Era o marido.
Faiscavam-lhe ascuas de rancor os olhos injectados. Crispavam-se-lhe os
beiços retrahidos. A colera engasgava-o a ponto de tartamudear estas
vozes ejaculadas a trancos:
--Seus irmãos que venham cá e eu lhes contarei a vida da sua honrada irmã!
E ella cobriu os olhos com as mãos, e resvalou para dentro da roupa,
como se desejasse cahir na sepultura.
Eu caminhei placidamente para aquelle homem terrivel, abeirei-me d'elle
que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente
de lagrimas:
--Perdôe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar os beneficios
da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericordia divina.
Encarou-me d'um modo indefinivel. Sahiu do quarto, e, já fóra, murmurou
seccamente:
«O snr. padre recolha-se ao seu quarto.
Relancei um derradeiro olhar para o leito: não a vi; mas ouvia o soluçar
alto e cavernoso do peito que se esphacellava.
Mal entrei ao quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lagrimas
copiosas. Levantei a Deus o espirito repassado de terror e compaixão,
pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de commiseração
em tão carniceiras entranhas.
N'este lance entrou elle, assentou a mão direita sobre o meu hombro, e
disse:
«Aquella mulher vociferou uma infamia digna da sua deshonra, se quiz
desculpar o seu crime com as infidelidades de que me accusa. A mulher
que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera que
a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei o
esqueleto do homem, que a deshonrou, da missão de a ir matando
lentamente. Olhe que eu amei aquella mulher. Não a seduzi, não a illudi,
não a fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a a seu pae. Elle
consultou-a, ou fingiu que a consultava, como quer que fosse, esta
mulher veio risonha para os meus braços; chamou-se com orgulho a
baroneza de ***; mentiu-me cem vezes accusando-me de ingrato ao seu
coração que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a
sua vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De
quê? de que hão de vingal-a os irmãos? De eu lhe haver matado o amante?
Que me responde a sua christã philosophia?
--Que o terror que V. Ex.ª me incute não me deixa atinar com palavras
que o commovam...--Balbuciei.
«Mas responda, snr.!
--Respondo ajoelhando novamente a supplicar-lhe o perdão da culpada.
«Não posso!--bradou elle--Ha dois annos que não sahi de dia d'esta casa,
receando que todos saibam da minha deshonra. Não posso perdoar-lhe sem
que a providencia me desopprima do vexame do meu opprobio!
--Seria generosidade havel-a matado...--interrompi.
«Bem sei--redarguiu elle--bem sei. Ella soffria cinco minutos de
castigo, e eu ficava soffrendo uma vida inteira de vergonha. Eram
supplicios incomparaveis! Alem de que, se eu a houvesse esmagado debaixo
do pêso da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia,
lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara para que se
attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino...
Comprehende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infamia é
uma convenção, e toda a honra de marido que se desaffronta ha de luctar
depois com a deshonra irritada dos maridos esporeados pelo zelo
devassissimo das esposas? Conhece o mundo como Christo o encontrou ha
1855 annos? Sabe o que veio fazer Jesus Christo á terra?
--Morrer pela redempção dos que o mataram, snr.
«Não o percebo!--exclamou elle com um formidavel brado, e sahiu do
quarto...
Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido com o
sibillo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por ella.
Ao alvorejar da manhã, vi um creado que perpassava no corredor.
Perguntei-lhe a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia
deitado um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado
sahir do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus comprimentos com
os mais ardentes protestos de eterna gratidão.
Despedi-me assombrado d'aquella casa, onde se respirava um acre
nauseativo de cadaveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que
eu não sentia a chuva glacial d'aquella manhã de 24 de dezembro de 1855.
Fecho a minha historia com a pedra que cobriu o cadaver da baroneza de
***. No dia 27 de dezembro me disseram uns pastores convisinhos que a
fidalga morrêra á hora em que as familias honradas e felizes se
ajunctavam para receberem as bençãos dos seus anciãos, e commemorarem
com sanctos jubilos o nascimento do divino Redemptor.
Agora dir-lhe-hei qual era o paradoxo, que tal se me figurou ha quinze
annos. Aquelle cruelissimo homem tinha-me dito: _Se eu a houvesse
esmagado debaixo do pezo da minha affrontosa desgraça, o mundo
sanctifical-a-ia lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da
cara, para que se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas
mãos de assassino._
Ora eu entendi a profunda verdade d'esta clausula depois que Vieira de
Castro, ao cahir agonisante sobre a terra onde tem de vasquejar largos
annos, matou a esposa, porque a cingia apaixonadamente nos braços da sua
alma. Morreu-lhe o coração. Ella não teria morrido, se o infeliz a
podesse arrancar de lá antes de cahir.
Concluida a narrativa, o sacerdote deteve-se olhando contra o mar que
mugia funebremente nos fragoedos socavados. Depois, levantando para o
céo os olhos humidos e as mãos trementes, disse:
«Meu Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta
negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo
esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um
regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada!
Mas... voltareis, ó Christo?
E proseguiu, corridos instantes:
--Que haverá já agora n'esta vida que possa levantar a alma do seu amigo?
«O esteio da dignidade.
Conheci-o quando os horisontes da vida se lhe prefiguravam e realisavam
em risonhas prosperidades. O destino, como forçado pelo talento,
ajoelhava-lhe. Não o admirei então, senão por que felicidade e genio
pareciam dar-se as mãos e concertar-se no plano de o exalçaram onde raro
em Portugal subiram grande espirito e grande coração.
Hoje cerram-se contra elle injurias e trevas.
A luz do seu honrado infortunio é um reverberar sinistro d'uma estrella
funesta, cuja claridade lhe banhará a sepultura por esse viver das
gerações além. A posteridade de seus irmãos irá ahi retemperar
sentimentos de pundonor; e os descendentes de meus filhos cuidarão que
me vêem absorto entre elles defronte das cinzas de Vieira de Castro.
Vae-se-lhe a vida diluida em lagrimas de sangue. Vae. Mas a pagina que
deixa dirá que a onda da corrupção quando chegou até elle, desfez-se-lhe
aos pés. Se a onda lhe revolveu e abriu a terra da sepultura, aqui ou em
Africa, não importa.
Prouvera a Deus que elle não chorasse a felicidade que lhe mataram!
Sobre quem mandará Deus que caiam as lagrimas que Vieira de Castro ha de
chorar por sua mãe e irmãos? No dia em que elle sahir para Africa, as
almas compassivas irão ás egrejas pedir ao Altissimo que alumie o seio
do degradado com um raio de misericordioso alento...
Deixal-o ir.
Deixal-o esconder-se dos olhos d'esta aviltante piedade que deixou de o
apedrejar quando o viu perdido.
Loura creança que eu vi, ha vinte annos, alumiada pelas ultimas alegrias
da fugitiva infancia, prouvera a Deus que o sepulcro de teu pae se te
abrisse então.
Os embriões das tuas alegrias da juventude esmagou-os a pedra que desceu
sobre o seio onde se perderam os thesouros que haviam de completar a
felicidade da tua alma.
O teu coração, aos desoito annos, abafava em si as amarguras da
soledade, retrahia-se em devorantes desejos do amor de familia, a paixão
santa, unica e profunda que eu te conheci.
Quem imaginou que tu choraste amarissimas lagrimas n'aquella tua casa
triste que demora solitaria entre duas serras?
No mais verde dos annos, abalisaste os teus anhelos juvenís entre umas
arvores que teus avós plantaram; e alli, sósinho, esperaste que a
Providencia te deixasse reflorir uma primavera na alma.
O teu formidavel espirito reagiu contra a mais crua sorte que ainda
fadou uns vinte annos relegados d'esse gosar commum que permitte a cada
homem sentir o alvorejar dos affectos e as musicas do céo que embalam a
alma para sonhar venturas.
Tu não as sonhaste quando o coração desbordava de seiva para renascer de
suas mesmas cinzas, se a perfidia o cancerou com a sua peçonha.
Um dia, já tarde, amaste pela primeira vez, quando te deu de rosto e te
cegou a luz funesta que desce do céo com os anjos despenhados.
Quando baixaste a face até ao chão onde ajoelhavas em adoração de
creança que beija os labios de sua mãe, em adoração de pae que aconchega
no seio as mãos de sua filha, sentiste que a deshonra te cravava as
garras, e te desentranhava do peito a alma, e t'a expunha em pelourinho
infame aos insultos dos que passavam.
Tu não podias ajustar ás faces a mascara que te offereciam as mãos
infames da tolerancia.
Ao teu rosto não podiam sahir as lagrimas faceis das almas vulgares por
que era sangue, era a vida toda que te haviam arrancado.
E tu premeditaste!.. Oh! não premeditaste nada, infeliz!
Quem contará as horas, os periodos de infernal duração que passaram na
tua vida?
Curvaste-te sobre o teu abysmo; e ali quedaste empedrado até que
resvalaste nas fauces da voragem.
No teu baque levaste comtigo um cadaver que te abrira o golphão com as
mãos ainda quentes dos teus beijos.
Não premeditaste nada, infeliz.
Cada minuto que ia passando estalava-te uma fibra da alma, queimava-te
uma particula do cerebro, escaldava-te em veneno dilacerante cada
lagrima que te refluia dos olhos.
Não era somente a honra perdida que te excruciava; era a mulher
idolatrada que ainda vivia e já te pezava morta no coração.
Ao passo que a mão de ferro da desgraça te batia no seio, tu ias
acordando ao estrondo horrivel. Cada instante era o precursor de novas
trevas que se iam condensando, era o bago da areia que ia cahindo, era
uma esperança derruindo depoz outra, era o ir-se toda a alma espedaçada
até esvasiar-se o peito de lagrimas, e encher-se de rancor inexoravel,
espicassado pela deshonra e ingratidão.
Oh! tu não premeditaste nada, infeliz!
Os que delinquiram premeditando, não dizem á justiça humana: «Aqui
estou! condemna-me!»