Dura geográficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera
isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar.
Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que
se harmonizem devoram-nos.
Como resistir? pela fôrça física? impossível. Não há balas nem libras,
não há ouro nem ferro. Qual o meio então? Um único: a fôrça moral. Não
vale tudo, mas vale alguma coisa. Na balança da realidade efémera, os
canhões pesam como bronze, e o Direito e a Justiça pesam como ar. Sim;
às vezes, não sempre.
Houve profetas que domaram leões: mártires que aterraram algozes. E
quando um homem ou um povo sucumbem altivos em nome da verdade, êsse
homem ressuscitará nas consciências, e êsse povo ressuscitará na
História. O justo, expirando na Cruz, ao terceiro dia levanta-se do
túmulo. O covarde, mergulhando em lôdo, em lôdo agoniza e em lôdo se
transforma.
Qual era, pois, a grande missão de um govêrno em Portugal? Fazer de
quatro milhões de espíritos um só espírito, juntar quatro milhões de
vontades numa só vontade. Raios de luz divergentes, aquecem;
convergentes abrasam. Um cento de meias abnegações individuais
perdem-se, quási estéreis, na indiferença colectiva. Não mudam aos olhos
da Europa a fisionomia portuguesa. Mas a abnegação e o sacrifício de
todos, a comunhão unânime e grandiosa num ideal de Justiça, num ideal de
Pátria, transfigurar-nos-ia por encanto, de povo de chatins em povo de
heróis, de mortos com direito ao cemitério, em gente viva com direito ao
pão, com direito à luz.
E o problema religioso, nada mais singelo: na esfera do pensamento,
liberdade absoluta; na esfera dos actos, tolerância recíproca.
O povo dos campos mantêm a sua fé tradicional. Quando se dirige a Deus
precisa ainda uma língua: o Padre. Faltando-lhe a hóstia, falta-lhe
Cristo. Levando-lhe a igreja, levam-lhe o Céu.
O Catolicismo é roble caduco, mas nos galhos exangues, de verdura
pálida, inúmeras aves inocentes gorgeiam ainda, fabricam o ninho em que
adormecem. Não lancemos o machado ao tronco do roble, sem dar aos
corações ingénuos, que o povoam, outra verdura calma onde se abriguem. O
mundo róla no infinito; no infinito deve igualmente girar o espírito do
homem. Ai dos que vivem só na terra, olhando o horizonte com o olhar da
carne! Êsses não vivem. Andam kilómetros e contam horas, mas o Espaço é
a jornada da alma e o Tempo a hora eterna que não finda. O homem sem o
ideal sôbre-humano, regressa à bestialidade donde veio.
Se o cavador miserável não comunga em Cristo senão pela hóstia, que a
hóstia lhe seja oferecida, mas cândida e branca, em mãos de misericórdia
e de pureza. Organizem um clero nacional e cristão, evangelista pela
virtude, embora católico pelo dogma. Varram da Igreja a estrumeira
política; para bispos escolham santos, e a questão religiosa desaparece
num momento. Spinosa ou Schopenhauer entender-se-iam muito bem com S.
Francisco de Assis.
Porêm, os homens que há muito dirigem os destinos da Nação, últimas
varreduras do constitucionalismo agonizante, quási sempre democratas
vazios aos vinte anos, e cínicos redondos aos quarenta, são incapazes de
um plano de govêrno, gerado numa filosofia superior, amoldado a uma
razão prática luminosa e traduzido em factos, por uma vontade inabalável
e contínua. Que êles, francamente, visam apenas salvar o seu interesse,
o seu egoismo e as suas lantejoulas de medíocres.
Conservam a realeza no intuito de se conservarem a si próprios. Mas uma
realeza moribunda só entre mortos alcançará reinar. Fazer do País um
cemitério de almas, eis o problema. As associações protestam?
Dissolvidas. Os clubes ameaçam? Trancados. As Côrtes incomodam, às
vezes? Suprimem-se. Os jornais irritam? Cadeia. Todo o obstáculo,
desfazê-lo: se é venalidade, pela compra; se é moralidade, pela tirania.
Há consciências que se indignam? Prendam-nas. Há gente que se revolte?
Fuzilem-a. Ordem! muita ordem! Quer dizer: Silêncio! Digerir e calar. O
País inteiro uma campina raza, e nela manobrando, ovante e livre, o
general Queirós. Olhai: galopa de Norte a Sul e nem um montículo para
surpresas, uma ravina para emboscadas. Planura perfeita: bem chã, bem
unida e bem morta. Vivos, a municipal e a polícia.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês,
liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o mêdo. Anda
guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande
indústria concentra-se em Lisboa e Pôrto, onde a polícia usa revólvers e
a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade,
formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento.
Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes;
elegível, nunca.
Receio do exército? Lisongeá-lo... e diminuí-lo. O exército é a
municipal.
Óptimo. Só fica uma nuvem negra: os campos, a plebe da enxada. Horda
infinita. Na alucinação da miséria, quem a há-de conter? O Queirós? O
Graça? Não chegam. Só um Queirós em cada aldeola, um Graça em cada
freguesia. O perigo, enorme, vem daí. Meio milhão de esfarrapados com
êste general--a Fome, tornam-se invencíveis. Existe apenas um recurso:
Deus. Muito bem. Trate-se com Deus.
_Il y avec le ciel des accommodements_. Há efectivamente. Mas conforme o
céo, e conforme o Deus. O Deus dos Evangelhos, por exemplo, é um Deus
esquisito, não presta. Leva à submissão, nunca à ignomínia. Capaz de
gerar um mártir, nunca um hipócrita. Depois, a sua doutrina igualitária,
em certos temperamentos, cria alucinados, produz rebeldes. O Niilismo é
filho bastardo de Jesus. E êle, o próprio Deus, numa crise de cólera,
não desatou às chicotadas? Com o Deus do Calvário, abrigo de humildes,
redentor de plebes, um homem de estado, espelho de cordura, não deve
entrar em negócios. Arrisca-se.
Quer-se um Deus maleável, arguto, scéptico, inteligente: o Deus da
Companhia de Jesus. Ora aí está um Deus civilizado, sem preconceitos,
útil a um govêrno. Instruído e metódico, ambicioso e cauteloso. Boa
educação, boas maneiras, limpeza de roupas, latim excelente.
Sabe catequizar uma duquesa ou fanatizar uma peixeira. Dispõe de
infernos com lavaredas de fogo ou lavaredas de gaze, de céus
confortáveis para gente rica e céus de quinto andar para a canalha.
Harmoniza o lausperene com a quermesse, S. Carlos com Santo Inácio, um
sermão com um baile, e o Espírito-Santo da Igreja de S. Luís com o tiro
aos pombos na tapada da Ajuda.
Por isso a monarquia firmou aliança com o Jesuíta, e o Jesuíta vai
esburacando o sub-solo moral da pátria portuguesa. Alastrou, minou,
furou sem ninguêm ver. Debaixo da terra. Agora aparece. Caminhou na
sombra, de joelhos, como um larápio. Agora mostra-se. Mostra-se e
desafia. A rêde escura da sua influência abrange a área da nação.
Colégios e conventos em todas as cidades, em todas as províncias.
Levantou baluartes, estratégicamente, escolhendo o terreno. Julga-se
inexpugnável. Manobra à luz, desfila em batalhões, forma em revistas. É
a guarda municipal da consciência portuguesa. O seu Deus corresponde-se
com o ministério, tem entrada na côrte e verba no orçamento.
Perguntarão: Se o govêrno dispunha do clero, por que chamou o jesuíta?
Se havia de casa o abade, por que recorreu ao missionário? É que o
abbade, desmoralizado pelo constitucionalismo em sessenta anos de
tranquibérnia eleitoral, perdeu, lentamente, aos olhos do camponês, o
carácter augusto de intermediário de Jesus. O missionário, ainda não.
E eis aí porque o govêrno pactuou com o jesuíta, e nos inibe de
responder, como desejávamos, àquela entrudada grotesca de Santo António,
que durante semanas emporcalhou as ruas de Lisboa. Carnaval sacrílego! A
humildade, a virtude e a pureza do sublime franciscano, enxovalhadas e
calcadas em correrias de titeriteiros e de bêbedos! O discípulo cândido
da mais angélica alma que ventre materno deu à luz, exposto a
glorificações mercenárias, a apoteoses aviltantes! Para celebrar a dôr,
foguetórios e músicas! Para celebrar a mansidão, toiradas e baionetas!
Para celebrar a renúncia, jogos e toiros, galopes e clarins! Um banquete
suntuoso, uma raínha constelada de jóias, convivas em fardalhões
auriluzentes, damas cobertas de brocado, na mesa opulenta uma hecatombe
luculiana, e um burguês anafado e ventrudo, ao dessert, copo de
champagne na mão, erguendo um brinde (com arrotos), à doçura, à
singeleza evangélica do amigo do _Poveréllo_, de Santo António de
Lisboa! E não fulminou Deus o animalejo estercorário!
E, por fim, aquela debandada de entremez eclesiástico, em que os padres
de Jesus, loucos de terror, cegos de covardia, largavam da mão as coroas
e as insígnias, para melhor se escapulirem, desordenados e fedorentos.
Iremos a Agramonte, iremos silenciosos, a um e um, esconder em flores o
túmulo modesto dêsse belo poeta, a quem a sociedade, em troca do Génio,
doou amarguras e vilipêndios. Tardia romagem da nossa indesculpável
ingratidão. E, emquanto a protestos ruidosos, só um a fazer. Mas êsse
deve fazê-lo a nação inteira, e sem pedir licença aos governantes.
Protesto único e definitivo, donde resulte uma sociedade virtuosa e
nobre, equitativa e harmónica, impregnada, nas leis e nos costumes, da
moral sublime de Jesus, e refractária, portanto, à moral ambígua do
Jesuíta.
* * * * *
Eis aí, em síntese, a obra do rei e do govêrno. Obra de estupidez, obra
efémera. Imbecis. Conhecem, da Eternidade, o minuto em que jantam, e, do
Espaço, as dôze cabeças de comarca onde fazem bulha. Raciocinam com os
pés, com as mãos, com os olhos, com os ouvidos, com o estômago. No
crânio, farelos. Supõem-se grandes, e não existem. Mandam, decretam, dão
ordens, e não existem. Só espiritualmente se existe, vivendo no
infinito, e êles, espiritualmente, moram no vão duma escada.
E julgam, os idiotas, salvar o rei! Por que forma? Já o disse: tornando
o país um cemitério de almas. Dinastias agonizantes querem vasalos
defuntos. Entre quatro milhões de cadáveres um ventre com duas pernas,
dois braços, uma abóbora nos ombros e uma espada na mão, a distância,
movendo-se, ilude ainda: parece gente. Rodeiam-no baionetas, cavaleiros
o guardam. Contra quem? contra os mortos. Invencível então, não é
verdade? Perdido, inteiramente perdido. Se os mortos ressurgem, êle
evapora-se. Se tudo é findo, se os Lázaros se não levantam, quando
chegarem os corvos, principiarão por êle o seu banquete. Ou devorado
pela nação, ou devorado pelo estrangeiro. A nação acorda? É o exílio.
Submete-se? É que está morta, e, das nações que morrem, as nações vivas
se alimentam.
Mas, por emquanto, folga. O dia de hoje pertence-lhe. O estado é o rei.
Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos,
dele. É dele o meu pensamento, é dele a minha bôlsa, é dele a minha
vida. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta, ou corta-me o
pescoço, conforme queira. A justiça é um relógio que êle atrasa, adianta
ou faz parar, segundo lhe dá na vontade. Decreta a Lei e nomeia o Juiz.
O parlamento é o seu capricho. Entre uma toirada e uma ferra, escreve
ordenações com uma navalha. O país é D. Carlos. Seja. E quem é D.
Carlos? Aí vai um retrato que é um libelo:
_Tôrre do Outão_. Esta primeira fantasia régia de sua majestade importou
em duzentos contos de réis, ou mais, subtraídos ao tesouro.
Jurídicamente, um crime. Artísticamente, uma indecência.
_Exéquias de D. Luís, mandadas celebrar pelo município de Lisboa,
capital do reino_: Sua majestade, apesar de convidado, não quis
assistir. Foi-se aos coelhos para o Alfeite. Se vagueiam no ar as almas
dos que morrem, a de D. Luís I, nesse dia, chumbou-a porventura, ao
levantar da hóstia nas exéquias, a filial escopeta do Snr. D. Carlos.
_Ultimatum inglês_: Roubados e insultados. O país protesta, num vigoroso
movimento de indignação e de cólera. Uma criatura houve que ficou
impassível: o rei. Não teve aquela mão um gesto de furor, não encontrou
aquela bôca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro
descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos
transeúntes atónitos, a inconsciência lôrpa da sua figura habitual.
_Convénio inglês_: O art. 75.^o da constituìção do reino diz o seguinte:
_O rei é o chefe do poder executivo e o exercita pelos seus ministros de
Estado. São suas principais atribuìções_: § 8.^o _Fazer tratados_. Bem.
De duas, uma: ou o rei conhecia o convénio que o Snr. Barjona negociava
em Londres, ou não o conhecia. Naquela hipótese, todas as injúrias,
todos os doestos, toda a lama aviltante, que a nação, às mãos ambas,
arremessou ao convénio, cáem, de chofre, em sua majestade. Se era alheio
ao convénio, alheio e indiferente a um acto nacional, de vida ou de
morte para a honra da pátria, então ou sua majestade é um miserável ou
sua majestade é um irresponsável[6]. Daqui não há fugir.
Chegam a Lisboa as bases do convénio. O Snr. D. Carlos em 21 de Agosto
de 1890, ao procurar nos jornais o anúncio dos teatros, viu-as
naturalmente, viu-as de-certo. Ignorância, agora, não a pode alegar.
Conhecia o crime. Que fez? Abram as _Novidades_ de 22 de Agosto. No
artigo editorial, violentíssimo, há êstes períodos:
«Na história da nossa decadência, levantou-se um novo e ruìnoso padrão.
O tratado do Snr. Hintze Ribeiro segue-se nesta série lamentosa ao
tratado de Methwen, e deixa-o no escuro.
Em nossa honra e consciência, diremos alto e bom som: o tratado firmado
em nome de Portugal com a Inglaterra é um padrão de imperecível
ignomínia, e o dia, em que o seu texto completo fôr publicado no _Diário
do Govêrno_, deverá ser considerado por todos os cidadãos amantes do seu
país como um verdadeiro dia de luto nacional.»
E mais adiante, na 3.^a coluna, sob o título--_As festas em Sintra_, _o
Rally paper_, _o Baile_,--escreve ainda o mesmo jornal:
«Conforme estava anunciado, realizou-se ontem em Sintra, nos terrenos da
Granja do Marquês, o _Rally paper_. Perto das 3 horas chegaram el-rei e
a raínha num _landeau_ à Daumont, acompanhados pela Snr.^a D. Josefa
Sandoval, veador António de Vasconcelos e oficial às ordens A. de
Serpa.»
Segue uma comprida nomenclatura de altos senhores e nobilíssimas damas,
que, em volta do rei, tomaram parte na função.
E conclue a notícia:
«Na retirada, suas majestades vinham em carro descoberto, escoltados por
todos os jogadores que tinham entrado na partida, e seguidos por mais de
duzentas carruagens descobertas, conduzindo tudo o que há de mais
elegante em Sintra.»
E eis aí como o rei de Portugal e tudo que há de mais elegante em Sintra
encaravam a imperecível ignomínia do tratado de 20 de Agosto de 1890.
Hipp, hipp, hurrah! God save the King! Viva Salisbury! Viva D. Carlos!
Que imundície!
Sua majestade, ainda à última hora, doente, no castelo da Pena, queria a
recomposição do gabinete Serpa, isto é, mantinha o convénio. Foi o Snr.
João Crisóstomo quem determinou a queda do govêrno, afirmando ao rei
que, se êle insistisse, a revolução era inevitável.
Sintetizando: O tratado de 20 de Agosto, no juízo da imensa maioria do
país, quási a unanimidade, significava a última das afrontas, a última
das vergonhas. Pois o Snr. D. Carlos deixou-o negociar, no dia que êle
chegou a Lisboa celebrou uma festa, sustentou-o meses contra a vontade
clara da nação, largando-o apenas, humilhado, diante das baionetas e da
revolta.
O país, rasgando-o, rasgou-lho na cara.
_Revolta do Pôrto_: O Verbo era de luz. Encarnou mal. Daí o desastre. A
lava purpúrea, não abrindo cratera, rompeu, angustiosa, por uma fenda.
Colem o ouvido na montanha: há trovões lá dentro. Um dia dêstes será
vulcão. Adiante...
O município do Pôrto, em 12 de Fevereiro de 91, dirigiu ao rei uma
mensagem. Copio dela estas frases:
«Não basta repelir e condenar os factos, é mister, mais que tudo,
inquirir das causas que os tornam possíveis e mesmo fáceis. E a
consciência nacional, interrogada, responde sem hesitar que erros de
muitos anos; abusivas tolerâncias em toda a espécie de deveres sociais e
públicos; quebras freqùentes de disciplina, tanto na classe militar como
em toda a ordem de serviços públicos; relaxação no cumprimento das
obrigações de cada um; irresponsabilidade freqùente para faltas de toda
a ordem; deploráveis complacências acobertadas com o que abusivamente se
chama a doçura dos nossos costumes, tais parecem as causas gerais que
permitiram e facilitaram tão deploráveis acontecimentos. E a câmara
municipal do Pôrto, neste momento intérprete dos sentimentos da cidade,
entende que faltaria ao seu dever, se não chamasse a atenção de V. M.
sôbre êstes males, que é dever de todos os cidadãos, desde a mais
elevada gerarquia à mais humilde condição, combater e destruir a todo o
custo, se quisermos salvar a nossa pátria do inevitável naufrágio das
nações que chegam a semelhante estado.».
(Extracto da representação da Câmara do Pôrto ao Rei, em 12 de fevereiro
de 91.)
Eis agora o extracto da resposta do Snr. D. Carlos:
«O sustentamento da justiça e a rigorosa aplicação das leis são o
fundamento moral de toda a sociedade bem organizada; a pública
administração tem de ser necessáriamente económica e modesta; a política
precisa de se mostrar, agora e sempre, evidentemente elevada e
respeitável nos seus intentos e nos seus caracteres dominantes. Êstes
salutares princípios que a digna vereação municipal do Pôrto me relembra
na sua mensagem, professo-os eu como verdades fundamentais, e tenho-os
para normas inquebrantáveis da minha magistratura constitucional. Diz-me
a consciência que lhes tenho sido fiel; e se ainda não pude mostrar toda
a minha profunda dedicação pela nossa pátria, tem sido isso devido ao
pouco tempo da minha vida de rei, desgraçadamente assombrada por
acontecimentos de que me não cabe a responsabilidade, mas de que sinto,
como os que muito a sentem, a triste e dolorosa significação.»
Que quer isto exprimir? Que a câmara do Pôrto, com o aplauso de D.
Carlos, justificou a revolta de 31 de janeiro. Embora lhe desaprovassem
a forma, justificavam-lhe a essência. Mas a braveza dum acto, quando a
razão o determina, desculpa-se bem. Há um julgador que diz a um réu: «A
lei condena-te, mas a verdade absolve-te.» Que faz êsse juiz, quando êle
é um rei? Perdoa.
Volveram anos. Os grandes criminosos, a que se referia a mensagem do
município do Pôrto, onde é que estão? Nas mais altas dignidades,
rodeando o trono.
E o tenente Coelho, meu senhor? onde é que está êle? Apodrecendo em
África.
_Viagem do Snr. D. Carlos ao Pôrto, depois do 31 de janeiro_: Mais dum
ano decorrera, antes de sua majestade se abalançar à viagem. Serenados
os ânimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Coímbra, assobiam-no.
Chega ao Pôrto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade
seguia um chefe de esquadra, a pé, durindana ao vento. Entala-se-lhe o
gládio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembaínha,
veloz, a sua espada de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega
com donairosa cortesia. Lá está na esquadra.
_Baile do ministro inglês, em Sintra_: No verão de 1892 dava o ministro
inglês uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade
aceitou-o. O ministro inglês, naquele instante, era a Inglaterra. O
soberano de Portugal era a nação portuguesa. Pois o rosto que levára a
bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia
limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!
Um rei que a fatalidade inexorável, que o destino impiedoso submetesse,
algemado, a similhante vergonha, choraria de raiva lágrimas de sangue, a
não guardar no íntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. João VI,
num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e
melancólica figura de D. Pedro V. Que trágica altivez e que dorida
nobreza não exprimiria o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda
aquela noite pavorosa, jogou descuidadamente o _bleuff_, espécie de
batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte.
Verifiquem, lendo o _Jornal do Comércio_, que relatou o baile.
Acrescento mais: quem o relatou assistiu a êle.
_Dissolução das côrtes_. _Primeiro golpe de estado_: O Snr. D. Carlos,
um belo dia, farto de atirar às perdizes, alveja à queima-roupa o código
político da nação. Com que fim? Salvar-nos, salvar a pátria. Era a vida
da pátria, que, em risco iminente, o constrangia à ditadura. Espesinhava
os códigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mágoa!) o
juramento do rei à existência do reino. Acto solene, acto grandioso.
D'ora-avante quatro milhões de espíritos do seu espírito viveriam.
Escultor dum povo, cinzelador duma raça, ia fazer história, fazer
humanidade. Como Deus, trabalhava em almas. Um rei idealista, que em tal
momento, no fogo divino duma obra de arte,--quadro ou estátua, música ou
poema,--quisera sublimar-se, escolheria naturalmente uma obra elevada,
de essência religiosa, de feitio heróico. Guilherme, o visionário,
escutaria o _Lohengrin_. Carlos, o gordo, foi ao _Brasileiro Pancrácio_.
Os jornais o disseram. Textual: ao _Pancrácio_. Perfeito, simbólico.
_Regresso da expedição à Guiné_: Vai um bando de homens, filhos da
miséria, a terras inóspitas e distantes jogar a vida pela pátria.
Chegam, cumprido o dever, exaustos e dizimados. Quem lhes sai ao
encontro? O rei? O rei, àquela hora, ou andava às lebres ou palitava os
dentes. Galardoou-os com meia dúzia de crachás. Eram poucos. Muito bem:
que os rifassem. E rifaram-nos!
_Pândega a Paris_: Vinte e quatro dias no cérebro do mundo. Que trouxe
de lá sua majestade? Recibos e gravatas.
_Viagem à Inglaterra_: Quando em 30 de Janeiro de 1891 compunha eu êste
verso,--_A desonra, a abjecção, o trono... e a Jarreteira_--, envolvia a
Jarreteira, em último logar, a máxima ignomínia. Tão grande, que parecia
hiperbólica. Vaticinei, adivinhei. Ei-la, a insígnia infamante, na perna
esquerda do Snr. D. Carlos. Na outra, já a raínha Vitória, no dia 11 de
Janeiro, lhe havia soldado uma grilheta.
_Viagem à Alemanha_: Dias antes do roubo de Keonga houve baile no Paço.
Na quadrilha real, em frente da Snr.^a D. Amélia, quem? O ministro
alemão. Não bastava. Deveria D. Carlos envergar, de joelhos, uma libré
prussiana. E foi envergá-la. Contam os jornais que lha improvisaram numa
noite, em dôze horas. Escudeiro novo de senhor tão grande, queria logo
vesti-la.
_O entêrro de João de Deus_: Reinou alguns anos o Snr. D. Carlos, sem se
lembrar um minuto de que João de Deus existia. Compreende-se. Da
_Heresta_ a uma férra a distância é larga. Sobrevem,--justiça
imanente!--a apoteose nacional do grande lírico. A alma da pátria, num
vago desejo de renascer, contrapunha a soberania do espírito à soberania
da carne; a pureza, vestida de beleza, à traficância, vestida de
impudor; a idealidade mística dum génio ao crasso materialismo visceral
da imunda récua dos governantes. E eis logo o Snr. D. Carlos a admirar o
poeta e a visitá-lo em sua casa, deitando-lhe à garganta, a ver se o
prende, uma coleira qualquer de S. Tiago. O intuito evidenciava-se:
erigir a glória de João de Deus em pára-raios da monarquia. Mas a
homenagem, tardiamente hipócrita, não iludiu o senso íntimo da
juventude, radiosa origem espontânea daquela consagração de amor e de
verdade. Na festa de D. Maria gelou-se à volta de D. Carlos um silêncio
de morte. Nem um viva. Aclamava um povo o seu maior génio, a suprema
flor da idealidade duma raça, e o chefe dêsse povo era afastado, como um
intruso, que ninguêm convidára, que ninguêm ali conhecia.
Volvido um ano morre João de Deus. As Necessidades e o Terreiro do Paço
afectam, decorativamente, pungidoras mágoas. O snr. Hintze, lúgubre e
solene, banhado em pranto, de joelhos, rouqueja trémulo, fitando o
cadáver, esta despedida angustiosa: _Adeus, Mestre_! Como se o João de
Deus houvera sido alfaiate, barbeiro ou sapateiro, únicas mestranças que
a estética do Snr. Hintze poderia aquilatar devidamente.
Quarenta mil homens, _a pé_, seguiram o féretro. Na cauda, _em três
côches_, três paquidermes do ministério, espapaçados e sonolentos, a
ruminar asneiras.