placidez d'estes primeiros effeitos; se levaes em conta de ventura a
liberdade do coração, fugi-lhes emquanto é tempo; pois, continuando
n'essa convivencia intima, natural, insinuante, correis o risco de
insensivelmente vos deixardes prender, se um dia, ao tentar terminal-a,
surprendeis-vos devéras apaixonados; pela dor que experimentaes,
conheceis então que fundas raizes lançára já o affecto.
Eu por mim julgo mais irresistiveis as paixões que se geram assim; as
que nascem rapidas, teem evolução rapida tambem, e muitas vezes
apagam-se em pouco tempo.
Vendo n'isto de paixões uma especie de doenças da alma, como alguns
querem, era possivel talvez estabelecer n'ellas divisão analoga á que,
nas do corpo, admittem os medicos. Haveria assim paixões agudas e
paixões chronicas; umas, como as doenças do mesmo nome, geradas por
impressões subitas, rapidas na sua marcha, promptas na sua terminação;
outras adquiridas insidiosamente, por influencias de todos os dias, e de
que nem se suspeita mal, lavrando a occultas e revelando-se apenas,
quando o terreno já é seu e a victoria certa.
Quaes d'ellas zombam mais da arte, devem sabel-o medicos e doentes.
Mas, voltando a Cecilia, o seu conversar, ao qual dava realce o timbre
de voz, vibrante e sonoro, tinha uma vivacidade e animação, direi até
uma eloquencia natural, que entretinha a ouvir-se; no decurso de
qualquer conversação, era notavel a frequencia com que lhe passavam a
voz e as feições por contínuas e successivas alternativas de tristeza e
alegria; como alternam nas campinas a sombra e a claridade, quando
atravessam rapidas o ar, as nuvens impellidas pelo norte.
Era assim que, referindo acontecimentos tristes, uma ou outra
circumstancia d'elles desafiava-lhe um sorriso ou uma observação jocosa,
e que, no meio da historia mais jovial, não lhe passava despercebido
qualquer ligeiro vestigio de sentimento que ella tivesse, e de repente
lhe desapparecia o riso dos labios e os olhos reflectiam uma generosa
melancolia.
Um dia, por exemplo, contava ella a Jenny, e contava-o quasi a chorar, o
infortunio de um pobre centenario, a quem seu pae soccorrera. O
desgraçado velho vivia n'uma casa miseravel, e, abandonado de todos, ia
succumbindo á fome, quando Manoel Quentino o disputou compassivo a morte
tão tormentosa.
--Se visse o pobre homem!--dizia então Cecilia, com tremor de compaixão
na voz--se o visse! Como elle nos recebia, chorando e rindo, como me
pegava nas mãos para as beijar! Como erguia ao céo aquelles olhos, quasi
cegos pela velhice e pela desgraça! Fazia pena! Tão trémulo, tão
curvado!...--E, de repente, vindo-lhe aos labios um sorriso, que ella
não reprimiu, acrescentou:--E então n'aquella idade e n'aquella miseria
toda, o cuidado que o pobresinho tinha ainda com o rabicho, que usava na
cabelleira! Coitado!
De outra vez contava, rindo, o episodio caricato de certo operario, seu
vizinho, que voltára, uma noite, a casa em completo estado de
embriaguez, e atordoára a rua inteira com expansões de extemporanea
alacridade, altercando, cantando e tocando até altas horas. Tudo quanto
até alli referira lhe merecera sorrisos, mas, n'um instante,
cobriu-se-lhe o rosto de profunda tristeza, e suspirando, proseguiu,
cingindo a mão de Jenny:
--Mas não quer saber? Quando este homem estava mais contente, vieram
trazer-lhe um cão, que elle estimava muito e que n'aquella mesma noite
haviam envenenado nas ruas. Parece-me que estou ainda a ver como elle
ficou; esteve por muito tempo calado a olhar para o pobre animal e
depois desatou a chorar e a abraçal-o, chamando-lhe seu amigo, seu
companheiro, até...--acrescentou, sorrindo--até seu irmão. Mettia
realmente dó. E aquella gente a rir cada vez mais! Era aquillo para rir?
diga.
Justeza de observação, talento para apreciar todas as faces dos
sentimentos e das acções humanas, poucas vezes os dá o estudo no grau,
em que ella naturalmente os possuia.
Não se podia pois, repetimos, dizer Cecilia apaixonada como uma
italiana, pensativa como uma allemã, séria como uma ingleza, languida
como uma hespanhola, _coquette_ como uma franceza, porque de nenhum
d'esses typos se aproximava; era verdadeiramente portugueza, e, para
caracterisar estes, só conheço uma phrase, de que talvez o leitor se vá
rir, mas pela qual eu tenho inexplicavel predilecção. Associa-lhe o meu
pensamento tal conjuncto de qualidades physicas e moraes, que sempre que
a ouço applicar, ella só suppre para mim uma longa descripção, e se for
a analysal-a não lhe encontro de certo a comprehensão, que
instinctivamente lhe attribuo. Se ao leitor succeder o mesmo, conceberá
o typo de Cecilia depois de eu a pronunciar.
Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar--uma pobre
rapariga.--N'esta expressão nada ha que faça suppôr a belleza da pessoa
a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma
moral.
É certo; porisso não analyso. Succede porém que, quando de qualquer
mulher, que não conheço, ouço dizer que é--uma pobre rapariga--, não sei
por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um coração...
como o coração de Cecilia.
Aqui temos a ingleza Jenny, que não poderia receiar confrontos com a sua
amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, não sei porquê, lembrou-me
chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino
Cecilia.
Accusar-me-hão de dar á filha de Manoel Quentino uma feição
demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso.
Folgarei de que seja merecida a critica, porque...--vá aqui mais outra
confissão, em que revelarei a minha coragem--, eu sympathiso mais com os
typos burguezes do que com os typos aristocraticos,--e em mulheres
sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza,
e sem aspirações a deixar de sel-o, quando a trabalhar á luz do
candieiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em
problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e
abençoada applicação da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as
bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a
mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da
contemplação do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma
poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabeça ás mãos de uma
criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por téla ...
um leque ou uma tampa de cartonagem.
Sim, Cecilia não tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda
genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria é o ter,
em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia
prescindir d'ella, para se engrandecer.
XII
OUTRO DEPOIMENTO
--Esteve doente, Cecilia?--perguntou Jenny, accommodando o chapéo da
amiga.
--Não; porque m'o pergunta?
--Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto... e depois... veio tão tarde.
--Ai, menina,--replicou Cecilia, sorrindo e ageitando o cabello, que o
chapéo desordenára--é que se soubesse... Hoje fiz de fidalga.
Levantei-me depois das oito horas.
--Sim, preguiçosa? E querem então ver que se esqueceu de trazer aquelles
cabeções, de que me fallou.
--Ágora. Olhe; trago esses e até mais alguma cousa...
--Bem, bem; vamos ver isso tudo--atalhou Jenny, com curiosidade.
E as duas raparigas foram sentar-se, uma ao lado da outra, no sofá
proximo da janella.
--Veio só?--perguntou Jenny, momentos depois.
--Vim.
--Sem mêdo?... no dia de entrudo!...
--Mêdo nenhum. De minha casa aqui são caminhos, que podem dizer-se todos
de aldeia. Quasi sempre por entre quintas e campos... Encontrei umas
creancitas, que vinham da mestra, e conversei com ellas todo o tempo.
E continuando a revistar o interior de um sacco de marroquim verde com
fechos de aço, Cecilia proseguiu, mudando de tom:
--Não julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma
distracção de meia hora no serão de sabbado. Esta semana tive tanto que
fazer, que não pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que não me
cresce muito tempo para brincar. Olhe.
E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeção
apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia
fazer uma descripção, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao
escudo de Achilles.
Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este
assumpto não lhes deixarão sentir a lacuna.
--Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o
outro que me mostrou ha dias--disse Jenny, demorando-se a examinar o
cabeção.
--O desenho d'esse é mais delicado, mas... Ai!--acrescentou passando, a
sorrir, a mão pelos olhos, e suspirando--parece-me que nem vejo, de
somno que tenho!
--Somno! E levantou-se tão tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?
--É que me deitei hontem muito tarde tambem.
--A trabalhar?
Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a
responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella.
Viu-a córando e como entretida a segurar um alfinete.
Os alfinetes são os principaes cumplices de todos os disfarces
femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma
turbação, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a
servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e
a repregar de novo.
A final porém, com visivel esforço sobre si mesma, Cecilia respondeu de
uma maneira, que em vão procurou tornar natural:
--Não, Jenny, não foi a trabalhar.
Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitação, mas não tentou
descobril-o; disfarçando as suas suspeitas, disse-lhe:
--Pôz agora de lado um trabalho de _crochet_, que me pareceu bonito.
Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.
E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as
constranger a ambas; até que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas
resoluções tão frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer
apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexões
viessem suffocal-o, pôz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que
tinha estendida no regaço, e tomando as mãos de Jenny, fitou os olhos,
negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com
que esta a seguia admirada:
Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas
por fim, córando mais e possuida de sobresalto, que não conseguiu
disfarçar sob sorrisos:
--Jenny--disse com a voz trémula de commoção--eu sei que a menina é
minha amiga, e julgo que o melhor é contar-lhe tudo...
--Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar é a
duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que...
--Não, não é, não podia ser--acudiu Cecilia, e por um movimento rapido,
impensado, irresistivel, levou aos labios as mãos delgadas de Jenny, que
não lhe pôde fugir a tempo.
--Que está a fazer?!--disse Jenny, rindo.
--Deixe-me; sabe como eu lhe quero, sabe a confiança que tenho em si,
Jenny, pois não sabe? Mas é que ... ha certas cousas que sempre custam a
dizer.
Jenny sorriu com expressão particular; previa uma confidencia amorosa no
embaraço de Cecilia.
Cecilia comprehendeu a significação d'aquelle sorriso, porque se
apressou a dizer:
--Não, não é o que julga, Jenny. Não teria a menor hesitação em lh'o
dizer, se fosse isso. Póde crêl-o.
Apesar da segurança, com que Cecilia o affirmava, duvido de que, tão sem
custo, se resolvesse a fazer uma confidencia, que, sendo a primeira
d'esse genero, faz titubear os mais arrojados. Mas acreditemol-a sob
palavra, que não temos outro remedio.
--Seja o que for,--respondeu Jenny, procurando inspirar-lhe
confiança--não deve ter escrupulos em m'o revelar. Escrupulos porquê?
Não somos raparigas ambas? da mesma idade quasi?
--Mas a Jenny é tão differente de todas nós! Tem tanto juizo, que não
póde deixar de estranhar certas cousas, que nós, as que temos a cabeça
leve, fazemos sem pensar, e de que mais tarde nos arrependemos.
--Está a ser injusta ao mesmo tempo commigo e comsigo, Cecilia. Nem essa
cabeça é leve, nem eu da sisudez que me faz.
--Pois bem,--continuou a filha de Manoel Quentino--estou resolvida a
contar-lhe tudo, mas ha de prometter-me dizer no fim, com a maior
franqueza, o que pensa do que eu lhe contar, sim? Olhe que ficamos de
mal se me não disser a verdade, inda que me seja desfavoravel.
--Não ha de ser.
--Adivinho que será.
--Oh meu Deus! Cecilia, está a assustar-me--disse Jenny,
jovialmente.--Ha no seu rosto e nas suas palavras tal expressão de
terror, que me mette mêdo! Praticaria de facto algum crime?...
Estas palavras de Jenny, e inda mais o tom em que foram ditas, fizeram
rir Cecilia, e attenuaram muito a timidez com que luctára até alli.
--O que eu quero então--disse ella--é que me deixe continuar, emquanto
fallo, a cercadura d'este cabeção, que ficou em meio. Não sei de que é,
mas acho-me mais á vontade tendo os olhos entretidos.
--Como quizer; mas n'esse caso, deixe-me occupar tambem os meus,
examinando o fundo da sacca.
--Não trago mais nada, a não ser...
--Está bom, está bom: eu verei o que é. Principie.
Applicadas assim cada uma á occupação que escolheram, Cecilia
principiou:
--Não sei se já lhe tenho fallado nas filhas do major Mattos, minhas
vizinhas ha bastantes annos e antigas companheiras de mestra.
--Muitas vezes. Bem sei.
--Estas meninas são muito boas, muito minhas amigas, mas...
Jenny ergueu os olhos para Cecilia, sentindo-a hesitar.
Cecilia proseguiu:
--Mas sobretudo o que são...--digo-lhe isto a si, Jenny--são ainda mais
amigas de se divertir. O genio do pae, tão alegre como o de qualquer
rapaz de vinte annos, não desmereceu nas filhas, que todos os dias
inventam novos divertimentos.
--É uma felicidade ter um genio assim, pois não é?--disse Jenny,
examinando um pequeno bordado.
--Isso não vale nada,--acudiu Cecilia, reparando tambem--nem sei como o
trouxe ahi.
Jenny arredou-a com a mão e fez-lhe signal que continuasse.
--Mas emquanto ás minhas amigas,--proseguiu Cecilia--trabalhadeiras são
ellas; isso lá são, coitadas; mas, não faz ideia, n'uma hora de
descanso... ás trindades, por exemplo, já não pensam senão em como hão
de passar o domingo seguinte, e ahi vão lembrar ao pae um passeio pelo
rio acima, um jantar na Pedra Salgada ou em Fonte da Vinha, um almoço a
Leça ou á Foz, uma noite ao theatro, e é raro que o pae, que é perdido
por ellas, não as satisfaça em alguns d'estes projectos, que de mais a
mais lhe agradam a elle tambem, é preciso que se diga. Muitas vezes
convidam-me e, devo-o confessar, teem-me valido muitas horas de
verdadeira distracção, isso tem. É uma familia muito boa, e meu pae não
põe a menor duvida em deixar-me ir com ella para toda a parte.
--Estava á espera de uma confidencia que me fizesse estremecer,
espantar, e saem-me cousas tão naturaes e tão boas, que confesso-lhe,
menina, chego a estar desgostosa--disse Jenny, fechando o sacco de
marroquim, onde acabára de guardar todos os bordados e dando ás feições
um fingido ar de mortificação.
Cecilia sorriu a esta reflexão, mas acrescentou:
--Ainda é cêdo. Não se apresse a julgar, que póde ter de contradizer-se
depois. Havia muito tempo já... ora eu sei?... desde o anno passado, que
estas meninas tinham entre si combinado um projecto, mais difficil porém
de executar do que nenhum dos outros. Queriam por força que eu tomasse
parte n'elle. Ao principio disse-lhes que não; mas tanto me pediram,
tanto me convenceram de que não havia nada a receiar, que eu acabei por
prometter que sim. Repare, Jenny, repare. Olhe que principia aqui o mau
da minha historia. O projecto era...
--Espere; deixe ver se sei. Incendiar a cidade?
--Ora!
--Fazer uma revolução no paiz?
--Está a brincar?
--Partirem todas para a Crimeia?
--Jenny!
--Ás cautelas e hesitações, com que está...
--O projecto era irmos todas mascaradas ao theatro.
--Ah!--disse Jenny, não podendo reprimir um gesto e um movimento de
estranheza.
Cecilia, que elevára os olhos para ella, percebeu-lh'os.
--Eu não disse? Veja como principia já a...
--Não é por isso, mas... Continue--replicou Jenny, com mais curiosidade,
e não desviando já os olhos de Cecilia.
--Este projecto--proseguiu a filha de Manoel Quentino--tinha, como lhe
disse, grandes difficuldades. O major, tão amigo de fazer a vontade ás
filhas, não quiz ouvir fallar em tal. Ellas porém é que já não podiam
tirar aquillo da ideia.
--E foram?--perguntou Jenny.
--Havia muito que andavam á espera de occasião. E o carnaval a
fugir-lhes! Ha de haver porém tres dias que o major foi, por negocios
militares, obrigado a saír da cidade.
--E então?...
--As filhas ficaram sós em casa com uma tia d'ellas, muito boa senhora,
mas que não sabe recusar-lhes nada. Que mais queriam?
--Foram?
--Foram; hontem mesmo. Se parece que tudo se lhes preparou como ellas
desejavam!
--E a menina?--interrogou Jenny, cada vez mais preoccupada com o que
ouvia.
--Tinham-me convidado para ir de tarde a casa d'ellas. Depois de lá
estar, mandaram, sem que eu o soubesse, recado a meu pae de que eu
voltaria tarde, pois tinha de ir com ellas a uma reunião em casa de umas
senhoras suas amigas.
--Visto isso...
--Era noite, quando me apresentaram um dominó e me communicaram o seu
projecto. Eu ainda lhes puz algumas duvidas, mas...
--Foi?
--Fui. Ah! como está já tão séria! Não o dizia eu?
Effectivamente Jenny não teve poder de disfarçar a impressão, que lhe
estava fazendo a confidencia de Cecilia, já pela natureza d'ella, já
pela similhança, com a que do irmão ouvira poucas horas antes.
--Prometti dizer-lhe a verdade, Cecilia--principiou Jenny, tomando com
affecto as mãos da sua amiga, que interrompera o trabalho já--e seria
faltar á minha promessa occultar-lhe que me parece ter sido algum tanto
aventurada essa resolução. Umas poucas de senhoras, sós, n'um logar como
aquelle, onde dizem que concorre tanta e tão diversa qualidade de
gente!... Emfim eu não sei bem, e pelos resultados e que melhor se póde
julgar d'estes meus receios, que talvez sejam exagerados... e são de
certo.
--Não são, não, Jenny. Olhe; eu, ao principio, para lhe fallar verdade,
ia com certa curiosidade. Só me custava que tivesse sido necessario
enganar meu pae, mas, como não fazia a menor ideia do que fosse um baile
de mascaras, estava com desejos de ver; e, demais a mais, a irmã do
major ia comnosco...
--E depois?
--Entramos no theatro, seriam dez horas, íamos todas mascaradas. Por
signal que me ri muito com a mascara que levava a irmã do major. É
notavel! foi a primeira que appareceu, e tinha alguma similhança com a
cara d'ella. Assim como estas caricaturas, que logo á primeira vista se
conhece de quem são.
E Cecilia quasi se distrahia com a incidente reflexão ácerca da mascara;
Jenny chamou-a porém ao assumpto.
--Mas vamos ao que lhe succedeu.
--Ah! é verdade. Andamos primeiro por alguns camarotes, em que estavam
senhoras do conhecimento das minhas companheiras e a quem ellas
fallaram, sem serem conhecidas. Diverti-me com isto. Que graça achei a
uma senhora idosa, a quem se metteu na cabeça que nós eramos umas suas
parentes de Braga, terminando em chamar-me a sua Joanninha! Coitada!
ficou tão desconsolada, quando, espreitando-me os cabellos, conheceu que
se havia enganado, que deveras fazia pena!--«E não é! veem, que tristeza
a minha?!»--dizia ella tanto do coração, que eu não tive mão em mim, que
a não abraçasse e beijasse; arrisquei-me assim a ser vista e a dar a
conhecer as outras, que depois muito me ralharam por causa d'isto. Mas
se eu não pude!
--Vamos--disse Jenny, sorrindo á sensibilidade da amiga.--E o resto da
noite?
--Ai, Jenny, o resto da noite...--respondeu Cecilia, suspirando, como se
lhe fosse custosa a confissão, e continuou:--Entramos na sala. Nunca foi
a um baile d'esses? Pouco perdeu. Que calor! que confusão! Um quarto de
hora depois de alli entrar, já suspirava por saír; mas ellas nem
pensavam n'isso. Era meia noite talvez, vim sentar-me, cansada,
enfastiada de todo aquelle tumulto.
N'este ponto Cecilia parou, como se o que tinha para dizer lhe causasse
maior perturbação.
Jenny não pôde deixar de sorrir pela similhança que esta parte da
confidencia tinha com a do irmão.
--Pouco tempo depois--proseguiu Cecilia--veio sentar-se junto de mim...
uma pessoa...
Um alfinete fez sentir, não sei como, a necessidade de que as attenções
se applicassem todas para elle, e Cecilia não recusava attender, em taes
casos, ás reclamações dos seus alfinetes.
Occupada portanto a pregal-o, ou não sei se a despregal-o, continuou:
--Uma pessoa que eu conhecia; olhou para mim e... comquanto não
suppozesse quem eu era, fallou-me; respondi-lhe, e por muito tempo
ficamos a conversar.
--Em quê?--perguntou Jenny, com modo natural.
A esta pergunta, Cecilia hesitou.
Passados porém alguns instantes, respondeu:
--Eu sei? Em muitas cousas; e é certo que bem agradavelmente; mas cêdo
depois vieram outros, menos delicados do que este...
--Do que este?! Ai, visto isto era um homem? não tinha entendido
bem--notou Jenny, com ligeiro ar de malicia.
--Era; pois que tinha eu dito? Ah! sim... uma pessoa. Era um homem, era.
Os que vieram fizeram-me ver mais claro a imprudencia do passo que
tinhamos dado.
Jenny não perdia agora uma só palavra, uma só inflexão, uma só cambiante
de côr, que observava em Cecilia. Esta não o percebia, porque os
alfinetes estavam de uma impertinencia, que nem lhe deixavam attender a
mais nada.
No entretanto dizia:
--O mesmo succedeu ás minhas amigas; preparamo-nos logo para deixar o
baile. Vendo porém que nos seguiam, soccorri-me ao cavalheirismo do que
primeiro me fallou, e isso nos valeu.
--Ah!
--Serviu-nos de guia e protector através das ruas ainda cheias de
mascaras; mas insistia depois em nos conduzir a casa. Tremi ainda mais
com esta insistencia, do que com a dos outros. Este conhecia meu pae e
se soubesse... Oh meu Deus!... Por mais que lhe rogassemos, não queria
deixar-nos; eu, perdida de susto, pedi a Deus uma inspiração. A
inspiração veio, e foi poderosa. Elle deixou-nos a final, e nós entramos
em casa... mas eram quatro horas da manhã.
O que faltára á confidencia podia Jenny bem suppril-o de per si;
desviando porém os olhos disfarçadamente, ponderou como se pretendesse
desenganar-se:
--Falta-lhe agora dizer, Cecilia, para ser completa a confidencia, quem
era esse homem e qual foi a inspiração que Deus mandou á menina.
D'esta vez tambem os alfinetes de Jenny parecia exigirem certos
cuidados, que ella lhe concedeu.
Cecilia balbuciava com manifesto enleio:
--Ah! quem era?... não sei; isto é... quero dizer... era...
Jenny pegou-lhe na mão.
--Seja franca até o fim--disse-lhe em tom de insinuante amizade.--Esse
homem era meu irmão.
Cecilia estremeceu e olhou espantada para Jenny.
--Como o sabe?
--Sei tudo--replicou Jenny, apertando-lhe a mão com affecto.--E sei
tambem a inspiração que teve, e agradeço-lh'a.
--Sabe? Mas então...
--Carlos tem o costume de me contar tudo, e ainda esta manhã... ha
pouco... me tinha dito...
--Tudo?--perguntou Cecilia de uma maneira particular e córando.
--Tudo--respondeu Jenny, dando a esta palavra uma inflexão e animando-a
de um sorriso, que augmentaram a intensidade d'este rubor.
Como o leitor viu, tinha havido importante omissão na confidencia de
Cecilia, omissão que aquelle «tudo» de Jenny lhe mostrava agora ter sido
inutil.
--E que opinião fazia elle... que opinião fazia o snr. Carlos de
mim?--perguntou Cecilia com verdadeira inquietação.
Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de
responder.
Não se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feições de
Jenny sob a influencia d'este ar de reflexão, que tão frequente lhe
fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.
Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia
expressiva.