Respondi: «Aqui viveu os mais encantados dias de sua vida.»

E, volvidos alguns segundos, prosegui animado pelo aspeito contemplativo

do sacerdote: «Esta grande casa avulta-se-me como o tumulo da felicidade

d'elle. Quando d'aqui sahiram as duas almas, Vieira de Castro já não era

feliz. Elle tinha a intelligencia tão alta como o coração, e devia

sentir-se ferido do profetico terror de vêr cahir do pedestal do anjo a

mulher que vestira da luz explendida do seu amor e de toda a poesia da

sua juventude. Vieira de Castro, nos mezes que viveu aqui, damnificou a

sua hombridade de homem. Como vivia absorvido em apaixonada

contemplação, e do céo e da soledade se lhe augmentavam os enlevos da

vida intima, o amor sopesou-lhe todas as faculdades, robustecendo-lhe a

da soberba de ser amado de quem todas as mais paixões lhe pisava aos

pés. A querida de sua alma não o viu descer de tão alto, até ajoelhar-se

diante d'ella. Os homens d'aquella tempera, quando se arrependem de ter

ajoelhado, erguem-se n'um impeto de dignidade, e quebram o idolo».

O padre fitou-me com olhar de intelligencia e commiseração. Detivemo-nos

silenciosos e encostados á gradaria do portal; depois voltamos para a

estação onde nos esperava a _Diligencia_.

N'este intervalo, o ancião encarou-me com tristeza e disse: «Encontrei

uma vez um homem de quem ouvi palavras terriveis e absurdas contra a

sociedade. Eu não podia comprehender que lampejasse luz de rasão

n'aquelle homem... Reprobo diante de Deus creio eu que elle haja sido;

mas integerrimo juiz dos costumes do seu tempo... isso foi elle,

desgraçadamente... Quinze annos depois, as calamidades de Vieira de

Castro dilucidaram-me a escureza enigmatica do homem, que me tinha

parecido um peito de ferro a desbordar de crueldade.

E, momentos depois, ajuntou: «Como V. está em Villa do Conde, disponha

de duas horas inuteis, e vá á Povoa, onde tomo banhos, se quiser ouvir

uma historia em que apparece esclarecido o absurdo pela infernal luz que

lhe derramou a catastrophe d'esse grande coração. Não fallaremos d'elle

senão a sós. Eu creio que no seio de Vieira de Castro as angustias são

tantas, que já lá não podem entrar os insultos d'esta sociedade... que

escarnece o marido tolerante, e roça a esponja do fel pelos labios do

homem que acceita o degredo--as mil dores do morrer para a patria e

familia--com a condição de lhe não duvidarem da honra.

Fui.

E o padre fallou assim:

I

Congela-se-me o coração de terror quando este relance pavoroso da minha

vida me lembra. Já lá vão quinze annos. Ainda agora ha noites em que a

visão me sobresalta, e sempre o meu espirito se estremece com o mesmo

confrangimento.

Ha quinze annos que eu pastoreava uma vigararia em Traz-os-montes.

Em um dia de dezembro de 1855 sahi da minha residencia com destino a ir

consoar nos dias festivos do Natal com um abbade, meu companheiro da

Universidade, o qual residia oito leguas distante. Como os caminhos eram

pessimos e mal sabidos do meu creado, perdemo-nos na cerração do

nevoeiro, e chegamos tarde a um córrego, cujo pontilhão a enchente havia

alagado. O unico váo possivel estava legua e meia afastado.

Era ao fim do dia: seriam quatro horas e meia; mas a noite fechára-se

subita, quando as nuvens se conglobaram ao poente, e uma neblina

pardacenta rolou dos fragoedos das empinadas serras.

Retrocedemos assustados.

O meu creado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar uma

casa grande com aspecto senhorial de torres e ameias.

Distava-nos d'alli obra de meia legua.

Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada.

D'aqui enxergamos luzes trementes ao travez de vidraças, e ouvimos o

latir de cães.

Apeei, e desci amparado no braço do creado, cujo coração palpitava de

medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobis-homens,

que, no crêr e dizer d'elle, eram vulgares por aquelles despenhos e

selvas de castanheiros.

Consoante a minha philosophia me foi acudindo inspirativa, combati as

crenças do meu pobre Manoel, cujo excellente espirito foi cedendo passo

a passo á rasão omnipotente, por modo que a final incommodava-o mais a

perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobis-homens. Eu,

n'este receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espirito.

Figurava-se-me calamidade superior ás minhas forças o ter de pernoitar

sobre um chão alagado, e sob o pavilhão de céo tão inclemente.

N'esta conjectura, ouvimos o ladrar dos cães á nossa esquerda.

Á primeira vereda que topamos, na direcção do consolativo signal de

povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos com um

largo portão de quinta. Manoel aldravou com quanta força lhe déra o

contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos da quinta

remettessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam o alto muro.

Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queriamos.

Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandella, e pedia ao

dono d'aquella casa a caridade de me agazalhar e ao meu creado por

aquella noute.

Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão

depois de haver acorrentado os cães, e nos metteu á cara uma alanterna

de furta-fogo, deixando vêr debaixo de cada braço uma pistola de alcance.

Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacifica, e a tão

pacifica quanto estupida do meu Manoel, o creado caminhou serenamente

diante de nós.

Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do

fidalgo, e acrescentou que a fidalga estava a morrer ethica.

--N'esse caso--tornei eu--queira dizer ao snr. barão que eu não quero

causar-lhe o menor constrangimento na situação triste em que está. Basta

que S. Ex.ª nos mande recolher, que nós sahiremos cedo sem perturbar o

seu socêgo.

Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabellos de páo com

grandes armas pintadas no alteroso espaldar.

D'ahi a pouco, fui levado a outra sala mobilada á antiga com cadeiras de

coiro marchetadas de pregaria amarella, á mistura com uns tremós

dourados e artezoados do reinado de D. João V, segundo me quiz parecer.

Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam

clerigos mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com habito de

Christo um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mór.

N'esta contemplação me interrompeu o fidalgo.

Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta annos; tinha

barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros,

impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava a

medo, não sei porquê.

Interrogou-me gravemente sobre o ponto d'onde vinha e para onde ia.

Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e

circumstanciando-as para d'este modo captar a benevolencia do fidalgo

que parecia escutar-me distrahido.

D'ahi a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mêza.

O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e obrigou-me a precedêl-o na

entrada com gentil ademan de cortezão.

A meza era espaçosa de mais para quarenta talheres; mas tinha só dois.

Sentei-me na cadeira que me foi indicada, e comi com a sem-cerimonia

muito conhecida dos descortezes e dos famintos.

Durante a ceia substancial, occorreu-me perguntar-lhe pelo estado de sua

esposa; todavia, conteve-me a inopportunidade da occasião, e o receio de

me demasiar em inquirir de senhora que eu não conhecia, não me sendo

semelhante pergunta auctorisada pelo silencio do barão.

Finda a ceia, segui-o ao longo de um corredor, e entrei no quarto que me

elle indicou, dizendo:

--Não se deite já que eu preciso talvez do snr. para um acto proprio da

sua profissão.

E desandou.

Fiquei a scismar, e suggeriu-se-me logo o pensamento de que eu seria

chamado a ouvir de confissão a senhora inferma.

Esperei duas horas, durante as quaes rezei as minhas rezas.

Voltou o taciturno fidalgo, e disse laconicamente:

--Ha aqui uma mulher doente que se quer confessar.

«Estou prompto a ouvil-a--respondi espantado da seccura d'aquellas

palavras tão desamoraveis com respeito a uma esposa doente.

--Siga o creado que o está esperando no corredor--tornou elle.

Sahi ao corredor. O creado que me estava esperando era o mais mal

encarado homem que ainda vi na minha vida. Afusilavam-lhe os olhos como

brazas. A testa, unico espaço alumiado d'aquella cara barbaçuda,

sulcavam-na não sei se cicatrizes, se ulcerações da morphea. A

corpulencia era agigantada, e o carregar do sobrôlho batia no coração

d'um homem como o subito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta

d'entre os carrascaes d'um deserto. Os pintores christãos nunca souberam

bosquejar Lucifer, porque semelhante homem jámais deu nos olhos de

artista, que desejasse fazer bem conhecida a plastica do diabo com

feitio de gente.

Segui-o com calafrios, superiores á minha rasão que me aconselhava

tranquillidade.

Hoje, volvidos quinze annos, conto isto com certo sorriso de facil

coragem; mas, nos primeiros tempos, aquelle vulto andava terrivelmente

associado ao quadro negro que vou tentar descrever.

Voltareis ó Christo? · 第 4 / 7 题