penna na orelha, a espreitar, por entre os
vidros, a altura do sol.
Ao voltar a casa, Manoel Quentino não se distrahia pelas ruas; procurava
as travessas e atalhos mais solitarios, para evitar importunos;
tardava-lhe a conversa da filha.
Quando na presença d'elle se fallava em alguma epidemia, que
principiasse a ameaçar a cidade, já o bom homem não podia dominar um
terror intenso; revelava-se-lhe no semblante em caracteres bem evidentes
e havia-lhe conquistado a reputação de pusilanime, entre os seus
collegas mais novos; já até se divertiam, mal suspeitavam com que
crueldade, a despertar frequentes vezes estes receios pânicos.
A ideia do risco pessoal não era porém a que o fazia empallidecer; um só
receio, uma só lembrança o torturava então, era a do perigo que podia
correr a vida de Cecilia.
Não se concebe em que especie de loucura o lançou uma doença da filha. O
serviço do escriptorio foi pela primeira vez perturbado na sua marcha
regular, e a correspondencia, em cuja nitidez caprichava Manoel
Quentino, não raro lhe saía das mãos toda manchada de lagrimas. No dia
em que o medico lhe deu, sorrindo, a certeza de que Cecilia estava
salva, Manoel Quentino não teve mão em si, que se não atirasse, a rir e
a chorar, aos braços d'elle, chamando-lhe seu bemfeitor e beijando-o com
paixão.
Esta crise exacerbou aquelle já extremoso amor de pae.
Não havia sabbado em que Manoel Quentino, parco em excesso talvez
comsigo, e que por isso grangeára entre os amigos a immerecida reputação
de avarento, entrasse em casa com as mãos vazias, sem um mimo, uma
lembrança para Cecilia, arrostando com as meigas exprobrações d'esta e
com seus mal simulados arrufos.
Quantas vezes elle fazia, como costuma dizer-se, vista grossa para o
azulado ameaçador dos cotovêlos e das costuras do casaco, para as
quebras lastimosas do seu chapéo de seda, só com o fim de poupar algumas
libras e comprar um chaile, uma marqueza, um vestido novo a Cecilia!
Só depois de repetidas insinuações, pedidos, e até affectuosas ameaças
da parte da filha, só depois d'ella haver esgotado os mil recursos da
sua eloquencia, é que Manoel Quentino se decidia emfim a olhar por si e
a attender ás necessidades proprias.
O meio mais poderoso a que, para isso, Cecilia recorria era pedir-lhe
que a acompanhasse a um logar publico qualquer. Então o guarda-livros,
que não aprendera a recusar-lhe nada, promettia, scismava, coçava a
orelha, examinava o fato, torcia o nariz, resmungava e, no dia ajustado,
elle ahi se apresentava de uniforme novo para servir de cavalheiro á
filha.
A ideia de a fazer passar por uma vexação realisára o milagre e vencera
a sua modesta repugnancia.
Cecilia sabia-se objecto d'este culto, e retribuia-lh'o com attenções e
carinhos, que deixavam comprehender ao pae o que devia ser a felicidade
suprema.
O leitor, costumado a passar a noite no theatro, nos bailes ou nas
assembleias, mal póde fazer ideia do prazer intimo com que Manoel
Quentino via escurecer a tarde e scintillarem, ainda pallidas, as
primeiras estrellas no céo.
Preparava-se-lhe um d'esses gôsos placidos, que são mal concebidos por
quem d'elles anda arredado em habitos de vida mais turbulenta; mas aos
quaes não ha talvez caracter ou temperamento humano, que não corra o
perigo de habituar-se, se por algum tempo lhes experimentar as doçuras.
É mais facil, e mais vezes se realisa, a transição da vida errante,
tumultuosa e agitada para estes monótonos prazeres do viver domestico,
do que a inversa; como se o pendor natural da indole do homem o chamasse
mais para alli.
Os serões de Manoel Quentino, aquelles seus tão apreciados serões,
passavam-se todos com uniformidade tal, que, por um, se ficava, com
raras excepções, a conhecel-os todos.
O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das
scenas, que havemos descripto até aqui, podem offerecer-nos uma perfeita
amostra d'elles.
Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do
occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as
quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de
zona prateada.
A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o
extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da
abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens,
que d'aquelle lado limitavam o horizonte.
As occupações domesticas de Cecilia só de quando em quando lhe
permittiam assomar tambem á varanda, e recostando então o braço ao
espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de
belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho
sómente apreciava em globo.
--Repare n'aquella nuvem côr de rosa. Não parece mesmo uma ave com as
azas abertas?--perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o
sol tingia os reflexos afogueados.
--Uma ave!--dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado--Então
como te parece uma ave aquillo, menina?
--Pois não acha? Olhe; vê alli a cabeça, depois uma aza, depois a outra?
Olhe, agora inda parece mais; até a cauda se conhece bem...
--Eu... se queres que te falle verdade...--continuava Manoel Quentino,
sem perceber ainda a similhança.
--Olhem que pae este! Pois devéras não vê? Para onde é que está a olhar?
E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabeça na posição da de Manoel
Quentino, e tão perto, que o pae não perdia o ensejo de lh'a beijar na
fronte.
--Ora diga, pois não lhe parece uma ave aquillo?--insistia Cecilia.
--Eu... Ah! agora sim!--exclamou o velho, tendo a final percebido a
similhança--Agora, sim, senhora! Lá está, e que grande bico que ella
tem! Eh! eh! eh!... Ora o diacho!
--A menina faz favor de chegar aqui.
Era a criada Antonia, que reclamava o conselho de Cecilia em alguma
difficuldade de administração domestica.
Antonia era um tão genuino typo de criada de servir, que dispensa a
descripção.
Cecilia retirou-se da varanda. Manoel Quentino permaneceu com os olhos
fitos no sitio, para onde lh'os dirigira a filha, até que a nuvem côr de
rosa de todo se descoloriu e desformou.
Então baixou-os para a terra e scismava... na sua felicidade.
Passados instantes, Cecilia aproximou-se pé ante pé, e, sem ser
presentida, veio por detraz d'elle e tapou-lhe os olhos com as mãos,
perguntando:
--Adivinha quem eu sou?
--Ora tem muito que adivinhar!--respondeu Manoel Quentino,
gracejando--pelas mãos se conhece logo. É a aguadeira.
--Ora vamos!--exclamou Cecilia, rindo--Mas para onde é que estava a
olhar assim entretido, que nem me viu?
--Estava a ver umas obras, que além se andam a fazer. Aquillo, se me não
engano, é na casa do conselheiro Arantes.
--Ora se ha de olhar para acolá, para aquellas arvores, põe-se a reparar
n'essas casarias! Não lhe appetecia estar alli, debaixo d'aquelles
carvalhos?
--Não é nenhum impossivel; se quizeres...
--Então promette levar-me lá?
--Prometto tudo o que tu quizeres.
--Veja o que diz! Depois, se lhe pedir alguma cousa difficil!
--Eu já estou costumado ás tuas exigencias.
--Sim? pois eu tenho uma cousa a pedir-lhe.
--Ha de ser grande.
--E é, promette fazel-a?
--Dize lá.
--Mas promette?
--Mas dize primeiro.
--Não, senhor, prometta antes.
--Bem sabes que te não digo que não.
--Mas então que dúvida tem em prometter?
--Está bom, prometto.
--Dá-me a sua palavra?
--Dou a minha palavra--disse Manoel Quentino, rindo.
--Pois o que eu queria pedir-lhe--disse Cecilia, passando os dedos por
entre os cabellos brancos do pae--era que comprasse outro guarda-chuva,
que, a fallar verdade, aquelle sempre está!...
--Ora! cuidei que era outra cousa!
--Não importa; mas prometteu.
--Pois sim; mas escuta...
--Ágora escuto, que tenho mais que fazer.
E retirava-se apressada para não ouvir, dizendo:
--Não quero saber, prometteu!
D'ahi a pouco era o pae que a chamava.
--Cecilia, ó Cecilia! anda depressa ver um vapor no mar.
Cecilia correu á varanda.
--Vês?
--Agora estou como o pae ha pouco com a nuvem.
--Pois não vês?! Olha; aqui mesmo ao direito d'aquella chaminé; entre
aquella entre-aberta de pinheiros.
--Bem vejo. Entra ou sáe?
--Quer entrar; mas com o rio assim! Aquillo é vapor inglez. Ora traze-me
o oculo.
--Agora é quasi noite e não póde distinguir nada. E demais está frio,
não será mau fechar a janella e vir cá para baixo. Eu tenho tambem de
trabalhar e preciso de accender luz mais cêdo.
--Pois então vamos.
Principiava então ainda mais agradavel passa-tempo para o honesto
guarda-livros.
Desciam para a sala contigua ao quarto de Manoel Quentino; sala
modestamente mobilada, mas em cada particularidade da qual se revelava o
bom gosto de Cecilia. Se alli dentro se não encontrava nenhum movel de
alto preço, nenhum objecto de elegancia luxuosa, não havia tambem as
ridiculas demonstrações de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem,
adquiridas sem escolha.
Descobria-se em todo aquelle recinto um asseio e conchego, que fazia bem
contemplar.
Manoel Quentino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de
braços, verdadeiramente patriarchal; Cecilia trazia luz, fechava as
janellas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pae.
Manoel Quentino contava alguma cousa do occorrido no escriptorio;
Cecilia correspondia-lhe, referindo o que, na ausencia de Manoel
Quentino, succedera em casa.
N'aquella noite o pae fallou muito de Carlos, das suas travessuras, do
seu estouvamento, dos enganos que n'aquella manhã lhe fizera ter na
escripta, do episodio da agua-ardente, dos sentimentos de Mr. Richard
para com o filho, e sobre tudo do bom coração do rapaz.
Cecilia escutava-o com attenção, sem nunca o interromper com perguntas,
mas tambem sem nunca levantar os olhos da costura, para os fitar no pae.
N'isto retiniu a campainha do portal.
--Ahi está o homem--disse Manoel Quentino.
--Antonia, vá alumiar--bradou Cecilia.
Ouviu-se Antonia descer pesadamente as escadas, depois algumas palavras
trocadas no portal, os passos de duas pessoas subindo, e o _homem_, que
Manoel Quentino parecia esperar, entrava para a sala, tirando o chapéo e
cumprimentando os circumstantes com a invariavel fórmula:
--Muito boas noites, snr. Manoel Quentino; muito boas noites, menina.
Este _homem_ era um vizinho e amigo de Manoel Quentino, que, havia muito
tempo, ganhára o habito de vir todas as noites alli ouvir ler os
jornaes, tomar chá e sustentar com o guarda-livros o mais soporifero e
descosido dialogo que se póde conceber, retirando-se emfim, ao bater das
nove horas, depois de agasalhar o pescoço com uma manta de lã, a qual
levava sempre de prevenção para toda a parte. Chamava-se José Fortunato;
fora em tempo negociante de cereaes; n'esta época era proprietario de
predios velhos, possuidor de papeis de credito, homem de habitos
pacificos e ideias conservadoras, modesto no vestir, discreto no fallar,
fazendo ao jantar o seu forte no cozido, e, entre as maiores
extravagancias da sua vida actual, contando a de comprar, de quando em
quando, uma lagosta para comer de salada.
Era d'estes sujeitos, fieis observadores das leis commerciaes, e
rigorosos nas suas contas, a ponto de poderem parodiar uma das petições
do Padre-nosso, dizendo:--Fazei que nos paguem, Senhor, as nossas
dividas, assim como nós pagamos aos nossos credores.
Esta quotidiana visita a Manoel Quentino tornára-se já para o snr.
Fortunato uma necessidade, e de igual fórma a presença e o conversar do
ex-negociante de cereaes, com quanto pouco ferteis em distracções, não
eram menos precisas ao pae de Cecilia, que estava n'aquella idade, em
que os habitos imperam com mais força, e menos se amoldam os genios ás
exigencias de habitos novos.
Passados os cumprimentos de tarifa, José Fortunato tomava assento ao
lado de Manoel Quentino, e principiava entre elles um dialogo, que, com
as variantes que o leitor prevê, era d'este teor a fórma:
--Muito frio, snr. Fortunato--dizia um.
--E muita chuva--respondia o outro, ageitando-se.--Esteve hoje lá em
baixo?
Pergunta ociosa.
--Estive.
--Então que se diz de novo?
--Nada.
--O rio vae muito cheio?
--Parece que começa a abaixar um pouco.
--Sempre está um tempo, santo nome de Deus!
--E que desgraças tem já causado!
--Que eu dou-me melhor com o frio--acrescentava d'ahi a instantes Manoel
Quentino.
--Eu lhe digo, eu tambem, para que digamos, não passo mal no inverno;
tenho mais appetite; mas esta catarrhal...
Tossia, para exemplo.
Todos os dias diziam isto um ao outro.
--Para as terras é que isto vae mal.
--Já tudo está por a manta de Judas.
Phrase da linguagem popular, que quer dizer, não sei por quê, que tudo
está caro.
--Pois a carne?!
--Se deixam ir todo o gado para o estrangeiro! Devia fazer-se uma lei,
que prohibisse esse desafôro.
Alvitre economico, que ainda não perdeu de moda.
--Isto está o diacho!
Este apophthegma fechava quasi sempre e com chave de ouro o dialogo.
Calaram-se os dois.
Cecilia, que esperava por este silencio e já por habito sabia o que
significava, ia então buscar as folhas do dia e preparava-se para ler;
os dois velhos dispunham-se a escutar.
Qualquer d'elles experimentava um prazer indefinivel em ouvir ler
Cecilia.
Lia com tanta intelligencia e graça, que o snr. José Fortunato
confessava, que muitas vezes, ouvindo-a, entendia cousas, em que debalde
tentára penetrar, a grandes esforços de leitura propria.
Era uma scena curiosa aquella.
A compaixão paternal só perdoava a Cecilia a secção dos annuncios; o
mais tudo lhes lia a condescendente rapariga; o artigo de fundo, com
resignação; com intrepidez, as noticias estrangeiras; com curiosidade,
as locaes; o folhetim, com mais vontade; e tudo sem o menor
constrangimento, que podesse aguar aquelle prazer dos seus ouvintes.
O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios,
áquella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella
ás vezes com um áparte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse
escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista,
desafiava-lhe reflexões, que neutralisavam o contagio anti-governamental
que principiava a fazer das suas nas profundas convicções de ordem do
snr. José Fortunato.
O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a
curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.
Cecilia era obrigada a ler aquellas descripções de carnificina, que
todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella
sempre com a fronte contrahida de desgosto.
Manoel Quentino era pelos alliados, José Fortunato esposava a causa dos
russos--um e outro sem saberem bem porquê. Cecilia era só pelos mortos e
feridos.
Um dia parou no meio da descripção de um dos mais sanguinolentos
encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa
d'esta guerra implacavel.
A pergunta embaraçou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o
snr. José Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr.
Fortunato o mais que pôde dizer foi:--«Que a guerra era lá por causa de
umas cousas».
Cecilia tambem não exigiu saber mais.
--«Os russos...--leu ella n'aquelle serão--fazem fogo durante a noite
sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.»
--Teem mêdo--commentou logo o snr. José Fortunato com um sorriso.
--Isso é plano!--acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no
mysterio.
--«Os atiradores alliados respondem porém de dia com
proveito»--continuava a ler Cecilia.
--Então? era ou não era plano? Eu logo vi--exclamou Manoel Quentino,
exultando.
--Balas perdidas--replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.
--«Os soldados--proseguia Cecilia--pedem com enthusiasmo ao general em
chefe, que dê a batalha»--e, acabando de ler isto, fez um gesto de
aversão.
--Pois vão para lá!--respondia o snr. José Fortunato, como homem que
conhecia a preceito os recursos de defeza da praça.
--«Em Sebastopol ha duas mil bôcas de fogo»--lia ainda Cecilia.
José Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e
triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a
defender com aquelles auxiliares.
Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pachá acabava de tomar o commando do
exercito da Asia.
Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse
grande confiança no Vassif e nas operações campaes do exercito da Asia.
Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de
janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle não sabia quem era,
com a guarda imperial franceza; José Fortunato só teve, a compensar-lhe
o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em
Pruth.
As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem
conflicto, as curiosidades do auditorio.
Uma cousa não podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem
levianamente certos assumptos tristes: a prisão de um pobre, uma
desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo.
Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel
Quentino e José Fortunato apoiavam.
O noticiario vinha então abundante de descripções de desastres, causados
pela cheia do Douro.
Era com consternação que Cecilia lia a narração de tantas miserias.
Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda
haverá talvez no Porto quem conserve memoria. O irmão de um piloto de um
dos navios que a corrente arrebatára, depois de tentar em vão salvar o
irmão em perigo, perdeu a razão, vendo-o succumbir; e esta dupla
catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que
tinha razões para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a
occultas. José Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias
assim, certas observações sêccas, de fazerem perder a paciencia a um
santo.
Ouvindo ler aquillo, disse:
--Ora! Isso é historia! Os gazetilheiros ás vezes...
--Historia! Ó snr. Fortunato, por quem é!--exclamou Cecilia
impaciente--Lembre-se de que é um irmão a querer salvar um irmão, e a
vel-o morrer; de que é um pae que perde dois filhos; não acha ainda
razão de mais para a morte ou para a loucura?
--Pois então o outro que não fosse metter-se ao perigo; devia
lembrar-se...