diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e
numeroso, àmanhã exaurido e letárgico,--água de pôça inerte,
transbordando se há chuva, tumultuando se há vento, furiosa um instante,
imóvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o
sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da
capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente
de balcão, não de barricada, com um estado maior pacífico e desconexo de
vélhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e
declamadores, homens de boa-fé, alguns de valia mas nenhum _a valer_; um
partido, emfim, de índole estreita, acanhadamente político-eleitoral,
mais negativo que afirmativo, mais de demolição que de reconstrução,
faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeças firmes e
superiores, olhos para alumiar e bôca para mandar,--um dêsses homens
predestinados, que são em crises históricas o ponto de intercepção de
milhões de almas e vontades, acumuladores eléctricos da vitalidade duma
raça, cérebros omnímodos, compreendendo tudo, adivinhando tudo,--livro
de cifras, livro de arte, livro de história, simultaneamente humanos e
patriotas, do globo e da rua, do tempo e do minuto, fôrças supremas,
fôrças invencíveis, que levam um povo de abalada, como quem leva ao colo
uma criança;
Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil,
agricultura rudimentar;
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e
perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do
parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o
direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum
compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais
fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica
e degradante de qualquer dos bandos partidários;
Uma literatura iconoclasta,--meia dúzia de homens que, no verso e no
romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante
scenografia azul e branca da burguesia de 52, opondo uma arte de
sarcasmo, viril e humana, à frandulagem pelintra da literatura oficial,
carimbada para a imortalidade do esquecimento com a cruz indelével da
ordem mendicante de S. Tiago;
Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária,
destinada, porêm, como as anteriores, viva maré dum instante, a refluir
anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela
restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos,
indenes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral
excepcionalissíssimo;
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as
almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares,--_tão bons são
uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma
choldra, etc. etc._,--teremos em sintético esbôço a fisionomia da
nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de
paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.
O advento do materialismo burguês, inaugurado pela ironia scéptica do
Rodrigo, acabava pela galhofa cínica do Mariano. O riso de sibarita,
levemente amargo, desfechava no riso canalha, de garotão de aljube. O
patusco terminava em malandro.
A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrática,
bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, _morgadinhas_, _judias_,
sinos, estradas, escariolas, estações, inaugurações, locomotivas
(religião do Progresso, como êles diziam), todo êsse mundo de vista
baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar
numa infecta _débâcle_ de casa de penhores, num Alcacer-Kibir
esfarrapado, de feira da ladra.
A nação, como o rei, ia cair de podre.
O conflito inglês e a revolução brasileira, dois cáusticos, puseram a
nu, de improviso, toda a nossa debilidade orgânica,--miséria de corpo e
miséria de alma.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis,
cisco de gente, lama de impudor, carcassas de bancos, famintos
emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem
puder de egoismos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de
inscrições,--700 mil contos de calote público, a bela colheita do torrão
português, regado a oiro, a libras, desde 52 até 90.
A crise não era simplesmente económica, política ou financeira. Muito
mais: nacional. Não havia apenas em jôgo o trono do rei ou a fortuna da
nação. Perigava a existência, a autonomia da pátria. Hora grande,
momento único. A revolução impunha-se. Republicana? Conforme. Se o
monarca nos saísse um alto e nobre carácter, um grande espírito, juvenil
e viva encarnação de ideal heróico, tanto melhor. A revolução estava
feita. Imprimia-se, dum dia ao outro, no Diário do Govêrno.
Mas feita com quem, perguntarão, se tudo era lôdo? Feita com o elemento
moço do exército e da marinha, com quási todo o partido republicano[3],
com individualidades íntegras e notáveis dos partidos monárquicos, com a
juventude das escolas, com um sem-número de indiferentes por nojo e por
limpeza, com os duzentos homens de sério valor intelectual dispersos nas
letras, nas sciências, no comércio e na indústria, e com o povo, o povo
inteiro, que acordaria, Lázaro estremunhado, da sua campa de três
séculos, à voz dum vidente, ao grito dum Nunalvares.
O português, apático e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da
indolência a qualquer estado ou condição. Capaz de heroismo, capaz de
cobardia, toiro ou burro, leão ou porco, segundo o governante. Ruge com
Passos Manuel, grunhe com D. João VI. É de raça, é de natureza. Foi
sempre o mesmo. A história pátria resume-se quási numa série de
biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas. Sobretudo
depois de Alcacer. Povo messiânico, mas que não gera o Messias. Não o
pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em
lágrimas. Sonha a quimera, não a realiza.
O próprio Pombal é o _Desejado_? Não. Fez-se temer, não se fez amar.
Cabeça de bronze, coração de pedra. Moralmente, ignóbil. Rancoroso,
ferino, alheio à graça, indiferente à dôr. Inteligência vigorosa,
material e mecânica, sem vôo e sem asas. Um brutamontes raciocinando
claro. Falta-lhe o génio, o dom de sentir, nobreza heróica, vida
profunda,--humanidade, em suma. Máquina apenas. Não criou, produziu. A
criação vem do amor, a génese é divina. Criar é amar. Por isso a obra
lhe foi a terra. Pulverizou-se. Só dura o que vive. Uma raíz esteia mais
que um alicerce. Pombal em três dias, num deserto, quis formar um
bosque. Como? Plantando traves. Adubou-as com mortos e regou-as a
sangue. Apodreceram melhor.
Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é
o mártir, mas sei tambêm que toda a obra governativa, que não fôr uma
obra de filosofia humana, resultará em geringonça anecdótica, manequim
inerte, sem olhar e sem fala.
A ductilidade, quási amorfa do carácter português, se torna duvidosas as
energias colectivas, os espontâneos movimentos nacionais, facilita, no
entanto, de maneira única, a acção de quem rege e quem governa. Cera
branda, os dedos modelam-na à vontade. Um grande escultor, eis o que
precisamos.
Há, alêm disso, bem no fundo dêste povo um pecúlio enorme de
inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro
precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele
povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la,
exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse!
Fôra o rei um _homem_, que a nacionalidade moribunda se levantaria por
encanto. E bem se me dava a mim da questão política, da forma de
govêrno. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa república a
uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissível, como
a coroa de Vénus; o trono hereditário como as escrófulas,--absurdo
evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da
_majestade_ à _ex.^a_ que da _ex.^a_ ao _tu_. Impero eu mais no meu
criado que o rei em mim[4]. Há em cada burguês uma monarquia. Milhões de
burgueses, milhões de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?
Não se tratava por emquanto de modalidades orgânicas de existência;
tratava-se de existir. Problema social e problema político marchariam
evolutivamente na órbita ininterrupta do seu destino. Quando um vapor
alagado vai ao fundo, discute a marinhagem construções navais? Primeiro
salvá-lo, o estaleiro depois. Quer dizer: a revolução urgente não era
social, nem política, era moral. Nem havia a escolher entre monarquia e
república, pois que, para escolher entre duas coisas, é necessário
existirem, e a república, tanto custava a realizar, que ainda até hoje a
não fizemos.
A segurança da pátria exigia inadiavelmente à frente do govêrno um homem
de superior inteligência, de altivo carácter, de ânimo heróico e
resoluto. Era-o D. Carlos? obedeceríamos a D. Carlos. Uma alma, uma
vassoira e uma carroça; de nada mais precisava. Varrer, limpeza geral,
pôr isto decente! Tal embaixador levantára castelos de milionário com o
dinheiro da nação? Transferi-lo de embaixada: representante vitalício do
Limoeiro em África. Tal ex-ministro compra as quintas, vendendo a
vergonha? Penhora e prisão. Os bens ao erário, o corpo à penitenciária.
Deslaçar grã-cruzes e chumbar grilhetas. Norte e Leste, lamas do Tejo,
Banco Lusitano, obras do estado, etc., etc., todas essas montureiras
gangrenadas,--poios de escândalos, obscenamente fermentando ao ar
livre,--queimá-las a calcium, purificá-las a vitríolo. Calcamos
infâmias, respiramos veneno. Que um ciclone de justiça nos purificasse o
ar e desentulhasse as estradas. Caminho livre, atmosfera nova! Quem
baldeou o país à ruina, à miséria do lar, à indigência da alma? Idiotas?
Aposentá-los em onagros. Bandidos? Metê-los na cadeia.
E a questão económica? Resolvida por si. Direi mais: útil e necessária.
Mas resolvida de que forma? Pelo sacrifício de todos, pela abnegação
colectiva. As pátrias, como os indivíduos, só se regeneram sofrendo. A
dôr é salvadora. Não há virtude sem martírio, não há Cristo sem cruz. A
Redenção vem da Paixão. A vida fortalece-se na angústia. Nem só a do
homem, a vida inteira, a vida universal. A procela avigora o roble, e o
ferro candente adquire a têmpera, mergulhando-o em gêlo. Quando a
desgraça parece matar uma nação, é que tal nação estava morta. O
cáustico, que levantou o doente, decompõe o cadáver.
Resumindo: desastres, misérias, vergonhas, infortúnios, calamidades,
subjugadas com energia e padecidas com nobreza, enseivariam de novo
alento o coração exânime da pátria. O raio lascou a árvore? Brotaria,
amputada, com maior violência. A alma habita na raíz.
Mas seria possível conjurar quatro milhões de interesses, quatro milhões
de egoismos, num ímpeto de fé heróica e de renúncia? Era. Digo-o sem
hesitar. O sibarita que ria, o cevado que ronque. Era! O espírito, como
o fogo, consome traves, calcina pedras, derrete metais. O facho duma
alma pode incendiar uma Babilónia. Um iluminado pode abrasar um império.
Tem-se visto. O cofre-forte é de ferro, a libra é de oiro, o egoismo é
de bronze, mas a electricidade impalpável, invisível, imponderável,
volatiliza tudo num momento. Ora o espírito é a electricidade de Deus.
Nada lhe resiste. Devora séculos, evapora mundos. Jesus e Buda,--um
crucificado, o outro mendigo,--refazem o globo, põem nova máscara à
criação. Joana d'Arc e Nunalvares, irmãos gémeos, redimem duas pátrias.
Focos ambulantes de espírito divino, arrastam e vencem,--magnetizando. O
céu é contagioso como a lepra.
Claro que o milagre exige a fé. Nem todos os sábios juntos escreveriam
os evangelhos. A língua do homem, sem a língua de fogo, não apostoliza,
discursa. Um Doutor não é um Messias.
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho. Um
justiceiro e um crente. Braço para matar, bôca para rezar. Pelejas como
as de Valverde só se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nunalvares de
hoje não usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idêntico. A mesma
chama noutro invólucro. Não combateria castelhanos, combateria
portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Paço
e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infâmias que enodoam as ruas, e
obstruem o trânsito. Queríamos um justo inexorável, um santo heróico,
com a verdade nos lábios e uma espada na mão. Os quadrilheiros que
infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as províncias,
anulá-los, esmagá-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso,
vasando-os logo,--atascadeiro de baixezas, lôdo de malandros,--pelo
buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector _in pace_,
um cano de esgôto jazigo de família.
E, removidos os focos epidémicos, voltaria em breve a saúde geral. A
obra de reconstrução, inda que lenta, marcharia sem estôrvo. Humanizar o
ensino, nacionalizar a indústria, um clero português e cristão, a
justiça fora da política, o exército fora de S. Bento, os burocratas
para a burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo
entregue às fôrças independentes e vivas do país, arrotear o solo,
colonizar a África,--tudo era possível, tudo era simples, desde que nos
dessem uma fé, uma crença, vida luminosa,--uma alma!
Alma! eis o que nos falta. Porque uma nação não é uma tenda, nem um
orçamento uma bíblia. Ninguêm diz: a pátria do comerciante Araújo, do
capitalista Seixas, do banqueiro Burnay. Diz-se a pátria de Herculano,
de Camilo, de Antéro, de João de Deus. Da mera comunhão de estômagos não
resulta uma pátria, resulta uma pia. Sócios não significa cidadãos. O
burguês estúpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em
libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em
decadência. Dívida flutuante, impostos, câmbios, cotações, alfândegas,
cifras, dinheiro, nada mais. A ruína moral não entra na conta nem por um
vintêm. Deve e há-de haver, eis o problema. Direito, Justiça, Honra,
Pundonor,--palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negócios
corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciária e sua Mãe no
aljube, que a récua burguesa, dizendo-se católica, não se moveria. O
câmbio estava ao par.
Falir um banco, que desastre! Falir uma alma...--Mas que demónio é isto
de falir uma alma?--
Ouve lá, burguês rotundo. Um exemplo. Ouviste já nomear por acaso o
Fialho de Almeida? Vagamente. Ora bem; êsse Fialho é a mais rica
natureza artística que Portugal tem gerado há duas dúzias de anos. Um
talento grande, rutilando em génio por instantes. Em génio, sim. Leiam
os _Pobres_, o _Filho_, a _Vélha_, o _Idílio triste_. Natureza de
sensibilidade vibrátil, agudíssima, quási mórbida. Depois português,
idolatrando o seu Alentejo, adorando a sua pátria, instintivamente,
orgânicamente, como a raíz adora a terra.
A uma tal natureza, em Lisboa, de 90 a 93, hora a hora assistindo à
decomposição putrefacta daquela percevejaria nausente, não lhe era
lícito o refúgio nirvânico dos metafísicos ou dos _hábeis_ na decantada
tôrre de marfim. O Fialho estava pobre e o marfim muito caro. Índole
ardente e valorosa, palpitante de plebeismo robusto, de humanidade
sanguínea, olvidou planos de arte, sonho alado, quimera astral, e de
chicote nas unhas, mordaz e mordendo, arremeteu contra a fandangagem da
sociedade lisboeta, como alguêm que marchando direito a um nobre
destino, se atirasse de repente às ondas, aventurando a vida,--para
salvar um bêbado.
Entre os projectos literários do admirável artista, um havia mais que
todos acariciado e fecundo, os _Cavadores_, rústico poema, síntese
sublime da vida da terra, da planta e do camponês, obra de fisiologista,
de psicólogo e de poeta, reçumando sangue, transpirando lágrimas, drama
tangível e real, movendo-se numa atmosfera enigmática de infinito e de
sonho. Um livro elevado. Lisboa rasgou-lho. Em troca deu-lhe os _Gatos_.
Dum poeta épico fez isto: um varredor da Baixa. O Fialho durante três
anos varreu o Chiado, espiolhou a Havanesa, catou S. Bento. Os trapos
converteram-no em trapeiro. A águia baixou a milhafre. O milhafre é
útil, depura e limpa. Os _Gatos_ foram, em parte, uma obra de justiça,
por vezes de cólera. Mas o rancor dos bons denota ainda bondade. Só os
grandes idealistas desceram a grandes satíricos. Cristo dava chicotadas.
Nos _Gatos_ estoira de quando em quando um rugido de tigre. É o melhor
do panfleto. O resto, tirante algumas páginas literárias, maravilhosas,
descamba na insignificância,--cisco, anecdotas, noticiário, zero. O
estilo não basta. Uma melancia em bronze não deixa de ser uma melancia.
Os _Gatos_ tem valor moral e valor de arte. Mas êste é relativo, e
portanto inferior, e aquele ineficaz, e por tanto menos proveitoso.
Varrer Lisboa nos _Gatos_, acho bem; varrê-la no _Diário do Govêrno_,
acharia óptimo. Conclusão: o desmantelamento da sociedade portuguesa
actuou no espírito impressionável dum grande poeta, esterilizando-lhe a
génese da obra humana, imorredoira, e fecundando-lhe a semente da obra
particularista e transitória. Desviou do seu curso natural a água
límpida que regava plátanos e searas para com ela inundar estrumeiras e
desentupir esgotos.
Bom burguês, compreendes agora o que é a falência dum espírito? Calcula,
pois, em 2 milhões de consciências[5], o déficit moral, a ruína
interior, que os teus guarda-livros não escrituram nas agendas. Perdeste
dinheiro, meu rico homem, na quebra fraudulenta dum banco? O Fialho e
nós perdemos os _Cavadores_ na quebra fraudulenta duma nação. O prejuízo
maior foi o nosso. O nosso, o da pátria. Porque é mister que to diga,
bom burguês: sem o banco de Portugal ficaríamos pobres 30 anos. Mas sem
os Lusíadas ficaríamos pobres para sempre. As libras voltam. O génio não
se repete. Por isso, burguês odioso, te não lamento. Mais ainda:
regalam-me às vezes, Deus me perdoe, os teus desastres, lembrando-me que
só te levantarás honradamente, quando se te der, de fome, um nó nas
tripas! Idiota! Nem egoista és. Vês apenas dinheiro, e hão-de deixar-te
sem camisa. Inda bem. Só nu ficarás decente.
Continuemos. A nação, mais do que de libras, carecia de alma. Quem lha
daria? Quem a tivesse como o sol tem luz: infinita. Pobre D. Carlos! Que
havia de êle dar,--mediocridade palúrdia, já aos 25 anos atascado no
cebo dinástico, nas banhas brigantinas! Alma? Bem alma, não; quási,
pequena diferença: lama. Uma inversão de duas letras. Ligeiro lapso,
cuja emenda é esta: Viva a república!
O rei falhára. Nulo, insignificante. Pedir-lhe génio, heroismo,
grandeza, sublimidade,--o mesmo que pedir astros a uma couve ou raios a
uma abóbora.
A existência da pátria dependia da revolução. O rei não pôde, não soube,
ou não quis fazê-la. Em suma, não a fez. Perdeu-se. Que restava? Fazê-la
o povo. Não a fazendo, perdia-se tambêm.
O rei, em vez de cortar o cancro, identificou-se com êle. Chaga maior,
operação mais grave. Já ninguêm suprimirá o cancro, sem suprimir a
realeza.
O republicanismo não é aqui uma fórmula de direito público; é a fórmula
extrema de salvação pública. No prédio em chamas há só uma janela
aberta. Preferem os monárquicos morrer queimados, por a janela estar
pintada de vermelho? Fôsse ela branca, que eu saltaria sem escrúpulos.
Republicano e patriota tornaram-se sinónimos. Hoje quem diz pátria, diz
república. Não uma república doutrinária, estúpidamente jacobina, mas
uma república larga, franca, nacional, onde caibam todos. Não dum
partido, da nação. Presidente o melhor. Foi por acaso miguelista?
Embora. Uma revolução por selecção de caracteres.
Tal movimento cívico, espiritualizado e grande, requeria pelo menos
um homem. Existe? Existiu: José Falcão.
José Falcão! Alma tão nobre de patriota não a conhecerei jàmais. A ideia
de pátria, feita verbo, nela encarnára divinamente. Hóstia sublime!
Trigo de comunhão deu-nos a fé, e trigo de viático, na hora da nossa
morte, dá-nos ainda a esperança.
À volta de mim vejo monturos, dentro de mim encaro cinza. Tudo acabou,
não é verdade? Melancólicamente revolvo a cinza, poeira de quimeras, e
uma flámula fulge, uma brasa crepita... É a alma dele... Não quer
apagar-se. Mesmo dentro de nós, túmulos cerrados, continúa ardendo.
Àmanhã de tais campas podem brotar ainda lavaredas.
Grande homem! Como o sangue em momento de pânico reflue de chofre ao
coração, dir-se-ia que na hora suprema toda a alma da pátria naquela
alma se ajuntára.
Em José Falcão a inteligência era robusta, a sciência enorme, mas a
grandeza moral incomparável e soberana. Dizia o que pensava, fazia o que
sentia. Um justo. Portanto, um solitário. Querendo viver puro, viveu em
si mesmo. Isolou-se. Nem ambicioso, nem vaidoso. Nos altos píncaros, de
gêlo e de luz, não há micróbios.
Egoista intelectual? Nunca. Ânimo generoso, os problemas sociais
cativaram-no. A sociedade evitou-a. Livros e família: cérebro pensando,
coração amando.
Mas o sentimento da pátria com tal furor e febre lhe girava no sangue,
tão inato e profundo lhe ardia lá dentro, que aquele homem de ideias
instantaneamente se volveu, como por milagre, em homem de acção. O ruído
molestava-o; procurou o ruído. A turba incomodava-o; procurou a turba.
Agitou-se três anos em movimento frenético. Pátria! Pátria! a visão
constante, o sonho de toda a hora! Fogo sagrado, fogo devorador.
Queimou-se, abrasou-se nele. Auto-de-fé dum corpo nas lavaredas duma
crença.
O patriotismo tornára-se em José Falcão um misticismo. Compreende-se
bem. Ideia tão inflamável, em tão candente natureza moral sublima-se,
ilumina-se, perde-se no êxtase, no enlêvo, no transcendentalismo
religioso. Aquele homem exalava de si o quer que fôsse de sobrenatural e
de divino. Sentia-se que no grande momento arriscaria tudo: família e
vida, fortuna e lar. Através do crente apercebia-se o herói. Por isso
arrastava. A eloqùência vinha-lhe espontânea, dominadora, magnética. Não
a eloqùência literária dos artistas. Eloqùência de alma, verbo interior,
luz de uma chama.
Depois naquele homem tudo era português, sóbrio, simples, varonil,
vernáculo: figura, gesto, palavra, intonação, modo de vestir, maneira de
andar. Tudo beirão, tudo nosso. Nem um galicismo. Austero e risonho,
violento e meigo,--a singeleza na grandeza. Lembrava ainda o
Condestável. Como êle, espírito heróico, braço de ferro para o comando,
bôca de santo para a piedade.
Extenuado e letárgico, pressentindo a morte, nunca desanimou. Pois a
doença da pátria não era ainda bem mais grave? Por ela sim, desejaria
viver, desejaria morrer. A fôrça física abandonava-o, só a vontade
sôbre-humana o tinha de pé. Era já uma existência feita de
ressurreições, um ideal galvanizando um cadáver.
Dizia-nos êle, quási no fim: Não duro muito; aproveitem-me.
Morria daí a meses.
Não há uma íntima e dolorosa afinidade entre a alma quebrantada dum
povo, baldadamente, durante séculos, evocando um Messias, e a breve
aparição dum redentor, miragem súbita, que mal se desenha se desfaz?
Tal a árvore-espectro, frutos de aurora sonhando, caveiras torvas
produzindo, que um dia gerou, milagre de amor! o pomo de oiro
deslumbrante, e o viu desprender, esbroando em cinza, do galho nú, do
ramo estéril de esqueleto...
Árvore nocturna, a morte gira-te nas veias, e os frutos de Ideal que tu
concebes já trazem no âmago, quando nascem, as larvas deletérias do
sepulcro...
Desiludido, assim o creio por vezes. Depois a um golpe de sol, o
Quichote revive, exalto-me de novo, de novo espero... Florinha azul,
beijo de Deus,--divina Esperança...
* * * * *
Escrevi há ano e meio as páginas que aí ficam. Tencionava completá-las,
documentando-as. Inútil. O inquérito definitivo à montureira circundante
é a ferro e fogo, não a pena e a tinta, que deve executar-se.
Ampliarei ainda estas anotações com o protesto que foi dado a lume,
quando o govêrno tolheu a homenagem a Guilherme Braga. É um rápido exame
dos planos últimos da monarquia. Por isso o transcrevo. Ei-lo:
O govêrno proìbiu a manifestação anti-jesuítica, que hoje deveria
realizar-se no cemitério de Agramonte em volta da campa do grande poeta
Guilherme Braga.
Os jesuítas são o auxiliar da monarquia. Atacando-os, atacamos o Rei. O
ministério não o permite. Não há que estranhar. É lógico.
Desde a crise do _ultimatum_ inglês, que tanto podia significar uma onda
de vida nova como o estertor dum moribundo, resvala a nação, dia a dia,
ao letargo estúpido da indiferença. Estará morta? Estará cataléptica? O
futuro, breve talvez, o vai dizer.