O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmuneou:
--Levante o fecho, e entre.
Á primeira vista o que pude extremar das trevas era um clarão azulado,
como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida pela
escura algidez da alcova.
Avisinhei-me a passos tremulos da lampada, e distingui um leito, e na
almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto de
creança, e pude entrever um semblante de mulher, com os olhos cravados
em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem
de ser os dos spectros que surgem subitaneos nas trevas aos perversos
que negam Deus e temem os espectros.
--Approxime-se, snr. A moribunda sou eu--disse ella com voz rouca, mas
serena.
«Deus permittirá que V. Ex.ª esteja menos doente do que cuida--balbuciei
com uma especie de terror secreto, presentimento d'alma que já se doía
antecipadamente da magua que se lhe ia reflectir do singular e immenso
supplicio d'aquella mulher.
--Falle baixo que nos escutam--voltou ella ciciando as palavras, e
esbugalhando os olhos para a porta.
«Escutar-nos!--repliquei com assombro--É impossivel! Eu fui aqui enviado
para ouvil-a de confissão, minha senhora...
--Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito
baixinho... Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso
como a um padre... É a um homem que ha de ter pena de mim, depois de me
ouvir; e me ha de fazer um serviço que lhe pede uma agonisante, que crê
em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que tem a
semelhança do algoz que me mata.
Isto dizia ella de afogadilho e febril, mas com abafações e ancias
augmentadas pelo medo de ser escutada.
«Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que lhe
pezam na consciencia?!--perguntei.
--Não, snr.; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada;
tenho soffrido todas as torturas d'este mundo; se as ha no outro,
nenhuma póde assustar-me.
O meu dever seria combater a incredulidade d'esta senhora com os solidos
argumentos de que dispõe a theologia contra mais poderosos adversarios;
abstive-me, porém, de exacerbar o animo affligido da inferma por me
parecer extemporanea a discussão e recear que o tempo escasseasse ao
triumpho, nem sempre prompto, dos bons principios. Não obstante,
repliquei, no intento de encaminhal-a á piedade:
«Se V. Ex.ª não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe
em beneficio da sua alma...
--Vá vêr se alguem nos escuta...--insistiu ella, apontando para a porta
com a mão descarnada.
Fui com repugnancia, figurando-se-me que a minha posição no gremio
d'esta familia sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mysterio
mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo do
corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampeão a tremer baloiçado
pelas esfusiadas de vento que assobiava no tecto. Fechei a porta,
asseverando á enferma que ninguem nos escutava. Ella então sentou-se com
violento impeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava, a
côlcha da cama, bebeu alguns tragos de agua, e balbuciou com anciosas
suspensões:
--Casaram-me ha seis annos com este homem que me mata. Eu amava outro
homem, que não teve coração nem honra que me salvasse de tamanho
verdugo. Meu pae sacrificou-me, cuidando que me felicitava. O homem que
eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito que supportasse o
peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o dono d'esta casa era
deputado. Vim; e, ao cabo de alguns mezes, meu marido arrependera-se de
se ter enganado, cuidando que uma mulher simplesmente formosa, mas sem
amor, poderia encher-lhe as ambições, e dar-lhe o contentamento que ella
não tinha. Saciou-se, enojou-se, aborreceu-me. Não me deu rivaes, por
que só quem ama se sente ultrajada pelas infidelidades. Eu não conheci
rivaes: conheci apenas mulheres que n'esta casa valiam e mandavam mais
do que eu.
Voltou á camara meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com
muitas lagrimas que me deixasse ir vêr meu pae, e meus dous irmãos que
tinham vindo da Africa, onde haviam estado alguns annos negociando. Meu
marido demorou-se anno e meio em Lisboa. N'este longo intervalo chorei
muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei. Comprehende-me?
«Quando se vingou? como se vingou V. Ex.ª?!--perguntei.
--Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu forças... Houve um homem que
teve por mim um grande amor e um grande dó. Amei-o. Luctei. Pedi a Deus
que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi á alma de minha honrada mãe
que me amparasse... pedi a meu marido que me deixasse ir para si ou para
a companhia de meu pae... Nem Deus, nem minha mãe, nem meu marido me
valeram... Succumbi... A minha culpa foi cega. Confiei-me d'uma creada
que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada. Meu marido teve denuncia da
minha queda, e appareceu aqui inesperadamente. Nada me disse. Tratou-me
com a mesma frieza, com o mesmo despreso. Não estranhei. O homem, que eu
amava, era ainda parente d'elle e estudava em Coimbra. Tinha coração
cheio de ancias e desejos da morte. Comprehendeu este infeliz que meu
marido desconfiava. Quiz fugir comigo para Hespanha, e eu resisti, mais
por amor d'elle que do meu credito. O meu cumplice não podia com o
encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em paiz estranho.
Passados dias, deixei de ter noticias d'elle. Imaginei-o já em Coimbra,
posto que não fosse tempo de aulas. Correram trez mezes. Nova nenhuma. A
criada que me fallava d'elle, recebido o premio da traição, tinha
fingido que sua familia a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada
que o parente de meu marido desapparecêra sem dizer a ninguem o seu
destino; e que a familia d'elle vivia consternada com tal successo,
enviando a toda a parte indagações inuteis.
Seis mezes depois que meu marido voltára de Lisboa, soube eu que se
estava preparando este quarto por sua ordem. Vim vêr as obras, e
perguntei-lhe para que era o armario estreito que se estava fazendo
n'esta parede e para que eram as grades na janella. Meu marido
respondeu: «Sabel-o-ha brevemente.»
Concluidas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com tudo
que me pertencia.
Uma noite, meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro e
disse-me: «A senhora entra aqui d'onde nunca mais sahirá; e para não
estar sósinha, aqui lhe deixo uma adoravel companhia com quem póde
conversar á sua vontade.» E, dizendo isto, abriu aquelle armario, e
apontou para um esqueleto, dizendo: «Aqui tem o seu amante. Abrace-se
n'elle até ficar reduzida ao estado em que lh'o offereço para que o
possa gosar com toda a liberdade.»
Eu cahi por terra sem sentidos--proseguiu ella, limpando as lagrimas, e
aspirando com força--Quando voltei á vida, cuidei que sahia d'um sonho.
Ouvi dar meia noute. Era tudo escuridão n'este quarto. Apalpei á volta
de mim. Não conheci onde estava. Continuei apalpando. Pousei as mãos
n'uma coisa fria e aspera que estremeceu. Recuei horrorisada... Eram
ossos... eram as costellas do esqueleto. Então acordei... então me fugiu
outra vez a rasão com um grito do peito dilacerado. Cahi outra vez para
diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente frios...--
E ella estralejava com os dentes convulsos, e apertava a roupa no
pescoço. Apoz longo espaço, proseguiu:
--Ao romper do dia, abri uma janella com o proposito de me suicidar. Dei
com a face nas grades. Lancei-me á porta que estava fechada por fóra, e
gritei por soccorro. Abriu-se. Vi um creado com um aspecto ameaçador,
impondo-me silencio. Este creado era um criminoso que meu marido
acolhêra para o salvar da justiça que o perseguia. Era esse mesmo que o
trouxe aqui ha pouco. É o unico ente vivo que eu vejo ha dois annos duas
vezes por dia, quando me traz alimentos. Foi elle quem matou e espedaçou
aquelle infeliz...
E, dizendo, apontava para o armario do esqueleto. Continuou:
--Eu quiz suicidar-me pela fome. Não pude. Quando as agonias da morte
começavam, eu lançava-me vertiginosamente sobre a comida, e devorava-a
sem a consciencia do que fazia. D'outra vez consegui com um garfo romper
uma veia; mas o sangue estancou; senti ancias mortaes; envelheci;
desfigurei-me, segundo o que sinto, se palpo o meu rosto; que eu ha dois
annos me não vi n'um espelho... Não consegui morrer. Voltei-me para Deus
com rogos, com desesperadas supplicas. Orei muito, chorei muito, e
obtive um grande beneficio. Cahi n'um desalento, n'uma somnolencia de
moribunda que durou não sei se dias se annos. Depois, quiz levantar-me
d'este leito, e já não pude. Comecei a pedir a Deus a morte, e a
sentil-a avisinhar-se pela mão da divina caridade. Ha de haver trez
horas que entrou aqui o confidente do meu carrasco perguntando-me se me
queria confessar. Fiquei espantada da religião d'estes algozes, e
respondi que sim; mas o que eu queria, snr. padre--ajuntou ella
estendendo para mim impetuosamente os braços--era pedir-lhe que depois
da minha morte, faça saber a meus irmãos este miseravel fim que eu tive,
para que elles me vinguem...
Acabava a infeliz de proferir estas palavras em voz mais desafogada,
quando a porta que eu havia fechado por dentro se abriu impellida por um
valente encontro.