Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o

escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o

bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não

sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição

leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,

mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em

extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.

Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do

quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as

tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada

de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola

perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de

magoar as azas.

Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole

séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a

ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se

sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde

áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso

do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.

Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,

quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier

maché_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma

arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os

faz ás vezes acanhados e ridiculos.

A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro

combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo

era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,

damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses

tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de

menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com

vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com

falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle

recinto.

Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a

amam.

A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia

vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente

descidos.

Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de

_biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.

Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de

quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de

oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,

flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com

preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de

varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a

qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de

feira.

Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,

algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de

religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli

se podia ver.

As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,

representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a

brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de

uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão

graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas

do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril

britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.

A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que

lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver

de Jenny.

De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em

que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da

amoravel irmã de Carlos.

Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás

mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a

sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das

quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.

Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava

n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e

mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.

A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a

com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia

em Jenny a mais poderosa impressão.

Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas

amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos

labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios

de piedade e de tristeza.

Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da

mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára

momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena

deixára orphã de apaixonadas caricias.

Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do

coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a

amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por

expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso

mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam

esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos

ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;--que não ousam. Ha

exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi

instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios

interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,

ao tentarmos communical-os.

Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições

infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós

proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das

pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja

essencia parece receberem vida.

São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se

expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos

que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em

que vegetam, cêdo se mirram e desformam.

Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior,

nutria a crença illusoria--pelo menos illusoria me parece, a mim que de

fóra a examino--de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma

expressão invariavel.

Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa

menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e

comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente

phenomeno psychologico--o da persistencia de certas crenças irracionaes,

nos espiritos mais vigorosos e logicos.

Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny

julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no

coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não

sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem

presagio de mal.

Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam?

Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o

assim?

Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?

Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e

dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no

coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no

descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe

caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um

momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então

a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu

a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a

mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa

abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.

Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a

morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos,

incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz

trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe

que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade

dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de

carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e

desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo

ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras

lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e

impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a

chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze

annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e

fervente da sua nova missão.

É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se

abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles

que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que,

entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes

contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio

e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,

de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais

vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a

tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o

movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a

sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém

o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos

encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.

É assim na vida.

Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de

familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles

exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e

serão já de temer os embates e as perturbações fataes.

A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás

vezes da combinação de elementos inoffensivos.

Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da

pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas

e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo

suspiro da mãe.

E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na

idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca

alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se

affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.

Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas

inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando

emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.

Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e

irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da

laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes,

á mais leve viração que lhe agita a folhagem.

Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando

insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os

dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo,

em que tinham de viver.

Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o

predominio de Jenny em toda a familia--suave sujeição, grata aos que a

supportavam, como uma benção do céo.

Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes

faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém

tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.

Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a

filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios

de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os

jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou

gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão,

que em todos os seus actos se denunciava.

Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o

legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na

sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da

tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella

alma de justa, que a contemplava do céo.

Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha,

consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde

a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar

de tão piedosos mysterios.

Era triste a imagem d'esta vez!

Triste porquê?

Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,

que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:

--Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda

a nuvem d'esta manhã?... Mas era tão ligeira!... tão leve! que a mim

mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?--Isto pensava, ao

beijar o retrato--Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;

pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te,

como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o

conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão

amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se

estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo

excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de

Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento...

resentimento proprio de quem muito estima!... Então! Já não tens

confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de

certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim

tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me

acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu

serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para

apprehensões. E ainda triste!--E beijava o retrato--E ainda!... e

ainda... e ainda!...--beijava-o repetidas vezes.

Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:

--Estou louca!--pensava então Jenny--Pois como póde um retrato...

Aproximava-se mais da luz.

As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o

vento afasta das flores.

--Não sei, não sei como isto é, não posso saber... mas esta expressão é

mais triste do que a de hontem... De que procede esta tristeza?... A

maneira por que me fallou do baile de hontem... O baile! ... acaso ...

aquela mascara?... Mas que póde resultar d'alli?... Meu Deus! diria que

ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar...

N'isto ouviu passos fóra da porta.

Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato

para os sentidos, meio allucinados, da commovida...

visionaria--chamar-lhe-hei assim?--Apressou-se em escondel-o.

A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no

limiar.

--Que é, Luiza?

--É a filha do snr. Manoel Quentino.

--Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei

para que a fez esperar--acudiu Jenny com vivacidade.

Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.

XI

CECILIA

Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,

risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica

familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.

Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão ... e «beijaram-se», pensará a

leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito

mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um

amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa... e mais

nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?

Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas

suas mais felizes realisações.

É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a

belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as

italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as

nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime

resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.

Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando

d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição

estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou

menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.

É vulgar ouvir-se dizer:--«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso

certo ar germanico!»--«Que mulher! Tem o _salero_ de uma

hespanhola!»--«Que magestade! que _morbideza_! É uma perfeita _madonna_

italiana!»--«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_!» O

que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «--Que

sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»

A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada

e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio

somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os

estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.

Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu

logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á

maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no

excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos

da origem.

Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma

confissão:--Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos

circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,

uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,

com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das

grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;--fallam

dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem

se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,

das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua

provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e

no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.

Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam

conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença;

envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca,

por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a

vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia,

se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos

averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de

sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,

elles lhes concedem.

Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de

Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,

Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de

fidalguia; que por nós ... continuariamos, calados, a ler um e a beber o

outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou

pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.

Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo

succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á

moda:--«Ah! as hespanholas!»--«Oh! as italianas!»--«Ai, as allemãs!» e

julgariamos de mau gosto dizer em publico:--«As portuguezas!» até sem

interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.

E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta

cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.

Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha

gloriosa.

De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.

Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de

todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,

como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria

sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem

merecem essa distincção.

As portuguezas não formam typo especifico, dir-me-hão talvez; são uma

variedade apenas de especie mais vasta. Sempre desejava que conhecessem

Cecilia, para que depois me dissessem a qual dos typos femininos,

consentidos e sanccionados, pertencia a amiga de Jenny.

Se houvesse uma fórmula unica para a belleza feminina, chamar bella a

qualquer d'estas duas mulheres, agora reunidas diante do leitor, seria

condemnar a outra; tão diversas, tão oppostas até, eram aquellas duas

physionomias em tudo! Mas não succede assim; tem tantas maneiras de se

realisar a belleza, tantos meios de excitar em nós, no mais intimo do

nosso peito, essas mysteriosas vibrações que nos arrebatam, que seria

loucura disputar primazias em casos assim. E isto é como no mais.

Pois por serem bellos os vergeis do Minho, perdem a belleza as leziras

do Vouga, ou até as paizagens alpestres de Traz-os-Montes?

Cecilia não era loura nem trigueira, nem d'aquella côr pallida, que

sonham os poetas e de que os medicos desconfiam; tingia-lhe o rosto,

graciosamente oval, um colorido que, em linguagem artistica, julgo que

nem tem ainda palavra creada.

Se porém, á falta de termos, sempre lhe quizessem chamar pallida, deviam

acrescentar, que era de uma pallidez, através da qual se presentia o

sangue cheio de vida, que ás vezes a transformava na diffusa côr de rosa

de um rosto de creança; os cabellos que, por um ondado natural, se

erguiam levemente no alto da fronte, vacillavam entre o negro e o

castanho escuro; os olhos, sim, esses eram negros devéras, e,--qualidade

bem rara em olhos!--de uma discrição impenetravel. Olhos discretos,

quando de ordinario são elles os que primeiro atraiçôam e inutilisam a

reserva dos labios! Olhos, que ousam fitar-vos sem deixar fugir um

segredo, nem desviar-se, por desconfiarem de si proprios! Discretos, mas

expressivos de sympathia e de familiar bondade! Não se imaginam os

encantos de uns olhos assim! E não julguem que são por isso incapazes de

eloquencia; anime-os um dia a confiança e o amor, e verão os raios

offuscadores que despedem! Mas o que elles não fazem,--e bem hajam por

isso--é andarem por ahi a desperdiçar eloquencia, como esses implacaveis

falladores, que em toda a parte se occupam a declamar discursos. Na

conformação habitual dos labios, no sorrir, no mover da cabeça, em todos

os movimentos e gestos emfim, havia, em Cecilia, uma tão completa

ausencia de arte, tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se

ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplal-a.

Ha um meio de reconhecer o genero de belleza, a que pertencia

Cecilia--genero que eu sustento ser o nacional:--quando, junto de uma

mulher formosa, vos sentirdes á vontade, sem que a razão se vos

perturbe, sem que por galanteria vos julgueis obrigados a lisonjas, sem

que fermente em vós o tanto ou quanto de poesia, que encerram todos os

corações; quando suavemente dominados pela branda influencia de um olhar

sem requebros, podérdes sustentar com essa mulher uma conversa

affectuosa, sincera, leal, como a sustentarieis com um amigo ou com uma

irmã; quando, ao separar-vos d'ella, lhe apertardes cordialmente a mão,

sem que nem a vossa nem a sua estremeçam ao encontrarem-se, e finalmente

trouxerdes d'essa entrevista uma impressão agradavel, que mais vos

acalente do que vos agite os sonhos, ficae certos de que encontrastes um

dos typos de que fallo.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 8 / 30 段